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{"id":2527,"date":"2021-12-24T16:05:19","date_gmt":"2021-12-24T19:05:19","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2527"},"modified":"2021-12-24T16:05:19","modified_gmt":"2021-12-24T19:05:19","slug":"graca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2527","title":{"rendered":"Gra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Experi\u00eancia antropol\u00f3gica da gra\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O termo gra\u00e7a em perspectiva b\u00edblica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 No Antigo Testamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 No Novo Testamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Outros termos b\u00edblicos para a realidade da gra\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A gra\u00e7a como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.1 Um acontecimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2 O acontecer do Reino na pessoa e minist\u00e9rio de Jesus, insepar\u00e1veis do seu Esp\u00edrito<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.3 Uma nova situa\u00e7\u00e3o gerada por novas rela\u00e7\u00f5es<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.4 Gratuidade, liberdade, perd\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.5 Ora\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.6 Presente e futuro<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.7 Cruz<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.8 Atra\u00e7\u00e3o e plenifica\u00e7\u00e3o do Reino pelo Esp\u00edrito<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A gra\u00e7a como vida nova<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.1 O testemunho paulino<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.2 A entrada no dinamismo do Reino<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.3 Uma narrativa paradigm\u00e1tica: \u201ca tua f\u00e9 te salvou\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.4 Justifica\u00e7\u00e3o \u2013 dom e resposta na vida nova<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.5 Universalidade e integralidade da vida nova<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.6 Liberta\u00e7\u00e3o e liberdade na vida nova<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.7 A ora\u00e7\u00e3o na vida nova<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.8 Regenera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es fundamentais \u2013 o conte\u00fado da vida nova<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 A gra\u00e7a como segredo de salva\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>6.1 Um segredo de salva\u00e7\u00e3o presente no humano<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>6.2 Um segredo de salva\u00e7\u00e3o presente na hist\u00f3ria e nas culturas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>6.3 Um segredo de salva\u00e7\u00e3o presente no cosmo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Dinamismos da gra\u00e7a: encarnat\u00f3rio-ken\u00f3tico, trinit\u00e1rio e sacramental<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>7.1 Dinamismo encarnat\u00f3rio e ken\u00f3tico<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>7.2 Dinamismo trinit\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>7.3 Dinamismo sacramental<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra <em>gra\u00e7a<\/em>, tal como \u00e9 utilizada na linguagem crist\u00e3, designa os m\u00faltiplos aspectos \u2013 diferentes, mas entrela\u00e7ados \u2013 da realidade nova e salv\u00edfica, vinda de Deus, por e em Jesus Cristo, no Esp\u00edrito, que permeia a humanidade, a hist\u00f3ria e toda a cria\u00e7\u00e3o, atuando e transformando-as por dentro e oferecendo-lhes um futuro novo. Esta realidade de Deus, simultaneamente, possibilita \u00e0 humanidade acolh\u00ea-la, experiment\u00e1-la, viv\u00ea-la e compartilh\u00e1-la; a toda a cria\u00e7\u00e3o, possibilita ser recebida e comunicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A realidade da gra\u00e7a pretende aqui ser tratada em sentido b\u00edblico, din\u00e2mico, libertador, integrado e relacional. O seguinte esquema, em sete pontos, norteia a abordagem:<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Experi\u00eancia antropol\u00f3gica da gra\u00e7a<\/li>\n<li>O termo <em>gra\u00e7a<\/em> em perspectiva b\u00edblica<\/li>\n<li>Outros termos b\u00edblicos para a realidade da gra\u00e7a<\/li>\n<li>A gra\u00e7a como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo<\/li>\n<li>A gra\u00e7a como vida nova<\/li>\n<li>A gra\u00e7a como segredo de salva\u00e7\u00e3o no humano, na hist\u00f3ria, nas culturas e no cosmo<\/li>\n<li>Dinamismos da gra\u00e7a: encarnat\u00f3rio, <em>ken\u00f3tico<\/em>, trinit\u00e1rio e sacramental<\/li>\n<\/ol>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Experi\u00eancia antropol\u00f3gica da gra\u00e7a<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na raiz da reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre a gra\u00e7a h\u00e1 uma experi\u00eancia antropol\u00f3gica simples, corporal e po\u00e9tica de gratuidade, graciosidade e gratid\u00e3o que possibilita a forma\u00e7\u00e3o dos sentidos da linguagem da <em>gra\u00e7a<\/em> (SEGUNDO, 1977, p. 6-9). Tal experi\u00eancia se d\u00e1 mediante atitudes marcadas por jovialidade, flexibilidade, abertura, reconhecimento do dom e dom gratuito de si. \u00c9 percebida no contato com o que \u00e9 desmedido, criativo, surpreendente e encantador. Nas rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais, faz-se sentir quando se ultrapassa a troca justa, predeterminada, necess\u00e1ria e dedut\u00edvel. No Evangelho de Lucas, Jesus ressalta este sentido, ao perguntar: \u201cse amais os que vos amam, que gratid\u00e3o mereceis?\u201d e \u201cse fazeis o bem aos que vo-lo fazem, que gratid\u00e3o mereceis?\u201d (Lc 6,32-33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A percep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica e universal da realidade gratuita, que ultrapassa medidas, surpreende e encanta, possibilita compreender melhor por que a palavra <em>gra\u00e7a<\/em> \u00e9 utilizada teologicamente, para expressar a benevol\u00eancia e miseric\u00f3rdia de Deus e os bens que dele brotam. Especialmente, designa o maior bem: a realidade nova trazida gratuitamente por Cristo, gra\u00e7a em pessoa. Para a f\u00e9 crist\u00e3, o car\u00e1ter do gratuito, gracioso, abundante e encantador presente na exist\u00eancia profunda do humano e do mundo \u00e9 conferido pelo pr\u00f3prio Deus (SEGUNDO, 1977, p. 13). \u00c9 ele quem possibilita esta experi\u00eancia, capacita a cr\u00edtica \u00e0 vida negada, convida \u00e0 acolhida concreta e pr\u00e1tica da novidade de vida, porque ele, Deus, \u00e9 sua fonte.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O termo <em>gra\u00e7a<\/em> em perspectiva b\u00edblica<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o crist\u00e3 sobre a gra\u00e7a de Deus em Jesus Cristo \u00e9 preparada por um h\u00famus b\u00edblico abrangente, composto por termos que ressaltam o car\u00e1ter gratuito, misericordioso e benevolente de Deus em sua rela\u00e7\u00e3o com a humanidade, com seu povo e com o mundo criado.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.1 No Antigo Testamento<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Antigo Testamento, os principais termos hebraicos equivalentes \u00e0 <em>gra\u00e7a<\/em> s\u00e3o <em>\u1e25en<\/em> e <em>\u1e25esed<\/em>. O termo <em>\u1e25en<\/em> indica a benevol\u00eancia e favor de Deus que, em sentido literal, inclina-se em dire\u00e7\u00e3o ao miser\u00e1vel (da raiz <em>\u1e25anan<\/em>, que significa inclinar o olhar), gerando express\u00f5es como \u201cencontrar \u2018gra\u00e7a\u2019 aos olhos do Senhor\u201d (Gn 6,8; Ex 33,12-17); gozar do favor (Ex 3,21; 11,3). O voc\u00e1bulo <em>\u1e25esed <\/em>designa a miseric\u00f3rdia, o amor, a amizade, a bondade e a fidelidade generosa de Deus \u00e0 sua alian\u00e7a. Este termo \u00e9 associado a <em>emet<\/em>, que ressalta a firmeza, fidelidade, veracidade e lealdade de Deus \u00e0 promessa realizada; e a <em>ra\u1e25amim<\/em>, compaix\u00e3o e ternura divinas, ades\u00e3o cordial e mesmo visceral aos que s\u00e3o por ele amados. S\u00e3o voc\u00e1bulos encontrados tanto em conjunto, como em Ex 34,6-7 (BAUMGARTNER, 1982, p. 36) e no Salmo 77(76), 9-10 (FLICK; ALSZEGHY, 1964, p.19), quanto em numerosas composi\u00e7\u00f5es entre eles, como termos equivalentes. Esta constela\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica expressa o pr\u00f3prio Deus em sua fidelidade a si mesmo, \u00e0 alian\u00e7a por ele estabelecida com o seu povo e ao seu des\u00edgnio de vida e liberta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esse povo, apesar da recusa e ruptura humanas em rela\u00e7\u00e3o a Deus. Qualifica o amor divino, gratuito e misericordioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Associada a esses termos, encontra-se a express\u00e3o <em>todah<\/em>, ou celebrar, agradecer e louvar o Senhor por suas miseric\u00f3rdias (SESBO\u00dc\u00c9, 2010, p. 230). A alian\u00e7a de Deus com o seu povo comporta um encontro da miseric\u00f3rdia de Deus com o acolhimento agradecido e ativo desta miseric\u00f3rdia, resposta ao amor divino (Dt 5,10; 7,9.12). Neste sentido, a gra\u00e7a implica \u201catitude de alian\u00e7a\u201d (KONINGS, 2000, p.91) entre Deus e o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Septuaginta, os voc\u00e1bulos principais que significam a <em>gra\u00e7a<\/em> como dom gratuito, benevolente e misericordioso de Deus foram traduzidos pelos termos<em> charis<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o grega de <em>\u1e25en,<\/em> e <em>eleos<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o grega de <em>\u1e25esed <\/em>(SESBO\u00dc\u00c9, 2010, p. 230).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura sapiencial tardia agregou outros sentidos ao termo <em>charis<\/em>. De particular import\u00e2ncia para o significado crist\u00e3o \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a com a sabedoria criadora de Deus (Sb 8,21). Deus cria pela sabedoria e justi\u00e7a (Pr 3,19; 8,20-31) e estas s\u00e3o identificadas com a Lei e a <em>Torah<\/em> (Sr 24,23) (SESBO\u00dc\u00c9, 2010, p. 231). O termo \u00e9 tamb\u00e9m associado ao encanto e graciosidade da virtude (Pr 1,9; 3,22), indica benef\u00edcio divino concedido ao justo (Sb 3,14) e a pr\u00f3pria justi\u00e7a, vista como recompensa concedida aos eleitos (Sb 3,9), tamb\u00e9m na vida futura (Sb 4,14-15) (BAUMGARTNER, 1982, p. 36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constela\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica, vista acima, constitui o h\u00famus para o uso da express\u00e3o no Novo Testamento.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 No Novo Testamento<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No NT, a palavra <em>charis<\/em> traz o sentido veterotestament\u00e1rio mais abrangente visto acima e encontra o seu centro na salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo (SESBO\u00dc\u00c9, 2010, p. 230). A palavra latina <em>gratia<\/em> (gra\u00e7a) traduz o grego <em>charis.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de notar que o termo n\u00e3o aparece nenhuma vez nos Evangelhos de Marcos e Mateus, poucas vezes em Jo\u00e3o (tr\u00eas vezes no Pr\u00f3logo), sendo mais frequente em Lucas (oito vezes) e Atos dos Ap\u00f3stolos (dezessete vezes). Nas ep\u00edstolas de S\u00e3o Paulo, torna-se express\u00e3o central e \u00e9 citada mais de uma centena de vezes (BAUMGARTNER, 1982, p. 32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na teologia paulina, a benevol\u00eancia e o amor de Deus est\u00e3o associados ao dom de Cristo e \u00e0 vida nova instaurada por ele (LADARIA, 1997, p. 145-147). A gra\u00e7a significa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o pr\u00f3prio Jesus Cristo; as f\u00f3rmulas de sauda\u00e7\u00e3o: \u201cque a gra\u00e7a de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco!\u201d (Rm 16,20 cf. 1Cor 16,23; 2Cor 13,13 e outras), podem significar \u201ca gra\u00e7a que \u00e9 Jesus Cristo\u201d, a demonstrar que \u201co amor e o favor de Deus aos homens adquirem, em Jesus, um rosto concreto\u201d (LADARIA, 1997, p. 146);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o novo \u00e2mbito em que se encontra e vive a pessoa incorporada a Cristo (estar na gra\u00e7a \u00e9 estar em Cristo, cf. Rm 5,2), \u00e2mbito em que \u00e9 possibilitada uma vida nova (Rm 6,1.4), vivida na gratuidade do amor de Deus e na verdadeira liberdade (\u201cn\u00e3o estais debaixo da Lei, mas sob a gra\u00e7a\u201d, Rm 6,14; cf. Gl 1,6; 5,4), no Esp\u00edrito (Gl 5,18; 2Cor 3,17);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o poder paradoxal de Deus em Cristo, que inverte a \u00f3tica comum e torna a pessoa forte em sua fraqueza (\u201cBasta-te a minha gra\u00e7a, pois \u00e9 na fraqueza que a for\u00e7a manifesta todo o seu poder\u201d, 2Cor 12,9);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o evento instaurador de reden\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o; a gra\u00e7a concedida em Jesus \u00e9 radical e mais forte que o mal; em Cristo se obt\u00e9m a reden\u00e7\u00e3o dos pecados (Ef 1,6s); gra\u00e7as a ela o crist\u00e3o se incorpora ao pr\u00f3prio Cristo, pela f\u00e9 (Ef 2,5-8);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* a obra de Cristo em perspectiva c\u00f3smica e universal (Ef 1,3ss);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o pr\u00f3prio Cristo enquanto revela\u00e7\u00e3o e a epifania do amor de Deus aos homens e mulheres (nas cartas pastorais, em Tt 2,11s; 3,4-7);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* o dom particular da miss\u00e3o e do apostolado, recebido por Paulo, de que ele n\u00e3o \u00e9 pessoalmente digno (Rm 1,5 \u2013 \u201cpor quem recebemos a gra\u00e7a e a miss\u00e3o de pregar\u201d; cf. Rm 12,3; Gl 1,15).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Outros termos b\u00edblicos para a realidade da gra\u00e7a <\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Evangelhos encontram outras formas de expressar o dom de Deus em Jesus Cristo, a transforma\u00e7\u00e3o que ele suscita no ser humano e no mundo e os caminhos concretos da sua acolhida, a julgar pela escassez do termo <em>gra\u00e7a<\/em> na reda\u00e7\u00e3o desses livros. Na teologia joanina, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de amor-<em>\u00e1gape<\/em> acentua a gratuidade e a miseric\u00f3rdia de Deus e seus efeitos no amor entre irm\u00e3os (BAUMGARTNER, 1982, p. 32). A ideia de vida e de luz traduzem a novidade e miss\u00e3o de Jesus e a participa\u00e7\u00e3o nelas: \u201cEu vim para que tenham a vida\u201d (Jo 10,10); \u201cEu sou o caminho, a verdade e a vida\u201d (Jo 14,6) (LADARIA, 2007, p. 104; BAUMGARTEN, 1982, p. 57). Nos Evangelhos sin\u00f3pticos, o termo que corresponde \u00e0 ideia joanina de \u201cvida eterna\u201d \u00e9 a realidade do Reino de Deus (KONINGS, 2000, p. 131).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia latino-americana privilegia a no\u00e7\u00e3o de Reino de Deus como central para a aproxima\u00e7\u00e3o ao sentido da gra\u00e7a de Deus. O termo n\u00e3o apenas desenvolve aspectos paulinos importantes do tema da gra\u00e7a, como poderiam ser o dom do Esp\u00edrito ou a transforma\u00e7\u00e3o interior da pessoa. A no\u00e7\u00e3o de Reino de Deus vai al\u00e9m disso. Ela \u00e9 princ\u00edpio hermen\u00eautico para se compreender a realidade da gra\u00e7a divina que se autocomunica em Jesus Cristo, faz-se hist\u00f3ria concreta, manifesta o sentido profundo da vida comum e no mundo, instaura um ju\u00edzo das situa\u00e7\u00f5es que matam a vida, marginalizam irm\u00e3os e manipulam a religi\u00e3o, convoca a uma vida nova baseada em novas rela\u00e7\u00f5es com Deus, com os demais, consigo mesmo e com a natureza, forma a comunidade crist\u00e3 e conduz, pelo Esp\u00edrito, a um futuro novo. A partir do acontecimento do Reino de Deus instaurado por Jesus se conhece em que consiste o evento salv\u00edfico de Cristo e a participa\u00e7\u00e3o nele.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A gra\u00e7a como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reinado de Deus em Jesus Cristo \u00e9 acontecimento da gra\u00e7a de Deus, narrado nos Evangelhos sin\u00f3pticos. Alguns aspectos o caracterizam e manifestam a l\u00f3gica da a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus, seus efeitos no humano, nas rela\u00e7\u00f5es e na hist\u00f3ria.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.1 Um acontecimento<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a de Deus revelou-se, com a irrup\u00e7\u00e3o do Reino de Deus em Jesus Cristo, um acontecimento novo, sens\u00edvel, libertador, desenvolvido na hist\u00f3ria e aberto ao futuro escatol\u00f3gico. O Reino de Deus refaz a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de Deus, do mundo criado e da vida humana, pois traduz o envolvimento radical de Deus com estas realidades, atrav\u00e9s de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1,2). Ao mesmo tempo, instaura esperan\u00e7as escatol\u00f3gicas de plenitude, em continuidade aos acontecimentos \u201cdaqueles dias\u201d (Mc 1,9; 16,7). Ao acontecer, a gra\u00e7a de Deus em Jesus Cristo suscita e exige acolhida e resposta humanas \u2013 tamb\u00e9m hist\u00f3ricas e marcadas pela concretude. Dom de Deus e resposta humana, que pela liberdade pode ser de abertura, indiferen\u00e7a ou rejei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se separam. Na diversidade de respostas se encontram a vida nova \u2013 acolhida da gra\u00e7a \u2013 ou o afastamento dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino de Deus acontece quando Deus reina em Jesus Cristo \u2013 por isso \u00e9 reinado de Deus, dom\u00ednio de Deus. Evento marcado por dinamismo. Deus, em Jesus Cristo, \u00e9 aquele que age, presen\u00e7a atuante que modifica a hist\u00f3ria, altera uma ordem de coisas. N\u00e3o \u00e9 movimento ascendente, c\u00faltico ou confessional. \u00c9 movimento descendente que se faz hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 conceito a ser apreendido intelectualmente, mas sim realidade hist\u00f3rica e concreta segundo a vontade de Deus (SOBRINO, 1982, p. 131-155).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2 O acontecer do Reino na pessoa e minist\u00e9rio de Jesus, insepar\u00e1veis do seu Esp\u00edrito<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pessoa de Jesus, \u201co salvador\u201d (Lc 2,11) e a globalidade do seu minist\u00e9rio, centrado no Reino de Deus, narram o acontecer da gra\u00e7a. Desde o in\u00edcio a gra\u00e7a de Deus est\u00e1 com ele (Lc 2,40.52); seu testemunho \u00e9 uma \u201cmensagem da gra\u00e7a\u201d (Lc 4,22). E ainda, a bondade e benignidade de Deus se fazem bondade e benignidade em Jesus Cristo, salva\u00e7\u00e3o presente de Deus, encarnada e feita hist\u00f3ria (BOFF, 1985, p. 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cEvangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus\u201d \u00e9 o \u201cEvangelho de Deus\u201d (Mc 1,1.14.15), a novidade benfazeja vinda de Deus, por Cristo, que n\u00e3o se separa do seu Esp\u00edrito. A pessoa de Jesus pressup\u00f5e o agir do Esp\u00edrito de Deus, como se v\u00ea desde a anuncia\u00e7\u00e3o (Lc 1,35) at\u00e9 a promessa do Esp\u00edrito pelo Ressuscitado (Lc 24,49), passando pelo in\u00edcio de sua vida p\u00fablica (Mt 3,16-17; 4,1; Lc 4,1.14) e atua\u00e7\u00e3o como Messias servidor (Lc 4,18-19; 7,22; Mt 12,28; Lc 10,21). Na partida de Jesus, h\u00e1 a efus\u00e3o, transmiss\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (Jo 19,30; 20,22), princ\u00edpio vital do Cristo ressuscitado (At 2,32-33) que possibilita a f\u00e9 (At 2,22; 5,30-32) e o amor concreto (1Cor 13), em seguimento daquele que passou a vida fazendo o bem (At 10,38).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.3 Uma nova situa\u00e7\u00e3o gerada por novas rela\u00e7\u00f5es<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino inaugura uma nova situa\u00e7\u00e3o, em que a rela\u00e7\u00e3o com Deus e entre as pessoas \u00e9 restaurada pela mensagem, atua\u00e7\u00e3o e pela pr\u00f3pria pessoa de Jesus. Deus \u00e9 chamado de Pai-<em>Abb\u00e1<\/em>, pr\u00f3ximo e cheio de miseric\u00f3rdia, e Jesus o apresenta como Pai de todos, \u201cnosso\u201d. A rela\u00e7\u00e3o de Jesus com o Pai \u00e9 de entrega e confian\u00e7a, acolhida de sua vontade. Amor concreto, justi\u00e7a e paz caracterizam as rela\u00e7\u00f5es humanas no Reino (Mt 5,3-12; Mt 6,9-15). O dom do Reino se estende a todos, que s\u00e3o chamados a regenerar suas rela\u00e7\u00f5es e seu agir segundo as rela\u00e7\u00f5es e o agir de Jesus. A atua\u00e7\u00e3o de Jesus suscita a resposta de convers\u00e3o e f\u00e9, convida \u00e0 vida segundo a vontade do Pai (Mt 12,50), anima a ouvir e colocar em pr\u00e1tica sua palavra (Lc 11,28). Todos s\u00e3o chamados a se incorporar a esta nova fam\u00edlia escatol\u00f3gica que tem Deus como Pai de todos, e Jesus como irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As novas rela\u00e7\u00f5es do Reino s\u00e3o chamadas a acontecer em todas as dimens\u00f5es da vida, como a pessoal (Mt 6,21-23), familiar (Mt 19,13-15; 21,28-30), comunit\u00e1ria (Mt 7,5; 18,21), profissional (Lc 19,8), sociopol\u00edtica (Mt 6,24; 25,35s; Mc 10,42-45), ecol\u00f3gica (Mt 6,26.28), religiosa (Mt 7,21) etc. Acontecem em todos os espa\u00e7os f\u00edsicos \u2013 assim, Jesus atuava nas barcas, \u00e0s margens do lago, nas casas, nas cidades, nos caminhos e n\u00e3o apenas nas sinagogas. Em todas as circunst\u00e2ncias, quer no sil\u00eancio dos lugares desertos, quer nos eventos festivos, Jesus convoca \u00e0 nova forma de ser, relacionar-se e atuar. Jesus relacionou-se com todo tipo de pessoas, abriu-se aos que n\u00e3o o seguiam, mas faziam o bem (Mc 9,38-41), amou os inimigos.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.4 Gratuidade, liberdade, perd\u00e3o<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino \u00e9 dom do amor do Pai (Lc 12,32; 22,29; Mt 25,34; Mc 4,26-29), um acontecimento da gra\u00e7a de Deus e n\u00e3o do esfor\u00e7o humano ou de suas realiza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Trata-se de um amor incondicionado, que atinge todos, iniciando pelos que nada possuem, nada t\u00eam a oferecer, enchendo suas vidas de amor e perspectivas, ao mesmo tempo em que interpela os que colocam o cora\u00e7\u00e3o em seus bens ou no mero cumprimento das leis religiosas. Os destinat\u00e1rios principais evidenciam a gratuidade do Reino (GARCIA RUBIO, 2010, p. 39-45): pobres (Lc 6,20; 4,18; Mt 11,5); crian\u00e7as, grupo marginalizado (Mt 10, 14-16); pequeninos (Mt 11,25-26); doentes, vistos como castigados por suas faltas (Jo 9,2); inimigos (Lc 7,36; 23,34); pecadores (Mt 9,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino \u00e9 acontecimento de liberdade que implica op\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es (GARCIA RUBIO, 2010, p. 54-74). Jesus age de maneira surpreendente diante da Lei, do s\u00e1bado e das normas religiosas (Mc 2,1-27; 7,1-23), e convida os disc\u00edpulos \u00e0 mesma atitude livre (Mc 2,19). A liberdade de Jesus se estende ao uso das riquezas (Mt 6,24) e ao tratamento sem preconceitos de grupos marginalizados, como as mulheres e samaritanos. No Reino de Deus, as realidades da Lei, do s\u00e1bado, das normas religiosas, da riqueza e outras estruturas humanas est\u00e3o a servi\u00e7o da vida e da comunh\u00e3o, do humano e da humaniza\u00e7\u00e3o. \u00a0A pr\u00f3pria liberdade \u00e9 sinal do Reino. A liberdade para o amor e o servi\u00e7o \u00e9, em Jesus, radical e vai \u201cat\u00e9 o extremo\u201d (Jo 13,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perd\u00e3o dos pecados \u00e9 um acontecimento de gra\u00e7a que marca o minist\u00e9rio de Jesus (TOLENTINO, 2018, p. 143-155). Os atos de Jesus (Lc 15,1-2) representam a mesma atitude que, nas par\u00e1bolas da miseric\u00f3rdia, s\u00e3o pr\u00f3prias do Pai (Lc 15,7.10.24.32). Numa inflex\u00e3o inesperada, Jesus supera a ideia do pecador aplicada a determinados grupos (publicanos e prostitutas). Para ele, toda confian\u00e7a na autossufici\u00eancia arrogante, mesmo sob o manto protetor da religi\u00e3o ou da Lei, torna a pessoa pecadora e carente da gra\u00e7a de Deus. Neste sentido, reconhecer-se carente (Lc 18,9-14), abrir-se \u00e0 a\u00e7\u00e3o transformadora de Deus mediante o encontro com Jesus e busc\u00e1-lo torna-se o paradigma da pessoa de f\u00e9 (Lc 7,36-50).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.5 Ora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 central no acontecimento do Reino e, para os seus seguidores, \u00e9 paradigm\u00e1tica (Mt 6,9-15) (GARCIA RUBIO, 2010, p. 81-88). Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica com aquele que ele chama de <em>Abb\u00e1<\/em>-Pai, e manifesta uma atitude fundamental de confian\u00e7a e entrega ao Pai, que os disc\u00edpulos s\u00e3o igualmente chamados a cultivar. A ora\u00e7\u00e3o constante de Jesus (Lc 5,16) \u00e9 vivida em conex\u00e3o com os acontecimentos de sua vida, fato que os Evangelhos narram abundantemente, e revela o dinamismo da rela\u00e7\u00e3o entre Jesus e o Pai (Lc 3,21; 4,1; Mc 1,35; Lc 5,16; Mt 14,23; Lc 6,12; Lc 9,18; Lc 9,28-29; Lc 11,1; Mt 26,36-44 e par; Mc 15,34; Mt 27,46; Lc 23,34.46; Jo 11,41; Jo 17,1-26).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.6 Presente e futuro<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino de Deus acontece no dinamismo do tempo presente com o futuro. No \u201cj\u00e1 e ainda n\u00e3o\u201d. J\u00e1 est\u00e1 acontecendo (Lc 17,21; Mt 12,28; Lc 4,18-21). E \u00e9 tamb\u00e9m futuro escatol\u00f3gico (Mc 9,1; Lc 13,28). Neste dinamismo, o presente, mesmo em sua ambiguidade e incompletude, inaugura a plenitude futura; o futuro penetra e esclarece o presente como tempo de decis\u00e3o para alcan\u00e7ar o Reino (GARCIA RUBIO, 2010, p. 48-49).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.7 Cruz<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O acontecimento da gra\u00e7a passa pela cruz. A morte de Jesus na cruz constitui a culmin\u00e2ncia de uma vida de entrega ao Pai e aos irm\u00e3os, n\u00e3o isenta de conflitos de todos os tipos, inclusive pol\u00edticos e religiosos. Est\u00e1 em conex\u00e3o com a orienta\u00e7\u00e3o de toda a sua vida de amor, caracterizado pelo servi\u00e7o, n\u00e3o sujei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o domina\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os e respeito pelas decis\u00f5es da liberdade humana. \u00c9 o resumo de uma vida em \u201camor extremado\u201d (Jo 13,1), a indicar que o Reino de Deus n\u00e3o acontece <em>apesar<\/em> da morte de Jesus, mas, precisamente <em>por<\/em> ela, enquanto radicaliza\u00e7\u00e3o de seu amor fiel. A cruz de Jesus demonstra o caminho da vit\u00f3ria sobre o pecado e o mal: o amor at\u00e9 o fim, que leva \u00e0 plenitude da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.8 Atra\u00e7\u00e3o e plenifica\u00e7\u00e3o do Reino pelo Esp\u00edrito<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Jesus Cristo, o Reino \u00e9 levado \u00e0 plenitude escatol\u00f3gica. A voca\u00e7\u00e3o humana, em sentido universal, pode ser qualificada, pela reflex\u00e3o crist\u00e3, como chamado \u00e0 felicidade do Reino de Deus; e chega a todos os que se deixam atrair pelo seu dinamismo relacional e concreto (MIRANDA, 2016, p. 49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino, acontecimento divino que irrompe com Jesus Cristo, \u00e9 hist\u00f3ria favor\u00e1vel aos homens e mulheres concretos, gra\u00e7a libertadora. \u00c9 dom universal pela encarna\u00e7\u00e3o, vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, manifesta\u00e7\u00e3o radical da bondade e benevol\u00eancia divinas reveladas na cria\u00e7\u00e3o e na primeira Alian\u00e7a. Instaura uma nova ordem de rela\u00e7\u00f5es com Deus e entre as pessoas, associada \u00e0 forma como Jesus viveu e relacionou-se, \u00e0s op\u00e7\u00f5es por ele realizadas e \u00e0s a\u00e7\u00f5es que historicamente realizou. Os seguidores de Jesus s\u00e3o os primeiros respons\u00e1veis pelo testemunho deste acontecimento maravilhoso. Pelo Esp\u00edrito, o Ressuscitado atrai \u00e0s rela\u00e7\u00f5es do Reino, em fam\u00edlia de irm\u00e3os e irm\u00e3os (Paulo chama Jesus de \u201cprimog\u00eanito\u201d de uma multid\u00e3o de irm\u00e3os, Rm 8,29), numa vida nova em seguimento a Jesus Cristo (Mt 16,24).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>5 A gra\u00e7a como vida nova<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a libertadora de Deus atua e \u00e9 acolhida na integralidade da vida humana e crist\u00e3, trazendo como efeito a vida nova.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.1 O testemunho paulino<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">As cartas paulinas nos afirmam, de v\u00e1rias maneiras, que a gra\u00e7a \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o na morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, pela f\u00e9 e pelo sacramento da f\u00e9, o batismo (Gal 3,26; Rm 6). Se algu\u00e9m est\u00e1 <em>em Cristo<\/em>, \u00e9 nova criatura. O que era antigo desapareceu e nasce nele uma nova cria\u00e7\u00e3o, um novo ser (2Cor 5,17). Neste sentido, estar na gra\u00e7a \u00e9 estar no \u00e2mbito de Cristo, em sua atmosfera, sob o seu dinamismo. Ao mesmo tempo, Paulo complementa com a afirma\u00e7\u00e3o inversa, a gra\u00e7a de Cristo vive no crist\u00e3o, est\u00e1 nele (Gal 2,19-21; cf. 4,19; 2Cor 13,5; Ef 3,17; Rm 8,9-11). Desta uni\u00e3o com Cristo e em Cristo nasce a vida nova. N\u00e3o se trata de uma simples convers\u00e3o moral, mas de uma realidade nova, possibilitada pelo amor de Deus, que atinge a profundidade da exist\u00eancia, interior e exterior. Atua no sentido de configurar o crist\u00e3o a Cristo (2Cor 3,18), libertar a liberdade para amar (Gl 5,1). Este amor de Deus \u00e9 o dom do pr\u00f3prio Deus, por Cristo, pelo Esp\u00edrito de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida nova \u00e9 atualizada, no viver di\u00e1rio, como passagem do primeiro ao verdadeiro Ad\u00e3o (1Cor 15,49), do \u201chomem velho\u201d ao \u201chomem novo\u201d (GARCIA RUBIO, 2014, p. 205-209). O \u201chomem novo\u201d conhece existencialmente o Cristo, experimenta-o, deixa-se renovar por ele (Cl 3,10). A renova\u00e7\u00e3o impulsiona e exige uma resposta \u00e9tica (Cl 3,5-17), numa vida revestida de amor (Cl 3,14). Trata-se, simultaneamente, de uma realidade j\u00e1 presente e de um dinamismo de transforma\u00e7\u00e3o, em tens\u00e3o e conflito com o \u201chomem velho\u201d. A passagem que se realiza no tempo presente exige aten\u00e7\u00e3o, no sentido de reduzir a negatividade do \u201chomem velho\u201d e desenvolver o crescimento do \u201chomem novo\u201d.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.2 A entrada no dinamismo do Reino <\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras categorias, a vida nova consiste na entrada no dinamismo do Reino de Deus. Os Evangelhos nos falam do dinamismo do dom de Deus e resposta humana pela f\u00e9, convers\u00e3o e amor concreto. A fonte da resposta \u00e9 a a\u00e7\u00e3o amorosa primeira de Deus, mediante Jesus Cristo. H\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o da vida, um novo movimento, interior e exterior, cujo ponto de partida \u00e9 a gratuidade de um amor experimentado, que possibilita a abertura \u00e0 novidade de Jesus, pelo Esp\u00edrito (Mt 12,31 e par.). Em termos joaninos, a vida em abund\u00e2ncia que Jesus oferece (Jo 10,10) s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no contato com a fonte de \u00e1gua viva (Jo 4,10.14), no renascer da \u00e1gua e do Esp\u00edrito (Jo 3,5). E esta vida se traduz na viv\u00eancia do amor-caridade-<em>\u00e1gape<\/em>, caminho aberto por Jesus (Jo 14,6; 15,10.17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro com Jesus Cristo vivo exige abandonar a seguran\u00e7a em si mesmo ou nas estruturas de riqueza, religi\u00e3o ou privil\u00e9gios de grupos \u2013 \u201cprocurai primeiro o Reino de Deus\u201d (Mt 6,33). A seguran\u00e7a nos pr\u00f3prios atos ou estruturas impede a abertura ao Reino que \u00e9, antes de tudo, um dom. A atitude fundamental de entrega e confian\u00e7a no amor de Deus est\u00e1, por isso, na base da entrada no dinamismo do Reino. As par\u00e1bolas do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14) e da oferta da vi\u00fava (Lc 21,1-4) mostram a import\u00e2ncia da entrega de si mesmo e da confian\u00e7a em Deus, em contraste com a atitude dos fariseus que, em sua autojustifica\u00e7\u00e3o orgulhosa, entregam obras, mas n\u00e3o a si, e deixam de lado a justi\u00e7a e o amor de Deus (Lc 11,41) (GARCIA RUBIO, 2019, p. 112-115).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A afirma\u00e7\u00e3o da autossufici\u00eancia para a salva\u00e7\u00e3o, com consequente fechamento ao amor de Deus, \u00e9 a grande tenta\u00e7\u00e3o a ser superada para que a gra\u00e7a do Reino triunfe. Na hist\u00f3ria da teologia, a compreens\u00e3o da inter-rela\u00e7\u00e3o entre o dom divino e as respostas humanas foi objeto das disputas acirradas entre Santo Agostinho e Pel\u00e1gio. A gra\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria para fazer o bem, diz Agostinho, o pr\u00f3prio Esp\u00edrito de Deus (Rm 8,14) conduz os filhos de Deus. Mas, sem substituir a resposta humana. Ao contr\u00e1rio, o Esp\u00edrito d\u00e1 for\u00e7as e move a a\u00e7\u00e3o, de forma a que cada um saiba o que fazer e, de fato, fa\u00e7a a sua parte (SANTO AGOSTINHO, 2010, II,3.4, p. 86). Por sua vez o pelagianismo, que v\u00ea nas a\u00e7\u00f5es e estruturas humanas o princ\u00edpio da vida nova, leva a atitudes de omiss\u00e3o, de a\u00e7\u00e3o sem amor, de sujei\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e injusti\u00e7a. \u00c9 tenta\u00e7\u00e3o indicada nos Evangelhos e sempre presente na hist\u00f3ria e na Igreja, em formas renovadas (neopelagianismos), que impedem a entrada da pessoa no dinamismo do Reino de Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado (EG n. 93-97).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.3 Uma narrativa paradigm\u00e1tica: \u201ca tua f\u00e9 te salvou\u201d<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Narrativa paradigm\u00e1tica de entrada no dinamismo do Reino pela f\u00e9 (ades\u00e3o e entrega) \u00e9 a da mulher \u201cpecadora\u201d, de Lucas (Lc 7,36-50). Sem nome e marginalizada pelo grupo dos fariseus, esta mulher n\u00e3o teme mudar de lugar e entrar em uma casa hostil para se encontrar com Jesus (TOLENTINO, 2018, p. 147). N\u00e3o se trata apenas de um arrependimento de algo realizado (como anunciava Jo\u00e3o Batista), mas de um novo movimento, interior e exterior. Entra-se em novo dinamismo. A mulher reconhece a pr\u00f3pria car\u00eancia diante de Deus, d\u00e1 hospitalidade a Jesus (que o representa), desloca-se para se encontrar com ele e acede a uma nova situa\u00e7\u00e3o espiritual e existencial, marcada por liberdade e amor \u2013 a gra\u00e7a chegou a ela. Jesus lhe diz: \u201cA tua f\u00e9 te salvou. Vai em paz\u201d (Lc 7,50). Tamb\u00e9m no Evangelho de Jo\u00e3o, vemos o convite de uma vida nova concebida como \u201cnovo nascimento\u201d para ver o Reino de Deus, na narrativa de Nicodemos (Jo 3,3). \u00c9 no desvelar da depend\u00eancia da gra\u00e7a que nasce uma nova rela\u00e7\u00e3o com Deus, atrav\u00e9s de Jesus Cristo, em quem Deus se revela na gratuidade de seu amor e miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.4 Justifica\u00e7\u00e3o \u2013 dom e resposta na vida nova<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema paulino da justifica\u00e7\u00e3o ajuda a entender o processo da vida nova em sua complexidade. A justi\u00e7a de Deus parte dele, Deus, de sua fidelidade a si mesmo e ao seu projeto de amor e salva\u00e7\u00e3o (cf. Rm 3,21-26). Suscita no ser humano um novo modo de ser e de agir, possibilita ao ser humano ser guiado pelo Esp\u00edrito (cf. Rm 8,2ss) e viver a novidade de vida em conformidade com a vontade de Deus (cf. Rm 6,13-23). Ao ser humano cabe reconhecer e acolher o dom, numa atitude de f\u00e9 ativa, ades\u00e3o \u00e0 vontade amorosa de Deus. Assim sendo, dom e resposta, gra\u00e7a e acolhida da gra\u00e7a n\u00e3o podem ser vistos de maneira excludentes, mas em inter-rela\u00e7\u00e3o que tem, na iniciativa do amor divino, o seu princ\u00edpio (GARCIA RUBIO, 2004, p. 93-94).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia cl\u00e1ssica sobre a justifica\u00e7\u00e3o reafirma, com as categorias da \u00e9poca, a complexidade da a\u00e7\u00e3o de Deus que \u00e9, simultaneamente, dom, perd\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o interior e possibilita\u00e7\u00e3o da vida nova. O Conc\u00edlio de Trento afirma que o impulso primeiro vem da \u201cgra\u00e7a preveniente de Deus, por Jesus Cristo\u201d, que estimula, ajuda e convida \u00e0 vida nova sem merecimento algum, de modo que o pecador \u201cse disponha\u201d \u00e0 convers\u00e3o, \u201clivremente consentindo a gra\u00e7a\u201d (porque pode rejeit\u00e1-la) e \u201ccooperando com ela\u201d (DENZINGER-H\u00dcNERMANN, 2006, n. 1525). H\u00e1 uma \u201crenova\u00e7\u00e3o do homem interior\u201d e, pelo Esp\u00edrito, o amor de Deus \u00e9 difundido nos cora\u00e7\u00f5es (Rm 5,5) (DENZINGER-H\u00dcNERMANN, 2006, n. 1528 e 1529). A\u00e7\u00e3o de Deus e resposta humana s\u00e3o reafirmadas em sua inter-rela\u00e7\u00e3o, pois a a\u00e7\u00e3o divina, sempre primeira, n\u00e3o opera a partir de fora, ela \u00e9 interna e transformante, pelo Esp\u00edrito. Tudo \u00e9 gra\u00e7a na vida nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, a querela entre gra\u00e7a e obras na \u00e9poca da Reforma aprofundou uma compreens\u00e3o dualista entre a a\u00e7\u00e3o de Deus e a resposta na f\u00e9, afastada da acep\u00e7\u00e3o paulina. A afirma\u00e7\u00e3o de Lutero, de que a justifica\u00e7\u00e3o acontece somente pela gra\u00e7a (<em>sola gratia<\/em>), que equivale a \u201csomente por Cristo\u201d (<em>solo Christo<\/em>) e \u201csomente pela f\u00e9\u201d (<em>sola fide<\/em>), foi compreendida unilateralmente, como uma a\u00e7\u00e3o divina externa, uma declara\u00e7\u00e3o extr\u00ednseca, separada da renova\u00e7\u00e3o interior do crist\u00e3o e das obras (MIRANDA, 2016, p. 113-122). No n\u00edvel teol\u00f3gico, coube \u00e0 <em>Declara\u00e7\u00e3o conjunta sobre a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o<\/em> (1997-1999), no interior do movimento ecum\u00eanico, esclarecer a intencionalidade de Lutero, em n\u00e3o separar a renova\u00e7\u00e3o da conduta de vida da realidade interna da f\u00e9, mas sim enfatizar a gratuidade divina (DECLARA\u00c7\u00c3O CONJUNTA, 1997-1999, n. 26). Igualmente, esse Documento explicitou que a \u00eanfase do Conc\u00edlio de Trento na renova\u00e7\u00e3o de vida deve ser sempre compreendida enquanto dependente da gra\u00e7a de Deus e n\u00e3o como contribui\u00e7\u00e3o para a justifica\u00e7\u00e3o (DECLARA\u00c7\u00c3O CONJUNTA, 1997-1999, n. 27). A Declara\u00e7\u00e3o afirma, de maneira contundente, a unidade da a\u00e7\u00e3o divina, no interior da qual a iniciativa livre de Deus em justificar e salvar n\u00e3o se separa da resposta na f\u00e9: \u201csomente por gra\u00e7a, na f\u00e9 na obra salv\u00edfica de Cristo, e n\u00e3o por causa de nosso m\u00e9rito, somos aceitos por Deus e recebemos o Esp\u00edrito Santo, que nos renova os cora\u00e7\u00f5es e nos capacita e chama para as boas obras\u201d (DECLARA\u00c7\u00c3O CONJUNTA, 1997-1999, n.15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossa contemporaneidade, marcada pela meritocracia, mentalidade contratual e preconceitos, pelos quais a valoriza\u00e7\u00e3o das pessoas se d\u00e1 de acordo com o sucesso, fun\u00e7\u00e3o ou capacidade de devolver algo em troca do recebido, a justifica\u00e7\u00e3o gratuita de Deus ser\u00e1 sempre den\u00fancia de ideologias escravizadoras e fonte de liberdade para o amor, especialmente os pobres e abandonados.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.5 Universalidade e integralidade da vida nova<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dinamismo da vida nova \u00e9 um chamado universal (1Tm 2,4) e integrador. Todos os seres humanos, em todas as suas dimens\u00f5es e atividades, est\u00e3o sob o dinamismo da gra\u00e7a, chamados a entrar no dinamismo do Reino que, como foi visto, \u00e9 universal e integrador. Esta voca\u00e7\u00e3o precede toda a\u00e7\u00e3o livre e independe da cultura ou religi\u00e3o, embora delas necessite para expressar-se como linguagem e como concretiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Isto traz como consequ\u00eancia que a vida nova n\u00e3o \u00e9 para \u201calguns\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 circunscrita a \u201calguns\u201d \u00e2mbitos da vida. Aqui, ganham for\u00e7a os temas do \u201cexistencial sobrenatural\u201d, enquanto dom da orienta\u00e7\u00e3o da vida humana para Deus (K. Rahner), e da no\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria de ser humano, com a necess\u00e1ria supera\u00e7\u00e3o da teologia dos dois planos (justaposi\u00e7\u00e3o entre as ordens \u201cnatural\u201d e a \u201csobrenatural\u201d, H. de Lubac) (MIRANDA, 2016, p. 57). A irradia\u00e7\u00e3o da vida nova a todos os \u00e2mbitos humanos, afetivo, familiar, profissional, cultural, pol\u00edtico etc. foi claramente assumida pelo Conc\u00edlio Vaticano II (GS n. 34). De fato, o contexto vital \u201camplia o horizonte da gra\u00e7a e do pecado\u201d (SEGUNDO, 1977, p. 44) e exige pens\u00e1-la em sentido universal e integrado, uma vez que a resposta pessoal \u00e0 gra\u00e7a n\u00e3o pode ser substitu\u00edda pelos contextos c\u00faltico e religioso.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.6 Liberta\u00e7\u00e3o e liberdade na vida nova<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida nova \u00e9 dinamismo libertador e gerador de liberdade. Paulo fala da a\u00e7\u00e3o libertadora da gra\u00e7a como liberta\u00e7\u00e3o do pecado (Rm 6, 22), da Lei (Rm 7,6) e da morte (Rm 8,2). Em tudo isto, h\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o de que, pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Cristo, \u00e9 poss\u00edvel uma exist\u00eancia nova, na f\u00e9, na liberdade e na abertura aos demais. \u00c9 poss\u00edvel ser livre para amar (Gl 5,1). A santifica\u00e7\u00e3o pelo batismo em nada se parece \u00e0 santifica\u00e7\u00e3o ritual vazia, trata-se de uma transforma\u00e7\u00e3o existencial operada pela f\u00e9, da qual o batismo \u00e9 sacramento (MIRANDA, 2016, p. 19-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra libertadora da gra\u00e7a exige caminhos da concretiza\u00e7\u00e3o desta novidade de vida na pr\u00e1tica do amor-servi\u00e7o concreto, supera\u00e7\u00e3o de atitudes de omiss\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o do poder dominador. A convers\u00e3o e constitui\u00e7\u00e3o de uma orienta\u00e7\u00e3o fundamental ao amor \u00e9 um processo que dura toda a vida, dinamizado por escolhas concretas e atos de estrutura\u00e7\u00e3o do mundo que fortalecem a liberdade profunda para o amor e a justi\u00e7a. Assim, a atua\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a exige a articula\u00e7\u00e3o entre escolhas concretas e forma\u00e7\u00e3o da liberdade profunda para Deus (MIRANDA, 2016, p. 103). Biblicamente, podemos falar de uma articula\u00e7\u00e3o entre a pr\u00e1tica (Lc 8,21) e a forma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o (Mt 6,21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A orienta\u00e7\u00e3o profunda para Deus, exercida no n\u00edvel macrossocial, que envolve tamb\u00e9m a economia e a pol\u00edtica, n\u00e3o se d\u00e1 sem a ocorr\u00eancia de conflitos, como mostram os conflitos de Jesus na sua forma de tratar a Lei, o juda\u00edsmo do seu tempo, a riqueza, o contexto sociopol\u00edtico. O conflito demonstra as dimens\u00f5es testemunhal e martirial da resposta \u00e0 gra\u00e7a, num mundo marcado pelo pecado, das quais n\u00e3o se pode eximir. Como Igreja, a exig\u00eancia de ouvir o clamor dos pobres pela justi\u00e7a \u201cderiva da pr\u00f3pria obra libertadora da gra\u00e7a em cada um de n\u00f3s, pelo que n\u00e3o se trata de uma miss\u00e3o reservada apenas a alguns\u201d (EG n. 188), mas \u00e0 comunidade crist\u00e3 como um todo e a todos os homens e mulheres de boa vontade. H\u00e1 toda uma realidade social a exigir e esperar a \u201creviravolta\u201d da gra\u00e7a atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o das escolhas humanas.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.7 A ora\u00e7\u00e3o na vida nova<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 parte essencial do processo de acolhida e atua\u00e7\u00e3o no novo dinamismo do Reino. \u00c9 dom do Esp\u00edrito (Rm 8,26; 1Cor 12,3), fonte que suscita, fortalece e integra a vida na gra\u00e7a. Reveste-se das caracter\u00edsticas b\u00e1sicas da ora\u00e7\u00e3o de Jesus: abertura \u00e0 vontade de Deus \u2013 o Reino; rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica com Deus; inter-rela\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o com os acontecimentos da vida (Mt 6,9-13).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.8 Regenera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es fundamentais \u2013 o conte\u00fado da vida nova<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viver \u00e9 <em>com<\/em>-viver. A vida nova \u00e9 revestida de um car\u00e1ter din\u00e2mico, processual e relacional integral. A salva\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo insere numa nova ordem de rela\u00e7\u00f5es com os outros, com o mundo criado e com Deus: \u201ca salva\u00e7\u00e3o consiste na nossa uni\u00e3o com Cristo, que, com a sua encarna\u00e7\u00e3o, vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, gerou uma nova ordem de rela\u00e7\u00f5es com o Pai e entre os homens, e nos introduziu nesta ordem gra\u00e7as ao dom do seu Esp\u00edrito\u201d (CONGREGA\u00c7\u00c3O PARA A DOUTRINA DA F\u00c9, 2018, n. 4). Reveste-se tamb\u00e9m de um car\u00e1ter concreto: \u201ca gra\u00e7a que Cristo nos oferece (&#8230;) nos introduz nas rela\u00e7\u00f5es concretas que Ele mesmo viveu (&#8230;)\u201d (n. 12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo atual, com as crises socioambientais que comprometem a pr\u00f3pria vida no planeta, a vida nova pode ser explicitada em termos de \u201cnovas rela\u00e7\u00f5es\u201d, intimamente ligadas: interior consigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra (LS n. 66, 70, 237).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia latino-americana, em di\u00e1logo com as ci\u00eancias, explicita os caminhos relacionais na vida nova. A rela\u00e7\u00e3o com Deus, baseada nos desafios da gratuidade; as rela\u00e7\u00f5es inter-humanas que abrangem a solidariedade e o amor-servi\u00e7o no dom\u00ednio sociopol\u00edtico local e global, tendo a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres como orienta\u00e7\u00e3o para o discernimento do bem-comum; a viv\u00eancia do encontro inter-humano mediatizado pela sexualidade; os desafios ecol\u00f3gicos; a rela\u00e7\u00e3o com a comunidade de f\u00e9 e com a religi\u00e3o; a verdadeira rela\u00e7\u00e3o consigo pr\u00f3prio (GARCIA RUBIO, 2014 e 2019). Soma-se a tantos desafios a rela\u00e7\u00e3o intercultural, pois \u00e9 \u201ca partir das nossas ra\u00edzes que nos sentamos \u00e0 mesa comum, lugar de di\u00e1logo e de esperan\u00e7as compartilhadas\u201d (QA n. 36).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>6 A gra\u00e7a como segredo de salva\u00e7\u00e3o \u00a0<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a se apresenta como profundidade, excesso, mist\u00e9rio ou segredo de salva\u00e7\u00e3o presentes no humano, na hist\u00f3ria e no cosmo atrav\u00e9s da presen\u00e7a do pr\u00f3prio Deus, por seu Esp\u00edrito, nessas realidades, sem confundir-se com elas, mas imprimindo nelas o seu selo libertador. Est\u00e1 a\u00ed para ser discernida e acolhida, ou rejeitada.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>6.1 Um segredo de salva\u00e7\u00e3o presente no humano<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia da inabita\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria aponta para a presen\u00e7a salv\u00edfica de Deus no interior humano, por Cristo, no Esp\u00edrito. Ele faz \u201cmorada\u201d (Jo 14,23), \u201cpermanece\u201d, como a videira nos ramos (Jo 15,4 e outros), est\u00e1 nos seus (Jo 17,23). S\u00e3o Paulo refere-se ao Esp\u00edrito que habita os crist\u00e3os (1Cor 3,16; 6,19; Rm 8,9-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho encontrou Deus no mais \u00edntimo de si \u2013 <em>interior intimo meo<\/em>. E lamenta t\u00ea-lo buscado fora: \u201c[&#8230;] eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!\u201d (SANTO AGOSTINHO, 1984, p. 277). Testemunhas privilegiadas, os m\u00edsticos atestam a experi\u00eancia deste mist\u00e9rio. Santa Teresa de \u00c1vila (s\u00e9culo XVI) experimentou a presen\u00e7a de Deus trino e uno na profundidade de si mesma; deixou-se conduzir por ele e o percebeu como presen\u00e7a din\u00e2mica, transformante, comunicante e irradiante (PEDROSA-P\u00c1DUA, 2015, p. 127 et seq.). Relacionou a presen\u00e7a trinit\u00e1ria em si \u00e0 dignidade da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem de Cristo \u2013 ou seja, presen\u00e7a universal. Intuiu como o dinamismo da vida trinit\u00e1ria \u00e9 comunicado ao humano e a todas as coisas criadas e como h\u00e1 intercomunica\u00e7\u00e3o entre eles. Afirmou que a presen\u00e7a de Deus, como um sol, permanece em quem est\u00e1 em pecado mortal, fazendo com que a pessoa continue sendo capaz de fruir dele sem, contudo, fazer do amor a fonte de suas decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es, que se tornam est\u00e9reis; \u00e9 a pessoa (n\u00e3o Deus) que se retira do \u00e2mbito do amor (SANTA TERESA, 1995, R 54; R 18; 1M2,1). Tudo isso leva a afirmar que a gra\u00e7a de Deus no interior humano \u00e9 din\u00e2mica, transformante, comunicante e, em n\u00edveis distintos, experiment\u00e1vel. Trata-se da presen\u00e7a do pr\u00f3prio Deus, em seu dinamismo trinit\u00e1rio, na pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a \u00e9 abundante e desproporcional \u00e0 opacidade da maioria das experi\u00eancias e respostas humanas. Trata-se de um segredo de salva\u00e7\u00e3o operado pelo Esp\u00edrito. Por ela, afirma-se que \u201cum pouco de amor passa pelas nossas vidas\u201d (SEGUNDO, p. 157) apesar de todo o peso dos determinismos e do ego\u00edsmo que perpassam grande parte dos projetos humanos e comprometem o contexto em que a liberdade atua. Os escritos do Novo Testamento exortam \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e \u00e0 mudan\u00e7a de vida (Mt 5,20; Mt 19,17; cf. Rm 13,8-10; 1Cor 6,9-10; 1 Jo 2,1; 1Jo 3,13-15); a teologia cl\u00e1ssica, embora de maneira fixista, sempre defendeu a liberdade para amar e a transforma\u00e7\u00e3o interior (DENZINGER-H\u00dcNERMANN, 2006, n. 1525 e 1528). Concomitantemente, e isso as ci\u00eancias modernas confirmam na afirma\u00e7\u00e3o dos condicionamentos das a\u00e7\u00f5es humanas, as Escrituras e a teologia afirmam que h\u00e1 enorme despropor\u00e7\u00e3o entre o amor e os pecados (Tg 5,20; Pr 10,12; 1 Pd 4,8: \u201co amor cobre multid\u00e3o de pecados\u201d). A experi\u00eancia da superabund\u00e2ncia da gra\u00e7a diante da pobreza das respostas levou Santa Teresa a exclamar:\u00a0 \u201cO Senhor doura as culpas, faz com que resplande\u00e7a uma virtude que Ele mesmo p\u00f5e em mim, quase me maltratando para que eu a tenha\u201d (SANTA TERESA, 1995, Vida 4,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os atos de fechamento e ego\u00edsmo sejam mais frequentes, o amor e o ego\u00edsmo n\u00e3o possuem a mesma efic\u00e1cia, o que significa que a vit\u00f3ria da gra\u00e7a superabundante n\u00e3o consiste na melhoria da propor\u00e7\u00e3o num\u00e9rica entre atos de amor e de ego\u00edsmo \u2013 que tamb\u00e9m pode se dar \u2013, mas num \u201cprinc\u00edpio de excesso\u201d (GESCH\u00c9, 2005, p. 8) do amor de Deus, que age no interior das situa\u00e7\u00f5es marcadas pelo pecado. Joio e trigo permanecem juntos na exist\u00eancia humana, a revelar, como diz a teologia cl\u00e1ssica, que mesmo no justificado permanece a concupisc\u00eancia (DENZINGER-H\u00dcNERMANN, 2006, n.1515) e que, mesmo no maior pecador, permanece o Esp\u00edrito (como o sol, na alegoria teresiana citada acima) a suscitar e orientar \u00e0 vida nova, como novidade desmedida e imerecida. A gra\u00e7a transforma e atua, promete um futuro de plenitude (Ef 3,19). Ao mesmo tempo em que permanece a experi\u00eancia de que as contas da vida n\u00e3o fecham (RAHNER, 1977, p. 47-53) e de que \u201cnem toda obra dos justos s\u00e3o justas\u201d (BOFF, 1985, p. 169), a f\u00e9 crist\u00e3 vive da promessa fiel de que \u201cDeus \u00e9 maior que nosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (1Jo 3,20) e que para ele nada \u00e9 imposs\u00edvel (Lc 1,37) porque ele mesmo atua no humano, por seu Esp\u00edrito, suscitando e abrindo caminhos de resposta em liberdade.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>6.2 Um segredo de salva\u00e7\u00e3o presente na hist\u00f3ria e nas culturas<\/em> <\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a permeia a hist\u00f3ria, atua em seu interior, mediada por rela\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es e estruturas macrossociais: sociopol\u00edticas, econ\u00f4micas, ambientais e culturais. \u00c9 um segredo de salva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser detido e \u00e9 mais forte que a for\u00e7a do pecado, tamb\u00e9m nelas presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O magist\u00e9rio latino-americano clarificou como o pecado parte do cora\u00e7\u00e3o humano e imprime uma marca destruidora nas estruturas sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas (DPb n. 281). O Papa Francisco assinalou \u201co mal cristalizado nas estruturas sociais injustas\u201d (EG n. 59). Mas, por sua vez, a gra\u00e7a suscita a f\u00e9 cr\u00edtica, capaz de discernir como a pobreza, a viol\u00eancia, a humilha\u00e7\u00e3o, a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, as m\u00faltiplas formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho, o descarte das pessoas humanas e a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente n\u00e3o coadunam com o projeto de salva\u00e7\u00e3o de Deus revelado no acontecimento de gra\u00e7a, Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, por um lado, a f\u00e9 faz ver a perman\u00eancia do mal na pessoa humana e na sociedade, ao mesmo tempo, ela faz experimentar os desejos de liberta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais fraterna e justa, como gra\u00e7a que impulsiona a a\u00e7\u00e3o transformadora. E que faz brotar a atitude humana de combate ao mal, mesmo que vivida no sil\u00eancio e na resist\u00eancia, ao longo de s\u00e9culos, numa reconvers\u00e3o cont\u00ednua do mal e da situa\u00e7\u00e3o de \u201cdes-gra\u00e7a\u201d em bem e gra\u00e7a. Do interior das situa\u00e7\u00f5es de sofrimento e injusti\u00e7a, brotam caminhos de engrandecimento, um novo momento hist\u00f3rico e uma humanidade nova. A superabund\u00e2ncia da gra\u00e7a sobre o pecado possibilita esta transforma\u00e7\u00e3o, vivida a partir de dentro das rela\u00e7\u00f5es sociais, comunit\u00e1rias, culturais, embora as media\u00e7\u00f5es estruturais socioecon\u00f4micas, possibilitadoras da fraternidade e da justi\u00e7a, nem sempre sejam encontradas. A realidade latino-americana, marcada por s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, especialmente das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias e dos africanos escravizados, torna clara a simultaneidade da \u201cgra\u00e7a com a des-gra\u00e7a\u201d (BOFF, 1985, p. 107), numa din\u00e2mica em que liberta\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, salva\u00e7\u00e3o e perdi\u00e7\u00e3o, joio e trigo se interpenetram. Por\u00e9m, o anseio de liberdade e o processo de liberta\u00e7\u00e3o mant\u00eam a dire\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a na hist\u00f3ria, a gra\u00e7a a suscitar pr\u00e1ticas de solidariedade e comunh\u00e3o, reconcilia\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a, nova consci\u00eancia socioambiental e profetas de um mundo novo. Nos diversos povos e culturas, \u201co Esp\u00edrito suscita [&#8230;] diferentes formas de sabedoria pr\u00e1tica que ajudam a suportar as car\u00eancias da vida e a viver com mais paz e harmonia\u201d (EG n. 254). A gra\u00e7a permeia a hist\u00f3ria dos povos, com suas culturas e religi\u00f5es, em seus diferentes itiner\u00e1rios. Assim, apesar de toda ambiguidade presente nas express\u00f5es culturais e nas religi\u00f5es, carentes de reforma constante, elas celebram e comunicam a gra\u00e7a divina.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>6.3 Um segredo de salva\u00e7\u00e3o presente no cosmo<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A profundidade salvadora da gra\u00e7a encontra-se tamb\u00e9m no cosmo. A f\u00e9 crist\u00e3 afirma que Deus \u00e9 criador e que tudo \u00e9 criado por, em e para Cristo, \u201ctudo foi criado por ele e para ele [&#8230;] ele existe antes de tudo; tudo nele se mant\u00e9m\u201d (Cl 1,16-17), por ele tudo existe (1Cor 8,6) e nele tudo \u00e9 reconciliado (Cl 1,20). Esta cria\u00e7\u00e3o apresenta caracter\u00edsticas importantes: \u00e9 aberta ao desenvolvimento por si mesma, segundo autonomia e autoinven\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias (Gn 1,12.18); \u00e9 instaurada segundo um princ\u00edpio de sabedoria e bondade, n\u00e3o destru\u00eddo ou corrompido pelo pecado humano; implica o envolvimento do pr\u00f3prio Deus no ato criador, a partir de dentro, pois a media\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria vem do interior mesmo de Deus \u2013 a media\u00e7\u00e3o \u00e9 do Filho, Jesus Cristo, e esta n\u00e3o se separa da presen\u00e7a e atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (GARCIA RUBIO, 2012, p. 38; 2014, p. 193, 269). Como consequ\u00eancia, h\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o de que o cosmo, sem ser Deus, n\u00e3o deixa de estar nele \u2013 tudo nele se mant\u00e9m (Cl 1,17) \u2013 e de ser morada do <em>Logos<\/em> (Jo 1,10) que o marca com o selo trinit\u00e1rio da diversidade e do dinamismo criador vivo. A <em>Laudato Si\u2019<\/em> (n. 88) nos diz que a natureza n\u00e3o apenas manifesta Deus, mas \u00e9 lugar de sua presen\u00e7a, em cada criatura habita o Esp\u00edrito Santo, que chama a um relacionamento com ele; ao mesmo tempo, Deus se distancia infinitamente da criatura, que n\u00e3o possui a plenitude de Deus e n\u00e3o pode doar essa plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta profundidade e din\u00e2mica pr\u00f3prias do cosmo fazem dele (e, com ele, a natureza, o planeta, a mat\u00e9ria, a terra, o corpo) o espa\u00e7o de todas as criaturas, casa, lugar teologalmente enraizado, a dizer que todos t\u00eam direito a um lugar no mundo. Constitui um dom aberto a uma \u201cracionalidade de vida\u201d (GESCH\u00c9, 2004a, p. 167), ou seja, \u00e0 experi\u00eancia de recep\u00e7\u00e3o, passividade, acolhimento, sensa\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o, ternura, sentimento, compaix\u00e3o e perd\u00e3o \u2013 que o pr\u00f3prio Verbo encarnado experimentou \u2013 a demonstrar como o estatuto do <em>logos<\/em> divino n\u00e3o \u00e9 apenas a da <em>ratio<\/em>, \u00e9 <em>logos<\/em> de vida, \u201cNele estava a vida, e a vida era a luz dos homens\u201d (Jo 1,4). O cosmo \u00e9 tamb\u00e9m lugar das potencialidades a serem defendidas e desenvolvidas, pois \u00e9 cosmo destinado \u00e0 comunh\u00e3o divina e \u00e0 espera da ressurrei\u00e7\u00e3o (cf. Rm 8,22). Assim, a gra\u00e7a divina conta com a natureza (na teologia cl\u00e1ssica, \u201caperfei\u00e7oa a natureza\u201d) para levar adiante seu projeto libertador. A natureza \u00e9 capaz da a\u00e7\u00e3o divina em suas estruturas fundamentais. A estrutura corp\u00f3rea e material \u00e9 capaz de ressurrei\u00e7\u00e3o; a temporal (<em>chronos<\/em>), capaz de receber o tempo da salva\u00e7\u00e3o (<em>kair\u00f3s<\/em>) e desenvolver-se em eternidade (<em>aion<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 num peda\u00e7o de mat\u00e9ria que, sacramentalmente, Deus chega aos homens e mulheres \u2013 na eucaristia. Para que o possamos encontrar \u201cno nosso pr\u00f3prio mundo\u201d (LS n. 236). \u00a0Trata-se de um ato de amor c\u00f3smico, a inspirar e suscitar o cuidado com toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta humana na rela\u00e7\u00e3o com o cosmo, marcada atualmente pela crise socioambiental e destrui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida na terra, conta com a gra\u00e7a, que, por amor, n\u00e3o se separa do cosmo, mas o permeia. \u00c9 amor desproporcional de Deus, que \u201cse uniu definitivamente \u00e0 nossa terra\u201d e que \u201csempre nos leva a encontrar novos caminhos\u201d (LS n. 245), para exercer a administra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel da terra e, ao mesmo tempo, receb\u00ea-la e celebr\u00e1-la como gra\u00e7a.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>7 Dinamismos da gra\u00e7a: encarnat\u00f3rio-<em>ken\u00f3tico<\/em>, trinit\u00e1rio e sacramental<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela abordagem realizada, \u00e9 poss\u00edvel nomear alguns dinamismos da gra\u00e7a: encarnat\u00f3rio, <em>ken\u00f3tico<\/em>, trinit\u00e1rio e sacramental.\u00a0<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>7.1 Dinamismo encarnat\u00f3rio e ken\u00f3tico<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro \u00e9 o dinamismo encarnat\u00f3rio da gra\u00e7a, pelo qual dizemos que Deus age no interior do cosmo, do humano e suas realidades hist\u00f3ricas e culturais, e n\u00e3o a partir de fora e de longe. J\u00e1 presente na cria\u00e7\u00e3o, atinge seu auge na \u201cplenitude dos tempos\u201d (Gl 4,4) com a encarna\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus em Jesus, nascido de Maria, anunciador e realizador do Reino de Deus. De dentro da realidade, no cora\u00e7\u00e3o do mundo, o acontecimento da gra\u00e7a que \u00e9 Jesus Cristo, com sua vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, manifesta o seu dinamismo irrevers\u00edvel de vida e amor. Pelo Esp\u00edrito de Cristo, atua no interior das realidades concretas, mesmo marcadas pelo pecado e pela morte. \u00c9 a\u00e7\u00e3o criadora, recriadora, redentora, reconciliadora, libertadora, reconstrutora de rela\u00e7\u00f5es e instauradora de um mundo novo. Revela Deus em seu amor din\u00e2mico e criativo, livre e transformante, comunicante e irradiador. Ao mesmo tempo, essa a\u00e7\u00e3o interpela os seguidores de Jesus ao mesmo dinamismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com seu dinamismo encarnat\u00f3rio, a gra\u00e7a chega a cada um pelo mesmo movimento: a partir de dentro da acolhida na f\u00e9 que age pelo amor (Gl 5,6), de uma orienta\u00e7\u00e3o profunda para Deus, para a din\u00e2mica do Reino, para o amor concreto, que inclui a pr\u00e1tica da justi\u00e7a. Como consequ\u00eancia, encontra-se a necess\u00e1ria media\u00e7\u00e3o humana na a\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a de Deus que chega a cada um, de tal forma que \u201ca a\u00e7\u00e3o divina passa necessariamente pelo ser humano para nos atingir como salva\u00e7\u00e3o\u201d (MIRANDA, 2016, p. 138). Passa pela orienta\u00e7\u00e3o da vida pessoal e comunit\u00e1rio-eclesial e por imprimir uma dire\u00e7\u00e3o de amor, justi\u00e7a e paz nas media\u00e7\u00f5es estruturais econ\u00f4micas, pol\u00edticas e socioambientais. Passa pelas objetiva\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e culturais. E remete sempre para dentro da hist\u00f3ria, o que implica, tamb\u00e9m, consci\u00eancia da inser\u00e7\u00e3o no cosmo criado pelo amor de Deus e compromisso com a \u201ccasa comum\u201d (<em>Laudato Si\u2019<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relacionado ao dinamismo de encarna\u00e7\u00e3o, encontramos o movimento <em>ken\u00f3tico<\/em> manifestado na vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo (Fl 2,6-8), que qualifica o sentido e a dire\u00e7\u00e3o da encarna\u00e7\u00e3o: esvaziamento da gl\u00f3ria pessoal, despojamento, rebaixamento, amor efetivo e servidor. Gerador de respostas humanas que agraciam o mundo pela mesma resposta <em>ken\u00f3tica<\/em> de n\u00e3o domina\u00e7\u00e3o, identifica\u00e7\u00e3o com os \u00faltimos, amor e justi\u00e7a.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>7.2 Dinamismo trinit\u00e1rio<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dinamismo trinit\u00e1rio nos mostra que a gra\u00e7a de Deus n\u00e3o se separa de Deus mesmo! Na ordem da cria\u00e7\u00e3o, unida \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, Deus, pelo Esp\u00edrito de Cristo, n\u00e3o se confunde com a criatura nem dela se separa, pois a media\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o vem do interior de Deus, do pr\u00f3prio Filho (Cl 1,16-17). Ele mesmo se faz presente na cria\u00e7\u00e3o e na hist\u00f3ria, ambos acontecimentos do amor de Deus. Ontem como hoje, a gra\u00e7a significa aproxima\u00e7\u00e3o, envolvimento interno, compromisso, comunh\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o divinos com os seres humanos e com tudo o que \u00e9 criado. A pr\u00f3pria vida \u00e9 gra\u00e7a, traz a presen\u00e7a do <em>logos<\/em> divino de vida, luz dos homens e mulheres (Jo 1,4), que conduz \u00e0 vida (Jo 10,10) e se faz carne no acontecimento da encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, a resposta humana \u00e0 gra\u00e7a \u00e9 possibilitada pelo pr\u00f3prio Deus que, em Cristo e pelo Esp\u00edrito, habita o cora\u00e7\u00e3o humano, suscita abertura e resposta na f\u00e9 e em amor concreto na hist\u00f3ria, em todas as suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto significa que o humano conta, em suas vidas t\u00e3o exigidas e amb\u00edguas, com o pr\u00f3prio Deus em si mesmo, que deseja e designa liberta\u00e7\u00e3o e liberdade, acompanha os processos da resposta \u2013 sempre desproporcional ao dom recebido \u2013 e consiste, ele mesmo, Deus, na plenitude feliz simbolizada na Jerusal\u00e9m celeste, em que \u201co templo \u00e9 o Senhor\u201d, \u201cn\u00e3o haver\u00e1 mais noite\u201d e n\u00e3o ser\u00e1 mais necess\u00e1rio o sol, porque Deus \u201cinfundir\u00e1 sobre eles a sua luz\u201d (Ap 21,22.25; 22,5).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em><strong>7.3 Dinamismo sacramental<\/strong><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dinamismos trinit\u00e1rio e encarnat\u00f3rio-<em>ken\u00f3tico<\/em> da gra\u00e7a se unem ao dinamismo sacramental, que tende a formar comunh\u00e3o e comunidade concreta. Tende a fazer-se carne nas culturas e nas religi\u00f5es, em diversidade de itiner\u00e1rios e estruturas. As religi\u00f5es s\u00e3o convocadas, pelo dinamismo interno a elas, dado pelo pr\u00f3prio Esp\u00edrito, a tornarem sens\u00edvel e concreto o dom maior do amor (Rm 5,5), nos diferentes contextos culturais, em \u201cdiversidade de experi\u00eancias salv\u00edficas\u201d (MIRANDA, 2016, p. 211). Nas religi\u00f5es, est\u00e1 e atua o Esp\u00edrito de Deus a orientar \u00e0 plenitude da salva\u00e7\u00e3o, que a f\u00e9 crist\u00e3 v\u00ea realizada, de forma definitiva, em Jesus Cristo (LG n. 16; GS n. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo dinamismo sacramental, a gra\u00e7a \u201ctende a produzir sinais, ritos, express\u00f5es sagradas que, por sua vez, envolvem outros na experi\u00eancia comunit\u00e1ria do caminho para Deus\u201d (EG n. 254). Faz das religi\u00f5es espa\u00e7os de supera\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia individualista e de rompimento do c\u00edrculo asfixiante da iman\u00eancia, orientando \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Assim sendo, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a religi\u00e3o \u00e9 lugar de celebra\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a, n\u00e3o de forma autom\u00e1tica ou exterior, mas comunit\u00e1ria e interior, em fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria presen\u00e7a comunicativa e irradiadora de Deus, que convoca a comunidade a se abrir \u00e0 novidade do Esp\u00edrito, responder aos seus apelos na f\u00e9, na esperan\u00e7a e no amor e celebr\u00e1-lo de forma sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma expl\u00edcita e tem\u00e1tica, a Igreja, comunidade de f\u00e9 em Jesus Cristo, v\u00ea-se enraizada nas fontes trinit\u00e1rias, habitada pelo Esp\u00edrito, chamada a ser sacramento ou sinal e instrumento da gra\u00e7a (LG n. 1), germe ou princ\u00edpio do Reino de Deus na terra (LG n. 4). Ela encontra-se a servi\u00e7o da encarna\u00e7\u00e3o do amor de Deus na humanidade e no mundo. Na eucaristia, o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o se radicaliza. O pr\u00f3prio Deus, feito homem, \u201cchega ao ponto de fazer-se comer pela sua criatura\u201d (LS n. 236). O Senhor quer chegar ao \u00edntimo do crist\u00e3o, sacramentalmente \u2013 pois ele l\u00e1 j\u00e1 est\u00e1 \u2013, conform\u00e1-lo em si, para reenvi\u00e1-lo \u00e0s suas realidades como mediador do amor de Deus em suas op\u00e7\u00f5es, sensibilidade hist\u00f3rica e social, enfim em sua vida para os demais.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gra\u00e7a exprime todos os aspectos da salva\u00e7\u00e3o divina, revelada na encarna\u00e7\u00e3o, vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo. Aqui, partindo da experi\u00eancia antropol\u00f3gica (ponto 1) e da reflex\u00e3o b\u00edblica (pontos 2 e 3), foram privilegiados os seguintes aspectos: o car\u00e1ter de acontecimento hist\u00f3rico da gra\u00e7a oferecida (ponto 4); o dinamismo integral e relacional da acolhida da gra\u00e7a na vida nova (ponto 5); a presen\u00e7a da gra\u00e7a na estrutura\u00e7\u00e3o central de tudo que existe e acontece e na esperan\u00e7a de plenitude (ponto 6); os dinamismos internos da gra\u00e7a: encarnat\u00f3rio, <em>ken\u00f3tico<\/em>, trinit\u00e1rio e sacramental (ponto 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>L\u00facia Pedrosa-P\u00e1dua . <\/em>PUC-Rio. Texto original em portugu\u00eas. Recebido: 29\/08\/2020. Aprovado:\u00a0 24\/05\/2021. Publicado: 23\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">BAUMGARTNER, Ch. <em>La gracia de Cristo<\/em>. Barcelona: Herder, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B\u00cdBLIA. Tradu\u00e7\u00e3o Ecum\u00eanica da B\u00edblia. (TEB). S\u00e3o Paulo: Paulinas\/Loyola, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, Leonardo. <em>A gra\u00e7a libertadora no mundo<\/em>. 3.ed., Petr\u00f3polis: Vozes, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONCILIO VATICANO II. <em>Constitui\u00e7\u00e3o pastoral GAUDIUM ET SPES sobre a Igreja no mundo atual<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html\">http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html<\/a>&gt;. Acesso em: 12 set 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONCILIO VATICANO II. <em>Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica LUMEN GENTIUM sobre a Igreja<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html\">http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html<\/a>&gt;. Acesso em: 4 nov 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONFER\u00caNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. <em>Conclus\u00f5es da Confer\u00eancia de Puebla<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1979.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/documents\/rc_con_cfaith_doc_20180222_placuit-deo_po.html\">CONGREGA\u00c7\u00c3O PARA A DOUTRINA DA F\u00c9. Carta sobre alguns aspetos da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u00a0<em>Placuit Deo<\/em><\/a>\u00a0(22 de fevereiro de 2018).\u00a0Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/documents\/rc_con_cfaith_doc_20180222_placuit-deo_po.html\">http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/documents\/rc_con_cfaith_doc_20180222_placuit-deo_po.html<\/a>&gt; . Acesso em: 3 jan 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DECLARA\u00c7\u00c3O CONJUNTA SOBRE A DOUTRINA DA JUSTIFICA\u00c7\u00c3O. Igreja Cat\u00f3lica (pelo Pontif\u00edcio Conselho para a Promo\u00e7\u00e3o da Unidade dos Crist\u00e3os) e Federa\u00e7\u00e3o Luterana Mundial, 1997-1999. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/www.christianunity.va\/content\/unitacristiani\/it\/dialoghi\/sezione-occidentale\/luterani\/dialogo\/documenti-di-dialogo\/1999-dichiarazione-congiunta-sulla-dottrina-della-giustificazion\/1999-dichiarazione-congiunta-sulla-dottrina-della-giustificazion1\/pt.html\">PT (christianunity.va)<\/a>&gt;. Acesso em: 6 nov 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DENZINGER, Heinrich; H\u00dcNERMANN, Peter. <em>Comp\u00eandio dos s\u00edmbolos, defini\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es de f\u00e9 e moral da Igreja cat\u00f3lica<\/em> [traduzido, com base na 40a. edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (2005), aos cuidados de Peter H\u00fcnermann, por \u2020Jos\u00e9 Marino Luz e Johan Konings]. S\u00e3o Paulo: Loyola \/ Paulinas, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FLICK, Maurizio; ALSZEGHY, Zoltan. <em>Il vangelo della grazia<\/em>. Un trattato dogmatico. [Roma]: Libreria Editrice Fiorentina, 1964 (?)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO. Carta Enc\u00edclica <em>Laudato si\u2019<\/em>. Sobre o cuidado da casa comum. Bras\u00edlia: CNBB, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO. Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii Gaudium<\/em>. Sobre o an\u00fancio do Evangelho no mundo atual. Bras\u00edlia: CNBB, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO. Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Querida Amaz\u00f4nia<\/em>. Ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARCIA RUBIO, A.; AMADO, J. P. <em>F\u00e9 crist\u00e3 e pensamento evolucionista<\/em>. Aproxima\u00e7\u00f5es teol\u00f3gico-pastorais a um tema desafiador. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARCIA RUBIO, Alfonso. <em>Antropologia Teol\u00f3gica<\/em>. Salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3: salvos de qu\u00ea e para qu\u00ea? 7.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARCIA RUBIO, Alfonso. <em>O Encontro com Jesus Cristo vivo<\/em>. Um ensaio de cristologia para nossos dias. 14.ed., S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARCIA RUBIO, Alfonso. <em>Unidade na Pluralidade<\/em>. O ser humano \u00e0 luz da f\u00e9 e da reflex\u00e3o crist\u00e3s. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GESCH\u00c9, A. <em>O Cosmo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GESCH\u00c9, A. <em>O Cristo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GESCH\u00c9, A. <em>O sentido<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOBRINO, Jon. <em>Jesus en Am\u00e9rica Latina<\/em>: su significado para la fe y la cristologia. Santander: Sal Terrae, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KONINGS, J. <em>Evangelho segundo Jo\u00e3o<\/em>. Amor e fidelidade. Petr\u00f3polis: Vozes \/ S\u00e3o Leopoldo: Sinodal, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LADARIA, Luis F. <em>Teolog\u00eda del pecado original y de la gracia<\/em>. Antropolog\u00eda teol\u00f3gica especial. 2.ed. Madrid: BAC, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MIRANDA, M. de F. <em>A Salva\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo<\/em>. A doutrina da Gra\u00e7a. [1\u00aa ed., 2004]. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PEDROSA-PADUA, L\u00facia. <em>Santa Teresa de Jesus<\/em>. M\u00edstica e humaniza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, Karl. <em>Experiencia del Esp\u00edritu<\/em>. Madri: Narcea, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTO AGOSTINHO. A corre\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a. In: <em>A gra\u00e7a<\/em> (II). 3.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2010, p. 79-137. \\<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTO AGOSTINHO. <em>Confiss\u00f5es<\/em>. 6. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTA TERESA DE JESUS. Livro da Vida. In: SANTA TERESA DE JESUS.<em> Obras Completas<\/em>. Coord. frei P. Sciadini. S\u00e3o Paulo: Carmelitanas\/Loyola, 1995, p.19-291.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDO, Juan Luis. <em>Gra\u00e7a e condi\u00e7\u00e3o humana<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SESBO\u00dc\u00c9, B. (dir.). <em>O homem e sua salva\u00e7\u00e3o<\/em> (s\u00e9culos V \u2013 XVII). t. 2, 2.ed., S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010. Cole\u00e7\u00e3o Hist\u00f3ria dos Dogmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TOLENTINO MENDON\u00c7A, Jos\u00e9. <em>A constru\u00e7\u00e3o de Jesus<\/em>. A din\u00e2mica narrativa de Lucas, S\u00e3o Paulo: Paulinas \/ Recife: Unicap, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Experi\u00eancia antropol\u00f3gica da gra\u00e7a 2 O termo gra\u00e7a em perspectiva b\u00edblica 2.1 No Antigo Testamento 2.2 No Novo Testamento 3 Outros termos b\u00edblicos para a realidade da gra\u00e7a 4 A gra\u00e7a como acontecimento: o Reino de Deus em Jesus Cristo 4.1 Um acontecimento 4.2 O acontecer do Reino na pessoa e minist\u00e9rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-2527","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2527"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2528,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2527\/revisions\/2528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}