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{"id":2495,"date":"2021-12-24T14:15:30","date_gmt":"2021-12-24T17:15:30","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2495"},"modified":"2021-12-24T14:15:30","modified_gmt":"2021-12-24T17:15:30","slug":"evangelho-segundo-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2495","title":{"rendered":"Evangelho segundo Jo\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O texto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.1 Documentos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2 Unidade e coer\u00eancia composicional<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.3 Estrutura est\u00e1tica e din\u00e2mica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.4 Caracter\u00edsticas liter\u00e1rias<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.5 Car\u00e1ter sem\u00edtico e \u201cbilinguismo\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Intertextualidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 Antigo Testamento e juda\u00edsmo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 Novo Testamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 Escritos extracan\u00f4nicos\/extrab\u00edblicos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 \u201cAutor\u201d e leitorado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 Autor e leitor dentro do texto<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 Quem foi este autor?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.3 A g\u00eanese do texto<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 O Evangelho de Jo\u00e3o e seu mundo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.1 O Evangelho de Jo\u00e3o e a sociedade<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2 Juda\u00edsmo e helenismo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.3 A mundivid\u00eancia de Jo\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Teologia e m\u00edstica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.1 Presen\u00e7a de Deus no Cristo \u201cenaltecido\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.2 M\u00edstica e contempla\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.3 Evangelho \u201cespiritual\u201d e \u201cteo-l\u00f3gico\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.4 A cruz e a gl\u00f3ria<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.5 Escatologia, pneumatologia, eclesiologia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.6 Coordenadas \u00e9ticas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">1 O texto<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>1.1 Documentos<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">As testemunhas textuais mais antigas do Evangelho de Jo\u00e3o (Jo ou EvJo) s\u00e3o os papiros, alguns fragment\u00e1rios, outros bastante completos, do s\u00e9culo II (P52, P90, P66) ou III (P5, P28, P39, P45, P75, P80, P95), que confirmam o texto dos grandes c\u00f3dices do s\u00e9culo IV-V (BEUTLER, 2016, p. 33-34; BROWN, 2020, p. 155-157). No texto que virou padr\u00e3o, entraram alguns acr\u00e9scimos de certo peso: Jo 7,53\u20138,11 (per\u00edcope da ad\u00faltera), que aparece nos manuscritos somente a partir do s\u00e9culo V, nem sempre no lugar que ocupa atualmente, por\u00e9m considerado \u201ccan\u00f4nico\u201d (OMANSON, 2010, p. 183-184; BEUTLER, 2016, p. 214-215; BROWN, 2020, p. 592-595), e Jo 5,3b-4 (o anjo na piscina de Bezata), acr\u00e9scimo muito tardio, exclu\u00eddo da Nova Vulgata (OMANSON, 2010, p. 174-175).<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>1.2 Unidade e coer\u00eancia composicional<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado, o Evangelho de Jo\u00e3o j\u00e1 foi comparado \u00e0 \u201ct\u00fanica sem costura\u201d de Jesus (cf. Jo 19,23), mas desde alguns s\u00e9culos costuma-se apontar falhas na sequ\u00eancia e incoer\u00eancias no pensamento. Contudo, seu esp\u00edrito e vocabul\u00e1rio s\u00e3o muito homog\u00eaneos e a narrativa, bastante coerente, apesar de alguns ind\u00edcios de remanejamento (sobretudo em torno dos cap\u00edtulos 5\u20137, 15\u201317 e 21) (cf. ZUMSTEIN, 2014, p. 27-28). Esses \u201cdefeitos\u201d n\u00e3o comprometem o desdobramento tem\u00e1tico, que \u00e9 circular e reflexivo. O escrito n\u00e3o pretende ser propriamente narrativo, mas usa elementos narrativos como suporte para uma vis\u00e3o teol\u00f3gica. O estilo mostra sobriedade quase lit\u00fargica, mas tamb\u00e9m grande expressividade. Temas se repetem, com leves, por\u00e9m significativas, modifica\u00e7\u00f5es e numerosas refer\u00eancias diagonais interligam as diversas partes. H\u00e1 certo n\u00famero de autocoment\u00e1rios (p. ex. 3,24; 4,2 etc.), que n\u00e3o rompem a unidade liter\u00e1ria, mas antes ajudam a compreens\u00e3o. A recente cr\u00edtica liter\u00e1ria, admitindo que o texto \u201ccresceu\u201d, tende a considerar irrelevante a distin\u00e7\u00e3o entre o autor original e eventuais redatores, a n\u00e3o ser para o cap. 21, acrescentado depois do final Jo 20,30-31 e figurando como ep\u00edlogo editorial (\u2192 \u00a7 3.3).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>1.3 Estrutura est\u00e1tica e din\u00e2mica<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>estrutura est\u00e1tica<\/em> do evangelho apresenta-se como um d\u00edptico com dois pain\u00e9is, articulados entre si, inclu\u00eddos entre um <em>pr\u00f3logo<\/em> (1,1-18) e um <em>ep\u00edlogo<\/em> (cap. 21) (BEUTLER, 2016, p. 16-17; BROWN, 2020, p. 158-159; ZUMSTEIN, 2014, p. 21-23). O <em>primeiro painel<\/em>, Jo 1,19\u201312,50, usa como suporte narrativo umas poucas, mas amplamente elaboradas, cenas da obra de Jesus, principalmente os grandes milagres que Jo\u00e3o chama de \u201csinais\u201d (cf. 2,11; 5,54; 6,14; 11,47; 12,37); da\u00ed ser designado como \u201cLivro dos Sinais\u201d. Nessa parte, h\u00e1 diversas idas e voltas de Jesus entre a Galileia e a Judeia (enquanto o esquema dos evangelhos sin\u00f3pticos, prescindindo do evangelho da inf\u00e2ncia, conhece uma \u00fanica subida da Galileia a Jerusal\u00e9m; \u2192 \u00a7 2.2). Descreve-se a miss\u00e3o (obra e palavras) de Jesus ao mundo, enquanto \u201cainda n\u00e3o chegou a sua hora\u201d (2,4; 7,30; 8,20). O <em>segundo painel,<\/em> 13,1\u201320,31, chamado pelos estudiosos \u201co Livro da Gl\u00f3ria\u201d, apresenta Jesus na sua \u201chora de passar deste mundo para o Pai\u201d para receber a \u201cgl\u00f3ria\u201d (13,1; 17,1.5). Os cap\u00edtulos 13\u201317 encenam a despedida no cen\u00e1culo, quando Jesus revela seu mist\u00e9rio para os seus. Nos cap\u00edtulos 18\u201320, Jo\u00e3o traz o relato da paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o, semelhante ao dos evangelhos sin\u00f3pticos, por\u00e9m, com inser\u00e7\u00e3o de algumas cenas pr\u00f3prias, muito significativas (os interrogat\u00f3rios de An\u00e1s e Pilatos, a elaborada cena da morte, a apari\u00e7\u00e3o a Maria Madalena, a miss\u00e3o final dos disc\u00edpulos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>estrutura din\u00e2mica<\/em> mostra uma dial\u00e9tica entre as duas partes maiores, a primeira preparando a segunda, e a segunda revelando o sentido da primeira. Assim, os sinais e obras de Jesus (Jo 1\u201312) recebem seu significado \u00faltimo da cruz, que, com a ressurrei\u00e7\u00e3o, constitui o \u201cenaltecimento\u201d (exalta\u00e7\u00e3o) de Jesus na \u201cgl\u00f3ria\u201d (Jo 13\u201320). As conclus\u00f5es de ambas as partes maiores (resp. 12,37-50 e 20,30-31) remetem, a modo de <em>inclusio<\/em>, ao Pr\u00f3logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa din\u00e2mica sugere um processo de f\u00e9, quase uma catequese com inicia\u00e7\u00e3o e aprofundamento, uma mistagogia. Na primeira parte, percebe-se a catequese batismal (Nicodemos, a samaritana, o paral\u00edtico, o cego de nascen\u00e7a, L\u00e1zaro). A segunda parte anuncia o aprofundamento e atualiza\u00e7\u00e3o da <em>memoria Christi<\/em> pelo Esp\u00edrito-Par\u00e1clito (16,13). No fim, o leitor-ouvinte \u00e9 incentivado a continuar firme na f\u00e9, mesmo sem ter visto (20,29.30), mas confiando nas testemunhas aut\u00f3pticas (19,35; 21,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos comparar essa estrutura a um templo. O p\u00f3rtico \u00e9 o Pr\u00f3logo (1,1-18). No espa\u00e7o geral (1,19\u201312,50), vemos se suceder, como os quadros na nave das igrejas barrocas, os \u201csinais\u201d e obras de Jesus representando o dom de Deus como crescente apelo \u00e0 decis\u00e3o da f\u00e9. A seguir, nos \u201cdiscursos de despedida\u201d (cap. 13\u201317), entramos no espa\u00e7o onde \u00e9 revelado o sentido (presente e futuro) do gesto supremo de Jesus: \u00e9 como o presbit\u00e9rio, no fundo do qual refulge a cruz gloriosa (18\u201320). O cap. 21 \u00e9 o anexo \u201ceclesi\u00e1stico\u201d.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>1,1-18<\/strong><\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"215\"><strong>1\u00ba painel: 1,19\u201312,50<\/strong><\/p>\n<p><strong>prepara\u00e7\u00e3o da hora de Jesus<\/strong><\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"206\"><strong>2\u00ba painel: cap. 13\u201320<\/strong><\/p>\n<p><strong>a hora de Jesus<\/strong><\/td>\n<td><strong>21<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Pr\u00f3logo<\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"215\">obra e sinais de Jesus perante o mundo: \u201cainda n\u00e3o a hora\u201d<\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"206\">\u00a0\u201cchegou a hora\u201d: o \u201cenaltecimento\u201d na cruz e na gl\u00f3ria<\/td>\n<td>Ep\u00edlogo<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>a Palavra do Pai ao mundo<\/td>\n<td width=\"102\">1,19\u20134,54: in\u00edcio dos sinais; apresenta\u00e7\u00e3o do dom<\/td>\n<td width=\"113\">5\u201312: conflito em torno da obra de Jesus e op\u00e7\u00e3o de f\u00e9<\/td>\n<td width=\"104\">13\u201317: despedida dos \u201cseus\u201d<\/td>\n<td width=\"102\">18\u201320: a obra consumada<\/td>\n<td>o Ressuscitado e a comunidade<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"131\"><\/td>\n<td width=\"102\"><\/td>\n<td width=\"113\"><\/td>\n<td width=\"104\"><\/td>\n<td width=\"102\"><\/td>\n<td width=\"156\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira parte, a linha cronol\u00f3gica \u00e9 marcada pelas festas judaicas (1,19\u20132,12: os prim\u00f3rdios, culminando numa festa de n\u00fapcias de grande for\u00e7a simb\u00f3lica; 2,13\u20134,54: Jerusal\u00e9m, Samaria, Galileia: em torno da primeira P\u00e1scoa; 5,1-47: uma festa em Jerusal\u00e9m; 6,1-71: a P\u00e1scoa na Galileia; 7\u201312: Jerusal\u00e9m: de Tabern\u00e1culos at\u00e9 a P\u00e1scoa final, anunciada em 11,55\u201312,36). As transi\u00e7\u00f5es (2,1; 2,12; 3,22-24; 4,1-3; 5,1-2; 6,1; 7,1; 10,40-42; 11,54) impedem a divis\u00e3o em partes estanques.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o para a segunda parte, o tr\u00edduo pascal, em 13,1 constitui o <em>piv\u00f4 central <\/em>do evangelho. Preparada pelo tema da \u201chora\u201d em 12,23.27 e pela reflex\u00e3o-dobradi\u00e7a de 12,37-50, marca a passagem de Jesus deste mundo para o Pai e une a primeira parte \u00e0 segunda.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>1.4 Caracter\u00edsticas liter\u00e1rias<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>G\u00eanero narrativo-dram\u00e1tico<\/em><\/strong>. O EvJo est\u00e1 <em>entre a narrativa e o drama<\/em>: alguns epis\u00f3dios s\u00e3o como pequenas encena\u00e7\u00f5es (cap. 4, 9, 11, 13-14), e a narrativa inteira produz um cl\u00edmax dram\u00e1tico. Encontramos di\u00e1logos cheios de vida, indica\u00e7\u00f5es de tempo e lugar, mudan\u00e7as de cena. Esse <em>car\u00e1ter dramat\u00fargico<\/em> pro\u00edbe considerar o EvJo como um mero registro factual. Os detalhes descritivos, mostrando boa informa\u00e7\u00e3o (sobretudo em rela\u00e7\u00e3o a Jerusal\u00e9m), s\u00e3o ricos em refer\u00eancias simb\u00f3licas e comunit\u00e1rias (p. ex., o \u201csinal\u201d inicial em Can\u00e1 pode ter sido real\u00e7ado por existir ali uma comunidade joanina).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consist\u00eancia dos diversos personagens confirma a unidade dram\u00e1tica do evangelho: Pedro, o impulsivo; Andr\u00e9, o singelo; Filipe, o s\u00f3brio; Tom\u00e9, o realista; Nicodemos, o s\u00e1bio; Caif\u00e1s, o c\u00ednico; Pilatos, o c\u00e9ptico; Natanael, o \u201cisraelita\u201d. Tamb\u00e9m as personagens femininas s\u00e3o bem caracterizadas: a samaritana, Maria de Bet\u00e2nia, Maria Madalena. A \u201cm\u00e3e de Jesus\u201d fica an\u00f4nima e parece \u201cemoldurar\u201d a obra de Jesus (2,1ss; 19,25ss). O Disc\u00edpulo Amado (em cena a partir de 13,23) \u00e9 ao mesmo tempo a testemunha e o fiel por excel\u00eancia (\u2192 \u00a7 3.2) (cf. MARCHADOUR, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Di\u00e1logos e discursos de revela\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Os di\u00e1logos e mon\u00f3logos do ator principal, Jesus, correspondem ao estilo dramat\u00fargico. Mesmo quando dirigidas a advers\u00e1rios, as palavras de Jesus servem para conduzir a plateia em seu processo de f\u00e9. Seus discursos (sobretudo os discursos parab\u00f3licos iniciados por \u201cEu sou\u201d: 6,35; 8,12; 9.5; 10,7.9.11.14; 11,25; 14,6; 15,1.5) s\u00e3o t\u00e3o profundos que s\u00f3 no fim os disc\u00edpulos confirmam: \u201cagora falas claramente\u201d (16,29). Esse procedimento liter\u00e1rio demonstra analogia com o g\u00eanero da revela\u00e7\u00e3o sapiencial.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> O esquema de descida e volta de Jesus lembra o tema da palavra eficaz que sai de Deus e a ele volta (cf. Is 55,8-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u201cdiscursos de revela\u00e7\u00e3o\u201d abrem progressivamente o significado da obra de Jesus. N\u00e3o ensinam doutrinas esot\u00e9ricas, mas o sentido profundo de sua palavra e obra, como sendo o que ele aprendeu do Pai (12,50). A miss\u00e3o de Jesus como Palavra reveladora de Deus (1,18) se consuma em sua obra principal: dar a pr\u00f3pria vida por amor, revelando-se Filho do Pai que \u00e9 Amor (3,16).<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Autocoment\u00e1rios<\/em><\/strong>. O Quarto Evangelho \u00e9 permeado de coment\u00e1rios do autor junto ao texto, em <em>off<\/em> (VAN BELLE, 1985). Alguns s\u00e3o indica\u00e7\u00f5es de cen\u00e1rio para acompanhar o movimento dram\u00e1tico (p.ex. 5,9; 9,12). Outros s\u00e3o alus\u00f5es \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica geral, comprovando que este evangelho foi escrito para pessoas que j\u00e1 conhecem a prega\u00e7\u00e3o geral acerca de Jesus (3,24). Alguns evocam o conhecimento peculiar de Jesus (2,24-25; 6,6), revelam o sentido escondido de suas a\u00e7\u00f5es ou a mensagem escondida do texto (2,21; 12,16), explicam express\u00f5es simb\u00f3licas ou de duplo sentido inacess\u00edveis para \u201cos de fora\u201d (7,37-39; 8,27; 10,6) etc. Destarte, mostram como o texto contribui para a mistagogia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Simbolismo e met\u00e1fora.<\/em><\/strong> Jo\u00e3o usa com frequ\u00eancia met\u00e1foras, s\u00edmbolos e figuras, a tal ponto que, na hora da despedida, os disc\u00edpulos observam que \u201cagora\u201d Jesus tira o v\u00e9u estendido sobre sua autorrevela\u00e7\u00e3o em linguagem simb\u00f3lica (16,25.29). As pr\u00f3prias narrativas se tornam s\u00edmbolos daquilo que Jesus em pessoa vem trazer ou \u00e9, pois Jesus \u00e9 aquilo que seus sinais e gestos simbolizam: o vinho novo, a \u00e1gua da vida, o p\u00e3o da vida, a luz do mundo, a ressurrei\u00e7\u00e3o\u2026 O dom \u00e9 o pr\u00f3prio doador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entenda-se bem o <em>simbolismo dual (bin\u00e1rio) <\/em>do Quarto Evangelho: em cima<em>\/<\/em>embaixo, carne<em>\/<\/em>esp\u00edrito, luz<em>\/<\/em>trevas, verdade<em>\/<\/em>mentira, vida<em>\/<\/em>morte (ZUMSTEIN, 2104, p. 33). Mediante s\u00edmbolos arquet\u00edpicos, o autor insiste na necessidade de se optar entre dois \u00e2mbitos ou atitudes. Linguagem semelhante j\u00e1 aparece nos Profetas e nos Salmos. N\u00e3o \u00e9 um dualismo c\u00f3smico (explica\u00e7\u00e3o do universo por dois princ\u00edpios, o do bem e o do mal, como na mitologia persa e na gnose), mas provoca\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica para a op\u00e7\u00e3o pr\u00f3 ou contra Jesus (e o Pai nele), um dualismo \u00e9tico, compar\u00e1vel a Dt 30,19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Polissemia e ironia.<\/em><\/strong> Caracter\u00edstica do texto joanino \u00e9 a polissemia intencional (BROWN, 2020, p. 154; ZUMSTEIN, 2104, p. 33). Assim, o duplo sentido em Jo 3,3-5 (onde o adv\u00e9rbio <em>\u00e1n\u014dthen<\/em> na boca de Jesus significa \u201cdo alto\u201d, mas no ouvido de Nicodemos, \u201cde novo\u201d) introduz uma catequese sobre o nascimento desde o Esp\u00edrito, significado pela \u00e1gua do batismo. Assim tamb\u00e9m o duplo sentido da \u00e1gua em Jo 4,10, do p\u00e3o em 6,32-35, do ver e da cegueira em 9,37.39-41 etc. Muito peculiar \u00e9 a polissemia complexa de <em>hypso\u014d<\/em>\/<em>dox\u00e1z\u014d,<\/em> em diversas passagens interligadas, que exprimem o \u201cenaltecimento\u201d de Jesus (tema inspirado por Is 52,13), fazendo da eleva\u00e7\u00e3o\/exalta\u00e7\u00e3o na cruz a refer\u00eancia simb\u00f3lica e, ao mesmo tempo, a presen\u00e7a realizada do amor dele e do Pai, a sua gl\u00f3ria (Jo 3, 14-21; 12,32-33; 13,31-32 etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Causando mal-entendido, a polissemia revela a dist\u00e2ncia entre a compreens\u00e3o dos que s\u00e3o \u201cdo mundo\u201d e a dos iniciados no mist\u00e9rio de Cristo, entre o \u00e2mbito \u201cde baixo\u201d e o \u201cdo alto\u201d (3,31-36; cf. 19,8-11). Sem a ades\u00e3o a Cristo na f\u00e9 e o dom do Esp\u00edrito (7,37-39), n\u00e3o se sai da compreens\u00e3o err\u00f4nea segundo a \u201ccarne\u201d oposta a \u201cesp\u00edrito e vida\u201d (6,63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalidade semelhante tem a \u201cironia joanina\u201d, ora branda, ora incisiva: o di\u00e1logo conscientizador (Jo 3,10; 4,10-15 etc.), a provoca\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica (9,25-27), a cr\u00edtica dura e direta (5,44; 8,28), a alus\u00e3o obl\u00edqua (os \u201cjudeus\u201d em 18,36). \u00c0s vezes, a ironia est\u00e1 nos pr\u00f3prios fatos narrados: a atitude do mestre-sala de Can\u00e1 (2,9-10), a samaritana que abandona o balde que foi sua raz\u00e3o de ir at\u00e9 o po\u00e7o (4,28), os \u201cjudeus\u201d exigindo um sinal logo depois do milagre dos p\u00e3es (6,30), os visitantes entendendo erroneamente por que Maria se levanta (11,30). Jo\u00e3o sublinha assim a dist\u00e2ncia entre a compreens\u00e3o mundana e a divina (cf. Is 55,8-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio termo \u201cmundo\u201d \u00e9 poliss\u00eamico: pode significar a humanidade como \u00e2mbito da obra criadora e salvadora de Deus (3,16!), mas tamb\u00e9m, sobretudo na express\u00e3o \u201ceste mundo\u201d (8,23; 18,36!), a parcela incr\u00e9dula da humanidade, manipulada pelo poder das trevas, o \u201cpr\u00edncipe deste mundo\u201d (12,31; 14,30; 16,11). Ao escrever que \u201cDeus amou o mundo\u201d (Jo 3,16), Jo\u00e3o evoca o amor divino que, no dom do Filho Unig\u00eanito, livra o mundo daquele \u201cpr\u00edncipe\u201d (\u2192 \u00a7 5.3). Tanto Jesus como seus disc\u00edpulos est\u00e3o no mundo (no sentido hist\u00f3rico) sem ser do mundo (n\u00e3o pertencem \u00e0quele \u201cpr\u00edncipe\u201d) (cf. 17,11.14.16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O simbolismo e a linguagem s\u00f3bria, por\u00e9m densa, se op\u00f5em \u00e0 compreens\u00e3o imediata, seja ing\u00eanua, seja hostil. O significado que os de fora n\u00e3o entendem abre-se para os que est\u00e3o na mistagogia. Esses, pois, n\u00e3o precisam procurar o \u201cconhecimento\u201d fora da comunidade da f\u00e9 (no juda\u00edsmo ou nas especula\u00e7\u00f5es helenistas). Ao mesmo tempo, os de fora, ainda que sejam \u201cmestres em Israel\u201d, como Nicodemos (3,10), s\u00e3o convidados a entrar e conhecer (\u201cMestre, onde moras?\u201d \u2013 \u201cVinde e vede\u201d, Jo 1,39).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>1.5 Car\u00e1ter sem\u00edtico e \u201cbilinguismo\u201d\u00a0<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se outrora a cr\u00edtica liter\u00e1ria chegou a ver em Jo\u00e3o um evangelho helenista, hoje se real\u00e7a sua proximidade da linguagem e do pensamento sem\u00edticos. Jo\u00e3o conserva alguns termos em l\u00edngua aramaica e os traduz para o grego: <em>rabbi<\/em> (1,38), <em>messias<\/em> (1,41), <em>Kefas<\/em> (1,42), <em>rabb\u00fbni<\/em> (20,16), <em>am\u0113n<\/em> etc. Isso corresponde ao leitorado composto de judeu-crist\u00e3os e heleno-crist\u00e3os. O \u201cbilinguismo\u201d de Jo\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m mental: escreve no grego comum (<em>koin\u00e9<\/em>), mas sente e pensa de modo sem\u00edtico-b\u00edblico, como transparece na sua gram\u00e1tica (<em>h\u00edna<\/em> no sentido de \u201cque\u201d ou \u201cde modo que\u201d; antecipa\u00e7\u00e3o do assunto principal da frase como <em>casus pendens <\/em>etc.) (SCHNACKENBURG, 1980, p.\u00a0 133-140).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s das express\u00f5es e imagens est\u00e1 a tradi\u00e7\u00e3o veterotestament\u00e1ria, lembrada ora conforme o texto hebraico, ora conforme o texto grego da Septuaginta, ora conforme o <em>targum<\/em> (par\u00e1frase aramaica). Assim, o termo <em>logos <\/em>(\u201cpalavra\u201d ou \u201cverbo\u201d) n\u00e3o remete tanto ao Logos da filosofia grega (a raz\u00e3o), quanto \u00e0 Palavra criadora e sapiencial de Deus. O esquema \u201cdo alto<em>\/<\/em>de baixo\u201d combina com o \u201cenaltecimento\u201d do \u201cFilho do Homem\u201d (Is 52,13; Dn 7,13-14; Jo 3,14; 8,28; 12,32.34). Por outro lado, certos termos da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica se tornaram irrelevantes ou amb\u00edguos. Jo\u00e3o evita o termo \u201calian\u00e7a\u201d, mas exprime essa realidade pela terminologia de amor e unidade (OLIVEIRA, 1966; CANCIAN, 1978). N\u00e3o fala em \u201cReino de Deus\u201d (fora do di\u00e1logo com o judeu Nicodemos, Jo 3,3.5), mas usa a express\u00e3o \u201cvida eterna\u201d, que abre um registro bem mais universal.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">2 Intertextualidade<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 Antigo Testamento e juda\u00edsmo<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia ao AT est\u00e1 sempre presente no Quarto Evangelho, mas n\u00e3o reproduz, necessariamente, a letra do texto hebraico, pois na sinagoga dos \u201chebreus\u201d o texto hebraico vinha acompanhado da glosa aramaica (<em>targum<\/em>), e na sinagoga helenista lia-se o texto grego (Septuaginta).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia \u00e0 \u201cEscritura\u201d (<em>graph\u0113<\/em>, termo preferencial em Jo\u00e3o) sugere o cumprimento no sentido de plenitude: a \u201cEscritura\u201d ganha um <em>sentido pleno<\/em> como analogia, imagem ou s\u00edmbolo daquilo que aparece em Cristo (tipologia) etc. As cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o eventualmente adaptadas ao novo sentido (p.ex.: Jo 2,17 muda o verbo de Sl 68,10 LXX do passado para o futuro, para significar a futura morte de Jesus).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o parece aludir tamb\u00e9m aos livros <em>deuterocan\u00f4nicos<\/em> (sobretudo Sir\u00e1cida e Sabedoria), recusados pelo juda\u00edsmo formativo e rab\u00ednico, mas conhecidos entre os crist\u00e3os, muitos dos quais eram judeus de l\u00edngua grega. Chega a ser ir\u00f4nico: em Jo 5,18; 10,33, os fariseus acusam Jesus de se tornar igual a Deus por chamar Deus de Pai, mas \u00e9 exatamente isso que se diz do justo perseguido em Sb 2,13.16.18. Se os fariseus quisessem ler os livros deuterocan\u00f4nicos, compreenderiam!<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 Novo Testamento<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Os evangelhos sin\u00f3pticos. <\/em><\/strong>Embora o EvJo siga o esquema geral dos evangelhos sin\u00f3pticos, sintetizado em At 10,37-43, ele estende a atividade p\u00fablica sobre tr\u00eas anos em vez de um s\u00f3 (\u2192 \u00a7 1.3), reduzindo, por\u00e9m, o n\u00famero de epis\u00f3dios. Muitos textos de Jo\u00e3o n\u00e3o t\u00eam paralelo nos sin\u00f3pticos. Entretanto, nas chamadas \u201cper\u00edcopes sin\u00f3pticas\u201d de Jo\u00e3o (2,13-21; 4,45-54; 6,1-21.60-71; 12,1-19) e na narrativa da Paix\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o (Jo 18\u201320), Jo\u00e3o reinterpreta a narrativa dos sin\u00f3pticos na linha de sua vis\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n<table width=\"581\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"179\"><strong>At 10,37-43<\/strong><\/td>\n<td width=\"79\"><strong>Mt<\/strong><\/td>\n<td width=\"79\"><strong>Mc<\/strong><\/td>\n<td width=\"79\"><strong>Lc<\/strong><\/td>\n<td width=\"165\"><strong>Jo<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"179\">\u201dap\u00f3s o batismo por Jo\u00e3o\u201d<\/td>\n<td width=\"79\">3,1\u20134,11<\/td>\n<td width=\"79\">1,2-13<\/td>\n<td width=\"79\">3,1\u20134,13<\/td>\n<td width=\"165\">1,19\u20132,12<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"179\">\u201dDeus o ungiu com Esp\u00edrito Santo e poder&#8230; andou fazendo o bem e curando todos os possessos do dem\u00f4nio&#8230; tudo o que fez na regi\u00e3o dos judeus\u201d<\/td>\n<td width=\"79\">4,12\u201320,34<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<td width=\"79\">1,14\u201310,52<\/td>\n<td width=\"79\">4,14\u201319,27<\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<td rowspan=\"2\" width=\"165\">2,13\u20136,71:<\/p>\n<p>2,13 P\u00e1scoa em <u>Jerusal\u00e9m<\/u>;<\/p>\n<p>4,1 passagem pela Samaria<\/p>\n<p>5,1 festa em <u>Jerusal\u00e9m<\/u>;<\/p>\n<p>6,4 P\u00e1scoa<em>\/<\/em>Galileia<\/p>\n<p>7,1\u201312,50:<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"3\" width=\"236\">atividade na Galileia e subida \u00fanica a Jerusal\u00e9m<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"179\">\u201ce em Jerusal\u00e9m\u201d<\/td>\n<td width=\"79\">21, 1\u201325,50<\/td>\n<td width=\"79\">11,1\u201313,37<\/td>\n<td width=\"79\">19,28\u201321,38<\/td>\n<td rowspan=\"2\" width=\"165\">3\u00aa subida a<u> Jerusal\u00e9m<\/u><\/p>\n<p>7,1 Tabern\u00e1culos;<\/p>\n<p>10,22 Dedica\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>11,55 P\u00e1scoa<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"3\" width=\"236\">ensino em Jerusal\u00e9m<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>P\u00e1scoa final<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"179\">\u201cpregaram-no na cruz\u201d<\/td>\n<td width=\"79\">26,1\u201327,56<\/td>\n<td width=\"79\">14,1\u201315,47<\/td>\n<td width=\"79\">22,1\u201323,56<\/td>\n<td width=\"165\">13,1\u201319,42<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"179\">\u201cDeus o ressuscitou no 3\u00ba dia\u201d<\/td>\n<td width=\"79\">28,1-20<\/td>\n<td width=\"79\">16,1-8<\/td>\n<td width=\"79\">24,1-53<\/td>\n<td width=\"165\">20,1-31<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>As Cartas de Jo\u00e3o.<\/em><\/strong><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a> Prescindindo da quest\u00e3o da autoria, conv\u00e9m ler o EvJo e as Cartas como mutuamente esclarecedores (\u2192TLA, <em>Cartas cat\u00f3licas<\/em>). As Cartas (1Jo, 2Jo, 3Jo) mostram muita semelhan\u00e7a tem\u00e1tica com os discursos de Jesus no EvJo. 1Jo 1,1-4 mostra parentesco com o pr\u00f3logo do evangelho. 1Jo 3,11-18 corresponde ao tema do amor fraterno em Jo 13,34-35; 15,10-17. Por\u00e9m, as Cartas n\u00e3o mais se referem \u00e0 discuss\u00e3o com a sinagoga judaica, mas refletem a situa\u00e7\u00e3o do fim do primeiro s\u00e9culo, quando se imp\u00f4s a reta compreens\u00e3o em contraste com o gnosticismo incipiente; os advers\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o mais \u201cos judeus\u201d, mas os dissidentes da pr\u00f3pria comunidade (1Jo 2,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O Apocalipse<\/em><\/strong>. O EvJo foi redigido, provavelmente, no mesmo ambiente das sete igrejas de Ap 2\u20133, em torno de \u00c9feso, na \u00c1sia Menor (Turquia). Por ser o Apocalipse de estilo muito diferente, tanto mais chamam aten\u00e7\u00e3o algumas <em>semelhan\u00e7as exclusivas <\/em>com o EvJo, por exemplo, a designa\u00e7\u00e3o de Jesus como \u201cCordeiro\u201d (Ap 5,6 etc.) e \u201cPalavra de Deus\u201d (19,13). Tamb\u00e9m: o tema do mart\u00edrio, o Esp\u00edrito que fala \u00e0s Igrejas, papel que o EvJo atribui ao Par\u00e1clito etc. As n\u00fapcias messi\u00e2nicas (Ap 21\u201322) lembram Jo 2,1-10, e a luta contra o Drag\u00e3o<em>\/<\/em>Satan\u00e1s (Ap 12), o desmascaramento do Diabo em Jo 8,39-47 e as alus\u00f5es a ele em diversos outros textos (Jo 12,31; 16,11 etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a entre o EvJo e o Apocalipse est\u00e1 mais na linguagem e no g\u00eanero liter\u00e1rio do que no mundo mental. Nem mesmo a diferen\u00e7a quanto \u00e0 escatologia \u00e9 t\u00e3o grande assim: o Apocalipse usa imagens futur\u00edsticas para falar do ju\u00edzo e da vit\u00f3ria de Deus, do Cordeiro e dos fi\u00e9is, aos quais assegura que n\u00e3o conhecer\u00e3o \u201ca segunda morte\u201d, mas o efeito ret\u00f3rico concerne ao presente, exatamente como a escatologia presente do EvJo, que significa que a op\u00e7\u00e3o por Jesus na f\u00e9 \u00e9 equivalente ao Ju\u00edzo e introduz na \u201cvida eterna\u201d (\u201cpassaram da morte para a vida\u201d, Jo 5,24). S\u00e3o duas maneiras de exortar os crentes a ficarem firmes na f\u00e9 e a \u201cseguir o Cordeiro aonde ele for\u201d (Ap 14,4; cf. Jo 12,26; 13,36-37) (PRIGENT, 2020, p. 44-49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Outros escritos neotestament\u00e1rios.<\/em><\/strong> A prega\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos era muito diversificada. Paulo n\u00e3o se deixava impor por outros o modo de pregar o evangelho e de organizar igrejas (Gl 1,11-12). Essa relativa autonomia dos primeiros pregadores e de suas comunidades torna mais significativas ainda as semelhan\u00e7as entre os diversos escritos do NT: a messianidade de Jesus, seu senhorio, sua miss\u00e3o divina, seu pastoreio, seu ato consagrador, o valor salv\u00edfico de sua morte, a salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, a presen\u00e7a da vida nova, a primazia do mandamento do amor, a fraternidade, a comunh\u00e3o. Jo\u00e3o aborda sob outro \u00e2ngulo o mesmo mist\u00e9rio; n\u00e3o \u00e9 apenas um texto para ser lido em si, mas tamb\u00e9m uma chave para outros escritos, inclusive anteriores, revelando o potencial de sentido que eles cont\u00eam. Assim, o fato de o EvJo acentuar a escatologia presente nos ensina a perceber melhor a dimens\u00e3o presente (e pragm\u00e1tica) da escatologia nos outros escritos do NT, inclusive no Apocalipse.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 Escritos extracan\u00f4nicos\/extrab\u00edblicos<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, sem d\u00favida, certa proximidade ambiental do EvJo com os incipientes movimentos gn\u00f3sticos (final do s\u00e9c. I), mas os textos gn\u00f3sticos s\u00e3o ulteriores e n\u00e3o podem ser considerados como fonte; antes, s\u00e3o influenciados pelo EvJo (\u00e9 o caso de Heracl\u00e3o, os valentinianos e o Evangelho da Verdade, descoberto em Nag Hammadi). Quanto aos textos de Qumr\u00e3, h\u00e1 alguma analogia quanto ao \u201cdualismo\u201d (luz\/trevas, verdade\/mentira) e quanto \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o ao Templo de Jerusal\u00e9m, mas n\u00e3o o suficiente para fundamentar um contato org\u00e2nico com Qumr\u00e3 e\/ou os ess\u00eanios.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">3 \u201cAutor\u201d e leitorado<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 Autor e leitor dentro do texto<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor impl\u00edcito do EvJo, geralmente, \u201csubmerge\u201d no texto, identificando-se com a comunidade no meio da qual ele faz seu relato, como transparece no plural comunit\u00e1rio usado no Pr\u00f3logo (v. 14.16) e em algumas palavras de Jesus (3,11; 4,22) e dos disc\u00edpulos (1,41.45; 6,68-69!). Ele fala de dentro da comunidade, como numa homilia \u2013 uma das bases do Quarto Evangelho. O autor se apresenta como articulador do testemunho e da confiss\u00e3o de f\u00e9 da comunidade (20,30-31). O autor transparece tamb\u00e9m nos autocoment\u00e1rios (\u2192\u00a7 1.4). Em 19,35, aparece a testemunha ocular: ser\u00e1 que o autor se identifica com esta figura, ou torna-se apenas seu porta-voz? (No ep\u00edlogo, em 21,24, o editor d\u00e1 a entender que essa testemunha proporcionou o escrito.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O leitor \u00e9 tratado como receptor de informa\u00e7\u00e3o, mas, sobretudo, como destinat\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o na f\u00e9.\u00a0 Na medida em que o texto \u00e9 uma narrativa, o leitor fica conhecendo a obra de Jesus. Pelos autocoment\u00e1rios, pelo simbolismo, pela t\u00e9cnica do mal-entendido e da ironia, o leitor-ouvinte \u00e9 tratado como disc\u00edpulo no processo da f\u00e9 (\u2192 \u00a7 1.4). A rela\u00e7\u00e3o autor-destinat\u00e1rio \u00e9 intensa, e o estilo de drama envolve o leitor. Podemos ver no Jesus-rabi de diversas passagens uma proje\u00e7\u00e3o desse intento did\u00e1tico do texto; o tratamento \u201cfilhinhos\u201d (<em>tekn\u00eda<\/em>) com que Jesus se dirige aos disc\u00edpulos (13,31) \u00e9 usado com frequ\u00eancia na 1\u00aa Carta.<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>3.2<\/em> <em>Quem foi esse autor?<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 21,24, o editor do texto parece identificar aquele que escreveu (ou mandou escrever) o EvJo como sendo o Disc\u00edpulo Amado (13,23; 18,15; 19,26-27; 20,2-4.8; 21,7.20-24), a testemunha an\u00f4nima ao p\u00e9 da cruz em 19,35.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Aceita essa identifica\u00e7\u00e3o, sugerida pelo pr\u00f3prio texto, pergunta-se: ser\u00e1 o Disc\u00edpulo Amado uma pessoa real ou uma figura simb\u00f3lica, representando o disc\u00edpulo perfeito e testemunha fiel? Uma coisa n\u00e3o exclui a outra: o Disc\u00edpulo Amado pode ser <em>hist\u00f3rico <\/em>e<em> simb\u00f3lico <\/em>ao mesmo tempo. Na figura simb\u00f3lica pode se reconhecer o evangelizador fiel que conduziu a(s) comunidade(s) no caminho da f\u00e9. N\u00e3o obliteremos, por\u00e9m, a individualidade do autor: o EvJo apresenta o testemunho de Jesus e sua obra com uma profundidade teol\u00f3gica que ultrapassa a express\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradicionalmente, este Disc\u00edpulo Amado, \u201cautor\u201d do EvJo, \u00e9 identificado com o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o, filho de Zebedeu, mas essa atribui\u00e7\u00e3o pode ser causada pelo desejo de respaldar a canonicidade pela atribui\u00e7\u00e3o a um ap\u00f3stolo, embora\u00a0 o car\u00e1ter apost\u00f3lico n\u00e3o consista em ter sido escrito por um dos Doze (ou Paulo), mas em expressar e transmitir a f\u00e9 dos ap\u00f3stolos.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> A tradicional atribui\u00e7\u00e3o do EvJo ao filho de Zebedeu sup\u00f5e que esse seja o Disc\u00edpulo Amado, e essa identidade (como tamb\u00e9m a de seu irm\u00e3o Tiago) teria sido escondida pelo anonimato, inclusive em 1,35, em que ele seria um dos dois n\u00e3o nomeados (o segundo sendo Andr\u00e9, nomeado em 1,40). Os estudos cr\u00edticos, por\u00e9m, n\u00e3o conseguem tornar convincente as teorias nesse sentido.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> \u00c9 melhor considerar o EvJo como um escrito an\u00f4nimo. O Disc\u00edpulo Amado \u00e9 mencionado s\u00f3 a partir da \u201chora\u201d da paix\u00e3o e morte de Jesus (13,23), para ser a testemunha fidedigna da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o (19,35; 20,9; cf. 21,24). No n\u00edvel do leitor, seu anonimato permite ver nele o representante de todos os verdadeiros disc\u00edpulos diante da cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus (KONINGS, 2016, p. 59).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>3.3 A g\u00eanese do texto<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos supor um per\u00edodo de prega\u00e7\u00e3o do \u201cmestre joanino\u201d, culminando na cole\u00e7\u00e3o de suas palavras (por via oral e escrita) nas comunidades que dele se originaram, primeiro na Judeia, na Samaria e na Galileia, depois na S\u00edria e at\u00e9 na regi\u00e3o de \u00c9feso (BROWN, 2020, p. 19-28; BEUTLER, p. 33). Provavelmente, entre 50 e 80 dC, pode ter havido uma primeira reda\u00e7\u00e3o substancial, unificada em forma de evangelho consecutivo, com todas as caracter\u00edsticas joaninas: as narrativas de sinais, os discursos simb\u00f3licos ou de revela\u00e7\u00e3o, o primeiro discurso de despedida (Jo 13-14), a Paix\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo fim do s\u00e9culo, depois da destrui\u00e7\u00e3o do Templo e da separa\u00e7\u00e3o radical do juda\u00edsmo (com a expuls\u00e3o dos crist\u00e3os da sinagoga, aludida em 9,22 e 12,42), essa primeira reda\u00e7\u00e3o foi continuada, pelo evangelista ou por algu\u00e9m muito sintonizado com ele, em alguns trechos (como Jo 3,31-36; 6,51-58; 12,44a-50, cap. 15-17). J\u00e1 no cap. 21 temos ind\u00edcios claros de edi\u00e7\u00e3o final por outra m\u00e3o (21,24-25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar de modo cir\u00fargico a primeira reda\u00e7\u00e3o e as continua\u00e7\u00f5es, embora percept\u00edveis. Melhor \u00e9 considerar o atual EvJo como um evangelho \u201cruminado\u201d (KONINGS, 2016, p. 17). Os mesmos temas s\u00e3o retomados em v\u00e1rios n\u00edveis de reflex\u00e3o e em v\u00e1rios horizontes: o da vida de Jesus, o da primeira prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o das comunidades do fim do s\u00e9culo I. \u00c9 um exemplo daquilo que a tradi\u00e7\u00e3o e a prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sempre dever\u00e3o ser: uma cont\u00ednua releitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para instruir as comunidades, Jo\u00e3o usou, de modo ecl\u00e9tico, narrativas e palavras de Jesus veiculadas em diversos c\u00edrculos crist\u00e3os. Procedendo por amostras (como sugere 20,30-31), Jo\u00e3o espelha a vida da comunidade. \u00c9 \u201co livro da vida da comunidade\u201d: articula a vida da comunidade com aquilo que \u00e9 anunciado, oralmente ou por escrito, a respeito de Jesus, cuja palavra \u00e9 fonte de vida (6,68). Por\u00e9m, o texto n\u00e3o retoma toda a tradi\u00e7\u00e3o. O EvJo faz uma releitura seletiva, mas criativa, de alguns elementos da tradi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u2013 oral, escrita ou mesmo p\u00f3s-sin\u00f3ptica (DAUER, 1992). Ora, <em>a m\u00e3o de Jo\u00e3o \u00e9 m\u00e1gica: transforma tudo que toca<\/em>. Seu procedimento na hora de redigir o texto modifica a letra e o teor das tradi\u00e7\u00f5es que utiliza. Por isso, o sentido que Jo\u00e3o quer dar a seu texto n\u00e3o se encontra em primeiro lugar pela compara\u00e7\u00e3o com suas fontes, embora \u00fatil, mas pela leitura atenta do texto em si.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">4 O Evangelho de Jo\u00e3o e seu mundo\u00a0<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>4.1 O Evangelho de Jo\u00e3o e a sociedade<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Ricos e pobres<\/em><\/strong>. O EvJo p\u00f5e em cena antes pessoas espec\u00edficas do que o povo em geral. Poucas vezes aparece a multid\u00e3o popular. Com frequ\u00eancia aparecem as lideran\u00e7as, como advers\u00e1rios de Jesus, a tal ponto que a express\u00e3o \u201cos judeus\u201d, muitas vezes (n\u00e3o sempre), aparece num sentido hostil. Quanto \u00e0 estratifica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, em vez de pobres e camponeses explorados, encontramos Jo\u00e3o Batista, reconhecido entre os judeus (5,35); uma fam\u00edlia oferecendo ampla festa de bodas em Can\u00e1 (2,1-10); Nicodemos, fariseu e chefe dos judeus (3,1); um funcion\u00e1rio real em Cafarnaum, que se converte com \u201ctoda a sua casa\u201d (4,46-54); a fam\u00edlia de L\u00e1zaro, recebendo visita de judeus influentes de Jerusal\u00e9m e oferecendo um banquete a Jesus (11,32; 12,3); e o Disc\u00edpulo Amado, familiarizado com a casa do sumo sacerdote (18,15). No fim, aparecem Maria de Magdala (19,25; 20,1), Jos\u00e9 de Arimateia e Nicodemos (19,38-39), aparentemente pessoas abastadas. O EvJo parece refletir a sociedade urbana judaica (em parte helenizada) no fim do I s\u00e9culo dC (\u2192 \u00a7 5.2), que a sinagoga procurava trazer de volta para seu meio (cf. Jo 12,42-43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pobreza e o uso do dinheiro n\u00e3o parecem ser a preocupa\u00e7\u00e3o primordial de Jo\u00e3o. Os \u00fanicos textos que mencionam o dinheiro s\u00e3o retomados, tais quais, da tradi\u00e7\u00e3o sin\u00f3ptica (6,7 e 12,5) ou representam o estere\u00f3tipo de Judas ladr\u00e3o, dominado pelo diabo (12,6; 13,2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, o EvJo \u00e9 fortemente <em>comunit\u00e1rio. <\/em>Assim como a sinagoga, a comunidade joanina garantia prote\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia social para os pobres. O EvJo menciona os pobres apenas de passagem (12,8), mas insiste no servi\u00e7o m\u00fatuo (13,14) e no amor fraterno comunit\u00e1rio (13,34-35), que inclui o cuidado dos pobres (a esmola \u00e9 pressuposta em Jo 12,5-6; 13,29); e na 1\u00aa Carta, o dever de partilhar os bens com os necessitados \u00e9 bem expl\u00edcito (1Jo 3,17; 4,20). Contudo, o conflito mais determinante n\u00e3o \u00e9 pobreza <em>vs<\/em>. riqueza, mas amor <em>vs<\/em>. \u00f3dio (15,1-17 e 15,18-6,4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tempo da reda\u00e7\u00e3o final, as comunidades joaninas (tamb\u00e9m na Di\u00e1spora) estavam sofrendo a exclus\u00e3o por parte do juda\u00edsmo dominante. Se, para os pobres, a excomunh\u00e3o significava mendic\u00e2ncia, para os ricos significava perda de prest\u00edgio e rela\u00e7\u00f5es sociais (\u201chonra\u201d, cf. Jo 12,43). Significava tamb\u00e9m perda do reconhecimento como \u201creligi\u00e3o l\u00edcita\u201d, como era o juda\u00edsmo no Imp\u00e9rio Romano e, da\u00ed, a exposi\u00e7\u00e3o a arbitrariedades e persegui\u00e7\u00e3o. Contra esse pano de fundo, compreende-se melhor a hist\u00f3ria do cego de nascen\u00e7a (Jo 9,22!), a timidez de Nicodemos (3,2; cf. 7,50) e a desist\u00eancia dos chefes que creram em Jesus (12,42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o n\u00e3o esconde sua simpatia para com os desprezados: assim, no cap. 7, menciona os policiais do Templo, malditos como<em> \u2018am ha-\u00e1re\u1e63<\/em> (pov\u00e3o ignorante) por terem testemunhado a favor de Jesus. O cego de nascen\u00e7a \u00e9 um exclu\u00eddo que testemunha que Jesus \u00e9 profeta (cap. 9). A samaritana \u00e9 claramente alheia ao padr\u00e3o judaico: mulher e samaritana (4,9), por\u00e9m testemunha de Jesus. Em 12,19, os fariseus mostram desprezo pelas multid\u00f5es que prestigiam Jesus. A todas essas pessoas \u00e9 oferecido o dom de Deus em Jesus e a acolhida em sua comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Pol\u00edtica.<\/em><\/strong> O EvJo <em>rejeita o messianismo nacionalista<\/em> (6,14-15; 18,36). A declara\u00e7\u00e3o: \u201cmeu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo\u201d liga o \u201creino\u201d \u00e0 verdade de Deus (18,36-37). O t\u00edtulo \u201crei dos judeus\u201d (19,19-22) \u00e9 tratado com ironia joanina (\u2192\u00a7 1.4). Decerto, o EvJo pretende mostrar que Jesus \u00e9 o Messias (Jo 20,31), mas acopla a esse termo o t\u00edtulo de \u201co Filho de Deus\u201d no sentido espec\u00edfico (20,31; cf. ainda 1,49, \u201crei de Israel\u201d; 11,27; 18,36 + 19,7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o n\u00e3o mostra interesse especial pelo Imp\u00e9rio Romano, mas o processo de Jesus perante Pilatos (18,28\u201319,22) esbanja tanta ironia que se deve concluir, no m\u00ednimo, que Jo\u00e3o n\u00e3o busca a simpatia dos romanos. Ele v\u00ea Pilatos como um fantoche nas m\u00e3os dos \u201cjudeus\u201d ou como um c\u00ednico; sua declara\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia de Jesus nada significa (18,38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A mulher<\/em><\/strong>. Enquanto no sistema social e religioso do juda\u00edsmo ocupavam um lugar secund\u00e1rio, no EvJo as mulheres desempenham um papel not\u00e1vel. Jesus realiza seu primeiro sinal depois de uma sugest\u00e3o de sua m\u00e3e (2,4-5). A primeira pessoa a colher da boca de Jesus sua identifica\u00e7\u00e3o como Messias \u00e9 a samaritana (4,25-26), comunicando-o logo a seus conterr\u00e2neos. Em 11,27 \u00e9 not\u00e1vel a profiss\u00e3o de f\u00e9 de Marta, e \u00e9 comovido pela interven\u00e7\u00e3o de Maria que Jesus reergue L\u00e1zaro (11,32). A mesma Maria de Bet\u00e2nia oferece a Jesus a un\u00e7\u00e3o que nos outros evangelhos \u00e9 atribu\u00edda a uma mulher an\u00f4nima (12,1-8). A primeira a visitar o t\u00famulo e a ver o ressuscitado \u00e9 Maria Madalena, que depois \u00e9 enviada a anunciar aos \u201cirm\u00e3os\u201d a not\u00edcia da ressurrei\u00e7\u00e3o (20,10-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gerado na fronteira do judeu-helenismo e do mundo grego, o EvJo oferece amplo espa\u00e7o \u00e0 mulher, desde a m\u00e3e de Jesus at\u00e9 Maria Madalena. Neste evangelho, a mulher se sente em casa. Ainda que seja improv\u00e1vel identificar o Disc\u00edpulo Amado como mulher, a leitura feminista observou que \u00e9 uma \u201cpersonagem aberta\u201d, permitindo \u00e0s leitoras \u201centrar\u201d nessa figura.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>4.2 Juda\u00edsmo e helenismo<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O juda\u00edsmo<\/em><\/strong>. O EvJo alterna a periferia (Galileia e Samaria: 20% do texto) com o centro do juda\u00edsmo, Jerusal\u00e9m (80%). Mas o significado de Jerusal\u00e9m \u00e9 diferente do que se v\u00ea em Lucas, que v\u00ea em Jerusal\u00e9m o ponto de partida da miss\u00e3o crist\u00e3. Em Jo\u00e3o, a antecipa\u00e7\u00e3o da purifica\u00e7\u00e3o do Templo e da expuls\u00e3o dos animais de sacrif\u00edcio \u201cneutraliza\u201d o Lugar Santo desde o in\u00edcio (2,13-21): n\u00e3o \u00e9 mais o lugar da adora\u00e7\u00e3o (4,21-23). Jesus n\u00e3o sobe a Jerusal\u00e9m para ter sucesso ali (7,1-10), e os mestres que l\u00e1 se encontram s\u00e3o \u201cdeste mundo\u201d (8,23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do ex\u00edlio babil\u00f4nico haviam surgido, em Jud\u00e1 e Israel, sinagogas em torno da leitura da Lei. No interior do pa\u00eds e em Jerusal\u00e9m havia grande n\u00famero de sinagogas, que n\u00e3o ofuscavam o Templo, mas, antes, alastravam sua influ\u00eancia. Jesus e os ap\u00f3stolos se criaram no ambiente das sinagogas, lideradas por mestres da linha farisaica. As comunidades joaninas mantiveram uma heran\u00e7a disso, de onde o car\u00e1ter homil\u00e9tico de muitos trechos. Tanto mais traum\u00e1tica deve ter sido, no fim do s\u00e9culo I dC, a exclus\u00e3o da sinagoga (12,42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro tra\u00e7o do juda\u00edsmo \u00e9 o discipulado (cf. Qumr\u00e3 e os gr\u00eamios farisaicos). O tratamento de \u201cmestre\u201d para Jesus e de \u201cfilh(inh)os\u201d para os disc\u00edpulos (13,33; cf. 1Jo 2,1 etc.) vem da tradi\u00e7\u00e3o sapiencial (cf. Sr 2,1 etc.), mas, no EvJo, o conceito de disc\u00edpulo recebe um car\u00e1ter diferente: Jesus \u00e9 mestre e servo ao mesmo tempo, e seus disc\u00edpulos, amigos (13,16; 15,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frequentemente citada para localizar o Quarto Evangelho no seu contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico \u00e9 <em>a expuls\u00e3o dos crist\u00e3os da sinagoga<\/em> (9,22; 12,42; 16,2). No n\u00edvel do Jesus hist\u00f3rico, esse tema \u00e9 anacr\u00f4nico, pois a expuls\u00e3o formal se situa no fim do s\u00e9culo I, e durante a vida de Jesus, o grupo de seus seguidores era insignificante.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Jo\u00e3o alude a essa expuls\u00e3o para mostrar que o ser crist\u00e3o implica ruptura com a perten\u00e7a sociorreligiosa dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pr\u00f3logo estabelece um paralelismo entre \u201co mundo [que] n\u00e3o o conheceu\u201d e \u201cos seus [que] n\u00e3o o receberam\u201d (1,10-11). Estas frases n\u00e3o s\u00e3o absolutas, pois Jo\u00e3o continua: \u201cA quantos, por\u00e9m, o acolheram&#8230;\u201d (1,13), incluindo bom n\u00famero de judeus.<br \/>\nJo\u00e3o n\u00e3o censura os judeus no sentido \u00e9tnico; nas Cartas, certos crist\u00e3os s\u00e3o criticados com o mesmo rigor (cf. 1Jo 2,19; 4,3; 4,8; 2Jo 9; 3Jo 9-10). Quando usa o termo \u201cos judeus\u201d em sentido hostil, Jo\u00e3o n\u00e3o visa aos judeus em geral, mas aos que rejeitam Jesus, grupos de peso pol\u00edtico e social, com os quais Jesus e os seus est\u00e3o rompidos, tanto em Jerusal\u00e9m (Jo 1,19 etc.), como na Galileia (Jo 6,41.52), tanto no ano 30 quanto nos anos 80.\u00a0 Precisamos ler o evangelho que mais censura \u201cos judeus\u201d a partir da heran\u00e7a de Israel, ou seja, do ponto de vista de um judeu que lamenta a cegueira de seus l\u00edderes (Jo 9,40-41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O culto judaico<\/em><\/strong>. Alguns comentadores veem no EvJo um evangelho \u201csacerdotal\u201d. Algumas frases usam vocabul\u00e1rio sacerdotal (17,17-19), e o Disc\u00edpulo Amado parece conhecer o ambiente sacerdotal em Jerusal\u00e9m.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Nos caps. 5 e 7\u201312, Jo\u00e3o demonstra interesse cr\u00edtico pelo Templo, onde se fazem os grandes pronunciamentos de Jesus, mas em nenhum lugar transparece coniv\u00eancia com o sistema do Templo. Por isso, o culto do Templo (\u201cbois e ovelhas\u201d, 2,15) \u00e9 posto em xeque desde o in\u00edcio.\u00a0 Ali\u00e1s, Jo\u00e3o se distancia das institui\u00e7\u00f5es judaicas em geral: fala em \u201cfesta <em>dos judeus<\/em>\u201d (2,13; 5,1; 6,4; 7,2; 11,55), \u201c<em>vossa<\/em> Lei\u201d (8,17; 10,34; cf. \u201cLei <em>deles<\/em>\u201d, 15,25). Onde a linguagem de Jo\u00e3o parece sugerir um novo culto (4,22-24), esse se situa na linha do culto \u201cespiritual\u201d ou \u201cracional\u201d das cartas do NT (Rm 12,1; Hb 13,15; 1Pd 2,5). E se Jo 17,19 (como Hb 9,11-28) v\u00ea na pr\u00e1tica de Jesus, fiel at\u00e9 a morte, uma \u201cconsagra\u00e7\u00e3o\u201d, isso deve ser entendido como realidade nova, que torna sup\u00e9rfluo o culto antigo. <em>Jo\u00e3o substitui os grandes s\u00edmbolos do sistema religioso de Israel pela pessoa de Jesus Cristo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto Tiago e Mateus ensinam que os crist\u00e3os devem guardar e interpretar a Tor\u00e1 com maior perfei\u00e7\u00e3o que o juda\u00edsmo, em Paulo e Jo\u00e3o o la\u00e7o umbilical com o juda\u00edsmo parece radicalmente cortado. Jesus fala aos escribas e fariseus em termos de \u201cvossa Lei\u201d etc. Sobretudo, Jo\u00e3o relata com ironia a desist\u00eancia dos \u201cjudeus\u201d da expectativa messi\u00e2nica, quando dizem: \u201cN\u00e3o temos outro rei sen\u00e3o C\u00e9sar\u201d (19,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O movimento de Jo\u00e3o Batista<\/em><\/strong>. O EvJo releva e relativiza a figura de Jo\u00e3o Batista. J\u00e1 no Pr\u00f3logo, explica que Jo\u00e3o n\u00e3o era a \u201cluz\u201d, mas <em>deu testemunho<\/em> da \u201cluz\u201d (1,6-8) e de sua preexist\u00eancia (1,15). Depois do Pr\u00f3logo, a narrativa inicia por um elaborado testemunho do Batista, que anuncia Jesus como Cordeiro e Filho de Deus (1,19-34) e encaminha seus disc\u00edpulos para Jesus (1,35-36). O Batista e os disc\u00edpulos voltam \u00e0 cena para outro testemunho em 3,22-30. Em 5,33-35, Jesus mesmo aponta para Jo\u00e3o Batista como l\u00e2mpada passageira anunciando a luz verdadeira. Em 10,40-42, o povo aprova o testemunho de Jo\u00e3o Batista. Esse ritmo decrescente das refer\u00eancias ilustra a palavra do Batista em 3,30: \u201cEle deve crescer, eu, decrescer\u201d. Segundo At 18,24\u201319,7 existiam, ainda na segunda metade do s\u00e9culo I, disc\u00edpulos de Jo\u00e3o Batista em \u00c9feso, presumido local da reda\u00e7\u00e3o final do EvJo. Talvez o evangelista tenha buscado atrair esses \u201cjoanitas\u201d para a comunidade crist\u00e3? Quando a comunidade do Batista desapareceu, seu lugar foi assumido pela comunidade de Jesus. O EvJo apresenta os disc\u00edpulos do Batista se transferindo para Jesus (1,35-36); seu movimento diminui diante de Jesus (3,30), pois \u00e9 provis\u00f3rio (5,33-35), mas testemunha a favor de Jesus (10,40-42). Jo\u00e3o parece erguer o Batista em testemunha-mor de Jesus diante dos \u201cjudeus\u201d, que talvez tenham invocado o Batista contra Jesus, por ser anterior e n\u00e3o ter desacatado a autoridade deles (KONINGS, 2017, p. 59-60).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Os samaritanos<\/em><\/strong>. A antiga oposi\u00e7\u00e3o entre judeus e samaritanos (1Rs 12) recrudescera depois da destrui\u00e7\u00e3o do templo samaritano do Garizim pelo rei judeu Jo\u00e3o Hircano em 128 aC (cf. Jo 4,19). Contudo, ambos povos s\u00e3o \u201cfilhos de Israel\u201d. Os samaritanos celebram a P\u00e1scoa, memorial do \u00caxodo, e leem os Livros de Mois\u00e9s, prot\u00f3tipo do profeta que deve vir ao mundo (cf. Jo 4,25). Possuem at\u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da Tor\u00e1 em grego. O EvJo aproxima Jesus dos samaritanos (4,1-42), a ponto de ser insultado como samaritano (8,48). Jo 11,52 parece aludir \u00e0 promessa messi\u00e2nica da nova uni\u00e3o entre judeus e samaritanos (cf. tamb\u00e9m 10,16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O helenismo.<\/em><\/strong> Como se situa o EvJo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 onipresente cultura helenista? Ser\u00e1 o sil\u00eancio um ind\u00edcio de sua posi\u00e7\u00e3o? N\u00e3o encontramos nenhuma refer\u00eancia aos s\u00e1bios gregos<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, nenhuma admira\u00e7\u00e3o pela \u201cfilantropia\u201d dos magistrados romanos. At\u00e9 h\u00e1 pouco, por causa do Pr\u00f3logo, admirava-se o Evangelho de Jo\u00e3o como evangelho filos\u00f3fico. Por\u00e9m, o termo <em>logos<\/em>, no Pr\u00f3logo, n\u00e3o aponta para a filosofia grega, mas sim, para a \u201cPalavra\u201d de Deus na cria\u00e7\u00e3o. O EvJo n\u00e3o se dirige a um grupo ecl\u00e9tico, e os termos simb\u00f3licos que usa s\u00e3o acess\u00edveis a qualquer pessoa que tenha sensibilidade. Seus pressupostos culturais s\u00e3o: familiaridade com os grandes temas da Escritura e sensibilidade pelos s\u00edmbolos da humanidade (luz e trevas, verdade e mentira, vida e morte&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O EvJo n\u00e3o tematiza a rela\u00e7\u00e3o com outras religi\u00f5es.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> A abertura para os samaritanos vale na medida em que aceitam a palavra de Jesus (4,41-42). A \u201creligi\u00e3o em Esp\u00edrito e verdade\u201d, que Jo 4,23 op\u00f5e tanto ao juda\u00edsmo quanto ao samaritanismo, \u00e9 a que bebe da fonte que \u00e9 Jesus; nada tem a ver com uma religi\u00e3o mundial e\/ou n\u00e3o institucional. Todavia, a medita\u00e7\u00e3o joanina em torno de Jesus-Messias nos prepara para o di\u00e1logo com as religi\u00f5es e mundivid\u00eancias em geral pela <em>profundidade<\/em>. Liga tudo, n\u00e3o pela superf\u00edcie, mas pela raiz. N\u00e3o fala da filantropia \u201cem geral\u201d, mas do amor fraterno concreto, como testemunho para o mundo todo (Jo 13,34-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sabedoria<\/em><\/strong> <strong><em>e conhecimento.<\/em><\/strong> Na linguagem b\u00edblica, cultura se chama \u201csabedoria\u201d. Os escribas \u201cperscrutam as Escrituras\u201d (5,39) e desprezam os simples que \u201cn\u00e3o conhecem a Lei\u201d (7,49). O Jesus joanino, por\u00e9m, mostra que o conhecimento da Lei para nada serve se n\u00e3o acreditam nele (3,10; 5,39 etc.). Em compensa\u00e7\u00e3o, os crist\u00e3os \u201cconhecem\u201d Deus em Jesus. Os que acreditam em Jesus chegam ao verdadeiro conhecimento salutar, sem se entregarem a algum sistema judaico ou helenista. O \u201cconhecer\u201d proposto pelo Quarto Evangelho distingue-se da sabedoria dos escribas e nada tem de elitista. O pr\u00f3prio Jesus passa por algu\u00e9m que n\u00e3o teve instru\u00e7\u00e3o (Jo 7,15). Na cole\u00e7\u00e3o de ditos de Jesus conhecida como Q (<em>Logienquelle<\/em>), encontra-se uma senten\u00e7a que recebeu o nome de \u201c<em>l\u00f3gion<\/em> joanino\u201d (Mt 11,25-27 = Lc 10,21-22): Jesus agradece a Deus, seu Pai, porque revelou aos simples e pequenos aquilo que ficou escondido aos s\u00e1bios e entendidos. Jo\u00e3o tem em comum, n\u00e3o s\u00f3 com os sin\u00f3pticos, mas tamb\u00e9m com Paulo (1Cor 1,20.26 etc.) e Tg (3,1-2.13), a convic\u00e7\u00e3o de que o verdadeiro saber n\u00e3o \u00e9 a cultura deste mundo, mas o conhecimento do Pai, que conhecemos em Jesus (Jo 17,2). Esse saber n\u00e3o vem atrav\u00e9s da sabedoria deste mundo, mas atrav\u00e9s do amor de Cristo, do qual se participa ativamente no amor fraterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em grego, o conhecimento chama-se <em>gn\u1e53sis<\/em>. Jo\u00e3o, embora nunca use esse termo (mas sim o verbo <em>gin\u014dskein<\/em>), tornou-se o evangelho preferido da gnose que se espalhou no s\u00e9culo II dC, prometendo aos iniciados uma vida fora deste \u201cmundo mau\u201d. Assim, o \u201cEvangelho da Verdade\u201d (encontrado em Nag-Hammadi, no Egito). Ora, esse escrito, que procura a salva\u00e7\u00e3o individual longe do mundo mau, \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica do saber evang\u00e9lico proposto por Jo\u00e3o, para quem o saber \u201ccriterioso\u201d n\u00e3o pode preterir o amor fraterno (cf. Jo 13,34-35; 1Jo 4,20\u20135,2), a ser praticado no mundo, embora sua fonte n\u00e3o seja o mundo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Quarto Evangelho se ambienta numa comunidade de tipo judeu-crist\u00e3o helenista, em conflito com o juda\u00edsmo dominante do \u00faltimo quartel do s\u00e9culo I e reservada quanto \u00e0s outras esferas \u201cdo mundo\u201d (o Imp\u00e9rio Romano, a cultura helenista). N\u00e3o obstante, assume decididamente sua miss\u00e3o \u201cno mundo\u201d, no testemunho da f\u00e9 e da caridade a partir de Jesus de Nazar\u00e9 (13,35).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>4.3 A mundivid\u00eancia de Jo\u00e3o<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amplo uso de s\u00edmbolos e arqu\u00e9tipos d\u00e1 ao EvJo um alcance universal, que transcende sua situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e possibilita o di\u00e1logo com outros contextos. Por exemplo, quando Jo\u00e3o reage \u00e0 expuls\u00e3o dos crist\u00e3os da sinagoga, seu fraseado desliza para categorias mais amplas: o mundo, as trevas. Ao mencionar Judas, \u201cum dos Doze\u201d, Jo\u00e3o evoca \u201co chefe deste mundo\u201d (13,2). Esses epis\u00f3dios s\u00e3o casos particulares de uma realidade universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O horizonte mais abrangente do EvJo \u00e9 \u201co mundo\u201d (<em>k\u00f3smos<\/em>), a cria\u00e7\u00e3o, de modo especial a humanidade, no sentido neutro, vista como destinat\u00e1ria da salva\u00e7\u00e3o divina (Jo 3,16). Muitas vezes, por\u00e9m, \u201co mundo\u201d ou \u201ceste mundo\u201d indica a resist\u00eancia \u00e0 oferta de Deus e a rejei\u00e7\u00e3o de seu Enviado e sua comunidade. Por isso, tanto o Enviado como a comunidade s\u00e3o estranhos para esse \u201cmundo\u201d: est\u00e3o no mundo, mas n\u00e3o s\u00e3o do mundo (17,11.14), n\u00e3o lhe pertencem, n\u00e3o lhe s\u00e3o subservientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cmundo\u201d no sentido hostil se mostra, de modo amplo, no Imp\u00e9rio Romano com sua cultura helenista e, de modo mais pr\u00f3ximo, no juda\u00edsmo que rejeita os crist\u00e3os. Contudo, n\u00e3o se deixa identificar sem mais com nenhum sistema pol\u00edtico, econ\u00f4mico, social, cultural ou religioso. Antes, parece um poder indefinido que, embora fadado \u00e0 impot\u00eancia, estende seus tent\u00e1culos pelo universo, no espa\u00e7o e no tempo. \u00c9 o dom\u00ednio do opositor de Deus \u2013 o <em>di\u00e1bolos<\/em>, o \u201cchefe deste mundo\u201d (12,31; 14,30; 16,11). O Pr\u00f3logo j\u00e1 menciona essas tr\u00eas esferas: o mundo refrat\u00e1rio em geral (1,10), o povo eleito (\u201cos seus\u201d, 1,12, que em 8,44 s\u00e3o acusados de terem o diabo por pai) e a comunidade que acolhe a Palavra (1.14.16), mas na qual o diabo se insinuar\u00e1 na pessoa de Judas (6,70; 13,2).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">5 Teologia e m\u00edstica<\/h5>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>5.1 Presen\u00e7a de Deus no Cristo \u201cenaltecido&#8221;\u201d<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cerne da teologia joanina \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o de Deus que se manifesta como palavra e amor na \u201ccarne\u201d, em Jesus Cristo, \u00e0 luz da P\u00e1scoa e do dom do Esp\u00edrito. Mais que o evangelho da encarna\u00e7\u00e3o no sentido hist\u00f3rico, o EvJo \u00e9 o evangelho da manifesta\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria de Deus em Jesus \u201cenaltecido\u201d. Depois da destrui\u00e7\u00e3o do Templo em 70 dC, confrontaram-se duas maneiras de conceber a presen\u00e7a salv\u00edfica de Deus. Para o juda\u00edsmo renovado, essa presen\u00e7a se dava na Tor\u00e1 (escrita e oral), fortemente orientada para a <em>halak\u00e1<\/em> (ordena\u00e7\u00f5es rituais e morais). Para o cristianismo, a presen\u00e7a de Deus se dava na pr\u00e1xis de Jesus de Nazar\u00e9, que a comunidade crist\u00e3, vivenciando o tempo final e iluminada pelo Esp\u00edrito, pretendia atualizar na pr\u00e1tica do amor fraterno (Jo 16,13-15). Isso distingue a \u201cvia joanina\u201d n\u00e3o apenas do juda\u00edsmo, mas tamb\u00e9m dos outros caminhos de salva\u00e7\u00e3o (cultos de mist\u00e9rios, gnose etc.) e, sobretudo, dos caminhos do desamor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Quarto Evangelho quer ser escutado como o <em>testemunho<\/em> apost\u00f3lico de que Jesus \u00e9 o Messias e o Filho Unig\u00eanito de Deus, para que, na firmeza dessa f\u00e9, o ouvinte tenha \u201cvida\u201d (20,31). Esse testemunho apresenta Jesus como o Enviado do Pai. Pouco fala do Reino de Deus, porque, como em Paulo, n\u00e3o o \u201cReino\u201d, mas <em>Jesus mesmo \u00e9 o objeto do an\u00fancio<\/em>.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Jo\u00e3o menciona o \u201cReino\u201d apenas onde reproduz a linguagem judaica (Jo 3,3.5; 18,36). N\u00e3o nega a messianidade daquele \u201cde quem falam a Lei e os Profetas\u201d (1,45), mas sugere corre\u00e7\u00f5es fundamentais (6,14; 12,34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o usa uma linguagem espec\u00edfica, que os de fora n\u00e3o entendem (da\u00ed o duplo sentido, o mal-entendido, a ironia; \u2192\u00a7 1.4). \u00c9 um evangelho para os que procuram andar na luz, na verdade, em oposi\u00e7\u00e3o aos que vivem na mentira e nas trevas (cf. Jo 12,36). Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 esot\u00e9rico como o gnosticismo. Para Jo\u00e3o, a inicia\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste na posse da verdade, mas na consci\u00eancia de ser envolvido pela verdade e de ter que testemunh\u00e1-la (Jo 3,14; 4,22; 1Jo 2,3.5; 3,16.24; 4,13.16; 5,2.20). Essa verdade que ilumina a vida n\u00e3o est\u00e1 ao alcance do esfor\u00e7o humano, mas \u00e9 um dom conferido a partir do \u201cenaltecimento\u201d de Jesus, atrav\u00e9s do \u201cEsp\u00edrito da Verdade\u201d (Jo 7,39; 14,17; 15,26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o apenas os rabinos judaicos ficam sem entender, tamb\u00e9m o leitor \u00e9 um aprendiz da f\u00e9. O EvJo conduz o leitor-ouvinte, de modo narrativo-dram\u00e1tico, pelo itiner\u00e1rio da f\u00e9. Recorda os prim\u00f3rdios (Jesus nos anos 30) para refor\u00e7ar a f\u00e9 do leitor no tempo da crise (anos 80-100), abrindo a perspectiva para as gera\u00e7\u00f5es vindouras (17,20; 20,29), assistidas pelo Par\u00e1clito, que em todo tempo os conduzir\u00e1 \u201cna plena verdade\u201d (16,13). Por isso, Jo\u00e3o redesenha os fatos e as palavras de Jesus, tornando-os eloquentes para as gera\u00e7\u00f5es ulteriores, que devem crer no testemunho do amor fraterno (13,35) e recebem a bem-aventuran\u00e7a por crerem sem ter sido testemunhas da primeira hora (20,29). Assim se desenha, de acordo com a estrutura do texto (\u2192\u00a7 1.3), o seguinte processo\/progresso: convite para a novidade do mist\u00e9rio (Jo 1\u20134), o conflito, levando \u00e0 op\u00e7\u00e3o da f\u00e9 (5\u201312), na intimidade dos disc\u00edpulos fi\u00e9is (13\u201317), contemplando o \u201cenaltecimento\u201d (18\u201320).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>5.2 M\u00edstica e contempla\u00e7\u00e3o<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a m\u00edstica \u00e9 busca da uni\u00e3o com Deus, ela n\u00e3o nos enclausura no intimismo. O EvJo nos introduz no novo Templo que \u00e9 o Jesus eclesial (2,22), espa\u00e7o de encontro com Deus para todos (4,21-24). A\u00ed contemplamos aquele que revela a presen\u00e7a de Deus (1,14), como j\u00e1 antecipou Isa\u00edas (Is 6,10, cf. Jo 12,41). O EvJo \u00e9 m\u00edstico, porque acena \u00e0 presen\u00e7a de Deus no mundo, por\u00e9m, sem perten\u00e7a ao mundo. Os disc\u00edpulos n\u00e3o s\u00e3o do mundo, mas est\u00e3o nele (17,14-15). \u00c9 no mundo que os fi\u00e9is vivem a vida unida a Jesus, e, isso, sendo perseguidos e exclu\u00eddos pelo mundo, que amea\u00e7a penetrar at\u00e9 dentro da comunidade crist\u00e3, na forma de desamor, ambi\u00e7\u00e3o, apostasia, trai\u00e7\u00e3o. Por isso, a 1\u00aa Carta de Jo\u00e3o se op\u00f5e violentamente \u00e0 \u201ccobi\u00e7a do mundo\u201d (cf. 1Jo 2,16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica joanina se exprime sobretudo em Jo 17,20-23, no tema da unidade dos disc\u00edpulos com Cristo e o Pai. Esse tema \u00e9 articulado tamb\u00e9m pelo uso caracter\u00edstico do verbo \u201cpermanecer\u201d (<em>menein<\/em>), sobretudo na alegoria da vinha (Jo 15,1-17). Essa alegoria mostra que o misticismo n\u00e3o termina na experi\u00eancia da uni\u00e3o na f\u00e9 e no amor, mas se exprime na guarda do mandamento, que \u00e9 o amor fraterno (15,9-11.12.16-17), pr\u00e1xis selada pelo dom da pr\u00f3pria vida de Jesus (15,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica, a experi\u00eancia de Deus no mist\u00e9rio, \u00e9 um fator de liberdade, percep\u00e7\u00e3o \u00edntima da grandeza incompar\u00e1vel de Deus, fonte de resist\u00eancia \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos poderes mundanos. O EvJo nos faz contemplar a gl\u00f3ria de Deus no dom da \u201ccarne\u201d de Jesus (cf. 1,14). Jo\u00e3o reformula de modo decisivo a Tor\u00e1 no novo mandamento do amor fraterno (13,34-35; 15,12), que n\u00e3o apenas exclui o medo (1Jo 4,18), mas tudo o que n\u00e3o condiz com Deus, que \u00e9 \u201cmeu Pai e vosso Pai\u201d (20,17). Assim, desperta-nos para uma a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria abrangente e toca nas ra\u00edzes da exist\u00eancia crist\u00e3. Eis a for\u00e7a m\u00edstica desse evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica desse evangelho n\u00e3o consiste na fuga do mundo, mas na abertura para o Esp\u00edrito nas circunst\u00e2ncias da exist\u00eancia. O EvJo n\u00e3o apresenta muitos fatos, nem receitas morais, mas, \u00e0 luz de Jesus, Palavra de Deus \u201cna carne\u201d, mostra as op\u00e7\u00f5es: luz\/trevas, verdade\/mentira, vida\/morte.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>5.3 Evangelho \u201cespiritual\u201d e \u201cteo-l\u00f3gico\u201d<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Clemente de Alexandria chamou o EvJo de <em>pneum\u00e1tico <\/em>(\u201cespiritual\u201d), \u00e0 diferen\u00e7a dos outros tr\u00eas, que seriam mais <em>som\u00e1ticos<\/em> (\u201ccorporais\u201d), descrevendo a hist\u00f3ria exterior de Jesus (cf. EUSEBIO de Cesareia, 2000,\u00a0VI, 14, 7). Por\u00e9m, Jo\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u201cespiritualista\u201d, nem apregoa um cristianismo alheio ao mundo hist\u00f3rico e material, mas interpreta <em>a vida e a mensagem de Jesus<\/em> <em>\u00e0 luz do Esp\u00edrito de Deus<\/em>, que nos faz descobrir sentidos sempre novos e atuais (cf. 16,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Quarto Evangelho \u00e9 \u201cteo-l\u00f3gico\u201d: fala de Deus e leva Deus \u00e0 fala. Fala de Jesus como Filho de Deus, ou como \u201co Filho\u201d, sem mais, porque Deus \u00e9 o horizonte onipresente daquele cujos \u201csinais\u201d s\u00e3o narrados no evangelho (20,30; 1,18). Nisto, leva Deus mesmo \u00e0 fala, a ponto de Jesus ser chamado \u201ca Palavra\u201d de Deus (1,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia do Quarto Evangelho \u00e9 uma teologia&#8230; de Deus: \u201cteo-logia\u201d! N\u00e3o permite relegar a quest\u00e3o de Deus ao segundo plano. Sem Deus em sua transcend\u00eancia e iman\u00eancia n\u00e3o se entende esse evangelho: \u201cEu n\u00e3o vim (falei<em>\/<\/em>agi) por mim mesmo\u201d (cf. 12,50). Jesus veio, falou e agiu porque o Pai, Deus, estava nele e assim lhe ordenou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O EvJo nos ensina que <em>a pr\u00e1tica de Jesus \u00e9 a pr\u00e1tica de Deus mesmo<\/em> \u201cem carne\u201d, em exist\u00eancia humana hist\u00f3rica. Jesus n\u00e3o apresenta uma doutrina sobre Deus ou um receitu\u00e1rio moral. Em Jesus se d\u00e1 a conhecer aquele que ningu\u00e9m jamais viu, mas que \u00e9 a refer\u00eancia \u00faltima de tudo o que somos e fazemos. Por isso podemos <em>crer<\/em> em Jesus, aderir a ele, confiar nele de modo radical. Nele, nosso viver tem seu ponto de refer\u00eancia inabal\u00e1vel. Jo\u00e3o n\u00e3o fala de Deus em termos abstratos, conceptuais, mas em linguagem narrativa: ao descrever a pr\u00e1tica de Jesus Cristo, Jo\u00e3o \u201cconta\u201d Deus e sua presen\u00e7a atuante entre os homens (1,18). Em Jesus, Deus se torna \u201chist\u00f3ria\u201d: \u00e9 isso que quer dizer o termo \u201ccarne\u201d em Jo 1,14.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, Deus virou produto de supermercado, mas para ler o EvJo \u00e9 preciso admitir o Transcendente verdadeiro e real. Jo\u00e3o nos ensina que tocamos Deus internamente, no limite em que o Ilimitado nos envolve, como o feto conhece a m\u00e3e no \u00fatero. <em>Tocar o Infinito por dentro<\/em>, \u00e9 isso que Jo\u00e3o nos proporciona ao retratar Jesus, nosso irm\u00e3o, que, na hora do \u201cenaltecimento\u201d, nos fala de \u201cmeu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus\u201d (20,17). Isso se exprime mais claramente ainda em 1Jo 4,12: n\u00f3s conhecemos o Deus invis\u00edvel se praticamos, guiados pela palavra de Cristo, aquilo que Deus internamente \u00e9: Amor. O amor ao pr\u00f3ximo nos faz conhecer Deus por dentro (1Jo 4,12) e sermos iguais a seu Filho (1Jo 3,2).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>5.4 A cruz e a gl\u00f3ria<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como um gr\u00e1fico deve ser lido a partir do ponto zero, no qual se cruzam o eixo horizontal e o vertical, assim devemos <em>ler a nossa vida a partir da cruz de Jesus<\/em>, que desenha os eixos para que nossa vida se inscreva na din\u00e2mica do amor a Deus (vertical) e do amor ao pr\u00f3ximo (horizontal), inseparavelmente unidos (cf. Jo 15,9.12; cf. 1Jo 4,20-21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o joanina, a vida de Jesus \u00e9 o relato de Deus manifestando-se na \u201ccarne\u201d, como exist\u00eancia humana na hist\u00f3ria no mundo. Mas para que esse Deus n\u00e3o seja mero objeto de conhecimento exterior, aprendemos a olhar, a partir de Jesus, numa \u00fanica vis\u00e3o, para Deus e para os nossos irm\u00e3os, vendo o Deus de Jesus Cristo em nossos irm\u00e3os. Deus, Jesus e os irm\u00e3os se fundem em uma \u00fanica vis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No af\u00e3 de mostrar em Jesus Nazareno o agir de Deus, Jo\u00e3o o apresenta com todos os \u201ct\u00edtulos\u201d da cristologia, mas nenhum \u00e9 t\u00e3o significativo e abrangente quanto o de \u201cFilho\u201d, chamado de \u201cunig\u00eanito\u201d (1,14.18; 3,16.18) para o distinguir dos outros filhos e filhas amados de Deus. <em>A messianidade e a divindade de Jesus devem ser entendidas a partir de seu amor filial<\/em>, sua \u201cpaix\u00e3o\u201d por fazer o que o Pai deseja e sua miss\u00e3o de revelar o que o Pai lhe d\u00e1 a conhecer. \u201cEu e o Pai somos um\u201d (10,30), \u201cQuem me v\u00ea, v\u00ea o Pai\u201d (14,9), \u201cO Pai \u00e9 maior do que eu\u201d (14,28): nessas frases se resume a cristologia joanina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa busca e nosso agir ser\u00e3o orientados pelo que vemos de Deus em Jesus (14,9). Tal cristocentrismo n\u00e3o \u00e9 um cristomonismo sect\u00e1rio. N\u00e3o se trata, tampouco, de fazer de Jesus um outro Deus, como julgaram, indevidamente, \u201cos judeus\u201d (5,18; 10,33), porque n\u00e3o entendiam o \u201cmist\u00e9rio do Filho\u201d. Jesus \u00e9 um com Deus <em>enquanto Filho<\/em>. A \u201cdivindade\u201d de Jesus se manifesta a n\u00f3s no seu amor e obedi\u00eancia filiais: \u201cO Pai \u00e9 maior [= mais importante] que eu\u201d (14,28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o \u201ccristocentrismo teo-l\u00f3gico\u201d de Jo\u00e3o n\u00e3o exclui a abertura \u00e0queles que buscam Deus por outros caminhos. O que importa \u00e9 a certeza de que o Deus verdadeiro manifesta seu rosto em Jesus de Nazar\u00e9. Assim se compreendem os sinais narrados no Quarto Evangelho. N\u00e3o s\u00e3o \u201cprovas\u201d de sua divindade, mas sinais pelos quais Deus manifesta que est\u00e1 com ele (Jo 3,2) e realiza nele as suas obras (14,11), na \u201cgl\u00f3ria do amar\u201d (SYMOENS, 1981).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>5.5 Escatologia, pneumatologia, eclesiologia<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristologia e escatologia s\u00e3o insepar\u00e1veis, pois o Cristo<em>\/<\/em>Messias deve inaugurar o tempo do Fim, o reinado de Deus no mundo, tempo de plenitude e paz, <em>shalom<\/em>. Tais representa\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, s\u00e3o insuficientes. Jo\u00e3o fala inicialmente em \u201creino de Deus\u201d usando a linguagem do juda\u00edsmo (3,3.5; 18,36), mas depois substitui esse conceito por \u201cvida eterna\u201d, vida recebida e assumida na op\u00e7\u00e3o de f\u00e9 diante da palavra e da pr\u00e1tica de Jesus como exerc\u00edcio da vontade de Deus. Quem cr\u00ea em Jesus vive aquilo que condiz com Deus, aquilo que \u00e9 definitivamente v\u00e1lido: \u201cQuem ouve minha palavra e cr\u00ea naquele que me enviou tem a vida eterna e n\u00e3o vai a ju\u00edzo, mas passou [tempo perfeito com efeito no presente] da morte para a vida\u201d (Jo 5,24). A vida eterna deve ser entendida n\u00e3o como extens\u00e3o quantitativa desta vida, mas como vida do \u00e9on novo que suplanta o tempo prec\u00e1rio \u201cdeste mundo\u201d. Significa o salto qualitativo, na f\u00e9 e no seguimento de Cristo, j\u00e1 agora. O \u201cenaltecimento\u201d, morte-e-ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, foi a manifesta\u00e7\u00e3o dessa vida, que no dom de si supera a morte. Por isso chamamos essa \u201cescatologia-j\u00e1\u201d de \u201cexist\u00eancia pascal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de falar da vida eterna, Jesus ensina a Nicodemos o nascimento do alto, que remete \u00e0 renova\u00e7\u00e3o \u2013 pela convers\u00e3o e pelo ensinamento de Deus \u2013 do cora\u00e7\u00e3o daqueles que d\u00e3o ouvido a Jesus (cf. Jr 33,31-33; Ez 36; Is 54,13 etc.). O s\u00edmbolo disso \u00e9 a efus\u00e3o da \u00e1gua que representa o Esp\u00edrito (Jo 3,5). Jo\u00e3o Batista diz que o Esp\u00edrito Santo desceu sobre Jesus e <em>permaneceu<\/em> (1,33), pois ele \u00e9 quem batiza com o Esp\u00edrito Santo. Esse dom do Esp\u00edrito acontece quando Jesus, glorificado na morte de cruz (cf. 7,39!), volta ao Pai e nos confia o mundo para que n\u00f3s realizemos \u201cobras maiores\u201d do que ele realizou (14,12). Neste tempo de nossa exist\u00eancia pascal, Jesus rogar\u00e1 ao Pai para que nos envie o \u201cEsp\u00edrito da verdade\u201d, o <em>Par\u00e1clito <\/em>(14,16-17), para ser nosso auxilio na miss\u00e3o no mundo e nosso defensor no processo com o mundo (16,7-11), guiando-nos na plena verdade de cada momento hist\u00f3rico (16,13). Ressuscitado, Jesus d\u00e1, no dia da P\u00e1scoa, aos disc\u00edpulos o dom do Esp\u00edrito (20,19-23).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>5.6 Coordenadas \u00e9ticas<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ensinamento moral de Jo\u00e3o se resume no bin\u00f4mio <em>verdade e amor<\/em>. Ambas essas realidades pr\u00e1ticas<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> t\u00eam sua fonte em Deus e seu mediador em Jesus (15,12). <em>Deus \u00e9 verdadeiro<\/em> (cf. 7,26; 8,26) no sentido de <em>aut\u00eantico<\/em>, totalmente oposto \u00e0 mentira e \u00e0 falsidade. Ele \u00e9 fiel, seu amor \u00e9 eterno e a sua palavra, digna de toda confian\u00e7a. Essa palavra \u00e9 Jesus, no qual se encarna a verdade<em>&#8211;<\/em>fidelidade de Deus, juntamente com o amor e a gra\u00e7a (1,14). Na boca de Jesus, a verdade significa: a manifesta\u00e7\u00e3o da verdade do Pai nele (LA POTTERIE, 1977). <em>Deus \u00e9 amor<\/em> (cf. 1Jo 4,8.16), e \u00e9 a partir desse amor que seu \u201cFilho unig\u00eanito\u201d ama aqueles que Deus lhe deu, os que acolhem sua palavra, a ponto de dar sua vida por eles, como exemplo para n\u00f3s. Na fidelidade de Jesus at\u00e9 o fim, por amor, Deus nos ama e salva o mundo do \u201cpr\u00edncipe deste mundo\u201d (Jo 3,16). Maior explicita\u00e7\u00e3o desta \u00e9tica do amor encontra-se em 1Jo 3,11-18; 4,7-16; 5,1-2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o essas as coordenadas da \u00e9tica crist\u00e3 segundo Jo\u00e3o: veracidade<em>&#8211;<\/em>fidelidade e amor fraterno, fundados em Deus e vividos segundo o amor revelado por Jesus no gesto parab\u00f3lico do lava-p\u00e9s, prefigurando sua morte (\u201ccomo eu vos fiz\u201d, 13,15; \u201ccomo eu vos amei\u201d, Jo 13,34-35; 15,12). Jo\u00e3o n\u00e3o oferece listas de mandamentos, \u00e0 maneira do AT, ou de virtudes, \u00e0 maneira da sabedoria grega. Confia que os crist\u00e3os adultos deem, \u00e0 \u00e9tica conhecida desde a sua tradi\u00e7\u00e3o e cultura, a forma do amor de Cristo (cf. 1Jo 2,7-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Johan Konings, SJ.\u00a0<\/em>FAJE. Texto original em portugu\u00eas. Recebido: 23\/06\/2021. Aprovado: 26\/09\/2021. Publicado: 24\/12\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">BEUTLER, Johannes. <em>Evangelho segundo Jo\u00e3o<\/em>: coment\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BROWN, Raymond E. <em>Coment\u00e1rio ao evangelho segundo Jo\u00e3o<\/em>. Santo Andr\u00e9: Academia Crist\u00e3, 2020. 2 v. com pagina\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BROWN, Raymond E. <em>The Epistles of John<\/em>. Garden City: Doubleday, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BULTMANN, Rudolf. <em>Theologie des Neuen Testaments<\/em>. 6. Aufl. T\u00fcbingen: Mohr, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CANCIAN, Domenico. <em>Nuovo Comandamento, Nuova Alleanza, Eucaristia<\/em>: nell\u2019interpretazione del capitolo 13 del Vangelo di Giovanni. 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Rome: Biblical Institute, 1977. 2 v.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARCHADOUR, Alain.\u00a0<em>Les personnages dans l&#8217;Evangile de Jean<\/em>:\u00a0miroir pour une christologie narrative. Paris: Cerf, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NESTLE-ALAND. <em>Novum testamentum graece<\/em> &#8230; editione vicesima septima revisa&#8230;. 9. korrigierter Druck. M\u00fcnster: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEIRA, Carlos Josaphat Pinto de.\u00a0<em>Evangelho da unidade e do amor<\/em>:\u00a0texto e doutrina do Evangelho de S\u00e3o Joao. S\u00e3o Paulo: Duas Cidades, 1966.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OMANSON, Roger L.\u00a0<em>Variantes textuais do Novo Testamento<\/em>:\u00a0an\u00e1lise e avalia\u00e7\u00e3o do aparato cr\u00edtico de \u201cO Novo Testamento grego\u201d. Barueri: Sociedade B\u00edblica do Brasil, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIGENT, Pierre.\u00a0<em>O Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o<\/em>.\u00a02.ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHNACKENBURG, Rudolf.\u00a0El Evangelio seg\u00fan San Juan:\u00a0versi\u00f3n y comentario. v. 1. Barcelona: Herder, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SYMOENS, Yves. <em>La\u00a0gloire d&#8217;aimer<\/em>: structures stylistiques et interpr\u00e9tatives dans le Discours de la C\u00e8ne (Jn 13-17). Roma: Pontificio Istituto biblico, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">THEOBALD, Michael. <em>Studien zum Corpus Iohanneum<\/em>. T\u00fcbingen: Mohr, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VAN BELLE, Gilbert. <em>Les parenth\u00e8ses dans l\u2019\u00e9vangile de Jean<\/em>: aper\u00e7u historique et classification; texte grec de Jean. Leuven: University Press, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZUMSTEIN, Jean. <em>L\u2019\u00e9vangile selon Jean (1-12).<\/em> Gen\u00e8ve: Labor et Fides, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZUMSTEIN, Jean. <em>L\u2019\u00e9vangile selon Jean (13-21).<\/em> Gen\u00e8ve: Labor et Fides, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Usamos como texto cr\u00edtico a 27\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Nestle-Aland (ver Refer\u00eancia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. Prov\u00e9rbios cap. 8, Sir\u00e1cida cap. 24, Baruc cap. 3-4 e Sabedoria (\u2192\u00a7 2.1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Nas comunidades joaninas, Jesus mesmo era o revelador, como aparece no Apocalipse (Jesus revela a vis\u00e3o divina sobre a comunidade, Ap 1,1), \u00e0 maneira dos apocal\u00edpticos judaicos (Henoc etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O estudo mais completo \u00e9 BROWN, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O &#8220;outro disc\u00edpulo\u201d (outro que Pedro) em 18,15; 20,2.8 \u00e9 muito provavelmente o Disc\u00edpulo Amado, que contracena com Pedro tamb\u00e9m em 21,7.20.23.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O Conc\u00edlio Vaticano II, <em>Dei Verbum<\/em> 18-19, distingue entre os ap\u00f3stolos e os autores sagrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Resumo do debate em HENGEL, 1989;\u00a0 THEOBALD, 2010, p. 181-183; BEUTLER, 2015, p. 31-33. Melhor \u00e9 respeitar o anonimato (ZUMSTEIN, 2014, p. 86, n. 85).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Continua aberta a quest\u00e3o se esse conflito com a sinagoga deve ser localizado no fim do primeiro s\u00e9culo, quando do s\u00ednodo rab\u00ednico de J\u00e2mnia e a inser\u00e7\u00e3o, na ora\u00e7\u00e3o matinal dos judeus, da \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3o contra os hereges\u201d (a <em>birkat ha-minim<\/em>, c. de 85 dC), ou j\u00e1 em d\u00e9cadas anteriores. De fato, cedo depois da morte de Jesus, ocorreram persegui\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do juda\u00edsmo (At 6\u20137 e At 9) (veja tamb\u00e9m Mc 13,9-13 par.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> O nome \u201cJo\u00e3o\u201d, atribu\u00eddo ao autor, \u00e9 um nome frequente nas fam\u00edlias sacerdotais (cf. tamb\u00e9m Jo\u00e3o Batista, filho de sacerdote). Da\u00ed as hip\u00f3teses, gratuitas, de o Disc\u00edpulos Amado ser o anci\u00e3o Jo\u00e3o mencionado por Papias (cf. 2Jo 1 e 3Jo 1), ou at\u00e9 o Jo\u00e3o da fam\u00edlia sacerdotal de An\u00e1s (At 4,6 \u2013 j\u00e1 que An\u00e1s recebe destaque exclusivo em Jo 18,12-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Os \u201cgregos\u201d em Jo 7,35; 12,20 podem ser <em>n\u00e3o judeus,<\/em> achegados ao juda\u00edsmo, ou <em>judeus<\/em> helenistas da di\u00e1spora, menos hostis que os judeus de Jerusal\u00e9m no ano 30 e do s\u00ednodo de J\u00e2mnia nos anos 80.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Implicitamente, Jo 10,16, com os verbos no futuro, sugere uma din\u00e2mica que vai do gr\u00eamio joanino para os outros grupos crist\u00e3os, realizando num sentido novo a reuni\u00e3o escatol\u00f3gica de Israel na perspectiva do mundo inteiro (ZUMSTEIN, 2014, p. 345).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> \u201cDe anunciador, ele se tornou o Anunciado\u201d (BULTMANN, 1968, p. 35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Jo 3,21; 1Jo 1,6: \u201cfazer a verdade\u201d = o que \u00e9 verdadeiro (segundo a revela\u00e7\u00e3o em Cristo).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O texto 1.1 Documentos 1.2 Unidade e coer\u00eancia composicional 1.3 Estrutura est\u00e1tica e din\u00e2mica 1.4 Caracter\u00edsticas liter\u00e1rias 1.5 Car\u00e1ter sem\u00edtico e \u201cbilinguismo\u201d\u00a0 2 Intertextualidade 2.1 Antigo Testamento e juda\u00edsmo 2.2 Novo Testamento 2.3 Escritos extracan\u00f4nicos\/extrab\u00edblicos 3 \u201cAutor\u201d e leitorado 3.1 Autor e leitor dentro do texto 3.2 Quem foi este autor? 3.3 A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-2495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2496,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2495\/revisions\/2496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}