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{"id":2516,"date":"2021-12-24T15:15:09","date_gmt":"2021-12-24T18:15:09","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2516"},"modified":"2022-01-16T17:20:11","modified_gmt":"2022-01-16T20:20:11","slug":"interculturalidade-inculturacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2516","title":{"rendered":"Interculturalidade \/ Incultura\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota introdut\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Esclarecimento m\u00ednimo do termo interculturalidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Interculturalidade na intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a incultura\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Observa\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota introdut\u00f3ria<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pano de fundo hist\u00f3rico e te\u00f3rico deste artigo \u00e9 a hist\u00f3ria de luz e sombra que o cristianismo escreveu com a real trajet\u00f3ria de um desenvolvimento que o fez presente em todos os continentes do mundo. Aqui n\u00e3o podemos nos debru\u00e7ar sobre esta hist\u00f3ria milenar, mas sua men\u00e7\u00e3o torna-se necess\u00e1ria no in\u00edcio deste artigo. Pois bem, esta complexa hist\u00f3ria do cristianismo \u00e9 precisamente aquela que desenha o pano de fundo das luzes e sombras que supomos como um marco geral explicativo da posi\u00e7\u00e3o a favor da qual queremos argumentar com as reflex\u00f5es que se seguem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E nos permitiremos antecipar que a proposta de tal posi\u00e7\u00e3o pode ser resumida nestes termos: supondo que a &#8220;incultura\u00e7\u00e3o&#8221; seja um dos momentos que delineiam a face luminosa da hist\u00f3ria do cristianismo, pensamos que com o estabelecimento da interculturalidade, vista acima de tudo \u2013 como \u00e9 o caso deste artigo \u2013 em sua poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o com esse processo teol\u00f3gico e religioso constitutivo da hist\u00f3ria do cristianismo que \u00e9 a &#8220;incultura\u00e7\u00e3o&#8221;, floresce um movimento denso de crescimento espiritual que pode contribuir para tornar ainda mais luminosa a face luminosa da &#8220;incultura\u00e7\u00e3o&#8221; do cristianismo nos espa\u00e7os e tempos da hist\u00f3ria da humanidade no futuro.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Esclarecimento m\u00ednimo do termo interculturalidade<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interculturalidade representa uma formula\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e inovadora que anima hoje \u00e1reas de reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o t\u00e3o diversas quanto, por exemplo, a antropologia, a educa\u00e7\u00e3o, o direito, a filosofia, a pedagogia, a lingu\u00edstica, a pol\u00edtica, a psicologia, a psiquiatria ou a teologia; com a consequ\u00eancia de que, com seu desenvolvimento nesses campos \u2013 e sem esquecer, por outro lado, que esse desenvolvimento multidisciplinar ocorre em contextos culturais diversos \u2013, a perspectiva intercultural recebe evidentemente \u00eanfases espec\u00edficas que dificultam uma defini\u00e7\u00e3o geral, e al\u00e9m disso, que n\u00e3o aconselham a elabora\u00e7\u00e3o de &#8220;um&#8221; conceito definidor de interculturalidade. (FORNET-BETANCOURT, 2002; KIRLOSKAR-STEINBACH, DHARAMPAL-FRICK, FRIELE, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta amplitude de refer\u00eancias disciplinares e contextuais em que a interculturalidade se move, queremos come\u00e7ar este ponto indicando precisamente que se intitula &#8220;esclarecimento m\u00ednimo&#8221; n\u00e3o por um recurso ret\u00f3rico, mas para com isto dar conta de que, nesta aproxima\u00e7\u00e3o com o termo interculturalidade, vamos olhar apenas para um dos acentos poss\u00edveis, ou seja, o filos\u00f3fico; e, al\u00e9m disso, que &#8220;minimiza&#8221; ainda mais nosso esclarecimento, prestando especial aten\u00e7\u00e3o aos &#8220;tons&#8221; da \u00eanfase filos\u00f3fica que, em nossa opini\u00e3o, melhor se prestam \u00e0 intera\u00e7\u00e3o com o processo teol\u00f3gico ou religioso da incultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, no contexto dessa delimita\u00e7\u00e3o, enfatizaremos que a filosofia intercultural (FORNET-BETANCOURT, 1994; MALL, 1995; PANIKKAR, 1990; WIMMER, 2002) carrega a abordagem da interculturalidade com um acento espec\u00edfico que tem a ver, primeiro, com a concep\u00e7\u00e3o de cultura e, mais concretamente, com a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com sua cultura de origem ou a cultura em que nasceu e cresceu. Resumimos essa concep\u00e7\u00e3o dizendo que se trata de uma concep\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, n\u00e3o essencialista, que sublinha o valor das diferentes culturas da humanidade como formas de vida e conviv\u00eancia pelas quais o ser humano &#8220;entra&#8221; e \u00e9 &#8220;direcionado&#8221; para o que chamamos de &#8220;mundo humano&#8221;. Assim, essa concep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m defende o reconhecimento respeitoso do pluralismo cultural, pois revela os m\u00faltiplos caminhos que podem ser seguidos para humanizar o homem. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, essa concep\u00e7\u00e3o considera que as culturas em si n\u00e3o s\u00e3o &#8220;as \u00faltimas&#8221;, mas devem sim ser vistas como formas hist\u00f3ricas em que os caminhos s\u00e3o abertos, sempre dentro da ambival\u00eancia constitutiva que tudo o que \u00e9 humano implica &#8220;o \u00faltimo&#8221;, entendendo aqui por &#8220;o \u00faltimo&#8221; o sentido da plenitude da vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, e em rela\u00e7\u00e3o ao aspecto anterior, a \u00eanfase filos\u00f3fica da interculturalidade tem a ver com uma concep\u00e7\u00e3o do ser humano. Uma palavra sobre isso. Esta concep\u00e7\u00e3o sup\u00f5e, entre muitos outros momentos que n\u00e3o podemos citar agora (FORNET-BETANCOURT, 2008), que em raz\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o de finitude e, principalmente, de sua fragilidade afetiva, \u00e9 um ser que precisa de identidade pessoal e de sentimento de perten\u00e7a familiar, cultural, religiosa etc. Ou seja, \u00e9 um ser que precisa de um &#8220;ambiente&#8221; no qual possa se sentir &#8220;em casa&#8221;, um espa\u00e7o que o reconhece como &#8220;seu&#8221; e o vivencie como &#8220;familiar&#8221;. Mas essa concep\u00e7\u00e3o afirma, por outro lado, que na condi\u00e7\u00e3o finita do ser humano tamb\u00e9m mora um anseio por plenitude que transborda o &#8220;familiar\u201d e que o move, se a met\u00e1fora \u00e9 permitida, a habitar sua casa, sua cultura e identidade, como uma casa que mant\u00e9m as portas e janelas abertas; em outras palavras, como um espa\u00e7o de acolhimento e hospitalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, em terceiro lugar, a \u00eanfase colocada na filosofia intercultural sublinha que a din\u00e2mica da intera\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica e do encontro com a alteridade que distingue a abordagem da interculturalidade, assim como um esfor\u00e7o para superar a parcialidade ou unilateralidade das vis\u00f5es que separam culturas e seus membros (sejam elas cosmol\u00f3gicas,\u00a0 \u00e9ticas, epistemol\u00f3gicas, religiosas, filos\u00f3ficas, etc.), \u00e9 uma din\u00e2mica de crescimento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 plenitude que requer, como condi\u00e7\u00e3o de seu verdadeiro significado, a postula\u00e7\u00e3o da abertura do humano finito a um horizonte infinito. Pois apenas o infinito, que n\u00e3o \u00e9 simplesmente o que n\u00e3o tem limites, mas sim o ilimitado, n\u00e3o \u00e9 unilateral e permite, portanto, a jornada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como por raz\u00f5es \u00f3bvias de espa\u00e7o n\u00e3o podemos continuar a aprofundar na explica\u00e7\u00e3o da \u00eanfase filos\u00f3fica, os tr\u00eas destaques devem ser suficientes aqui para fazer um ponto em nossa argumenta\u00e7\u00e3o que \u00e9 importante para o que se segue, a saber, que a filosofia intercultural entende e desenvolve a interculturalidade no sentido de uma perspectiva cr\u00edtica que deve cumprir, na compreens\u00e3o e na pr\u00e1tica do encontro com as culturas, uma fun\u00e7\u00e3o reguladora, normativa e, portanto, tamb\u00e9m corretiva, tanto na teoria como na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, tamb\u00e9m queremos afirmar que, pelo menos a partir dessa compreens\u00e3o filos\u00f3fica, a interculturalidade \u00e9 mal compreendida quando est\u00e1 associada a um relativismo cultural que n\u00e3o conhece freio e que leva, por isso, no final, a uma falsa &#8220;toler\u00e2ncia&#8221; ou indiferen\u00e7a. O contr\u00e1rio segue-se a concep\u00e7\u00e3o que apresentamos aqui, pois trata-se de uma interculturalidade que, justamente porque visa a ultimidade da plenitude humana, quer ser o caminho para a experi\u00eancia que nenhuma cultura em particular d\u00e1 a medida completa do significado final que o ser humano busca; e \u00e9 por isso que introduz no di\u00e1logo das culturas um crit\u00e9rio de julgamento e discernimento, ou seja, um crit\u00e9rio de corre\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Mas passemos agora ao terceiro ponto deste artigo para tratar de apresentar alguns momentos de interculturalidade em sua rela\u00e7\u00e3o expl\u00edcita com o processo teol\u00f3gico e\/ou religioso de incultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Interculturalidade na intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a incultura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta se\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, trata-se de apresentar algumas pistas que ilustram que a rela\u00e7\u00e3o entre interculturalidade e incultura\u00e7\u00e3o, dentro da qual se torna poss\u00edvel justamente a contribui\u00e7\u00e3o mencionada na nota introdut\u00f3ria, deve ser compreendida no sentido de uma articula\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre ambas as abordagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreender esta proposta de uma rela\u00e7\u00e3o mutuamente enriquecedora de intera\u00e7\u00e3o entre interculturalidade e incultura\u00e7\u00e3o, deve-se deixar claro, no entanto, que aqui se sup\u00f5e que a incultura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia mais ou menos sutil de expans\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o da casa do outro, mas um verdadeiro processo de &#8220;encarna\u00e7\u00e3o&#8221; e, portanto, de aprendizagem, de di\u00e1logo sincero e comunica\u00e7\u00e3o franca (IRARR\u00c1ZAVAL, 1994, 1998; SUESS, 1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que foi dito na nota introdut\u00f3ria que, para n\u00f3s, a incultura\u00e7\u00e3o faz parte do perfil da face luminosa da hist\u00f3ria do cristianismo. Com isso, n\u00e3o negamos, evidentemente, que na incultura\u00e7\u00e3o tenham sido seguidos \u00e0s vezes caminhos errados, ao confundir a encarna\u00e7\u00e3o da Boa Not\u00edcia de Jesus com a adapta\u00e7\u00e3o ou simples transplante de uma forma de incultura\u00e7\u00e3o ou um modelo de cristianismo j\u00e1 inculturado. E por isso Ignacio Ellacur\u00eda apontou, com um claro senso cr\u00edtico e com toda a raz\u00e3o, que:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8230; a f\u00e9 crist\u00e3 foi padronizada a partir as exig\u00eancias e as facilidades do mundo ocidental e da atual civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental \u2013 que \u00e9 como a chamam. Isso, para n\u00f3s, sup\u00f5e uma redu\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, em si mesma e em sua capacidade de incultura\u00e7\u00e3o. Quer dizer, a for\u00adma que o Cristia\u00adnismo tomou na Europa, ao longo de todos esses s\u00e9culos, os antigos e os modernos, na melhor das hip\u00f3teses \u00e9 uma das for\u00admas poss\u00edveis de viver o Cristianismo. No melhor dos casos, se o tivesse feito certo. Mas de nenhuma maneira \u00e9 a melhor forma poss\u00edvel de viver o Cristia\u00adnismo. (ELLACUR\u00cdA, 1990)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se, como assumimos neste artigo, compartilha-se a vis\u00e3o de que a incultura\u00e7\u00e3o busca caminhos de &#8220;comunh\u00e3o&#8221; dentro e com as alteridades culturais e religiosas da humanidade, ent\u00e3o parece leg\u00edtimo e bem fundamentado propor que a rela\u00e7\u00e3o entre interculturalidade e incultura\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa necessariamente ser uma rela\u00e7\u00e3o entre &#8220;paradigmas&#8221; opostos, muito pelo contr\u00e1rio: uma rela\u00e7\u00e3o entre horizontes de compreens\u00e3o e de vida que se potencializam reciprocamente. Em seguida, tentaremos ilustrar essa rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica listando sinteticamente alguns momentos que, em nossa opini\u00e3o, falam n\u00e3o s\u00f3 a favor da possibilidade, mas tamb\u00e9m da necessidade de cultivar essa rela\u00e7\u00e3o como recurso metodol\u00f3gico para aprofundar o significado e a finalidade de ambos os &#8220;paradigmas&#8221;. Assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro: como um processo integral de capacita\u00e7\u00e3o para abrir de dentro da pr\u00f3pria identidade (a casa com portas e janelas abertas) espa\u00e7os para encontros em rela\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o m\u00fatua e crescimento, a interculturalidade pode, de fato, apoiar o aprofundamento da exig\u00eancia da incultura\u00e7\u00e3o para entrar em di\u00e1logo com a diversidade cultural e religiosa da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo: a interculturalidade, e como consequ\u00eancia do momento anterior, poderia intensificar, nos esfor\u00e7os de incultura\u00e7\u00e3o, a atitude de respeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade e, em geral, em dire\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio da gra\u00e7a divina que se manifesta na riqueza do pluralismo cultural e religioso; uma atitude de respeito que seria mais do que toler\u00e2ncia, pois \u00e9 o respeito que nasce do amor e da gratid\u00e3o ao outro por <em>tamb\u00e9m<\/em> ser o portador do que santifica e salva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceiro: a interculturalidade promoveria, assim, pedagogias e catequese na incultura\u00e7\u00e3o orientadas pelo que Raimon Panikkar descreveu como a pr\u00e1tica da &#8220;m\u00edstica do di\u00e1logo&#8221; (PANIKKAR, 1993).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quarto: a interculturalidade, em consequ\u00eancia, seria tamb\u00e9m uma for\u00e7a que ajudaria a evitar na tarefa de incultura\u00e7\u00e3o qualquer tentativa ou qualquer tenta\u00e7\u00e3o de instrumentalizar a alteridade do outro, ou dito positivamente, promoveria na incultura\u00e7\u00e3o a din\u00e2mica do crescimento espiritual integral a partir da diversidade das culturas e, principalmente, a partir deseus \u00a0n\u00facleos religiosos. E como consequ\u00eancia disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quinto: a interculturalidade ajudaria a compreender o horizonte da incultura\u00e7\u00e3o, ao fazer sua teoria e pr\u00e1tica mais sens\u00edveis frente aos poss\u00edveis res\u00edduos euroc\u00eantricos que, devido ao impacto da incultura\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica da qual Ellacur\u00eda fala na passagem supracitada, ainda sobrevivem, dito metaforicamente, no por\u00e3o de certas pr\u00e1ticas e doutrinas. Ou seja, a interculturalidade poderia contribuir para a percep\u00e7\u00e3o de que uma incultura\u00e7\u00e3o que n\u00e3o rompa decisivamente e radicalmente, isto \u00e9, com todas as suas consequ\u00eancias e em todos os n\u00edveis, com o eurocentrismo continuar\u00e1 a reduzir a capacidade de di\u00e1logo e a comunh\u00e3o universal do cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sexto: refor\u00e7ando a supera\u00e7\u00e3o radical das sequelas da heran\u00e7a euroc\u00eantrica no desenvolvimento do cristianismo, a interculturalidade tamb\u00e9m seria um ponto de apoio para que a incultura\u00e7\u00e3o seja verdadeiramente um horizonte de caminhos que apontam a um cristianismo universal culturalmente polic\u00eantrico (METZ, 1986) e que, desta forma, abrem a uma nova consci\u00eancia da universalidade da mensagem de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas vamos parar com essa enumera\u00e7\u00e3o aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve-se notar que nos seis momentos mencionados falamos a partir do ponto de vista da abordagem da interculturalidade, quer dizer, destacamos a contribui\u00e7\u00e3o que a interculturalidade poderia fazer a um aprofundamento da incultura\u00e7\u00e3o como processo de di\u00e1logo e comunica\u00e7\u00e3o com o outro na transmiss\u00e3o da mensagem crist\u00e3. E isso poderia ser entendido como uma express\u00e3o de uma certa unilateralidade em uma rela\u00e7\u00e3o que chamamos org\u00e2nica e de intera\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Para esclarecer esse poss\u00edvel mal-entendido, nos permitimos notar que a prefer\u00eancia do ponto de vista intercultural se deve \u00e0 \u00eanfase desse verbete na <em>Theologica Latinoamericana Enciclop\u00e9dia digital<\/em>, que entendemos ser precisamente a interculturalidade. No entanto, conv\u00e9m insistir que, como dissemos, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de mutualidade, como deixa claro o t\u00edtulo desta se\u00e7\u00e3o &#8220;Interculturalidade na intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a incultura\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, para que n\u00e3o haja d\u00favida sobre isso, vamos mencionar aqui explicitamente pelo menos um momento representativo de reciprocidade nessa rela\u00e7\u00e3o; ou seja, um momento que exemplifica a contribui\u00e7\u00e3o que o horizonte do enfoque da incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 pode dar \u00e0 interculturalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, escolhemos um momento que nos parece de fundamental significa\u00e7\u00e3o tanto para a fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no sentido \u00faltimo da interculturalidade quanto para a elabora\u00e7\u00e3o de propostas pr\u00e1ticas para a reorganiza\u00e7\u00e3o da conviv\u00eancia social, pol\u00edtica e \u00e9tica em um mundo plural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Referimo-nos ao seguinte momento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como um processo experiencial, hist\u00f3rico e contextual de &#8220;encarna\u00e7\u00e3o&#8221; do Evangelho de Cristo (como a palavra verdadeira revelada por Deus!) nas muitas culturas da humanidade, a incultura\u00e7\u00e3o confronta cada cultura particular com uma experi\u00eancia de f\u00e9 em um Deus encarnado, mas transcendente, que, por sua vez, e talvez como nenhuma outra experi\u00eancia semelhante, mostra que o &#8220;fator religi\u00e3o&#8221; nas culturas n\u00e3o \u00e9 apenas mais um fator cultural, um fator como qualquer outro, mas precisamente aquela \u00e1rea de culturas na qual se fazem ouvir os anseios mais secretos de sentido verdadeiro e plenitude da alma humana. \u00c9 por isso que o ambiente em que as culturas podem tomar consci\u00eancia, a partir de sua pr\u00f3pria din\u00e2mica de desenvolvimento, que em seus caminhos de humaniza\u00e7\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m sinais \u2013 &#8220;tra\u00e7os&#8221;, na linguagem da filosofia da religi\u00e3o de Emmanuel Levinas\u00a0 (1974, 1980) \u2013 que atestam a presen\u00e7a ativa e questionadora de uma outra ordem (<em>metaf\u00edsica e\/ou escatol\u00f3gica<\/em>) da realidade e da verdade que descentra a pr\u00f3pria iman\u00eancia de toda ordem cultural humana. Dito de forma mais concreta, e indo diretamente ao que essa experi\u00eancia da incultura\u00e7\u00e3o segue para a interculturalidade: com a experi\u00eancia de que sua tarefa de &#8220;encarnar&#8221; a f\u00e9 crist\u00e3 nas diferentes culturas da humanidade implica dar conta de uma tens\u00e3o permanente e profunda entre o Evangelho e as culturas, e isso em todos os tempos e lugares, a incultura\u00e7\u00e3o representa para a interculturalidade, por assim dizer, uma esp\u00e9cie de espelho em que pode ver refletidos os esfor\u00e7os de articula\u00e7\u00e3o entre uma mensagem transcultural e ordens contextuais que podem muito bem ajudar a aprofundar sua pr\u00f3pria aproxima\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es decisivas no \u00e2mbito de um di\u00e1logo intercultural aberto e construtivo. Nos referimos a quest\u00f5es como a de alcan\u00e7ar uma rela\u00e7\u00e3o equilibrada entre a busca do universal e a afirma\u00e7\u00e3o do contextual ou local, em outras palavras, a quest\u00e3o de ajustar harmoniosamente o anseio de crescer na universalidade e o desejo n\u00e3o menos humano de se sentir como um ser que tem &#8220;ra\u00edzes&#8221; em seu pr\u00f3prio solo; ou a quest\u00e3o dos crit\u00e9rios para o discernimento do verdadeiro e justo em meio \u00e0 diversidade cultural e seu consequente pluralismo axiol\u00f3gico; ou, para mencionar mais um caso, a quest\u00e3o da fundamenta\u00e7\u00e3o da possibilidade, ali\u00e1s, da necessidade de um novo horizonte de universalidade \u00e0 luz do qual se pode compreender, no di\u00e1logo entre culturas, que a den\u00fancia de modelos opressivos de universalidade, sejam religiosos ou pol\u00edticos, n\u00e3o \u00e9 uma renuncia \u00e0 universidade como ideal humano de uma comunh\u00e3o bem-sucedida entre os povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No referencial limitado deste artigo, o esclarecimento pr\u00e9vio deve bastar como uma amostra representativa de que a abordagem da incultura\u00e7\u00e3o pode ajudar a interculturalidade no esclarecimento e aprofundamento da dimens\u00e3o normativa e cr\u00edtica da qual falamos no segundo ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, para concluir esta se\u00e7\u00e3o, ressaltemos ainda essa ideia: al\u00e9m da import\u00e2ncia que, como tentamos mostrar, tem a intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre as abordagens da interculturalidade e da incultura\u00e7\u00e3o para o seu respectivo melhor desenvolvimento, deve-se observar que nesse processo de troca m\u00fatua e apoio se est\u00e1 tra\u00e7ando a converg\u00eancia em uma experi\u00eancia decisiva para a <em>qualidade<\/em> de todo di\u00e1logo entre alteridades. A experi\u00eancia de que a abertura para o outro n\u00e3o \u00e9 motivada pelas pr\u00f3prias defici\u00eancias, ou seja, o desejo ego\u00edsta de suprir as pr\u00f3prias defici\u00eancias e, assin, ser mais &#8220;autossuficiente&#8221; em e para si mesmo, mas que o di\u00e1logo com o outro tem seu motivo e fundamento em sentir a necessidade de comunh\u00e3o, de compartilhar e se entregar reciprocamente como peregrinos da plenitude.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Observa\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intitulamos esta se\u00e7\u00e3o de &#8220;observa\u00e7\u00f5es finais&#8221; porque com ela fechamos este estudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, as considera\u00e7\u00f5es que compartilhamos aqui n\u00e3o se destinam a &#8220;finalizar&#8221; o tema, apresentando &#8220;conclus\u00f5es&#8221; ou resumindo a posi\u00e7\u00e3o indicada em uma lista de resultados acabados. Seu prop\u00f3sito \u00e9 exatamente o oposto, porque o que queremos propor com elas \u00e9 mais uma hip\u00f3tese para continuar o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hip\u00f3tese ou perspectiva de trabalho que propomos \u00e9 a seguinte: o tema &#8220;interculturalidade\/incultura\u00e7\u00e3o&#8221; est\u00e1 hoje possivelmente enfrentando o desafio de um novo come\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, gostar\u00edamos de convid\u00e1-los a pensar que tanto a abordagem da interculturalidade quanto a da incultura\u00e7\u00e3o \u2013 e, claro, tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre ambas que foi proposta nestas p\u00e1ginas \u2013 necessitam hoje se conscientizar de que, especialmente desde as \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, as culturas da humanidade e, com elas, a mem\u00f3ria cultural de seus membros passaram e passam por mudan\u00e7as de tamanha import\u00e2ncia que parecem questionar radicalmente a certeza hist\u00f3rica, ou seja, a verdadeira base de algumas das ideias fundamentais que serviram como pontos de partida evidentes na d\u00e9cada de 1970, quando ambas as abordagens desenvolveram de maneira expl\u00edcita e sistem\u00e1tica suas propostas te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhecemos que, diante dessa afirma\u00e7\u00e3o, pode-se argumentar que o mundo e a humanidade sempre estiveram em mudan\u00e7a; e que as pr\u00f3prias experi\u00eancias de interculturalidade e incultura\u00e7\u00e3o, mesmo antes de serem assim chamadas, s\u00e3o a prova de que a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 uma hist\u00f3ria de mudan\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o. Mas nossa afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o nega tal fato; o que parece \u00f3bvio para n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, reconhecendo essa hist\u00f3ria de mudan\u00e7as cont\u00ednuas, o que queremos considerar com nossa hip\u00f3tese de trabalho, entendida como tarefa para uma nova recontextualiza\u00e7\u00e3o das abordagens de interculturalidade e da incultura\u00e7\u00e3o, \u00e9 que as profundas mudan\u00e7as a que nos referimos aqui como um sinal espec\u00edfico de nosso tempo s\u00e3o mudan\u00e7as que implicam uma diferen\u00e7a substancial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as de outras \u00e9pocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que sentido? Pois no sentido de que as mudan\u00e7as atuais interrompem o fluxo da tradi\u00e7\u00e3o, a dial\u00e9tica da passagem entre o novo e o antigo. De maneira que, se nas mudan\u00e7as dos tempos anteriores parte do passado ainda flu\u00eda e as novidades eram vividas ladeadas pelo tradicional, agora parece que as mudan\u00e7as s\u00e3o mudan\u00e7as que conhecem apenas a din\u00e2mica de acelera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de novidades, ou seja, que mais do que um passado, nossas mudan\u00e7as se refeririam a si mesmas como uma &#8220;pen\u00faltima&#8221; novidade, \u00e0 espera de outra novidade mais recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ilustra\u00e7\u00e3o, um exemplo: em meados do s\u00e9culo XX, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Hans-Georg Gadamer defendeu em sua famosa e influente obra <em>Wahrheit und Methode (Verdade e m\u00e9todo<\/em>) a tese de que, apesar das mudan\u00e7as radicais vividas em seu tempo, a continuidade da transmiss\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o poderia ser dada como certa; pois tal foi o seu diagn\u00f3stico, mesmo em tempos de mudan\u00e7as impetuosas e revolucion\u00e1rias se preserva e transmite mais do antigo do que \u00e0 primeira vista \u00e9 pensado (GADAMER, 1960, p. 266). E naquela \u00e9poca essa aprecia\u00e7\u00e3o de Gadamer era considerada plaus\u00edvel. Mas hoje, 60 anos depois, j\u00e1 n\u00e3o podemos mais ter certeza de sua plausibilidade. Al\u00e9m disso, no sentido de nossa afirma\u00e7\u00e3o, as mudan\u00e7as do nosso tempo parecem refut\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos, portanto, diante da necessidade de parar e pensar no desafio das mudan\u00e7as que representam interrup\u00e7\u00f5es no fluxo da tradi\u00e7\u00e3o e que, desta forma, separam, sobretudo as novas gera\u00e7\u00f5es, da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, especialmente do que Paul Ric\u0153ur chamou de &#8220;m\u00e9moire de humanit\u00e9&#8221; (RIC\u0152UR, 1964, p. 84). E nos referimos explicitamente a essa mem\u00f3ria da humanidade no sentido em que Ric\u0153ur a entende por ser uma mem\u00f3ria com peso \u00e9tico e religioso, dois momentos essenciais para as abordagens da interculturalidade e da incultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplos concretos dessas mudan\u00e7as atuais que promovem a ruptura com a mem\u00f3ria da humanidade que tanto a interculturalidade quanto a incultura\u00e7\u00e3o precisam realizar suas tarefas, vamos mencionar aqui apenas duas que, em nossa opini\u00e3o, s\u00e3o indicadores inequ\u00edvocos desse corte. Falamos, por um lado, da mudan\u00e7a que impulsiona o movimento do chamado transumanismo e\/ou p\u00f3s-humanismo e, por outro, da mudan\u00e7a que est\u00e1 concretizada no novo &#8220;individualismo&#8221; que fomenta a &#8220;cultura global&#8221; do capitalismo tecnocultural. Algumas breves palavras sobre ambos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como programa que promete realizar o sonho do homem de ser um &#8220;Deus com pr\u00f3teses&#8221;, como definiu Sigmund Freud, n\u00e3o sem ironia, (FREUD, 1968, p. 22), o transumanismo tra\u00e7a um horizonte de realiza\u00e7\u00e3o mecanicista para o homem em que sua corporalidade, sua &#8220;carne&#8221;, n\u00e3o \u00e9 mais a &#8220;condi\u00e7\u00e3o&#8221; de onde e em que vive, mas sim um &#8220;fato&#8221; a ser melhorado atrav\u00e9s de reparos t\u00e9cnicos que o colocam \u00e0s portas da &#8220;imortalidade&#8221;. Quer dizer, se desenha no horizonte dessa mudan\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o de um &#8220;homem&#8221; que possa dizer &#8220;adeus&#8221; \u00e0s consequ\u00eancias &#8220;irritantes&#8221; de sua condi\u00e7\u00e3o finita, especialmente para duas delas: o sofrimento e a morte. A este respeito, foi justamente observado que transhumanismo ou p\u00f3s-humanismo \u00e9:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8230; um termo em que uma autoconsci\u00eancia vital e intelectual \u00e9 condensada, diferente de outras concep\u00e7\u00f5es do ser humano e, portanto, da realidade como um todo. A express\u00e3o\u00a0 <em>post <\/em>indica uma dist\u00e2ncia do humanismo, que designaria um est\u00e1gio j\u00e1 superado, obsoleto, da hist\u00f3ria da esp\u00e9cie humana. Come\u00e7a, portanto, um novo e distinto per\u00edodo no processo evolutivo que n\u00e3o \u00e9 considerado humanista, talvez nem mesmo humano. O humano e o humanista deixam de ser um selo de gl\u00f3ria e honra. Estamos come\u00e7ando a experimentar a <em>condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-humana<\/em>&#8230; e a partir da nova sensibilidade o passado humano pode ser considerado com o mesmo descontentamento com que os seres humanos contemplaram vermes ou r\u00e9pteis. (BUENO DE LA FUENTE, 2019, p. 27-28)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, como n\u00e3o se trata de entrar em um debate com o transumanismo, mas de apontar o desafio que implica, o que deve ser retido aqui \u00e9 que ele representa a constru\u00e7\u00e3o de um contexto de lidar com o &#8220;material humano&#8221; no qual, de fato, a transmiss\u00e3o da mem\u00f3ria da humanidade acumulada at\u00e9 agora pelo ser humano, como um &#8220;esp\u00edrito encarnado&#8221;, perde seu significado em suas lutas milenares pelo aperfei\u00e7oamento \u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ainda deveria ser considerado \u2013 como nota agravante do desafio que essa mudan\u00e7a de paradigma na concep\u00e7\u00e3o do ser humano coloca para a incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 e do humanismo da interculturalidade \u2013 que palavras originais fundadoras como &#8220;encarna\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;plenitude&#8221;, &#8220;gratuidade&#8221; dificilmente encontrariam condi\u00e7\u00f5es de resson\u00e2ncia no &#8220;novo homem&#8221; projetado pelo transumanismo. Bem, vamos perguntar retoricamente, como poderia a mensagem dessas palavras fundadoras ressoar em um &#8220;humano&#8221; que se cria pelo poder de suas pr\u00f3prias biotecnologias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Em rela\u00e7\u00e3o ao segundo exemplo, a mudan\u00e7a que vemos no novo &#8220;individualismo&#8221; que se expande com a cultura do capitalismo tecnocultural, destacamos, como no caso anterior, apenas o ponto que parece nuclear para entender o desafio atual de repensar o tema deste artigo: nas redes da cultura global atual marcada pelo capitalismo tecnocultural, se difundem formas e estilos de vida que apelam com insist\u00eancia \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de individualidades &#8220;\u00fanicas&#8221; e que nos convidam a adorar a &#8220;singularidade&#8221; de nossa pr\u00f3pria identidade individual (RECKWITZ, 2018). Mas, se olharmos com cuidado, podemos perceber que este culto do indiv\u00edduo singular \u00e9 acompanhado ao mesmo tempo, e n\u00e3o sem menos insist\u00eancia, por &#8220;ofertas&#8221; no mercado que fingem nos fazer supor que o caminho para alcan\u00e7ar a singularidade n\u00e3o \u00e9 o &#8220;caminho da interioridade&#8221;, mas o &#8220;caminho para o mercado&#8221;, quer dizer, o protagonismo como consumidor de &#8220;ofertas&#8221; que antecipam justamente os perfis individuais desejados. Se notar\u00e1 que a &#8220;ast\u00facia&#8221; de tal argumento \u00e9 fazer crer que as &#8220;ofertas&#8221; n\u00e3o oferecem qualquer produto, mas produtos que respondam antecipadamente a desejos singulares. Assim, no contexto dessa cultura global, projeta-se um novo tipo de &#8220;individualismo&#8221;, no sentido de que agora a comunica\u00e7\u00e3o com o outro indiv\u00edduo, considerado pela tradi\u00e7\u00e3o humanista como condi\u00e7\u00e3o do cultivo da verdadeira individualidade, passa para segundo plano, e seu lugar \u00e9 ocupado pelo acordo unilateral e silencioso com a diversificada oferta de meios que prometem satisfazer os desejos de realiza\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa cultura nos confrontaria, ent\u00e3o, com o desafio de um individualismo de &#8220;singularidades&#8221; cujo interesse e preocupa\u00e7\u00e3o central \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma imagem que torne vis\u00edvel sua &#8220;singularidade&#8221;. Um individualismo, portanto, carente de experi\u00eancias de de conviv\u00eancia com o outro e para o qual, por isso, a &#8220;comunica\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 entendida como um processo de exposi\u00e7\u00e3o de singularidades. \u00c9, em suma, um individualismo que leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de vidas humanas que obscurece que a ess\u00eancia da vida \u00e9 a coexist\u00eancia e que, com isso, representa um s\u00e9rio obst\u00e1culo \u00e0 resson\u00e2ncia, nas sociedades atuais, de outra das palavras fundadoras nas abordagens da interculturalidade e da incultura\u00e7\u00e3o: a palavra &#8220;comunidade&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que esta breve abordagem de duas mudan\u00e7as exemplares em nosso mundo atual sirva como uma explica\u00e7\u00e3o de nossa proposta de que hoje em dia as abordagens da interculturalidade e da incultura\u00e7\u00e3o precisam, como dissemos, arriscar um novo come\u00e7o; buscando m\u00e9todos e pr\u00e1ticas que resturem a continuidade no fluxo da &#8220;mem\u00f3ria da humanidade&#8221; e assim possibilitem novamente a resson\u00e2ncia das palavras fundadoras de sua mensagem libertadora no contexto adverso da nova cultura global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ra\u00fal Fornet-Betancourt. Universidade de Bremen <\/em>(Alemanha). Texto original Castellano. Enviado: 09\/03\/2021. Aprovado: 01\/04\/2021. Publicado: 24\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARRUPE, P. Carta documento de trabajo sobre la inculturaci\u00f3n. In: <em>Acta Romana Societatis Iesus<\/em> XVII, 1978. p.229-255.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BUENO DE LA FUENTE, Eloy. El post-humanismo: una revoluci\u00f3n antropol\u00f3gica. In: RODR\u00cdGUEZ, Enrique Somavilla (dir.). <em>El transhumanismo en la sociedad actual<\/em>. Madrid: Edi\u00adtorial Agustiniana, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ELLACUR\u00cdA, I. El desaf\u00edo cristiano de la teolog\u00eda de la liberaci\u00f3n. <em>Acontecimiento<\/em>, n.16, p. 91-101, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FABER, R. Der transreligi\u00f6se Diskurs. <em>Polylog<\/em>, n.9, p. 65-94, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORNET-BETANCOURT, R. <em>Filosof\u00eda Intercultural<\/em>. M\u00e9xico: Ediciones de la Universidad Pontificia de M\u00e9xico, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORNET-BETANCOURT, R. Lo intercultural: El problema de y con su definici\u00f3n. In: FUNDACI\u00d3N CIDOB (Ed.). <em>Encuentro Internacional sobre interculturalidad<\/em>. Barcelona: CIDOB Edicions, 2002. p. 157-160.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORNET-BETANCOURT, R.<em> Transformaci\u00f3n intercultural de la filosofia<\/em>. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouver, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORNET-BETANCOURT, R. (Ed.). <em>Concepciones del ser humano e Intercultu\u00adra\u00adlidad. Culturas de humanizaci\u00f3n y de reconocimiento<\/em>. Aachen: Wissenschafts\u00adverlag Mainz, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREUD, S.\u00a0 <em>El malestar en la cultura<\/em>. In: FREUD, S. <em>Obras Completas<\/em>, tomo 3. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GADAMER, Hans-Georg. <em>Wahrheit<\/em> <em>und Methode<\/em>. T\u00fcbingen, J. C. B. Mohr; Paul Siebeck, 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRARR\u00c1ZAVAL, D. <em>Cultura y fe latino-americanas<\/em>. Santiago de Chile: Ediciones Rehue, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRARR\u00c1ZAVAL, D.<em> Inculturaci\u00f3n. Amanecer eclesial en Am\u00e9rica Latina<\/em>. Lima: Centro de Estudios y Publicaciones, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KIMMERLE, H. <em>Interkulturelle Philosophie. Zur Einf\u00fchrung<\/em>. Hamburg: Junius Verlag, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KIRLOSKAR-STEIBACH, M.; DHARAMPAL-FRICK, G.; FRIELE, M. <em>Die Interkulturalit\u00e4tsdebate \u2013 <\/em>Leit- und Streitbegriffe \/ Intercultural Discourse \u2013 Key and Contested Concepts. Freiburg im Brisgau: Verlag Alber, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LEVINAS, Emmanuel. <em>En d\u00e9couvrant l\u00b4existence avec Husserl et Heidegger<\/em>. Paris: Librairie philosophique J. Vrin, 1974.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LEVINAS, Emmanuel. <em>Totalit\u00e9 et Infini. <\/em><em>Essai sur l\u00b4ext\u00e9riorit\u00e9<\/em>. La Haye\/Boston\/London: Martinus Nijhoff, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MALL, R. A. <em>Philosophie im Vergleich der Kulturen. Interkulturelle Philosophie \u2013 <\/em>eine neue Orientierung. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">METZ, Johann Baptist. Im Aufbruch zu einer kulturell-polyzentrischen Welt\u00adkirche. <em>Zeitschrift f\u00fcr Missionswissenschaft und Religionswissenschaft<\/em>, n.70, p,. 140-153, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PANIKKAR, R. <em>Sobre el di\u00e1logo inter\u00adcultural<\/em>. Salamanca: Ediciones San Esteban, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PANIKKAR, R. \u201cLa m\u00edstica del di\u00e1logo. <em>Jahrbuch f\u00fcr kontextuelle Theologien,<\/em> n.1, p. 19-37, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K. <em>H\u00f6rer des Wortes.<\/em> Zur Grundlegung einer Religionsphilosophie. Freiburg\/Basel\/Wien: Herder, 1963.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RECKWITZ, A. Die <em>Gesellschaft der Singularit\u00e4ten. <\/em>Zum Strukturwandel der Moderne. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RIC\u0152UR,\u00a0 P. <em>Histoire er v\u00e9rit\u00e9<\/em>. Paris: Seuil, 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCANNONE, J. C. <em>Nuevo punto de partida de la filosof\u00eda latinoamericana.<\/em> Buenos Aires: Editorial Guadalupe, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCANNONE, J. C. <em>Evangelizaci\u00f3n, cultura y teolog\u00eda.<\/em> Buenos Aires: Editorial Guadalupe, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SUESS, P.\u00a0Inkulturation. In: ELLACUR\u00cdA, I.; SOBRINO, J. (Eds.). <em>Mysterium Liberationis<\/em>, Tomo 2. Luzern: Edition Exodus, 1996. p. 1011-1059.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WIMMER, F. M. <em>Essays on Intercultural Philosophy<\/em>. Chennai: Satya Nilayam Publications, 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Nota introdut\u00f3ria 1 Esclarecimento m\u00ednimo do termo interculturalidade 2 Interculturalidade na intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a incultura\u00e7\u00e3o 3 Observa\u00e7\u00f5es finais Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas Nota introdut\u00f3ria O pano de fundo hist\u00f3rico e te\u00f3rico deste artigo \u00e9 a hist\u00f3ria de luz e sombra que o cristianismo escreveu com a real trajet\u00f3ria de um desenvolvimento que o fez presente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-2516","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2516","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2516"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2516\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2639,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2516\/revisions\/2639"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2516"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2516"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2516"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}