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{"id":2524,"date":"2021-12-24T15:34:07","date_gmt":"2021-12-24T18:34:07","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2524"},"modified":"2022-02-01T07:33:36","modified_gmt":"2022-02-01T10:33:36","slug":"mistica-do-cotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2524","title":{"rendered":"M\u00edstica do cotidiano"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O cotidiano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O que \u00e9 (e o que n\u00e3o \u00e9) m\u00edstica? Alguns mal-entendidos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Caracter\u00edsticas espec\u00edficas da experi\u00eancia m\u00edstica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Para uma defini\u00e7\u00e3o m\u00edstica do cotidiano<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Francisco: da m\u00edstica popular aos santos \u201cao p\u00e9 da porta\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Uma m\u00edstica cotidiana da Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendemos a definir nosso tempo como um tempo sedento pela espiritualidade. Afirma-se tamb\u00e9m, com algum consenso, que nosso tempo rejeita as religi\u00f5es com sua carga de dogmas e compromissos \u00e9ticos, mas valoriza a espiritualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica fica em um campo impreciso e indeterminado, mas sempre atrai, especialmente a experi\u00eancia das pessoas que chamamos de &#8220;m\u00edsticas&#8221;. Embora n\u00e3o compreendamos completamente sua experi\u00eancia, sabemos que elas viveram algo especial, algo diferente e mais profundo que as conectou com o mist\u00e9rio de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para evitar mal-entendidos desde o in\u00edcio, deve-se dizer que, na minha opini\u00e3o, a m\u00edstica \u00e9 uma dimens\u00e3o humana universal, que pode ou n\u00e3o ocorrer em um contexto religioso, embora aqui nos refiramos especificamente \u00e0 experi\u00eancia m\u00edstica crist\u00e3. Espero poder explicitar essa ideia no texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voca\u00e7\u00e3o universal para a santidade, proclamada pelo Conc\u00edlio Vaticano II (LG 39), nos leva a pensar que, se todos os batizados s\u00e3o chamados \u00e0 santidade, (entendida como a plenitude da caridade), \u00e9 l\u00f3gico pensar que tamb\u00e9m somos universalmente chamados a experimentar essa caridade de alguma forma, para ter alguma experi\u00eancia dessa comunh\u00e3o. H\u00e1 autores que fazem apontamentos ainda mais precisos e ousados: &#8220;Todo batizado e batizada \u00e9 uma m\u00edstica ou m\u00edstico, mesmo que tenha apenas uma experi\u00eancia latente e n\u00e3o reflita o mist\u00e9rio&#8221; (OLIVERA, 2002, p. 297; RUIZ SALVADOR, 1978, p. 514-536).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como proclamamos a universalidade da voca\u00e7\u00e3o para a santidade, estamos diante de uma &#8220;democratiza\u00e7\u00e3o&#8221; da m\u00edstica, com uma experi\u00eancia que poderia ser t\u00e3o ampla quanto o n\u00famero de batizados e batizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, se tem insistido, n\u00e3o sem raz\u00e3o, que o fen\u00f4meno m\u00edstico n\u00e3o consiste principalmente em eventos extraordin\u00e1rios, que poderiam ocorrer, mas que n\u00e3o necessariamente definem uma experi\u00eancia como m\u00edstica, nem s\u00e3o os mais importantes dessa experi\u00eancia, como afirmaram os pr\u00f3prios protagonistas (VELASCO, 2007, p. 46).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o s\u00e3o pessoas extraordin\u00e1rias, nem fatos extraordin\u00e1rios, que definem a m\u00edstica, essa experi\u00eancia pode fazer parte do cotidiano das pessoas comuns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Organizaremos este verbete da seguinte forma: em primeiro lugar, ap\u00f3s uma breve defini\u00e7\u00e3o do cotidiano, vamos descrever o fato m\u00edstico, apontando suas caracter\u00edsticas e desenvolvendo o que se entende pela m\u00edstica do cotidiano, para terminar com a contribui\u00e7\u00e3o do papa Francisco para esta quest\u00e3o.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O cotidiano<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a defini\u00e7\u00e3o dos dicion\u00e1rios, o cotidiano nada mais \u00e9 do que o di\u00e1rio, o que acontece todos os dias. O cotidiano \u00e9 o que \u00e9 de todos os dias, o que se repete, o previs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito do cotidiano foi parcialmente expresso pelos Padres do Deserto atrav\u00e9s de sua no\u00e7\u00e3o de &#8220;c\u00e9lula&#8221;. A c\u00e9lula \u00e9 aquele esquema de repeti\u00e7\u00e3o di\u00e1ria do mesmo, a partir do qual aprendemos a ser fi\u00e9is \u00e0 nossa voca\u00e7\u00e3o e que \u00e9 fundamental na autenticidade da nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus (MAZZINI, 2001, p. 423-436).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cultura moderna e p\u00f3s-moderna, o cotidiano geralmente tem uma conota\u00e7\u00e3o negativa, de repeti\u00e7\u00e3o e desgaste. No entanto, h\u00e1 autores que promovem o resgate do cotidiano (GERA, 1968, p. 153-167), propondo esse espa\u00e7o como o aqui e agora do nosso encontro com n\u00f3s mesmos, com nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s e com o Senhor. Eles tamb\u00e9m postulam que o cotidiano, para cada ser humano, expressa o contexto vital a partir do qual se pronuncia e interpreta a realidade, da\u00ed a import\u00e2ncia de conhecer o universo cotidiano das pessoas, para compreender sua abordagem ao mundo e sua compreens\u00e3o das encruzilhadas vitais (ISASI-D\u00cdAZ, 2003, p. 365-384).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O que \u00e9 (e o que n\u00e3o \u00e9) a m\u00edstica? Alguns mal-entendidos<\/strong><\/h5>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia da Vida poderia ser a defini\u00e7\u00e3o mais breve de m\u00edstica. Se trata de uma experi\u00eancia e n\u00e3o de sua interpreta\u00e7\u00e3o, embora nossa consci\u00eancia dela seja concomitante. N\u00e3o as podemos separar, mas as podemos e devemos distinguir [&#8230;] Se trata de uma experi\u00eancia completa e n\u00e3o fragment\u00e1ria. O que muitas vezes ocorre \u00e9 que n\u00e3o vivemos em plenitude porque nossa experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 completa e vivemos distra\u00eddos ou apenas na superf\u00edcie. Portanto a m\u00edstica n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de alguns poucos escolhidos, mas a caracter\u00edstica humana por excel\u00eancia (PANIKKAR, 2005. p. 19).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A defini\u00e7\u00e3o de m\u00edstica de Panikkar, em sua simplicidade e for\u00e7a, \u00e9 extremamente profunda e reveladora. Observe que \u00e9 uma experi\u00eancia plena da Vida, completa, hol\u00edstica. Uma experi\u00eancia de Vida com letra mai\u00fascula, como um fen\u00f4meno integral e integrador. Tal experi\u00eancia denota outro n\u00edvel de percep\u00e7\u00e3o e a possibilidade de ter essa percep\u00e7\u00e3o. Quando se fala de plenitude da Vida, \u00e9 uma experi\u00eancia de Deus ou do Sagrado, que \u00e9 o cerne da experi\u00eancia m\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra defini\u00e7\u00e3o que pode nos ajudar em nossa abordagem \u00e9 esta:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, com a palavra m\u00edstica nos referimos, em termos muito gerais e imprecisos, a experi\u00eancias interiores, imediatas, fruitivas que ocorrem em um n\u00edvel de consci\u00eancia que supera aquele que rege a experi\u00eancia ordin\u00e1ria e objetiva, da uni\u00e3o \u2013 seja qual for a forma como se a vive \u2013 substancialmente do sujeito com o todo, o universo, o absoluto, o divino, Deus ou o Esp\u00edrito. (MART\u00cdN VELASCO, 2003, p. 23)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos por partes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo &#8220;experi\u00eancia&#8221; (WAAIJMAN, 2011, p. 571-573) pode ser usado em diferentes sentidos; o que geralmente se chama experi\u00eancia \u00e9 um conhecimento imediato de coisas concretas, em oposi\u00e7\u00e3o a um conhecimento mais abstrato e discursivo. O tema da experi\u00eancia come\u00e7a a se desenvolver na modernidade, com o interesse das ci\u00eancias positivas (experimentais) por conhecimentos que podem ser corroborados pelo contato concreto e direto, do singular e presente. Com o tempo, especialmente no s\u00e9culo XX, a experi\u00eancia designar\u00e1 um conhecimento mais integral, n\u00e3o apenas oposto ao abstrato, mas envolvendo-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia designa n\u00e3o apenas estados psicol\u00f3gicos internos, mas tamb\u00e9m o mundo externo; tamb\u00e9m descreve n\u00e3o s\u00f3 o imanente, mas tamb\u00e9m o transcendente. Nomeia uma situa\u00e7\u00e3o global, total, ao mesmo tempo vivida e refletida de um ser humano imerso no tempo, mas aberto \u00e0 eternidade. Tamb\u00e9m designa modalidades espec\u00edficas e orienta cada uma para um objeto pr\u00f3prio, de forma que possamos falar de experi\u00eancia est\u00e9tica, moral, religiosa etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o algo puramente subjetivo, afetivo ou imanente, mas uma realidade que nos abre ao mundo, aos outros e a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falamos sobre o espiritual, transcendente ou sagrado, pode haver diferentes tipos de experi\u00eancias. A seguir, distinguiremos pelo menos tr\u00eas n\u00edveis para focar melhor nosso tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>experi\u00eancia espiritual<\/em> \u00e9 uma realidade humana que tem a ver com a percep\u00e7\u00e3o e busca de significado, conex\u00e3o e transcend\u00eancia. &#8220;\u00c9 um universal humano que caracteriza todas as pessoas e que pode ser vivida e\/ou expressa, ou n\u00e3o, atrav\u00e9s da religi\u00e3o&#8221; (MELLONI RIBAS, 2015, p. 39-43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>experi\u00eancia religiosa<\/em>, por outro lado, \u00e9 entendida como mediadora de uma presen\u00e7a, \u00e9 a consci\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o com Deus por meio de pensamentos, sentimentos e atitudes em que a rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia \u00e9 percebida. Se a religi\u00e3o \u00e9 definida como a rela\u00e7\u00e3o com o ser sagrado como tal, \u00e9 precisamente a consci\u00eancia dessa rela\u00e7\u00e3o, em todos os seus aspectos, que constitui experi\u00eancia religiosa. Essa experi\u00eancia envolve um corpo de verdades, normas \u00e9ticas e uma comunidade que vive e celebra essa experi\u00eancia (MELLONI RIBAS, 2018, p. 27-30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cerne da <em>experi\u00eancia m\u00edstica<\/em> tem uma nota distintiva: o imediatismo e a percep\u00e7\u00e3o da bondade divina como algo em que a pessoa se sente imersa, sem interven\u00e7\u00e3o de sua vontade, pelo menos no in\u00edcio dessa experi\u00eancia (MARTIN VELASCO, 1999, p. 289-293). Vamos agora olhar para suas notas diferenciais.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Caracter\u00edsticas espec\u00edficas da experi\u00eancia m\u00edstica<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante notar que a experi\u00eancia m\u00edstica est\u00e1 presente em todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Vamos listar algumas notas que parecem ser as mais importantes (MARTIN VELASCO, 1999, p. 319-356):<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>Experi\u00eancia de gratuidade, na qual a bondade de Deus age e a pessoa tem uma experi\u00eancia de fus\u00e3o com o transcendente ou com Deus, de forma passiva;<\/li>\n<li>Experi\u00eancia \u00edntima de realidades profundas e sobrenaturais, da realidade como um todo, com ordem radical e definitiva. Car\u00e1ter hol\u00edstico, totalizador e abrangente, em que o sujeito e o mundo inteiro s\u00e3o percebidos como parte dessa ordem geral, plena de significado;<\/li>\n<li>A experi\u00eancia tem conota\u00e7\u00f5es afetivas e fruitivas. H\u00e1 um impacto emocional, que \u00e9 vivenciado muitas vezes simultaneamente com um profundo sentimento de paz, de alegria, de gozo inexplic\u00e1vel e que n\u00e3o s\u00e3o assimil\u00e1veis a outras experi\u00eancias. \u00c9 uma experi\u00eancia de simplicidade e singeleza;<\/li>\n<li>Certeza e escurid\u00e3o. Certeza da experi\u00eancia com tudo o que ela implica para o m\u00edstico. Escurid\u00e3o, que ocorre quando excede os limites da capacidade humana de compreens\u00e3o;<\/li>\n<li>\u00c9 uma experi\u00eancia que, em geral, introduz uma novidade no conhecimento do transcendente ou divino. Muitas vezes se refere \u00e0 necessidade de ordenar a experi\u00eancia atrav\u00e9s do relato autobiogr\u00e1fico e da simbologia expressiva;<\/li>\n<li>Inefabilidade. A experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9, em sua ess\u00eancia, indescrit\u00edvel, incomunic\u00e1vel. \u00c9 uma experi\u00eancia n\u00e3o mediada pelo racioc\u00ednio discursivo, pelo pensamento ordin\u00e1rio, n\u00e3o pode ser tematizada ou pensada e, portanto, n\u00e3o se sabe como dizer.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos nos debru\u00e7ar sobre esta \u00faltima caracter\u00edstica por sua relev\u00e2ncia para a m\u00edstica do cotidiano: a impossibilidade de descrever ou definir com palavras o que foi vivido. No cristianismo, a experi\u00eancia m\u00edstica depende da f\u00e9 e seu denominador comum \u00e9 a inefabilidade, \u00e9 &#8220;nuvem&#8221;, \u00e9 &#8220;escurid\u00e3o&#8221; como o pseudo-Dion\u00edsio gosta de dizer, seguido de tradi\u00e7\u00e3o posterior. Tom\u00e1s de Aquino dir\u00e1 que a alma entra, ent\u00e3o, nessa &#8220;escurid\u00e3o da ignor\u00e2ncia&#8230; em que nos unimos o m\u00e1ximo poss\u00edvel a Deus, como diz Dion\u00edsio, e que \u00e9 uma nuvem na qual dizemos que Deus habita&#8221; (TOM\u00c1S DE AQUINO, I Sent.d.8q1 a.1 ad4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, o apofatismo \u00e9 um elemento central da experi\u00eancia m\u00edstica. Quem tem alguma experi\u00eancia nesse sentido n\u00e3o sabe dizer, porque tamb\u00e9m n\u00e3o sabe explicar como \u00e9 essa comunica\u00e7\u00e3o divina. Ao mesmo tempo, eles n\u00e3o podem negar a experi\u00eancia, que \u00e9 lembrada em termos muito reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso ocorre quando os m\u00edsticos experimentais (chamamos de m\u00edsticos experimentais aqueles que, tendo eles mesmos uma experi\u00eancia m\u00edstica, a descrevem) t\u00eam ou querem narrar sua experi\u00eancia de Deus \u2013 sempre h\u00e1 um momento que poder\u00edamos chamar de &#8220;apofatismo de base&#8221;: n\u00e3o podemos falar sobre Deus, porque na realidade n\u00e3o sabemos quem Ele \u00e9 e muito menos podemos descrev\u00ea-lo. O m\u00edstico sempre nos dir\u00e1 que, acima de tudo, Deus n\u00e3o \u00e9 o que ele percebeu e entendeu, embora tamb\u00e9m seja, de maneira suprema. Admiravelmente, Tom\u00e1s de Aquino enuncia-o, mais uma vez, deixando-nos perceber de alguma forma sua pr\u00f3pria experi\u00eancia m\u00edstica: &#8220;In finem nostrae cognitionis Deum tamquam ignotum cognoscimus&#8221; (TOM\u00c1S DE AQUINO, In Boetium de Trinitate q1 a2 ad1). Nosso conhecimento m\u00e1ximo de Deus \u00e9 reconhec\u00ea-lo como inc\u00f3gnito, como desconhecido, por ser infinitamente luminoso e conhecedor, inconceb\u00edvel para nossa apreens\u00e3o tanto sens\u00edvel, como intelig\u00edvel e volitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma bela e pedag\u00f3gica, Jo\u00e3o da Cruz expressa-a na introdu\u00e7\u00e3o do C\u00e2ntico Espiritual:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2026Porque quem poder\u00e1 escrever o que as almas amorosas, onde mora, fazem entender? E quem ser\u00e1 capaz de expressar com palavras o que os faz sentir? E quem, finalmente, as faz querer? Verdade, ningu\u00e9m pode; verdade, nem eles mesmos que passam por isso podem. Porque esta \u00e9 a causa, porque com figuras, compara\u00e7\u00f5es e semelhan\u00e7as antes trasbordam algo do que sentem e da abund\u00e2ncia do esp\u00edrito derramam mist\u00e9rios secretos, que com raz\u00f5es declaram. Essas semelhan\u00e7as, n\u00e3o lidas com a simplicidade do esp\u00edrito de amor e intelig\u00eancia que carregam, mais parecem absurdas do que ditas com raz\u00e3o, como \u00e9 visto nas divinas Can\u00e7\u00f5es de Salom\u00e3o e em outros livros da Escritura divina, onde n\u00e3o sendo capaz o Esp\u00edrito Santo explicar a abundancia de seu significado por termos vulgares e corriqueiros, ele fala mist\u00e9rios em figuras estranhas e semelhan\u00e7as. De onde se segue que os santos doutores, embora muito digam \u2013 e digam ainda mais, nunca podem terminar de declar\u00e1-lo por palavras, assim como n\u00e3o se pode descrev\u00ea-lo por palavras; e, portanto, o que dele se declara, normalmente \u00e9 o m\u00ednimo que cont\u00e9m em si mesmo. (JO\u00c3O DA CRUZ, 1992, p. 571-572 <em>C\u00e2ntico Espiritual B<\/em>, Prol 1)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, as almas &#8220;amorosas&#8221; as quem o santo se refere aqui s\u00e3o aquelas que tiveram alguma experi\u00eancia m\u00edstica. Ningu\u00e9m, nem eles mesmos, podem dizer o que Deus os fez entender (este \u00e9 um entendimento que excede a intelig\u00eancia), ou sentir (excede os sentidos) ou desejar (excede a capacidade da vontade). Aqui Jo\u00e3o vai um passo adiante: uma vez que n\u00e3o podem dizer ou explicar &#8220;esta \u00e9 a causa porque com figuras, compara\u00e7\u00f5es e semelhan\u00e7as, antes de transbordarem algo do que sentem e da abund\u00e2ncia do esp\u00edrito, derramam mist\u00e9rios secretos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, m\u00edsticos e m\u00edsticas recorrem \u00e0 linguagem simb\u00f3lica que deve ser entendida e lida no contexto e na linha de afinidade espiritual em que foram ditas, que o santo aqui chama de &#8220;simplicidade de esp\u00edrito de amor e intelig\u00eancia&#8221;. Caso contr\u00e1rio, tudo vai parecer uma &#8220;loucura&#8221;, um absurdo. \u00c9 por isso que eles usam &#8220;figuras estranhas e semelhan\u00e7as&#8221;, e n\u00f3s dir\u00edamos: s\u00edmbolos e met\u00e1foras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essas palavras simples, o santo nos apresenta a quest\u00e3o crucial da linguagem para falar de Deus. Qual \u00e9 o mais adequado? R. Ferrara nos lembra que:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDeus\u201d \u00e9 declinado e conjugado em m\u00faltiplas l\u00ednguas: no or\u00e1culo do profeta, na doxolog\u00eda e ora\u00e7\u00e3o do salmista e na frase do s\u00e1bio, que se expande na linguagem articulada do te\u00f3logo em seu discurso \u201cnarrativo e argumentativo\u201d que, para essa articula\u00e7\u00e3o, recorre tanto \u00e0s analogias, com suas afinidades e correspond\u00eancias, quanto aos paradoxos e contrastes. (FERRARA, 2005, p. 27)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta vida Deus \u00e9 conhecido e nomeado por meio de analogia e paradoxo, embora seja inef\u00e1vel. Alguns nomes o designam adequadamente, embora de modo deficiente (FERRARA, 2005, p. 28-31, 93-94, 252-265).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossas palavras s\u00e3o ineficientes para falar de Deus e da experi\u00eancia de Deus, mesmo as mais comuns e universais (MERTON, 2008, p. 81-96). \u00c9 por isso que a linguagem sobre essa experi\u00eancia est\u00e1 carregada de met\u00e1foras e s\u00edmbolos. Isso certamente pode ser um limite, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma possibilidade, porque o m\u00edstico, muitas vezes com suas met\u00e1foras, est\u00e1 abrindo sua experi\u00eancia para a nossa, da mesma forma que um s\u00edmbolo abre o significado de uma realidade para novas percep\u00e7\u00f5es. Suas experi\u00eancias, chamam, convidam, evocam as do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem simb\u00f3lica \u00e9 revelada na literatura religiosa particularmente apta a expressar realidades espirituais. Jesus, por exemplo, \u00e9 apresentado como o P\u00e3o da Vida (Jo 6,34) ou a Luz do mundo (Jo 8,12). Como imagem, o s\u00edmbolo se desenvolve atrav\u00e9s do contato do homem com o meio ambiente. Nesse sentido, o s\u00edmbolo pode se referir ao mundo mais primitivo da natureza, ou ao mundo mais social, familiar ou t\u00e9cnico. \u00c9 t\u00edpico da linguagem simb\u00f3lica come\u00e7ar da imagem para passar para outro n\u00edvel significativo: a montanha, por exemplo, torna-se um s\u00edmbolo de esfor\u00e7o moral ou espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verdadeiro s\u00edmbolo parte do concreto sens\u00edvel para alcan\u00e7ar o n\u00edvel espiritual, \u00e9 um sinal capaz de evocar outra realidade pertencente a um n\u00edvel ontol\u00f3gico mais elevado: a \u00e1gua como s\u00edmbolo de vida, a luz como s\u00edmbolo de sabedoria, o c\u00e9u como a morada de Deus etc. O s\u00edmbolo pertence \u00e0 ordem da percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e n\u00e3o pode ser separado de tal atividade perceptiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio do conceito, o <em>s\u00edmbolo<\/em>, por sua inadequa\u00e7\u00e3o &#8220;sugestiva&#8221; e por sua carga vital transmitida pela imagem, cont\u00e9m em si mesmo sua pr\u00f3pria supera\u00e7\u00e3o. Pensemos na sar\u00e7a ardente, ou na rocha, para mostrar ou sugerir caracter\u00edsticas da realidade divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00edmbolo n\u00e3o \u00e9 a &#8220;fotografia&#8221; da realidade objetiva, mas tenta revelar algo mais profundo e fundamental. Sugere, indica, aponta. O objetivo \u00e9 nos fazer acessar outros n\u00edveis de realidade que, de outra forma, permaneceriam fechados para n\u00f3s. \u00c9 uma express\u00e3o sempre aberta, que sempre tenta nos dizer algo mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conclus\u00e3o e atentos\/as \u00e0 m\u00edstica do cotidiano, na narra\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias m\u00edsticas, temos que prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dificuldade de narrar a experi\u00eancia e os s\u00edmbolos e as met\u00e1foras utilizados pelas pessoas que passam por essas experi\u00eancias (MARTIN VELASCO, 1999, p. 49-58). Somente aqueles que entendem seu sil\u00eancio e os s\u00edmbolos e met\u00e1foras utilizadas entender\u00e3o a mensagem do m\u00edstico. Quem os considera meros ornamentos de seu discurso ou entende mal esses s\u00edmbolos e met\u00e1foras, n\u00e3o entender\u00e1 o cerne de sua experi\u00eancia, pois esses s\u00edmbolos s\u00e3o chaves hermen\u00eauticas para desvendar o que a m\u00edstica ou o m\u00edstico querem nos dizer. Tais express\u00f5es podem ser comuns a narrativas m\u00edsticas universais (por exemplo, Deus \u00e9 como luz, mar etc.) ou muito pr\u00f3prias e pessoais, como nomes pr\u00f3prios que s\u00f3 essa pessoa usa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas chaves s\u00e3o importantes, seja um grande m\u00edstico ou m\u00edstica canonizado\/a, cujas obras s\u00e3o universalmente conhecidas, seja uma pessoa desconhecida que em algum lugar do mundo diz a outro ser humano o que viveu, em rela\u00e7\u00e3o a uma experi\u00eancia de Deus que manifestou sua bondade de uma forma avassaladora.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Para uma defini\u00e7\u00e3o m\u00edstica do cotidiano<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que temos visto e analisado sobre a experi\u00eancia m\u00edstica nos ajuda a alcan\u00e7ar o tema que \u00e9 o foco deste texto: a m\u00edstica do cotidiano. A reflex\u00e3o do Vaticano II, que abre a possibilidade de ser santo a todos os batizados (a que j\u00e1 aludimos), nos faz deixar o esquema de &#8220;perfei\u00e7\u00e3o&#8221; para nos abrirmos \u00e0 esfera da &#8220;plenitude da caridade&#8221; (LG 39). Essa mesma perspectiva tira a experi\u00eancia m\u00edstica do contexto de algumas pessoas muito especiais que t\u00eam experi\u00eancias de Deus que chamamos de &#8220;extraordin\u00e1rias&#8221;, para nos abrir \u00e0 possibilidade da universalidade dessa experi\u00eancia e que os espa\u00e7os da m\u00edstica n\u00e3o precisam ser apenas templos ou locais de retiro, mas tamb\u00e9m o trabalho, a rua, a casa, a escola. Trata-se, em suma, de &#8220;encontrar Deus em todas as coisas&#8221; (GARC\u00cdA, 2013, p. 62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o teol\u00f3gica e pastoral dos anos p\u00f3s-conciliares seguiu essa linha, mas, sobretudo, essas ideias passaram a se refletir em experi\u00eancias concretas. A vida religiosa, por exemplo, desenvolveu modelos de inser\u00e7\u00e3o nos bairros, realizando ali o apostolado e a ora\u00e7\u00e3o , mesmo com experi\u00eancias de vida contemplativa como a dos irm\u00e3os e das irm\u00e3s de Carlos de Jesus. Os movimentos leigos ajudaram a crescer a consci\u00eancia da import\u00e2ncia de encontrar Deus na vida familiar, no trabalho, no compromisso social e pol\u00edtico e amadureceram a percep\u00e7\u00e3o da contempla\u00e7\u00e3o e da vida m\u00edstica dos leigos e leigas (GOFFI, 1987, p. 158-163).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo Olivera, monge trapista e escritor de temas sobre espiritualidade, define os sujeitos da experi\u00eancia desta forma: \u201c[m\u00edsticos e m\u00edsticas] s\u00e3o, simplesmente, todos aqueles e aquelas que, entrando no Mist\u00e9rio, v\u00e3o sendo transformados por ele\u201d (OLIVERA, 2002, p. 80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a m\u00edstica \u00e9 o &#8220;imediatismo mediado pelo contato amoroso&#8221; com Deus, tal como concebido (MART\u00cdN VELASCO, 2007, p. 62) ou a experi\u00eancia plena da Vida, de acordo com a defini\u00e7\u00e3o de Panikkar, com a qual este texto inicia, essa experi\u00eancia \u00e9 perfeitamente acess\u00edvel a todas as pessoas que se abrem ao mist\u00e9rio divino, em todos os lugares e em qualquer momento de exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tema da m\u00edstica do cotidiano, h\u00e1 duas quest\u00f5es que, sendo temas cl\u00e1ssicos da espiritualidade crist\u00e3, emergem no p\u00f3s-Conc\u00edlio de uma nova forma: a possibilidade de amar a Deus mais do que se conhece e o tema do conhecimento por conaturalidade. Vejamos brevemente esses dois pontos, a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro ponto, j\u00e1 no final do s\u00e9culo XIII, um cartuxo chamado Hugo de Balma (DE BALMA, 1992, p. 117-118) diz que a mais profunda uni\u00e3o da alma com Deus pode ser dada pelo amor sem conhecimento intelectual pr\u00e9vio, considerado uma advert\u00eancia geral de f\u00e9. Esta foi uma quest\u00e3o que foi muito debatida na Era de Ouro espanhola. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, levando em conta essa discuss\u00e3o, vai esclarec\u00ea-la unindo a tend\u00eancia dos intelectuais que diziam que n\u00e3o h\u00e1 nada na intelig\u00eancia que n\u00e3o passe pelos sentidos (por isso n\u00e3o se poderia amar a Deus sem conhec\u00ea-lo) e a corrente dos m\u00edsticos afetivos que afirmaram que, a respeito de Deus, era poss\u00edvel am\u00e1-lo mais do que podemos realmente conhec\u00ea-lo. Diz isso no C\u00e2ntico Espiritual da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se sabe, sobre o que alguns dizem que a vontade n\u00e3o pode amar sen\u00e3o o que \u00e9 primeiro compreendido pelo entendimento, \u00e9 para ser compreendido naturalmente, porque por via natural \u00e9 imposs\u00edvel amar se n\u00e3o se compreende primeiro o que se ama; mais por meios sobrenaturais Deus pode infundir o amor e aument\u00e1-lo sem infundir nem aumentar distinta intelig\u00eancia [\u2026].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa experi\u00eancia est\u00e1 em muitos espirituais, que muitas vezes se encontram em chamas com o amor de Deus sem terem uma inteligencia diferente da anterior; porque eles podem compreender pouco e amar muito, e podem compreender muito e amar pouco\u2026 (CB 26,8). (JO\u00c0O DA CRRUZ, 1992, p. 694)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o do santo de Fontiveros, continua a relacionar esse fen\u00f4meno com a f\u00e9 teol\u00f3gica, que ilumina os crentes que se abrem para a a\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao segundo tema, sobre o tipo de conhecimento proporcionado pela m\u00edstica em geral e a do cotidiano em particular, podemos dizer que \u00e9 an\u00e1logo ao conhecimento por conaturalidade, do qual Aquino tamb\u00e9m fala (JOHNSTON, 1997, p. 63-68), uma vez que no conhecimento por conaturalidade aprende-se por certa afinidade ou inclina\u00e7\u00e3o ao objeto conhecido. Essa inclina\u00e7\u00e3o vem do amor e da uni\u00e3o e possui uma especial import\u00e2ncia quando falamos de Deus e do seu conhecimento, pois como a primeira carta de Jo\u00e3o nos lembra, &#8220;aquele que ama, conhece a Deus, e aquele que n\u00e3o ama n\u00e3o conhece a Deus, pois Deus \u00e9 Amor&#8221; (1Jo 4,7-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor de Deus se derrama em n\u00f3s, nos atrai e nos unimos a Ele, propiciando-nos a mais alta sabedoria, da qual tamb\u00e9m Tom\u00e1s de Aquino fala no in\u00edcio da <em>Summa<\/em>, aquela que vem do Esp\u00edrito Santo e pela qual nos unimos a Deus (TOM\u00c1S DE AQUINO, STh q1 a6 ad3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto conciliar e p\u00f3s-conciliar, destaca-se o pensamento de Karl Rahner, um dos que usaram e espalharam a express\u00e3o &#8220;m\u00edstica do cotidiano&#8221;. Rahner argumenta que todos os que vivem com autenticidade, colocando amor e responsabilidade no que fazem, a partir de um desejo sincero de servir o pr\u00f3ximo, vivem o &#8220;misticismo da vida cotidiana&#8221; (RAHNER, 2010, p. 172-188). Destaca n\u00e3o s\u00f3 a unidade intr\u00ednseca entre o amor de Deus e o amor ao pr\u00f3ximo (RAHNER, 1966, p. 271-291), mas tamb\u00e9m o ensinamento de Jesus que diz que amar o menor de seus irm\u00e3os significa am\u00e1-lo. Segundo Rahner, a forma mais profunda do misticismo da vida cotidiana \u00e9 o amor sem reservas ao pr\u00f3ximo e a humilde aceita\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia, com seus limites e possibilidades, mas em abertura \u00e0s profundezas da pr\u00f3pria vida e, portanto, ao pr\u00f3prio mist\u00e9rio, ao mist\u00e9rio dos irm\u00e3os e da exist\u00eancia em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa vis\u00e3o da vida tem um profundo significado teol\u00f3gico e pastoral. Trata-se de ter a certeza (muitas vezes obscura) de que aceitar a vida cotidiana com todos os seus desafios \u00e9 o verdadeiro seguimento de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cotidiano de Jesus \u00e9 o que serve a Rahner como base para apreciar a vida cotidiana como um lugar de encontro com o mist\u00e9rio: o que \u00e9 realmente surpreendente e at\u00e9 desconcertante na vida de Jesus \u00e9 que ele permanece completamente dentro do quadro da exist\u00eancia cotidiana, uma exist\u00eancia semelhante a de tantas pessoas de seu tempo e seu povo. A primeira coisa que devemos aprender com o Senhor \u00e9 sua humanidade assumida, integrada e aceita at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Cristo, Deus assumiu a vida cotidiana. O misticismo da vida cotidiana \u00e9 a alegria sombria e paradoxal de existir no mundo, uma f\u00e9 pascal que ama a exist\u00eancia como ela \u00e9. A participa\u00e7\u00e3o na morte de Cristo possibilita que uma pessoa se entregue ao mist\u00e9rio que permeia a vida cotidiana: este \u00e9 o fundamento cristol\u00f3gico para um misticismo do cotidiano. Obviamente, n\u00e3o estamos falando apenas da morte como o passo final para a vida eterna, mas tamb\u00e9m das micromortes que nos atravessam todos os dias e que fazem parte dos acontecimentos di\u00e1rios. Aceitar a solid\u00e3o quando ela surgir em nossa exist\u00eancia, abrir m\u00e3o de um crit\u00e9rio importante na vida familiar, ouvir uma cr\u00edtica injusta, aceitar uma tarefa exaustiva pelo amor a Deus, \u00e0 comunidade ou para apoiar a pr\u00f3pria fam\u00edlia, perdoar incondicionalmente, fazer bem e completamente a tarefa di\u00e1ria sem esperar o reconhecimento, entregar-se generosamente \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, ser fiel \u00e0 pr\u00f3pria consci\u00eancia mesmo que n\u00e3o sejamos compreendidos\/as, aceitar a decep\u00e7\u00e3o entre o projeto dos sonhos e o que foi alcan\u00e7ado&#8230; Perseverar nessas atitudes s\u00e3o eventos de gra\u00e7a, presentes na vida cotidiana. Perseverar nessas atitudes s\u00e3o eventos de gra\u00e7a, presentes na vida cotidiana. S\u00e3o transpar\u00eancias do mist\u00e9rio que aparece e se deixa vislumbrar, fazendo-nos suspeitar da presen\u00e7a de Deus ao nosso lado, em n\u00f3s, entre n\u00f3s (EGAN, 2013, p. 45-49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que a tradi\u00e7\u00e3o chama de perseveran\u00e7a final, a entrega total da vida no \u00faltimo momento, ser\u00e1 muito dif\u00edcil se essa fidelidade di\u00e1ria, sombria e alegre ao mesmo tempo, n\u00e3o tiver sido verificada.<\/p>\n<p>Michel de Certeau expressou esta experi\u00eancia da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 m\u00edstico aquele ou aquela que n\u00e3o pode parar de caminhar e que, com a certeza do que lhe falta, sabe de cada lugar e cada objeto que n\u00e3o \u00e9 isso; que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se estabelecer l\u00e1, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se contentar com isso. (DE CERTEAU, 1987, p. 14)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica da vida cotidiana \u00e9 a suspeita bem fundamentada do Reino de Deus presente todos os dias.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Francisco: da m\u00edstica popular \u00e0 santidade \u201cao p\u00e9 da porta\u201d<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista do Magist\u00e9rio da Igreja, quem mais tem falado, n\u00e3o diretamente sobre a m\u00edstica do cotidiano, mas de temas muito pr\u00f3ximos, \u00e9 o papa Francisco. Desde a <em>Evangelii Gaudium<\/em>, sua Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica program\u00e1tica, tem abordado a quest\u00e3o da presen\u00e7a de Deus no cotidiano (EG n. 73). Essa profunda sensa\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia que descobrimos no transcorrer dos dias e atividades em que nossa vida passa, da qual a EG nos fala, a profundidade sem estrid\u00eancia que \u00e9 percebida como uma presen\u00e7a fiel que nos acompanha mesmo quando n\u00e3o a sentimos, essa, precisamente, \u00e9 a m\u00edstica do cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No n\u00famero 174 da EG, o papa diz que, na leitura da Palavra de Deus e na eucaristia, o esp\u00edrito da profecia \u00e9 recebido para dar testemunho na vida cotidiana. Santidade e profecia aparecem associadas na e com a vida cotidiana. Porque a comunh\u00e3o com a dimens\u00e3o sagrada da exist\u00eancia \u00e9 o que nos transforma em profetas e testemunhas no meio do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um n\u00facleo tematicamente importante na EG, pr\u00f3prio da teologia e da pastoral de Francisco, no qual ele trata de alguma forma do tema da m\u00edstica cotidiana, ao falar do poder evangelizador da piedade popular (122-126). Particularmente no n\u00famero 124, ele cita o documento de Aparecida, que ao tratar do tema da piedade\/espiritualidade\/m\u00edstica popular aborda-o como uma &#8220;verdadeira espiritualidade encarnada na cultura dos simples&#8221; (EG n. 124, citando DAp n. 263). Dentro dessa piedade\/espiritualidade\/m\u00edstica popular, uma nota distintiva \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da encarna\u00e7\u00e3o como a capacidade de ver Deus na vida, de perceber sua presen\u00e7a em realidades cotidianas \u2013 alegres, dif\u00edceis ou mesmo n\u00e3o transcendentes. Uma parte do texto de Aparecida, no qual vemos a indubit\u00e1vel influ\u00eancia do cardeal Bergoglio:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A piedade popular cont\u00e9m e expressa um intenso sentido da transcend\u00eancia, uma capacidade espont\u00e2nea de se apoiar em Deus e uma verdadeira experi\u00eancia de amor teologal. \u00c9 tamb\u00e9m uma express\u00e3o de sabedoria sobrenatural, porque a sabedoria do amor n\u00e3o depende diretamente da ilustra\u00e7\u00e3o da mente, mas da a\u00e7\u00e3o interna da gra\u00e7a. Por isso, a chamamos de espiritualidade popular. Ou seja, uma espiritualidade crist\u00e3 que, sendo um encontro pessoal com o Senhor, integra muito o corp\u00f3reo, o sens\u00edvel, o simb\u00f3lico e as necessidades mais concretas das pessoas. \u00c9 uma espiritualidade encarnada na cultura dos simples, que nem por isso \u00e9 menos espiritual, mas que o \u00e9 de outra maneira. (DAp 263)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o documento fale aqui de piedade\/espiritualidade\/m\u00edstica popular, podemos ver algumas das caracter\u00edsticas que nos aproximam da m\u00edstica ou espiritualidade da vida cotidiano: encontro pessoal e concreto com Deus, senso de transcend\u00eancia, capacidade espont\u00e2nea de se apoiar no Senhor, experi\u00eancia do amor teologal, sabedoria do amor como demonstra\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a. Tudo isso vivido de forma concreta, sens\u00edvel e simb\u00f3lica, de forma &#8220;encarnada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto o texto de EG n. 124, quanto o de Aparecida n. 263 apontam que o cerne dessa piedade\/espiritualidade ou m\u00edstica popular, que tem muitos elementos da experi\u00eancia m\u00edstica cotidiana, \u00e9 uma experi\u00eancia teol\u00f3gica\/batismal, um instinto de f\u00e9 permeado pela caridade que nos leva a descobrir o Senhor e sua obra em todas as circunst\u00e2ncias, ainda mais em lugares onde parece que Deus n\u00e3o se encontra. Essa experi\u00eancia proporciona um conhecimento, uma &#8220;sabedoria do amor de Deus&#8221; acess\u00edvel a todos os crentes, que confere uma afinidade espiritual ao Mist\u00e9rio de Deus e uma capacidade de discernimento, contraintuitiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o em assuntos religiosos que essas pessoas puderam ou n\u00e3o ter tido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-S\u00ednodal <em>Amoris Laetitia<\/em>, o tema da ora\u00e7\u00e3o familiar aparece intimamente ligado \u00e0 vida cotidiana (AL n. 29, 86, 216, 223, 227, 255, 287-288, 316-318). \u00a0Particularmente nos n\u00fameros 316 a 318, se fala da vida de ora\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia e de cada um dos c\u00f4njuges, mostrando que a m\u00edstica n\u00e3o \u00e9 exclusiva de algumas pessoas na Igreja: &#8220;aqueles que t\u00eam profundos desejos espirituais n\u00e3o devem sentir que a fam\u00edlia os afasta do crescimento na vida do Esp\u00edrito, mas \u00e9 um caminho que o Senhor utiliza para os levar \u00e0s alturas da uni\u00e3o m\u00edstica. (AL n. 316).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro documento chave para encontrar elementos sobre a m\u00edstica popular e cotidiana \u00e9 a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Gaudete et Exsultate<\/em>. Abordando plenamente a quest\u00e3o da santidade no mundo de hoje, o papa, nos primeiros par\u00e1grafos, fala de &#8220;os santos ao p\u00e9 da porta&#8221;, uma express\u00e3o ou imagem que, possivelmente querendo ilustrar uma ideia, tornou-se um ponto central de sua mensagem gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a da imagem. \u00c9 sobre as pessoas comuns com quem todos podemos nos identificar. Nesse par\u00e1grafo, o papa associa a santidade \u00e0 virtude da paci\u00eancia: \u201cgosto de ver a santidade no povo paciente de Deus&#8230; esta \u00e9 muitas vezes a santidade \u201cao p\u00e9 da porta\u201d, daqueles que vivem perto de n\u00f3s e s\u00e3o um reflexo da presen\u00e7a de Deus&#8221; (GE n. 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus se faz silenciosamente presente na paci\u00eancia da vida cotidiana, e naqueles que a exercem: trabalhadores, pais e m\u00e3es de fam\u00edlia etc. Pessoas que &#8220;seguem cada um o seu pr\u00f3prio caminho&#8221; (GE n. 11, citando LG n. 11), ou seja, nas condi\u00e7\u00f5es habituais do dia a dia. Nos n\u00fameros seguintes \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de santidade ao p\u00e9 da porta (n. 8 e 9), o papa associa a santidade cotidiana \u00e0s trevas e \u00e0 profecia, que poderiam ser outros termos para falar de paci\u00eancia e testemunho. A descri\u00e7\u00e3o de Francisco evoca o efeito de uma esp\u00e9cie de fermento, apenas conhecido por Deus, mas que poderia ser o verdadeiro fermento e motor da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, segundo o Papa, de ouvir o pr\u00f3prio chamado e deixar que frutifique a gra\u00e7a do batismo em um caminho de santidade (GE n. 15), tendo o cuidado de esclarecer que, se a santidade n\u00e3o \u00e9 um patrim\u00f4nio exclusivo de pessoas consagradas, tampouco \u00e9 a vida de ora\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o com o Senhor (GE n. 14), como havia afirmado na AL n. 316.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cap\u00edtulo 3 ele aborda dois &#8220;eixos&#8221; da santidade crist\u00e3: as bem-aventuran\u00e7as representadas como a identidade do seguidor de Jesus e o grande protocolo sobre o qual seremos julgados (Mt 25). A miseric\u00f3rdia se destaca, em ambos os textos, como aquele &#8220;fio comum&#8221; que sustenta nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus e com nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s e o arcabou\u00e7o da m\u00edstica cotidiana (MAZZINI, 2015, p. 29-48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descobrir Deus em nossas vidas tem a ver com a experi\u00eancia da miseric\u00f3rdia, quem reconhece e serve o Senhor concretamente, descobre sua presen\u00e7a em todos os aspectos da vida cotidiana e est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de se unir a Ele pela f\u00e9 e pelo amor, mesmo que a experi\u00eancia seja sombria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco retomou o tema em sua catequese sobre a ora\u00e7\u00e3o, em fevereiro de 2021, do seguinte modo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre viva na exist\u00eancia, como o fogo das brasas, at\u00e9 quando os l\u00e1bios n\u00e3o falam, mas o cora\u00e7\u00e3o fala. Cada pensamento, embora aparentemente \u201cprofano\u201d, pode ser permeado de ora\u00e7\u00e3o. At\u00e9 na intelig\u00eancia humana h\u00e1 um aspecto orante; com efeito, ela \u00e9 uma janela aberta para o mist\u00e9rio: ilumina os poucos passos que se nos apresentam e depois abre-se para toda a realidade, esta realidade que a precede e a supera. Este mist\u00e9rio n\u00e3o tem um rosto perturbador nem angustiante, n\u00e3o: o conhecimento de Cristo faz-nos confiar que onde o nosso olhar e os olhos da nossa mente n\u00e3o podem ver, n\u00e3o h\u00e1 o nada, mas h\u00e1 algu\u00e9m que nos espera, h\u00e1 uma gra\u00e7a infinita. (FRANCISCO, Catequese de quarta-feira 10 de fevereiro de 2021)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma janela para o mist\u00e9rio&#8221;, diz o papa, poderia ser uma boa defini\u00e7\u00e3o da m\u00edstica cotidiana, viver atentos \u00e0 presen\u00e7a amorosa e misteriosa de Deus, sempre presente e concomitante aos limites de nossas pequenas, prec\u00e1rias, limitadas, mas habitadas exist\u00eancias.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Uma m\u00edstica cotidiana a partir da Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O padre Jorge Seibold SJ tem v\u00e1rios textos sobre m\u00edstica popular, que s\u00e3o escritos a partir e na Am\u00e9rica Latina. Em um deles (SEIBOLD, 2016, p. 157-162), fala dos sinais da experi\u00eancia m\u00edstica no catolicismo popular latino-americano, entre os quais est\u00e1 a m\u00edstica do cotidiano, com um profundo sentimento que nosso povo tem da presen\u00e7a de Deus em suas vidas, do irm\u00e3o necessitado como um lugar de encontro com Jesus, do contato corporal e do abra\u00e7o como epifania da fraternidade, da hospitalidade e da solidariedade \u00e0s vezes al\u00e9m das pr\u00f3prias possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma espiritualidade da vida cotidiana que as pessoas mais simples e crentes do nosso povo vivem na pr\u00e1tica de um tipo ininterrupto de ora\u00e7\u00e3o, muito simples, mas com um profundo senso de uni\u00e3o com Deus. Alguns expressam isso encomendando ao Senhor ou \u00e0 Maria suas necessidades, agradecimentos e desejos no decorrer do dia. Outros intercederem por necessidades de pessoas espec\u00edficas da fam\u00edlia ou da comunidade, ou por aqueles no mundo que sofrem por causa de v\u00e1rios males (a viol\u00eancia, a doen\u00e7a, o desemprego etc.). Portanto, n\u00e3o \u00e9 incomum visitar um vizinho doente em um bairro humilde e esse espontaneamente dizer que oferece a Deus suas dores ou desconfortos por outras pessoas que percebe que sofrem mais do que ele ou ela e que, quando assim o faz, se sente particularmente unido ou unida a Jesus em sua Paix\u00e3o. Deve-se notar que, em geral, n\u00e3o s\u00e3o pessoas com grande forma\u00e7\u00e3o religiosa, mas com um profundo senso de f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O altar dom\u00e9stico, com alguma imagem de Jesus, de Maria, de algum santo padroeiro da cidade de origem da fam\u00edlia, \u00e9 um espa\u00e7o sagrado no qual geralmente tamb\u00e9m h\u00e1 \u00e1gua benta e, em ocasi\u00f5es especiais ou de necessidade, uma vela acesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade dos mais pobres \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de Deus na vida cotidiana. Podemos dizer que \u00e9 uma m\u00edstica cotidiana da a\u00e7\u00e3o, na qual as pessoas experimentam a presen\u00e7a de Deus e a autenticidade de sua f\u00e9, porque vivem de acordo com o que creem e isso \u00e9 uma epifania, uma certeza da presen\u00e7a de Deus. Essa m\u00edstica dos povos latino-americanos, em geral, n\u00e3o \u00e9 vivida isoladamente, nem como minoria, mas sim na experi\u00eancia de acreditar em Deus, fazer parte de um povo (GUTI\u00c9RREZ, 1989, p. 20-26). Da\u00ed as percep\u00e7\u00f5es do Documento de Aparecida, que discutimos anteriormente e que nos mostram a experi\u00eancia espiritual como uma experi\u00eancia popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos muito a aprender com as pessoas mais simples de nossos povos latino-americanos \u2013 elas, com sua intui\u00e7\u00e3o de f\u00e9 em contextos hostis e muitas vezes violentos, podem apontar o caminho para o encontro di\u00e1rio com o mist\u00e9rio. Elas nos mostram que a experi\u00eancia m\u00edstica se revela como uma ci\u00eancia do amor: uma sabedoria que busca, sofre e desfruta no meio da vida (NAVARRO S\u00c1NCHEZ, 2012, p. 28) e que, acima de tudo, encontra Deus em todas as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Marcela Mazzini.\u00a0<\/em>Universidad Cat\u00f3lica de Argentina. Texto original castellano. Recebido: 30\/03\/2021. Aprovado: 30\/05\/2021. Publicado: 24\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>DE BALMA, H. <em>Sol de Contemplativos<\/em>. Edi\u00e7\u00e3o preparada por Teodoro H. Mart\u00edn. Salamanca: S\u00edgueme, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DE CERTEAU, M. <em>La Faiblesse de croire<\/em>. Paris: Cerf, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EGAN, H. D. The Mystical Theology of Karl Rahner. <em>The Way<\/em>, v. 52, n. 2, p.43-62, April 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FERRARA, R. <em>El misterio de Dios: <\/em>correspondencias y paradojas. Una propuesta sistem\u00e1tica. Salamanca: S\u00edgueme, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO. Catequese de quarta-feira 10 de fevereiro de 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/audiences\/2021\/documents\/papa-francesco_20210210_udienza-generale.html\">https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/audiences\/2021\/documents\/papa-francesco_20210210_udienza-generale.html<\/a> Acesso em: 12 set 2021.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARC\u00cdA, C. La M\u00edstica que cambia la vida y el coraz\u00f3n, dimensi\u00f3n performativa. <em>Teresianum<\/em>, n. 64, p. 59-80, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GERA, L. Eucarist\u00eda y vida cotidiana. <em>Teolog\u00eda<\/em>, n.13, p.153-177, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GOFFI, T. <em>La experiencia espiritual, hoy. <\/em>L\u00edneas esenciales de la espiritualidad cristiana contempor\u00e1nea. Salamanca: S\u00edgueme, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUTI\u00c9RREZ, G.<em> Beber en su Propio pozo. <\/em>En el Itinerario Espiritual de un Pueblo. Salamanca: S\u00edgueme, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ISASI-DI\u0301AZ, A. M.\u00a0 Lo Cotidiano: Elemento Intri\u0301nseco de la Realidad. In: FORNET-BETANCOURT, R. (ed.), <em>Resistencia y solidaridad. <\/em>Globalizacio\u0301n capitalista y liberacio\u0301n. Madrid: Trotta, 2003. p. 365-384.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JO\u00c3O DA CRUZ, J. <em>Obras Completas<\/em>. Madrid: 1992. (edi\u00e7\u00e3o brasileira: Petr\u00f3polis: Vozes, 1960)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JOHNSTON, W.\u00a0 <em>Teolog\u00eda M\u00edstica<\/em>. Barcelona: Herder, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MART\u00cdN VELASCO, J.\u00a0\u00a0 <em>El fen\u00f3meno m\u00edstico. <\/em>Un estudio comparado. Madrid: Trotta, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MART\u00cdN VELASCO, J. <em>M\u00edstica y Humani<\/em>smo. Madrid: PPC, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAZZINI, M. M\u00edstica en la Trama de la Vida Cotidiana. <em>Revista Teolog\u00eda, <\/em>Tomo LII, n. 116, p. 29-48, Abril 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAZZINI, M. La maternidad como celda. Un lugar para el hijo, un camino para la madre (o la solidaria esperanza de abrir un espacio espiritual).\u00a0<a href=\"https:\/\/dialnet.unirioja.es\/servlet\/revista?codigo=23244\"><em>Cuadernos Mon\u00e1sticos<\/em><\/a>,\u00a0n. 139,\u00a0p.\u00a0423-436, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MELLONI RIBAS, J. La Espiritualidad como Universal Humano. In: BENITO, E.; BARBERO, J.; DONES, M. (eds.). <em>Espiritualidad en Cl\u00ednica. <\/em>Una propuesta de Evaluaci\u00f3n y Acompa\u00f1amiento Espiritual en Cuidados Paliativos<em>.<\/em> Buenos Aires: Biblos-Instituto Pallium Latinoam\u00e9rica, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MELLONI RIBAS, J. <em>El Uno en lo M\u00faltiple. <\/em>Aproximaci\u00f3n a la diversidad y unidad de las religiones. 2.ed. Ja\u00e9n: Sal Terrae, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MERTON, T. <em>Ascenso a la Verdad<\/em>. Buenos Aires\/M\u00e9xico: Lumen, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NAVARRO S\u00c1NCHEZ, R. E. Vivir la experiencia m\u00edstica hoy: Itinerario de Sabidur\u00eda en medio de la vida. In: NAVARRO S\u00c1NCHEZ, R. E. (dir.) <em>Espiritualidad para caminantes. <\/em>Fuentes tensiones, fronteras. Bogot\u00e1: San Pablo, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVERA, B. <em>Sol en la Noche. <\/em>Misterio y m\u00edstica cristiana desde una experiencia cisterciense. Burgos: Monte Carmelo, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PANIKKAR, R. <em>De la m\u00edstica. <\/em>Experiencia plena de la vida. Barcelona: Herder, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K. Sobre la unidad del amor a Dios y el amor al pr\u00f3jimo. In: RAHNER, K. \u00a0<em>Escritos de Teolog\u00eda<\/em>, v. VI. Madrid: Taurus, 1966.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K.\u00a0<em>The Mystical way in the everyday life<\/em>. Trad., ed. e com introdu\u00e7\u00e3o de Annemarie Kidder. New York: Orbis, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUIZ SALVADOR, M. <em>Caminos del Esp\u00edritu<\/em>. Compendio de Teolog\u00eda Espiritual. 2.ed. Madrid: Editorial de Espiritualidad, 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEIBOLD, J. <em>La<\/em><em> m\u00edstica Popular. <\/em>Nueva edici\u00f3n corregida y aumentada. Buenos Aires: Agape, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WAAIJMAN, K. <em>Espiritualidad. <\/em>Formas. Fundamentos y M\u00e9todos. Salamanca: S\u00edgueme, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 O cotidiano 2 O que \u00e9 (e o que n\u00e3o \u00e9) m\u00edstica? Alguns mal-entendidos 3 Caracter\u00edsticas espec\u00edficas da experi\u00eancia m\u00edstica 4 Para uma defini\u00e7\u00e3o m\u00edstica do cotidiano 5 Francisco: da m\u00edstica popular aos santos \u201cao p\u00e9 da porta\u201d 6 Uma m\u00edstica cotidiana da Am\u00e9rica Latina Introdu\u00e7\u00e3o Tendemos a definir nosso tempo como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2524","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2524","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2524"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2524\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2655,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2524\/revisions\/2655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2524"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2524"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2524"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}