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{"id":2083,"date":"2020-12-31T17:28:09","date_gmt":"2020-12-31T19:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2083"},"modified":"2021-02-10T16:06:23","modified_gmt":"2021-02-10T18:06:23","slug":"lucas-e-atos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2083","title":{"rendered":"Lucas e Atos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Lucas, escritor por of\u00edcio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O evangelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 Um escritor de tradi\u00e7\u00e3o: Documento Q, Marcos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 Divis\u00e3o, unidade narrativa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 Teologia b\u00e1sica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3.1 Inten\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3.2 Da hist\u00f3ria de Jesus \u00e0 hist\u00f3ria da Igreja<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O livro dos Atos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 Divis\u00e3o e elementos fundamentais\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 Mensagem b\u00e1sica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o teol\u00f3gica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Lucas, escritor por of\u00edcio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final do s\u00e9culo I dC, um crist\u00e3o culto, talvez de origem pag\u00e3, que havia sido pros\u00e9lito judeu e conhecia bem a B\u00edblia Grega (os LXX), escreveu a primeira hist\u00f3ria de Jesus e de seu movimento, seguindo modelos crist\u00e3os e helen\u00edsticos anteriores.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos j\u00e1 tentaram compor uma <em>di\u00e9guesis<\/em> (relato) das coisas (<em>pragmat\u00f4n<\/em>) que aconteceram entre n\u00f3s, seguindo o que as primeiras testemunhas oculares nos transmitiram, conver\u00adtidos em servos da Palavra. De acordo com isso, eu tamb\u00e9m, depois de investigar tudo com dilig\u00eancia, desde as origens, decidi escrev\u00ea-lo em ordem, ilustre Te\u00f3filo, para que possa verificar a solidez dos ensinamentos que recebeu. (Lc 1,1-4)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s o chamamos de Lucas porque \u00e9 assim que a tradi\u00e7\u00e3o o chamou, mas ignoramos seu nome. Ele escreveu uma obra composta de duas partes (Evangelho e Atos), que estavam em princ\u00edpio unidas, mas que a Igreja posteriormente separou, como se fossem dois livros. Alguns dizem que ele escreveu sua obra em Roma, porque l\u00e1 culmina Atos, outros pensam que foi em \u00c9feso. Seja como for, ele escreve em um lugar onde se reconhecia e se aceitava dois escritos crist\u00e3os anteriores (Marcos e Q), porque ele os utiliza como base de seu escrito, e o comp\u00f5e, sem d\u00favida, a servi\u00e7o de sua Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas tamb\u00e9m conhece relatos das coisas (<em>pragmat\u00f4n<\/em>) que aconteceram \u201centre n\u00f3s\u201d, come\u00e7ando por Jesus. Ele n\u00e3o os rejeita, mas pensa que podem ser conclu\u00eddos e organizados melhor, para destacar a coer\u00eancia (solidez) da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Ele n\u00e3o inventa o que escreve, mas matiza; ele n\u00e3o cria do nada, mas organ\u00adiza e elabora o que os outros transmitiram, seja em voz alta, seja por escrito. As primeiras testemunhas da Igreja morreram, outros crist\u00e3os da gera\u00e7\u00e3o posterior tamb\u00e9m estavam morrendo. Por essa raz\u00e3o, situando-se entre a segunda e a terceira gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3, ele sentiu a necessidade de oferecer uma vis\u00e3o geral <em>dos atos que aconteceram entre n\u00f3s<\/em>, na \u00e9poca de Jesus e depois de sua morte (cf. introdu\u00e7\u00e3o aos livros de Lucas e Atos: Lc 1,1-2; At 1,1-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era escritor, conhecia a maneira de escrever de alguns autores helen\u00edsticos de seu tempo e sabia como p\u00f4r os discursos apropriados na boca das pessoas certas, na hora certa, graduando e interpretando o desenvolvimento e o significado dos atos. Mas era tamb\u00e9m um catequista crist\u00e3o. Certamente, ele escreveu aos fi\u00e9is de sua igreja, a quem queria oferecer uma vis\u00e3o confi\u00e1vel da vida e da mensagem de Jesus; por\u00e9m escreveu tamb\u00e9m para os de fora; \u00e9 talvez o \u00fanico escrito do NT endere\u00e7ado a um p\u00fablico aberto, como indica o fato de ele \u201ceditar\u201d suas obras, dedicando-as a \u201cTe\u00f3filo\u201d \u2013 que pode ser um personagem real ou simb\u00f3lico, conforme o uso de seu tempo.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme apontado no come\u00e7o de sua segunda obra, Lucas escreveu um <em>logos<\/em> (At 1, 1) ou tratado em dois volumes ou tomos. O primeiro, sobre as coisas que Jesus &#8220;fez e ensinou&#8221; (palavras-obras) at\u00e9 sua ascens\u00e3o (Evangelho, Lc). O segundo sobre as &#8220;obras e palavras&#8221; de seus seguidores, que v\u00e3o de Jerusal\u00e9m at\u00e9 os confins da terra (Roma), levando a mensagem de Jesus (Atos, At). Ele n\u00e3o escreveu um \u201cevangelho\u201d estritamente dito, como Marcos, nem tampouco um livro da genealogia de Jesus como Mateus, mas um &#8220;tratado de hist\u00f3ria&#8221; dos acontecimentos e palavras de Jesus e de seus seguidores, em dois volumes, significativamente iguais em tamanho (Lc e At).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 foi dito, a igreja do s\u00e9culo II separou as duas partes da obra e assim considerou a primeira (Lc) como uma unidade em si mesma, colocando-a ao lado dos outros evangelhos (Mc, Mt, Jo), de maneira que a segunda (At) passou a ser vista como um livro diferente. Esta decis\u00e3o foi boa, embora tenha nos impelido a esquecer a profunda unidade e conex\u00e3o entre as duas obras. De toda forma, a separa\u00e7\u00e3o das duas partes (cada uma com a amplitude normal de um \u201crolo\u201d) teve consequ\u00eancia positiva, pois nos permitiu separar o tempo do Jesus hist\u00f3rico (evan\u00adgelho) do tempo do Cristo da f\u00e9, sentado \u00e0 direita do Pai, dirigindo, por seu Esp\u00edrito, a vida da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir crit\u00e9rios internos, sua obra dupla tem tr\u00eas momentos fortes, que influenciaram poderosamente a liturgia crist\u00e3: (a) apoiando-se principalmente em seu \u201cevangelho da inf\u00e2ncia\u201d (Lc 1-2), a Igreja continua celebrando a festa do<em> Natal;<\/em> (b) da mesma forma, a Igreja torna vis\u00edvel e celebra a <em>P\u00e1scoa crist\u00e3 <\/em>levando em conta os \u201cquarenta dias\u201d das apari\u00e7\u00f5es de Jesus, que culminam com a <em>ascens\u00e3o <\/em>ao c\u00e9u, que nenhum outro autor do Novo Testamento apresentou desta forma (cf. Lc 24 e At 1); (c) finalmente, apenas Lucas nos permite visibilizar e celebrar a festa crist\u00e3 de <em>Pentecostes,<\/em> ou seja, a festa do Esp\u00edrito Santo, enviado por Jesus para iniciar e promover a miss\u00e3o crist\u00e3 em todo o mundo, ao longo dos tempos (cf. At 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os crist\u00e3os de hoje celebram o Natal ou interpretam a ascen\u00ads\u00e3o de Jesus como a culmin\u00e2ncia e o fechamento da P\u00e1scoa, estamos utilizando o esquema teol\u00f3gico, hist\u00f3rico e lit\u00fargico de Lucas. Outros autores do Novo Testamento (como Paulo ou Jo\u00e3o) foram capazes de oferecer uma imagem mais profunda do mist\u00e9rio pascoal, no in\u00edcio da Igreja. Mas Lucas foi (com Mateus) o autor que mais influenciou a implanta\u00e7\u00e3o do cristianismo posterior.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O evangelho <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong><em>2.1 Um escritor de tradi\u00e7\u00e3o: Documento Q, Marcos<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas \u00e9 um <em>helenista<\/em>, homem da cultura grega, e era provavelmente um pros\u00e9lito judeu (n\u00e3o nasceu judeu) antes de se tornar crist\u00e3o. Ele conhece a B\u00edblia do Antigo Testamento (os LXX) e se informou, na medida do poss\u00edvel, dos principais momentos da vida de Jesus, estudando escritos anteriores (um poss\u00edvel documento Q, com as frases de Jesus, e o Evangelho de Marcos), consultando testemunhas e portadores da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a. O documento Q <\/em>(do alem\u00e3o <em>Quelle<\/em>, Fonte) \u00e9 um texto ou fonte oral dos Evangelhos de Mateus e Lucas, que continha uma cole\u00e7\u00e3o dos ditos e pensamentos de Jesus. Pode ter surgido na Galileia ou na Judeia, nos anos 40 ou 50 dC, oferecendo o testemunho mais significativo de um grupo de crist\u00e3os que teriam coletado, em forma apocal\u00edptica-sapiencial, alguns dos ditados de Jesus, para expressar e expandir para eles sua experi\u00eancia. Esse documento forma, com Marcos, o mais antigo testemunho extensivo da tradi\u00e7\u00e3o dos evangelhos. Mas, ao contr\u00e1rio de Marcos, que continuou a ser empregado na igreja depois que grande parte de seu material havia sido coletado por Mateus e Lucas, o Q foi perdido, talvez porque j\u00e1 n\u00e3o havia mais interesse (seus materiais tinham sido preservados em Mt e Lc), talvez porque sua vis\u00e3o fosse limitada: ele s\u00f3 colecionava &#8220;palavras&#8221; de Jesus, ele deixou de lado o tema de sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>b. Marcos<\/em>. Depois de alguns anos, por volta de 70 dC, um autor chamado Marcos pensou que o documento Q, fechado em si mesmo, era deficiente (ele n\u00e3o capturou o enredo da vida de Jesus) e para remediar essas defici\u00eancias ele pr\u00f3prio escreveu um &#8220;evangelho&#8221;. O Q n\u00e3o tinha sido um &#8220;evangelho&#8221;, mas um resumo das palavras de Jesus, quase sem um fundo narrativo (sem hist\u00f3ria), para que pudessem se tornar independentes da vida-morte-ressurei\u00e7\u00e3o de Jesus. Ao contr\u00e1rio disso, retomando as tradi\u00e7\u00f5es da Galileia e de Jerusal\u00e9m, Marcos escreveu um evangelho &#8220;narrativo&#8221;. Ele deixou de lado quase todas as &#8220;palavras&#8221; de Jesus, para apresentar ele mesmo como &#8220;Palavra&#8221;, portador pessoal da salva\u00e7\u00e3o de Deus, em uma linha pr\u00f3xima \u00e0 de Paulo, ainda enfatizando mais a hist\u00f3ria de Jesus (n\u00e3o apenas sua morte). Marcos escreveu, assim, a mais poderosa das &#8220;narrativas crist\u00e3s&#8221;, apresentando Jesus como evangelho: a boa nova &#8220;pessoal&#8221; de Deus (o pr\u00f3prio Jesus como a boa nova).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>c. A novidade de Lucas<\/em>. Como Mateus, Lucas pensou que o projeto dos &#8220;ditados&#8221; (Q) era insuficiente, e que era necess\u00e1rio aceitar a &#8220;corre\u00e7\u00e3o&#8221; de Marcos, pois a mensagem de Jesus era insepar\u00e1vel da jornada concreta de sua vida e morte e da experi\u00eancia pascoal da Igreja. E nesse ponto, tanto Mateus quanto Lucas, de diferentes perspectivas e tradi\u00e7\u00f5es, combinaram os textos de Q e Marcos, a fim de oferecer um evangelho em que se vinculam, na vida e na pessoa de Jesus, os ditos e atos de sua trajet\u00f3ria messi\u00e2nica. Mateus faz isso a partir de uma tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, mais focada no cumprimento messi\u00e2nico da Lei Judaica. Lucas faz isso do fundo da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3-helen\u00edstica, para oferecer um evangelho mais apropriado aos gentios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com isso, Lucas conhece e assume os textos de Q e Marcos, mas os interpreta de sua perspectiva eclesial, adicionando \u00e0s duas &#8220;fontes&#8221; anteriores uma fonte diferente (que alguns chamaram de L, de Lucas), com um material muito significativo (evangelho da inf\u00e2ncia, par\u00e1bolas de miseric\u00f3rdia, catequese da ressurrei\u00e7\u00e3o etc.). Seria bom ser capaz de distinguir precisamente os tr\u00eas estratos do Evangelho de Lucas (narra\u00e7\u00e3o de Marcos, ditados do Q, tradi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de sua Igreja, talvez em \u00c9feso, com as de Jerusal\u00e9m&#8230;), mas o assunto \u00e9 complexo, t\u00edpico de especialistas (que n\u00e3o chegaram a um acordo sobre os detalhes), de forma que isso n\u00e3o ser\u00e1 abordado aqui. Basta dizer que Lucas segue Marcos (que forma sua espinha dorsal), introduzindo em seu texto &#8220;alguns elementos&#8221; do Q, como em 6,12-7,35 e 9,57-17,4, ligando tudo, finalmente, com outras tradi\u00e7\u00f5es eclesiais e com sua pr\u00f3pria teologia, centrada no &#8220;caminho de Jesus para Jerusal\u00e9m.&#8221; Alguns insistiram na necessidade de contato pessoal de Lucas com a Virgem Maria, mas n\u00e3o parece necess\u00e1rio apegar-se a isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 Divis\u00e3o, unidade narrativa<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas bebe de tr\u00eas &#8220;fontes&#8221; b\u00e1sicas, mas seu texto n\u00e3o \u00e9 um simples mosaico, ele forma uma unidade liter\u00e1ria (narrativa) e teol\u00f3gica, de modo que cada um de seus elementos tem que ser interpretado em conjunto, como destacaram os pesquisadores. Ele n\u00e3o escreve uma narrativa \u00e0 qual, &#8220;depois&#8221;, algumas notas teol\u00f3gicas s\u00e3o adicionadas, a sua estrutura narrativa j\u00e1 tem um sentido teol\u00f3gico intenso. Com isso em mente, podemos dividir o evangelho em quatro partes, com um pr\u00f3logo e um ep\u00edlogo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pr\u00f3logo<\/em> (Lc 1,1-4). Lucas dedica o livro, escrito com os m\u00e9todos hist\u00f3rico-liter\u00e1rios de sua \u00e9poca, a todos aqueles que &#8220;amam Deus&#8221; (= Te\u00f3filo), como contribui\u00e7\u00e3o para o conhecimento do cristianismo, este entendido como um fen\u00f4meno religioso e cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1. Introdu\u00e7\u00e3o. Jesus, evangelho de Deus<\/em> (Lc 1,5-4,13): (a) An\u00fancios do nascimento de Jo\u00e3o e Jesus (Lc 1,5-56); (b) Os dois nascimentos (Lc 1,57-2,52); (c) Primeira atividade de Jo\u00e3o e Jesus (Lc 3,1-4,13). Ao contr\u00e1rio de Marcos e em paralelo com Mateus (embora de uma forma diferente), Lucas come\u00e7a com um &#8220;evangelho da inf\u00e2ncia&#8221; (par\u00e1grafos a e b), colocando Jesus no fundo da esperan\u00e7a de Israel, em paralelo com Jo\u00e3o Batista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas entrela\u00e7a o evangelho de Jesus na esperan\u00e7a e profecia de Israel, mas de maneira que a transborda e a ratifica. Na \u00faltima se\u00e7\u00e3o (c), segue Marcos mais de perto. O centro desta se\u00e7\u00e3o \u00e9 a &#8220;proclama\u00e7\u00e3o do evangelho&#8221;: &#8220;Eis que vos anuncio uma grande alegria, que ser\u00e1 para todo o povo: nasceu-vos hoje um salvador, que \u00e9 o Cristo-Senhor\u201d (Lc 2,10-11). Este &#8220;evangelho&#8221; ou boas novas resgata e substitui os &#8220;evangelhos imperiais&#8221;, em que foi anunciado o nascimento do novo imperador, como na Inscri\u00e7\u00e3o de Priene, do ano 9 aC, no qual o nascimento de Augusto \u00e9 celebrado como o in\u00edcio de uma nova era de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2. Atividade na Galileia<\/em> (Lc 4,14-9,50): (a) Manifesta\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o de Jesus (Lc 4,14-6,11); (b) Ensinamentos e milagres (Lc 6,12-8,56); (c) Revela\u00e7\u00e3o aos disc\u00edpulos (Lc 9,1-50). Esses cap\u00edtulos condensam a a\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e a mensagem de Jesus na Galileia, na linha prof\u00e9tica, aberta ao messianismo. Na primeira e \u00faltima parte (a e c), segue mais Marcos. Na parte central (b), \u00e9 mais pr\u00f3ximo do Q. Em ambos os casos, o evangelista coleciona tradi\u00e7\u00f5es das igrejas e da miss\u00e3o da Galileia. Todo o tema \u00e9 apresentado e focado no &#8220;discurso de Nazar\u00e9&#8221; (Lc 4,16-30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3. Subida a Jerusal\u00e9m <\/em>(Lc 9,51-19,27), com esses momentos: (a) Acompanhamento e confian\u00e7a no Pai (Lc 9,51-13,21); (b) Alimentos crist\u00e3os (Lc 13,22-17,10); (c) Chegada do Reino (Lc 17,11-19,28). Esta se\u00e7\u00e3o come\u00e7a com uma introdu\u00e7\u00e3o solene, que enquadra e situa tudo o que se segue: &#8220;Quando se completaram os dias de sua assun\u00e7\u00e3o, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusal\u00e9m&#8221; (cf. 9,51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas introduz e reinterpreta aqui muito material do &#8220;Q&#8221;, n\u00e3o na forma de sabedoria separada da vida de Jesus, mas sim como express\u00e3o de um caminho que leva a Jerusal\u00e9m (novo \u00caxodo). Isso significa que o material Q (que poderia se tornar doutrina gn\u00f3stica), vem a ser colocado e \u00e9 compreendido no contexto de um caminho messi\u00e2nico de entrega da vida. Este \u00e9 o centro do evangelho: a ascens\u00e3o a Jerusal\u00e9m, como cumprimento das promessas de Israel, e como o in\u00edcio de um novo \u00eaxodo crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4. Atividade em Jerusal\u00e9m: <\/em>Paix\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o (Lc 19,28-24,49): (a) Entrada em Jerusal\u00e9m e controv\u00e9rsias com os chefes de Israel (Lc 19,28-21,4); (b) Discurso escatol\u00f3gico (Lc 21,5-38); (c) Julgamento e morte (Lc 22,1-23,56; (d) Ressurrei\u00e7\u00e3o e apari\u00e7\u00f5es de Jesus (Lc 24,1-49). Lucas volta aqui para o esquema e temas de Marcos, com pequenas mudan\u00e7as. Tamb\u00e9m essa se\u00e7\u00e3o come\u00e7a com a &#8220;decis\u00e3o&#8221; de completar a ascens\u00e3o a Jerusal\u00e9m (19,28, retomando o motivo anterior de 9,51), de modo que toda a mensagem e viagem anterior de Jesus na Galileia devem ser entendidas a partir de sua &#8220;oferta de salva\u00e7\u00e3o&#8221; em Jerusal\u00e9m, em disputa com as autoridades da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto est\u00e1 o discurso escatol\u00f3gico da Lc 21, em que a &#8220;pressa&#8221; n\u00e3o \u00e9 mais essencial. Quanto \u00e0 paix\u00e3o, Lucas tenta &#8220;desculpar&#8221; Pilatos, representante do governo romano, colocando a responsabilidade sobre os &#8220;hierarcas judeus&#8221; (nunca no povo de Israel, como tal). Finalmente, oferece uma verdadeira catequese de P\u00e1scoa, com o relato dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas e da grande apari\u00e7\u00e3o\/miss\u00e3o a todos os disc\u00edpulos, em Jerusal\u00e9m (n\u00e3o na Galileia, como em Marcos 16,1-8 e Mt 28,16-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ep\u00edlogo. <\/em>Ascens\u00e3o (Lc 24,50-53). Serve para concluir o evangelho, fechando-o em si mesmo (no nascimento, vida e p\u00e1scoa de Jesus). O Jesus de Mateus n\u00e3o saiu, mas est\u00e1 na Galileia com os seus, acompanhando-os na miss\u00e3o (&#8220;Estou com voc\u00ea&#8230;&#8221;: Mt 28,16-20). Em oposi\u00e7\u00e3o, o Jesus de Lucas &#8220;vai embora&#8221;, deixa os seus em certo sentido, subindo para o c\u00e9u em Jerusal\u00e9m (como havia anunciado em 24,46-49). Esta &#8220;experi\u00eancia de P\u00e1scoa e ascens\u00e3o&#8221; de Jesus em Jerusal\u00e9m (no Monte das Oliveiras, de acordo com a profecia de Zacarias 14) \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a hist\u00f3ria \u00e9 retomada em Atos 1, onde come\u00e7a o livro dos atos e miss\u00e3o de seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 Teologia b\u00e1sica <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3.1 Inten\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela j\u00e1 est\u00e1 explicitada a partir do pr\u00f3logo, onde Lucas disse: \u201cVisto que muitos j\u00e1 empreenderam compor uma narra\u00e7\u00e3o dos fatos que se cumpriram entre n\u00f3s (&#8230;) a mim tamb\u00e9m pareceu conveniente, ap\u00f3s acurada verifica\u00e7\u00e3o de tudo, desde o princ\u00edpio, escrever-te de modo ordenado (&#8230;) para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste\u201d cf. (Lc 1,1-4). Quais fatos? As coisas que Jesus fez e ensinou, at\u00e9 sua ascens\u00e3o ao c\u00e9u (At 1,1-2). Os outros (os primeiros passos da igreja) est\u00e3o em Atos. Os eventos de Jesus foram realizados, de acordo com isso, \u00e0 luz de todo o mundo (At 26,26). Eles n\u00e3o s\u00e3o objeto de uma mensagem intimista, t\u00edpica de um livro de medita\u00e7\u00f5es, mas o tema de uma hist\u00f3ria que merece ser contada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como foi dito, Lucas parece o \u00fanico escritor do NT que tamb\u00e9m escreve para os n\u00e3o crentes, oferecendo assim seu livro no mercado aberto de seu tempo. Ele n\u00e3o faz isso de forma arbitr\u00e1ria, ele n\u00e3o abandona a tradi\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio: ele conta com outros livros e testemunhas da igreja, especialmente Mc e Q. Ele seleciona suas fontes, mas o faz em um di\u00e1logo e assim, diferente de Marcos e, talvez, contra Mateus, ele foi capaz de aceitar tradi\u00e7\u00f5es da Igreja de Jerusal\u00e9m, ligadas \u00e0 figura de Tiago, &#8220;irm\u00e3o&#8221; do Senhor, no in\u00edcio do evangelho e de Atos (Lc 1-2; At 1-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas p\u00f4de escrever desta forma porque compreendeu Jesus como o ponto de partida e centro de um profundo movimento religioso que j\u00e1 estava se tornando importante no mundo e que merecia ser contado. Ele pode escrever assim porque \u00e9 um bom narrador, porque tem um bom argumento (Jesus) e sabe exp\u00f4-lo n\u00e3o s\u00f3 em um plano querigm\u00e1tico (Marcos) ou catequ\u00e9tico\/eclesial (Mateus), mas em uma linha hist\u00f3rico-liter\u00e1ria, transmitindo, ao mesmo tempo, a f\u00e9 de sua Igreja (Roma, \u00c9feso&#8230;?), com um horizonte aberto \u00e0 miss\u00e3o crist\u00e3, que come\u00e7a a se espalhar pelo mundo conhecido. Ao longo dos anos, a inquieta\u00e7\u00e3o daqueles crist\u00e3os que esperaram pelo fim do mundo e a vinda imediata de Jesus se transformou, deixou de ter um significado puramente cronol\u00f3gico. Certamente, Lucas sabe que &#8220;Jesus vir\u00e1&#8221;, mas, enquanto isso, ele abre um longo tempo de vida crente para os crist\u00e3os. Desta forma, o interesse da mensagem de Jesus (o passado de sua hist\u00f3ria) se desloca para a igreja (Atos), deixando para tr\u00e1s a hist\u00f3ria de Jesus (evangelho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3.2 Da hist\u00f3ria de Jesus \u00e0 hist\u00f3ria da Igreja<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos e Mateus n\u00e3o podiam escrever uma &#8220;hist\u00f3ria da Igreja&#8221;, pois ela n\u00e3o formava uma parte separada da obra de Jesus. Esta hist\u00f3ria da Igreja n\u00e3o era um novo evangelho (Marcos), n\u00e3o adicionou nada al\u00e9m do que foi revelado em Cristo (Mateus). Certamente, Jesus tamb\u00e9m \u00e9 para Lucas a origem, ponto de partida e centro de toda a salva\u00e7\u00e3o. Mas a hist\u00f3ria de Jesus como tal acabou (foi conclu\u00edda na Ascens\u00e3o), de modo que se abre um tempo de vida e miss\u00e3o para seus disc\u00edpulos, quando tamb\u00e9m ser\u00e1 necess\u00e1rio expor o surgimento da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido (e em outros que se deveria especificar), Lucas est\u00e1 pr\u00f3ximo do Jesus de Jo\u00e3o quando diz: &#8220;\u00c9 de vosso interesse que eu parta; pois, se n\u00e3o for, o Par\u00e1clito n\u00e3o vir\u00e1 a v\u00f3s. Mas se for, eu o enviarei&#8221; (Jo 16,7). \u00c9 apropriado que Jesus tenha ido, porque s\u00f3 assim ele foi capaz de &#8220;abrir&#8221; um tempo de compromisso mission\u00e1rio e transforma\u00e7\u00e3o para seus disc\u00edpulos. Nesse sentido, Lucas pode continuar a dizer: &#8220;Em verdade, em verdade eu vos digo: quem cr\u00ea em mim far\u00e1 as obras que fa\u00e7o e far\u00e1 at\u00e9 maiores do que elas, porque vou para o Pai&#8221; (Jo 14,12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos acrescentar que seu Evangelho (Lc), em um sentido aut\u00f4nomo, pode ser interpretado, em outro, como um &#8220;pr\u00f3logo&#8221; do livro de Atos. Assim, dizemos que Jesus se foi (ascens\u00e3o: Lc 24,50-53; At 1,1-11) para continuar promovendo a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. De acordo com isso, os crist\u00e3os n\u00e3o deixam de seguir Jesus para irem \u00e0 igreja, mas o pr\u00f3prio Jesus os leva, por seu Esp\u00edrito, \u00e0 vida e miss\u00e3o da Igreja. O passado da hist\u00f3ria de Jesus, que termina na ascens\u00e3o, torna-se um princ\u00edpio de salva\u00e7\u00e3o para a Igreja, atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo. Jesus foi recebido na Gl\u00f3ria de Deus Pai e dali, de sua altura divina, guia a hist\u00f3ria atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O Livro dos Atos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 dissemos, em princ\u00edpio, o evangelho e os Atos formaram um \u00fanico livro, mas os &#8220;editores&#8221; do c\u00e2none dividiram-no, tornando os Atos o in\u00edcio da vida da Igreja, como uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s cartas de Paulo e ao restante das cartas &#8220;cat\u00f3licas&#8221; ou universais do NT. Pois bem, Lucas foi capaz de escrever essa hist\u00f3ria inicial da Igreja porque a considerava uma &#8220;realidade aut\u00f4noma&#8221;, ao lado (e depois) dos evangelhos. Ele n\u00e3o o escreveu para simplesmente contar o que aconteceu (como cronista), mas para marcar o in\u00edcio e a dire\u00e7\u00e3o do caminho crist\u00e3o, e far\u00e1 isso desenhando uma linha que ser\u00e1 &#8220;can\u00f4nica&#8221; ou normativa para a igreja posterior. Nesse sentido, ele deixa de lado uma s\u00e9rie de tend\u00eancias crist\u00e3s ou trajet\u00f3rias que conhecemos, de alguma forma, a partir de outras fontes (contribui\u00e7\u00e3o das mulheres, vida e miss\u00e3o das comunidades galileias, o judeu-cristianismo de Tiago, os princ\u00edpios da gnosis etc.). Seja como for, sua vis\u00e3o da implanta\u00e7\u00e3o da Igreja tem sido essencial para a hist\u00f3ria posterior do cristianismo. Em um sentido geral, dois elementos podem ser especificados em sua primeira vis\u00e3o da Igreja:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 <\/em><em>Polo judeu, polo romano<\/em> (Atos 1-15). O livro de Atos tra\u00e7a um caminho que leva de Jerusal\u00e9m (primeiro polo: Pedro e os Doze, com Tiago), passando por Antioquia (helenistas), por Paulo a Roma (segundo polo), onde Paulo \u00e9 mantido em cativeiro, abrindo de l\u00e1 a Palavra de Jesus para todo o mundo. O polo judeu forma a raiz, que deve ser mantida: marca a origem e o destino israelita de Jesus (todo Lc) e o princ\u00edpio da igreja (Atos 1-15); o polo helen\u00edstico ou romano oferece o cen\u00e1rio final e definitivo da igreja, que chegou a Roma, onde Paulo, na pris\u00e3o, proclama abertamente o Evangelho (Atos 16-28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2012 De Jerusal\u00e9m a Roma<\/em> (Atos 16-28). De acordo com essa vis\u00e3o dos dois polos, Lucas n\u00e3o escreveu a hist\u00f3ria de todas as igrejas (da Galileia, S\u00edria, Egito&#8230;), mas o caminho que leva de Jerusal\u00e9m a Roma. Esta foi uma op\u00e7\u00e3o transcendental para grande parte da hist\u00f3ria posterior do cristianismo, que continua ligada ao juda\u00edsmo (Jerusal\u00e9m), mas integrada ao Imp\u00e9rio Romano. A Igreja tem outras caracter\u00edsticas, mas na vis\u00e3o de Lucas, no fundo delas se expressa um \u00fanico caminho, uma trajet\u00f3ria que vai de Jerusal\u00e9m (juda\u00edsmo) a Roma (universalidade), atrav\u00e9s da obra do Esp\u00edrito de Deus (de Cristo) que guia tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.1 Divis\u00e3o e elementos fundamentais<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro come\u00e7a com um pr\u00f3logo (Atos 1,1-11), que se junta ao evangelho anterior de Lucas e tra\u00e7a todo o projeto, no qual tr\u00eas partes se distinguem, talvez melhor do que as duas acima indicadas:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1. Pedro. Igreja de Jerusal\u00e9m: Atos 1,12-5,42<\/em> (anos 30\/33 d.C.). Embora no in\u00edcio houvesse v\u00e1rios movimentos ligados a Jesus (galileus, mulheres, talvez grupos helenistas j\u00e1 latentes na pr\u00f3pria Jerusal\u00e9m), Atos assume que a igreja nasceu unida em Jerusal\u00e9m, em torno de Pedro e dos Doze. Estes s\u00e3o os momentos destacados pelo texto: 1. Primeira comunidade (1,12-2,47); 2. Pedro e Jo\u00e3o (3,1-5,11); 3. Miss\u00e3o dos Doze (5,12-42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro \u00e9 a figura hist\u00f3rica essencial neste in\u00edcio da igreja, e ele tamb\u00e9m come\u00e7ar\u00e1 e confirmar\u00e1 a abertura aos gentios (Atos 10; 15), embora mais tarde a miss\u00e3o universal seja assumida e realizada por Paulo. Compartilhando uma tend\u00eancia que aparece em Ap 21,14, e talvez em Ef \u00a02,20, Lucas identifica os ap\u00f3stolos com os Doze, tomando-os como o princ\u00edpio da miss\u00e3o da Igreja (mesmo que eles logo tenham desaparecido como um grupo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2. Helenistas. De Jerusal\u00e9m a Antioquia: Atos 6,1-14,28<\/em> (anos 33-48 d.C.). A primeira dissens\u00e3o surge entre hebreus e helenistas em Jerusal\u00e9m (alguns de l\u00edngua semita, outros da l\u00edngua grega) emerge. Este \u00faltimo abre a Igreja para os gentios de acordo com o seguinte movimento: 1. Helenistas e Est\u00eav\u00e3o (6,1-8, 3); 2. Miss\u00e3o de Samaria (8,4-40); 3. Convers\u00e3o de Paulo (9,1-31); 4. Miss\u00e3o de Pedro (9,32-11,18); 5. Antioquia: &#8220;independ\u00eancia&#8221; dos crist\u00e3os (11,19-12,25); 6. Primeira miss\u00e3o de Paulo e Barnab\u00e9, por Chipre e \u00c1sia Menor (13,1-14,28; anos 36-48 d.C.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento da Igreja aparece, assim, como uma experi\u00eancia carism\u00e1tica, que j\u00e1 havia sido anunciada em Atos 2 (Pentecostes), tra\u00e7ando uma linha de abertura de Jerusal\u00e9m para todos os povos. Esta implanta\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada por meio dos helenistas (Atos 6-8) e culmina em Paulo (a partir de Atos 9), dando origem ao chamado Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m, onde a exist\u00eancia de &#8220;duas igrejas&#8221; em comunh\u00e3o \u00e9 admitida e ratificada: os judeu-crist\u00e3os de origem rab\u00ednica de Tiago, em Jerusal\u00e9m, e os judeu-crist\u00e3os de origem pag\u00e3 abertos, de uma forma ou de outra, aos gentios, a quem aceitam em suas comunidades (At 15).<\/p>\n<p><em>3. Paulo. De Antioquia a Roma: Atos 15,1-28,29<\/em>. Esta parte come\u00e7a com a disputa entre os judeu-crist\u00e3os de Jerusal\u00e9m e os pag\u00e3os-crist\u00e3os de Antioquia, e para resolv\u00ea-la \u00e9 celebrado o &#8220;conc\u00edlio&#8221;, no qual Tiago (Jerusal\u00e9m) e Pedro (igreja original) aceitam a miss\u00e3o de Paulo entre os pag\u00e3os, sem a necessidade de &#8220;cumprirem&#8221; a lei judaica (Atos 15,1-15,35, 48\/49 d.C.). A partir de agora, o protagonista da miss\u00e3o crist\u00e3 ser\u00e1 Paulo, que levar\u00e1 a Igreja a Roma, tornando-a universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas simplifica dados, silencia comunidades alternativas e omite (at\u00e9 atenua) muitos elementos, mas sua vis\u00e3o tem um profundo sentido teol\u00f3gico, com esses principais momentos: 1. Duas miss\u00f5es de Paulo para a \u00c1sia Menor e Gr\u00e9cia, fundando as igrejas do Leste do Imp\u00e9rio: (15,36-18,22 e 18, 23-21,14; anos 49-57 dC); 2. Subida para Jerusal\u00e9m, para entregar a cole\u00e7\u00e3o dos gentios \u00e0 Igreja m\u00e3e e, assim, ratificar sua comunh\u00e3o messi\u00e2nica com ela (21,15-23,30), com pris\u00e3o e posterior encarceramento em Cesareia (23,31-26,32; anos 58-60 dC); 3. Prisioneiro de Roma, a ser julgado (27,1-28,28; ano 60 dC); 4. Ep\u00edlogo (28.30-31; anos 60-62 dC). \u00c0 espera do julgamento, na pris\u00e3o domiciliar, Paulo proclama abertamente o Evangelho em Roma. A Igreja de Jesus chegou ao centro do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mc 16,1-8 e Mt 28,16-20 pressup\u00f5em que a miss\u00e3o crist\u00e3 universal come\u00e7ou na Galileia. Lucas suprime essa alus\u00e3o e afirma que a igreja come\u00e7ou e foi confirmada em Jerusal\u00e9m (cf. Atos 1-7; 15), de onde se espalhou por todo o mundo. Ali Jesus subiu para completar seu trabalho, sendo crucificado (cf. Lc 9,51-24,52), e a Igreja emergiu como um grupo messi\u00e2nico, em torno dos Doze, \u00e0 espera da vinda do Messias crucificado (Atos 1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos e Mateus pensavam que a Igreja come\u00e7ara da Galileia (Mc 16, 7-8; Mt 28,16-20). Atos, por outro lado, assume que o caminho central da Igreja, iniciado e retomado em Jerusal\u00e9m (conc\u00edlio, cap. 15) se abre a partir de Jerusal\u00e9m, pelos helenistas e pela Igreja de Antioquia, mas de tal forma que o pr\u00f3prio Paulo retorna a Jerusal\u00e9m, para retomar dali (preso como Jesus, mas n\u00e3o executado) o caminho final para Roma, onde desemboca o caminho da Igreja, aberto de Roma a todas as na\u00e7\u00f5es (At 16-28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2 <\/em><\/strong><strong><em>Mensagem b\u00e1sica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum dos evangelistas sentiu a necessidade de &#8220;completar&#8221; o Evangelho com uma obra aut\u00f4noma no desenvolvimento da igreja, pois o caminho e a tarefa da Igreja estavam contidos em Jesus. Lucas, por outro lado, fez isso, e nesse ponto alguns pesquisadores modernos o tomaram como o primeiro representante do &#8220;catolicismo primitivo&#8221;, o primeiro a transformar o evangelho em uma religi\u00e3o organizada e o cristianismo em estrutura eclesial. Mas isso n\u00e3o \u00e9 totalmente verdade. O que Lucas quer descrever em Atos \u00e9 a marcha e o caminho da igreja, como portadora de um evangelho universal, que chega a Roma e de Roma deve se abrir, como uma religi\u00e3o unit\u00e1ria ao mundo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, contra uma esp\u00e9cie de fragmenta\u00e7\u00e3o ou divis\u00e3o das igrejas, cada uma por conta pr\u00f3pria (judeu-crist\u00e3os e helenistas, seguidores do disc\u00edpulo amado, grupos gn\u00f3sticos e mission\u00e1rios itinerantes de v\u00e1rios tipos), Lucas descreve uma hist\u00f3ria unit\u00e1ria, de tipo ideal em que todos os movimentos crist\u00e3os s\u00e3o englobados e unificados, em uma marcha que vai do primeiro polo (em Jerusal\u00e9m, em torno de Pedro e os Doze) at\u00e9 o segundo polo (com Paulo em Roma). Este \u00e9 um caminho hist\u00f3rico, mas ao mesmo tempo \u00e9 um caminho &#8220;postulado&#8221;, \u00e9 a express\u00e3o de um desejo de unidade de todas as igrejas, em torno de Pedro e Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 <em>Jerusal\u00e9m e os Doze <\/em>(At 1-5). A comunidade de Jerusal\u00e9m aparece em Atos como um ideal escatol\u00f3gico. Nela s\u00e3o dados os sinais da <em>mudan\u00e7a dos tempos<\/em>, da transforma\u00e7\u00e3o da humanidade (milagres). Os crist\u00e3os repartem e consomem os bens (como se o mundo fosse acabar muito em breve), mas ao mesmo tempo eles come\u00e7am a acolher pessoas de outras na\u00e7\u00f5es e grupos (embora, na verdade, logo passem a se concentrar apenas nos judeus). Certamente, nesta igreja j\u00e1 aparecem crentes que querem &#8220;enganar&#8221; o Esp\u00edrito (como Ananias e Zafira, Atos 5,1-11), mas eles n\u00e3o aparecem por si mesmos, mas como um aviso aos verdadeiros crentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012<em> Helenistas e a miss\u00e3o aos pag\u00e3os<\/em> (At 6-12). \u00a0Apesar da tenta\u00e7\u00e3o de se fechar em si mesma, a primeira comunidade \u00e9 for\u00e7ada a expandir-se, com base no testemunho dos chamados helenistas. H\u00e1 tens\u00f5es internas entre eles e os hebreus, mas s\u00e3o superadas, principalmente por causa da persegui\u00e7\u00e3o que obriga os helenistas a deixarem Jerusal\u00e9m. E, sobretudo, o Esp\u00edrito que se manifesta fora da comunidade constitu\u00edda est\u00e1 presente e em a\u00e7\u00e3o: o epis\u00f3dio do centuri\u00e3o Corn\u00e9lio \u00e9, neste momento, decisivo. Sem d\u00favida, tamb\u00e9m outros grupos surgem (em torno de mulheres, seguidores do disc\u00edpulo amado e outros), mas Lucas os silencia, pois s\u00f3 vai querer se concentrar, na vida e obra de Paulo, que se converte a Cristo, e de Pedro, que tem que deixar Jerusal\u00e9m , para cumprir sua tarefa em outros lugares, em um gesto de abertura universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 <em>Paulo e Bernab\u00e9 <\/em>(At 13\u201215)<em>. <\/em>Lucas se concentrou apenas na miss\u00e3o de Barnab\u00e9 e Paulo, como uma expans\u00e3o da Igreja no mundo pag\u00e3o (impulso do Esp\u00edrito, cf. Atos 13-14), for\u00e7ando a abordagem da quest\u00e3o da divis\u00e3o e unidade da igreja. Em Jerusal\u00e9m, h\u00e1 crist\u00e3os que continuam exigindo a circuncis\u00e3o de todos os crentes (eles devem se tornar judeus antes de se converterem a Cristo). Mas os representantes das v\u00e1rias igrejas (Pedro, Tiago, Paulo&#8230;) se re\u00fanem no chamado Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m (Atos 15, ano 49), assumindo a diversidade das igrejas, ratificando a liberdade dos crist\u00e3os que v\u00eam dos gentios. Este \u00e9 o conc\u00edlio constituinte do cristianismo, entendido como &#8220;comunh\u00e3o de igrejas&#8221;, em torno da f\u00e9 e testemunho de Cristo. Nesse &#8220;conc\u00edlio&#8221; deveriam ser inclu\u00eddas, pelo menos implicitamente, outras igrejas (de um tipo mais gn\u00f3stico, como a do disc\u00edpulo amado), mas Lucas n\u00e3o as cita. Trata-se apenas das falas de Pedro \u2013 Paulo \u2013 Tiago.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 <em>Miss\u00f5es de Paulo <\/em>(Atos 16-20). Lucas abandona a seu destino (ou deixa de fora a hist\u00f3ria) outras igrejas (como as de Pedro e Barnab\u00e9, ex-companheiro de Paulo), para se concentrar apenas na de Paulo, que se expande, como uma nova comunidade messi\u00e2nica, libertada da lei, nos v\u00e1rios pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio: de \u00c9feso at\u00e9 a Maced\u00f4nia e Acaia (Atenas e Corinto). O mundo, j\u00e1 preparado pelo Esp\u00edrito de Deus, parece pronto para ouvir a voz de Paulo, a miss\u00e3o crist\u00e3. Com isso, este segundo livro de Lucas poderia ser intitulado <em>Evangelho dos Atos do Esp\u00edrito<\/em>, com foco no grande di\u00e1logo de Paulo com o helenismo no Are\u00f3pago de Atenas (Atos 17,16-34), onde se confirma o v\u00ednculo (e diferen\u00e7a) entre o cristianismo e o pensamento grego, entendido como um sinal de sabedoria universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 De<em> Jerusal\u00e9m a Roma<\/em> (At 21-28). O fim do livro dos Atos conta o caminho que leva Paulo a Roma, passando por Jerusal\u00e9m, onde ele \u00e9 feito prisioneiro, depois de querer entregar a Tiago e \u00e0 Igreja judaico-crist\u00e3 de Jerusal\u00e9m a cole\u00e7\u00e3o de comunidades dos gentios, como sinal de unidade das igrejas. Assim, a vida das igrejas gent\u00edlicas (da comunidade universal de Roma) continua precisar de sua rela\u00e7\u00e3o (vincula\u00e7\u00e3o) com a Igreja judaico-crist\u00e3 de Jerusal\u00e9m, sem que Lucas diga como essas rela\u00e7\u00f5es terminaram. Seja como for, Paulo \u00e9 levado a Roma para ser julgado, porque, como cidad\u00e3o romano, p\u00f4de apelar, como efetivamente apelou, \u00e0 Corte de C\u00e9sar, para expor ali, no centro do mundo ent\u00e3o conhecido, a mensagem de Jesus. Paulo chegou a Roma, e l\u00e1 p\u00f4de proclamar a Palavra, ainda que isso fizesse situa\u00e7\u00e3o de prisioneiro (em pris\u00e3o domiciliar) aguardando julgamento. Neste momento, Lucas pode interromper sua hist\u00f3ria. Ele sabia, sem d\u00favida, que a hist\u00f3ria continuava, e ele poderia contar muito mais, mas o que disse era suficiente. Ele tra\u00e7ou uma par\u00e1bola eloquente do caminho universal da Igreja de Jesus, que se abre para o vasto mundo dos gentios em Roma, que nela convergem e s\u00e3o simbolizados (cf. Atos 28, 25-31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a mensagem da dupla obra de Lucas, que se abre a partir das promessas de Israel, atrav\u00e9s de Jesus, por meio de Roma, a todas as na\u00e7\u00f5es. Existem outros caminhos, outras formas de entender e narrar o desenvolvimento da igreja, centrada na Galileia (cf. Mc 16,8) ou aberta ao Oriente (Mt 2,1-11). Mas esse caminho de lutas foi, e continua sendo, o mais significativo, nos moldes do evangelho paulino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o teol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como apresentado, alguns historiadores modernos, especialmente protestantes, tomaram Lucas como o primeiro defensor do &#8220;protocatolicismo&#8221;, ou seja, da primeira interpreta\u00e7\u00e3o do cristianismo como religi\u00e3o organizada. A novidade escatol\u00f3gica de Jesus (seu compromisso radical com a f\u00e9 libertadora) teria sido perdida e, nesta brecha, teria emergido uma vis\u00e3o dogm\u00e1tica da hist\u00f3ria que tem seu princ\u00edpio em Israel, se concentra em Cristo e avan\u00e7a atrav\u00e9s da Igreja at\u00e9 o cumprimento das promessas de Jesus, ou seja, at\u00e9 a plenitude dos tempos. Assim, pode-se dizer (com A. Loisy): <em>Jesus anunciou o Reino de Deus, mas chegou a Igreja<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas admitiria esse slogan, mas ele mudou seu significado dizendo: <em>Jesus anunciou o Reino de Deus e, gra\u00e7as a Deus, a Igreja emergiu<\/em>, como portadora desse an\u00fancio, como garantia de continuidade do projeto de Jesus, como proclama\u00e7\u00e3o e princ\u00edpio do Reino neste mesmo mundo, pela ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, pela obra do Esp\u00edrito Santo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria Sagrada. Neste contexto, tr\u00eas &#8220;tempos&#8221; podem ser distinguidos e vinculados:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u2012 <em>Tempo do Pai, Antigo Testamento. <\/em>No in\u00edcio da hist\u00f3ria est\u00e1 Deus (Deus de todos os povos: cf. At 17), como fonte de vida e criador. Desde o in\u00edcio, se entende o caminho de Israel. Lucas, o primeiro autor de origem pag\u00e3 (n\u00e3o judaica) do Novo Testamento, \u00e9 paradoxalmente aquele que mais defende o juda\u00edsmo, pois ele n\u00e3o o v\u00ea mais de dentro (como Paulo ou Mateus, que tem que lutar contra um &#8220;mau juda\u00edsmo&#8221;, para se destacar em Jesus o que eles pensam que \u00e9 o bom juda\u00edsmo), mas de fora, como express\u00e3o j\u00e1 passada e muito bonita. Nesse sentido, os textos Lc 1-2 e At 1-5 s\u00e3o exemplares, destacando a raiz veterotestament\u00e1ria da vida e realidade crist\u00e3s. Por isso, diante de Mc 16 e Mt 28 que centram a mensagem de Jesus na Galileia, Lucas funda a vinda de Jesus (cf. Lc 1) e a origem da Igreja (cf. At 1-5) no entorno do templo em Jerusal\u00e9m. O evangelho est\u00e1, portanto, integrado \u00e0 hist\u00f3ria da profecia e esperan\u00e7a israelita como um desenvolvimento da promessa israelita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2012 Tempo do Filho, Evangelho.<\/em> No centro do tempo est\u00e1 Jesus, tal como vem a mostr\u00e1-lo em seu conjunto todo o evangelho (Lc). Certamente, o tempo de Jesus \u00e9 delimitado entre nascimento e ascens\u00e3o, de tal forma que apresenta contornos fixos e bem precisos dentro da hist\u00f3ria. Lucas aparece nesse ponto como o criador de uma vis\u00e3o do cristianismo como <em>historia salutis,<\/em> hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, contra um tipo de teologia posterior da Igreja que teria interpretado o evangelho como uma verdade atemporal do tipo grego (na linha de uma ontologia filos\u00f3fica). Nesta linha, como O. Cullmann mostrou, o verdadeiro int\u00e9rprete e primeira testemunha da teologia especificamente crist\u00e3 foi Lucas, ao entender a salva\u00e7\u00e3o como uma hist\u00f3ria, centrada em Jesus.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2012 Tempo do Esp\u00edrito Santo, Igreja (Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos). <\/em>A partir da P\u00e1scoa de Jesus, como express\u00e3o da vinda do Esp\u00edrito Santo (Pentecostes) surgiu a etapa final da hist\u00f3ria, que \u00e9 a \u00e9poca do Esp\u00edrito Santo, que se mant\u00e9m e avan\u00e7a at\u00e9 a Parusia ou revela\u00e7\u00e3o final de Jesus, quando realiza a obra da salva\u00e7\u00e3o e entrega o reino ao Pai, para que Deus seja tudo em \u00a0todos (1 Cor 15,28). O protagonista daquela \u00e9poca (e do livro dos Atos) \u00e9 o Esp\u00edrito Santo, que aparece, assim, como dom e presen\u00e7a do Jesus ressuscitado, de maneira que seu evangelho (Lc) ficaria inacabado se n\u00e3o fosse completado pelo evangelho do Esp\u00edrito Santo (Atos). Como j\u00e1 dito, a aus\u00eancia de Jesus \u00e9 princ\u00edpio de salva\u00e7\u00e3o: ele teve que superar sua antiga forma de exist\u00eancia humana, para enviar seu Esp\u00edrito (cf. Lc 24,49; Atos 2,33), come\u00e7ando o tempo e o caminho da Igreja em Pentecostes (Atos 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas escreveu, assim, uma <em>cristologia hist\u00f3rica<\/em> (uma teologia da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o), de forte imposta\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, definindo os momentos centrais da nova celebra\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (Natal, P\u00e1scoa, Pentecostes). Sua vis\u00e3o de Jesus est\u00e1 ligada \u00e0 <em>miss\u00e3o eclesial<\/em> (atrav\u00e9s do Esp\u00edrito) e \u00e0 <em>esperan\u00e7a escatol\u00f3gica<\/em> (\u00e0 culmin\u00e2ncia futura da hist\u00f3ria). Neste contexto, podemos falar de uma <em>cristologia pneumatol\u00f3gica<\/em> (conduzida e aberta pelo Esp\u00edrito Santo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2012 Jesus, \u201cfun\u00e7\u00e3o\u201d do Esp\u00edrito Santo, Nascimento. <\/em>Jesus, o Filho de Deus, n\u00e3o podia nascer apenas pela obra de outros seres humanos, dentro de uma hist\u00f3ria geral da provid\u00eancia divina, mas teria surgido \u2013 como efetivamente surgiu \u2013 por particular influ\u00eancia de Deus, por meio do Esp\u00edrito. O nascimento humano de Jesus pelo Esp\u00edrito que age em Maria (cf. Lc 1,35) aparece, assim, como princ\u00edpio da revela\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2012 Jesus, portador do Esp\u00edrito.<\/em> Lucas formula a experi\u00eancia do batismo: &#8220;O Esp\u00edrito Santo desceu sobre ele em forma corp\u00f3rea, como pomba&#8221; (Lc 3,22). Jesus aparece, assim, como o Esp\u00edrito Santo &#8220;corporalizado&#8221;, encarnado, em forma humana. Nesse sentido, alguns te\u00f3logos costumam falar da \u201c<em>Cristologia do Esp\u00edrito<\/em>\u201d, ou seja, de uma cristologia do Esp\u00edrito encarnado em Jesus. Devemos acrescentar que o Esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 apenas o in\u00edcio do nascimento (como em Lc 1,26-38) e o renascimento de Jesus (batismo), mas uma fonte de salva\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica, em uma vis\u00e3o libertadora (cf. Lc 4,18; At 10,38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2012 O Esp\u00edrito do Ressuscitado. P\u00e1scoa e Pentecostes. <\/em>A novidade mais significativa da experi\u00eancia pascoal, segundo Lucas, \u00e9 o fato de que Jesus ressuscitado &#8220;recebeu o Esp\u00edrito&#8221; de tal forma que pode se apresentar como o Emissor do pr\u00f3prio Esp\u00edrito de Deus. Deste modo, ele mesmo diz: \u201cEis que enviarei a promessa do Pai, ou seja, o Esp\u00edrito Santo\u201d (cf. Lc 24,49). \u00c9 o que o pr\u00f3prio Lucas diz, ainda mais precisamente, pela boca de Pedro, no primeiro serm\u00e3o crist\u00e3o: \u201cElevado \u00e0 direita de Deus, recebeu do Pai o Esp\u00edrito Santo prometido e o derramou (&#8230;)\u201d (At 2,33).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Xabier Pikaza, Salamanca. T<\/em>exto original espanhol. Postado en diciembre del 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALETTI, J-N. <em>El arte de contar a Jesucristo. Lectura narrativa del evangelio de Lucas. <\/em>Salamanca: S\u00edgueme, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1LVAREZ, A. <em>E<\/em><em>nigmas de la vida de San Pablo<\/em>Buenos Aires: Paulus, 2009 (con numerosos trabajos sobre la iglesia primitiva en su colecci\u00f3n de Enigmas de la Biblia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOVON, F. <em>El evangelio seg\u00fan san Lucas. <\/em>I-II Salamanca: S\u00edgueme, 1995; 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARRILLO ALDAY, S. <em>El evangelio seg\u00fan San lucas. <\/em>Estella: Verbo Divino, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASSIDY, R. J. <em>Jes\u00fas: <\/em>pol\u00edtica y sociedade \u2013 estudio del Evangelio de Lucas. Madri: \u00a0Biblia y Fe, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CULLMANN, O.<em> La Salvaci\u00f3n como historia. <\/em>Barcelona: Pen\u00ednsula, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DILLMANN, R.; MORA PAZ, M. 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Salamanca: S\u00edgueme, 1999.\u00a0<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Lucas, escritor por of\u00edcio 2 O evangelho 2.1 Um escritor de tradi\u00e7\u00e3o: Documento Q, Marcos 2.2 Divis\u00e3o, unidade narrativa 2.3 Teologia b\u00e1sica 2.3.1 Inten\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica 2.3.2 Da hist\u00f3ria de Jesus \u00e0 hist\u00f3ria da Igreja 3 O livro dos Atos 3.1 Divis\u00e3o e elementos fundamentais\u00a0 3.2 Mensagem b\u00e1sica Conclus\u00e3o teol\u00f3gica Refer\u00eancias 1 Lucas, escritor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-2083","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2083"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2423,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2083\/revisions\/2423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}