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{"id":2531,"date":"2021-12-24T16:21:55","date_gmt":"2021-12-24T19:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2531"},"modified":"2021-12-24T16:21:55","modified_gmt":"2021-12-24T19:21:55","slug":"religiao-e-religioes-na-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2531","title":{"rendered":"Religi\u00e3o e religi\u00f5es na B\u00edblia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 A religi\u00e3o de Israel em seu contexto religioso e cultural<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1 A religi\u00e3o dos patriarcas e matriarcas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2 Religi\u00e3o na monarquia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.3 Religi\u00e3o no ex\u00edlio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.4 Religi\u00e3o no per\u00edodo persa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.5 Religi\u00e3o no per\u00edodo helenista<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A religi\u00e3o crist\u00e3 do Novo Testamento em seu contexto religioso e cultural<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 Jesus de Nazar\u00e9, encarnado, crucificado e ressuscitado<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 O movimento de Jesus e as primeiras comunidades crist\u00e3s<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 Comunidades na \u00c1sia Menor, Gr\u00e9cia e Roma<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.4 Igrejas crist\u00e3s<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto \u00e9 amplo e complexo, porque abrange Juda\u00edsmo e Cristianismo, com suas m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es, em intera\u00e7\u00e3o com in\u00fameros sistemas religiosos diferentes. Ao mesmo tempo, a unidade da religi\u00e3o b\u00edblica \u00e9 assegurada por um fio condutor que perpassa o c\u00e2non estabelecido e aceito, conhecido como Antigo e Novo Testamento, que compreende a B\u00edblia Hebraica e as Escrituras Crist\u00e3s. Para compreender a intera\u00e7\u00e3o com outras religi\u00f5es, servem as contribui\u00e7\u00f5es da arqueologia e de outros documentos, correspondentes \u00e0s \u00e9pocas da historiografia b\u00edblica. A an\u00e1lise se pauta por uma leitura cr\u00edtica e abrangente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto \u00e9 amplo e complexo, tamb\u00e9m, porque envolve Teologia e Hist\u00f3ria. Do ponto de vista teol\u00f3gico, a religi\u00e3o b\u00edblica parte do dado revelado, a f\u00e9 em Deus que se manifesta \u00e0 humanidade. Do ponto de vista hist\u00f3rico, essa religi\u00e3o se encarna em determinado contexto cultural, sofre adapta\u00e7\u00f5es e evolui, num processo de assimila\u00e7\u00e3o e de depura\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise prop\u00f5e estabelecer a ponte entre Teologia e Hist\u00f3ria, sem preju\u00edzo de uma ou de outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O assunto \u00e9 amplo e complexo, ainda mais, porque o texto b\u00edblico \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, em sua reda\u00e7\u00e3o final, \u00e9 fruto de longo per\u00edodo de tradi\u00e7\u00e3o vivida, narrada e escrita, com abrang\u00eancia de mais de um mil\u00eanio. Como resultado, o Antigo Testamento apresenta uma religi\u00e3o revelada, monote\u00edsta, javista. Essa religi\u00e3o prepara aquela do Novo Testamento, a revela\u00e7\u00e3o plena em Jesus Cristo, o messias encarnado como salvador da humanidade, com a proposta do Reino de Deus, realizado por meio da sua Igreja. A an\u00e1lise prop\u00f5e a leitura diacr\u00f4nica que explica a elabora\u00e7\u00e3o desse processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 A religi\u00e3o de Israel em seu contexto religioso e cultural<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o dominante, que podemos chamar a religi\u00e3o de Israel (Juda\u00edsmo), \u00e9 evolutiva e interiormente plural, em confronto com o mundo religioso interno (tradi\u00e7\u00f5es cananeias e israelitas antigas) e externo (desde as religi\u00f5es eg\u00edpcias e mesopot\u00e2micas at\u00e9 as persas \u2013 iranianas \u2013 e hel\u00eanico-romanas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa din\u00e2mica da religi\u00e3o de Israel passa por diversas etapas, de acordo com o processo evolutivo do povo b\u00edblico. Essas etapas s\u00e3o condicionadas por acontecimentos hist\u00f3ricos marcantes e por contatos com civiliza\u00e7\u00f5es diferentes. Os estudos que apresentam a \u201cHist\u00f3ria da religi\u00e3o de Israel\u201d estabelecem periodiza\u00e7\u00e3o mais ou menos similar, como seguida nesta apresenta\u00e7\u00e3o: pr\u00e9-estado, estado, ex\u00edlio, per\u00edodo persa e per\u00edodo helenista (ALBERTZ, 1999; FOHRER, 1982; GUNNEWEG, 2005; RENCKENS, 1969).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.1 A religi\u00e3o dos patriarcas e matriarcas<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">As origens de Israel e de sua religi\u00e3o devem ser buscadas na terra de Cana\u00e3, a partir do sistema tribal familiar. Foi dentro do territ\u00f3rio cananeu e em seu contexto cultural que se desenvolveu a religi\u00e3o dos hebreus, com a participa\u00e7\u00e3o de diversos grupos tribais oriundos de fora, al\u00e9m da influ\u00eancia das religi\u00f5es dos povos vizinhos (SCHWANTES, 2008, p. 31-33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e9-hist\u00f3ria de Israel \u00e9 caracterizada pelo tribalismo, sistema este que continuou resistindo mesmo sob os regimes posteriores. A tribo representa a fam\u00edlia ampliada, isto \u00e9, cada tribo se comp\u00f5e de cl\u00e3s que, por sua vez, re\u00fanem diversas fam\u00edlias. A liga tribal se baseia na consanguinidade, embora possa integrar cl\u00e3s diferentes. Esses grupamentos resistem h\u00e1 mil\u00eanios, como semin\u00f4mades ou sedent\u00e1rios, vivendo nas estepes, \u00e0 margem das cidades. Sua subsist\u00eancia b\u00e1sica \u00e9 o pastoreio. S\u00e3o conhecidos tamb\u00e9m como grupos abra\u00e2micos, por ter no personagem Abra\u00e3o o seu principal representante (GERSTENBERGER, 2007, p. 32-33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sistema, os eventos mais valorizados s\u00e3o os relacionados \u00e0 vida familiar, tais como nascimento, circuncis\u00e3o, matrim\u00f4nio e sepultamento. O culto normalmente \u00e9 exercido por um membro da fam\u00edlia, que pode ser o pai, como Abra\u00e3o (Gn 17,23), ou as mulheres ou m\u00e3es, como S\u00e9fora (Ex 4,24-26), visto que n\u00e3o existe ainda sacerd\u00f3cio organizado. O altar \u00e9 edificado como local de culto, sagrado, mas provis\u00f3rio, como pr\u00f3prio de povos migrantes, a exemplo de Abra\u00e3o que constr\u00f3i altares comemorativos (Gn 12,7.8). Enquanto o altar \u00e9 o local de rito, as colunas de pedra s\u00e3o memoriais de eventos importantes na vida da pessoa ou da tribo, como fez Jac\u00f3 (Gn 35,14). O culto se liga a elementos da natureza, como aos carvalhos de Mambr\u00e9, nas hist\u00f3rias de Abra\u00e3o (Gn 13,18) e aos altares de pedra, como na prescri\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo da alian\u00e7a (Ex 20,25). N\u00e3o faltava o culto \u00e0s divindades caseiras, chamadas <em>terafim<\/em>, como os que Raquel tomou de seu pai (Gn 31,19.30) (SCHWANTES, 2008, p. 81-83).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o movimento de sedentariza\u00e7\u00e3o, foram se estabelecendo lugares sagrados, santu\u00e1rios em torno aos quais se confederaram as tribos, numa organiza\u00e7\u00e3o conhecida como anfictionia, termo grego que significa etimologicamente morada ao redor. Assim s\u00e3o conhecidos os santu\u00e1rios de Siqu\u00e9m, Betel, Hebron e Bersabeia, entre outros. Em Siqu\u00e9m, Abra\u00e3o constru\u00edra um altar como memorial de sua experi\u00eancia com Deus (Gn 12,6-7). Betel recorda especialmente Jac\u00f3, porque a\u00ed Deus, chamado El-de-Betel, lhe apareceu (Gn 31,13; 35,7). Hebron est\u00e1 associada a Abra\u00e3o, a Isaac e a Jac\u00f3 (Gn 35,27). Bersabeia era antigo local de culto cananeu e passou pela recorda\u00e7\u00e3o dos patriarcas e matriarcas (Gn 21,1-34) (RENCKENS, 1969, p. 69-76).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual Deus ou deuses veneravam as fam\u00edlias e tribos no per\u00edodo da pr\u00e9-hist\u00f3ria de Israel? N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias da invoca\u00e7\u00e3o ou presen\u00e7a do Deus Yhwh<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> nessas origens. Os textos b\u00edblicos que o mencionam s\u00e3o redigidos posteriormente, e refletem o monote\u00edsmo javista que predominou mais tarde. Tampouco h\u00e1 evid\u00eancias de um monote\u00edsmo ou henote\u00edsmo nos tempos patriarcais. Dois textos mencionam claramente que os antepassados adoraram outros deuses. A Mois\u00e9s, Deus diz que apareceu a Abra\u00e3o, a Isaac e a Jac\u00f3 como El Shaddai, e confirma: \u201cMas, pelo meu nome, Yhwh, n\u00e3o lhes fui conhecido\u201d (Ex 6,3).<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Nas palavras de Josu\u00e9: \u201cAl\u00e9m do rio habitavam outrora os vossos pais, Tar\u00e9, pai de Abra\u00e3o e de Nacor, e serviram a outros deuses\u201d (Js 24,2). H\u00e1 textos que se referem a uma ruptura com divindades diferentes. Jac\u00f3 prop\u00f5e a sua fam\u00edlia: \u201cLan\u00e7ai fora os deuses estrangeiros que est\u00e3o no meio de v\u00f3s, purificai-vos e mudai vossas roupas\u201d (Gn 35,2). Na chamada assembleia de Siqu\u00e9m, Josu\u00e9 prop\u00f5e ao povo: \u201cLan\u00e7ai fora os deuses aos quais serviram os vossos pais do outro lado do rio e no Egito, e servi a Yhwh\u201d (Js 24,14). H\u00e1 testemunho de cultos privados, \u201csacrificando nos jardins, queimando incenso sobre lajes\u201d (Is 65,3); com men\u00e7\u00e3o a deuses arameus, \u201cpreparais uma mesa para Gad, ofereceis mistura em ta\u00e7as cheias a Meni\u201d (v. 11). H\u00e1 detalhes do culto a <em>Ishtar<\/em>, a rainha dos c\u00e9us, prov\u00e1vel deusa familiar, pelas mulheres que declaram: \u201cPorque continuaremos a fazer tudo o que prometemos; oferecer incenso \u00e0 rainha do C\u00e9u e fazer-lhe liba\u00e7\u00f5es, como faz\u00edamos, n\u00f3s e nossos pais, nossos reis e nossos pr\u00edncipes, nas cidades de Jud\u00e1 e nas ruas de Jerusal\u00e9m\u201d (Jr 44,17) (GERSTENBERGER, 2007, p. 66-80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a de divindades femininas \u00e9 constatada em outros textos. As palavras de Yhwh a Gede\u00e3o ordenam: \u201cToma o touro de teu pai, o touro de sete anos, destr\u00f3i o altar de Baal que pertence a teu pai e quebra a <em>Ashera<\/em> que est\u00e1 ao lado\u201d (Jz 6,25). A presen\u00e7a de <em>Ashera<\/em>, que algumas B\u00edblias traduzem como \u201cposte sagrado\u201d, se refere, na verdade, a uma deusa conhecida tamb\u00e9m como Astarte, em outros textos b\u00edblicos (Jz 2,13), identificada como deusa do amor e da fecundidade, consorte de Baal e, segundo hip\u00f3teses arqueol\u00f3gicas, do pr\u00f3prio Yhwh (CORDEIRO, 2007, p. 1-22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As diversas fam\u00edlias ou cl\u00e3s tinham cada qual as suas divindades, como atestam alguns textos. Na moldura liter\u00e1ria da autoapresenta\u00e7\u00e3o divina, Yhwh aparece como: \u201co Deus dos vossos pais, o Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaac e o Deus de Jac\u00f3\u201d (Ex 3,16). Essa refer\u00eancia ao Deus (<em>elohim<\/em>) de quatro pessoas parece referir-se a quatro experi\u00eancias diferentes de Deus, ou possivelmente a quatro entidades religiosas diversas. Essas experi\u00eancias s\u00e3o resumidas na express\u00e3o \u201cDeus dos pais\u201d (Ex 3,13). Al\u00e9m de se associarem a pessoas diferentes, essas divindades possuem ep\u00edtetos pr\u00f3prios. O Deus de Isaac \u00e9 conhecido como o \u201cTemor de Isaac\u201d (Gn 31,43.53); o Deus de Jac\u00f3 \u00e9 o \u201cPoderoso\/Forte de Jac\u00f3\u201d (Gn 49,24; Is 49,26; 60,16; Sl 132,2.5). O Deus de Abra\u00e3o ser\u00e1 associado com \u201cDeus Todo-Poderoso\u201d (Gn 17,1). Ter\u00edamos, assim, tr\u00eas experi\u00eancias religiosas ou tr\u00eas teologias diferentes, cuja mem\u00f3ria foi conservada nos textos b\u00edblicos (SCHWANTES, 2008, p. 75-83).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa religi\u00e3o da pr\u00e9-hist\u00f3ria, assim como nas demais etapas da hist\u00f3ria de Israel, \u00e9 marcada por influ\u00eancias de in\u00fameros povos vizinhos. H\u00e1 men\u00e7\u00e3o aos arameus, como nas hist\u00f3rias de Jac\u00f3 (Dt 26,5; Gn 24-36); de midianitas, como na fam\u00edlia do sogro de Mois\u00e9s, Rag\u00fcel ou Jetro (Ex 2,16-22), tamb\u00e9m nomeado Hobab, o quenita (Jz 1,16; 4,11) e talvez com outras regi\u00f5es como o Norte da Ar\u00e1bia (SCHMIDT, 2004, p. 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O monote\u00edsmo javista, que configura a reda\u00e7\u00e3o final do Antigo Testamento, inicia-se com o evento do \u00eaxodo, associado \u00e0 teofania do Sinai. Anteriormente, os pais e m\u00e3es de Israel veneraram El, que era o deus principal do pante\u00e3o cananeu, e que foi posteriormente identificado com Yhwh. Muitos hebreus cultuaram o deus cananeu Baal, posterior arquirrival de Yhwh. A pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o de Yhwh representa um deus da tempestade, mais conforme ao imagin\u00e1rio cananeu. O Deus Yhwh, por sinal, est\u00e1 associado ao contexto do sogro de Mois\u00e9s, Jetro, sacerdote de Madi\u00e3 (Ex 18,1-12). O culto ao Deus do \u00eaxodo poderia ter chegado a Israel, portanto, pelo grupo de escravos libertos do Egito, ou mesmo pelos mercadores madianitas (R\u00d6MER, 2016, p. 72-73).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se concluir, pois, que o culto a Yhwh \u00e9 anterior a Israel, e vem de fora de Cana\u00e3. \u201cYhwh veio do Sinai, alvoreceu para eles de Seir, resplandeceu no monte Far\u00e3. Dos grupos de Cades veio a eles, desde o sul at\u00e9 as encostas\u201d (Dt 33,2). Essa regi\u00e3o sul corresponde ao territ\u00f3rio ocupado pelos madianitas, quenitas, bedu\u00ednos de Shasu. Em torno a esse Deus da montanha, os hebreus teriam desenvolvido o culto do Sinai. A esse culto \u00e9 associada a lei divina, no C\u00f3digo da Alian\u00e7a. Essa tradi\u00e7\u00e3o do Sinai, posteriormente, foi associada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do \u00caxodo. O Deus da montanha, manifestado nos fen\u00f4menos da natureza, passou a ser cultuado como o Deus da hist\u00f3ria, libertador da escravid\u00e3o do Egito (SILVA, 2004, p. 75-80).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.2 Religi\u00e3o na monarquia<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A confedera\u00e7\u00e3o das tribos em dire\u00e7\u00e3o a uma unidade ideal vai se consolidando em torno a um regime espec\u00edfico, conhecido como per\u00edodo dos ju\u00edzes, com dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de dois s\u00e9culos, mais ou menos entre 1220 e 1040 aC e com persist\u00eancia pelos s\u00e9culos futuros. Esse movimento de unifica\u00e7\u00e3o tribal corresponde a um processo de sedentariza\u00e7\u00e3o e, conjuntamente, de identifica\u00e7\u00e3o cultural e religiosa. Os relatos b\u00edblicos, principalmente dos livros de Josu\u00e9 e Ju\u00edzes, apresentam esse processo como luta pela conquista da terra, com ajuda da a\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, estabelecido na terra, este Israel sente necessidade de um regime mon\u00e1rquico, com um rei que exer\u00e7a a justi\u00e7a, \u201ccomo acontece em todas as na\u00e7\u00f5es\u201d (1Sm 8,5). A monarquia surgiu, portanto, como imita\u00e7\u00e3o dos reinos circunvizinhos, com tentativas diversas, que culminaram na un\u00e7\u00e3o de Saul, seguido de Davi e Salom\u00e3o. Ap\u00f3s esse tempo de monarquia unida, que teria durado cerca de um s\u00e9culo, mais ou menos de 1040 a 930 aC, divide-se o reino entre Israel Norte e Jud\u00e1 Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A monarquia introduz mudan\u00e7as em todos os sentidos na vida de Israel. Do ponto de vista pol\u00edtico, o cl\u00e3 \u00e9 suplantado pelo Estado. O Estado, por sua vez, se consolida como \u00fanica inst\u00e2ncia pol\u00edtica e jur\u00eddica. No aspecto econ\u00f4mico, aparece a pr\u00e1tica do tributarismo, com a concentra\u00e7\u00e3o de bens e produtos e, especialmente, com a cobran\u00e7a de impostos. Desenvolve-se o com\u00e9rcio, centralizado pelo Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o se conforma ao novo modelo pol\u00edtico por um lado e, por outro, a monarquia se adapta ao Deus Yhwh. O governo mon\u00e1rquico adquire car\u00e1ter sagrado, a exemplo dos reinos vizinhos. O rei se apresenta como representante da divindade. Deus \u00e9 o protetor do rei, e o povo passa a ser propriedade de Deus. O santu\u00e1rio e o templo s\u00e3o do rei. O sacerd\u00f3cio \u00e9 articulado como poder e como inst\u00e2ncia de apoio ao governante (SCARDELAI, 2008, p. 23-25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica religiosa desse per\u00edodo \u00e9 marcada pelo sincretismo. A popula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de Cana\u00e3 possu\u00eda uma religi\u00e3o tipicamente camponesa, com varia\u00e7\u00f5es do casal divino Baal e Astarte, que se adaptavam \u00e0s diversas necessidades da vida. As manifesta\u00e7\u00f5es religiosas se ligavam aos fen\u00f4menos da natureza e aos ciclos da vida humana e das atividades agr\u00edcolas. N\u00e3o faltavam pr\u00e1ticas degeneradas, como prostitui\u00e7\u00e3o e sacrif\u00edcio de crian\u00e7as. Nesse cen\u00e1rio campon\u00eas, era dif\u00edcil o Deus dos n\u00f4mades concorrer com as divindades sedent\u00e1rias (RENCKENS, 1969, p. 162-163).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realeza de Israel, entretanto, tenta se adequar ao javismo. Yhwh era Deus do deserto e da tempestade, nas origens, tendo assumido a fun\u00e7\u00e3o de libertador da escravid\u00e3o, no Egito, depois de guerreiro valente, na conquista, e assume, agora, a fun\u00e7\u00e3o de campon\u00eas, no sedentarismo. Enquanto a monarquia de Israel imita a das na\u00e7\u00f5es vizinhas, inclusive com apoio de sacerdotes e de profetas palacianos, o culto a Yhwh lhe confere um diferencial. Como respondeu Gede\u00e3o ao povo, numa tentativa de instituir a realeza: \u201cN\u00e3o serei eu quem reinar\u00e1 sobre v\u00f3s, nem tampouco meu filho, porque \u00e9 Yhwh quem reinar\u00e1 sobre v\u00f3s\u201d (Jz 8,23). Essa convic\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 o Senhor \u00e9 rei vai garantir o diferencial na orienta\u00e7\u00e3o dos diversos governantes da na\u00e7\u00e3o. Em vista disso, o rei \u00e9 representante de Deus, por\u00e9m est\u00e1 submisso \u00e0 lei divina. Ele tem o poder executivo e judici\u00e1rio, mas n\u00e3o o legislativo, visto que a Lei estava dada e cabia ao rei execut\u00e1-la (RENCKENS, 1969, p. 172).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem assegura o javismo como religi\u00e3o de Israel, durante a sequ\u00eancia dos v\u00e1rios monarcas, \u00e9 a profecia. Profetas havia tamb\u00e9m em outras monarquias da \u00e9poca, mas com a fun\u00e7\u00e3o de prestar apoio \u00e0 pr\u00f3pria realeza. Em Israel, os profetas assumem fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, para anunciar a proposta divina e denunciar os desmandos dos reis.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A profecia de Israel deixou uma contribui\u00e7\u00e3o \u00fanica para a hist\u00f3ria, com a mensagem centrada na justi\u00e7a. Em vista disso, os profetas tornaram-se guardi\u00e3es do javismo, consci\u00eancia cr\u00edtica da monarquia, desde a primeira hora. O profeta Samuel reprova a desobedi\u00eancia do rei Saul (1Sm 15,24); assim como Nat\u00e3 denuncia Davi (2Sm 12,1-10); e A\u00edas de Silo apoia a revolta contra Salom\u00e3o (1Rs 11,29-31). Essa tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica permanece durante toda a monarquia, com picos crescentes nos momentos de maior crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elias representa um momento particular do embate entre javismo e baalismo, em meados do s\u00e9culo IX aC. Naquele momento, as divindades Baal e Ashera tiveram seu culto incrementado em Israel, gra\u00e7as ao casamento do rei Acab com a rainha Jezabel, filha do rei de Tiro. O profeta Elias investe contra o rei Acab e a casa real: \u201cN\u00e3o sou eu o flagelo de Israel, mas \u00e9s tu e tua fam\u00edlia, porque abandonastes Yhwh e seguistes os baals\u201d (1Rs 18,18). Desafia os profetas de Baal no monte Carmelo (1Rs 18,20-40). Condena a rainha pelo suborno, assassinato e roubo contra o vinhateiro Nabot (1Rs 21,17-24). As a\u00e7\u00f5es de Elias, em vista de uma reforma javista, prosseguem com Eliseu, a quem ele transfere seu manto prof\u00e9tico, e com grupos conhecidos como \u201cfilhos de profetas\u201d ou \u201cirm\u00e3os profetas\u201d (2Rs 2,7-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse incremento do javismo ser\u00e1 refor\u00e7ado, no Norte, pelas profecias de Am\u00f3s e Oseias, um s\u00e9culo mais tarde, em meados do s\u00e9culo VIII aC. Am\u00f3s investe como le\u00e3o a rugir (Am 3,8), contra o santu\u00e1rio do rei, em Betel, e contra o seu sacerdote, Amasias (Am 7,10-17). Denuncia os crimes das na\u00e7\u00f5es vizinhas (Am 1-2) e do pr\u00f3prio Israel, seja a corrup\u00e7\u00e3o, o suborno e a explora\u00e7\u00e3o dos fracos. Anuncia o dia de Yhwh como um dia de trevas (Am 5,18-20). Prop\u00f5e uma \u00e9tica diferente, baseada na justi\u00e7a, o que ser\u00e1 um diferencial constante na tradi\u00e7\u00e3o religiosa de Israel, e pode ser sintetizado na formula\u00e7\u00e3o de Am\u00f3s: \u201cQue o direito corra como a \u00e1gua e a justi\u00e7a como um rio caudaloso\u201d (Am 5,24). Oseias levanta a voz no mesmo tom e no mesmo contexto hist\u00f3rico, atrav\u00e9s da met\u00e1fora da prostitui\u00e7\u00e3o, \u201cporque a terra se prostituiu constantemente, afastando-se de Yhwh\u201d (Os 1,2). Da\u00ed as cr\u00edticas aos cultos cananeus (Os 4,12-14); aos pedidos de ajuda ao Egito e \u00e0 Ass\u00edria (Os 7,8-12); \u00e0 pr\u00e1tica religiosa exterior, sem coer\u00eancia com a vida (Os 8,11-14). Toda essa situa\u00e7\u00e3o leva o profeta a concluir, em nome do Senhor: \u201cPorque \u00e9 o amor que eu quero e n\u00e3o sacrif\u00edcio, conhecimento de Deus mais do que holocaustos\u201d (Os 6,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, o profeta Isa\u00edas atua no Sul, por longo per\u00edodo, entre 740 e 700 aC, e assiste \u00e0 ascens\u00e3o da Ass\u00edria sobre Israel e sobre Jud\u00e1. Suas cr\u00edticas focam inicialmente contra a corrup\u00e7\u00e3o geral de Jud\u00e1 (Is 3,1-15); em seguida, contra as alian\u00e7as com Israel e S\u00edria (Is 7,1-9); depois contra a submiss\u00e3o de Jud\u00e1 \u00e0 Ass\u00edria (Is 20,1-6); e, por fim, sobre a invas\u00e3o fracassada da Ass\u00edria sobre Jerusal\u00e9m (Is 14,24-27). Com a queda da Samaria, o imp\u00e9rio ass\u00edrio destruiu o reino do Norte e com as sucessivas incurs\u00f5es militares, reduziu o Sul \u00e0 vassalagem. Com isso, introduziram-se os cultos estrangeiros, sobretudo ass\u00edrios, nos santu\u00e1rios do Norte, mas tamb\u00e9m em Jerusal\u00e9m. A tentativa de reforma pol\u00edtico-religiosa de Ezequias n\u00e3o impediu que continuassem as divindades cananeias, como Baal e Astarte, nem que se introduzissem outras estrangeiras como Ishtar, Shamash, Tamuz, com pr\u00e1ticas como prostitui\u00e7\u00e3o sagrada e sacrif\u00edcio de crian\u00e7as, levando \u00e0 consequente degrada\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se conclui pelas den\u00fancias prof\u00e9ticas, durante a monarquia, o culto a Yhwh estava longe de ser unanimidade. O que torna oficial o javismo \u00e9 a reforma de Josias, por volta de 622 aC. O rei se aproveita de um per\u00edodo de recrudescimento do imperialismo ass\u00edrio para empreender uma reforma pol\u00edtico-religiosa no reino de Jud\u00e1. Essa reforma se baseia no livro da Lei ou livro da alian\u00e7a (2Rs 22-23), identificado com o Deuteron\u00f4mio, e est\u00e1 expressa na teologia deuteronomista, que se resume em tr\u00eas pilares: um \u00fanico Deus, Yhwh; um Templo central, Jerusal\u00e9m; e um rei imperante, da dinastia de Davi. Essa teologia reafirma as tradi\u00e7\u00f5es javistas, como as promessas aos patriarcas, a liberta\u00e7\u00e3o do Egito, a posse da terra e a alian\u00e7a com Davi, como se expressa na profiss\u00e3o de f\u00e9 (Dt 26,5-10). O Templo de Jerusal\u00e9m centraliza o culto a Yhwh com exclusividade (Dt 12,5). Essa estabilidade reporta \u00e0 alian\u00e7a do Senhor com o rei Davi, modelo ideal, segundo a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica dominante (2Sm 7,1-17). As consequ\u00eancias da reforma de Josias para os cultos populares est\u00e3o descritas em 2Rs 23, e se resumem na demoli\u00e7\u00e3o dos santu\u00e1rios, destrui\u00e7\u00e3o dos objetos de culto, destitui\u00e7\u00e3o dos sacerdotes, proibi\u00e7\u00e3o dos cultos a Baal e a Ashera, aos astros e a outras divindades (NAKANOSE, 2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num balan\u00e7o geral da vida religiosa de Israel, durante a monarquia, constatam-se influ\u00eancias diversas. Do Egito, Israel herdou o modelo de monarquia, com todo o seu aparato institucional e com a ideologia que lhe deu sustenta\u00e7\u00e3o, e que se reflete na hist\u00f3ria dos reinos, na literatura sapiencial e em in\u00fameras tradi\u00e7\u00f5es relativas aos reis. Da Mesopot\u00e2mia, herdou narrativas das origens, estruturas de alguns Salmos, poesias como J\u00f3 e tradi\u00e7\u00f5es legais. De Cana\u00e3, a representa\u00e7\u00e3o de Deus como rei e as tradi\u00e7\u00f5es de luta contra o caos (SCHMIDT, 2004, p. 20).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.3 Religi\u00e3o no ex\u00edlio<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ex\u00edlio babil\u00f4nico marca o s\u00e9culo VI aC, com a deporta\u00e7\u00e3o de levas da popula\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1, principalmente ligadas \u00e0 elite. O drama hist\u00f3rico deixa a na\u00e7\u00e3o sem territ\u00f3rio, sem governo e sem Templo. Mas n\u00e3o sem a f\u00e9. \u00c9 no ex\u00edlio que se faz sentir o efeito da reforma de Josias. Se n\u00e3o h\u00e1 territ\u00f3rio, \u00e9 a chance para criar outros la\u00e7os de uni\u00e3o. Se n\u00e3o h\u00e1 rei, \u00e9 hora de refor\u00e7ar o senhorio de Yhwh. Se n\u00e3o h\u00e1 templo, \u00e9 a oportunidade para se valorizar o livro da Lei. Se n\u00e3o h\u00e1 sacerd\u00f3cio, valoriza-se a profecia. A Babil\u00f4nia \u00e9 o ambiente em que se fortalece a religi\u00e3o de Israel, com renovadas pr\u00e1ticas de f\u00e9. \u201c\u00c9 um fato bem not\u00e1vel que a ru\u00edna de Israel n\u00e3o constitui ao mesmo tempo o fim de sua religi\u00e3o. N\u00e3o apenas n\u00e3o terminou ainda a hist\u00f3ria da religi\u00e3o de Israel, mas \u00e9 agora que ela come\u00e7a em definitivo\u201d (RENCKENS, 1969, p. 181).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda de Jerusal\u00e9m est\u00e1 descrita em 2 Rs 25,8-30, com inc\u00eandio do Templo, do pal\u00e1cio real e dos principais edif\u00edcios, com saque dos objetos sagrados e com pris\u00e3o de sacerdotes e dos chefes. A descri\u00e7\u00e3o da queda se conclui com a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cAssim, Jud\u00e1 foi exilado para longe de sua terra\u201d (2Rs 25,21). Na sequ\u00eancia, escreve uma palavra sobre os remanescentes, os camponeses de Jud\u00e1, denominados \u201co povo da terra\u201d (2Rs 25,22-24), e outra sobre o grupo que foi deportado para o Egito (2Rs 25,25-26).<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o dos remanescentes em Jud\u00e1 pode ser compreendida a partir do livro de Lamenta\u00e7\u00f5es, esp\u00e9cie de colet\u00e2nea de cantos f\u00fanebres, lamenta\u00e7\u00f5es individuais e coletivas. Refletem o sofrimento do povo, velhos abandonados, vi\u00favas desamparadas, crian\u00e7as famintas. Referem-se \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, e t\u00eam o seu ambiente vital nos escombros do Templo. Constituem \u201cuma esp\u00e9cie de <em>\u2018cancioneiro\u2019 das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas junto \u00e0s ru\u00ednas do templo de Jerusal\u00e9m<\/em>\u201d (SCHWANTES, 2009, p. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o dos refugiados no Egito se encontra em Jr 42-45. O pr\u00f3prio profeta acompanhou o grupo e l\u00e1 proferiu palavras de \u00e2nimo e de esperan\u00e7a, al\u00e9m de denunciar as pr\u00e1ticas sacrificiais \u00e0 rainha dos c\u00e9us e outras abomina\u00e7\u00f5es (Jr 44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o dos deportados para a Babil\u00f4nia \u00e9 a que revela mais dados sobre a viv\u00eancia religiosa naquela \u00e9poca. Pode ser constatada nas palavras do salmista: \u201c\u00c0 beira dos canais da Babil\u00f4nia nos sentamos, e choramos com saudades de Si\u00e3o\u201d (Sl 137,1). A viv\u00eancia religiosa dos tempos ex\u00edlicos est\u00e1 registrada pelas palavras e atua\u00e7\u00e3o de dois grandes profetas, Ezequiel e um disc\u00edpulo de Isa\u00edas, conhecido como Segundo Isa\u00edas ou D\u00eautero Isa\u00edas (Is 40-55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ezequiel era sacerdote da elite de Jerusal\u00e9m e foi vocacionado para a profecia em terras de ex\u00edlio, fato in\u00e9dito, torna-se o primeiro profeta a atuar fora da terra de Israel (Ez 1,3). O sacerdote transforma-se em profeta, outro fato extraordin\u00e1rio e, nessa condi\u00e7\u00e3o, passa a animar as comunidades exiladas (3,15; 8,1; 14,1&#8230;). A gl\u00f3ria do Senhor, que antes se manifestava no Templo de Jerusal\u00e9m, transfere-se agora para aquele vale (3,23), para junto do rio Cobar (Ez 1,3; 3,15.23). Com isso, a vis\u00e3o prof\u00e9tica se amplia, e reconhece a presen\u00e7a de Deus em meio a um grupo de pessoas escravizadas. A salva\u00e7\u00e3o, nessa perspectiva, est\u00e1 no ex\u00edlio, n\u00e3o em Jud\u00e1, que foi um povo rebelde (2,5; 12,2-3) e praticou a abomina\u00e7\u00e3o (6,9; 8,6). Ezequiel denuncia o rei (17), os profetas (13), o Templo (8) e a elite (22,23-31). Sua proposta inclui um novo Davi, justo e dedicado aos pobres (34,23-24; 37,24); um novo templo, controlado por sacerdotes, n\u00e3o por pol\u00edticos (40-48); um novo \u00eaxodo, com recondu\u00e7\u00e3o dos dispersos \u00e0 terra de Israel (20,42; 36,24; 37,12). Nessa vis\u00e3o de esperan\u00e7a, os reingressados ser\u00e3o purificados (36,25; 37,23). Os fracassos de outrora ser\u00e3o suplantados, em vista de uma recria\u00e7\u00e3o radical, \u201cpor causa do meu santo nome\u201d, diz o Senhor (36,22). A na\u00e7\u00e3o ser\u00e1 reconstru\u00edda, com o efeito do Esp\u00edrito, capaz de vivificar um vale de ossos secos (37). O profeta quebra a teologia da retribui\u00e7\u00e3o, que justificava os males e, especificamente a destrui\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1, como castigo de Deus. Nesse sentido, desaprova o prov\u00e9rbio que dizia \u201cOs pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados\u201d (18,2); e completa: \u201cSim, a pessoa que peca \u00e9 a que morre! O filho n\u00e3o sofre o castigo da iniquidade do pai, como o pai n\u00e3o sofre o castigo da iniquidade do filho: a justi\u00e7a do justo ser\u00e1 imputada a ele, exatamente como a impiedade do \u00edmpio ser\u00e1 imputada a ele\u201d (18,20). (SCHWANTES, 2009, p. 75-92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O D\u00eautero Isa\u00edas (Is 40-55) d\u00e1 um passo a mais. Representa um profeta ou uma profecia comunit\u00e1ria, porta-voz de grupos exilados. Come\u00e7a proclamando: \u201cConsolai, consolai o meu povo&#8230; dizei que o seu servi\u00e7o est\u00e1 cumprido, que a sua iniquidade est\u00e1 expiada\u201d (Is 40,1-2). O desterro foi um per\u00edodo de purifica\u00e7\u00e3o, mas os pecados est\u00e3o apagados (43,25-28). O que se vislumbra agora \u00e9 uma recria\u00e7\u00e3o (43,1), um novo \u00eaxodo (43,16), com o retorno \u00e0 terra de Israel (48,20; 52,11-12). Nessa liberta\u00e7\u00e3o, manifesta-se a gl\u00f3ria de Jav\u00e9 (40,5), pela a\u00e7\u00e3o de Ciro, o ungido (45,1) (SCHWANTES, 2009, p. 92-108).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na realidade do ex\u00edlio, a Babil\u00f4nia tornou-se o ponto de refer\u00eancia para a renova\u00e7\u00e3o religiosa. Numa carta enviada por Jeremias, de Jerusal\u00e9m, para as lideran\u00e7as dos exilados, ele prop\u00f5e que reconstruam a vida naquela nova realidade, com edifica\u00e7\u00e3o de casas, cultivo de planta\u00e7\u00f5es, realiza\u00e7\u00e3o de casamentos e vida social normal: \u201cProcurai a paz da cidade, para onde eu vos deportei; rogai por ela a Yhwh, porque a sua paz ser\u00e1 a vossa paz\u201d (Jr 29,7). Nesse contexto, as pessoas deportadas podem organizar-se em col\u00f4nias, manter o direito de ir e vir, trabalhar nos campos. Podem manter sua l\u00edngua, seus costumes e, sobretudo, suas pr\u00e1ticas religiosas, o que assegura a sua identidade como um povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto religioso do ex\u00edlio, o javismo se afirma como dom\u00ednio de um \u00fanico Deus, portanto como monote\u00edsmo, a ser reafirmado no p\u00f3s-ex\u00edlio, de maneira absoluta e excludente, com o retorno da elite sacerdotal. Na boca do D\u00eautero Isa\u00edas, \u00e9 colocada esta profiss\u00e3o de f\u00e9: \u201cEu sou Yhwh, e n\u00e3o h\u00e1 outro, fora de mim n\u00e3o h\u00e1 Deus\u201d (Is 45,5). O Deus de Israel ganha for\u00e7a, justamente no confronto com o Deus babil\u00f4nico Marduc, ao mesmo tempo em que assume atributos daquela divindade (REIMER, 2009, p. 48-50).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aus\u00eancia do lugar sagrado para realizar os cultos d\u00e1 lugar \u00e0s reuni\u00f5es em torno \u00e0 palavra, que adquire maior import\u00e2ncia naquele contexto. Independentemente da localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, o javismo pode ser praticado em qualquer contexto em que as pessoas se re\u00fanem. Ezequiel reporta diversas dessas reuni\u00f5es (Ez 8,1; 14,1; 20,1). Estavam lan\u00e7adas a\u00ed, possivelmente, as ra\u00edzes da sinagoga, institui\u00e7\u00e3o que surgir\u00e1 mais tarde, com edif\u00edcios apropriados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A guarda do s\u00e1bado, de antiga tradi\u00e7\u00e3o dos hebreus, passa a ser um rito de destaque para os grupos exilados. Com efeito, o s\u00e1bado torna-se um distintivo da identidade daquele povo, visto que n\u00e3o era conhecido dos babil\u00f4nios. Com raz\u00e3o, Ezequiel recomenda: \u201cDeveis santificar os meus s\u00e1bados, de modo que sejam um sinal entre mim e v\u00f3s, para que se saiba que eu sou Yhwh, vosso Deus\u201d (Ez 20,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A circuncis\u00e3o tornou-se outra pr\u00e1tica fundamental para distinguir o povo do Senhor. Tendo sido pr\u00e1tica comum em Cana\u00e3, a circuncis\u00e3o n\u00e3o se impunha na Mesopot\u00e2mia, de sorte que, para o povo do ex\u00edlio, passou a ser, juntamente com o s\u00e1bado, \u201csinal da alian\u00e7a\u201d (RENCKENS, 1969, p. 231).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o babil\u00f4nica, entretanto, constituiu uma forte amea\u00e7a para o javismo. O deus Marduc era celebrado com prociss\u00f5es pomposas e se apresentava como vitorioso, a tal ponto que havia derrotado o povo de Israel. N\u00e3o faltou quem, em suas casas, erigisse imagens dos deuses babil\u00f4nicos (Ez 14,1-11), nem consultas a feiticeiras da magia daquelas divindades (Ez 13,18) (FOHRER, 1982, p. 285-286).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar disso, o javismo resistiu, se fortaleceu e se recriou no ambiente ex\u00edlico. Ali foi cultivado e ampliado o livro, que mais tarde veio a chamar-se B\u00edblia. A palavra de Deus alimentou a vida espiritual, com reinterpreta\u00e7\u00e3o das antigas tradi\u00e7\u00f5es, com aplica\u00e7\u00e3o de leis e mandamentos e com novos conceitos sobre Deus e sobre o povo. No ex\u00edlio, foi ampliado o livro da Lei, que constitui basicamente o Deuteron\u00f4mio; foi revista a Obra Hist\u00f3rica Deuteronomista (Josu\u00e9-Reis); e foi conclu\u00eddo o C\u00f3digo de Santidade (Lv 17-26) (FOHRER, 1982, p. 388-390).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ex\u00edlio babil\u00f4nico, a religi\u00e3o de Israel se refez totalmente. Essa renova\u00e7\u00e3o constituiu nova cria\u00e7\u00e3o: \u201cAssim diz Yhwh, o teu redentor, aquele que te modelou desde o ventre materno: eu, Yhwh, \u00e9 que tudo fiz\u201d (Is 44,24); nova hist\u00f3ria: \u201cN\u00e3o fiqueis a lembrar coisas passadas\u201d (Is 43,18); novo \u00eaxodo: \u201cEis que vou fazer uma coisa nova\u201d (Is 43,19); nova alian\u00e7a: \u201cConcluirei com eles uma alian\u00e7a de paz, a qual ser\u00e1 uma alian\u00e7a eterna\u201d (Ez 37,26). A esperan\u00e7a no futuro come\u00e7a a ganhar contornos escatol\u00f3gicos, com vis\u00f5es de uma era futura de reden\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o. A ideia de povo de Deus sofre mudan\u00e7as radicais. A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 para um \u201cresto\u201d: \u201cEnt\u00e3o o resto de Si\u00e3o e o remanescente de Jerusal\u00e9m ser\u00e3o chamados santos\u201d (Is 4,3; Sf 3,13); Deus resgata a na\u00e7\u00e3o a partir das cinzas: \u201cN\u00e3o temas, vermezinho de Jac\u00f3, e tu, bichinho de Israel\u201d (Is 41,14); o Messias \u00e9 um servo sofredor, solid\u00e1rio com os escravos da Babil\u00f4nia: \u201cYhwh quis feri-lo, submet\u00ea-lo \u00e0 enfermidade. Mas, se ele oferece a sua vida como sacrif\u00edcio pelo pecado, certamente ver\u00e1 uma descend\u00eancia, prolongar\u00e1 os seus dias, e por meio dele o des\u00edgnio de Deus h\u00e1 de triunfar\u201d (Is 53,10).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.4 Religi\u00e3o no per\u00edodo persa<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrada do ex\u00e9rcito de Ciro na Babil\u00f4nia, em 539 aC inaugura o imp\u00e9rio persa e introduz t\u00e1tica pol\u00edtica e religiosa diferente. Essa pol\u00edtica de toler\u00e2ncia permite o repatriamento dos povos exilados e a pr\u00e1tica de sua religi\u00e3o. A administra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e jur\u00eddica persa fica por conta das prov\u00edncias, denominadas satrapias, tendo um s\u00e1trapa \u00e0 frente de cada uma. O sistema econ\u00f4mico tribut\u00e1rio \u00e9 aperfei\u00e7oado, com incentivo \u00e0 circula\u00e7\u00e3o da moeda. Isso acentua a explora\u00e7\u00e3o, os d\u00e9bitos e o escravismo. A sociedade mista, resultado da pol\u00edtica de repatria\u00e7\u00e3o, aumenta as diferen\u00e7as sociais, heran\u00e7a dos babil\u00f4nios. A religi\u00e3o oficial do imp\u00e9rio persa se baseia na toler\u00e2ncia, possibilitando a cada povo praticar a sua f\u00e9 e seguir os seus costumes. No pr\u00f3prio imp\u00e9rio persa, persiste a pr\u00e1tica religiosa com \u00eanfase escatol\u00f3gica, com desdobramentos de Zoroastro, messianismo, dualismo, ju\u00edzo e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse novo contexto permite o retorno dos exilados e favorece a reconstru\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1. Por isso, o novo imperador ser\u00e1 saudado como \u201cpastor\u201d (Is 44,28) e como \u201cmessias\u201d (Is 45,1). Com efeito, o edito de Ciro, de 538, reportado no final de 2 Cr\u00f4nicas e no in\u00edcio de Esdras, corresponde \u00e0 ideologia da pol\u00edtica persa. Liberada a possibilidade de reconstru\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios projetos se apresentam, n\u00e3o sem conflitos e oposi\u00e7\u00f5es.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo primeiro ano do rei Ciro, o rei Ciro ordenou: Templo de Deus em Jerusal\u00e9m. O Templo ser\u00e1 reconstru\u00eddo para ser um lugar onde se ofere\u00e7am sacrif\u00edcios, e seus alicerces devem ser restaurados\u201d (Esd 6,3). Com efeito, o Templo de Jerusal\u00e9m foi reconstru\u00eddo em cinco anos, de 520 a 515 aC. Diversas for\u00e7as convergiram para a proposta de recupera\u00e7\u00e3o do sacerd\u00f3cio, culto e sacrif\u00edcios. Com apoio do imperialismo persa, colaboram Zorobabel, descendente do rei de Jud\u00e1; Josu\u00e9, descendente do sumo sacerdote de Jerusal\u00e9m; Esdras, escriba e representante do rei da P\u00e9rsia; Neemias, governador de Jud\u00e1, nomeado pelo rei da P\u00e9rsia; os profetas Ageu e Zacarias. O projeto de reconstru\u00e7\u00e3o, claramente, reunia as elites colaboracionistas, para juntar trono e altar, pol\u00edtica e religi\u00e3o, numa esp\u00e9cie de sistema teocr\u00e1tico. Na concorr\u00eancia para identificar quem era o verdadeiro Israel, o grupo dominante conseguiu apoio de grande parte do povo, para construir o chamado segundo Templo. A teologia da retribui\u00e7\u00e3o foi recuperada, para justificar que o sofrimento do povo era castigo de Deus, por ter abandonado o Templo em ru\u00ednas (Ag 1,3-11); ou que era devido aos casamentos com mulheres estrangeiras (Esd 9,1-2; 10,2.10). A ideologia que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o a esse projeto exclusivista est\u00e1 expressa na teologia deuteronomista, agora intensificada (VASCONCELLOS; SILVA, 2009, p. 161-170).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, a proposta religiosa oficial prop\u00f5e o cumprimento estrito da Lei, explicada por Esdras e pelos levitas (Ne 8,1-8); a recupera\u00e7\u00e3o da pureza da ra\u00e7a, com a consequente expuls\u00e3o das mulheres estrangeiras e dos filhos nascidos dessas uni\u00f5es (Esd 10,3.11); a constru\u00e7\u00e3o do Templo, como lugar exclusivo de culto ao \u00fanico Deus Yhwh; o restabelecimento da teologia dav\u00eddica, com a proposta de um novo messias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa religi\u00e3o baseada na Lei, no Templo e na ra\u00e7a pura foi a que se imp\u00f4s como oficial e constituiu as bases do Juda\u00edsmo. Mas n\u00e3o sem oposi\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o do Templo, confrontaram explicitamente os samaritanos (Esd 4,1-23), que passaram a formar uma corrente religiosa diferente. Outros grupos ou movimentos de contesta\u00e7\u00e3o podem ser identificados nas entrelinhas da literatura que se seguiu. Cinco rolos, devidamente nomeados <em>Meguillot<\/em> em hebraico, constituem uma esp\u00e9cie de Pentateuco popular. Re\u00fanem hist\u00f3rias como a de Rute, mulher, vi\u00fava, estrangeira, pobre, que se integra ao povo e ao Deus de Israel: \u201cTeu povo ser\u00e1 o meu povo e teu Deus ser\u00e1 o meu Deus\u201d (Rt 1,16); e d\u00e1 origem \u00e0 linhagem de Davi, um messias bem diferente daquele rei ideal: \u201cNasceu um filho a Noemi e chamaram-no Obed. Foi ele o pai de Jess\u00e9, pai de Davi\u201d (Rt 4,17). O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 outro livro do mesmo teor, protagonizado pela fala de uma mulher, camponesa e pastora, decantando o amor e a paix\u00e3o, na liberdade dos corpos e na transgress\u00e3o das regras legais de pureza. A \u00fanica men\u00e7\u00e3o ao nome divino, em todo o livro, seria uma abreviatura de Yhwh, quando declara: \u201cPois o amor \u00e9 forte, \u00e9 como a morte! Cruel como abismo \u00e9 a paix\u00e3o; suas chamas s\u00e3o chamas de fogo uma fa\u00edsca de Yah\u201d (Ct 8,6). Mais adiante, nessa mesma cole\u00e7\u00e3o dos cinco rolos, encontra-se Eclesiastes, questionando o pr\u00f3prio sentido da exist\u00eancia sob os governos opressores, e no qual n\u00e3o h\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o sequer ao nome de Deus. Completam a lista dos cinco rolos os livros de Lamenta\u00e7\u00f5es, sobre as ru\u00ednas de Jerusal\u00e9m e de Ester, sobre o hero\u00edsmo de uma mulher (MENA L\u00d3PEZ, 2010, p. 9-158).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa linha de oposi\u00e7\u00e3o ao Juda\u00edsmo oficial, poderiam ser mencionados J\u00f3, que contesta a teologia da retribui\u00e7\u00e3o; e Jonas, inconformado com a convers\u00e3o de N\u00ednive. E ainda, as propostas escatol\u00f3gicas de novo c\u00e9u e nova terra, com inclus\u00e3o de estrangeiros, do Trito Isa\u00edas (Is 56-66); o derramamento do Esp\u00edrito sobre crian\u00e7as e idosos e sobre escravos e escravas, do profeta Joel (Jl 3,1-5); o Messias pobre, montado num jumento, conforme o D\u00eautero Zacarias (Zc 9,9-10); o Templo como centro de justi\u00e7a, do profeta Malaquias (Ml 3,1-5).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.5 Religi\u00e3o no per\u00edodo helenista<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre, denominado o grande, ao vencer os persas, funda novo imp\u00e9rio, e d\u00e1 in\u00edcio ao projeto helenista, a partir de 333 aC. A sua breve e vitoriosa trajet\u00f3ria, sintetizada no in\u00edcio do primeiro livro de Macabeus, bem como o reinado de seus sucessores e de seus filhos, recebem um ju\u00edzo lapidar: \u201cE multiplicaram os males sobre a terra\u201d (1Mc 1,9). Na vis\u00e3o de Daniel, Alexandre \u00e9 comparado a um bode chifrudo, de cujos chifres nascem quatro outros, que o sucederam (Dn 8,1-22). O chifre mais terr\u00edvel ser\u00e1 um de seus descendentes, Ant\u00edoco Ep\u00edfanes (Dn 7,8). A informa\u00e7\u00e3o do primeiro livro de Macabeus \u00e9 confirmada pela hist\u00f3ria: \u201cAlexandre&#8230; depois de tudo isso, caiu doente e percebeu que ia morrer&#8230; convocou ent\u00e3o os seus oficiais&#8230; e, estando ainda em vida, repartiu entre eles o reino\u201d (1Mc 1,5.6). Com efeito, o reino foi dividido entre os quatro generais de confian\u00e7a de Alexandre, chamados di\u00e1docos. Os que mantiveram controle sobre a Judeia foram os Ptolomeus, a partir do Egito, por um s\u00e9culo (301 a 198 aC), em seguida os Sel\u00eaucidas, a partir da S\u00edria, por quase mais um s\u00e9culo. E impuseram, cada imp\u00e9rio ao seu modo, o pensamento helenista.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de Alexandre, efetivamente, o mundo de ent\u00e3o passa a ser helenizado, com consequ\u00eancias que perduram at\u00e9 os dias atuais. A unidade pol\u00edtica aut\u00f4noma, nos dom\u00ednios hel\u00eanicos, \u00e9 a <em>polis<\/em>, a cidade livre. A economia, baseada no livre mercado, aumenta a circula\u00e7\u00e3o de riquezas e facilita a sociedade latifundi\u00e1ria e escravista. A filosofia que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o ao novo projeto \u00e9 racionalista, com desdobramentos para o universalismo, o humanismo, o materialismo e o dualismo. A religi\u00e3o segue os moldes filos\u00f3ficos, tendo Zeus como deus supremo de um pante\u00e3o variado. A pr\u00e1tica religiosa inclu\u00eda sacrif\u00edcios \u00e0s divindades, prostitui\u00e7\u00e3o sagrada e \u00eaxtases m\u00edsticos. A mitologia explicava os grandes mist\u00e9rios do ser humano e do mundo. As preocupa\u00e7\u00f5es com a vida ap\u00f3s a morte n\u00e3o eram t\u00e3o acentuadas como em outras religi\u00f5es (REINKE, 2019, p. 232-247).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Juda\u00edsmo oficial, nos in\u00edcios da \u00e9poca helenista, deve estar bem constitu\u00eddo, tendo o Templo de Jerusal\u00e9m em funcionamento, com todo o seu aparato lit\u00fargico e com a hierarquia sacerdotal em exerc\u00edcio, como se constata pelos livros do Lev\u00edtico e de Ezequiel. A Lei, dita <em>Torah<\/em>, deve ser seguida fielmente, como forma de ser e de comportar-se, conforme o Pentateuco, que j\u00e1 tem sua forma definitiva. Para interpretar a Lei, surge uma nova classe, ao lado dos sacerdotes, os escribas ou doutores da Lei. Enquanto os sacerdotes cuidam do Templo, ligados ao culto, os escribas orientam a sinagoga, focados no livro. S\u00e3o chamados de <em>rabbi<\/em>, e manter\u00e3o o Juda\u00edsmo ativo, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do Templo. Historicamente, o Templo de Jerusal\u00e9m, reconstru\u00eddo ap\u00f3s o retorno do ex\u00edlio, n\u00e3o chegou a ocupar a centralidade do culto, como ocorrera com o primeiro Templo, da \u00e9poca da monarquia. A novidade do culto fica por conta da sinagoga, n\u00e3o mais centrada nos sacrif\u00edcios sangrentos oficiados por sacerdotes, como os do Templo, mas sim na participa\u00e7\u00e3o de toda a comunidade, mulheres, crian\u00e7as e homens judeus, como atestado desde a \u00e9poca persa, conforme a assembleia liderada pelo escriba Esdras, com leitura da escritura e ora\u00e7\u00e3o (Ne 8). Na sinagoga, \u201cleitura e aprendizado da Tor\u00e1 s\u00e3o as atividades principais, \u00e0s quais se agregam ora\u00e7\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o\u201d (GERSTENBERGER, 2007, p. 306).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da B\u00edblia Hebraica, duas cole\u00e7\u00f5es estavam formadas, a Lei (<em>Torah<\/em>) e os Profetas (<em>Nebi\u00eem<\/em>). A terceira cole\u00e7\u00e3o, dos Escritos (<em>Ketub\u00eem<\/em>), \u00e9 objeto de forte atividade liter\u00e1ria nesse per\u00edodo helenista, com acento na sabedoria (RENCKENS, 1969, p. 241-243).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura sapiencial, express\u00e3o forte do pensamento judaico, recebe sua forma definitiva nesse per\u00edodo pr\u00f3ximo \u00e0 era crist\u00e3, embora suas ra\u00edzes sejam muito antigas. O livro de Prov\u00e9rbios expressa essa contribui\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de ditos populares, passados de boca em boca, a partir de experi\u00eancias do cotidiano. Por isso mesmo, os prov\u00e9rbios refletem as contradi\u00e7\u00f5es da vida, seja de riqueza e pobreza, pal\u00e1cio e campo, reis e escravos, justi\u00e7a e impiedade, mulheres e homens, crian\u00e7as e anci\u00e3os, s\u00e1bios e estultos. A sabedoria em geral, e os prov\u00e9rbios em particular, sofreram influ\u00eancias estrangeiras, principalmente do Egito (Pr 22,17-24,22). Nesses momentos de crise, o livro de Eclesiastes elabora o pensamento judaico cr\u00edtico na di\u00e1spora do Egito, sob o dom\u00ednio de Ptolomeu. O livro de J\u00f3, questionando o sentido do sofrimento do inocente, aprofunda a cr\u00edtica \u00e0 teologia da retribui\u00e7\u00e3o (CRB, 1993, p. 13-33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura apocal\u00edtica tamb\u00e9m ganha impulso, nesse per\u00edodo helenista, com influ\u00eancia persa e com acento na escatologia. Desde a crise do ex\u00edlio, a profecia come\u00e7a a ganhar tra\u00e7os apocal\u00edpticos, j\u00e1 com Ezequiel (Ez 38-39) e com Isa\u00edas (Is 24 e 27; 34 e 35; 65 e 66). Por\u00e9m ganha tra\u00e7os mais escatol\u00f3gicos com Joel, Malaquias, D\u00eautero Zacarias (Zc 9-14) e, principalmente, com Daniel. Esse g\u00eanero se desenvolve amplamente no per\u00edodo do intertestamento, em diversos livros ap\u00f3crifos. No Novo Testamento, o Apocalipse de Jo\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima dessa teologia. Caracteriza-se como express\u00e3o religiosa de resist\u00eancia de quem n\u00e3o tem for\u00e7a pol\u00edtica; traduz-se em linguagem fortemente simb\u00f3lica, para expressar os anseios religiosos; possui, em geral, vis\u00e3o dualista do mundo e da hist\u00f3ria; n\u00e3o raro apela para o pseud\u00f4nimo e para nomes cifrados; busca, sobretudo, decifrar os mist\u00e9rios divinos em meio \u00e0 crise (CRB, 1996, p. 32-59).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hassidismo foi outro movimento religioso de resist\u00eancia judaica, contra o helenismo, no per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o sel\u00eaucida e, especialmente, frente \u00e0 domina\u00e7\u00e3o de Ant\u00edoco IV Ep\u00edfanes. Os hassideus (piedosos) tinham ra\u00edzes antigas como grupo dos observantes da Lei judaica (1Mc 2,29-42). Mas se manifestaram com veem\u00eancia no confronto com a heleniza\u00e7\u00e3o dos sel\u00eaucidas, batalhando ao lado de Judas Macabeu (2Mc 14,6). Uniram-se posteriormente ao sumo sacerdote Alcimo (morto em 159), por\u00e9m este os desiludiu em suas esperan\u00e7as religiosas, ofendendo-os com a destrui\u00e7\u00e3o dos muros externos do Templo, o que facilitava o acesso dos pag\u00e3os ao lugar sagrado. H\u00e1 quem atribua aos hassideus, Dn 7-12 e 2Mc 6-7, textos sobre o mart\u00edrio de Eleazar e a m\u00e3e com os sete filhos. O movimento hassideu, posteriormente, deu origem aos fariseus e aos ess\u00eanios, estes ligados a Qumran. O nome fariseu foi dado pelos gregos, para significar \u201cseparados\u201d ou \u201cseparatistas\u201d. Fariseus e saduceus nasceram no per\u00edodo de Jo\u00e3o Hircano I (134-104 aC), o sacerdote comandante. Ambos preocupados com a lei, sendo os saduceus mais liberais e inclinados \u00e0 pol\u00edtica helenista (KONINGS, 2011, p. 102-103).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As influ\u00eancias do helenismo se far\u00e3o sentir, sobre a religi\u00e3o de Israel, bem como sobre o Cristianismo, de maneiras diversas. Enquanto os judeus se identificavam com pr\u00e1ticas \u00e9ticas e religiosas espec\u00edficas, fundamentadas na Lei, os gregos propunham uma religi\u00e3o universal, desvinculada do contexto existencial. Enquanto alguns judeus aderiram a essas ideias helenistas, outros reagiram radicalmente. Dentre as influ\u00eancias hel\u00eanicas sobre o Juda\u00edsmo, destaca-se a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia Hebraica para o grego, chamada Septuaginta ou LXX. Essa B\u00edblia ser\u00e1 o elo de liga\u00e7\u00e3o com o Cristianismo, principalmente pela atua\u00e7\u00e3o dos mission\u00e1rios junto \u00e0s comunidades gent\u00edlicas. A Septuaginta reflete o ambiente dos judeus da di\u00e1spora, vivendo numa comunidade helenizada do Egito, chamada Alexandria (SCARDELAI, 2008, p. 86-88).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura helenista incidiu de tal maneira sobre os in\u00edcios do Cristianismo que fez Jesus e os ap\u00f3stolos galileus falarem grego; imp\u00f4s a escrita dos Evangelhos e de todo o Novo Testamento na mesma l\u00edngua grega; e obrigou os hagi\u00f3grafos crist\u00e3os a citarem a B\u00edblia Hebraica a partir da tradu\u00e7\u00e3o grega dos LXX. Outras influ\u00eancias do helenismo se estendem sobre o Cristianismo e sobre a pr\u00f3pria cultura ocidental, e incluem aspectos que envolvem o conceito pol\u00edtico de democracia, a filosofia racionalista, o movimento renascentista, a vis\u00e3o dualista do ser humano como corpo e alma, e a teologia crist\u00e3 aristot\u00e9lico-tomista.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A religi\u00e3o crist\u00e3 do Novo Testamento em seu contexto religioso e cultural<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A religi\u00e3o do Novo Testamento \u00e9 constitu\u00edda por \u201cuma comunidade que nasceu do Juda\u00edsmo antigo, mas que, ultrapassando-lhe a delimita\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e cultural, compreendeu-se a si mesma como a verdadeira renova\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a e como caminho para a realiza\u00e7\u00e3o universal do \u2018povo de Deus\u2019: a comunidade crist\u00e3\u201d (KONINGS, 2011, p. 115).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunidade crist\u00e3, com efeito, surge como uma renova\u00e7\u00e3o interna do pr\u00f3prio Juda\u00edsmo, de cuja tradi\u00e7\u00e3o herdou as Escrituras Sagradas, os costumes e as pr\u00e1ticas que constituem a sua matriz religiosa. Afirmou-se tamb\u00e9m no di\u00e1logo, ora amistoso, ora conflitivo, com o helenismo, tanto em suas ideias filos\u00f3ficas quanto em suas pr\u00e1ticas populares. E se consolidou no Imp\u00e9rio Romano, com forte car\u00e1ter de resist\u00eancia e de supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante da vastid\u00e3o e complexidade do assunto, segue-se, igualmente, elabora\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica, com inten\u00e7\u00e3o did\u00e1tica, na abrang\u00eancia hist\u00f3rica do primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3. Para a periodiza\u00e7\u00e3o desses cem anos, utilizam-se alguns eventos marcantes, com datas arredondadas: nascimento de Jesus (ano 1), morte de Jesus (ano 30), in\u00edcio das grandes miss\u00f5es e da reda\u00e7\u00e3o do Novo Testamento (ano 50), queda de Jerusal\u00e9m e inc\u00eandio do Templo (ano 70), final do primeiro s\u00e9culo (ano 100).<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.1 Jesus de Nazar\u00e9, encarnado, crucificado e ressuscitado<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">As primeiras tr\u00eas d\u00e9cadas do Cristianismo, idealmente do ano 1 ao ano 30 da nossa era, situam-se nos confins do Imp\u00e9rio Romano, entre o vilarejo da Galileia dos gentios, chamado Nazar\u00e9, e a capital da f\u00e9 judaica, a cidade de Jerusal\u00e9m. A trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de Jesus se desenvolve entre dois acontecimentos extraordin\u00e1rios para a f\u00e9, a encarna\u00e7\u00e3o e a ressurrei\u00e7\u00e3o. A encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 descrita, por Lucas, com o an\u00fancio de um anjo: \u201cNasceu-vos hoje um Salvador, que \u00e9 o Cristo-Senhor, na cidade de Davi\u201d (Lc 2,11). E a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada por Marcos igualmente com as palavras de um jovem mensageiro: \u201cEstais procurando Jesus de Nazar\u00e9, o Crucificado. Ressuscitou, n\u00e3o est\u00e1 aqui\u201d (Mc 16,6). Os Evangelhos reconhecem, nesse homem, a realiza\u00e7\u00e3o das esperan\u00e7as messi\u00e2nicas judaicas. Identificam o Messias servo sofredor com a pessoa do judeu galileu dos in\u00edcios do s\u00e9culo I. Jesus pode ser situado \u201cno mundo judaico no qual ele nasceu, cresceu, foi educado, e pelo qual ele foi barbaramente crucificado na cruz romana\u201d (SCARDELAI, 1998, p. 230).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seus conterr\u00e2neos o reconhecem como um profeta, e mais, como \u201co\u201d profeta, aquele prometido nos tempos antigos (Dt 18,15.18), como declara a multid\u00e3o ap\u00f3s a multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es: \u201cEste \u00e9 verdadeiramente o profeta, aquele que deve vir ao mundo\u201d (Jo 6,14). Pelas palavras e a\u00e7\u00f5es de Jesus, relatadas nos Evangelhos, emerge a figura de um profeta popular, com tra\u00e7os messi\u00e2nicos, atento prioritariamente ao p\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade do povo pobre e marginalizado. Nas curas das doen\u00e7as se revela a a\u00e7\u00e3o de Deus, e na partilha da mesa com os pobres se constr\u00f3i a comunidade. Com linguajar simples e envolvente, atrav\u00e9s de ditos e par\u00e1bolas, chama a aten\u00e7\u00e3o para um estilo de vida diferente. Essa proposta desafiadora exige radicalidade total, a ponto de renunciar \u00e0 pr\u00f3pria vida. E leva a uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o pr\u00f3prio Deus, como uma crian\u00e7a que se dirige ao seu papai (<em>Abb\u00e1<\/em>). Essa proposta radical da Galileia se apresenta como uma boa not\u00edcia, preferencialmente para os pobres, como expressa o chamado Serm\u00e3o da Montanha (Mt 5,1-12). Prop\u00f5e um Israel renovado, com perd\u00e3o das d\u00edvidas, recupera\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias e comunidades, al\u00e9m da supera\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e da fome. A esse projeto de vida radical, o pr\u00f3prio Jesus chama de Reino de Deus (PIXLEY, 1986, p. 85-96).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projeto de Jesus, como era de se esperar, encontra resist\u00eancias, por parte das autoridades da religi\u00e3o judaica por um lado e, por outro, por parte das autoridades da pol\u00edtica romana. A conjuga\u00e7\u00e3o dessas for\u00e7as \u00e9 que vai conden\u00e1-lo \u00e0 morte. A senten\u00e7a sobre a sua cabe\u00e7a traz como acusa\u00e7\u00e3o: \u201crei dos judeus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus viveu, efetivamente, a realidade de um campon\u00eas da Galileia, regi\u00e3o sufocada pela presen\u00e7a militar e pela cobran\u00e7a de impostos por parte do Imp\u00e9rio Romano. Assimilou, plenamente, as tradi\u00e7\u00f5es religiosas de seu povo, com as ora\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia e com os cultos na sinagoga. Na Galileia, praticou a <em>Torah<\/em> e respeitou a religi\u00e3o popular do seu povo. Mas superou os limites legais, pela proposta da justi\u00e7a com miseric\u00f3rdia. Rompeu, nesse sentido, com as amarras do legalismo e da religi\u00e3o formal (FREYNE, 1996).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 O movimento de Jesus e as primeiras comunidades crist\u00e3s<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pr\u00f3ximas duas d\u00e9cadas, esquematicamente, do ano 30 ao ano 50, situam-se no contexto da religi\u00e3o judaica, com incurs\u00f5es no mundo helen\u00edstico, entre Jerusal\u00e9m e Antioquia da S\u00edria. \u00c9 o per\u00edodo de discipulado e miss\u00e3o, em que muitas comunidades judaicas aderem ao modo de vida proposto por Jesus. A sua mem\u00f3ria torna-se uma presen\u00e7a constante e intensifica o cultivo de suas palavras e a\u00e7\u00f5es. Come\u00e7am a ser coletados os seus ditos e par\u00e1bolas, elaborados relatos de paix\u00e3o e reunidas narrativas de milagres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus chama disc\u00edpulos, segundo Marcos (Mc 3,14-15), com tr\u00eas finalidades espec\u00edficas: ficar com ele, sair a pregar e expulsar dem\u00f4nios. Esse tr\u00edplice chamado se realiza plenamente ap\u00f3s a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Mestre. O \u201cpermanecer com Jesus\u201d se efetua na mem\u00f3ria viva, atrav\u00e9s do cultivo das suas palavras e das celebra\u00e7\u00f5es de sua ceia. O \u201csair a pregar\u201d desencadeia um movimento mission\u00e1rio para al\u00e9m dos limites geogr\u00e1ficos e culturais. O \u201cexpulsar dem\u00f4nios\u201d se concretiza no combate a todas as formas de mal que grassavam nos diversos contextos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que chamamos de movimento de Jesus era uma proposta de vida radical, que implicava desapego de p\u00e1tria, de fam\u00edlia e de posses. O fundamento para essa proposta est\u00e1 no chamado discurso mission\u00e1rio (Mt 10). Indica um estilo de vida itinerante, dois a dois, de casa em casa, sem levar nada consigo, para expulsar os males e levar a paz (HOORNAERT, 1994, p. 85-91).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse movimento mission\u00e1rio afirma-se nas sinagogas e nas casas, constituindo grupos locais, comunidades de f\u00e9 com novo formato. Em torno \u00e0 pessoa de Jesus, de seus familiares e vizinhos, possivelmente formam-se as primeiras reuni\u00f5es. Eram comunidades de fala aramaica. Sua viv\u00eancia marca os Evangelhos, com caracter\u00edsticas camponesas, ligadas \u00e0 pesca, v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o, acometidas por muitas doen\u00e7as, mas firmes na f\u00e9 e na esperan\u00e7a. Os Evangelhos apresentam v\u00e1rios ind\u00edcios da import\u00e2ncia da Galileia para os in\u00edcios da f\u00e9 crist\u00e3. Segundo Marcos, logo que soube da pris\u00e3o do Batista, Jesus come\u00e7ou a proclamar o Evangelho de Deus na Galileia (Mc 1,14). De acordo com Lucas, na sinagoga de Nazar\u00e9, aldeia natal de Jesus, ele proclama a sua miss\u00e3o prof\u00e9tica para evangelizar os pobres (Lc 4,16-22). Os diversos relatos de apari\u00e7\u00f5es de Jesus remetem para o encontro com o ressuscitado na Galileia (Mc 14,28; 16,7; Mt 28,7.10.16; Jo 21). Os Atos dos Ap\u00f3stolos tamb\u00e9m confirmam a exist\u00eancia de comunidades na Galileia (At 9,31). E a apresenta\u00e7\u00e3o daquilo que poderia ser um primeiro plano mission\u00e1rio, na for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, \u00e9 dito pelo ressuscitado: \u201cE sereis minhas testemunhas em Jerusal\u00e9m, em toda a Judeia e a Samaria, e at\u00e9 os confins da terra\u201d (At 1,8) (FREYNE, 1996, p. 229-231).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, em Jerusal\u00e9m, formam-se comunidades em torno \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e \u00e0 luz do Pentecostes. Ao reunir judeus e helenistas, essas comunidades enfrentam conflitos internos (At 6). A concorr\u00eancia se d\u00e1 entre a pr\u00e1tica de um Juda\u00edsmo radical e legalista, representado pelo grupo de Tiago (At 12,17; 15), e a proposta de outro grupo mais liberal e aberto aos gentios, representado posteriormente pelo ap\u00f3stolo Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre a Galileia e a Judeia, na Samaria, formam-se comunidades crist\u00e3s, reunindo judeus e samaritanos. Atos dos Ap\u00f3stolos registra a miss\u00e3o de Filipe, com o batismo do eunuco (At 8). O Evangelho de Jo\u00e3o tamb\u00e9m testemunha essa presen\u00e7a crist\u00e3, pela evangeliza\u00e7\u00e3o da mulher samaritana (Jo 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Antioquia, capital da S\u00edria, j\u00e1 fora dos limites de Israel, os seguidores de Jesus s\u00e3o chamados crist\u00e3os pela primeira vez (At 11,26). Nessa comunidade, de tradi\u00e7\u00e3o judaica e com forte presen\u00e7a de helenistas, acentua-se o conflito entre duas formas de viver a f\u00e9, segundo a Lei judaica ou aberta para a inser\u00e7\u00e3o de gentios. A discuss\u00e3o entre Pedro e Paulo ilustra bem essa diferen\u00e7a (Gl 2,11-14). As diverg\u00eancias concentravam-se sobre a necessidade ou n\u00e3o de circuncidar os n\u00e3o judeus, mas envolviam quest\u00f5es de pureza, de comer carnes imoladas aos \u00eddolos e de uni\u00f5es ileg\u00edtimas, como consta no chamado Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m (At 15,1-35).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.3 Comunidades na \u00c1sia Menor, Gr\u00e9cia e Roma<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em mais duas d\u00e9cadas, entre os anos 50 e 70 dC, o Cristianismo se expande da capital do Juda\u00edsmo, Jerusal\u00e9m, at\u00e9 Roma, a capital do Imp\u00e9rio. \u00c9 o per\u00edodo de abertura para o helenismo, passando pela \u00c1sia Menor, Gr\u00e9cia e Roma. Os conflitos com o Juda\u00edsmo se acentuam, \u00e0 medida que a novidade crist\u00e3 se difunde. A revolta do Juda\u00edsmo contra o Imp\u00e9rio Romano termina com a queda de Jerusal\u00e9m no ano 70 e a consequente di\u00e1spora judaica. O movimento mission\u00e1rio crist\u00e3o \u00e9 impulsionado, com destaque para a atua\u00e7\u00e3o do ap\u00f3stolo Paulo. A prega\u00e7\u00e3o da Boa Nova se concentra nas grandes cidades do Imp\u00e9rio, mas tamb\u00e9m inclui comunidades rurais, como testemunham as cartas aos G\u00e1latas e a primeira carta de Pedro. Ganha impulso, nesse per\u00edodo, a tradi\u00e7\u00e3o escrita, que formar\u00e1 as escrituras crist\u00e3s, o chamado Novo Testamento. Come\u00e7a com as cartas de Paulo e prossegue com a reda\u00e7\u00e3o dos Evangelhos, e com os demais escritos, at\u00e9 terminar, com o Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo \u00e9 o prot\u00f3tipo do judeu helenista que adere ao Cristianismo. Ele consegue conciliar, em sua rica personalidade, caracter\u00edsticas diferentes e at\u00e9 contradit\u00f3rias: judeu radical de tradi\u00e7\u00e3o farisaica, grego helenista da di\u00e1spora, romano com cidadania imperial, crist\u00e3o ap\u00f3stolo e mission\u00e1rio. A sua atua\u00e7\u00e3o envolve a colabora\u00e7\u00e3o de pessoas diversas: o casal Priscila e \u00c1quila, o pregador eg\u00edpcio Apolo (At 18,24), as l\u00edderes Clo\u00e9 (1Cor 1,11) e L\u00eddia (At 16,14), a di\u00e1cona e patrona Febe (Rm 16,1.2), os mission\u00e1rios Silvano e Tim\u00f3teo, o m\u00e9dico e escritor Lucas, o escritor T\u00e9rcio (Rm 16,22) e muitas outras pessoas (Rm 16). Esse movimento mission\u00e1rio se expande por todo o Imp\u00e9rio e desencadeia uma inova\u00e7\u00e3o radical: o Cristianismo ultrapassa a \u00c1sia e se difunde para a Europa; alarga os conceitos da religi\u00e3o judaica com a inclus\u00e3o do Helenismo; amplia as pr\u00e1ticas camponesas para o mundo urbano; supera a fam\u00edlia patriarcal pela comunidade eclesial; substitui o regime da Lei pelo dom da gra\u00e7a; e suplanta o sistema escravagista pela liberdade em Cristo (MESTERS, 1991, p. 130-131).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa expans\u00e3o mission\u00e1ria, o Cristianismo recupera a import\u00e2ncia da casa, conceito judaico que envolve o sentido de cl\u00e3 ou fam\u00edlia ampliada. O casal Priscila e \u00c1quila disponibilizou sua casa para fundar igrejas em Corinto, \u00c9feso e Roma (Rm 16,3-5; 1Cor 16,19). A Fil\u00eamon, Paulo escreve saudando a \u201cigreja da tua casa\u201d (Fm 2). Outro exemplo significativo \u00e9 a \u201cigreja da casa\u201d da mulher Ninfas (Cl 4,15). Outra \u201cigreja da casa\u201d liderada por uma mulher \u00e9 a de L\u00eddia, em Filipos, que acolheu Paulo (At 16,15.31.34) (COMBLIN, 1987, p. 320-355).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m da realidade das casas, essenciais para o apoio mission\u00e1rio, o Cristianismo integrou a pr\u00e1tica das associa\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. No \u00e2mbito do Imp\u00e9rio Romano, diversas categorias culturais ou religiosas reuniam-se em associa\u00e7\u00f5es, conhecidas como <em>collegia<\/em>. Podia ser de artes\u00e3os, esportistas, teatr\u00f3logos, fi\u00e9is de uma mesma cren\u00e7a e outros. A associa\u00e7\u00e3o dos ourives em \u00c9feso \u00e9 recordada pelo confronto com Paulo (At 19,23-24). A comunidade de Qumran \u00e9 um exemplo radical de associa\u00e7\u00e3o religiosa. A mais importante, para o Cristianismo, era a pr\u00f3pria sinagoga judaica, assembleia religiosa que serviu de matriz para as comunidades crist\u00e3s. Essas diversas assembleias criavam um ambiente favor\u00e1vel \u00e0 expans\u00e3o religiosa. As primeiras miss\u00f5es crist\u00e3s estavam inseridas nesse ambiente religioso, em movimentos de aproxima\u00e7\u00e3o e de oposi\u00e7\u00e3o, em vista de uma proposta original (COMBY; L\u00c9MONON, 1988).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas primeiras comunidades crist\u00e3s, em geral de tradi\u00e7\u00e3o paulina, cultivavam la\u00e7os de fraternidade e partilha, mas eram heterog\u00eaneas. Reuniam mais gentios (helenistas) que judeus. Gentios inclu\u00edam \u201cpros\u00e9litos\u201d, pag\u00e3os que aderiram integralmente ao Juda\u00edsmo, at\u00e9 mesmo com a pr\u00e1tica da circuncis\u00e3o e \u201ctementes a Deus\u201d, pag\u00e3os que haviam aderido a algumas pr\u00e1ticas do Juda\u00edsmo. Na sua diversidade, as comunidades apost\u00f3licas inclu\u00edam pobres e ricos, mais pobres das periferias das grandes cidades, com grande n\u00famero de escravos. Na mesma comunh\u00e3o com escravos, participavam tamb\u00e9m libertos e livres. Mulheres e homens tinham igualdade de participa\u00e7\u00e3o. Havia pessoas rudes e outras cultas. As lideran\u00e7as eram espont\u00e2neas, segundo os diversos carismas, como ap\u00f3stolos, profetas, mestres e muitos outros (MESTERS, 1991, p. 63-106).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica de partilha inclu\u00eda coletas solid\u00e1rias, como as das comunidades gentias da Maced\u00f4nia e Acaia para as comunidades judaicas de Jerusal\u00e9m (Rm 15,26-28). O mesmo exemplo \u00e9 recomendado \u00e0 Igreja de Corinto (1Cor 16,1-4), com motiva\u00e7\u00e3o, elogio e proposta de organiza\u00e7\u00e3o da coleta (2Cor 8,7-15). Paulo se refere \u00e0 partilha no contexto de sua autodefesa: \u201cDepois de muitos anos, vim trazer esmolas para o meu povo e tamb\u00e9m apresentar ofertas\u201d (At 24,17). Essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 formulada expressamente, como uma prioridade absoluta, ap\u00f3s a assembleia de Jerusal\u00e9m: \u201cN\u00f3s s\u00f3 nos dev\u00edamos lembrar dos pobres, o que, ali\u00e1s, tenho procurado fazer com solicitude\u201d (Gl 2,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao interno das comunidades, as celebra\u00e7\u00f5es avivavam a mem\u00f3ria de Jesus Cristo presente. As men\u00e7\u00f5es principais referem-se \u00e0 Palavra, \u00e0 ceia e ao batismo. A liturgia da Palavra era feita com leitura e partilha pelas pessoas da assembleia. A celebra\u00e7\u00e3o da ceia ganhava import\u00e2ncia central, a ponto de ter sido identificada com a religi\u00e3o dos mist\u00e9rios, em que se comia a carne e se bebia o sangue de um Deus. O batismo era o rito de ades\u00e3o de novos fieis \u00e0s comunidades crist\u00e3s. A expectativa da <em>parusia<\/em> iminente, isto \u00e9, da pr\u00f3xima segunda vinda de Jesus, animou a esperan\u00e7a das comunidades perseguidas, sobretudo nos in\u00edcios de sua viv\u00eancia crist\u00e3.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.4 Igrejas crist\u00e3s<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano 70 dC representa um trauma para as comunidades crist\u00e3s e judaicas. Ap\u00f3s quatro anos de resist\u00eancia, a revolta judaica \u00e9 abafada por Roma, com a queda de Jerusal\u00e9m e o inc\u00eandio do Templo. As tr\u00eas d\u00e9cadas finais do primeiro s\u00e9culo s\u00e3o marcadas por persegui\u00e7\u00f5es por parte dos romanos e por conflitos entre judeus e crist\u00e3os, que evoluem para o rompimento, com consequ\u00eancias hist\u00f3ricas duradouras. Enquanto alguns partidos pol\u00edtico-religiosos, como os saduceus, herodianos, zelotes e ess\u00eanios perdiam for\u00e7a, devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Templo, os crist\u00e3os e os fariseus ganharam novo impulso, mas tomaram caminhos diferentes. O farisa\u00edsmo se concentra em J\u00e2mnia, onde se separa do Cristianismo, e evolui para o rabinismo judaico (SCARDELAI, 2008, p.142-146).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, no per\u00edodo p\u00f3s-destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, os crist\u00e3os se afirmam e se expandem em suas comunidades, com diferentes acentos teol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais conhecidas s\u00e3o as comunidades p\u00f3s-paulinas, pelas informa\u00e7\u00f5es dos escritos atribu\u00eddos a Paulo, e conhecidos como cartas deuteropaulinas (2Ts; Cl; Ef; 1 e 2Tm; Tt; Hb). Essas cartas retratam o ambiente da \u00c1sia Menor e refletem vis\u00e3o teol\u00f3gica distinta das anteriores. Demonstram um Cristianismo mais voltado para a institucionaliza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, organizacional e doutrinal. Enquanto as cartas anteriores eram endere\u00e7adas a assembleias comunit\u00e1rias, agora tendem a ser dirigidas a l\u00edderes de comunidades, como Tim\u00f3teo e Tito. Tim\u00f3teo est\u00e1 em \u00c9feso (1Tm 1,3) e Tito \u00e9 respons\u00e1vel por organizar e constituir presb\u00edteros na Igreja de Creta (Tt 1,5). Jesus Cristo era o mestre das comunidades locais, agora \u00e9 apresentado como cabe\u00e7a da Igreja, centro do cosmo, acima de tronos, domina\u00e7\u00f5es e potestades (Cl 1,15-20). As Igrejas, antes grupos de viv\u00eancia e de partilha, tendem agora para comunidades organizadas em hierarquia, com ep\u00edscopos, presb\u00edteros e di\u00e1conos (1Tm 3,1-13). As rela\u00e7\u00f5es interpessoais eram solid\u00e1rias na igualdade, agora s\u00e3o assim\u00e9tricas, com poder de senhores sobre escravos e de homens sobre mulheres (Col 3,18-4,1). A pr\u00e1tica eclesial, antes voltada para orienta\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, visa agora mais a \u00e9tica e a piedade individuais (Tt 2,2-10). A insist\u00eancia na pr\u00e1tica do amor fraterno \u00e9 suplantada pela recomenda\u00e7\u00e3o com a s\u00e3 doutrina (1Tm 1,10) e a preven\u00e7\u00e3o contra falsos doutores (1Tm 4,1-11) (STR\u00d6HER, 2006, p. 5-134).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As comunidades joaninas situam-se no final do s\u00e9culo I, e podem ser conhecidas por uma literatura pr\u00f3pria, constitu\u00edda por um Evangelho (Jo), aparentado com tr\u00eas cartas (1, 2 e 3Jo) e um Apocalipse (Ap). Retratam o ambiente da \u00c1sia Menor, em torno a \u00c9feso, e se ressentem de influ\u00eancias filos\u00f3ficas externas, de ruptura com a sinagoga judaica e de conflitos doutrinais internos. Por isso mesmo, insistem no testemunho, no amor e na fidelidade. Confirmam a persegui\u00e7\u00e3o e a perseveran\u00e7a, com verdadeiro mart\u00edrio de sangue e com renovada esperan\u00e7a de novo c\u00e9u e nova terra (KONINGS, 2011, p. 145-147).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras comunidades de f\u00e9 crist\u00e3, do final do s\u00e9culo I, s\u00e3o retratadas nas ditas cartas cat\u00f3licas ou universais (Tg; 1 e 2Pd; 1, 2, 3Jo; Jd), porque se dirigem a comunidades diversas, de maneira mais abrangente. Essa literatura ilustra a inser\u00e7\u00e3o do Cristianismo em contextos diferentes, de maneira fiel e criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sirva como conclus\u00e3o de toda essa caminhada hist\u00f3rica, a afirma\u00e7\u00e3o da carta de Tiago, que sintetiza a dimens\u00e3o \u00e9tica da religi\u00e3o da B\u00edblia: \u201cA religi\u00e3o pura e sem m\u00e1cula diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: visitar os \u00f3rf\u00e3os e as vi\u00favas em suas tribula\u00e7\u00f5es e guardar-se livre da corrup\u00e7\u00e3o do mundo\u201d (Tg 1,27).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Valmor da Silva . <\/em>PUC Goi\u00e1s<em>. <\/em>Texto original em portugu\u00eas. Recebido: 05\/01\/2020. Aprovado: 09\/11\/2021. Publicado: 24\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBERTZ, Rainer. <em>Historia de la religi\u00f3n de Israel en tiempos del Antiguo Testamento<\/em>. Madrid: Trotta, 1999. 2.v.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B\u00cdBLIA DE JERUSAL\u00c9M. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COMBLIN, Jos\u00e9. A Igreja na casa: contribui\u00e7\u00e3o sobre os fun\u00addamentos das Comunidades Eclesiais de Base. <em>Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira<\/em>, Petr\u00f3polis, v. 47, n. 186, p. 320-355, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COMBY, Jean; L\u00c9MONON, Jean-Pierre. <em>Vida e religi\u00f5es no Imp\u00e9rio Romano no tempo das primeiras comunidades crist\u00e3s<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1988. Documentos do Mundo da B\u00edblia, 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CORDEIRO, Ana Luisa Alves. Asherah: a deusa proibida. <em>Revista Aulas<\/em>, n. 4, p. 1-22, abr-jul 2007. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/~aulas\/Conjunto%20I\/4_1.pdf%20Acesso%20em:%20%2012%20set%2020\">https:\/\/www.unicamp.br\/~aulas\/Conjunto%20I\/4_1.pdf Acesso em: \u00a012 set 20<\/a>21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CRB\/Confer\u00eancia dos Religiosos do Brasil. <em>Sabedoria e poesia do povo de Deus<\/em>. S\u00e3o Paulo; Rio de Janeiro: Loyola; CRB, 1993. Tua Palavra \u00e9 Vida, 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CRB\/Confer\u00eancia dos Religiosos do Brasil. <em>O sonho do povo de Deus<\/em>: as comunidades e os movimentos apocal\u00edpticos. S\u00e3o Paulo; Rio de Janeiro: Loyola; CRB, 1996. Tua Palavra \u00e9 Vida, 7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FOHRER, Georg. <em>Hist\u00f3ria da religi\u00e3o de Israel<\/em>. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1982. Nova Cole\u00e7\u00e3o B\u00edblica, 15.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREYNE, Sean. <em>A Galileia, Jesus e os Evangelhos<\/em>: enfoques liter\u00e1rios e investiga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1996. B\u00edblica Loyola, 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GERSTENBERGER, Erhard S. <em>Teologias no Antigo Testamento<\/em>: pluralidade e sincretismo a f\u00e9 em Deus no Antigo Testamento. Trad. Nelson Kilpp. S\u00e3o Leopoldo: Sinodal\/CEBI, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUNNEWEG, Antonius H. J. <em>Teologia b\u00edblica do Antigo Testamento<\/em>: uma hist\u00f3ria da religi\u00e3o de Israel da perspectiva b\u00edblico-teol\u00f3gica. S\u00e3o Paulo: Teol\u00f3gica; Loyola, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HOORNAERT, Eduardo. <em>O movimento de Jesus<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KONINGS, Johan. <em>A B\u00edblia, sua origem e sua leitura<\/em>: introdu\u00e7\u00e3o ao estudo da B\u00edblia. 7.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MENA L\u00d3PEZ, Maricel (Ed.). Meguilot: enfoque feminista. <em>Revista de Interpreta\u00e7\u00e3o B\u00edblica Latino-Americana<\/em>, S\u00e3o Bernardo do Campo, v. 67, n. 3, p. 9-153, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MESTERS, Carlos. <em>Paulo ap\u00f3stolo<\/em>: um trabalhador que anuncia o Evangelho. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NAKANOSE, Shigeyuki. <em>Uma hist\u00f3ria para contar&#8230;<\/em> A P\u00e1scoa de Josias: metodologia do Antigo Testamento a partir de 2Rs 22,1-23,30. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIXLEY, George V. <em>O Reino de Deus<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REIMER, Haroldo. <em>Inef\u00e1vel e sem forma<\/em>: estudos sobre o monote\u00edsmo hebraico. S\u00e3o Leopoldo; Goi\u00e2nia: Oikos; UCG, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">REINKE, Andr\u00e9 Daniel. <em>Os outros da B\u00edblia<\/em>: hist\u00f3ria, f\u00e9 e cultura dos povos antigos e sua atua\u00e7\u00e3o no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RENCKENS, H. <em>A religi\u00e3o de Israel<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R\u00d6MER, Thomas. <em>A origem de Jav\u00e9<\/em>: o Deus de Israel e seu nome. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCARDELAI, Donizete. <em>Da religi\u00e3o b\u00edblica ao juda\u00edsmo rab\u00ednico<\/em>: origens da religi\u00e3o de Israel e seus desdobramentos na hist\u00f3ria do povo judeu. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCARDELAI, Donizete. <em>Movimentos messi\u00e2nicos no tempo de Jesus<\/em>: Jesus e outros Messias. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHMIDT, Werner H. <em>A f\u00e9 do Antigo Testamento<\/em>. S\u00e3o Leopoldo: Sinodal; EST, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHWANTES, Milton. <em>Hist\u00f3ria de Israel<\/em>. V.1: local e origens. 3.ed. S\u00e3o Leopoldo: Oikos, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHWANTES, Milton. <em>Sofrimento e esperan\u00e7a no ex\u00edlio<\/em>: hist\u00f3ria e teologia do povo de Deus no s\u00e9culo VI a.C. 3.ed. S\u00e3o Leopoldo: Oikos, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVA, Valmor da. <em>Deus ouve o clamor do povo<\/em>: teologia do \u00eaxodo. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2004. Teologias B\u00edblicas, 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">STR\u00d6HER, Marga J. (Ed.). Deuteropaulinas: um corpo estranho no corpo paulino? <em>Revista de Interpreta\u00e7\u00e3o B\u00edblica Latino-Americana<\/em>, Petr\u00f3polis, v. 55, n. 3, p. 5-134, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VASCONCELLOS, Pedro Lima; SILVA, Valmor da. <em>Caminhos da B\u00edblia<\/em>: uma hist\u00f3ria do povo de Deus. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Yhwh ser\u00e1 utilizado normalmente, como transcri\u00e7\u00e3o do tetragrama para o nome divino, dito Adonay, Jav\u00e9, Jeov\u00e1 ou Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para a cita\u00e7\u00e3o dos textos b\u00edblicos, segue-se normalmente a <em>B\u00edblia de Jerusal\u00e9m<\/em> (2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Sobre a import\u00e2ncia da profecia na religi\u00e3o de Israel h\u00e1 in\u00fameras obras. As notas que seguem podem ser aprofundadas em Renckens (1969, p. 184-221); Fohrer (1982, p. 273-358); Gunneweg (2005, p. 235-283).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Sobre a religi\u00e3o no ex\u00edlio, segue-se aqui, fundamentalmente, Schwantes (2009), Renckens (1969, p. 222-233); Fohrer (1982, p. 381-407); Gunneweg (2005, p. 285-295).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Sobre a religi\u00e3o no per\u00edodo persa, pode-se consultar Renckens (1969, p. 233-238); Fohrer (1982, p. 411-440); Gunneweg (2005, p. 297-306).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Sobre a religi\u00e3o no per\u00edodo helenista, veja Renckens (1969, p. 238-251); Fohrer (1982, p. 441-485); Gunneweg (2005, p. 307-341).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Para a vis\u00e3o panor\u00e2mica da hist\u00f3ria e literatura pode-se conferir: Vasconcellos e Silva (2009, p. 223-370).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 A religi\u00e3o de Israel em seu contexto religioso e cultural 1.1 A religi\u00e3o dos patriarcas e matriarcas 1.2 Religi\u00e3o na monarquia 1.3 Religi\u00e3o no ex\u00edlio 1.4 Religi\u00e3o no per\u00edodo persa 1.5 Religi\u00e3o no per\u00edodo helenista 2 A religi\u00e3o crist\u00e3 do Novo Testamento em seu contexto religioso e cultural 2.1 Jesus de Nazar\u00e9, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-2531","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2531"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2531\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2532,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2531\/revisions\/2532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}