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{"id":2550,"date":"2021-12-29T20:45:57","date_gmt":"2021-12-29T23:45:57","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2550"},"modified":"2022-01-27T17:43:44","modified_gmt":"2022-01-27T20:43:44","slug":"heresias-no-periodo-pre-niceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2550","title":{"rendered":"Heresias no per\u00edodo pr\u00e9-niceno"},"content":{"rendered":"<h5><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Caminhos irreconcili\u00e1veis<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 N\u00f3s, os nossos e eles, os hereges<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Desnudar e demonstrar a heresia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Heresia como quest\u00e3o de Estado<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Heresia deriva de <em>hairesis <\/em>[\u03b1\u1f35\u03c1\u03b5\u03c3\u03b9\u03c2], voc\u00e1bulo grego procedente do verbo <em>hair\u00e9o<\/em> [\u03b1\u1f31\u03c1\u03ad\u03c9], que tem tr\u00eas principais classes de significado: a primeira indica a a\u00e7\u00e3o de tomar, agarrar, segurar; a segunda, de vencer e ganhar; e a terceira, de condenar e receber uma condena\u00e7\u00e3o. <em>Hairesis <\/em>[\u03b1\u1f35\u03c1\u03b5\u03c3\u03b9\u03c2] entrou para o l\u00e9xico latino, como <em>haeresis<\/em> e, tal como no grego, emprega-se para nomear a opera\u00e7\u00e3o de \u201cselecionar\u201d e \u201cescolher\u201d alguma coisa, sobretudo no \u00e2mbito do conhecimento, e para designar os princ\u00edpios ou pressupostos te\u00f3ricos e morais de uma dada <em>escola<\/em> de pensamento, <em>seita <\/em>ou <em>partido<\/em> religioso. Nas <em>Antiguidades Judaicas<\/em>, de Fl\u00e1vio Josefo (s\u00e9c. I), podemos ler:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os judeus contavam desde a mais remota antiguidade com tr\u00eas <em>haireseis<\/em> [partido, escola ou seita]: a dos ess\u00eanios, a dos saduceus e, em terceiro lugar, a dos chamados fariseus. [&#8230;] os fariseus levam uma vida frugal, sem a menor concess\u00e3o \u00e0 delicadeza, e seguem fielmente aqueles princ\u00edpios que a raz\u00e3o lhes sugere e determina como bons, posto que consideram que a observ\u00e2ncia dos princ\u00edpios que a raz\u00e3o lhes quer exibir \u00e9 algo pelo qual vale a pena lutar. (a tradu\u00e7\u00e3o de Vara, em JOSEFO, 1997, p. 1080, foi cotejada e adaptada a partir da tradu\u00e7\u00e3o de Whiston, em JOSEPHUS, 1865, p. 58)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo seguinte, Sexto Emp\u00edrico, nas <em>Hipotiposes Pirr\u00f4nicas,<\/em> vai na mesma dire\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois se entendemos que pertencer a uma escola [<em>hairesis<\/em>] significa aderir a um conjunto de dogmas que dependem uns dos outros bem como do que aparece, e se dizemos que \u201cdogma\u201d \u00e9 assentimento a algo n\u00e3o evidente, ent\u00e3o, consideramos que o c\u00e9tico n\u00e3o pertence a nenhuma escola. Mas, se entendemos por \u201cescola\u201d um procedimento que, de acordo com o que aparece, segue uma certa linha argumentativa mostrando como \u00e9 poss\u00edvel viver corretamente [&#8230;], neste caso dizemos que o c\u00e9tico pertence a uma escola, uma vez que seguimos de modo coerente, de acordo com o que aparece, uma linha de racioc\u00ednio que nos indica uma forma de vida em conformidade com as leis e os costumes tradicionais e com nossos pr\u00f3prios sentimentos. (EMP\u00cdRICO, 1997, p. 118)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja nas <em>Antiguidades<\/em> ou nas <em>Hipotiposes<\/em>, seita, partido ou escola apresentam-se como modos de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, estilo de vida, conjunto doutrin\u00e1rio, m\u00e9todos de racioc\u00ednio e pressupostos compartilhados por adeptos e\/ou disc\u00edpulos e, dessa forma, nada t\u00eam de negativo ou de pejorativo. Todavia, essa compreens\u00e3o come\u00e7aria a mudar quando os primeiros crist\u00e3os, desafiados a superar todo tipo de diferen\u00e7a social e a construir comunidades mission\u00e1rias igualit\u00e1rias, colocaram sob suspeita qualquer atitude ou racioc\u00ednio que pudesse gerar diverg\u00eancia ou particularismo, o que foi decisivo para que a heresia assumisse aspectos muito negativos e, como tal, fosse encarada com temor e precau\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um primeiro passo nessa dire\u00e7\u00e3o encontra-se em 1Cor 11,17-19:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 que estou dando recomenda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o vos posso louvar; pois vos reunis n\u00e3o para o melhor, mas para o pior. Primeiro, ou\u00e7o dizer que, quando vos reunis como igreja, t\u00eam surgido dissens\u00f5es (\u03c3\u03c7\u1f77\u03c3\u03bc\u03b1\u03c4\u03b1\/<em>scismata<\/em>) entre v\u00f3s. E, em parte, acredito. \u00c9 necess\u00e1rio que haja at\u00e9 divis\u00f5es (\u03b1\u1f31\u03c1\u1f73\u03c3\u03b5\u03b9\u03c2\/<em> haireseis<\/em>) entre v\u00f3s, para que se tornem conhecidos os que, dentre v\u00f3s, s\u00e3o comprovados!<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tantas outras igrejas daquela \u00e9poca, a assembleia de Corinto congregava ricos e pobres, escravos e livres, homens e mulheres, uma atitude que chamava muito a aten\u00e7\u00e3o dos observadores pag\u00e3os e, por certo, trazia desafios adicionais para a conviv\u00eancia comunit\u00e1ria, como o trecho citado denuncia. As congrega\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, de fato, procuravam relativizar as diferen\u00e7as sociais e econ\u00f4micas em vista da conc\u00f3rdia e da fraternidade espiritual, oriunda do batismo, o que n\u00e3o significa que fossem sempre bem-sucedidas. Sem negar que os ricos crist\u00e3os pudessem continuar a viver como ricos, Paulo, por outro lado, n\u00e3o admitia que eles aproveitassem a celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica para \u201cmenosprezar a igreja, envergonhando os pobres\u201d (1Cor 11,22). Uma coisa era a distin\u00e7\u00e3o social, tolerada dentro de certos limites, bem outra era a dissens\u00e3o que a primeira podia causar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse sentido que o ap\u00f3stolo concebe a dif\u00edcil conviv\u00eancia entre ricos e pobres como uma boa oportunidade para a comunidade testar a qualidade de sua congrega\u00e7\u00e3o: os que soubessem renunciar aos sinais exteriores de superioridade social, em prol de uma assembleia coesa e inclusiva, estes tais seriam considerados comprovados; os que n\u00e3o conseguissem agir assim, reprovados. Apesar dessa concess\u00e3o, as divis\u00f5es eclesiais (<em>haireseis<\/em>), que criavam o contexto para as dissens\u00f5es e dissid\u00eancias, estavam longe de serem vistas com aquela naturalidade com que Fl\u00e1vio Josefo falava dos partidos dentro do juda\u00edsmo. A unidade seguia como um valor inegoci\u00e1vel, express\u00e3o concreta da comunh\u00e3o realizada na \u201cceia do Senhor\u201d, que celebrava o memorial da entrega de Cristo por todas as pessoas, indistintamente. Portanto, se Paulo parece condescender com a divis\u00e3o, \u00e9 em vista de uma maior unidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, a unidade tinha um custo. Se as divis\u00f5es e dissens\u00f5es eram um teste de qualidade, o que aconteceria com aqueles que viessem a reprovar? Sob a forma do an\u00e1tema, a comunidade passou a usar o recurso \u00e0 exclus\u00e3o como um dispositivo regulador da pr\u00f3pria identidade de grupo, transformando a heresia num veredito condenat\u00f3rio pronunciado por aqueles que se sentiam comprovados e aut\u00eanticos contra aqueles que eram vistos como falsos irm\u00e3os. Mais uma vez, isso era o oposto do que ocorria no juda\u00edsmo ou mesmo nas escolas filos\u00f3ficas hel\u00eanicas, em que a delimita\u00e7\u00e3o dos conjuntos doutrin\u00e1rios era feita livremente pelos pr\u00f3prios partidos ou escolas, e era, a partir disso, que os partid\u00e1rios estabeleciam <em>objetivamente<\/em> as caracter\u00edsticas de sua agremia\u00e7\u00e3o. Dentro do movimento crist\u00e3o, a acep\u00e7\u00e3o de heresia como escola \u00e9 muito rara e, quando aparece, os autores que a utilizam insistem em n\u00e3o reconhecer a legitimidade de quem pensava diferente; disso resulta que a heresia, entre os crist\u00e3os, \u00e9 definida por aqueles que a condenam, n\u00e3o por seus adeptos. Estes, quando indagados, respondem que hereges s\u00e3o os que lhes acusam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos alguns exemplos. O autor da <em>Segunda Carta de Pedro<\/em> desabona e avilta aqueles crist\u00e3os a quem chama de \u201cfalsos mestres\u201d, uma prov\u00e1vel refer\u00eancia aos pregadores gn\u00f3sticos, \u201cos quais introduzem sorrateiramente heresias perniciosas, chegando at\u00e9 a renegar o Soberano que os resgatou\u201d (2Pd 2,1); j\u00e1 o autor do <em>Apocalipse de Pedro<\/em>, da biblioteca gn\u00f3stica de Nag Hammadi, defende-se das acusa\u00e7\u00f5es daqueles \u201cque se intitulam bispos e tamb\u00e9m di\u00e1conos\u201d (ROBINSON, 1990, p. 372), isto \u00e9, os ministros cat\u00f3licos, afirmando que estes \u00e9 que estavam \u201ccontaminados\u201d e, por isso, \u201ccair\u00e3o num nome de erro, passando para a m\u00e3o de um homem mau e astuto, de dogma multiforme, e ser\u00e3o governados hereticamente\u201d (ROBINSON, 1990, p. 375). E os gn\u00f3sticos tamb\u00e9m se acusavam mutuamente: no tratado <em>O Testemunho da Verdade<\/em>, tamb\u00e9m da biblioteca de Nag Hammadi, o autor, que \u00e9 declaradamente gn\u00f3stico, chama de <em>hereges<\/em> a outros gn\u00f3sticos, que n\u00e3o pensavam como ele, por exemplo, Bas\u00edlides, Valentim e Isidoro, citados nominalmente como grandes embusteiros (ROBINSON, 1990, p. 456).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando \u201chereges\u201d acusam outros \u201chereges\u201d de heresia, pode-se constatar que os diferentes int\u00e9rpretes do legado de Jesus de Nazar\u00e9 n\u00e3o admitiam a possibilidade de que pudesse haver mais do que uma intepreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica para esse legado e que, paradoxalmente, aquilo que eles chamavam de cristianismo \u2013 t\u00edtulo que cada grupo reservava apenas para si \u2013 era, na verdade, um caleidosc\u00f3pio de movimentos e de partidos, cada qual defendendo a legitimidade de sua pr\u00f3pria teologia e a autoridade exclusiva de sua doutrina. Desse ponto de vista, parece pouco producente definir heresia como a nega\u00e7\u00e3o da ortodoxia, pois, em termos hist\u00f3ricos, a ortodoxia resultou justamente dessa longa querela entre partidos (<em>haireseis<\/em>) crist\u00e3os, que j\u00e1 estava presente desde o debate entre Paulo e os crist\u00e3os judaizantes de Jerusal\u00e9m (Gl 2; At 15), atravessou todo o s\u00e9culo II, opondo cat\u00f3licos e gn\u00f3sticos, e chegou ao Conc\u00edlio de Niceia (325), o qual, longe de p\u00f4r termo \u00e0 disputa, a elevou a um patamar sem precedentes.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Caminhos irreconcili\u00e1veis<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda metade do s\u00e9culo II, Celso, um escritor grego, escreveu uma obra pol\u00eamica contra os crist\u00e3os, a que deu o nome de <em>O discurso verdadeiro<\/em>; esse texto n\u00e3o sobreviveu integralmente, e o pouco que dele podemos ler s\u00e3o os excertos que Or\u00edgenes (m. 254) copiou e comentou, setenta anos depois, na sua r\u00e9plica intitulada <em>Contra Celso<\/em>. Pelas anota\u00e7\u00f5es de Or\u00edgenes, \u00e9 poss\u00edvel perceber que Celso possu\u00eda um bom conhecimento da diversidade do cristianismo e das intricadas disputas teol\u00f3gicas que dividiam os crist\u00e3os em grupos rivais. Eis como ele descreve a situa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal se propagam em grande n\u00famero, [os crist\u00e3os] se dividem e se separam, e cada qual quer ter sua pr\u00f3pria fac\u00e7\u00e3o. Separados novamente por causa de seu grande n\u00famero, eles se anatematizam uns aos outros; nada mais t\u00eam em comum, por assim dizer, a n\u00e3o ser o nome [de crist\u00e3os], se \u00e9 que ainda o t\u00eam! Pelo menos \u00e9 a \u00fanica coisa que tiveram a vergonha de abandonar; de resto, cada qual abra\u00e7ou uma seita diferente. (OR\u00cdGENES, 2004, p. 213)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o para por a\u00ed: \u201c[&#8230;] estas pessoas descarregam umas nas outras todos os horrores poss\u00edveis, rebeldes \u00e0 menor concess\u00e3o \u00e0 conc\u00f3rdia e animadas de \u00f3dios implac\u00e1veis\u201d (OR\u00cdGENES, 2004, p. 446). Celso, de fato, detestava o cristianismo e o considerava uma amea\u00e7a \u00e0 ordem civil, por\u00e9m, ele n\u00e3o mentia ao destacar o faccionalismo crist\u00e3o e as m\u00fatuas acusa\u00e7\u00f5es da\u00ed resultantes. Justino de Roma (<em>I Apologia<\/em>), Ireneu de Lyon (<em>Contra as Heresias<\/em>), Tertuliano de Cartago (<em>Prescri\u00e7\u00e3o contra as Heresias<\/em>) e Hip\u00f3lito de Roma (<em>Refuta\u00e7\u00e3o de todas as Heresias<\/em>) tamb\u00e9m evidenciaram esse antagonismo: Hip\u00f3lito, por exemplo, chegou a listar 33 sistemas crist\u00e3os diferentes, tomando-os todos como deturpa\u00e7\u00f5es da reta f\u00e9 (ALTANER; STUIBER, 2004, p. 173).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que procurasse refutar as cr\u00edticas de Celso, Or\u00edgenes n\u00e3o tinha como negar que o gentio tinha raz\u00e3o, pelo menos quando observava que o movimento crist\u00e3o era bastante agitado. Da\u00ed que Or\u00edgenes, ao inv\u00e9s de negar que houvesse divis\u00f5es doutrinais, preferiu recuperar o sentido antigo de heresia como escola filos\u00f3fica: cada fac\u00e7\u00e3o apontada por Celso representaria, na verdade, uma escola crist\u00e3 diferente. Desse modo, se o pag\u00e3o desejava criticar o cristianismo por se dividir em tantas escolas, que criticasse tamb\u00e9m os antigos fil\u00f3sofos. Or\u00edgenes n\u00e3o via nada de mal nisso. At\u00e9 porque, como ele afirma, as \u201cdiferentes escolas\/seitas\u201d [<em>haireseis diaforoi<\/em>\/\u03b1\u03af\u03c1\u03ad\u03c3\u03b5\u03b9\u03c2 \u03b4\u03b9\u03ac\u03c6\u03bf\u03c1\u03bf\u03b9] dos crist\u00e3os jamais decorriam \u201cde rivalidades e de esp\u00edrito de disputa\u201d, mas do fato de que a Igreja acolhia, em suas comunidades, muitos s\u00e1bios gregos, que trouxeram para dentro delas as suas pr\u00f3prias demandas filos\u00f3ficas (OR\u00cdGENES, 2004, p. 214).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que o cristianismo tenha atra\u00eddo pessoas interessadas em filosofia, at\u00e9 mesmo fil\u00f3sofos profissionais, fica evidente, por exemplo, no c\u00e9lebre caso da convers\u00e3o do fil\u00f3sofo Justino (m. 165); em seu <em>Di\u00e1logo com Trif\u00e3o, <\/em>Justino confessa ter procurado a verdade em v\u00e1rios sistemas filos\u00f3ficos diferentes at\u00e9 que descobriu o cristianismo e o abra\u00e7ou como verdadeira filosofia. Na <em>Prescri\u00e7\u00e3o contra as Heresias<\/em>, escrita entre 197-200, Tertuliano de Cartago confirma que diversos crist\u00e3os eruditos procuravam conciliar os conte\u00fados da f\u00e9 revelada com os m\u00e9todos e pressupostos da filosofia hel\u00eanica, mas para ele isso era um completo contrassenso. Vejamos a sua descri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pr\u00f3prias heresias, em suma, s\u00e3o equipadas pela filosofia. Dali \u00e9 que Valentim retirou os \u00e9ons e n\u00e3o sei quais infinitas formas e a tr\u00edade do homem: ele era plat\u00f4nico. Dali \u00e9 que saiu o deus melhor de Marci\u00e3o, que repousa em tanta tranquilidade: Marci\u00e3o era estoico. E quando se afirma que a alma \u00e9 perec\u00edvel, \u00e9 de Epicuro que se fala. Para negar a ressurrei\u00e7\u00e3o da carne, pode-se tomar li\u00e7\u00f5es de todas as escolas dos fil\u00f3sofos. L\u00e1 onde a mat\u00e9ria \u00e9 igualada a Deus, est\u00e1 a doutrina de Zen\u00e3o. Onde se ensina que Deus \u00e9 fogo, \u00e9 Her\u00e1clito que se evoca. Hereges e fil\u00f3sofos lidam com a mesma mat\u00e9ria e se envolvem com os mesmos assuntos. (TERTULLIEN, 1957, p. 96-97).<span style=\"text-indent: 36px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente Tertuliano n\u00e3o pensava em Justino quando afirmou que Jerusal\u00e9m n\u00e3o tinha nada a ver com Atenas, nem a Academia com a Igreja (TERTULLIEN, 1957, p. 98), pois Justino, que sustentava que a filosofia era um caminho para Cristo, foi igualmente um opositor dos sistemas her\u00e9ticos, aos quais tamb\u00e9m concede o nome de escolas, como a \u201cescola de Menandro, em Antioquia\u201d (JUSTINO DE ROMA, 1995, p. 42). Portanto, Or\u00edgenes tinha respaldo hist\u00f3rico para comparar as heresias crist\u00e3s \u00e0s escolas de filosofia hel\u00eanicas, mas dissimulava ao negar que houvesse \u201cesp\u00edrito de disputa\u201d entre as v\u00e1rias tend\u00eancias. Por exemplo, Justino, em sua <em>I Apologia<\/em> (c. 140), n\u00e3o tem pudor de dizer que Sim\u00e3o Samaritano (cf. At 8, 9-24) e todos os membros de sua escola estavam possu\u00eddos pelo dem\u00f4nio, assim como Marci\u00e3o (JUSTINO DE ROMA, 1995, p. 42). E Ireneu de Lyon n\u00e3o parece mais gentil quando compara os barbelonitas a uma infesta\u00e7\u00e3o de fungos brotando da terra (IRENEU DE LYON, 1995, p. 112).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, se era poss\u00edvel tratar as fac\u00e7\u00f5es crist\u00e3s como escolas doutrin\u00e1rias, por que Celso evitou essa aproxima\u00e7\u00e3o quando criticou as divis\u00f5es no interior do cristianismo? Parte da resposta decorre da pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de escola filos\u00f3fica, como vimos com Sexto Emp\u00edrico: os fil\u00f3sofos se agrupavam em escolas para obter que mestres e disc\u00edpulos tivessem maiores condi\u00e7\u00f5es de praticar a reflex\u00e3o de acordo com seus pr\u00f3prios m\u00e9todos e formas de vida (HADOT, 2004, p. 150). Os participantes de uma escola at\u00e9 podiam eventualmente censurar o modo de vida de outras escolas, mas eles sabiam que o seu jeito de praticar a filosofia n\u00e3o era o \u00fanico poss\u00edvel. J\u00e1 os crist\u00e3os pensavam justamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bispo Ireneu de Lyon, que escreveu o <em>Contra as Heresias<\/em> na mesma \u00e9poca em que Celso publicou seu <em>Discurso<\/em>, op\u00f5e a doutrina apost\u00f3lica, por ele professada, ao que ele chama de <em>falsa gnose<\/em>, isto \u00e9, as doutrinas de Sim\u00e3o, Menandro, Saturnino, Bas\u00edlides, Marci\u00e3o, Valentim, Carp\u00f3crates, Cerinto, e tantos outros: a f\u00e9 ortodoxa, calcada no ensinamento dos ap\u00f3stolos, transmitida pela sucess\u00e3o episcopal e condensada na chamada Regra da F\u00e9, constituiria a <em>verdadeira gnose<\/em>; qualquer outro ensinamento crist\u00e3o que se desviasse desse padr\u00e3o n\u00e3o passaria de mentira. Justino teria acrescentado mentira \u201cdiab\u00f3lica\u201d, pois, para ele, os ensinamentos her\u00e9ticos vieram para \u2018dividir\u2019 (<em>diabolus<\/em> como aquilo que divide) os que invocam Cristo como salvador. Tertuliano vai na mesma dire\u00e7\u00e3o: as heresias, como vias paralelas, desviam o fiel da f\u00e9 simples do Evangelho:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">em que lugar termina a busca? Onde fica a morada do crer? Onde cessam as descobertas? Junto de Marci\u00e3o? Mas, tamb\u00e9m Valentim me fala: <em>buscai e achareis<\/em>. Ent\u00e3o, junto de Valentim? Agora Apeles \u00e9 quem bate \u00e0 minha porta. Ebion, Sim\u00e3o e todos os demais, um atr\u00e1s do outro, usam o mesmo artif\u00edcio para se insinuarem a mim e atrair-me para eles. Enquanto eu ouvir por todos os lados <em>buscai e achareis<\/em>, nunca chegarei ao fim; at\u00e9 parece que nunca aprendi o que Cristo ensinou, o que conv\u00e9m procurar, o que \u00e9 necess\u00e1rio crer. (TERTULLIEN, 1957, p. 103-104)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A relut\u00e2ncia de Justino, Ireneu e Tertuliano em admitir que Marci\u00e3o, Valentim ou qualquer outro pudessem estar certos em rela\u00e7\u00e3o ao legado de Jesus decorre exatamente da desconfian\u00e7a que eles alimentavam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas filos\u00f3ficas: se cada uma concebe a verdade de um jeito, como encontrar a Verdade? \u00a0Os Padres da Igreja defendiam que Jesus de Nazar\u00e9, atrav\u00e9s de sua vida e evangelho, havia revelado um conhecimento p\u00fablico (<em>exot\u00e9rico<\/em>), dirigido a todos os homens e mulheres, independentemente de serem letrados ou iletrados; e diziam que todas as pessoas, atrav\u00e9s da simplicidade da f\u00e9, podiam atingir o conhecimento perfeito do messias. Os mestres gn\u00f3sticos, por sua vez, sustentavam uma premissa oposta; para eles, era preciso distinguir o conte\u00fado exot\u00e9rico do ensinamento de Jesus do seu conte\u00fado <em>esot\u00e9rico<\/em>, isto \u00e9, reservado e transmitido apenas dentro de uma casta especial de disc\u00edpulos (os gn\u00f3sticos), que eram pessoas letradas e dotadas de uma ci\u00eancia superior e, por isso mesmo, se sentiam os \u00fanicos capazes de obter o conhecimento perfeito (PI\u00d1ERO, 2010, p. 197-198).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente a esse contraste, parece que Celso tinha mais raz\u00e3o do que Or\u00edgenes: os crist\u00e3os n\u00e3o formavam escolas, tais como os fil\u00f3sofos, e, de fato, estavam divididos em fac\u00e7\u00f5es irreconcili\u00e1veis. Os Padres at\u00e9 podiam alegar que eram os gn\u00f3sticos que se separavam da Igreja una, mas tanto uns quanto outros lutavam pelo mesmo trof\u00e9u. Os ebionitas (judeu-crist\u00e3os) consideravam que o ap\u00f3stolo Paulo era um \u201cap\u00f3stata da lei\u201d (IRENEU DE LYON, 1995, p. 108), e o autor do <em>Apocalipse de Pedro<\/em> estava convencido de que os cat\u00f3licos abandonaram o reto seguimento de Jesus e de Pedro, e se tornaram \u201cpropagadores da falsidade\u201d (ROBINSON, 1990, p. 474). Celso, que via tudo de fora, parece ter captado o cerne da quest\u00e3o, apesar de seu desd\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As igrejas que se filiam \u00e0 grande tradi\u00e7\u00e3o dos conc\u00edlios ecum\u00eanicos encaram a heresia como nega\u00e7\u00e3o das verdades da f\u00e9 e, comprando o argumento de Tertuliano, afirmam que a ortodoxia \u00e9 a primeira, enquanto a heresia \u00e9 a segunda (DUBOIS, 2009, p. 47). No debate teol\u00f3gico e na viv\u00eancia eclesial dos primeiros dois s\u00e9culos, essa n\u00e3o era uma evid\u00eancia segura, pelo menos n\u00e3o para os grupos que ent\u00e3o participavam do movimento crist\u00e3o (CHADWICK, 2001, p. 100).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 N\u00f3s, os nossos e eles, os hereges<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte das desaven\u00e7as entre os Padres e os mestres gn\u00f3sticos se deve ao fato de que estes \u00faltimos, mesmo afirmando que s\u00f3 eles detinham o perfeito conhecimento do Cristo, permaneciam dentro das comunidades cat\u00f3licas, misturados aos crist\u00e3os comuns. Ali, eles se viam como uma elite espiritual, um grupo seleto que se distinguia dos demais crist\u00e3os, inclusive dos cl\u00e9rigos, porque ostentava uma refinada instru\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e porque praticava o celibato \u2013 os mestres gn\u00f3sticos abstinham-se do casamento porque viam-no como uma concess\u00e3o feita \u00e0 carnalidade, vetada aos perfeitos. Ireneu de Lyon os chama de encratitas, e atribu\u00eda a condena\u00e7\u00e3o do matrim\u00f4nio a um certo Taciano, ex-aluno de Justino, em Roma (IRENEU DE LYON, 1995, p. 111). Ser\u00e1 que os Padres teriam se agastado menos com os gn\u00f3sticos, caso eles tivessem deixado as igrejas e fundado suas pr\u00f3prias comunidades? \u00c9 uma quest\u00e3o para a qual n\u00e3o h\u00e1 resposta segura, mas que parece leg\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, os mestres nem sempre estavam em desacordo com seus bispos; Tertuliano, por exemplo, ressalta que Valentim e Marci\u00e3o \u201cprofessavam a doutrina cat\u00f3lica dentro da igreja dos romanos, sob o episcopado de Eleut\u00e9rio [174-189]\u201d, e que trabalhavam como professores eclesi\u00e1sticos; Valentim, que ostentava impressionantes dotes intelectuais e orat\u00f3rios, quase chegou a ser bispo (TERTULLIEN, 1957, p. 126). Na pr\u00e1tica, os mestres gn\u00f3sticos procediam como o cat\u00f3lico Justino: instru\u00edam os fi\u00e9is que buscavam um conhecimento filosoficamente mais aprofundado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eus\u00e9bio de Cesareia (m. 339), na <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em>, nos oferece um bom exemplo de que como esses grupos funcionavam no interior de uma igreja urbana. Em Roma, um punhado de homens interessados em estudar as Escrituras de modo mais intenso congregou-se ao redor de um curtidor chamado Te\u00f3doto, durante o pontificado de V\u00edtor (189-199). Ademais de estudarem os textos b\u00edblicos, e eventualmente corrigi-los, o grupo redigia seus pr\u00f3prios coment\u00e1rios e se encarregava de fazer muitas c\u00f3pias para a distribui\u00e7\u00e3o entre os fi\u00e9is. Em nenhum momento Eus\u00e9bio se mostra incomodado com a exist\u00eancia desse tipo de iniciativa. O problema reside, para ele e para os demais Padres, no conte\u00fado desses escritos e nos m\u00e9todos desses estudos. Por ora, destacamos a dedica\u00e7\u00e3o desses homens que n\u00e3o viviam da igreja, embora buscassem viver para a igreja, ainda que ao modo deles. Um dos membros do grupo era um banqueiro, que custeava as despesas do processo editorial e log\u00edstico, que dava emprego a muitos copistas e colaboradores (EUS\u00c9BIO DE CESAREIA, 2000, p. 274-278).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os companheiros de Te\u00f3doto, Eus\u00e9bio acrescenta ainda outros escritores, como Asclep\u00edades, Herm\u00f3filo e Apolon\u00edado, aos quais atribui tamb\u00e9m a autoria de livros sobre exegese b\u00edblica e teologia; por \u00f3bvio, n\u00e3o eram crist\u00e3os convencionais. Eram letrados, habilidosos na escrita e conhecedores dos textos crist\u00e3os e daqueles da B\u00edblia hebraica. Um bispo teria motivos de alegria por dispor de pessoas como essas em sua igreja, porque toda comunidade eclesial \u00e9 uma comunidade leitora e consumidora de livros. Estes faziam parte do cotidiano eclesial, e estavam por todos os lados, seja na liturgia, na catequese ou nas comunica\u00e7\u00f5es intereclesiais. O fato de haver iletrados entre os fi\u00e9is n\u00e3o impedia o alcance dos livros, pois as comunidades, al\u00e9m do bispo, dos presb\u00edteros e di\u00e1conos, contavam com o minist\u00e9rio dos leitores, que n\u00e3o faltavam em nenhum ato lit\u00fargico. Os livros eram t\u00e3o constitutivos da identidade crist\u00e3, que os governadores imperiais, durante o s\u00e9culo III, ordenaram a destrui\u00e7\u00e3o dos livros eclesi\u00e1sticos, pois sabiam que as assembleias lit\u00fargicas deles dependiam. Acabar com o livro seria acelerar o fim da pr\u00f3pria igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, desde a gera\u00e7\u00e3o de In\u00e1cio de Antioquia (m. 107), os bispos entendiam-se como \u201csentinelas\u201d do rebanho e como \u201cfiscais\u201d da qualidade doutrinal e moral de sua comunidade; era o que o termo <em>ep\u00edscopo<\/em> significava, aquele que observa a comunidade, que a vigia em vista de seu controle. As lutas doutrinais oriundas do s\u00e9culo I j\u00e1 haviam ensinado aos primeiros bispos que n\u00e3o se podia cochilar. O erro her\u00e9tico entra sorrateiramente. E desde Paulo de Tarso, heresia \u00e9 o ensinamento que diverge da opini\u00e3o do presidente de uma comunidade. Ireneu, por exemplo, considerava hereges aqueles \u201cque falam como n\u00f3s [os bispos], mas pensam diferentemente de n\u00f3s\u201d e \u201censinam de maneira diferente da nossa\u201d (IRENEU DE LYON, 1995, p. 30); Tertuliano, d\u00e9cadas depois, lembrava que os ap\u00f3stolos, em suas ep\u00edstolas, haviam insistido para \u201cque todos falassem a mesma coisa e de modo id\u00eantico, e que n\u00e3o houvesse, na igreja, cismas e dissens\u00f5es, pois seja Paulo, sejam os demais ap\u00f3stolos, todos pregaram do mesmo modo\u201d (TERTULLIEN, 1957, p. 123). A unanimidade no ensino e na doutrina constitu\u00eda um dos pilares da ortodoxia: n\u00e3o deixa de ser um par\u00e2metro que procura assegurar a qualidade da mensagem, mas que implica igualmente uma profunda desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao pluralismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse foi o problema do grupo de Te\u00f3doto em Roma; produziam muitos livros, por\u00e9m, cada qual continha uma teologia diferente. Eus\u00e9bio reporta que, se algu\u00e9m comparasse os exemplares de Asclep\u00edades com os de Te\u00f3doto n\u00e3o acharia nada em comum entre eles, o que tamb\u00e9m valia para Herm\u00f3filo e Apolon\u00edado. Percebe-se que o crit\u00e9rio da catolicidade estava bastante ativo, aqui como antes, em Ireneu: se n\u00e3o h\u00e1 unanimidade no ensino, j\u00e1 se est\u00e1 a um passo da heresia. Ademais, esses autores gostavam de interpretar os dados da revela\u00e7\u00e3o apoiados no suporte da filosofia e ci\u00eancia hel\u00eanicas, especialmente Arist\u00f3teles, Euclides, Teofrasto e at\u00e9 Galeno, \u201cque \u00e9 quase adorado por alguns deles\u201d (EUS\u00c9BIO DE CESAREIA, 2000, p. 277).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desconfian\u00e7a crist\u00e3 pela filosofia era t\u00e3o antiga como a <em>Carta aos Colossenses<\/em> (2,8), e mesmo quando homens como Justino abra\u00e7aram a f\u00e9 procuraram ser prudentes: a salva\u00e7\u00e3o ocorre pelo ato redentor do messias, n\u00e3o por um ato de raz\u00e3o em busca da verdade. Essa desconfian\u00e7a tornar-se-ia menor e at\u00e9 se apagaria, de momento, durante o s\u00e9culo III, na gera\u00e7\u00e3o de Clemente de Alexandria e Or\u00edgenes. Mas, no s\u00e9culo II, a filosofia ainda incomodava, em primeiro lugar, porque os pr\u00f3prios contempor\u00e2neos pag\u00e3os facilmente tomavam o cristianismo por uma filosofia, e os pastores queriam evitar a confus\u00e3o. Em segundo lugar porque a filosofia, conforme praticada naquele momento, supunha comunidades de letrados (as escolas), que representavam uma pequena minoria elitizada, e as igrejas queriam estar abertas a todos, letrados e iletrados. O an\u00f4nimo heresi\u00f3logo a quem Eus\u00e9bio cita para tratar de Te\u00f3doto insiste em dizer que aqueles homens preferiam os fil\u00f3sofos \u00e0 palavra de Deus, isto \u00e9, que entre o dado da raz\u00e3o e o da revela\u00e7\u00e3o, era sempre a raz\u00e3o que predominava. As comunidades eclesiais se negavam a ser escolas filos\u00f3ficas: a f\u00e9 que salva \u00e9 simples, destitu\u00edda de racioc\u00ednios silog\u00edsticos, abstra\u00e7\u00f5es conceituais e c\u00e1lculos l\u00f3gicos. Tertuliano pode ter sido o mais ardoroso oponente dos fil\u00f3sofos, mas, quanto \u00e0 simplicidade da f\u00e9, n\u00e3o estava sozinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas at\u00e9 a\u00ed, os mestres gn\u00f3sticos ainda viviam entre os crist\u00e3os comuns. O problema ficou insustent\u00e1vel quando Te\u00f3doto, seguindo o pensamento de um certo Artem\u00e3o, negou a divindade de Cristo e o apresentou como simples homem. Acrescentava ainda que a cren\u00e7a na divindade de Jesus era, na verdade, uma inven\u00e7\u00e3o recente, fruto de uma adultera\u00e7\u00e3o da f\u00e9 apost\u00f3lica, realizada pelo papa V\u00edtor, e aceita como verdade a partir de seu sucessor, Zeferino (199-217): n\u00e3o era pouca coisa. Te\u00f3doto acusava o papa de ter corrompido os textos neotestament\u00e1rios para fazer com que eles atestassem que Jesus era Deus. Mas esse tipo de acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era feito justamente pelos bispos \u2013 como Ireneu \u2013 contra os gn\u00f3sticos? Ireneu afirmava que Marci\u00e3o, por exemplo, tinha eliminado os cap\u00edtulos iniciais do <em>Evangelho de Lucas<\/em>, que tratam do nascimento miraculoso do messias, e que interpolara todas as passagens em que Jesus d\u00e1 a entender que seu Pai era o Deus criador do mundo (a quem Marci\u00e3o negava ser o supremo Deus) (IRENEU DE LYON, 1995, p. 109).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este epis\u00f3dio, mais uma vez, abala as nossas convic\u00e7\u00f5es eivadas de essencialismos modernos. A heresia era o lado perdedor de um jogo de for\u00e7as; V\u00edtor conseguiu vencer porque o argumento de Te\u00f3doto era fraco. Afinal, como bem lembrava o heresi\u00f3logo, qualquer um poderia consultar os exemplares do Novo Testamento, espalhados pelas igrejas, ou os tratados cristol\u00f3gicos mais antigos para constatar que V\u00edtor n\u00e3o teria como ter alterado nada sem que outros bispos o notassem e sem o acatamento de todos eles. Era justamente esse o sentido da catolicidade: compartilhar uma mesma f\u00e9 dentro de uma rede muito extensa de igrejas, rede essa que, naquele s\u00e9culo, abrangia a extens\u00e3o do mundo romano, e j\u00e1 dava sinais de transcend\u00ea-lo. Um bispo sozinho n\u00e3o fazia a f\u00e9 nem a destru\u00eda. Os gn\u00f3sticos precisavam se lembrar de que a doutrina cat\u00f3lica era o consenso no m\u00ednimo para atingir o m\u00e1ximo.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Desnudar e demonstrar a heresia<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Te\u00f3doto era um curtidor, ou seja, um profissional artesanal, e era tamb\u00e9m um fil\u00f3sofo diletante; ele n\u00e3o era membro da hierarquia da igreja romana, e sua excomunh\u00e3o n\u00e3o abalou a estabilidade da igreja ou a autoridade de seu bispo, ao contr\u00e1rio, foi uma expl\u00edcita li\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era f\u00e1cil acusar um bispo, mesmo quando se era bastante popular. Mas e se um bispo, guardi\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica e chefe de uma igreja, viesse a desobedecer \u00e0 regra da f\u00e9? Quem o acusaria de herege? Quem o condenaria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o debate contra os gn\u00f3sticos refor\u00e7ou, entre os bispos, a consci\u00eancia da comunh\u00e3o intereclesial e do princ\u00edpio da sinodalidade. Autores como Ireneu, Tertuliano, Hil\u00e1rio e Or\u00edgenes n\u00e3o escreveram para as suas comunidades locais, mas para a Grande Igreja, uma rede de igrejas episcopais que, na virada do s\u00e9culo III para o IV, n\u00e3o tinha um \u00fanico centro, mas pelo menos dois, Roma e Alexandria. Esperava-se que essas duas igrejas, ou melhor, que seus bispos, capitaneassem os processos eclesi\u00e1sticos que deveriam advertir e corrigir os bispos suspeitos e punir os bispos condenados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento, a heresia ganha uma nova conota\u00e7\u00e3o, pois se, antes, era mais ou menos f\u00e1cil apontar o herege como um desviante da regra de f\u00e9, era muito complicado enquadrar um bispo nessas condi\u00e7\u00f5es. Um bispo \u00e9 mais do que um professor a quem se pode demitir, ele \u00e9 dirigente de uma comunidade urbana, eleito a partir de uma base eleitoral que podia significar uma pequena multid\u00e3o de apoiadores, entre os quais, pessoas politicamente importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em se tratando de membros da hierarquia, a discuss\u00e3o sobre a heresia assume um lugar eminentemente pol\u00edtico, seja porque, por contar com apoio pol\u00edtico, um bispo pode se livrar de um processo eclesi\u00e1stico, seja porque, sem apoio pol\u00edtico, um bispo pode ser acusado de ser herege simplesmente como desculpa para tir\u00e1-lo do comando. Foi o que aconteceu com um cl\u00e9rigo chamado Paulo de Sam\u00f3sata (m. 275), eleito bispo de Antioquia, em 261 (CHADWICK, 2001, p. 166-169), cerca de um ano depois que, naquela mesma cidade, o imperador Valeriano (253-260) fora derrotado e capturado pelo Imp\u00e9rio persa. Foram anos bastante dif\u00edceis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a derrota romana, a S\u00edria passou a fazer parte de um reino independente, sediado em Palmira, cuja rainha, Zen\u00f3bia (260-267), tornou-se a ponta de um movimento antirromano que, a princ\u00edpio mostrava-se bastante forte, com chances reais de varrer o poderio imperial do Oriente M\u00e9dio, mas que, na pr\u00e1tica durou muito pouco. Este foi o primeiro erro de Paulo de Sam\u00f3sata: t\u00e3o logo foi eleito bispo, decidiu apoiar uma rainha ef\u00eamera, mas que, pelos menos por um tempo, o recompensou muito bem, conferiu-lhe o t\u00edtulo de ducen\u00e1rio e pagou-lhe um alto sal\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que os bispos que formavam a catolicidade crist\u00e3, at\u00e9 aquele momento, presidiam igrejas sediadas em cidades pertencentes ao Imp\u00e9rio romano; em termos civis, os bispos eram s\u00faditos do Imp\u00e9rio, e todos eles consideravam que o Imp\u00e9rio \u00e9 quem garantia, legitimamente, a ordem social, institucional e jur\u00eddica, gra\u00e7as \u00e0s suas estruturas estatais. Ainda n\u00e3o fazia muito tempo que Nero havia martirizado uma centena ou mais de crist\u00e3os (os protom\u00e1rtires romanos), e Clemente (m.<em>c<\/em>. 100), um presb\u00edtero de Roma, estava convencido de que aquele imp\u00e9rio, uma miniatura do universo, era a grande refer\u00eancia para as igrejas, sobretudo na quest\u00e3o da ordem, da disciplina e da hierarquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antioquia, por exemplo, havia sido a capital da prov\u00edncia romana da S\u00edria at\u00e9 que Zen\u00f3bia tomou o poder. A cidade onde os fi\u00e9is foram chamados de crist\u00e3os pela primeira vez (At 11, 26), havia passado para m\u00e3os antirromanas e, pior do que isso, tinha um bispo declaradamente antirromano. \u00c9 dif\u00edcil compreender a real posi\u00e7\u00e3o de Paulo, pois, justamente por divergir politicamente de seus colegas, e por receber sal\u00e1rio de um Estado inimigo, ele foi duramente criticado; Eus\u00e9bio de Cesareia, que sempre apoiou o Imp\u00e9rio romano, gasta muitas p\u00e1ginas de sua <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em> para relatar o ocorrido, n\u00e3o sem deixar evidente o quanto Paulo de Sam\u00f3sata era, desde o in\u00edcio, um corruptor do episcopado e um perigo para a Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua opini\u00e3o, Paulo corrompia o episcopado porque valia-se de sua posi\u00e7\u00e3o de ducen\u00e1rio para ostentar poder: numa enc\u00edclica que os bispos s\u00edrios enviaram aos bispos de Roma e Alexandria, conta-se que Paulo se fazia transportar em liteiras, que ele introduziu mulheres na resid\u00eancia episcopal, assentava-se num estrado que mais lembrava o trono de um magistrado do que a cadeira de um bispo, enfim, que trabalhava como usur\u00e1rio. E para piorar, Paulo disparou ataques contra o <em>establishment<\/em> episcopal grego, acusando-o de condescender com Or\u00edgenes que, a seu ver, praticava uma exegese b\u00edblica ruim e explicava erroneamente a natureza do Verbo encarnado. No processo jur\u00eddico movido contra Paulo, n\u00e3o d\u00e1 para saber se o que mais irritava os bispos era seu modo de vida principesco ou as cr\u00edticas que ele fazia aos gregos: a cidade de Sam\u00f3sata, junto ao Eufrates, tinha popula\u00e7\u00e3o ass\u00edria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bispos n\u00e3o deixaram por menos. Fizeram conc\u00edlios para derrub\u00e1-lo e, n\u00e3o conseguindo, recorreram aos bispos superiores de Roma e Alexandria. N\u00e3o seria f\u00e1cil derrubar um bispo se este obedecesse fielmente a regra da f\u00e9; todavia, os bispos diziam que Paulo negava a divindade do Filho e que ensinava que o Logos divino apenas inspirara Jesus, sem se encarnar verdadeiramente. O que nos traz \u00e0 quest\u00e3o sobre como agir quando um bispo se torna herege. Como vimos no caso de Marci\u00e3o e Cerd\u00e3o, a pena que se podia aplicar era a exclus\u00e3o da igreja, mas isso era f\u00e1cil de resolver quando o condenado era um leigo ou di\u00e1cono ou at\u00e9 mesmo um presb\u00edtero. Totalmente diferente era a situa\u00e7\u00e3o de um bispo, cujo of\u00edcio assentava-se num pressuposto teol\u00f3gico, defendido por In\u00e1cio de Antioquia, de que o bispo era o vig\u00e1rio de Deus na terra, e sem o qual nada se podia fazer na igreja (IN\u00c1CIO DE ANTIOQUIA, 1995, p. 92; 118).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baseado na indissolubilidade do v\u00ednculo entre o bispo e sua igreja, Paulo de Sam\u00f3sata n\u00e3o acatou a decis\u00e3o que o depunha, muito embora um novo bispo tenha sido ordenado para ocupar o seu lugar. Foi quando ele se recusou a deixar a resid\u00eancia episcopal, de propriedade da igreja. Ele n\u00e3o teria conseguido sustentar sua posi\u00e7\u00e3o se n\u00e3o contasse com bons (e influentes) apoiadores dentre os membros de seu rebanho. Talvez por causa disso foi que ele recorreu ao imperador romano Aureliano, que h\u00e1 pouco recobrara a autoridade sobre a S\u00edria e pusera termo ao reino de Palmira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato de Eus\u00e9bio \u00e9 detalhado, mas n\u00e3o tanto. N\u00e3o d\u00e1 para saber se Aureliano estava ou n\u00e3o informado de que Paulo havia sido um aliado de Zen\u00f3bia, portanto, um traidor de Roma. \u00c9 prov\u00e1vel que soubesse, muito embora um bispo deposto j\u00e1 n\u00e3o representasse nenhuma amea\u00e7a. Seja como for, o imperador acolheu a peti\u00e7\u00e3o de Paulo, que solicitava o arb\u00edtrio imperial no impasse sobre a resid\u00eancia episcopal: por\u00e9m, ao inv\u00e9s de tomar ele mesmo a decis\u00e3o, Aureliano encaminhou a demanda para o bispo de Roma, que obviamente apoiava a deposi\u00e7\u00e3o ocorrida no s\u00ednodo de 268. E Eus\u00e9bio acrescenta: \u201ce foi assim que o supracitado Paulo foi expulso da Igreja da maneira mais vergonhosa pelo poder secular\u201d (EUS\u00c9BIO DE CESAREIA, 2000, p. 387).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso de Paulo de Sam\u00f3sata, por mais singular que tenha sido para o s\u00e9culo III, demonstra que a heresia se tornara um mecanismo para que o episcopado regulasse a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o episcopal, pressionando os bispos, individualmente ou em grupos, que por alguma raz\u00e3o interpunham as suas vozes \u00e0s opini\u00f5es teol\u00f3gicas hegem\u00f4nicas, curiosamente sustentadas por c\u00e1tedras episcopais hegem\u00f4nicas, como Alexandria ou Roma. Sob o r\u00f3tulo de consenso eclesial, o que se assiste \u00e9 um jogo de for\u00e7as regionais, em que fala mais alto a igreja que manda mais ou que \u00e9 a mais rica. Heresia tornou-se aquilo que as igrejas queriam (ou precisavam) que ela fosse e, como tal, n\u00e3o podemos perder de vista a complexidade sociopol\u00edtica da hist\u00f3ria quando tomamos a peito o estudo de qualquer grupo condenado por heresia.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Heresia como quest\u00e3o de Estado<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como acabamos de perceber, Eus\u00e9bio de Cesareia mostrou-se bastante satisfeito com o desfecho dado por um imperador pag\u00e3o a um conflito meramente eclesi\u00e1stico, afinal, como consta em Rm 13,4, o pr\u00edncipe \u2013 independentemente de sua cren\u00e7a \u2013 \u00e9 um instrumento de Deus para punir aqueles que fazem o mal, e o herege \u00e9 uma dessas pessoas. Mas foi Paulo de Sam\u00f3sata quem procurou o arb\u00edtrio imperial, e o fez por acreditar que a decis\u00e3o sinodal que o dep\u00f4s n\u00e3o respeitou completamente os seus direitos. A iniciativa de Paulo estava completamente amparada na lei. De fato, havia dois caminhos poss\u00edveis para a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos entre civis, no Imp\u00e9rio romano: a arbitragem extrajudicial, desde que obedecesse aos procedimentos legais, e o processo judicial propriamente dito, que dependia das cortes e de magistrados p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na arbitragem extrajudicial, era permitido que o mediador levasse em conta a legisla\u00e7\u00e3o, a jurisprud\u00eancia e os costumes locais, enquanto o processo judicial oficial tinha que seguir estritamente os decretos e decis\u00f5es aplic\u00e1veis a todo o imp\u00e9rio. Se repararmos bem, o s\u00ednodo antioqueno de 268 funcionou como uma arbitragem extraoficial, como se deduz dessa passagem de Eus\u00e9bio:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem melhor convenceu [Paulo] de dissimula\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s ter examinado suas teorias, foi Malqui\u00e3o, ali\u00e1s homem eloquente, sofista e em Antioquia presidente do ensino de ret\u00f3rica nas escolas hel\u00eanicas, al\u00e9m de honrado com o presbiterado na comunidade desta cidade, por causa da pureza extraordin\u00e1ria de sua f\u00e9 em Cristo. Ele abriu uma disputa contra Paulo, enquanto esten\u00f3grafos a registravam, e sabemos ter chegado at\u00e9 n\u00f3s as anota\u00e7\u00f5es (&#8230;). (EUS\u00c9BIO DE CESAREIA, 2000, p. 381-382)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na qualidade de sofista e orador, Malqui\u00e3o era um profissional habilitado para mediar uma demanda judicial, e ele seguiu os protocolos: acusado e acusadores foram ouvidos, os depoimentos anotados, o processo devidamente montado. Nessas condi\u00e7\u00f5es, Malqui\u00e3o podia tomar a sua decis\u00e3o, que seria referendada pelos magistrados e passaria a ter validade jur\u00eddica. Para que uma arbitragem extrajudicial fosse recebida oficialmente, era necess\u00e1rio que as partes envolvidas estivessem de acordo com a escolha do \u00e1rbitro: Malqui\u00e3o era presb\u00edtero da igreja em que Paulo era bispo, al\u00e9m disso, gozava de boa fama. Ele cumpria todos os requisitos para a fun\u00e7\u00e3o que desempenhou e, certamente, Paulo confiava em sua capacidade. Por\u00e9m, o veredito n\u00e3o agradou ao bispo. Era seu direito, como cidad\u00e3o, recorrer ao tribunal formal para ver se nessa outra inst\u00e2ncia ele conseguia reverter o resultado. E foi isso o que ele fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso particular de Paulo de Sam\u00f3sata aponta para uma importante viragem na maneira com que as igrejas passaram a tratar as heresias, isto \u00e9, tornando-as um assunto judicial e, portanto, uma quest\u00e3o de Estado. Essa mudan\u00e7a acarretou duas significativas mudan\u00e7as, pelo menos: a primeira \u00e9 a crescente participa\u00e7\u00e3o de profissionais forenses, como Malqui\u00e3o, nos debates sobre heresia e, gra\u00e7as a esses profissionais, a linguagem jur\u00eddico-ret\u00f3rica tornou-se recorrente na composi\u00e7\u00e3o dos textos de acusa\u00e7\u00e3o e de defesa, influenciando o pr\u00f3prio vocabul\u00e1rio teol\u00f3gico. A segunda mudan\u00e7a se refere \u00e0 media\u00e7\u00e3o direta do Estado na delibera\u00e7\u00e3o doutrinal e na conclus\u00e3o dos debates. Ora, o poder p\u00fablico n\u00e3o se intrometia em quest\u00f5es particulares a n\u00e3o ser que fosse requisitado, e, desde Paulo de Sam\u00f3sata, os bispos come\u00e7aram a recorrer a esse expediente, seja para denunciar hereges, seja para defender-se da acusa\u00e7\u00e3o de heresia (HUMFRESS, 2007, p. 260-268).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ardor anti-her\u00e9tico que verificamos em Ireneu e Tertuliano apenas mudou de lugar; na sanha de acabar com a heresia, os bispos abriram as portas de suas igrejas para que o Estado fizesse aquilo que eles mesmos n\u00e3o estavam conseguindo resolver. Para os bispos, esse era um pre\u00e7o que valia a pena pagar. Acontece que o Estado n\u00e3o funciona como uma igreja, ainda que a igreja tenha claramente adotado express\u00f5es estatais, desde, pelo menos, o s\u00e9culo II. Para que o poder p\u00fablico atuasse nas quest\u00f5es eclesiais, os cl\u00e9rigos precisavam adequar as demandas teol\u00f3gicas aos tr\u00e2mites jur\u00eddicos, e permitir que o Estado adequasse a linguagem teol\u00f3gica \u00e0s categorias legais. Heresia virou um delito judicialmente imput\u00e1vel e, por isso, pass\u00edvel de penalidades coercitivas. Os bispos ficaram contentes; por um momento parecia que eles teriam maiores recursos para reprimir os hereges. Acontece que, antes de um julgamento formal, ningu\u00e9m pode ser considerado culpado, e assim os supostos hereges tamb\u00e9m podiam mobilizar os tribunais civis contra os ortodoxos. Iniciava-se uma longa luta judicial em que a heresia ficaria suspensa at\u00e9 que o magistrado a atribu\u00edsse a uma das partes em disputa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 313, os bispos donatistas do norte da \u00c1frica recorreram ao imperador Constantino, solicitando que ele revisasse a decis\u00e3o do conc\u00edlio de Roma, que os havia condenado. Constantino preferiu fazer como Aureliano, e privilegiou a opini\u00e3o dos bispos cat\u00f3licos, liderados pelo papa Milc\u00edades. N\u00e3o satisfeitos, os donatistas iniciaram uma s\u00e9rie de protestos que obrigou o imperador a convocar um s\u00ednodo de bispos ocidentais, celebrado em Arles, em 314. O caso donatista deixou claro, para Constantino, que um cisma coletivo podia significar dist\u00farbios civis dificilmente control\u00e1veis e com altos custos para o er\u00e1rio p\u00fablico; era preciso resolver a situa\u00e7\u00e3o, e foi para isso que o conc\u00edlio foi reunido. Nele, o donatismo foi formalmente condenado como heresia, e o resultado assumiu for\u00e7a jur\u00eddica; com base nisso \u00e9 que Constantino, em 317, ordenou a supress\u00e3o da Igreja donatista, a confisca\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis eclesiais e a pris\u00e3o de seus bispos (IRVIN; SUNQUIST, 2004, 317).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, o que parecia ser a vit\u00f3ria da catolicidade mostrou-se muito mais fr\u00e1gil. A lei pode at\u00e9 tipificar a heresia como delito, por\u00e9m, a interpreta\u00e7\u00e3o jurisprudencial da lei, a velocidade dos processos e o alcance dos vereditos dependem da situa\u00e7\u00e3o do sistema judicial, da posi\u00e7\u00e3o dos magistrados e da capacidade de press\u00e3o pol\u00edtica exercida pelas partes. Em outras palavras, para fazer o processo funcionar, era preciso que as autoridades p\u00fablicas tivessem vontade de agir. Agostinho de Hipona (m. 354), que se envolveu ativamente no debate donatista, deixou transparecer, em seus escritos, como a judicializa\u00e7\u00e3o da heresia podia resultar em medidas pouco efetivas. Os bispos cat\u00f3licos at\u00e9 podiam eventualmente ser favorecidos pela benevol\u00eancia imperial, mas at\u00e9 quando? R\u00e1pido eles perceberam que a benevol\u00eancia de um governante mudava facilmente de dire\u00e7\u00e3o. E para mant\u00ea-la voltada para si, os bispos tiveram de aprender a negociar com os magistrados e as autoridades p\u00fablicas como quaisquer outras pessoas influentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se antes era preciso convencer os hereges de sua heresia, agora os bispos tinham de convencer tamb\u00e9m os magistrados, s\u00f3 que, nesse caso, o puro argumento nem sempre bastava. Acordos e concess\u00f5es eram inevit\u00e1veis e tinham consequ\u00eancias. O conc\u00edlio de Niceia, por exemplo, definiu a ortodoxia trinit\u00e1ria, mas o que se seguiu ao conc\u00edlio foi uma s\u00e9rie de derrotas dos ortodoxos e a ascens\u00e3o dos hereges, que convenceram o imperador Const\u00e2ncio II (337-361) a procurar uma concilia\u00e7\u00e3o. Quando o Estado define a ortodoxia, os termos da f\u00e9 s\u00e3o mat\u00e9ria de negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tanto quanto o texto da lei. A intransig\u00eancia doutrinal pode at\u00e9 continuar a inflamar certos bispos, mas eles sabem que sem o compromisso pol\u00edtico e uma certa dose de adula\u00e7\u00e3o, a heresia continuar\u00e1 a ser uma op\u00e7\u00e3o para os descontentes e os dissidentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vimos at\u00e9 aqui, toda a quest\u00e3o da heresia apresenta-se como um jogo de for\u00e7as entre grupos discordantes movidos pela convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o pode haver mais do que uma f\u00e9 verdadeira. A judicializa\u00e7\u00e3o da heresia demonstrou ao Estado que essas diferen\u00e7as teol\u00f3gicas escondiam fissuras sociais, culturais e \u00e9tnicas que espelhavam o pr\u00f3prio Imp\u00e9rio romano, em sua vasta pluralidade cultural. Os crist\u00e3os podem defender que sua doutrina \u00e9, em tese, universal, por\u00e9m, suas comunidades s\u00e3o recortes de popula\u00e7\u00f5es locais, estabelecidas em terrenos particulares, em que o passado, a l\u00edngua, as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas se tornam filtros catalisadores para que a f\u00e9 universal crie ali as suas ra\u00edzes. A ortodoxia necessariamente implica o di\u00e1logo ou o debate com e entre as culturas do mesmo modo que a heresia pode expressar xenofobia e preconceito racial. A inven\u00e7\u00e3o dos conc\u00edlios ecum\u00eanicos, como pol\u00edtica de Estado, demonstra o qu\u00e3o fr\u00e1gil a ortodoxia pode ser, pois resulta do equil\u00edbrio entre regionalismos, cujo capital pol\u00edtico \u00e9 sempre assim\u00e9trico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o Conc\u00edlio de Niceia, em 325, a heresia foi apenas uma das muitas armas usadas pelos bispos em suas incessantes \u201cguerras por Jesus\u201d (JENKINS, 2013), guerras travadas por cl\u00e9rigos, mas patrocinadas pelo Estado. Os imperadores podiam, de fato, tentar mediar os conflitos entre as diferentes igrejas, excluindo os hereges e promulgando a ortodoxia. Por\u00e9m, a busca pela f\u00e9 correta era, em si mesma, uma atividade de silenciamento das vozes que n\u00e3o interessam ao poder e de amplifica\u00e7\u00e3o das vozes que interessam. Foi isso que ocorreu, por exemplo, no Conc\u00edlio de Calced\u00f4nia, de 451: os defensores da \u00fanica natureza do Cristo, chamados de miafisitas ou monofisitas, e que eram eg\u00edpcios, s\u00edrios, arm\u00eanios, mesopot\u00e2micos, foram simplesmente ignorados pelo <em>mainstream<\/em> episcopal greco-latino, na ocasi\u00e3o, representado pela cristologia do papa Le\u00e3o Magno (440-461) e pelos bispos alinhados com a imperatriz Pulqu\u00e9ria (m. 453).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desacordo de Calced\u00f4nia nos apresenta como os debates teol\u00f3gicos, na verdade, resultam de problemas sociais, \u00e9tnicos e pol\u00edticos. O mundo romano podia formar um \u00fanico imp\u00e9rio, mas nunca foi mais do que um caleidosc\u00f3pio de diferen\u00e7as que, em tempos tranquilos, eram facilmente manejadas, mas, em tempos de crise, mostravam-se muito agudas. O s\u00e9culo V \u00e9 famoso por ser o momento derradeiro da unidade romana: em 476 desaparecia o \u00faltimo imperador romano do Ocidente, deixando ali centenas de igrejas cat\u00f3licas e dezenas de igrejas arianas, como em Ravena e Toledo. No Oriente, o imp\u00e9rio seguiu firme, mas n\u00e3o mais com a mesma coes\u00e3o. Egito e S\u00edria, as \u00e1reas economicamente mais produtivas e, portanto, mais ricas, abrigavam as popula\u00e7\u00f5es crist\u00e3s anticalcedonianas, perseguidas pelo Estado romano, ortodoxo e calcedoniano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A persegui\u00e7\u00e3o aos hereges anticalcedonianos n\u00e3o foi uma boa pol\u00edtica de Estado, pois s\u00faditos que, por causa de heresia, se veem diminu\u00eddos pelo regime n\u00e3o costumam ser muito fi\u00e9is a ele. Quando o Imp\u00e9rio isl\u00e2mico despontou no Mediterr\u00e2neo, trazendo a proposta de proteger aqueles que assinassem tratados de paz, os anticalcedonianos s\u00edrios e eg\u00edpcios n\u00e3o tiveram d\u00favida de que chegara o momento de se vingarem dos hereges calcedonianos. Aceitaram que o califado isl\u00e2mico substitu\u00edsse o basileu herege e come\u00e7aram a considerar que a ascens\u00e3o do isl\u00e3 era um merecido castigo divino para a heresia calcedoniana. Voltamos a Celso. Em termos hist\u00f3ricos, a heresia \u00e9 um dispositivo que demarca o campo da autoridade e justifica a viol\u00eancia e a intoler\u00e2ncia contra quem n\u00e3o se submete.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Andr\u00e9 Miatello. <\/em>UFMG\/FAJE ( Brasil). Texto original em portugu\u00eas. Enviado: 20\/08\/2021. Aprovado: 25\/10\/2021. Publicado: 30\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALTANER, B.; STUIBER, A. <em>Patrologia<\/em>. Vida, Obras e Doutrina dos Padres da Igreja. Trad. Monjas Beneditinas. 3.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHADWICK, H. <em>The Church in Ancient Society.<\/em> From Galilee to Gregory the Great. Oxford: Clarendon Press, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUBOIS, J.-P. Pol\u00eamicas, poder e exegese: o exemplo dos gn\u00f3sticos antigos no mundo grego. In: ZERNER, M. (Ed.). <em>Inventar a heresia?<\/em> Discursos pol\u00eamicos e poderes antes da Inquisi\u00e7\u00e3o. Trad. N\u00e9ri de Barros Almeida et al. Campinas: Editora Unicamp, 2009. p. 39-55.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EMP\u00cdRICO, S. Hipotiposes Pirr\u00f4nicas Livro I (tradu\u00e7\u00e3o de Danilo Marcondes). <em>O que nos faz pensar<\/em>: Cadernos do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, v. 9, n. 12, p. 115-122, jun 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EUS\u00c9BIO DE CESAREIA. <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica.<\/em> Trad. Monjas Beneditinas do Mosteiro de Maria M\u00e3e de Cristo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HADOT, P. <em>O que \u00e9 Filosofia Antiga?<\/em> Trad. Dion Davi Macedo. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HUMFRESS, C. <em>Orthodoxy and the Courts in Late Antiquity<\/em>. Oxford: Oxford University Press, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRENEU DE LYON. Contra as Heresias. Den\u00fancia e refuta\u00e7\u00e3o da falsa gnose. Trad. Louren\u00e7o Costa. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRVIN, D.; SUNQUIST, S. <em>Hist\u00f3ria do movimento crist\u00e3o mundial.<\/em> v.1. Trad. Jos\u00e9 Raimundo Vidigal. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JENKINS, Ph. <em>Guerras Santas.<\/em> Como 4 Patriarcas, 3 rainhas e 2 imperadores decidiram em que os crist\u00e3os acreditariam pelos pr\u00f3ximos 1.500 anos. Trad. Carlos Szlak. Rio de Janeiro: LeYa, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JOSEFO, F. <em>Antig\u00fcedades Jud\u00edas<\/em>. Libros XII-XX. Edici\u00f3n de Jos\u00e9 Vara Donado. Madri: Akal, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JOSEPHUS, F. <em>The Whole Genuine Works of Flavius Josephus<\/em>. Trad. William Whiston. v.III. Londres: Blackie and Son, 1865.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JUSTINO DE ROMA. <em>I e II Apologias, Di\u00e1logo com Trif\u00e3o<\/em>. Trad. Ivo Storniolo; Euclides Balancin. 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Introduction, texte critique, et notes de R. F. Refoul\u00e9. Trad. P. De Labriolle. Paris\u00a0: \u00c9ditions du Cerf, 1957.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual 2 Caminhos irreconcili\u00e1veis 3 N\u00f3s, os nossos e eles, os hereges 4 Desnudar e demonstrar a heresia 5 Heresia como quest\u00e3o de Estado 1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual Heresia deriva de hairesis [\u03b1\u1f35\u03c1\u03b5\u03c3\u03b9\u03c2], voc\u00e1bulo grego procedente do verbo hair\u00e9o [\u03b1\u1f31\u03c1\u03ad\u03c9], que tem tr\u00eas principais classes de significado: a primeira indica a a\u00e7\u00e3o de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-2550","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2550"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2550\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2649,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2550\/revisions\/2649"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}