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{"id":2488,"date":"2021-12-24T11:44:27","date_gmt":"2021-12-24T14:44:27","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2488"},"modified":"2021-12-24T11:44:27","modified_gmt":"2021-12-24T14:44:27","slug":"a-salvacao-em-jesus-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2488","title":{"rendered":"A salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O que \u00e9 salva\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus Salvador<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Salva\u00e7\u00e3o pela encarna\u00e7\u00e3o do Verbo divino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Salva\u00e7\u00e3o pelo minist\u00e9rio p\u00fablico do Enviado do Pai<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Salva\u00e7\u00e3o pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Redentor<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.1 A morte como oferta sacrificial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.2 A morte como expia\u00e7\u00e3o dos pecados<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.3 A morte como pagamento do resgate do cativeiro<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.4 A morte como presta\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o a Deus<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Salva\u00e7\u00e3o pela recapitula\u00e7\u00e3o do Cristo Cabe\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 O an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o em Cristo no contexto atual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atual contexto do secularismo, da indiferen\u00e7a religiosa e do pluralismo religioso p\u00f5e um instigante desafio \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3. O cristianismo tem como ponto central de sua doutrina a f\u00e9 em Jesus Cristo como \u00fanico Salvador de todo o g\u00eanero humano: ele \u00e9 o \u00fanico mediador entre Deus e a humanidade (1Tm 2,5); n\u00e3o h\u00e1 outro nome, exceto o dele, no qual todos s\u00e3o salvos (At 4,12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este artigo apresenta os elementos b\u00e1sicos da f\u00e9 na salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo. Depois de apresentar o significado da salva\u00e7\u00e3o, sobretudo a partir da reflex\u00e3o pastoral e teol\u00f3gica da Am\u00e9rica Latina, enuncia os pontos-chave da f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus Salvador. Em seguida, discorre sobre os enfoques tradicionais que caracterizaram a soteriologia no decorrer dos dois mil\u00eanios do cristianismo. Por fim, indica caminhos para o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o em Cristo no contexto atual, sugerindo como crit\u00e9rio de verifica\u00e7\u00e3o pastoral a op\u00e7\u00e3o pelos pobres.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O que \u00e9 salva\u00e7\u00e3o?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo ser humano busca algo mais, anseia por transcender-se para al\u00e9m da rotina cotidiana, por superar as incompletudes e preencher os vazios que acompanham a vida. Numa perspectiva negativa, todo ser humano busca fugir de situa\u00e7\u00f5es adversas que lhe atrapalham a vida. Doentes buscam a cura. Desempregados entregam seus curr\u00edculos aqui e ali em vista de coloca\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho. Pobres e miser\u00e1veis labutam para p\u00f4r o p\u00e3o na mesa de cada dia. Prisioneiros sonham com a liberdade. Pessoas injusti\u00e7adas em seus direitos b\u00e1sicos correm atr\u00e1s da justi\u00e7a com o fim de verem condenados os seus malfeitores, de verem restitu\u00eddos os seus direitos, de alcan\u00e7arem indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na linguagem crist\u00e3, pode-se sintetizar o significado de salva\u00e7\u00e3o a partir de tr\u00eas elementos: a) o ponto de partida \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o negativa insuport\u00e1vel, marcada por situa\u00e7\u00f5es opressivas de males f\u00edsicos e morais, injusti\u00e7as, doen\u00e7as, inseguran\u00e7a financeira, medo da morte, pecado, com a incapacidade pessoal de suport\u00e1-la e super\u00e1-la; b) o ponto de chegada \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o positiva oposta \u00e0 anterior, confirmada por uma vida satisfat\u00f3ria, de bem-estar, integridade f\u00edsica e moral, paz interior e senso de justi\u00e7a, experimentada como dom; c) a interven\u00e7\u00e3o de um agente\u00a0 externo, Deus Pai, que age por meio de seu Filho e de seu Esp\u00edrito Santo, e que faz o indiv\u00edduo ou o povo passar da situa\u00e7\u00e3o negativa \u00e0 positiva (BATTAGLIA, 2013, p. 341-342).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses tr\u00eas elementos s\u00e3o encontrados em dois par\u00e1grafos da Introdu\u00e7\u00e3o das Conclus\u00f5es de Medell\u00edn (1987). O primeiro e o segundo elementos se revelam na afirma\u00e7\u00e3o de que a transforma\u00e7\u00e3o do povo latino-americano se d\u00e1 pela passagem de situa\u00e7\u00f5es negativas insuport\u00e1veis, desumanas, para situa\u00e7\u00f5es mais positivas, de dignidade humana, em que se consideram valores humanos e crist\u00e3os.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verdadeiro desenvolvimento \u00e9 a passagem de condi\u00e7\u00f5es de vida menos humanas para condi\u00e7\u00f5es mais humanas. Menos humanas: as car\u00eancias materiais dos que s\u00e3o privados do m\u00ednimo vital e as car\u00eancias morais dos que s\u00e3o mutilados pelo ego\u00edsmo. Menos humanas: as estruturas opressoras que provenham dos abusos da posse do poder, das explora\u00e7\u00f5es dos trabalhadores ou da injusti\u00e7a das transa\u00e7\u00f5es. Mais humanas: a passagem da mis\u00e9ria para a posse do necess\u00e1rio, a vit\u00f3ria sobre as calamidades sociais, a amplia\u00e7\u00e3o dos conhecimentos, a aquisi\u00e7\u00e3o da cultura. Mais humanas tamb\u00e9m: o aumento na considera\u00e7\u00e3o da dignidade dos demais, a orienta\u00e7\u00e3o para o esp\u00edrito de pobreza, a coopera\u00e7\u00e3o no bem comum, a vontade de paz. Mais humanas ainda: o reconhecimento, por parte do homem, dos valores supremos e de Deus, que deles \u00e9 a fonte e o fim. Mais humanas, finalmente, e em especial, a f\u00e9, dom de Deus acolhido pela boa vontade dos homens e a unidade na caridade de Cristo, que nos chama a todos a participar como filhos na vida de Deus vivo, Pai de todos os homens. (MEDELL\u00cdN, Introdu\u00e7\u00e3o, \u00a7 9, 1987, p. 7)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro item surge quando se professa que \u00e9 Deus quem realiza a salva\u00e7\u00e3o do ser humano, agindo misteriosamente na condu\u00e7\u00e3o dessas passagens, por meio de Jesus Cristo e de seu Esp\u00edrito Santo, e fazendo que essas conquistas humanas terrenas apontem para a eternidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o podemos, com efeito, deixar de pressentir a presen\u00e7a de Deus, que quer salvar o homem inteiro, alma e corpo. No dia definitivo da salva\u00e7\u00e3o Deus ressuscitar\u00e1 tamb\u00e9m nossos corpos, por cuja reden\u00e7\u00e3o geme agora em n\u00f3s o Esp\u00edrito com gemidos indescrit\u00edveis. Deus ressuscitou a Cristo e, por conseguinte, todos os que creem nele. Atrav\u00e9s de Cristo, ele est\u00e1 ativamente presente em nossa hist\u00f3ria e antecipa seu gesto escatol\u00f3gico n\u00e3o somente no desejo impaciente do homem para conseguir sua total reden\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m naquelas conquistas que, como sinais indicadores, com voz cada vez mais poderosa, do futuro, vai fazendo o homem atrav\u00e9s de uma atividade realizada no amor. (MEDELL\u00cdN, Introdu\u00e7\u00e3o, \u00a7 8, 1987, p. 6-7)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, pois, a f\u00e9 crist\u00e3 fala de salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a reduz a um \u00fanico aspecto, mas a entende em suas mais variadas dimens\u00f5es, uma vez que diz respeito \u00e0 salva\u00e7\u00e3o do ser humano, em corpo e alma, em sua inteireza e integridade. Em linha de s\u00edntese, afirma-se que salva\u00e7\u00e3o \u00e9 reden\u00e7\u00e3o do pecado em vista da vida eterna e \u00e9 tamb\u00e9m liberta\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica em vista da justi\u00e7a social numa sociedade democr\u00e1tica em que se possa viver com dignidade a vida terrena. Desde Medell\u00edn, a vis\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o, tanto da teologia como do Magist\u00e9rio da Igreja latino-americana, supera o dualismo reinante at\u00e9 ent\u00e3o nos \u00e2mbitos eclesiais e abrange o ser humano em todas as suas dimens\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es: consigo mesmo, com o mundo, com os irm\u00e3os e com Deus. Para a teologia e o Magist\u00e9rio da Igreja latino-americana, a salva\u00e7\u00e3o acontece no processo hist\u00f3rico de liberta\u00e7\u00e3o de tudo o que impede a promo\u00e7\u00e3o e a defesa da vida. A salva\u00e7\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o cada vez mais plena do ser humano em sua hist\u00f3ria pessoal, comunit\u00e1ria, social e c\u00f3smica, at\u00e9 alcan\u00e7ar a plenitude na meta-hist\u00f3ria, a felicidade eterna.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus Salvador<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os seus in\u00edcios, a f\u00e9 crist\u00e3 afirma que os desejos mais profundos do ser humano, sejam os referentes \u00e0 vida neste mundo sejam os que apontam para a vida ap\u00f3s a morte, t\u00eam sua realiza\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo, reconhecido como o \u00fanico Salvador de toda a humanidade. A soteriologia (do grego <em>soteria<\/em>, salva\u00e7\u00e3o), disciplina teol\u00f3gica que estuda o processo da salva\u00e7\u00e3o humana por meio de Jesus Cristo, considera que n\u00e3o h\u00e1, em todo o Novo Testamento, preocupa\u00e7\u00e3o pela afirma\u00e7\u00e3o do ser de Jesus (o que s\u00f3 vai acontecer com os conc\u00edlios cristol\u00f3gicos dos s\u00e9culos IV a VIII), mas que o acento se d\u00e1 sempre no agir salv\u00edfico de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente no retorno ao agir salv\u00edfico de Jesus de Nazar\u00e9 que a teologia atual conseguir\u00e1 escapar das duas teses problem\u00e1ticas que impedem o caminho reflexivo atual: o exclusivismo e o relativismo (FELLER, 1995, p. 11-15). O exclusivismo descarta a possibilidade de revela\u00e7\u00e3o e de salva\u00e7\u00e3o divina fora do \u00e2mbito do cristianismo. Al\u00e9m do risco do imperialismo, do fanatismo e da intoler\u00e2ncia \u2013 atitudes que n\u00e3o condizem com o Evangelho de Cristo \u2013, essa tese se revela injuriosa em rela\u00e7\u00e3o ao amor de Deus, que \u201c\u00e9 maior que o nosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (1Jo 3,20) e que excede todo nosso conhecimento e pretens\u00e3o de a\u00e7ambarc\u00e1-lo. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 nenhuma explica\u00e7\u00e3o sobre a inefic\u00e1cia do cristianismo e do Evangelho crist\u00e3o para a salva\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas. Teria Deus se servido de um instrumento t\u00e3o inadequado historicamente para realizar sua vontade de salva\u00e7\u00e3o universal? (SHORTER, 1986, p. 230-234). O relativismo, por sua vez, considera que as religi\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o nem verdadeiras nem falsas, porque n\u00e3o fazem afirma\u00e7\u00f5es sobre a realidade, mas servem-se de met\u00e1foras para descrever um sentimento pessoal ou um compromisso. Al\u00e9m de expor as religi\u00f5es ao risco da banaliza\u00e7\u00e3o e do nivelamento pela linha da mediocridade, essa tese n\u00e3o respeita o diferencial de cada religi\u00e3o. No caso do cristianismo, n\u00e3o h\u00e1 que se negar que a f\u00e9 crist\u00e3 na divindade de Cristo n\u00e3o \u00e9 puramente subjetiva, po\u00e9tica ou metaf\u00f3rica, mas fundamenta-se em atualidade hist\u00f3rica (SHORTER, 1986, p. 234-237).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cristianismo est\u00e1 essencialmente ligado a uma insuper\u00e1vel particularidade hist\u00f3rica, que demanda a necessidade de eliminar a pretens\u00e3o crist\u00e3 \u00e0 verdade absoluta, condensada em pronunciados tra\u00e7os imperialistas no decorrer de sua hist\u00f3ria. Mas \u00e9 nessa particularidade que a f\u00e9 crist\u00e3, desde o in\u00edcio, v\u00ea a manifesta\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o em seu car\u00e1ter escatol\u00f3gico, que obriga ao empenho pela supera\u00e7\u00e3o de qualquer acomoda\u00e7\u00e3o relativista. Para os crist\u00e3os, Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o relativa (porque \u00e9 hist\u00f3rica) de um sentido absoluto (porque \u00e9 divino) (SCHILLEBEECKX, 1997, p.179). \u00c9 na particularidade hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9 que os crist\u00e3os h\u00e3o de se firmar para confessar a universal a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica do Cristo da f\u00e9. Citando a reflex\u00e3o de von Balthasar sobre Jesus como \u201cuniversal concreto\u201d, M. Bordoni explica que esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica que \u201cse fundamenta sobre a conjun\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica entre Deus e o homem que \u00e9 o grande evento da hist\u00f3ria que nenhum pensamento humano poderia imaginar: \u2018Cristo n\u00e3o \u00e9 nem um indiv\u00edduo entre os outros, porque \u00e9 Deus em pessoa, sem iguais entre os outros, nem \u00e9 a norma como universal, porque \u00e9 singular\u2019\u201d (BORDONI, 1997, p. 77).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na linha da \u00f3tica calcedoniana da distin\u00e7\u00e3o na unidade entre o humano e o divino, o hist\u00f3rico e o eterno, cr\u00ea-se que na particularidade hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9 se manifesta e se realiza, de modo pleno, o \u00fanico plano salv\u00edfico universal de Deus, o qual, por sua vez, dilata-se e finca estacas nas religi\u00f5es e culturas de todos os povos. Essa perspectiva \u00e9 consequente com as reflex\u00f5es cristol\u00f3gicas modernas que partem da hist\u00f3ria para chegar ao mist\u00e9rio, do particular para atingir o universal. A teologia atual parte da humanidade de Jesus de Nazar\u00e9 para afirmar a divindade e a messianidade salv\u00edfica do Cristo da f\u00e9. Assim, seguindo uma cristologia de baixo para cima, procede-se da particularidade hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9 e da sua predile\u00e7\u00e3o pelos pobres, para perceber e definir nele a revela\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a e da a\u00e7\u00e3o salv\u00edficas de Deus-Pai em favor de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, encaixam-se aqui as quatro trajet\u00f3rias cristol\u00f3gicas b\u00e1sicas que, segundo Helmut Koester, se desenvolveram nos anos entre a morte de Jesus e a reda\u00e7\u00e3o dos textos neotestament\u00e1rios. Fazendo mem\u00f3ria de Jesus, de seus ensinamentos, escolhas, decis\u00f5es e enfrentamentos, as primeiras comunidades crist\u00e3s foram elaborando essas trajet\u00f3rias, todas elas com conte\u00fado soteriol\u00f3gico, isto \u00e9, voltado para a a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Jesus: a) numa cristologia da parusia, voltada para o futuro, Jesus \u00e9 o Filho do homem e Senhor vindouro, o agente divino que em breve retornaria na gl\u00f3ria para julgar o mundo; b) numa cristologia da vida p\u00fablica, centrada no presente da comunidade, Jesus \u00e9 o homem divino, aprovado por Deus com milagres, prod\u00edgios e sinais que Deus fez por meio dele no meio dos seres humanos; c) numa cristologia da sabedoria, interessada na origem de Cristo, ele \u00e9 o mestre, o enviado da sabedoria divina ou, at\u00e9 mesmo, a sabedoria encarnada; d) numa cristologia pascal, atenta ao final da vida de Jesus e ao in\u00edcio da comunidade crist\u00e3, Jesus \u00e9 o crucificado e ressuscitado dentre os mortos (KOESTER, citado por GALVIN, 1997, p. 336-338).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessas trajet\u00f3rias cristol\u00f3gicas, anteriores \u00e0 reda\u00e7\u00e3o dos textos neotestament\u00e1rios, ir\u00e3o se desenvolver, no interior mesmo do Novo Testamento e, depois, no decorrer da hist\u00f3ria crist\u00e3, diversos modelos soteriol\u00f3gicos ou explica\u00e7\u00f5es concernentes ao modo como opera a gra\u00e7a de Cristo em favor de nossa salva\u00e7\u00e3o. Conv\u00e9m salientar que essas explica\u00e7\u00f5es enfocam como salv\u00edficos um ou mais aspectos da exist\u00eancia de Cristo, sendo que os principais pontos de refer\u00eancia s\u00e3o a encarna\u00e7\u00e3o, a vida p\u00fablica, a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, a recapitula\u00e7\u00e3o final (GALVIN, 1997, p. 359). A soteriologia pascal, embora com acento mais na morte que na ressurrei\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 predominante. Por sua maior fidelidade ao Jesus hist\u00f3rico, maior poder de edificar a Igreja, maior aproxima\u00e7\u00e3o com a realidade do sofrimento humano, maior capacidade de oferecer estrutura aglutinadora dos outros tipos soteriol\u00f3gicos, ela funcionar\u00e1 como fator unificador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos itens a seguir, veremos como esses enfoques foram ganhando novos contornos e como foram se desenvolvendo no decorrer da hist\u00f3ria da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Salva\u00e7\u00e3o pela encarna\u00e7\u00e3o do Verbo divino<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento gn\u00f3stico-dualista n\u00e3o aceitava a doutrina da encarna\u00e7\u00e3o. Ao postular dois princ\u00edpios metaf\u00edsicos absolutos \u2013 um, espiritual e celeste, que era fonte de bem, e outro, material e terreno, que era fonte do mal \u2013, viam o mundo criado sob luz negativa. Por essa vis\u00e3o negativa da mat\u00e9ria, o divino, totalmente espiritual, n\u00e3o poderia habitar, muito menos assumir, o mundo material. Em rea\u00e7\u00e3o a esse dualismo, os Padres da Igreja, apoiados em grandes linhas no evangelho de Jo\u00e3o, afirmaram claramente que o Verbo de Deus se fez realmente carne no homem de Nazar\u00e9. A cren\u00e7a na encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 o fundamento da pr\u00e1tica sacramental, pela qual as coisas criadas podem mediar a presen\u00e7a de Deus. Para Irineu de Li\u00e3o (\u2020202) \u00e9 claro que, se o Verbo n\u00e3o se fez realmente carne, n\u00e3o poderia ser crucificado, n\u00e3o poderia nos redimir com seu sangue, n\u00e3o poderia dar-se a n\u00f3s no sacramento eucar\u00edstico do seu corpo e sangue. Para Agostinho de Hipona (\u2020430) a encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o definitiva do amor de Deus, que se rebaixa para entrar no mundo de modo pessoal e assim alcan\u00e7ar-nos a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ligada \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o est\u00e1 a no\u00e7\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o por meio da educa\u00e7\u00e3o ou ilumina\u00e7\u00e3o (RYAN, 2020, p. 92-94). Esta no\u00e7\u00e3o teve seu auge com os Padres Apost\u00f3licos e os Apologistas, no final do s\u00e9culo I e no decorrer do s\u00e9culo II. O Verbo de Deus encarnou-se para nos transmitir a verdade sobre Deus e sobre n\u00f3s mesmos. Com seus ensinamentos e exemplos, ele \u00e9 o mestre por excel\u00eancia, veio nos tirar da ignor\u00e2ncia, veio trazer luz para os que jaziam nas trevas do erro e do pecado. O cristianismo \u00e9 visto como uma nova filosofia, um novo modo de vida. Trata-se, pois, de seguir seus ensinamentos, cumprir sua palavra, tornar-se seu disc\u00edpulo fiel, deixar-se formar por esse divino pedagogo. Esse tema da obra salvadora como educa\u00e7\u00e3o ou ilumina\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a perder seu vigor com a cr\u00edtica de Agostinho aos pelagianos, que propunham a salva\u00e7\u00e3o pela pr\u00e1tica dos ensinamentos e a imita\u00e7\u00e3o dos exemplos de Cristo. Para Agostinho, na linha de S\u00e3o Paulo em sua cr\u00edtica \u00e0 confian\u00e7a na Lei, era preciso algo mais transformador, algo que nos libertasse do poder do pecado do mundo e, assim, nos predispusesse a viver de acordo com os ensinamentos de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m relacionado \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o est\u00e1 o tema da diviniza\u00e7\u00e3o ou deifica\u00e7\u00e3o (RYAN, 2020, p. 94-97). O Verbo se fez homem para que n\u00f3s, humanos, nos tornemos divinos. Pela diviniza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 mais do que a justifica\u00e7\u00e3o ou o perd\u00e3o dos pecados, o ser humano compartilha da pr\u00f3pria vida de Deus, vive em comunh\u00e3o com ele, torna-se filho por ado\u00e7\u00e3o. Trata-se de um maravilhoso interc\u00e2mbio: Deus se diminui para compartilhar a vida humana, a fim de que n\u00f3s possamos compartilhar a vida divina, que \u00e9 incorrupt\u00edvel e imortal. Essa diviniza\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, portanto, n\u00e3o por causa de algum dom humano natural, mas por pura gra\u00e7a divina, alcan\u00e7ada no decorrer de um longo processo de assimila\u00e7\u00e3o a Cristo a partir do batismo e pela viv\u00eancia dos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia da soteriologia fundamentada na encarna\u00e7\u00e3o de Jesus, com suas subteorias centradas na educa\u00e7\u00e3o e na diviniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o diminui o impacto da centralidade da morte de Jesus como predominante nas explica\u00e7\u00f5es da a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica em favor da humanidade. Em sua grande explana\u00e7\u00e3o da obra divina da encarna\u00e7\u00e3o, assim se expressa Atan\u00e1sio de Alexandria (\u2020373), apontando para a morte salvadora do Senhor:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vendo todos os homens sujeitos \u00e0 morte, ele teve piedade de nossa ra\u00e7a e miseric\u00f3rdia de nossa fraqueza; condescendeu com nossa corrup\u00e7\u00e3o e n\u00e3o suportou que a morte dominasse sobre n\u00f3s, a fim de n\u00e3o perecer a criatura nem se inutilizar a obra realizada pelo Pai, em benef\u00edcio dos homens. O Verbo tomou, por isso, um corpo igual ao nosso (&#8230;) e o entregou \u00e0 morte, em prol de todos, apresentando-o ao Pai. Agiu desta maneira por filantropia. Desta maneira, uma vez que todos nele morrem, a senten\u00e7a de corrup\u00e7\u00e3o proferida contra os homens ser\u00e1 ab-rogada, ap\u00f3s ter sido inteiramente consumada no corpo do Senhor (ATAN\u00c1SIO, 2002, p. 134-135).<\/p>\n<\/blockquote>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>4 <\/strong><strong>Salva\u00e7\u00e3o pelo minist\u00e9rio p\u00fablico do Enviado do Pai<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro modo de apresentar a salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo enfoca o seu minist\u00e9rio p\u00fablico, em particular a proclama\u00e7\u00e3o do Reino de Deus (RYAN, 2020, p. 55-59). No discurso program\u00e1tico do in\u00edcio de seu minist\u00e9rio (Lc 4,18-19), Jesus se apresenta como enviado do Pai dizendo a que veio: trazer a boa-nova aos pobres, libertar os prisioneiros, recuperar a vista aos cegos, proclamar o ano de gra\u00e7a do Senhor. Em todo o seu minist\u00e9rio p\u00fablico, Jesus cura doentes, expulsa dem\u00f4nios, perdoa pecadores, sacia a fome de multid\u00f5es, chama homens simples e rudes para serem seus ap\u00f3stolos, inclui mulheres em seu grupo de seguidores, coloca-se do lado dos pobres e exclu\u00eddos da religi\u00e3o e da sociedade (FELLER, 1995, p. 55-74). Em Jesus de Nazar\u00e9, Deus se fez pr\u00f3ximo e companheiro dos marginalizados e oprimidos de toda sorte. <a href=\"https:\/\/blog.cancaonova.com\/discipulosemissionarios\/2009\/08\/03\/jesus-disse-%e2%80%9ceu-nao-vim-para-julgar-o-mundo-mas-para-salva-lo%e2%80%9d-jo-1247\/\">Ele n\u00e3o veio \u201cpara julgar o mundo, mas para salv\u00e1-lo\u201d<\/a> (Jo 12,47). Os exclu\u00eddos da vida religiosa e social foram os prediletos de Jesus, destinat\u00e1rios do an\u00fancio do Reino, escolhidos como sujeitos da constru\u00e7\u00e3o do novo povo de Deus, caminho privilegiado da revela\u00e7\u00e3o de Deus a todos. Na op\u00e7\u00e3o de Jesus pelos pobres, se descobre a vontade divina de salva\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O an\u00fancio do Reino de Deus por Jesus indica que algo n\u00e3o est\u00e1 bem na hist\u00f3ria humana: h\u00e1 pessoas em situa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o salva\u00e7\u00e3o, h\u00e1 poderes ativos na obra da cria\u00e7\u00e3o divina que s\u00e3o opostos a Deus, h\u00e1 agentes humanos que, embora criados por Deus e para Deus, agem contra o ser e o agir de Deus. No an\u00fancio do Reino de Deus, que se liga intrinsecamente \u00e0 sua pessoa, Jesus est\u00e1 indicando que Deus vem para salvar. \u00c9 certo que \u201ca mensagem de Jesus se focalizava em um futuro advento de Deus para reinar, um tempo em que ele se manifestaria em toda a sua gl\u00f3ria e for\u00e7a transcendentes para reunir e salvar seu povo de Israel, pecador, por\u00e9m arrependido\u201d (MEIER, 1997, p. 91). Mas o Reino de Deus n\u00e3o tinha s\u00f3 uma dimens\u00e3o futura; ele j\u00e1 estava acontecendo, j\u00e1 se fazia presente na pr\u00f3pria pessoa, nas palavras e a\u00e7\u00f5es salv\u00edficas de Jesus, que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">aponta para o poder soberano de Deus, revelado de forma clara nos exorcismos (e em outras obras salv\u00edficas) que ele realiza e que mostram cabalmente que o Reino de Deus j\u00e1 chegou, ao menos para os que experimentaram na pr\u00f3pria carne a poderosa manifesta\u00e7\u00e3o de Deus derrotando o mal (MEIER, 1997, p. 256).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para maior clareza, poder\u00edamos dizer que o Reino de Deus pregado por Jesus \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o dos sonhos divinos, transformados em sonhos humanos, em tr\u00eas grandes condi\u00e7\u00f5es que expressam a realidade de salva\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se excluem, n\u00e3o se escalonam, mas se exigem mutuamente. H\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima, que se manifesta no cuidado com a vida f\u00edsica, na sa\u00fade e bem-estar do corpo, na posse dos bens materiais necess\u00e1rios \u00e0 integridade da exist\u00eancia: comida, casa, sa\u00fade, trabalho, seguran\u00e7a etc. Grande parte das obras de Jesus concentrou-se na solu\u00e7\u00e3o-salva\u00e7\u00e3o de problemas f\u00edsicos, materiais: cura de doen\u00e7as, multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es, exorcismos. De fato, sem essa condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima, o Reino de Deus fica sem base, sem ch\u00e3o. Como ser feliz sem as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de vida digna? Mas, isso n\u00e3o \u00e9 suficiente. A felicidade humana aponta para uma express\u00e3o mais densa de salva\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, que se mostra no cultivo do esp\u00edrito, no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, na liberdade de locomo\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o, nas express\u00f5es art\u00edsticas, esportivas, culturais, na promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, pessoais e sociais, na constru\u00e7\u00e3o da cidadania, na organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, na seguran\u00e7a e na paz. Tamb\u00e9m aqui vemos a prega\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o de Jesus: as bem-aventuran\u00e7as, o mandamento do amor ao pr\u00f3ximo, as par\u00e1bolas, a acolhida e o perd\u00e3o aos pecadores, a vida de ora\u00e7\u00e3o. De fato, de que adianta ter comida, se n\u00e3o h\u00e1 tranquilidade e paz, se n\u00e3o h\u00e1 comunh\u00e3o? Mas, a posse de bens materiais e espirituais ainda \u00e9 pouco para a felicidade humana. O ser humano tem dentro de si um desejo de absoluto, de salva\u00e7\u00e3o eterna, um vazio que s\u00f3 ser\u00e1 preenchido no encontro definitivo com Deus. H\u00e1, por isso, uma condi\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e \u00faltima para a realiza\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, que Jesus indicava sem deixar ambiguidades: a ressurrei\u00e7\u00e3o final, a posse dos bens eternos, a vida eterna, a conviv\u00eancia feliz no c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino de Deus \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus, no seu modo de ser e de agir. Ele \u00e9 a media\u00e7\u00e3o suprema da felicidade humana, das salva\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e da salva\u00e7\u00e3o eterna. \u00c9 o Reino de Deus no meio de n\u00f3s (Lc 17,21). Em sua pessoa e pr\u00e1xis, o Reino foi anunciado e iniciado, a salva\u00e7\u00e3o foi realizada, ainda que embrionariamente, em favor dos \u00faltimos e, a partir deles, em favor de todos.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Salva\u00e7\u00e3o pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Redentor<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o morreu por acaso, nem por doen\u00e7a, nem por acidente. Embora a comunidade crist\u00e3 v\u00e1 dizer que sua cruz se explica pelos des\u00edgnios da presci\u00eancia de Deus (At 2,23; 4,28), \u00e9 preciso, contudo, considerar os fatores hist\u00f3ricos. Jesus foi levado \u00e0 morte por causa do an\u00fancio do Reino de Deus, o que implicava tamb\u00e9m o an\u00fancio de outra imagem de Deus. Seja o an\u00fancio do Reino de inclus\u00e3o e igualdade, de perd\u00e3o e liberdade, seja o an\u00fancio de Deus como Pai de ternura, compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia, isso incomodou os chefes religiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio de seu minist\u00e9rio p\u00fablico e no decorrer de sua miss\u00e3o de anunciar o Reino e denunciar as pr\u00e1ticas idol\u00e1tricas do antirreino propagadas pelos chefes religiosos, Jesus foi perseguido. Foi ficando cada vez mais clara, para Jesus, a percep\u00e7\u00e3o de que a realiza\u00e7\u00e3o da vontade do Pai teria que passar pela entrega de sua vida. Mesmo que os evangelhos reflitam a interpreta\u00e7\u00e3o das comunidades crist\u00e3s, h\u00e1 s\u00f3lidas evid\u00eancias de que o Jesus terreno revelou ter consci\u00eancia do significado salv\u00edfico de sua morte (RYAN, 2020, p. 60-64). \u00c9 o que se pode notar na indica\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o veio para ser servido mas para servir (Mc 10,45), nos an\u00fancios da paix\u00e3o (Mc 8,31; 9,31; 10,32-34), nos relatos da institui\u00e7\u00e3o da eucaristia, em que ele manifesta a confian\u00e7a de que sua morte servir\u00e1 para a restaura\u00e7\u00e3o de Israel e a renova\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a divina (Mt 26,26-30; Mc 14,22-26; Lc 22,14-20), e na ora\u00e7\u00e3o no Gets\u00eamani, na qual ele entrega sua vida \u00e0quele a quem chamava de<em> Abb\u00e1<\/em> (Mt 26,36-45; Mc 14,32-42; Lc 22,39-46). O pr\u00f3prio Jesus \u2013 e n\u00e3o apenas a comunidade crist\u00e3 \u2013 deve ter lido sua morte \u00e0 luz de textos prof\u00e9ticos: o mart\u00edrio de um judeu fiel poderia expiar os pecados do povo (2Mc 7,37-38), o supl\u00edcio do servo sofredor exerce o papel de sofrimento vic\u00e1rio no plano de Deus (Is 52,13\u201353,12). A confiss\u00e3o de f\u00e9 dos primeiros crist\u00e3os de que a morte de Jesus tem poder salv\u00edfico (1Ts 5,10; Rm 4,25; 1Cor 15,3) certamente se fundamenta em atitudes e palavras do pr\u00f3prio Jesus.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.1 A morte como oferta sacrificial<\/em><\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ligada \u00e0 morte, a ideia de sacrif\u00edcio foi bastante \u00fatil para os Santos Padres explicarem o modo como se d\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano por Jesus Cristo (RYAN, 2020, p. 97-100). Clemente de Roma ensinava que o sangue de Cristo foi precioso para o Pai, j\u00e1 que foi derramado para a expia\u00e7\u00e3o do pecado humano e trouxe a gra\u00e7a do arrependimento. Atan\u00e1sio ensinava que Jesus, oferecendo-se a si mesmo como sacrif\u00edcio sem mancha, entregou-se \u00e0 morte no lugar de todos os seres humanos, para acertar as contas com a morte e libert\u00e1-los das consequ\u00eancias da primeira transgress\u00e3o. Segundo Ambr\u00f3sio, por sua auto-oferenda, Jesus redimiu a carne humana, que era sujeita ao pecado. Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, nas homilias sobre a Carta aos Hebreus, se refere \u00e0 morte de Cristo como sacrif\u00edcio de propicia\u00e7\u00e3o para comprar o fim da raiva de Deus. De modo diverso, Agostinho afirma que o sacrif\u00edcio de Cristo n\u00e3o foi para aplacar a ira de um Deus furioso, mas consequ\u00eancia de sua encarna\u00e7\u00e3o, que implicava a manifesta\u00e7\u00e3o de sua solidariedade plena, at\u00e9 a morte na cruz, com a humanidade ferida e perdida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o sacrif\u00edcio de Cristo, tamb\u00e9m a comunidade crist\u00e3 se oferece em sacrif\u00edcio na eucaristia, por meio do sumo sacerdote Jesus Cristo, que se ofereceu a Deus em sua paix\u00e3o por n\u00f3s, na forma de servo, para que pud\u00e9ssemos participar de sua cabe\u00e7a gloriosa e, assim, praticar as boas obras que s\u00e3o o verdadeiro sacrif\u00edcio a ser oferecido a Deus.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.2 A morte como expia\u00e7\u00e3o dos pecados<\/em><\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00fanico, verdadeiro, sumo e eterno sacerdote, Cristo oferece-se a si mesmo como v\u00edtima pascal. Assim, ele supera a institui\u00e7\u00e3o cultual do Antigo Testamento, ligada ao Templo e aos sacrif\u00edcios, indicando que, como a Lei, tampouco o culto salva. O \u00fanico ato salvador a assegurar, de uma vez por todas (Hb 7,27; 9,12.26.28; 10,10), o perd\u00e3o dos pecados e a comunh\u00e3o com Deus \u00e9 a morte sacrificial de Jesus, que veio para servir e dar a sua vida por n\u00f3s (Mt 20,28), para derramar o seu sangue e nos purificar do pecado (1Jo 1,7), para nos resgatar a todos do poder do mal (1Tm 2,6). Em lugar de uma a\u00e7\u00e3o sagrada realizada no recinto do Templo e com rituais precisos (Lv 1-15) que mediassem o desejo humano de expia\u00e7\u00e3o (Hb 9,1-10), o sacrif\u00edcio de Jesus acontece fora do Templo e da cidade santa, como assassinato de um malfeitor (Hb 13,12). Este \u00e9 o verdadeiro culto a Deus, que responde plenamente aos anseios de expia\u00e7\u00e3o, pois abre o caminho para o repouso divino e a heran\u00e7a eterna. O grande ritual de expia\u00e7\u00e3o, que visava libertar Israel de seus pecados e restabelecer a alian\u00e7a do povo com Deus (Lv 16), realiza-se definitivamente em Jesus Cristo, que carregou o pecado do mundo e o expiou com seu pr\u00f3prio sangue (Hb 9,6-14). Substitui-se a pr\u00e1tica sacrificial de animais pela oferta de um \u00fanico mediador entre Deus e os seres humanos (Hb 9,1-15), o \u00fanico santu\u00e1rio, o \u00fanico sacerdote, o \u00fanico sacrif\u00edcio realmente agrad\u00e1vel a Deus, n\u00e3o o sacrif\u00edcio simb\u00f3lico celebrado com ritos religiosos, mas o sacrif\u00edcio real da vida inteira doada em favor dos irm\u00e3os. Com sua morte sacrificial na cruz, Cristo supera todos os ritos e sacrif\u00edcios da antiga alian\u00e7a (Hb 10,1-10). \u201cAssim, ele suprime o primeiro para estabelecer o segundo\u201d (Hb 10,9). Por isso, a cidade nova \u2013 a Igreja, o c\u00e9u \u2013 n\u00e3o precisa de santu\u00e1rio, \u201cpois o seu santu\u00e1rio \u00e9 o pr\u00f3prio Senhor, o Deus todo-poderoso, e o Cordeiro\u201d (Ap 21,22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed o convite a que os crist\u00e3os superem a neglig\u00eancia (Hb 2,1), a incredulidade (Hb 3,12-13), a imaturidade espiritual (Hb 5,11-12) e saiam do recinto sagrado (Hb 13,13) para entrar em contato com o mundo onde se encontra o Cristo humilhado, que n\u00e3o se envergonha de ser nosso irm\u00e3o (Hb 2,11) e continua a carregar a sua cruz no meio dos pobres. Assim, os fi\u00e9is alcan\u00e7am a salva\u00e7\u00e3o em assemelhar-se a Jesus, em sua pr\u00e1tica de amor ao pr\u00f3ximo, no amar at\u00e9 o fim, at\u00e9 a doa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.3 A morte como pagamento do resgate do cativeiro<\/em><\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da ideia de sacrif\u00edcio, tamb\u00e9m a no\u00e7\u00e3o de resgate serviu para os Santos Padres apresentarem sua explica\u00e7\u00e3o soteriol\u00f3gica. Servindo-se da passagem de Mc 10,45 (\u201co Filho do homem n\u00e3o veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos\u201d), alguns Padres da Igreja ensinam que, com sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus triunfa sobre o mal e resgata a humanidade que estava cativa, sob o poder do diabo. Greg\u00f3rio de Nissa afirma que a humanidade, com o pecado, havia se vendido a Satan\u00e1s, o qual passou a ter direito sobre n\u00f3s. Por quest\u00e3o de justi\u00e7a, portanto, Deus precisava dar ao diabo, senhor da humanidade, a oportunidade de pedir o que quisesse como pre\u00e7o pelo resgate do ser humano. O diabo pediu o que era mais valioso do que a ra\u00e7a humana: o sangue do Nazareno, nascido de uma virgem e realizador de tantos milagres. Mas enganou-se porque n\u00e3o enxergara a divindade escondida dentro da humanidade do Senhor. Ao ressuscitar dos mortos, Jesus engana o diabo e o vence, e, unindo ao seu corpo toda a ra\u00e7a humana, a resgata do cativeiro diab\u00f3lico. Para Agostinho, o diabo adquiriu direitos sobre a humanidade com o pecado dos primeiros pais. Por um ato de justi\u00e7a e n\u00e3o de poder, Deus liberta a ra\u00e7a humana com a humildade de Cristo na encarna\u00e7\u00e3o, quando este n\u00e3o s\u00f3 se torna semelhante a n\u00f3s, mas, embora inocente, assume tamb\u00e9m nosso sofrimento. Por ter matado um homem inocente, o diabo perdeu os direitos sobre a humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, essa ideia do resgate n\u00e3o foi assimilada por todos. Greg\u00f3rio Nazianzeno considera um ultraje chocante imaginar que o sangue de Cristo fosse o pagamento dado ao diabo pela liberta\u00e7\u00e3o do ser humano; de modo diverso, ele entendia que o Pai aceitou a oferenda livre de Cristo n\u00e3o por exig\u00eancia do diabo, mas porque, na economia da salva\u00e7\u00e3o, a humanidade deveria ser santificada pela humanidade de Deus, para que pudesse nos libertar vencendo o poder do tirano e nos conduzindo a si pela media\u00e7\u00e3o do Filho.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.4 A morte como presta\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o a Deus<\/em><\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Anselmo da Cantu\u00e1ria, temos a passagem do uso de imagens ou met\u00e1foras para a elabora\u00e7\u00e3o de uma teoria soteriol\u00f3gica da satisfa\u00e7\u00e3o (RYAN, 2020, p. 109-121). Ele quer oferecer uma elucida\u00e7\u00e3o racional dos mist\u00e9rios da f\u00e9 e responder a pensadores judeus que julgavam ofensiva \u00e0 dignidade e \u00e0 impassibilidade de Deus a ideia de encarna\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o t\u00edtulo de sua obra principal: <em>Cur Deus homo?<\/em> (Por que Deus se fez homem?). Seu argumento soteriol\u00f3gico se contextualiza na \u00e9poca feudal, em que a submiss\u00e3o \u00e0 vontade da autoridade superior era essencial para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem social e, portanto, em caso de ofensa \u00e0 autoridade era exigida satisfa\u00e7\u00e3o correspondente ao status social do ofendido. Situa-se ainda no contexto do sistema penitencial, em que havia penit\u00eancias prescritas para pecados espec\u00edficos em vista da satisfa\u00e7\u00e3o para a repara\u00e7\u00e3o dos pecados. A satisfa\u00e7\u00e3o oferecida pelo ofensor \u00e0 autoridade e pelo pecador a Deus passou a ser uma analogia natural para explicar o sacrif\u00edcio de Cristo em favor da reden\u00e7\u00e3o da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anselmo pressup\u00f5e a cren\u00e7a crist\u00e3 de que Deus criou a humanidade para a felicidade eterna, o que requer a submiss\u00e3o completa da vontade humana aos planos divinos. Ao pecar, todos recusaram essa submiss\u00e3o, desonrando Deus e, em consequ\u00eancia, perturbando a ordem do universo. A supera\u00e7\u00e3o do pecado envolve, portanto, a restaura\u00e7\u00e3o da honra divina e o restabelecimento da harmonia do universo. Para isso h\u00e1 dois caminhos, o castigo divino ou a presta\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o a Deus. O castigo \u00e9 uma ideia inconceb\u00edvel, pois contraria o desejo divino de que todos alcancem a bem-aventuran\u00e7a eterna. A presta\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o por parte do ser humano \u00e9 imposs\u00edvel, pois sendo infinita a dignidade de Deus \u00e9 tamb\u00e9m infinita a ofensa contra ele e, portanto, a humanidade \u00e9 incapaz de cobrir a dist\u00e2ncia entre o pecado cometido e a honra ofendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por quest\u00e3o de justi\u00e7a e por respeito \u00e0 liberdade e \u00e0 responsabilidade humanas, Deus n\u00e3o pode desconsiderar a ofensa e, portanto, a exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Por miseric\u00f3rdia, Deus quer levar adiante o seu plano de ter todos consigo na felicidade eterna. A sa\u00edda do impasse encontra-se na encarna\u00e7\u00e3o de Deus. A presta\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 feita por algu\u00e9m que \u00e9 ao mesmo tempo Deus perfeito e homem perfeito. A d\u00edvida \u00e9 paga por algu\u00e9m da ra\u00e7a humana, que sendo Deus apresenta-se como oferenda correspondente ao status divino daquele cuja honra foi ofendida. Como a morte \u00e9 efeito do pecado, o Filho eterno de Deus n\u00e3o precisava morrer, mas livremente quis entregar-se \u00e0 morte para satisfazer a honra divina; por este ato extremo de liberdade pessoal e de obedi\u00eancia ao Pai, sua auto-oferenda tem valor infinito, maior do que todo o pecado da humanidade. Sua morte presta satisfa\u00e7\u00e3o apropriada para Deus e produz a reden\u00e7\u00e3o de toda a ra\u00e7a humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com leves nuances de diferen\u00e7a, Tom\u00e1s de Aquino acolhe a teoria de satisfa\u00e7\u00e3o, enquanto considera que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">sofrendo por amor e por obedi\u00eancia, Cristo ofereceu a Deus mais do que exigia a compensa\u00e7\u00e3o de todas as ofensas do g\u00eanero humano. (&#8230;) Portanto, a paix\u00e3o de Cristo foi uma satisfa\u00e7\u00e3o pelos pecados humanos n\u00e3o s\u00f3 suficiente, mas superabundante. (TOM\u00c1S DE AQUINO, 2002, p. 693)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas explica\u00e7\u00f5es da salva\u00e7\u00e3o pela morte \u2013 sacrif\u00edcio, expia\u00e7\u00e3o, resgate, satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 sempre se correlacionam com a ressurrei\u00e7\u00e3o. Se Cristo n\u00e3o tivesse ressuscitado, sua morte n\u00e3o teria poder salv\u00edfico. O primeiro efeito salv\u00edfico da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor manifestou-se nos disc\u00edpulos. A experi\u00eancia pascal do encontro com o Cristo ressuscitado fez os disc\u00edpulos vivenciarem, tamb\u00e9m eles, sua P\u00e1scoa particular: de medrosos e trancados em casa tornaram-se corajosos e ousados no an\u00fancio da ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. Passaram a professar a inaugura\u00e7\u00e3o, ainda que provis\u00f3ria, do Reino de Deus pregado por Jesus. A morte do mestre foi aceita pelo Pai, que se vingou dos mandantes e assassinos libertando a v\u00edtima do poder da morte e dando-lhe um novo modo de viver. Assim, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus revela o significado universal da pessoa, da mensagem e da obra salvadora de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender o minist\u00e9rio p\u00fablico do an\u00fancio do Reino sem o destino de morte, tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 para separar a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o. Surgiu muito cedo na comunidade uma interpreta\u00e7\u00e3o soteriol\u00f3gica da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, como dois eventos que se explicam mutuamente: em Jesus n\u00e3o h\u00e1 morte sem ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o sem morte. Sua morte n\u00e3o \u00e9 vista apenas como acontecimento hist\u00f3rico, mas como evento salv\u00edfico: ele morreu por nossos pecados, como parte integrante da vontade salvadora de Deus. Sua ressurei\u00e7\u00e3o, em conex\u00e3o com a morte, \u00e9 vista como intr\u00ednseca \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do des\u00edgnio salvador de Deus.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Salva\u00e7\u00e3o pela recapitula\u00e7\u00e3o do Cristo Cabe\u00e7a<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A renova\u00e7\u00e3o da humanidade e do mundo \u00e9 um dos conceitos soteriol\u00f3gicos centrais do Novo Testamento. Os primeiros crist\u00e3os estavam convencidos de que em Cristo a humanidade e a hist\u00f3ria ganharam um novo come\u00e7o. No hino cristol\u00f3gico da Carta aos Ef\u00e9sios (3,1-10), Paulo bendiz a Deus porque em Cristo todas as coisas s\u00e3o recapituladas. Essa doutrina est\u00e1 biblicamente fundamentada no ensinamento paulino do novo Ad\u00e3o (Rm 5,12-21; 1Cor 15,20-28.45-49), o qual supera em gra\u00e7a e salva\u00e7\u00e3o os efeitos nocivos do pecado do primeiro Ad\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doutrina da recapitula\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente desenvolvida por Irineu de Li\u00e3o. (RYAN, 2020, p. 90-92). Contra o pensamento gn\u00f3stico, a recapitula\u00e7\u00e3o carrega a inten\u00e7\u00e3o de unir cria\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o: a a\u00e7\u00e3o salvadora de Deus em Cristo inicia-se com a cria\u00e7\u00e3o, continua com a reden\u00e7\u00e3o e realiza-se plenamente na recapitula\u00e7\u00e3o. Segundo Irineu, ao fazer-se carne o Verbo divino uniu-se a toda a humanidade, santificou todos os est\u00e1gios da vida humana e inaugurou, assim, uma ra\u00e7a redimida. Como cabe\u00e7a da Igreja e da humanidade, por sua obedi\u00eancia ele desfez os la\u00e7os que nos prendiam \u00e0 desobedi\u00eancia e reorientou todas as coisas a si. Agora, todos os seres humanos e, mesmo, todas as coisas, est\u00e3o orientados para Cristo, encontram em Cristo seu sentido, foram recapitulados, reencabe\u00e7ados em Cristo (IRINEU, 1995, p 349-351). Por sua obedi\u00eancia, Cristo restaura na humanidade a semelhan\u00e7a divina que havia sido perdida pela desobedi\u00eancia, incorporando a si toda a hist\u00f3ria humana. Se a desobedi\u00eancia do primeiro Ad\u00e3o teve abrang\u00eancia universal, a obedi\u00eancia do novo Ad\u00e3o tem alcance ainda maior e abra\u00e7a todos, tornando-se o ponto m\u00e1ximo da hist\u00f3ria humana. Ele perfez todo o caminho da hist\u00f3ria, assumindo a condi\u00e7\u00e3o humana em todas as suas dimens\u00f5es, mas n\u00e3o as contaminando com o pecado (Hb 4,15). Mesmo que nele n\u00e3o houvesse pecado (1Jo 3,5; 1Pd 2,22), ele fez-se pecado por n\u00f3s para que f\u00f4ssemos justificados (2Cor 5,21). Assim, Jesus Cristo imprime na humanidade sua vit\u00f3ria sobre o mal, o pecado e a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa perspectiva da salva\u00e7\u00e3o pela recapitula\u00e7\u00e3o, que, tendo sua origem no Oriente crist\u00e3o, percorreu o subterr\u00e2neo da teologia e da espiritualidade do Ocidente, \u00e9 reassumida nos tempos modernos por grande n\u00famero de te\u00f3logos. Foi adotada em suas grandes linhas pela <em>Gaudium et Spes<\/em>, onde ganhou foros de oficialidade em documento conciliar. Ela se reflete, por exemplo, nos quatro cap\u00edtulos da parte doutrinal do documento. Com efeito, quase que como luz no fim do t\u00fanel, que esclarece todo o caminho anteriormente percorrido, Cristo, homem novo (GS 22), ilumina a doutrina sobre a dignidade da pessoa humana (GS 12-21); o Verbo encarnado (GS 32) elucida a doutrina sobre a comunidade humana (GS 23-31); o Cristo recapitulador do novo c\u00e9u e da nova terra (GS 39) explica o sentido da atividade humana no mundo (GS 33-38); o Cristo, alfa e \u00f4mega (GS 45), interpreta a fun\u00e7\u00e3o da Igreja no mundo (GS 40-44). A perspectiva da recapitula\u00e7\u00e3o v\u00ea o sentido da encarna\u00e7\u00e3o de Cristo n\u00e3o apenas na liberta\u00e7\u00e3o do mal, mas sobretudo no aperfei\u00e7oamento do bem que est\u00e1 presente em toda a cria\u00e7\u00e3o. Incluindo evidentemente a reden\u00e7\u00e3o como liberta\u00e7\u00e3o do mal, a perspectiva da recapitula\u00e7\u00e3o de tudo em Cristo tem maior abrang\u00eancia, \u00e9 mais otimista, oferece maior respiro m\u00edstico para uma teologia que dialoga com as demais igrejas, com as religi\u00f5es e culturas, e est\u00e1 atenta aos grandes desafios da hist\u00f3ria.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>7 O an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o em Cristo no contexto atual<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">No an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o em Cristo no atual contexto de pobreza crescente, de desmonte da democracia e das pol\u00edticas p\u00fablicas, de pluralismo religioso e de uso abusivo da religi\u00e3o para a manipula\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias para justificar a viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o, a matan\u00e7a de inocentes, \u00e9 preciso ter em conta o pressuposto b\u00e1sico da singularidade de Jesus no contexto de suas rela\u00e7\u00f5es (TAVARES, 2004, p. 515-147), isto \u00e9, o retorno ao humano de Jesus de Nazar\u00e9 (TORRES QUEIRUGA, 1999, p. 305-310), \u00e0 humanidade de Jesus como caminho para nossa realiza\u00e7\u00e3o pessoal e para a constru\u00e7\u00e3o de um novo mundo. Essa concretude hist\u00f3rica \u00e9, na verdade, algu\u00e9m situado no tempo e no espa\u00e7o, um homem de conflitos, com causas e op\u00e7\u00f5es bem definidas, com rela\u00e7\u00f5es diferenciadas diante dos pobres e dos poderosos, com crises, ren\u00fancias e enigmas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, com pr\u00e1ticas provocadoras que o levaram a ser condenado \u00e0 morte. Somente a partir da humanidade de Jesus haver\u00e1 sentido afirmar o \u201cmist\u00e9rio da gra\u00e7a\u201d do cristianismo, \u201co ponto essencial onde o cristianismo se diferencia das outras religi\u00f5es\u201d, porque \u00e9 no homem de Nazar\u00e9 que se revela a vinda de Deus, que se cumpre \u201co an\u00e9lito presente em todas as religi\u00f5es da humanidade\u201d; nele \u201co homem (<em>vivens homo<\/em>) \u00e9 epifania da gl\u00f3ria de Deus, chamado a viver da plenitude da vida em Deus\u201d (JO\u00c3O PAULO II, 1994, p. 11-12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do retorno \u00e0 humanidade hist\u00f3rica de Jesus, pode-se captar melhor a rela\u00e7\u00e3o entre a salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e a op\u00e7\u00e3o pelos pobres (FELLER, 2005, p. 56-78). \u00c9 preciso colher a humanidade de Jesus naquilo em que ela se revelou mais dram\u00e1tica, a ponto de se poder afirmar que esse homem seja Deus e, portanto, o salvador da humanidade. O Deus do judeu-cristianismo \u00e9 um Deus que busca o ser humano, que vem ao encontro de cada ser humano e da humanidade em geral. At\u00e9 o ponto de tornar-se um de n\u00f3s. A f\u00e9 crist\u00e3 confessa que, para conhec\u00ea-lo, o ser humano precisa do aux\u00edlio especial de uma revela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi com a sabedoria do mundo, com o poder do dinheiro e a for\u00e7a do mando que o cristianismo conseguiu chegar a todos os povos. Tamb\u00e9m hoje, n\u00e3o ser\u00e1 com o poder da raz\u00e3o, da lei, do triunfo, que sempre aninham pretens\u00f5es de exclusividade, que o cristianismo conseguir\u00e1 propor a salva\u00e7\u00e3o de Cristo aos pobres, aos membros de outras religi\u00f5es, \u00e0 sociedade secular. Mas, sim, desde a pequenez, a pobreza e o mart\u00edrio. Estas atitudes nos recordam que \u201co servi\u00e7o da miss\u00e3o \u00e9 o gozo de uma Igreja que anuncia ao ser humano de hoje, que \u00e9 um filho de Deus em Cristo, que se compromete na liberta\u00e7\u00e3o de todo homem e de todos os homens\u201d (MARADIAGA, 2004, p. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia da liberta\u00e7\u00e3o, inspirada na hist\u00f3ria multissecular da caridade crist\u00e3, nas a\u00e7\u00f5es pastorais das comunidades eclesiais de base e nos ensinamentos do episcopado latino-americano, enfocou sua reflex\u00e3o na op\u00e7\u00e3o pelos pobres. Sistematizou, assim, a mensagem do cristianismo ao redor do lugar central que ocupam os pobres, como prediletos da mensagem e da pr\u00e1tica de Jesus de Nazar\u00e9. Tamb\u00e9m a mensagem da salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo se compreende a partir da op\u00e7\u00e3o pelos pobres. A centralidade dos pobres como destinat\u00e1rios e, a partir da\u00ed, tamb\u00e9m sujeitos do Reino de Deus, torna-se chave de leitura para compreender a amplitude desse mesmo Reino, em favor da inclus\u00e3o, em seu interior, de gente de todos os povos, culturas e religi\u00f5es (AQUINO J\u00daNIOR, 2004, p. 515-554). Para o entendimento desta centralidade vale a cita\u00e7\u00e3o do exegeta alem\u00e3o J. Jeremias:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a constata\u00e7\u00e3o de que Jesus proclamou a aurora da consuma\u00e7\u00e3o do mundo n\u00e3o descrevemos ainda completamente sua prega\u00e7\u00e3o da <em>basileia<\/em>. Pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o mencionamos ainda o tra\u00e7o essencial (&#8230;) a oferta de salva\u00e7\u00e3o que Jesus faz aos pobres (&#8230;). O Reino pertence <em>unicamente aos pobres<\/em>. (JEREMIAS apud SOBRINO, 1994, p. 124)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pobres s\u00e3o, com efeito, os primeiros e \u00fanicos destinat\u00e1rios da mensagem de Jesus, ungido pelo Esp\u00edrito \u201cpara anunciar a Boa-Nova aos pobres\u201d (Lc 4,18). Sinal de que Jesus \u00e9 o Messias \u00e9: \u201caos pobres se anuncia a Boa-Nova\u201d (Lc 7,22; Mt 11,5). A primeira bem-aventuran\u00e7a de Jesus \u00e9: \u201cfelizes v\u00f3s, os pobres, porque vosso \u00e9 o Reino de Deus\u201d (Lc 6,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta centralidade dos pobres para a compreens\u00e3o e a pr\u00e1tica do Reino de Deus, h\u00e1 de se compreender a parcialidade do pr\u00f3prio Reino de Deus (SOBRINO, 1994, p. 128-131). Como realidade escatol\u00f3gica, o projeto salv\u00edfico de Deus em favor da humanidade e de toda a cria\u00e7\u00e3o, o Reino \u00e9 universal, aberto a todas as pessoas e a todos os povos. Revelado ao povo judeu, o Reino abriu-se, depois, a todas as na\u00e7\u00f5es, a toda criatura (Mc 16,15). Essa abertura deu-se, no entanto, pela media\u00e7\u00e3o dos pobres. N\u00e3o foram os chefes religiosos e os l\u00edderes pol\u00edticos que aceitaram e propagaram o movimento de Jesus. Ao contr\u00e1rio, se dependesse deles, o Reino de Deus teria sido sufocado como foi rejeitado e morto o seu pregador. Se o Reino de Deus teve continuidade na hist\u00f3ria, sua abertura aos povos, com a possibilidade de inser\u00e7\u00e3o em todas as culturas e de di\u00e1logo com todas as religi\u00f5es, isso se deve, no que depende da a\u00e7\u00e3o humana, aos pobres de Israel. Da parcialidade em favor dos pobres, o Reino foi aberto \u00e0 totalidade dos povos (AQUINO J\u00daNIOR, 2004, p. 518; FRAIJO, 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa totalidade, portanto, n\u00e3o ser\u00e1 devidamente entendida fora da parcialidade dos pobres, pois neles, como no servo sofredor Jesus de Nazar\u00e9, Deus continua a se revelar a n\u00f3s.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses pobres aparece o rosto de Deus, a divindade escarnecida. Que n\u00f3s seres humanos possamos ver algo de Deus neles n\u00e3o \u00e9 program\u00e1vel, mas acontece. Alguns s\u00f3 parecem exprimir o n\u00e3o ter figura humana, o n\u00e3o entesourar sua condi\u00e7\u00e3o divina, que lhes vem com a cria\u00e7\u00e3o. Esses pobres, como o Filho amado, fazem Deus presente, silencioso e escondido, mas enfim Deus. (SOBRINO, 2000, p. 290)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0J\u00e1 no Antigo Testamento, Jav\u00e9 havia se revelado como Deus de um povo oprimido. Essa parcialidade n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 negada como \u00e9 corroborada no Novo Testamento. Encontramos nas Escrituras uma s\u00e9rie de prefer\u00eancias de Deus, que revela sua parcialidade em favor de uns, precisamente ao revelar sua contrariedade diante de outros.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa parcialidade \u00e9 media\u00e7\u00e3o essencial de sua pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o. Deus n\u00e3o se revela, primeiro, como ele \u00e9 e, depois, se mostra parcial para com os oprimidos. \u00c9 antes <em>em e atrav\u00e9s de<\/em> sua parcialidade para com os oprimidos que Deus revela sua pr\u00f3pria realidade. (SOBRINO, 1994, p. 129)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus revela seu ser \u2013 quem ele \u00e9 e como ele \u00e9 \u2013 atrav\u00e9s de seu agir. Se o seu agir se concentra na liberta\u00e7\u00e3o dos pobres, h\u00e1 que se concluir, ent\u00e3o, que o ser de Deus est\u00e1 marcado pela simplicidade e pela pobreza. Se \u201cDeus \u00e9 Amor\u201d (1Jo 4,8.16), em sua comunh\u00e3o de amor n\u00e3o h\u00e1 lugar para o orgulho e a prepot\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivida em Deus, a hist\u00f3ria humana se torna uma s\u00f3 caminhada, um s\u00f3 devir humano, assumido irreversivelmente por Cristo, cuja obra salvadora passa a abranger todas as dimens\u00f5es do existir humano, mas sempre a partir das situa\u00e7\u00f5es em que a vida se encontra mais fragilizada. Por isso,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">as media\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e pol\u00edticas atuais, valorizadas por si mesmas, mudam a viv\u00eancia e a reflex\u00e3o sobre o mist\u00e9rio escondido todo o tempo e agora revelado, sobre o amor do Pai e a fraternidade humana, sobre a salva\u00e7\u00e3o que opera no tempo e d\u00e1 sua unidade profunda \u00e0 hist\u00f3ria humana. (GUTIERREZ, 1981, p. 96)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Deus, que se revela na hist\u00f3ria do pobre de Nazar\u00e9 em particular e dos pobres em geral, quer que os acontecimentos da hist\u00f3ria sejam sinais de sua presen\u00e7a salvadora e media\u00e7\u00f5es para o encontro com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa op\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus nos faz ver que \u00e9 embaixo que se situam n\u00e3o s\u00f3 as \u00e2nsias de liberdade, mas tamb\u00e9m as pr\u00e1ticas de liberta\u00e7\u00e3o, experimentadas na comunh\u00e3o e no di\u00e1logo entre as pessoas e povos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunh\u00e3o com os outros, esta igualdade que Cristo quer que n\u00f3s vivamos, se descobre por via da carne e n\u00e3o pela do esp\u00edrito. \u00c9 por meio da carne que Cristo \u00e9 nosso irm\u00e3o, nosso consangu\u00edneo, igual a n\u00f3s. E essa fraternidade, n\u00f3s a podemos descobrir no n\u00edvel mais baixo, no n\u00edvel \u00ednfimo. Enquanto existir algu\u00e9m mais baixo do que n\u00f3s, enquanto existir uma cota de \u201cprofundidade\u201d que n\u00e3o tenhamos alcan\u00e7ado, isto significa que n\u00e3o realizamos toda a fraternidade. (PAOLI, 1983, p. 16)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No empenho pelo an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o universal em Jesus Cristo, n\u00e3o se pode menosprezar a mem\u00f3ria e a pr\u00e1tica da f\u00e9 do povo pobre, que, mesmo em sua pobreza e fraqueza, subverte a ordem do mundo para criar uma nova ordem cultural e religiosa (GUTIERREZ, 1981, p. 78-85; 133-139; 245-313; SCANNONE, 1976, p. 217-252), para sonhar com a globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade, para garantir no horizonte da hist\u00f3ria que um outro mundo \u00e9 poss\u00edvel. No mesmo esp\u00edrito do seguimento de Jesus e da op\u00e7\u00e3o pelos pobres, como crit\u00e9rios b\u00e1sicos para verificar a salva\u00e7\u00e3o universal e eterna, entende-se ainda o dec\u00e1logo, tamb\u00e9m proposto pelo CELAM (2003, p. 213-229), para viver neste mundo globalizado a experi\u00eancia da a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus em nossa hist\u00f3ria: descobrir um <em>ethos<\/em> comum, uma for\u00e7a que vincule moralmente pessoas e grupos, no meio do relativismo \u00e9tico ou da aus\u00eancia total de \u00e9tica; apostar na caridade, expressa por uma real op\u00e7\u00e3o pelos pobres contra a exclus\u00e3o; reconstruir o tecido social, a partir da import\u00e2ncia da fam\u00edlia e da comunidade pol\u00edtica; promover uma cultura do acolhimento, da hospitalidade, da gratuidade; dialogar com as ci\u00eancias, com as culturas e com as religi\u00f5es, buscando e valorizando um horizonte de crescimento m\u00fatuo; democratizar a comunica\u00e7\u00e3o, sobretudo no referente ao interc\u00e2mbio de sentido; fortalecer a globaliza\u00e7\u00e3o a partir de baixo, destacando e oferecendo alternativas de promo\u00e7\u00e3o e defesa da vida para os exclu\u00eddos; acompanhar iniciativas de integra\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses pobres, em vista de um destino mundial comum; replanejar a educa\u00e7\u00e3o, como compromisso com as novas gera\u00e7\u00f5es; promover um novo modelo de desenvolvimento social e ecologicamente sustent\u00e1vel. Em tudo isso s\u00e3o expressas salva\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que s\u00e3o, por sua vez, sinais da salva\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser humano nunca est\u00e1 feliz com o que \u00e9 nem com o que tem. Busca sempre algo mais. Quer livrar-se de situa\u00e7\u00f5es insuport\u00e1veis, luta por uma vida mais confort\u00e1vel. Desde Medell\u00edn, a teologia latino-americana entende que a salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 abrange todos esses sonhos humanos e aponta para sua realiza\u00e7\u00e3o plena na eternidade. Deus est\u00e1 presente ativamente na hist\u00f3ria e faz com que as lutas humanas de liberta\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica tenham significado teol\u00f3gico. A salva\u00e7\u00e3o eterna passa pelas liberta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, embora n\u00e3o se fixe nelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio do cristianismo, como se pode perceber nos escritos do Novo Testamento, Jesus \u00e9 apontado como o salvador da humanidade. A salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo constitui-se ponto nuclear da f\u00e9 crist\u00e3. J\u00e1 no Novo Testamento e, a partir da\u00ed, nas teologias desses vinte s\u00e9culos, surgiram diversas imagens soteriol\u00f3gicas que tentaram explicar como se d\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o da humanidade em Cristo. Com enfoque na encarna\u00e7\u00e3o do Verbo eterno, aponta-se para a educa\u00e7\u00e3o ou ilumina\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is e para sua diviniza\u00e7\u00e3o. O minist\u00e9rio p\u00fablico de Jesus e seu an\u00fancio do Reino, embora pouco refletido nesses dois mil\u00eanios, vem sendo retomado nos \u00faltimos tempos como lugar expl\u00edcito da obra salv\u00edfica de Jesus. A morte redentora, vista como sacrif\u00edcio, resgate, satisfa\u00e7\u00e3o, ganhou tanto realce na explica\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Cristo que, embora sempre fosse lembrada, na realidade ficou na sombra, como que atrelada \u00e0 morte servindo-lhe de significado \u00faltimo. A recapitula\u00e7\u00e3o, que teve bastante impacto nos dois primeiros mil\u00eanios, volta a fazer-se presente na teologia atual, ganhando espa\u00e7o na teologia do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia latino-americana, com sua centralidade na op\u00e7\u00e3o pelos pobres, anuncia que a salva\u00e7\u00e3o universal e eterna tem como ponto de partida a concretude hist\u00f3rica de Jesus de Nazar\u00e9, em suas palavras e a\u00e7\u00f5es libertadoras em favor das multid\u00f5es marginalizadas. \u00c9 a partir da parcialidade dos pobres que a salva\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a a totalidade dos povos. \u00c9 a partir da historicidade dos gestos libertadores de Jesus, da Igreja e dos pobres que se aponta para a salva\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Vitor Galdino Feller. <\/em>ITESC\/FACASC. Texto original em portugu\u00eas. Submiss\u00e3o: 22\/05\/2021. Aprova\u00e7\u00e3o: 22\/10\/2021; Publica\u00e7\u00e3o: 24\/10\/2021.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">AQUINO J\u00daNIOR, F. Di\u00e1logo inter-religioso a partir dos pobres \u2013 Por uma teologia da liberta\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es. <em>Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira<\/em>, Petr\u00f3polis, v. 63, n. 252, p. 515-554, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ATAN\u00c1SIO. A encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. In: ATAN\u00c1SIO. <em>Contra os pag\u00e3os. <\/em>A encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. Apologia do imperador Const\u00e2ncio. Apologia de sua fuga. Vida e conduta de S. Ant\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002. Cole\u00e7\u00e3o Patr\u00edstica 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BATTAGLIA, V. <em>Ges\u00f9 Cristo luce del mondo<\/em>. Manuale di cristologia. Roma: Antonianum, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BORDONI, M. Singolarit\u00e0 ed universalit\u00e0 di Ges\u00f9 Cristo nella riflessione cristologica contempor\u00e2nea. In: CODA, P. (org.). <em>L\u2019Unico e i molti \u2013 <\/em>La salvezza di Ges\u00f9 Cristo e la sfida del pluralismo. Roma: Lateranense\/Mursia, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CELAM. <em>Globaliza\u00e7\u00e3o e nova evangeliza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica latina e no Caribe \u2013 <\/em>Reflex\u00f5es do CELAM 1999-2003. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">II CONFER\u00caNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO. <em>Conclus\u00f5es de Medell\u00edn<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FELLER, V. G. <em>A revela\u00e7\u00e3o de Deus a partir dos exclu\u00eddos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FELLER, V. G. <em>O sentido da salva\u00e7\u00e3o.<\/em> Jesus e as religi\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005, p. 56-78.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRAIJ\u00d3, M. <em>O cristianismo \u2013 <\/em>Uma aproxima\u00e7\u00e3o ao movimento inspirado em Jesus de Nazar\u00e9. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALVIN, J. P. Jesus Cristo. In: FIORENZA, F. S.; GALVIN, J. P. <em>Teologia sistem\u00e1tica<\/em>. Perspectivas cat\u00f3lico-romanas. v.I. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GESCH\u00c9, A. <em>Deus para pensar 2 <\/em>\u2013 O ser humano. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUTI\u00c9RREZ, G. <em>A for\u00e7a hist\u00f3rica dos pobres<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRINEU. <em>Contra as heresias<\/em>. In: IRINEU DE LI\u00c3O. <em>Livros I, II, III, IV, V<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995. Cole\u00e7\u00e3o Patr\u00edstica 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JO\u00c3O PAULO II. <em>Carta Apost\u00f3lica <\/em>Tertio Millennio Adveniente<em> sobre a prepara\u00e7\u00e3o para o jubileu do ano 2000<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARADIAGA, O. R. La missi\u00f3n desde la peque\u00f1ez, la pobreza y el mart\u00edrio. <em>Medell\u00edn<\/em>, Bogot\u00e1, v. 30, n. 117, p. 53-66, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MEIER, J. P. <em>Um judeu marginal<\/em>. Repensando o Jesus hist\u00f3rico II\/II: Mensagem. Trad. Laura Rumchinsky. Rio de Janeiro: Imago, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAOLI, A. <em>Em busca da liberdade: <\/em>castidade, obedi\u00eancia, pobreza. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RYAN, Robin. <em>Jesus e salva\u00e7\u00e3o. <\/em>Sondagens sobre a tradi\u00e7\u00e3o e a teologia contempor\u00e2nea. Trad. Cec\u00edlia Camargo Bartalotti. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCANNONE, J. C. <em>Teolog\u00eda de la liberaci\u00f3n y praxis popular<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHILLEBEECKX, E. Religi\u00e3o e viol\u00eancia. <em>Concilium <\/em>(KUSCHEL, K.-J.; BEUKEN, W.; HOUTART, F. (eds.)), v. 272, n. 4, p. 170-171, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SHORTER, A. <em>La revelaci\u00f3n y su interpretaci\u00f3n<\/em>. Madri: Paulinas, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOBRINO, J. <em>Jesus, o libertador \u2013 I. <\/em>A hist\u00f3ria de Jesus de Nazar\u00e9. Petr\u00f3polis: Vozes, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOBRINO, J. <em>A f\u00e9 em Jesus Cristo \u2013 <\/em>Ensaio a partir das v\u00edtimas. Petr\u00f3polis: Vozes, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TAVARES, S. S. A singularidade de Jesus e de sua miss\u00e3o a partir de suas distintas rela\u00e7\u00f5es. <em>Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira<\/em>, Petr\u00f3polis, v. 64, n. 255, p. 515-547, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TOM\u00c1S DE AQUINO. <em>Suma Teol\u00f3gica<\/em>. v. III. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TORRES QUEIRUGA, A. <em>Repensar a cristologia \u2013 <\/em>Sondagens para um novo paradigma. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ao perguntar-se sobre \u201co que \u00e9 um falso deus, sen\u00e3o aquele que nos remete a nossas ideias m\u00edticas todo-poderosas e portentosas, totalmente transparentes?\u201d, A. Gesch\u00e9 refere-se a Cristo como aquele que \u201cn\u00e3o quis esvaziar seus pr\u00f3prios enigmas\u201d. \u201cEle gritou numa cruz [&#8230;] o enigma de um abandono; ele desceu a um inferno, ao seu inferno de morte, e \u00e9 somente porque a\u00ed entrou, porque n\u00e3o recusou o enigma, que ele ressuscitou e recebeu resposta [&#8230;]; ele renunciou \u00e0 magia da onipot\u00eancia [&#8230;] e do milagre [&#8230;] Foi porque ele viveu at\u00e9 o fim certa agonia do sentido e da evid\u00eancia [&#8230;] que ele ganhou. Ele nos ensina que o enigma salva, constr\u00f3i, pode ser salutar [&#8230;] Todos n\u00f3s temos lutos a trabalhar e que n\u00e3o podemos evitar\u201d. (GESCH\u00c9, A. <em>Deus para pensar 2 \u2013 O ser humano<\/em>, p. 20-21)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 O que \u00e9 salva\u00e7\u00e3o? 2 A f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus Salvador 3 Salva\u00e7\u00e3o pela encarna\u00e7\u00e3o do Verbo divino 4 Salva\u00e7\u00e3o pelo minist\u00e9rio p\u00fablico do Enviado do Pai 5 Salva\u00e7\u00e3o pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Redentor 5.1 A morte como oferta sacrificial 5.2 A morte como expia\u00e7\u00e3o dos pecados 5.3 A morte como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-2488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2488"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2489,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2488\/revisions\/2489"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}