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{"id":2535,"date":"2021-12-24T16:35:49","date_gmt":"2021-12-24T19:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2535"},"modified":"2021-12-24T16:35:49","modified_gmt":"2021-12-24T19:35:49","slug":"teologia-da-criacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2535","title":{"rendered":"Teologia da cria\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 A hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o e ci\u00eancias: quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O testemunho b\u00edblico da f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 A Palavra com Esp\u00edrito, origem da cria\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 A ordem ecol\u00f3gica e maternal da cria\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 A curvatura \u00e9tica do humano, imagem e semelhan\u00e7a do Criador<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.4 O crescimento do humano, sua polival\u00eancia e a pedagogia divina<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.5 O Primog\u00eanito da Cria\u00e7\u00e3o: o Novo Ad\u00e3o e o Novo Caim<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A cria\u00e7\u00e3o como paradigma universal: a doutrina crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 Um Criador antes da cria\u00e7\u00e3o: o Pai e Poeta da cria\u00e7\u00e3o e suas duas m\u00e3os na creatio ex nihilo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 O mist\u00e9rio do mal, o sofrimento, a provid\u00eancia divina e as dores de parto da cria\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.3 Est\u00e9tica, \u00e9tica e espiritualidade da cria\u00e7\u00e3o: a beleza, o cuidado, o louvor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teologia da Cria\u00e7\u00e3o (TC) ganhou novos <em>insights<\/em> e tornou-se mais complexa ao longo do s\u00e9culo XX e come\u00e7o do s\u00e9culo XXI, e estas s\u00e3o as raz\u00f5es principais: 1. Uma nova compreens\u00e3o que a ci\u00eancia obteve a respeito de si mesma nesse tempo, de tal forma que se trata de uma nova revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, da qual se reconfigurou uma nova cosmologia em toda a sua extens\u00e3o, desde a astrof\u00edsica at\u00e9 a f\u00edsica subat\u00f4mica e qu\u00e2ntica, e sua contribui\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e inspiradora para a TC; 2. Uma nova hermen\u00eautica b\u00edblica e das narrativas religiosas em geral, possibilitando a distin\u00e7\u00e3o e o respeito \u00e0s diferentes linguagens, especialmente a cient\u00edfica e a religiosa; 3. A urg\u00eancia sinalizada pela crise ecol\u00f3gica de forma generalizada, obrigando a pensar uma ecoteologia como parte de uma nova alfabetiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica para uma nova espiritualidade e uma urgente \u00e9tica ecol\u00f3gica e planet\u00e1ria correspondente. A TC deve dar suporte para uma \u201cconvers\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d (<em>Laudato Si\u2019<\/em> n. 216-221).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os autores que aprofundaram e publicaram textos em torno da TC nesse per\u00edodo t\u00eam em comum, como uma exig\u00eancia metodol\u00f3gica, a cria\u00e7\u00e3o de uma <em>nova epistemologia <\/em>compondo as tr\u00eas raz\u00f5es acima, de forma interdisciplinar, arriscando inclusive, para assuntos fundamentais, uma linguagem transdisciplinar. Pode-se afirmar que nem \u00e9 mais poss\u00edvel elaborar uma TC sem um complexo exerc\u00edcio interdisciplinar na forma de di\u00e1logo com diferentes ci\u00eancias da natureza e diferentes ci\u00eancias humanas (POLKINGHORNE, 2000, p. 123-135). Tratando-se de teologia, a TC tem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o desafio da recoloca\u00e7\u00e3o da natureza no horizonte metaf\u00edsico religioso sem se esquivar da palavra das ci\u00eancias e de regras de hermen\u00eautica. A TC n\u00e3o \u00e9 rival ou concorrente das ci\u00eancias, mas tem a voca\u00e7\u00e3o para a totalidade e, para al\u00e9m da totalidade como \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d, a sua rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia de uma alteridade criadora. Assim, por exemplo, \u201cque o ser humano possa conceber a natureza como um \u2018todo\u2019 \u00e9 j\u00e1 um fato metaf\u00edsico e uma afirma\u00e7\u00e3o de sua transcend\u00eancia\u201d (LENOBLE, 1969, p. 384). O \u201cTodo\u201d \u00e9, no entanto, mais do que um universo f\u00edsico ou um mundo pesquisado e jamais exaustivamente conhecido pelas ci\u00eancias, mas uma \u201ctotalidade aberta\u201d. \u201cA concep\u00e7\u00e3o de mundo depende somente em pequena parte das ideias cient\u00edficas. Ela reflete muito mais as necessidades morais e sociais, e mais ainda, desejos inconscientes (&#8230;) \u00e9 neste n\u00edvel que se opera a jun\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da vida\u201d (LENOBLE, 1969, p. 31). Assim, \u201ca hist\u00f3ria da ci\u00eancia (&#8230;) \u00e9 uma lenta reforma da consci\u00eancia por ela mesma, para ganhar enfim o direito de ver a natureza tal qual \u00e9\u201d (LENOBLE, 1969, p. 32). Em sua plenitude, o nome da natureza, do mundo, do universo, \u00e9 \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma TC pode, portanto, se organizar em tr\u00eas est\u00e1gios: 1. A hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o, ci\u00eancias e contextos: o contexto hist\u00f3rico permite compreender a hist\u00f3ria da doutrina sobre a cria\u00e7\u00e3o em di\u00e1logo e eventualmente confronto com as ci\u00eancias de cada tempo hist\u00f3rico, e a exig\u00eancia de reformula\u00e7\u00e3o continuada da epistemologia para uma adequada TC (K\u00dcNG, 2007, p. 13 et seq.); 2. O sentido criacional das narrativas can\u00f4nicas da f\u00e9, a Escritura e seu percurso \u2013 da primeira p\u00e1gina do G\u00eanesis \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina do Apocalipse e vice-versa. A teologia crist\u00e3 da cria\u00e7\u00e3o tem seu \u00e1pice privilegiado, do qual se compreende a totalidade da cria\u00e7\u00e3o, em Cristo (MALDAM\u00c9, 2005, p. 29-36). No atual est\u00e1gio de pluralismo e de di\u00e1logo de religi\u00f5es, tamb\u00e9m esse percurso b\u00edblico e crist\u00e3o deve se dar em di\u00e1logo com outras narrativas religiosas; 3. As consequ\u00eancias pr\u00e1ticas s\u00e3o compreendidas \u00e0 luz dos pontos precedentes: s\u00e3o consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas, lit\u00fargicas e \u00e9ticas, incluindo o mist\u00e9rio do mal e o sofrimento na cria\u00e7\u00e3o, a provid\u00eancia e a gra\u00e7a presentes na cria\u00e7\u00e3o, a reden\u00e7\u00e3o e o cuidado da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 A hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o e ci\u00eancias: quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A historicidade de todo conhecimento, inclusive teol\u00f3gico, \u00e9 parte da nova epistemologia no sentido mais amplo, assim como, mais especificamente, a historicidade da ideia de natureza e de cria\u00e7\u00e3o. Na hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o e ci\u00eancias, o Ocidente conheceu diferentes posturas, e que em certa medida permanecem, ainda que s\u00f3 residualmente ou ent\u00e3o reinterpretadas com novo vigor desde uma nova epistemologia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. O conhecimento m\u00edtico e a rela\u00e7\u00e3o m\u00e1gica do ser humano com a natureza, percebida de forma an\u00edmica, habitada pela divindade ou mesmo confusa com a divindade: <em>panta plere theon <\/em>\u2013 tudo est\u00e1 cheio do divino, conforme refer\u00eancia cr\u00edtica de Arist\u00f3teles ao pr\u00e9-socr\u00e1tico Thales de Mileto em <em>De Anima<\/em>, 411a. Trata-se de uma cosmologia simbi\u00f3tica, em que a natureza \u00e9 vista como um grande seio, algo como um pante\u00edsmo ou \u201cpanente\u00edsmo\u201d maternal e nutritivo, percep\u00e7\u00e3o t\u00edpica de coletores e ca\u00e7adores. Pode ser chamada de rela\u00e7\u00e3o \u201canimista\u201d, cuja experi\u00eancia e verdade permanece na rela\u00e7\u00e3o com a \u201cm\u00e3e Terra\u201d, a <em>Pachamama <\/em>amer\u00edndia ou grega ou indiana, mesmo quando a terra seja considerada tamb\u00e9m uma criatura, nossa \u201cirm\u00e3 e m\u00e3e Terra\u201d (S\u00e3o Francisco \u2013 <em>C\u00e2ntico das Criaturas<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. A ruptura sedent\u00e1ria com a simbiose c\u00f3smica, na cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o pr\u00f3prio, possibilitou uma percep\u00e7\u00e3o de alteridade criadora. Produziu geralmente uma rela\u00e7\u00e3o expiat\u00f3ria e sacrificial, uma d\u00edvida original, a ser saldada num c\u00edrculo de dons: aos dons divinos atrav\u00e9s da natureza, a devolu\u00e7\u00e3o de dons humanos atrav\u00e9s dos sacrif\u00edcios. Pode ser chamada de rela\u00e7\u00e3o \u201cpag\u00e3\u201d, conforme a etimologia da palavra <em>paganus<\/em> \u2013 o que est\u00e1 conectado com o campo, com a natureza e suas manifesta\u00e7\u00f5es divinizadas. Ganha m\u00faltiplas formas culturais e religiosas, desde simples oferendas at\u00e9 grandiosos e tr\u00e1gicos sacrif\u00edcios humanos. O c\u00edrculo de dons da cria\u00e7\u00e3o, com reconhecimento e retribui\u00e7\u00e3o, permanece de diferentes formas nas pr\u00e1ticas religiosas, inclusive com muta\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas, sendo a eucaristia uma delas, pois a eucaristia crist\u00e3 tem no seu \u00e1pice a presen\u00e7a viva de Cristo em seu memorial de p\u00e3o e vinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. J\u00e1 na hist\u00f3ria do cristianismo, tal como na rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o, h\u00e1 tens\u00e3o e situa\u00e7\u00f5es de conflito entre a f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o e o caminho das ci\u00eancias, com duas situa\u00e7\u00f5es extremas: a redu\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico ao conhecimento teol\u00f3gico, como em S\u00e3o Boaventura (<em>De reductione artium ad theologiam<\/em>), embora a conceito medieval de ci\u00eancia esteja mais pr\u00f3ximo de Arist\u00f3teles do que das ci\u00eancias modernas; e, vice-versa, a redu\u00e7\u00e3o do conhecimento teol\u00f3gico ao conhecimento cient\u00edfico, o que marca profundamente os s\u00e9culos de modernidade, desde as pesquisas e experimentos de Leonardo da Vinci e Galileu at\u00e9 o come\u00e7o do s\u00e9culo XX. O conflito, na modernidade, conduziu tamb\u00e9m \u00e0 m\u00fatua exclus\u00e3o, m\u00fatuo desconhecimento e indiferen\u00e7a. A teologia interessou-se preferencialmente pela dimens\u00e3o antropol\u00f3gica e hist\u00f3rica como sendo o mundo privilegiado de um drama humano que se desenrola sobre o palco de uma natureza est\u00e1tica como suporte e moldura, abandonando assim o estudo da natureza, do cosmos e da vida biol\u00f3gica, \u00e0s ci\u00eancias. Houve, tal como em filosofia, um \u201csuperaquecimento da Hist\u00f3ria \u2013 com <em>H<\/em> mai\u00fasculo, como um sujeito \u2013 em detrimento da Geografia emudecida e coisificada, com perda das conex\u00f5es humanas com a terra e o cosmos. Em termos pastorais, a teologia, a moral e a espiritualidade se reduziram com frequ\u00eancia ainda mais \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o da reden\u00e7\u00e3o da alma. O resto \u2013 at\u00e9 mesmo o corpo \u2013 seria um acr\u00e9scimo formal na ressurrei\u00e7\u00e3o do \u00daltimo Dia, mas sem significado pr\u00f3prio e consequente. A TC perdia aqui todo o seu peso, e toda a escatologia coube num simples ponto abstrato: \u201cSalva tua alma!\u201d (cf. MOLTMANN, 1993, p. 42 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. A aceita\u00e7\u00e3o e acomoda\u00e7\u00e3o de um <em>paralelismo de verdades<\/em>: na Idade M\u00e9dia, as verdades paralelas \u2013 o que seria verdade na ci\u00eancia n\u00e3o necessariamente seria verdade na palavra da revela\u00e7\u00e3o divina e vice-versa \u2013 eram um problema de l\u00f3gica, mas tamb\u00e9m uma evas\u00e3o diante da persegui\u00e7\u00e3o religiosa, no caso de Avicena e Averr\u00f3is. O paralelismo n\u00e3o foi aceito pelos escol\u00e1sticos crist\u00e3os. Uma relativa autonomia metodol\u00f3gica e m\u00fatua referencialidade foram as solu\u00e7\u00f5es encontradas, de tal forma que, em linguagem escol\u00e1stica, em primeiro lugar h\u00e1 o <em>Liber Naturae<\/em>, e, quando este se tornou dif\u00edcil de compreender teologicamente, o Criador ofereceu o <em>Liber Scripturae<\/em> para ler melhor o primeiro. A rela\u00e7\u00e3o entre natureza e gra\u00e7a sobrenatural, entre raz\u00e3o e f\u00e9, como entre terra e c\u00e9us, vis\u00edvel e invis\u00edvel etc. s\u00e3o duais que seguem a mesma din\u00e2mica de relativa autonomia, mas de m\u00fatua referencialidade. O essencial desta postura, antes ainda dos escol\u00e1sticos, est\u00e1 posto desde os conc\u00edlios da Igreja da Antiguidade no primeiro artigo do Credo. Diante das tens\u00f5es do s\u00e9culo XIX, com o sucesso crescente da teoria darwinista da evolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 reafirmado pelo Conc\u00edlio Vaticano I em seu documento <em>Dei Filius<\/em>. E no final do s\u00e9culo XX, \u00e9 novamente exposto pela enc\u00edclica <em>Fides et Ratio, <\/em>de Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. O <em>concordismo<\/em> moderno, um modo especial de acomoda\u00e7\u00e3o em favor da religi\u00e3o, busca nas pesquisas cient\u00edficas as provas de que \u201ca B\u00edblia tinha raz\u00e3o\u201d. Este esfor\u00e7o paga o alto pre\u00e7o do fundamentalismo liter\u00e1rio, sem levar em conta a exegese cient\u00edfica e a hermen\u00eautica. Pretende, por exemplo, encontrar e identificar sobre o monte Ararat algum resto da m\u00edtica arca de No\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. O <em>positivismo, e<\/em>m contraposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 o reducionismo cient\u00edfico que chegou ao paroxismo no final do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do s\u00e9culo XX, de tal forma que a ci\u00eancia ocupou o lugar da religi\u00e3o e se tornou religi\u00e3o. Reduziu toda capacidade de verdade \u00e0s ci\u00eancias, excluindo a arte, a literatura, e, claro, a teologia, de modo especial uma poss\u00edvel TC. Em rea\u00e7\u00e3o, at\u00e9 nossos dias, a \u201ccientologia\u201d e, de alguma forma, o espiritismo, como diversas teosofias e novos gnosticismos, lutam por manter certa fus\u00e3o e concordismo de f\u00e9 e ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7. Um caso emblem\u00e1tico plantado no s\u00e9culo XIX, depois da afirma\u00e7\u00e3o da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, que retorna como um <em>avatar<\/em> das tens\u00f5es na rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia, \u00e9 o embate entre <em>evolucionismo <\/em>e<em> criacionismo<\/em>. Trata-se de uma confus\u00e3o de linguagens e de modos de rela\u00e7\u00e3o com o universo, especialmente os seres vivos. Enquanto objeto de observa\u00e7\u00e3o e de pesquisa, o universo e a vida s\u00e3o adequadamente conhecidos e explicados atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o. A teoria da evolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 dos seres vivos, mas inclusive de um universo em expans\u00e3o, \u00e9 atualmente a melhor teoria cient\u00edfica. No entanto, enquanto objeto da profiss\u00e3o de f\u00e9, ou seja, de uma alteridade criadora, o mesmo universo \u00e9 confessado como cria\u00e7\u00e3o divina. S\u00e3o duas linguagens e duas formas de conhecimento e, inclusive, de experi\u00eancia da realidade (MOLTMANN, 1993, p. 68 et seq.; p. 90 et seq.). A afirma\u00e7\u00e3o de um <em>designer inteligente <\/em>na origem do universo \u00e9 da ordem da f\u00e9, que a ci\u00eancia n\u00e3o pode nem afirmar e nem negar, n\u00e3o faz parte da aula de ci\u00eancia, faz parte da aula de religi\u00e3o e sua hermen\u00eautica. Para quem cr\u00ea segundo o sentido da narrativa b\u00edblica, desde o G\u00eanesis at\u00e9 o Apocalipse, o evolucionismo \u2013 e n\u00e3o a teoria de um universo fixo e est\u00e1tico ou de cada elemento criado desde um come\u00e7o cronol\u00f3gico segundo seu estado atual \u2013 \u00e9 a teoria que mais se adequa \u00e0 profiss\u00e3o de f\u00e9 na din\u00e2mica da cria\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria ainda em aberto. N\u00e3o h\u00e1 necessariamente, portanto, conflito e exclus\u00e3o, mas relativa autonomia e m\u00fatua referencialidade entre evolu\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o para quem cr\u00ea: tanto a ci\u00eancia como a f\u00e9 s\u00e3o saberes diferentes e abertos, instigantes e, portanto, ainda compreens\u00f5es em crescimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m notar que o <em>criacionismo<\/em> se configurou como rea\u00e7\u00e3o ao positivismo das ci\u00eancias no come\u00e7o do s\u00e9culo XX nos Estados Unidos, e foi um dos postulados da afirma\u00e7\u00e3o dos fundamentos da f\u00e9 crist\u00e3 segundo o catecismo de algumas denomina\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, o que ficou conhecido como <em>fundamentalism. <\/em>Com a entrada das ci\u00eancias hermen\u00eauticas, sobretudo a partir da historicidade, da fenomenologia e da psican\u00e1lise, o <em>fundamentalism <\/em>passou a significar a incapacidade de interpreta\u00e7\u00e3o, o literalismo, o biblicismo, a religi\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica, o que leva a absurdos tanto na \u00e1rea do conhecimento como nas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas, morais e sociais. Assim, fundamentalismo acabou ganhando um sentido muito amplo e afetou profundamente n\u00e3o s\u00f3 a interpreta\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, mas da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana, da sexualidade e dos estudos de g\u00eanero, do que se entende como milagres e gra\u00e7a, da ora\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 da sociedade e da pol\u00edtica. A TC teria sido apenas um horizonte justificador desta vis\u00e3o se a emerg\u00eancia ecol\u00f3gica n\u00e3o tivesse vindo para o centro das aten\u00e7\u00f5es em nossos dias. Hoje o fundamentalismo \u00e9 uma grave patologia da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8. Uma dificuldade de fundo a ser bem compreendida para a elabora\u00e7\u00e3o de uma adequada epistemologia em TC \u00e9 o que observa o medievalista Jacques Le Goff (1999) em rela\u00e7\u00e3o aos dois mil anos de cristianismo. Segundo Le Goff, o primeiro mil\u00eanio se caracterizou mais por um afastamento do que por uma integra\u00e7\u00e3o da natureza \u00e0 espiritualidade crist\u00e3, e por uma concentra\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica afastada do resto da natureza. Agostinho representa bem tal postura. Por um lado, a natureza poderia sugerir uma rela\u00e7\u00e3o \u201cpag\u00e3\u201d diante da sedu\u00e7\u00e3o fascinante e tremenda dos elementos da natureza divinizados, permanecendo nos elementos do mundo o sagrado que \u00e9 pr\u00f3prio de Deus. Para os judeus, herdeiros prim\u00e1rios do profetismo, a distin\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava bem estabelecida ao insistirem na transcend\u00eancia divina da qual n\u00e3o se diz o nome e nem se faz nenhuma figura, e as narrativas da cria\u00e7\u00e3o no G\u00eanesis e nos livros de sabedoria amparam tanto a absoluta distin\u00e7\u00e3o como a rela\u00e7\u00e3o entre a soberania divina e a sua cria\u00e7\u00e3o. Mas cada vez mais os crist\u00e3os provinham do paganismo, e diante da tenta\u00e7\u00e3o de res\u00edduos pag\u00e3os com rela\u00e7\u00e3o a elementos da natureza virtualmente divinizados, a melhor solu\u00e7\u00e3o foi inspirada na hierarquia plat\u00f4nica das realidades, de tal forma que, comentando a Escritura, o ser humano \u00e9 posto no topo da hierarquia das criaturas, numa rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio \u00e0 imagem da soberania divina. A esse antropocentrismo soberano, hier\u00e1rquico, positivo e otimista, se junta o seu contr\u00e1rio para dar conta da realidade: o ser humano pecou, se perdeu e decaiu de tal forma que a reden\u00e7\u00e3o se torna o grande drama do ser humano sobre a terra, redundando assim num \u201cantropocentrismo negativo\u201d e pessimista, e para tanto se utilizou exaustivamente o terceiro cap\u00edtulo do G\u00eanesis. Com a doutrina do pecado original, al\u00e9m do cap\u00edtulo quinto da carta aos romanos, este antropocentrismo negativo ganhou for\u00e7a absorvente, e a reden\u00e7\u00e3o do mundo acabou sendo reduzida \u00e0 abstrata reden\u00e7\u00e3o da alma, ainda que formalmente se professasse a ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos. Todo interesse se reduziu a \u201cDeus e alma\u201d \u2013 e nada mais (<em>Deum et animam scire cupio, nihil aliud<\/em> \u2013 Sto Agostinho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda segundo Le Goff, o come\u00e7o do segundo mil\u00eanio conheceu certo apaziguamento e equil\u00edbrio com a natureza, o que permitiu S\u00e3o Francisco de Assis cantar com as demais criaturas \u201cirm\u00e3s\u201d, e Santo Tom\u00e1s podia pensar mais tranquilo sua TC com categorias ontol\u00f3gicas (LE GOFF, 1999, p. 7). A categoria aristot\u00e9lica de \u201ccausa\u201d, distinguindo uma causa \u201cprimeira\u201d, o Criador, e causas \u201csegundas\u201d no interior da cria\u00e7\u00e3o participando do ato criador divino \u2013 <em>participa\u00e7\u00e3o <\/em>como recebimento e colabora\u00e7\u00e3o \u2013, permitiu Santo Tom\u00e1s utilizar junto com o conceito de <em>creatio, <\/em>como um sin\u00f4nimo, o de <em>emanatio<\/em>, tomado de Plotino pela teologia crist\u00e3, sem que emana\u00e7\u00e3o tivesse algum sabor de pante\u00edsmo (<em>Summa Theologica <\/em>I-I, q.XLIV-XLV). Mas a TC continuou impenitente na hierarquia e submiss\u00e3o das criaturas, inclusive com o detalhe de que as superiores est\u00e3o mais pr\u00f3ximas do Uno \u2013 Deus e Criador \u2013 que est\u00e1 acima da hierarquia. Ora, quanto mais se desce na hierarquia mais se degradam as criaturas na multiplicidade e se afastam da perfei\u00e7\u00e3o divina. Al\u00e9m disso, o acento na \u201ccausa eficiente\u201d em detrimento da causa exemplar e, sobretudo, da causa final, empobreceu a TC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na religiosidade crist\u00e3 medieval, por\u00e9m, para al\u00e9m da teologia erudita, teve mais impacto a rela\u00e7\u00e3o existencial de car\u00e1ter fraternal de S\u00e3o Francisco com as demais criaturas, inclusive com o sol e a terra, que impregnou a espiritualidade de empatia criatural e deixou uma heran\u00e7a sempre poss\u00edvel de ser resgatada e experimentada at\u00e9 nossos dias. \u00a0<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, esse tempo medieval de certo apaziguamento e equil\u00edbrio n\u00e3o durou muito, pois desde os por\u00f5es da Idade M\u00e9dia, com forte emerg\u00eancia no otimismo renascentista e nos tempos da modernidade, j\u00e1 na forma de sequestro da hermen\u00eautica b\u00edblica, sobretudo sequestro reducionista de G\u00eanesis 1,26.28 \u2013 o dom\u00ednio do homem sobre as demais criaturas \u2013 firmou-se uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica de poder, submiss\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o por parte do ser humano sobre a natureza. Costuma-se citar a vis\u00e3o de Francis Bacon, um dos epistem\u00f3logos das ci\u00eancias modernas, de que <em>saber \u00e9 poder<\/em>. Tal modo de saber ou inten\u00e7\u00e3o no saber deixa para tr\u00e1s a teoria como contempla\u00e7\u00e3o para utiliz\u00e1-la como fonte de t\u00e9cnica, de tecnologia, apropria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio, no m\u00e9todo da ci\u00eancia, segundo Bacon, \u201ctorturar\u201d a natureza para que ela entregue seus segredos. H\u00e1 o sequestro da pr\u00f3pria ci\u00eancia, primog\u00eanita da modernidade, na aplicabilidade do conhecimento n\u00e3o simplesmente para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, mas para se apropriar e capitalizar, colonizar e acumular. Desde o s\u00e9culo XVI, seja de forma extrativista e mercantilista, genocida e escravagista, seja de forma industrial e financeira, estrutura-se e globaliza-se o sistema capitalista, que \u00e9 mais do que um sistema econ\u00f4mico: \u00e9 um modo de estar no mundo, de compreender o mundo, de se relacionar e se apropriar do mundo, inclusive abusando do mundo. Pode-se constatar que o capitalismo \u00e9 a seculariza\u00e7\u00e3o da cartesiana \u201cideia de infinito\u201d: Deus me aben\u00e7oa na miss\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de capital, como uma capitaliza\u00e7\u00e3o sem limites! Uma TC realmente crist\u00e3, nessas circunst\u00e2ncias, s\u00f3 \u00e9 relevante se for prof\u00e9tica, contracultural e eficaz para experimentar o mundo de outra forma, aquela que se inspira na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e nos melhores momentos da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 segundo uma hermen\u00eautica mais justa para com os textos e seus contextos. Ela pode ganhar novo frescor te\u00f3rico ao dialogar com tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocidentais, ind\u00edgenas e aut\u00f3ctones, que mant\u00eam uma postura mais respeitosa para com a alteridade das criaturas e de um mundo que existe muito al\u00e9m de um conjunto de recursos, como uma comunidade de vida inclusive anterior ao ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9. Para uma epistemologia adequada em termos de TC ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio, como um <em>a priori<\/em>, que se mantenha a reserva de alteridade e de mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o \u2013 <em>mysterium creationis<\/em> \u2013 mesmo estendida no espa\u00e7o e no tempo de forma hist\u00f3rica. Esse mesmo mist\u00e9rio permanece na compreens\u00e3o do mal e do sofrimento desproporcional \u2013 o <em>mysterium iniquitatis<\/em>. Mas permanece tamb\u00e9m, por um lado, na compreens\u00e3o ou aceita\u00e7\u00e3o da infinitude e da pot\u00eancia do amor, e, por outro lado, na compreens\u00e3o da finitude e conting\u00eancia de toda a realidade criatural, inclusive humana. Por isso a pr\u00f3pria TC confessa <em>a priori <\/em>sua limita\u00e7\u00e3o e necessidade de permanecer \u2013 assumindo rigorosamente a tautologia \u2013 na abertura de todo sistema aberto e de um saber incompleto. Enfim, ser\u00e1 necess\u00e1rio, com a temporalidade e a evolu\u00e7\u00e3o, com a historicidade e a abertura ao futuro, com os riscos de regress\u00e3o e de caos, manter o <em>car\u00e1ter processual<\/em>: uma TC deve considerar, sob o car\u00e1ter relacional de cria\u00e7\u00e3o e alteridade de um Criador, tr\u00eas dimens\u00f5es abrangentes na articula\u00e7\u00e3o de tempos e espa\u00e7os: o princ\u00edpio ou origem, a hist\u00f3ria ou drama de cria\u00e7\u00e3o e originalidade cont\u00ednua, e a esperan\u00e7a de uma finaliza\u00e7\u00e3o boa. Ou seja, uma origem como singularidade intranspon\u00edvel, um processo complexo e aberto em todos os est\u00e1gios do macro e dos microcosmos, e o vislumbre da finaliza\u00e7\u00e3o ou plenitude do processo para al\u00e9m de todo rel\u00f3gio ou calend\u00e1rio. \u00c9 o que Moltmann organiza como cria\u00e7\u00e3o<em> origin\u00e1ria<\/em>, cria\u00e7\u00e3o <em>continuada<\/em> e <em>nova<\/em> cria\u00e7\u00e3o \u2013 utilizando a categoria de <em>novum <\/em>a partir da promessa b\u00edblica de futuro absoluto, escatol\u00f3gico, a participa\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o no Reino da Gl\u00f3ria divina. Ou, escolasticamente falando: a <em>causa final<\/em> e raz\u00e3o \u00faltima, que \u00e9 tamb\u00e9m causa eficaz, \u00e9 o sentido e compreens\u00e3o \u00faltima de todo o processo e da sua origem (MOLTMANN,1993, p. 263 et seq.). Esta tese fundamental da TC encontra um paralelo na <em>nascividade<\/em> origin\u00e1ria, continuada e escatol\u00f3gica da condi\u00e7\u00e3o humana, tendo a ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, ou a transfigura\u00e7\u00e3o gloriosa de nossos corpos mortais na comunh\u00e3o divina, a mesma predestina\u00e7\u00e3o boa que o universo tem nos Novos C\u00e9us e Nova Terra. Estas duas afirma\u00e7\u00f5es da f\u00e9 crist\u00e3 t\u00eam uma conex\u00e3o intr\u00ednseca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10. \u00c9 produtiva tamb\u00e9m, em termos de TC, a utiliza\u00e7\u00e3o da categoria de Wolfhart Pannenberg, tomada do grego: <em>prolepsis<\/em> \u2013 antecipa\u00e7\u00e3o \u2013 que ele aplica \u00e0 antecipa\u00e7\u00e3o, na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, da ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos e come\u00e7o da plenitude escatol\u00f3gica. Isso permitiu a Moltmann colocar vigorosamente o futuro absoluto da cria\u00e7\u00e3o \u2013 o Reino da Gl\u00f3ria divina, trinit\u00e1ria \u2013 como o ponto inicial de compreens\u00e3o de todo o processo criacional, desde o seu primeiro instante originado na decis\u00e3o divina de \u201cpredestina\u00e7\u00e3o\u201d de toda a cria\u00e7\u00e3o \u00e0 comunh\u00e3o da gl\u00f3ria divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">11. A categoria teol\u00f3gica de <em>passivo divino<\/em>, tomada da teologia b\u00edblica de Gerhard Von Rad, tamb\u00e9m se aplica eficazmente em TC. Em sua <em>Teologia do Antigo Testamento<\/em>, Von Rad localiza no relato do \u00caxodo o acontecimento unificador que interpreta n\u00e3o s\u00f3 a hist\u00f3ria da f\u00e9 de Israel e a raz\u00e3o dos textos b\u00edblicos mais diversos e dispersos, mas tamb\u00e9m o sentido dos relatos da cria\u00e7\u00e3o do universo e do ser humano sobre a terra nos primeiros cap\u00edtulos do G\u00eanesis. E, no entanto, n\u00e3o est\u00e1 em foco uma autorrevela\u00e7\u00e3o direta do Criador ou do Libertador de Israel, pois Deus n\u00e3o necessita de revela\u00e7\u00e3o de si mesmo, e s\u00f3 se d\u00e1 a conhecer indiretamente, nos acontecimentos que ele cria e pelos quais ele salva. Sua revela\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>para n\u00f3s<\/em>, para a cria\u00e7\u00e3o, e por isso acontece no interior dos acontecimentos criadores e salv\u00edficos. Atrav\u00e9s do \u00caxodo e do acompanhamento de seu povo, sabemos que \u00e9 um Deus compassivo, libertador e criador de futuro desde a cria\u00e7\u00e3o. Por um lado, a estrutura do <em>passivo divino<\/em> \u00e9 pr\u00f3pria do radical n\u00e3o narcisismo de Deus e de sua <em>k\u00e9nosis <\/em>e <em>shekin\u00e1h<\/em> amorosa desde a cria\u00e7\u00e3o e desde seu acompanhamento hist\u00f3rico, e por outro lado \u00e9 a abertura \u00e0 corresponsabilidade humana, \u00e0 seriedade da liberdade, da decis\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o humana no mundo, na esperan\u00e7a de uma plena interlocu\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o com o Criador nos Novos c\u00e9us e Nova Terra, o Reino da Gl\u00f3ria.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O testemunho b\u00edblico da f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na variedade de g\u00eaneros liter\u00e1rios das Escrituras est\u00e1 expl\u00edcita ou implicitamente presente a confiss\u00e3o de f\u00e9 em um Deus Criador. Assim, encontramos os textos narrativos dos dois primeiros cap\u00edtulos do G\u00eanesis \u2013 ou dos onze primeiros cap\u00edtulos, segundo uma vis\u00e3o do drama da humanidade sobre a terra mais integrada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Nos textos de contempla\u00e7\u00e3o e louvor dos salmos h\u00e1 reconhecimento da alteridade do Criador, como tamb\u00e9m no texto enigm\u00e1tico e quase c\u00e9tico do Eclesiastes, na alus\u00e3o da sabedoria aliada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o no livro da Sabedoria, no texto dram\u00e1tico de J\u00f3, com a afirma\u00e7\u00e3o da obra divina de cria\u00e7\u00e3o como resposta \u00e0 trag\u00e9dia absurda da vida pessoal de J\u00f3 sofredor. Os textos prof\u00e9ticos recorrem ao Criador e \u00e0 sua fidelidade para afirmar a esperan\u00e7a e as possibilidades de nova cria\u00e7\u00e3o. Assim, a Escritura testemunha, de forma disseminada, variada e constante, uma postura de rela\u00e7\u00e3o com uma alteridade criadora. N\u00e3o \u00e9 originalidade absoluta, pois tal postura se encontra em muitas tradi\u00e7\u00f5es religiosas desde as mais arcaicas. Mas \u00e9 original o modo como se d\u00e1 sua interpreta\u00e7\u00e3o na Escritura. As imagens, analogias, met\u00e1foras, verbos de a\u00e7\u00e3o criadora, s\u00e3o eventualmente tomadas da cultura sem\u00edtica mais ampla e do entorno cultural, herdadas de culturas mais antigas da Mesopot\u00e2mia, do Egito, depois da P\u00e9rsia e do helenismo. H\u00e1, no entanto, um filtro da f\u00e9 <em>elo\u00edsta<\/em> e <em>javista, <\/em>com uma releitura que utiliza coerentemente os diversos elementos tomados das culturas, e que d\u00e3o originalidade \u00e0 B\u00edblia assim como a conhecemos. A estrutura m\u00edtica das narrativas de cria\u00e7\u00e3o na Escritura toma <em>mitologemas<\/em> existentes, figuras e categorias m\u00edticas \u2013 por exemplo, a \u00e1rvore e a fruta proibida, a serpente etc. \u2013 como tijolos de uma antiga casa para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova casa com nova arquitetura, um novo texto, com novo sentido e consequ\u00eancias originais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Novo Testamento, por sua vez, elabora a partir de Cristo e do Esp\u00edrito Santo uma nova interpreta\u00e7\u00e3o, uma releitura, das Escrituras judaicas. \u00c9 o m\u00e9todo de recapitula\u00e7\u00e3o ou recircula\u00e7\u00e3o. O Novo Testamento nos apresenta assim uma TC especificamente crist\u00e3, centrada em Cristo e integrante essencial da identidade crist\u00e3.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 A Palavra com Esp\u00edrito, origem da cria\u00e7\u00e3o<\/em> <\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio est\u00e3o <em>DABAR <\/em>e <em>RUAH<\/em>. \u201cDisse Deus, no princ\u00edpio, quando criou c\u00e9us e terra: fa\u00e7a-se&#8230;\u201d (Gn 1,1.3). Esta origem da cria\u00e7\u00e3o a partir da Palavra divina inaugura as Escrituras, e o primeiro vers\u00edculo de toda a B\u00edblia atravessa-a inteira at\u00e9 seu \u00faltimo vers\u00edculo, no final do Apocalipse, em que o Esp\u00edrito e a Esposa clamam: \u201cVem, Senhor!\u201d (Ap 22,20b), ou seja, torna a B\u00edblia inteira uma \u201cobra aberta\u201d testemunhando uma cria\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o chegou a seu termo. O primeiro vers\u00edculo da B\u00edblia n\u00e3o pode ser separado do seguinte, condi\u00e7\u00e3o eficaz da palavra: O Esp\u00edrito divino \u2013 a <em>Ruah <\/em>\u2013 na imagem de um imenso p\u00e1ssaro movendo suas asas d\u00e1 movimento e temperatura \u201c\u00e0s \u00e1guas\u201d, infus\u00e3o de vida juntamente com a ordem da Palavra sobre a cria\u00e7\u00e3o ainda em caos. A Palavra manda que se fa\u00e7a, separa e aben\u00e7oa, infunde consist\u00eancia e bondade pr\u00f3pria em cada ser, e, conforme interpreta\u00e7\u00e3o de Agostinho, cria o mundo e o tempo conjuntamente: \u201co mundo com o tempo e o tempo com o mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos diante de uma narrativa de sentido, e a pergunta, portanto, n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfica, mas de sentido teol\u00f3gico: o que isso significa teologicamente e quais as suas consequ\u00eancias? Por um lado, o respeito \u00e0 absoluta transcend\u00eancia divina do Criador. E por outro lado, a afirma\u00e7\u00e3o da f\u00e9 de que a cria\u00e7\u00e3o acontece a partir de uma decis\u00e3o criadora, pois a palavra prov\u00e9m de uma manifesta\u00e7\u00e3o pessoal, de uma vontade livre e incondicionada, que se manifesta naquilo que decide criar, e que captamos nas pr\u00f3prias criaturas como bondade criacional, intencionalidade que prov\u00e9m de sua bondade, de sua <em>eudok\u00eda <\/em>(Ef 1,5). Por isso podemos conhecer algo do Criador em cada criatura, e conhecer bem a criatura nos leva a uma boa ideia do Criador, uma afirma\u00e7\u00e3o agostiniana avalizada por Tom\u00e1s e mais tarde pelo Conc\u00edlio Vaticano I, na constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Dei Filius<\/em>, contra o exagero dos que tendiam a separar de tal forma a transcend\u00eancia divina que afirmavam n\u00e3o se conhecer nada de Deus a partir das criaturas ou da raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Criador age com Esp\u00edrito \u2013 <em>Ruah Yaweh <\/em>\u2013 tal como move a palavra dos profetas e as posturas libertadoras e ordenadoras suscitadas em Mois\u00e9s, em Samuel e em todos os que falam e agem com a pot\u00eancia do Esp\u00edrito. Portanto, o que o Criador profere tamb\u00e9m faz acontecer. E sua pot\u00eancia coincide com sua bondade, por isso o que cria \u00e9 bom, ganha bondade como consist\u00eancia e autonomia, bondade criatural. \u00c9 o que se pode entender da b\u00ean\u00e7\u00e3o que se inscreve em cada criatura \u2013 tudo o que ele faz \u00e9 bom. N\u00e3o se trata, segundo a narrativa, simplesmente de um impulso inicial, de uma cria\u00e7\u00e3o geral ainda indefinida para que a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o evolua autonomamente, mas se trata de uma cria\u00e7\u00e3o discriminada, cada criatura ganhando seu estatuto de criatura pela palavra criadora, que ser\u00e1 acompanhada de esp\u00edrito. Assim, segundo a dimens\u00e3o ecol\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 criatura in\u00fatil e sem sentido, sem bondade e gra\u00e7a pr\u00f3pria, e nada, ainda que fr\u00e1gil e mortal, \u00e9 desprez\u00edvel, pois o Criador, como confessa o s\u00e1bio, criou por amor e ama o que criou: \u201cTu amas tudo o que criaste [&#8230;] se alguma coisa tivesses odiado, n\u00e3o a terias feito. E como poderia subsistir alguma coisa, se n\u00e3o a tivesses querido?\u201d (Sb 11, 24-25a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TC b\u00edblica tem no primeiro cap\u00edtulo da Escritura uma <em>Ouverture <\/em>reunindo os principais eventos da hist\u00f3ria e, sobretudo, da Promessa de futuro feliz da cria\u00e7\u00e3o. Pois, segundo o final da narrativa, Deus tem seu eterno gozo sab\u00e1tico na cria\u00e7\u00e3o, como o amado repousa com gozo os olhos na sua amada. O s\u00e1bado \u00e9 o tempo sem uma a\u00e7\u00e3o criadora que d\u00ea subst\u00e2ncia ao tempo, assim como os tempos anteriores. O s\u00e1bado \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de um tempo atrav\u00e9s da b\u00ean\u00e7\u00e3o ao tempo. O Criador aben\u00e7oa e assim cria um tempo especial, indicador do sentido, da dire\u00e7\u00e3o, da promessa de gozo de toda cria\u00e7\u00e3o e de toda a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o: a feliz conviv\u00eancia no gozo sab\u00e1tico da cria\u00e7\u00e3o reunida em comunh\u00e3o com o Criador \u2013 comunidade de vida e n\u00e3o hierarquia de seres. Assim, ao trabalho e \u00e0 expans\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, com perseveran\u00e7a e paci\u00eancia, correspondem a promessa e a converg\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o da reuni\u00e3o e do gozo da comunidade sab\u00e1tica. Em termos simples: a beatitude, a felicidade da comunh\u00e3o sab\u00e1tica, de estar face a face com Deus, \u00e9 a raz\u00e3o teol\u00f3gica, causa final da cria\u00e7\u00e3o, segredo de sua bondade, pelo que valem a pena tamb\u00e9m os sofrimentos do percurso hist\u00f3rico.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 A ordem ecol\u00f3gica e maternal da cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 pr\u00f3prio de narrativas cl\u00e1ssicas terem uma ordem l\u00f3gica de sentido. Pode-se encontrar na primeira p\u00e1gina da Escritura uma ordem de fecundidade ecol\u00f3gica: cada criatura, a partir do seio primordial da luz, se torna tamb\u00e9m seio, um espa\u00e7o e condi\u00e7\u00e3o de fecundidade para as criaturas seguintes. Espa\u00e7os ecol\u00f3gicos de fecundidade, que t\u00eam no seio materno o primeiro espa\u00e7o humano e que servem analogicamente de par\u00e2metro. Assim, depois do seio inaugural da luz como condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de toda criatura, h\u00e1 as \u201cgrandes \u00e1guas\u201d, a hidrosfera que tamb\u00e9m analogicamente \u00e9 experi\u00eancia humana origin\u00e1ria no l\u00edquido amni\u00f3tico, hidrosfera oce\u00e2nica de nutri\u00e7\u00e3o. Da hidrosfera passamos \u00e0 atmosfera, ao seio da respira\u00e7\u00e3o. E com a separa\u00e7\u00e3o da \u201cterra seca\u201d se criam novos seios, de plantas e animais terrestres que respiram, e se estabelecem assim os tr\u00eas espa\u00e7os ou seios de seres vivos: na \u00e1gua, na terra e no ar. Sobre a terra, animais n\u00e3o humanos e humanos t\u00eam em comum a nutri\u00e7\u00e3o de plantas, sementes e frutos. Curiosamente, a alimenta\u00e7\u00e3o com carne animal n\u00e3o tem, segundo o relato b\u00edblico, uma origem criacional, \u00e9 mais tarde uma licen\u00e7a em momento cr\u00edtico da decad\u00eancia humana, dada a No\u00e9 ap\u00f3s a devasta\u00e7\u00e3o da terra pelo dil\u00favio, e isso lhe custar\u00e1 a inimizade e o pavor animal (cf. Gn 9,2-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os c\u00e9us s\u00e3o parte essencial da cria\u00e7\u00e3o em conjunto com a terra, segundo o primeiro vers\u00edculo b\u00edblico, que se repete no final do relato e abre o cap\u00edtulo seguinte, mas como um elemento inicial sem informa\u00e7\u00f5es de detalhes em nenhuma das men\u00e7\u00f5es. Os c\u00e9us, no conjunto de textos espalhados pela B\u00edblia, s\u00e3o o espa\u00e7o imenso da habita\u00e7\u00e3o do Criador com a sua cria\u00e7\u00e3o, e s\u00f3 s\u00e3o conhecidos de forma t\u00e3o indireta quanto o pr\u00f3prio Criador, somente a partir de seus enviados quando descerem \u00e0 terra: luz, calor, nuvens e sombra, dia e noite, chuvas, e finalmente anjos, enviados como parceiros dos seres humanos e de seu trabalho sobre a terra. Pode-se interpretar tal discri\u00e7\u00e3o como \u201cn\u00e3o narcisismo divino\u201d, um \u201cpassivo divino\u201d, s\u00f3 conhecido atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es benfazejas, orientadoras ou ordenadoras sobre a terra. Como em uma alian\u00e7a esponsal, a terra, que ao contr\u00e1rio dos c\u00e9us \u00e9 a realidade vis\u00edvel e limitada, recebe a pot\u00eancia e a provid\u00eancia divina atrav\u00e9s do \u201cex\u00e9rcito\u201d celeste, desde as chuvas at\u00e9 anjos \u2013 estes s\u00f3 conhecidos nos eventos de parceria, desde Abra\u00e3o, J\u00f3, Tobias, at\u00e9 a abertura do NT, na visita a Maria e nos sonhos de Jos\u00e9, depois com Jesus no Gets\u00eamani, e Pedro na pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os c\u00e9us n\u00e3o ficam, segundo a narrativa global das Escrituras, apenas como uma retaguarda e uma condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de fecundidade para a terra. \u00c9 tamb\u00e9m para onde se dirige o olhar das criaturas, face a face mais amplo, entre c\u00e9us-e-terra. \u00c9 o sentido e a meta para onde a cria\u00e7\u00e3o continuada, hist\u00f3rica, terrestre, se dirige e volta seu olhar: para a comunh\u00e3o de novos c\u00e9us e nova terra. Sem os c\u00e9us, a terra d\u00e1 somente voltas sobre si mesma e perde orienta\u00e7\u00e3o e sentido, perde a promessa e a esperan\u00e7a. Pode-se assim interpretar cada criatura como seio maternal para as criaturas seguintes na cria\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, mas tamb\u00e9m como seio de comunh\u00e3o sab\u00e1tica para onde se dirige escatologicamente o desejo de toda criatura na nova cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 A curvatura \u00e9tica do humano, imagem e semelhan\u00e7a do Criador<\/em> <\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ser humano, tanto no final da primeira narrativa como na segunda narrativa dos dois primeiros cap\u00edtulos do G\u00eanesis, est\u00e1 reservada uma cria\u00e7\u00e3o diferenciada. N\u00e3o \u00e9 nem melhor e nem o topo de uma hierarquia, \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o de corresponsabilidade pelo conjunto da cria\u00e7\u00e3o na terra. E para tanto, um aliado do Criador e das criaturas celestes. Assim se pode compreender a \u201cimagem e semelhan\u00e7a\u201d do ser humano com Deus: uma voca\u00e7\u00e3o e uma responsabilidade, o cuidado dos outros seres vivos \u2013 come\u00e7ando por nomear os animais, traz\u00ea-los \u00e0 conviv\u00eancia na linguagem \u2013 e a voca\u00e7\u00e3o ao cultivo da terra, do jardim-pomar, em parceria com as chuvas celestes. Criado pela Palavra na condi\u00e7\u00e3o de ser que tem palavra, capaz de resposta, torna-se tamb\u00e9m interlocutor e capaz de alian\u00e7a e corresponsabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira alian\u00e7a e ao mesmo tempo rela\u00e7\u00e3o de alteridade criatural se d\u00e1 entre o homem e a mulher, da mesma carne e ess\u00eancia, mas tamb\u00e9m, pela palavra e pela sauda\u00e7\u00e3o, se d\u00e1 no reconhecimento de alteridade e transcend\u00eancia. No segundo relato, o ser humano, tomado da terra \u2013 <em>Ad\u00e3o <\/em>\u2013 habitado pelo sopro divino, a <em>Ru\u00e1h<\/em>, ganha como sua alteridade o outro ser humano, e cuja rela\u00e7\u00e3o tornar\u00e1 o humano um \u201cseio\u201d: <em>Eva, <\/em>m\u00e3e. A raiz hebraica indica um \u201cvazio\u201d, um espa\u00e7o de ren\u00fancia de si para que outro possa vir a ser. \u00c9 o nascimento do ser \u00e9tico, do humanismo, espa\u00e7o em <em>k\u00e9nosis <\/em>para se tornar seio e fonte de vida para outros. Pode-se assim concluir a cria\u00e7\u00e3o com coer\u00eancia: toda criatura se torna seio maternal para novas criaturas, desde o seio da luz, depois das \u00e1guas, do ar. O ser humano, no entanto, \u00e9 a curvatura \u00e9tica da cria\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 vocacionado a ser o seio de responsabilidade pela hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o inteira na terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto todos os seres vivos s\u00e3o vocacionados \u00e0 conviv\u00eancia sab\u00e1tica, o ser humano \u00e9 convocado \u00e0 responsabilidade pela condu\u00e7\u00e3o a essa conviv\u00eancia. Na primeira narrativa, a distin\u00e7\u00e3o entre a rela\u00e7\u00e3o com animais e a rela\u00e7\u00e3o entre seres humanos \u00e9 que os primeiros participam da <em>conviv\u00eancia<\/em> enquanto os segundos s\u00e3o seres de <em>correspond\u00eancia, <\/em>correspons\u00e1veis pela conviv\u00eancia. J\u00e1 na segunda narrativa, a <em>ajuda terrestre <\/em>representada pela <em>m\u00e3e<\/em> dos filhos de <em>Ad\u00e3o<\/em> corresponde perfeitamente \u00e0 <em>ajuda celeste<\/em>, representada n\u00e3o s\u00f3 pelas chuvas e depois pelos anjos, mas eminentemente pela <em>Ru\u00e1h<\/em>, reconhecida tamb\u00e9m na <em>Shekin\u00e1h<\/em>, a nuvem que envolve misericordiosa o povo no deserto e no templo, enfim o <em>Par\u00e1clito<\/em>, o Esp\u00edrito consolador e confortador que acompanha e incrementa a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De certa forma, o ser humano \u00e9 somente e inteiramente representado pela sua condi\u00e7\u00e3o de \u201cseio\u201d de responsabilidade, e, por isso, pela <em>M\u00e3e<\/em>, o que sugere a doutrina crist\u00e3 quando interpreta a antecipa\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria humana na figura de uma mulher e m\u00e3e terrena assunta aos c\u00e9us. Se todo ser humano, segundo Agostinho, \u00e9 <em>Ad\u00e3o<\/em> at\u00e9 ser assumido pela gl\u00f3ria do <em>Novo Ad\u00e3o<\/em>, tamb\u00e9m todo ser humano tem a voca\u00e7\u00e3o de ser seio, de ser <em>Eva<\/em>, at\u00e9 a glorifica\u00e7\u00e3o de todos na <em>Nova Eva.<\/em> Assim, Ad\u00e3o e Eva s\u00e3o categorias b\u00edblicas que ultrapassam completamente sexo e g\u00eanero, s\u00e3o dois modos da voca\u00e7\u00e3o e da ess\u00eancia humana, de cada ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar dos sequestros hermen\u00eauticos do verbo \u201cdominar\u201d, \u201csubmeter\u201d ou \u201creinar\u201d que descontextualizaram no passado o primeiro relato de cria\u00e7\u00e3o do ser humano e o salmo 8, a exegese contempor\u00e2nea traduz com seguran\u00e7a tais verbos por \u201cgovernar\u201d, segundo a raiz hebraica desses verbos e sobretudo o contexto do reinado em Israel cuja voca\u00e7\u00e3o era cuidar, defender e cumprir a vontade de Deus a respeito do povo de Israel por parte do rei. Da mesma forma, os seres humanos s\u00e3o colocados em uma alian\u00e7a de corresponsabilidade e de governo em vista da conviv\u00eancia sab\u00e1tica de toda a cria\u00e7\u00e3o, como indica a enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019<\/em> (cf. LS n. 65-69). N\u00e3o h\u00e1 no texto hierarquia de valor, e nem mesmo preocupa\u00e7\u00e3o de ordem ontol\u00f3gica, mas voca\u00e7\u00e3o e responsabilidade, cria\u00e7\u00e3o \u00e9tica. O ser humano inaugura, segundo esta hermen\u00eautica b\u00edblica, a dimens\u00e3o \u00e9tica da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.4 O crescimento do humano, sua polival\u00eancia e a pedagogia divina<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mandato de crescer e se multiplicar acompanha a cria\u00e7\u00e3o inteira como sua exuber\u00e2ncia e expans\u00e3o. \u00c0 multiplica\u00e7\u00e3o humana, no entanto, se pode acrescentar um dado contextual delicado, a dif\u00edcil sobreviv\u00eancia humana, sobretudo tribal, complicada inclusive por guerra e destrui\u00e7\u00e3o, que torna o dever de se multiplicar uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro cap\u00edtulo do G\u00eanesis, embora celebrizado pelo imagin\u00e1rio que ilustra a doutrina do pecado original, introduz na narrativa a inicia\u00e7\u00e3o humana atrav\u00e9s da prova, assim como Abra\u00e3o, Mois\u00e9s, Elias, e o pr\u00f3prio Jesus t\u00eam suas provas inici\u00e1ticas. A prova \u00e9 fonte de discernimento, de autotranscend\u00eancia, mas tamb\u00e9m de integra\u00e7\u00e3o do limite criatural, da fadiga, da dor e trabalho de viver, enfim da mortalidade, mas sobretudo da consci\u00eancia e da livre escolha e suas consequ\u00eancias. Assim, segundo o terceiro cap\u00edtulo do G\u00eanesis, a criatura humana, vinda do p\u00f3 da terra, gra\u00e7as \u00e0 <em>Ru\u00e1h<\/em>, \u00e0 media\u00e7\u00e3o da <em>ajuda <\/em>do outro humano \u2013 a <em>m\u00e3e-eva<\/em> \u2013 e ao mais sagaz dos animais, a serpente, chega \u00e0 sua maturidade, devendo ent\u00e3o assumir o risco de sua exist\u00eancia e de sua responsabilidade, a polival\u00eancia impl\u00edcita em suas possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta, o pecado, \u00e9 uma possibilidade ad\u00e2mica que se concretiza tragicamente no fratric\u00eddio cometido pelo primog\u00eanito, <em>Caim<\/em>, que tem a \u201cfor\u00e7a divina\u201d, segundo a etimologia do nome que a m\u00e3e lhe deu, mas que ao inv\u00e9s de cuidar de seu irm\u00e3o fr\u00e1gil \u2013 <em>Abel<\/em>, que, como <em>Eva<\/em>, tem a mesma raiz hebraica sugerindo o vazio, agora da inconsist\u00eancia \u2013 Caim decide matar. Com Caim e sua heran\u00e7a, ao longo de sua descend\u00eancia \u2013 da qual tamb\u00e9m todo ser humano prov\u00e9m \u2013 a desumanidade e a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9tica atingem o governo, a constru\u00e7\u00e3o de cidades <em>cainescas <\/em>\u2013 a primeira foi constru\u00edda por Caim para sua descend\u00eancia \u2013 que se caracterizam por muralha e torre militar, a crescente viol\u00eancia de humanos entre si e de humanos em rela\u00e7\u00e3o aos outros seres vivos at\u00e9 atingir a terra inteira com a imagem do dil\u00favio. A cultura, o ambiente, tudo se contamina com a falta de \u00e9tica humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Criador n\u00e3o permanece indiferente, por\u00e9m, ao crescimento da viol\u00eancia e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o em sua cria\u00e7\u00e3o, mas assume para si essa viol\u00eancia, e assim tamb\u00e9m coloca novos limites e novas provas, abre continuamente um espa\u00e7o, uma oportunidade e um caminho novo para a criatura humana, desde a promessa ad\u00e2mica, a marca de prote\u00e7\u00e3o a Caim, o arco-\u00edris e a permiss\u00e3o de comer animais a No\u00e9, como, na Lei, a permiss\u00e3o do div\u00f3rcio (BARBAGLIO, 1991, p. 27-56) Finalmente, a men\u00e7\u00e3o ao surgimento de diferentes povos e l\u00ednguas que mant\u00eam a ambival\u00eancia de riqueza cultural da cria\u00e7\u00e3o, por um lado, e confus\u00e3o, fragmenta\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o de estranheza e hostilidade, por outro lado. O Criador, assumindo para si a viol\u00eancia da criatura, arrisca a \u201cbifrontalidade\u201d ou a ambiguidade de uma figura ben\u00e9vola e violenta, ainda que de forma assim\u00e9trica, sempre com um passo a mais de benevol\u00eancia sobre a pr\u00f3pria viol\u00eancia, e que s\u00f3 a pedagogia no tempo ir\u00e1 separar como o joio e o trigo e superar toda viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossa cultura cient\u00edfica, estas narrativas n\u00e3o coincidem com a evolu\u00e7\u00e3o da realidade, s\u00e3o narrativas m\u00edticas <em>etiol\u00f3gicas<\/em>, que d\u00e3o sentido, ou seja, a dire\u00e7\u00e3o para onde somos convocados a continuar a cria\u00e7\u00e3o superando provas e limites. Al\u00e9m disso, elas indicam o modo de provid\u00eancia divina junto \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o. Por isso as narrativas m\u00edticas <em>escatol\u00f3gicas <\/em>s\u00e3o centrais para a TC. As Escrituras hebraicas oferecem essas narrativas etiol\u00f3gicas como um grande contexto de fundo para come\u00e7ar, no cap\u00edtulo doze, com a promessa a Abra\u00e3o, a hist\u00f3ria do povo de Israel. A categoria de <em>promessa<\/em>, que conduz a voca\u00e7\u00e3o abra\u00e2mica de Israel, central tamb\u00e9m no \u00eaxodo e no profetismo, des\u00e1gua no an\u00fancio e aproxima\u00e7\u00e3o do Reino de Deus em Jesus, enfim no texto apocal\u00edptico da promessa de Novos C\u00e9us e Nova Terra. A TC b\u00edblica \u00e9 uma hermen\u00eautica dessas narrativas e suas categorias.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.5 O Primog\u00eanito da Cria\u00e7\u00e3o: o Novo Ad\u00e3o e o Novo Caim<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O NT centra a TC na figura do Messias. De forma lit\u00fargica, com os c\u00e2nticos de Colossenses 1,15-20 e de Ef\u00e9sios 1,3-14, completado por Ef\u00e9sios 1,20-23; 2,14-18, a teologia das cartas paulinas recapitula a cria\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria e a sua plenitude em Cristo. As imagens e afirma\u00e7\u00f5es extremamente compactas t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de colocar tudo sob um ponto \u00fanico, que a tudo une e d\u00e1 consist\u00eancia, sentido e comunh\u00e3o, n\u00e3o como o \u201cuno\u201d abstrato e impessoal do pr\u00e9-socr\u00e1tico Parm\u00eanides, mas como a criatura por excel\u00eancia, que \u00e9 o pr\u00f3prio filho de Deus feito carne \u2013 ele \u201c\u00e9 antes de tudo e tudo nele subsiste [&#8230;] \u00e9 o Princ\u00edpio, o Primog\u00eanito [&#8230;] a Plenitude\u201d (Cl 1, 17-19). Assim, ele \u00e9 tamb\u00e9m o reconciliador, o pacificador, a unidade do que est\u00e1 disperso. Paulo, que batalhou pela unidade de um s\u00f3 cristianismo de judeus e gentios, combateu a tend\u00eancia grega ao gnosticismo insistindo na carne e na condi\u00e7\u00e3o \u201cescandalosamente\u201d humana do Filho de Deus, cabe\u00e7a de toda a cria\u00e7\u00e3o, mas combateu ainda mais a tend\u00eancia judaizante de redu\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas legais da tradi\u00e7\u00e3o, que reduziriam a experi\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o a um gueto de m\u00e9ritos sem a gra\u00e7a e a bondade que caracterizam a cria\u00e7\u00e3o. Tanto por sua experi\u00eancia como por seu aprendizado, Paulo tem a P\u00e1scoa de Jesus, a sua cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o, como chave de leitura n\u00e3o s\u00f3 para sua antropologia \u2013 na tipologia Ad\u00e3o-Novo Ad\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m para sua eclesiologia e sua TC. H\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria no evento centralizador da P\u00e1scoa, a origem no Pai, a pot\u00eancia no Esp\u00edrito, a forma e a realiza\u00e7\u00e3o na figura de Cristo (GIL ARBIOL, 2018, p. 67-78).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os textos evang\u00e9licos, narrativos, tomam t\u00edtulos e categorias messi\u00e2nicas presentes nas Escrituras para afirmarem a mesma centralidade e plena realiza\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, como da hist\u00f3ria, desde o cotidiano de Jesus na Galileia at\u00e9 Jerusal\u00e9m. A figura do Eleito, chamado a ser Luz das na\u00e7\u00f5es, do D\u00eautero-Isaias, ainda que pela obedi\u00eancia e pela paci\u00eancia no sofrimento, reverbera na narra\u00e7\u00e3o do batismo junto \u00e0 \u00e1gua e na confirma\u00e7\u00e3o junto \u00e0 montanha. O t\u00edtulo de \u201cFilho do Homem\u201d como juiz das na\u00e7\u00f5es do livro de Daniel se realiza a partir do perd\u00e3o dos pecados e da antecipa\u00e7\u00e3o do S\u00e1bado nas a\u00e7\u00f5es de Jesus, \u201cSenhor do S\u00e1bado\u201d. O sonho de Isa\u00edas 11, a reconcilia\u00e7\u00e3o do cordeiro e do le\u00e3o, acontece em torno do Messias no deserto, come\u00e7o de sua miss\u00e3o, segundo Marcos (Mc 1,13). E no momento mais tr\u00e1gico da cruz, o executor gentio confessa o Filho de Deus, o inocente Cordeiro sobre o qual converge toda a viol\u00eancia do mundo (Mc 15,39b). Sua ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 vit\u00f3ria sem viol\u00eancia, sem vencidos, n\u00e3o na forma de poder de espet\u00e1culo, mas de novo an\u00fancio, vit\u00f3ria do Novo Caim, capaz de cuidar e de participar sua for\u00e7a at\u00e9 aos seus matadores, redimindo at\u00e9 o velho Caim. Realiza assim, de forma plena, a condi\u00e7\u00e3o de criatura e seio das demais criaturas, de Novo Ad\u00e3o e Nova Eva, al\u00e9m de Novo Caim. A cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 assegurada, reconciliada, unificada, plenificada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O evangelista Jo\u00e3o, como Paulo, enfrentando a gnose ao sublinhar a carne e o sangue do Filho de Deus, tamb\u00e9m unifica a cria\u00e7\u00e3o em Cristo de forma compacta no pr\u00f3logo e depois ao longo das narrativas, com seu \u201ctrabalho\u201d para introduzir o s\u00e1bado real atrav\u00e9s da cura. Justifica o seu trabalho de cura em dia judaico de s\u00e1bado para poder, justamente ao sanar a criatura, introduzir no real e n\u00e3o s\u00f3 no ritual o S\u00e1bado: \u201cMeu Pai trabalha at\u00e9 agora e eu tamb\u00e9m trabalho\u201d (Jo 5,17). Assim, a f\u00e9 no Filho de Deus encontrado na carne humana \u00e9 tamb\u00e9m a f\u00e9 e a esperan\u00e7a na cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 sua plenitude antecipada nele. A iconografia crist\u00e3 representou esta centralidade luminosa de Cristo na cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na abertura do livro do Apocalipse, o Filho do Homem, \u201cPrimeiro e \u00daltimo\u201d \u00e9 descrito de forma sempre solene (cf. Ap 1,12-20). No meio do texto est\u00e1 a crian\u00e7a com a m\u00e3e, protegidos contra o Drag\u00e3o (cf. Ap 12). Terminando a B\u00edblia crist\u00e3, depois da alus\u00e3o a um ju\u00edzo de ordem universal e \u00e0 vis\u00e3o da Cidade Nova, n\u00e3o mais cainesca, agora no centro de Novos C\u00e9us e Nova Terra, de portas abertas e muros brilhantes, pra\u00e7a no lugar de templo etc., h\u00e1 a proclama\u00e7\u00e3o que torna toda a narrativa b\u00edblica uma obra aberta pela promessa e pela esperan\u00e7a: \u201cVem, Senhor Jesus!\u201d (Ap 22,20b).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 A cria\u00e7\u00e3o como paradigma universal: a doutrina crist\u00e3<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da hist\u00f3ria da teologia crist\u00e3, desde dentro do NT, os contextos provocaram a pensar o <em>mundo<\/em> ou toda a realidade, como cria\u00e7\u00e3o divina e, sobretudo, a compreender teologicamente o que significa um modo realmente b\u00edblico e crist\u00e3o de ser cria\u00e7\u00e3o e n\u00e3o outros modos que disputavam a ades\u00e3o da f\u00e9.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 Um Criador antes da cria\u00e7\u00e3o: o Pai e Poeta da cria\u00e7\u00e3o e suas duas m\u00e3os na<\/strong><strong> creatio ex nihilo<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade j\u00e1 enfrentada pelo livro de J\u00f3 se p\u00f5e aos apologetas do cristianismo de forma filos\u00f3fica: como combinar um \u00fanico Deus Criador e o mal presente em tudo? O dualismo e a <em>theomaquia<\/em>, batalha entre um princ\u00edpio divino do bem e um princ\u00edpio divino do mal, ainda que seja entre um deus bom e o diabo, pareceriam mais coerentes com a experi\u00eancia da realidade. Ao dualismo moral corresponderia um dualismo ontol\u00f3gico: mat\u00e9ria versus esp\u00edrito, c\u00e9us versus terra, vis\u00edvel versus invis\u00edvel etc. A resposta crist\u00e3, por um lado, come\u00e7a a elaborar uma teologia trinit\u00e1ria, com o bispo Santo Irineu (130-202) em seu texto <em>Contra as heresias<\/em>, IV, 7,4: O Criador, que det\u00e9m em suas m\u00e3os todo o poder divino sem concorr\u00eancia, tem \u201cduas m\u00e3os\u201d: o Filho e o Esp\u00edrito Santo, uma reinterpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de Irineu \u00e0 teologia judaica da cria\u00e7\u00e3o por interven\u00e7\u00e3o da palavra divina (<em>Dabar<\/em>) na Lei, e do Esp\u00edrito de Jav\u00e9 (<em>Ru\u00e1h<\/em>) na Sabedoria. Toda carne, seguindo a l\u00f3gica da encarna\u00e7\u00e3o do Filho, \u00e9 assim cria\u00e7\u00e3o divina tanto quanto o esp\u00edrito, o vis\u00edvel como o invis\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 conflito de poderes. O \u00fanico Deus \u00e9 Pai, e cria a partir de sua paternidade. Por isso se proclama primeiro que ele \u00e9 Pai, depois que tem todo poder e cria todas as coisas. O mal n\u00e3o \u00e9 eterno e nem criador, por isso ser\u00e1 abatido no devir do mundo, segundo a promessa de uma escatologia para toda a cria\u00e7\u00e3o. Dessa primeira reflex\u00e3o amadurece o primeiro artigo do <em>Credo <\/em>crist\u00e3o: <em>Um s\u00f3 Deus, Pai todo-poderoso, Criador (poet\u00e9s) de c\u00e9us e terra, de todas as coisas, vis\u00edveis e invis\u00edveis. <\/em>Ao primeiro artigo sobre o Pai Criador seguem o segundo sobre a encarna\u00e7\u00e3o e a hist\u00f3ria do Filho desde antes da cria\u00e7\u00e3o, na cria\u00e7\u00e3o e em sua escatologia, e o terceiro artigo sobre o Esp\u00edrito Santo na condu\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 vida eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra contribui\u00e7\u00e3o marcante da patr\u00edstica, a partir do mesmo Santo Irineu de Lyon e de Te\u00f3filo de Antioquia (MAY, 1994), foi a afirma\u00e7\u00e3o da <em>creatio ex nihilo<\/em>. Esta afirma\u00e7\u00e3o, que se estende at\u00e9 a escol\u00e1stica \u2013 <em>creatio ex nihilo est productio rei ex nihilo sui et subjecti <\/em>\u2013 se contrap\u00f5e \u00e0 cren\u00e7a de que a cria\u00e7\u00e3o provenha da subst\u00e2ncia do pr\u00f3prio Criador (<em>sui<\/em>) ou de alguma subst\u00e2ncia tipo <em>protoplasma <\/em>pr\u00e9-existente e coeterna (<em>subjecti<\/em>). Afirmar que antes da origem havia o <em>nada<\/em> \u00e9 intrigante, e faz levantar sempre de novo a pergunta: \u201cPorque h\u00e1 o ser e n\u00e3o o nada?\u201d, pois o nada pareceria mais l\u00f3gico do que o ser. Mas, por outro lado, o <em>nada <\/em>\u00e9 inacess\u00edvel \u00e0 experi\u00eancia humana. Bate-se assim numa singularidade, intranspon\u00edvel para a ci\u00eancia e seu m\u00e9todo. Em TC a afirma\u00e7\u00e3o da <em>creatio ex nihilo<\/em> continua sendo importante diante de especula\u00e7\u00f5es que sempre retornam, ao estilo do pante\u00edsmo de Spinoza no come\u00e7o da modernidade, mas deve ser combinada com a <em>creatio<\/em> <em>de Verbo<\/em>, que tem o sentido de uma livre e incondicionada decis\u00e3o transcendente e de um estabelecimento de rela\u00e7\u00e3o por parte do Criador. Uma cria\u00e7\u00e3o segundo a palavra, conformada ao Filho, indica tamb\u00e9m uma liberdade e uma decis\u00e3o n\u00e3o arbitr\u00e1rias, mas orientadas a partir das rela\u00e7\u00f5es trinit\u00e1rias. E com a <em>creatio de Spiritu<\/em>, cuja espa\u00e7o \u00e9 o <em>panente\u00edsmo <\/em>\u2013 tudo est\u00e1 em Deus, em seu seio divino, como a alteridade da crian\u00e7a no seio da m\u00e3e, e Deus est\u00e1 em tudo, como o envolvimento do seio e a nutri\u00e7\u00e3o que vitaliza o corpo da crian\u00e7a no seio da m\u00e3e. Essa compreens\u00e3o <em>panente\u00edsta <\/em>da cria\u00e7\u00e3o ganha verdade na pot\u00eancia, nutri\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 a teologia trinit\u00e1ria da cria\u00e7\u00e3o. Em que o Filho \u00e9 a face vis\u00edvel do Pai, e o Esp\u00edrito Criador \u00e9 <em>Uterum Patris <\/em>\u2013 uma analogia patr\u00edstica para al\u00e9m da sexualidade \u2013 o seio divino origin\u00e1rio no qual tudo se cria e cresce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conclus\u00e3o, se a TC repousa sobre a confiss\u00e3o da <em>creatio ex nihilo<\/em>, \u00e9 porque com ela se confessa tamb\u00e9m a <em>creatio ex plenitudo Christi<\/em>, segundo a primogenitura do Verbo encarnado, \u201cpor quem todas as coisas foram criadas\u201d, e sua primazia hist\u00f3rica e escatol\u00f3gica em toda a cria\u00e7\u00e3o. E <em>creatio de Spiritu Sancto<\/em>, como se confessa a respeito da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo no seio da Virgem Maria no <em>Credo<\/em>. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 mais especificamente a <em>fonte da vida <\/em>(<em>Dominum et vivificantem<\/em>), e nisso consiste seu poder e sua soberania incondicionada, assim como sua alteridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s criaturas, mesmo estando em tudo o que vive. Deus Trindade criadora \u00e9, assim, ao mesmo tempo, o Deus mais \u00edntimo do que o \u00edntimo de cada criatura e, no entanto, o Deus que transcende incondicionadamente toda a cria\u00e7\u00e3o. Entre a narrativa b\u00edblica, com a recapitula\u00e7\u00e3o do NT, e a doutrina crist\u00e3 h\u00e1, assim, um nexo intr\u00ednseco que, na era das ci\u00eancias modernas, tem consequ\u00eancias hermen\u00eauticas renovadas. Em \u00faltima an\u00e1lise, <em>porque h\u00e1 o ser e n\u00e3o o nada<\/em>, se compreende na gratuidade e na exuber\u00e2ncia do amor que decide convidar outros, as criaturas, \u00e0 felicidade da contempla\u00e7\u00e3o ou, melhor, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o face a face como conte\u00fado e promessa de bem-aventuran\u00e7a <em>ad extra Dei<\/em>.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2 O mist\u00e9rio do mal, o sofrimento, a provid\u00eancia divina e as dores de parto da cria\u00e7\u00e3o<\/em> <\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TC inclui, como assuntos intrinsecamente conexos, o problema do mal e a provid\u00eancia divina. A narrativa m\u00edtica e a filosofia abstrata j\u00e1 enfrentavam essas quest\u00f5es. As Escrituras tamb\u00e9m, de forma narrativa ou em salmos e textos de sabedoria, s\u00e3o fontes tradicionais. Nos primeiros momentos do cristianismo foi necess\u00e1rio pensar frente ao antagonismo entre estoicos e epicuristas. A doutrina crist\u00e3, dialogando com seus contextos, buscou equil\u00edbrio entre dois extremos, mas manteve duas tend\u00eancias, bem representadas por Agostinho na passagem \u00e0 Idade M\u00e9dia, e Leibniz na passagem \u00e0 modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) Segundo a vis\u00e3o agostiniana, o mal \u00e9 pecado e\/ou consequ\u00eancia do pecado. Deus, no coment\u00e1rio de Agostinho, criou um mundo necessariamente bom, aben\u00e7oado. Ele \u00e9 teologicamente otimista. Mas antropologicamente pessimista: o mal foi introduzido na cria\u00e7\u00e3o pelo pecado humano. \u00c9 uma possibilidade do livre arb\u00edtrio e sua desgra\u00e7a, pois s\u00f3 o bem conserva a liberdade saud\u00e1vel. Para Agostinho, at\u00e9 mesmo as desgra\u00e7as de ordem c\u00f3smica s\u00e3o alguma consequ\u00eancia ou puni\u00e7\u00e3o pelo mal cometido. A pergunta <em>Unde malum? <\/em>\u2013 de onde prov\u00e9m o mal? \u2013 deve ser corrigida pela pergunta <em>Unde malum faciamus? <\/em>\u2013 donde prov\u00e9m que <em>fa\u00e7amos<\/em> o mal? A doutrina do pecado original \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o agostiniana que entrou na espinha dorsal da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental para todo o mal. No entanto, a liberdade ferida n\u00e3o \u00e9 inteiramente cancelada em favor de uma fatalidade sem sa\u00edda. Mas precisa ser redimida e h\u00e1 um esfor\u00e7o para vencer o mal, pois, segundo o mesmo Agostinho, \u201cAquele que te criou sem ti n\u00e3o te salvar\u00e1 sem ti\u201d, e de alguma forma, explica o decreto sobre a justifica\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio de Trento, resta a colabora\u00e7\u00e3o para com a gra\u00e7a da reden\u00e7\u00e3o. Na cria\u00e7\u00e3o permanece inscrita a \u201clei eterna\u201d posta por Deus, e a reden\u00e7\u00e3o \u00e9 o ajustamento a essa lei eterna por obra da gra\u00e7a. H\u00e1, no entanto, uma hierarquia no ser como tamb\u00e9m na bondade, de tal forma que, para alcan\u00e7ar o que \u00e9 superior, \u00e9 necess\u00e1rio desprender-se do que \u00e9 inferior, e o m\u00faltiplo, que est\u00e1 em baixo numa hierarquia que se degrada, chega ao esvaziamento de ser e, por isso inteiramente mal, <em>malum privativum<\/em>. Em Agostinho, o mal moral engloba o mal ontol\u00f3gico. O rigorismo moral, asc\u00e9tico, est\u00e9tico, lit\u00fargico e pol\u00edtico, que reaparece repetidamente na hist\u00f3ria do cristianismo como um agostinianismo extremado e unilateral, tendo o movimento jansenista na modernidade como um exemplo que deixou rastros at\u00e9 recentemente, se apoia normalmente nesta vis\u00e3o do mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A vis\u00e3o de Leibniz, no come\u00e7o da modernidade, em sua <em>Teodiceia,<\/em> \u00e9 praticamente o inverso, embebida do novo humanismo. Segundo Leibniz, estamos em uma cria\u00e7\u00e3o necessariamente finita, e da finitude da natureza surgem os diversos males \u2013 a morte, a ignor\u00e2ncia, o sofrimento etc. A perfei\u00e7\u00e3o, segundo uma li\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica j\u00e1 estabelecida, cabe somente \u00e0 infinitude metaf\u00edsica, pr\u00f3pria de Deus. O mal \u00e9, sobretudo, imperfei\u00e7\u00e3o, limita\u00e7\u00e3o. Mas estamos \u201cno melhor dos mundos poss\u00edveis\u201d, a melhor possibilidade criadora de Deus. O que agora n\u00e3o \u00e9 perfeito e causa sofrimentos tem esperan\u00e7a no desenrolar do tempo, pois o futuro tem garantia de supera\u00e7\u00e3o. \u00c9 o come\u00e7o da ideia de progresso que vence limites e males, o grande mito da modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paul Ricoeur, em <em>O mal: desafio \u00e0 filosofia e \u00e0 teologia, <\/em>resume a linguagem sobre o mal mostrando primeiro que se deve distinguir entre o mal que se <em>comete, <\/em>e que \u00e9 imput\u00e1vel a um sujeito, e o mal que se <em>sofre, <\/em>que se recebe sem ser sujeito do mal que acomete e se abate sobre a v\u00edtima. Mas, num segundo momento, diante do <em>excesso <\/em>de mal que acomete, que submete ao sofrimento, a distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mant\u00e9m, e tudo se confunde no obscuro mist\u00e9rio que jaz no fundo de todo mal, at\u00e9 o menor \u2013 pois pode sempre deslizar para o <em>excesso<\/em> que mergulha no mist\u00e9rio, pois a l\u00f3gica do mal <em>que se comete<\/em>, que pode ser imputado a um sujeito culpado pelo mal e reparado pela puni\u00e7\u00e3o e castigo (que causa sofrimento reparat\u00f3rio ao sujeito que cometeu o mal), e o mal que <em>simplesmente se sofre <\/em>se junta no sofrimento excessivo e inocente enquanto excesso, mesmo em quem comete o mal. Assim, quando o mal que se sofre se torna incompreens\u00edvel por n\u00e3o se ter consci\u00eancia de alguma causa que o justifique, a pergunta n\u00e3o \u00e9 de car\u00e1ter ontol\u00f3gico ou c\u00f3smico e filos\u00f3fico \u2013 <em>Unde malum? <\/em>\u2013 mas \u00e9 de car\u00e1ter pessoal e existencial: <em>O que cometi de mal para merecer este sofrimento, para ser assim t\u00e3o castigado? <\/em>Assim, o mal <em>excessivo<\/em>, sem medida, sem merecimento \u00e0 vista, que foi o caso de J\u00f3, conduz ao <em>Mysterium iniquitatis. <\/em>Pode ser experimentado individualmente ou coletivamente, em todas as formas de trag\u00e9dia, e n\u00e3o \u00e9 novidade contempor\u00e2nea experimentar o mal excessivo tamb\u00e9m ecologicamente, como acontece em nossos dias. Estaria em jogo aqui a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o divina?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o sobre o mal na cria\u00e7\u00e3o nos conduz assim a outro tema conexo da doutrina crist\u00e3 que tem os mesmos precedentes, tanto em termos b\u00edblicos como nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas e filos\u00f3ficas: a <em>provid\u00eancia divina<\/em>. Trata-se de uma quest\u00e3o tamb\u00e9m l\u00f3gica: um Criador deve ter um prop\u00f3sito e cuidar que sua cria\u00e7\u00e3o chegue a termo. Em \u00faltima an\u00e1lise o <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em> resume assim: \u201cA Divina Provid\u00eancia consiste nas disposi\u00e7\u00f5es pelas quais Deus conduz com sabedoria e ama todas as criaturas at\u00e9 o seu fim \u00faltimo\u201d (CEC \u00a7 321). Essa curta conceitua\u00e7\u00e3o inclui na provid\u00eancia o bom governo, a conserva\u00e7\u00e3o e o incremento da cria\u00e7\u00e3o para que atinja seu fim. Coloca-se tamb\u00e9m, como o problema do mal, entre dois extremos: o mero acaso sem prop\u00f3sito que testemunha o caos, e a fatalidade, que \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de entender o destino e a necessidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A provoca\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima ao cristianismo em seus prim\u00f3rdios proveio do estoicismo e sua doutrina da provid\u00eancia divina \u2013 <em>pr\u00f3noia <\/em>\u2013 que se pode constatar na ordem c\u00f3smica, modelo e disposi\u00e7\u00e3o para a ordem moral, uma ordem divina inscrita de tal forma no universo que se torna um destino \u2013 <em>fatum stoicum. <\/em>Abra\u00e7ar a ordem, ainda que tr\u00e1gica, \u00e9 virtude e <em>amor fati<\/em>. Contra tal postura estoica, o epicurismo, no outro extremo, assentiu a uma boa ou m\u00e1 Fortuna completamente aleat\u00f3ria e casual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui tamb\u00e9m os grandes nomes da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 se posicionam. Suas reflex\u00f5es negam um mero acaso e afirmam uma \u201cdestina\u00e7\u00e3o\u201d divina que, no entanto, n\u00e3o dispensa a livre ades\u00e3o. Mas, como o mist\u00e9rio do mal, tamb\u00e9m os des\u00edgnios divinos n\u00e3o s\u00e3o inteiramente compreens\u00edveis no presente da hist\u00f3ria, somente a partir do seu final haver\u00e1 compreens\u00e3o completa. Ou, na met\u00e1fora agostiniana do Criador como um <em>Deus modulator<\/em>, a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua modula\u00e7\u00e3o e sinfonia, que tem acordes dissonantes, mas s\u00f3 no \u00faltimo acorde, final, a sinfonia inteira se aclara, inclusive as suas disson\u00e2ncias. Tom\u00e1s recorre novamente \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de causa primeira e causas segundas, e surpreende quando se trata da criatura humana, que tem como sua natureza e lei natural a racionalidade e a liberdade gra\u00e7as \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na lei eterna: Deus criou o ser humano de tal forma que seja capaz, mediante a racionalidade e a liberdade, de ser provid\u00eancia para si e para outros (<em>Suma Teol\u00f3gica<\/em>, I-II, q. XCI, a. II).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TC oferece recurso tanto para o enfrentamento do mist\u00e9rio do mal e do sofrimento como para a compreens\u00e3o do mist\u00e9rio da provid\u00eancia divina, n\u00e3o propriamente um misterioso <em>Designer Inteligente<\/em>, que seria um excesso de privil\u00e9gio da racionalidade teol\u00f3gica e um otimismo pouco realista, mas algo aparentemente mais simples e pessoal: as rela\u00e7\u00f5es trinit\u00e1rias nas quais se inserem a cria\u00e7\u00e3o e a provid\u00eancia. A narrativa trinit\u00e1ria \u2013 a disposi\u00e7\u00e3o do Pai que nos abre caminho de vida em seu Filho, com o convite ao seu seguimento de forma livre e respons\u00e1vel, como tamb\u00e9m a un\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito com seus carismas para que tenhamos a capacidade de seguimento \u2013 \u00e9 a forma crist\u00e3 mais adequada de desenvolver a compreens\u00e3o da divina provid\u00eancia em sua cria\u00e7\u00e3o. Nas rela\u00e7\u00f5es trinit\u00e1rias, desde a P\u00e1scoa de Jesus, se vislumbra a Nova Cria\u00e7\u00e3o sem mais l\u00e1grimas ou luto, e tecida de louvor sab\u00e1tico antecipado, portanto dominical, j\u00e1 inaugurada pela P\u00e1scoa do Filho, ainda em meio a um mundo frequentemente obscuro e doloroso.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.3 Est\u00e9tica, \u00e9tica e espiritualidade da cria\u00e7\u00e3o: a beleza, o cuidado, o louvor<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A TC tem inspira\u00e7\u00e3o e consequ\u00eancias. N\u00e3o \u00e9 suficiente, portanto, buscar o significado das narrativas, \u00e9 necess\u00e1rio perguntar pelas pr\u00e1ticas que o significado produz e que d\u00e3o a pensar. Para tanto, podemos nos servir dos tradicionais conceitos \u201cuniversais\u201d da ontologia medieval com um olhar escatol\u00f3gico sobre a cria\u00e7\u00e3o, universais concretizados e antecipados historicamente na singularidade irredut\u00edvel de cada acontecimento: a beleza, a bondade e a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, de fato, uma est\u00e9tica que envolve e ajuda a compreender a TC. Como constatou o f\u00edsico brasileiro Marcelo Gleiser (1997, p. 315 et seq.), a terra n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o formosamente redonda como geralmente se representa, mas sua representa\u00e7\u00e3o esf\u00e9rica perfeita \u00e9 mais efeito de nossa proje\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, pois antes mesmo da ci\u00eancia, o <em>cosmos <\/em>significou e guiou nosso olhar est\u00e9tico sobre o mundo como algo belo, que \u00e9 o significado mesmo de <em>cosmos. <\/em>A beleza, a boa forma, pode ser considerada como algo inscrito na cria\u00e7\u00e3o em vista de sua voca\u00e7\u00e3o, a de tornar-se um espa\u00e7o de beleza, de chegar irrenunciavelmente \u00e0 boa forma. Desde o mito mais arcaico at\u00e9 a ci\u00eancia moderna, no entanto, o abismo e o caos acompanham o cosmos. Em termos b\u00edblicos, como na teoria cient\u00edfica do caos, h\u00e1 inclusive certa dial\u00e9tica: a estrutura, a ordem e a beleza c\u00f3smica s\u00e3o precedidas e acompanhadas por uma condi\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica da realidade na sua base ou no seu entorno, mas o caos, em primeira inst\u00e2ncia, pode ser criativo e n\u00e3o apenas amea\u00e7ador e destrutivo. Assim tamb\u00e9m na P\u00e1scoa de Cristo, o sofrimento inocente, a cruz e a representa\u00e7\u00e3o de caos apocal\u00edptico narrado sobriamente por Marcos e Mateus, s\u00e3o uma est\u00e9tica do horror, do feio, do tr\u00e1gico, mas n\u00e3o s\u00e3o a palavra final a respeito da cria\u00e7\u00e3o, pois h\u00e1 a manh\u00e3 radiosa da P\u00e1scoa a partir de onde se d\u00e1 o universal <em>risus paschalis <\/em>evocado por Dante Alighieri ao entrar no Para\u00edso. Dante, contemplando a do\u00e7ura inebriante da luz e dos louvores, se extasia: \u201cParecia-me um sorriso do universo\u201d (C\u00e2ntico XXVII).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, a bondade da cria\u00e7\u00e3o \u2013 o bem que \u00e9 buscado em tudo o que se busca \u2013 est\u00e1 garantida desde o princ\u00edpio pela b\u00ean\u00e7\u00e3o, pelo olhar da cria\u00e7\u00e3o que v\u00ea toda criatura como boa. \u00c9, desde o princ\u00edpio, uma vis\u00e3o prof\u00e9tica sobre a maldade, especificamente sobre os maus que parecem ganhar a melhor parte no mundo, algo meditado pelo salmista e pelo s\u00e1bio com muita fadiga: h\u00e1 uma \u00e9tica irrenunci\u00e1vel inscrita na voca\u00e7\u00e3o de toda criatura \u00e0 bondade. Em tempos de exacerba\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, e de consequente crise ecol\u00f3gica, \u00e9 mesmo urgente uma TC que porte uma \u00e9tica planet\u00e1ria, o desejo e o clamor do bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da mesma forma, a verdade \u2013 que em termos b\u00edblicos n\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar algo cognitivo, \u00e9 antes ser sin\u00f4nimo de reconhecimento \u00e9tico e de justi\u00e7a. N\u00e3o pode ser reduzida \u00e0s ci\u00eancias, embora tenha nelas aliadas privilegiadas \u2013 coincide com a bondade do mundo. A verdade hist\u00f3rica que revela o ser humano em sua ambiguidade de Caim, decidindo alterar o amor e o cuidado pelo \u00f3dio e pela destrui\u00e7\u00e3o, necessita do socorro de sinais de um mundo finalmente verdadeiro, ou seja, aut\u00eantico e justo, reconhecido e respeitado em todas as suas criaturas, enfim redimido para chegar \u00e0 plena verdade. A TC pode ajudar a ci\u00eancia da alfabetiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica (Fritjof Capra) e, consequentemente, pode facilitar uma verdadeira \u201cconvers\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d (<em>Laudato Si\u2019 <\/em>n.216-221), n\u00e3o mais <em>aversio et abstentio mundi<\/em>, segundo antigo conceito de mundanidade, que era sin\u00f4nimo de vaidade e extravio pelo mundo, mas <em>conversio ad mundum<\/em>, amor \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as criaturas, segundo esta TC b\u00edblica e crist\u00e3, est\u00e3o destinadas \u00e0 comunh\u00e3o sab\u00e1tica com o Criador, onde beleza, bondade e verdade poder\u00e3o resplandecer na cria\u00e7\u00e3o em sua plenitude. No tempo da cria\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a compassiva da <em>Shekin\u00e1h <\/em>\u2013 a presen\u00e7a divina junto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, simbolizada na hist\u00f3ria de Israel atrav\u00e9s da coluna de nuvem e de fogo (cf. Ex 13,21-22; 40,34-38; Nm 9,15-23), uma forma criadora de o Esp\u00edrito conduzir a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o \u2013 convoca \u00e0 alian\u00e7a a criatura <em>ex nihilo <\/em>por excel\u00eancia, criada assim \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do Criador (LEVINAS, 1961, p. 29). Ao ser humano, a criatura que se experimenta <em>ex nihilo<\/em>, cabe a livre decis\u00e3o de ser o anjo ou o sat\u00e3 da terra, pois sua liberdade pode ser criativa ou destrutiva, ela integra sua dignidade e seu estatuto, ser verdadeiramente <em>homo sapiens <\/em>ou usar a sabedoria para destruir, como as armas nucleares que revelam o quanto se \u00e9 <em>homo demens<\/em>. O ser humano n\u00e3o est\u00e1 fatalmente conectado com nenhum cord\u00e3o umbilical ao Criador, n\u00e3o o encontra atr\u00e1s ou no fundo de sua ess\u00eancia. Prov\u00e9m \u201cdo nada\u201d, mas n\u00e3o \u00e9 atirado ao mero acaso, pois at\u00e9 o acaso pode ser possibilidade e espa\u00e7o criativo de alian\u00e7a e de organiza\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. O ser humano \u00e9, de certa forma, o <em>Designer <\/em>inteligente no mundo, mas, como mostrou Agostinho, n\u00e3o basta a raz\u00e3o: \u00e9 necess\u00e1rio que f\u00e9 e raz\u00e3o sejam conduzidas pelo amor e culminem no amor, pois o Criador, antes de ser Raz\u00e3o, \u00e9 Amor, e esta \u00e9 a raz\u00e3o de exist\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o: encontrar-se no amor. O cuidado amoroso e inteligente da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma ang\u00e9lica e mission\u00e1ria da imagem e semelhan\u00e7a do Criador sobre a terra. Esta \u00e9 a mais central consequ\u00eancia antropol\u00f3gica da narrativa teol\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Frei Luis Carlos Susin<\/em>, Ocap. PUC RS. Texto original portugu\u00eas. Recebido: 20\/03\/2020. Aprovado: 15\/09\/2021. Publicado: 24\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARNOULD, Jacques. <em>A teologia depois de Darwin<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARNOULD, Jacques. <em>Dieu, le singe et le big bang. <\/em>Quelques d\u00e9fis lanc\u00e9s aux chr\u00e9tiens par la science. Paris: Cerf, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M. 3.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARBAGLIO, Giuseppe. <em>Dio violento? <\/em>Lettura delle Scritture ebraiche e cristiane. Assis: Citadella, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, Leonardo. <em>A Terra na palma da m\u00e3o. <\/em>Uma nova vis\u00e3o do planeta e da humanidade. 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Campinas: Papirus, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUELLE, David. <em>Acaso e caos. <\/em>S\u00e3o Paulo: Unesp, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUIZ DE LA PE\u00d1A, Juan Lu\u00eds. <em>Teologia da Cria\u00e7\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Paulo: Loyola, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TORRES QUEIRUGA, Andr\u00e9s. <em>Recuperar la creaci\u00f3n. <\/em>Por una religi\u00f3n humanizadora. Santander: Sal Terrae, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIGO, Pedro. <em>Cria\u00e7\u00e3o e Hist\u00f3ria. <\/em>S\u00e3o Paulo: Vozes, 1988.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 A hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o e ci\u00eancias: quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas 2 O testemunho b\u00edblico da f\u00e9 na cria\u00e7\u00e3o 2.1 A Palavra com Esp\u00edrito, origem da cria\u00e7\u00e3o 2.2 A ordem ecol\u00f3gica e maternal da cria\u00e7\u00e3o 2.3 A curvatura \u00e9tica do humano, imagem e semelhan\u00e7a do Criador 2.4 O crescimento do humano, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-2535","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2535"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2535\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2536,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2535\/revisions\/2536"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}