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{"id":2081,"date":"2020-12-31T17:26:58","date_gmt":"2020-12-31T19:26:58","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2081"},"modified":"2021-03-21T15:53:31","modified_gmt":"2021-03-21T18:53:31","slug":"a-recepcao-do-vaticano-ii-na-america-latina-e-caribe-um-olhar-de-conjunto-sobre-alguns-pontos-relevantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2081","title":{"rendered":"A recep\u00e7\u00e3o do Vaticano II na Am\u00e9rica Latina e Caribe. Um olhar de conjunto sobre alguns pontos relevantes"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Sinais dos tempos \u2013 M\u00e9todo Ver-Julgar-Agir<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A irrup\u00e7\u00e3o dos pobres e para eles a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Transforma\u00e7\u00f5es em algumas formas de vida no Povo de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 O servi\u00e7o presbiterial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 Transforma\u00e7\u00f5es na vida religiosa ou consagrada<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A leitura popular da B\u00edblia e a anima\u00e7\u00e3o b\u00edblica de toda a pastoral<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A reforma lit\u00fargica e a religiosidade popular<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reflex\u00f5es finais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Analisar a recep\u00e7\u00e3o conciliar nas igrejas de um continente \u00e9 uma tarefa que requer\u00a0 uma clara consci\u00eancia dos limites. Por um lado, a obra do Vaticano II abrange os mais diversos temas da vida da Igreja e das teologias de uma regi\u00e3o, por outro lado, particularmente na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, cresce a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a complexidade e a diversidade das realidades socioculturais. Estas n\u00e3o s\u00e3o apenas as diferen\u00e7as entre os pa\u00edses, mas tamb\u00e9m entre as m\u00faltiplas subculturas dentro deles. O S\u00ednodo panamaz\u00f4nico de 2019 tamb\u00e9m revela que certas regi\u00f5es compartilham formas de vida e desafios al\u00e9m das fronteiras pol\u00edticas nacionais. S\u00e3o mais de sete milh\u00f5es e meio de quil\u00f4metros quadrados com nove pa\u00edses (Brasil, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela, incluindo a Guiana Francesa). A regi\u00e3o registra a presen\u00e7a de cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de povos ind\u00edgenas, representando cerca de 390 povos e nacionalidades diferentes. No entanto, mesmo com todas essas realidades plurais e complexas, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer caracter\u00edsticas comuns, mesmo em refer\u00eancia \u00e0 vida da Igreja, que nos permite falar de uma realidade latino-americana e caribenha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existiu e existe ainda hoje um <em>consenso quase un\u00e2nime<\/em> sobre o valor positivo e decisivo do Conc\u00edlio para a vida da Igreja neste continente. Isso pode ser verificado nos mais diversos textos: os episcopais \u2013 individuais e colegiados \u2013 as in\u00fameras produ\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e pastorais de m\u00faltiplos grupos, particularmente grupos de padres de diversos pa\u00edses, de congrega\u00e7\u00f5es religiosas etc. O Vaticano II, como um todo, logo se tornou um s\u00edmbolo de renova\u00e7\u00e3o. Algumas an\u00e1lises assumiram a imagem de um novo Pentecostes para caracterizar a import\u00e2ncia deste evento. Muitas das express\u00f5es mais t\u00edpicas do catolicismo latino-americano p\u00f3s-Conc\u00edlio, como as comunidades eclesiais de base (CEBs), a leitura popular da B\u00edblia, a valoriza\u00e7\u00e3o da religiosidade popular, a inser\u00e7\u00e3o da vida religiosa em ambientes pobres, inclusive a teologia da liberta\u00e7\u00e3o, se reconhecidas como realidades teol\u00f3gico-pastorais devedoras e agradecidas do evento conciliar. Essas realidades eclesiais, entre outras, s\u00e3o as que possibilitam afirmar que a recep\u00e7\u00e3o nessas terras tem sido &#8220;seletiva, criativa e fiel&#8221; (GALILEA, 1987).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto geral caracteriza a recep\u00e7\u00e3o: os mesmos textos do Vaticano II n\u00e3o foram trabalhados diretamente na mesma propor\u00e7\u00e3o do que foi feito em outras l\u00ednguas e regi\u00f5es. A an\u00e1lise da recep\u00e7\u00e3o conciliar ainda deve ser feita onde sua liga\u00e7\u00e3o com o Vaticano II n\u00e3o \u00e9 expl\u00edcita. \u00c9 poss\u00edvel falar de um <em>v\u00ednculo mediado<\/em>, mas de forma alguma superficial. Dois fatos podem ser verificados em grande parte da literatura teol\u00f3gica de nosso continente, ao contr\u00e1rio da pesquisa em outras latitudes. O Vaticano II \u00e9 normalmente considerado em conjunto com a Confer\u00eancia de Medell\u00edn como um \u00fanico grande evento de celebra\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o. Provavelmente a natureza ainda muito europeia do Conc\u00edlio, vis\u00edvel em seus temas atuais e tamb\u00e9m nos ausentes, contribuiu para essa din\u00e2mica. Assim, no final do 50\u00ba ano, falou-se de uma &#8220;mem\u00f3ria dupla&#8221;, o Conc\u00edlio e a Confer\u00eancia de Medell\u00edn (LIBANIO, 2013, p. 164). G. Gutierrez caracterizou bem esse aspecto.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considero que, da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, \u00e9 leg\u00edtimo entender por evento conciliar o conjunto de tr\u00eas elementos: Jo\u00e3o XXIII e suas interven\u00e7\u00f5es nos dois anos que antecederam a abertura do Conc\u00edlio, onde expressou intui\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o foram totalmente reconhecidas no Conc\u00edlio. (\u2026) Em segundo lugar, os documentos conciliat\u00f3rios elaborados, ap\u00f3s longas discuss\u00f5es, incluindo o clima em que foram discutidos e aprovados. Finalmente, a Confer\u00eancia Episcopal de Medell\u00edn, convocada para considerar a situa\u00e7\u00e3o da Igreja e da Am\u00e9rica Latina <em>\u00e0 luz do Conc\u00edlio<\/em>, foi a primeira e criativa recep\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos ap\u00f3s o \u00e1pice do Vaticano II. (\u2026) Medell\u00edn foi, ao mesmo tempo, uma leitura do Vaticano II da Am\u00e9rica Latina e do Caribe. (GUTI\u00c9RREZ, 2013, p. 116-117)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o in\u00edcio da \u201clatinoamericaniza\u00e7\u00e3o\u201d do Vaticano II (GALLI, 2018, p. 14) surge um novo fen\u00f4meno. O nascimento da consci\u00eancia de ser uma <em>igreja regional com tra\u00e7os pr\u00f3prios<\/em>, com realidades diversas a de outros continentes, especialmente o europeu, tem seu ponto de partida, precisamente, no evento do Conc\u00edlio e sua recep\u00e7\u00e3o imediata na Segunda Confer\u00eancia Episcopal Latino-Americana realizada em Medell\u00edn (1968). Este evento \u00e9 caracterizado \u201cem certo sentido\u201d, como \u201ca certid\u00e3o de nascimento da Igreja latino-americana e caribenha\u201d (BEOZZO, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recep\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a conciliadora, por outro lado, est\u00e1 em grande parte ligada a alguns grandes textos magisteriais subsequentes. Um caso emblem\u00e1tico \u00e9 representado pela exorta\u00e7\u00e3o <em>Evangelii Nuntiandi<\/em> (1975), decisiva para a perspectiva da Confer\u00eancia Geral realizada em Puebla (1979); essa exorta\u00e7\u00e3o \u00e9 o documento p\u00f3s-Conc\u00edlio mais relevante no parecer de Francisco (FRANCISCO, 2014a). A enc\u00edclica <em>Populorum Progressio<\/em> (1967), que apresenta uma reflex\u00e3o n\u00e3o suficientemente discutida no Vaticano II, teve uma importante influ\u00eancia na Confer\u00eancia de Medell\u00edn; foi at\u00e9 classificada como &#8220;algo como a <em>Gaudium et spes<\/em> do Terceiro Mundo&#8221; (GUTI\u00c9RREZ, 2018, p. 86).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>1 Sinais dos tempos \u2013 M\u00e9todo Ver-Julgar-Agir<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspectiva metodol\u00f3gica utilizada na linguagem magistral, na programa\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja e na elabora\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica nessas d\u00e9cadas revela uma das principais linhas de acolhimento do Conc\u00edlio no continente. O te\u00f3logo chileno Juan Noemi caracterizou justamente a nova situa\u00e7\u00e3o: &#8220;Antes do Vaticano II, prevalece um exerc\u00edcio teol\u00f3gico para o qual o contexto espacial e temporal constitui uma exterioridade, um acidente que n\u00e3o \u00e9 considerado em si como determinante da teologiza\u00e7\u00e3o&#8221; (NOEMI, 1996, p. 31). Com essa perspectiva hist\u00f3rica e de metodologia teol\u00f3gica, fica mais evidente o que aconteceu na Confer\u00eancia de 1968:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">a coisa mais decisiva em Medell\u00edn n\u00e3o \u00e9 ter colocado sobre a mesa a quest\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o como tal, mas sim que pela primeira vez de maneira expl\u00edcita e consciente, a situa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina \u00e9 considerada, n\u00e3o mais como um acidente dispens\u00e1vel, mas como pano de fundo para o que o exerc\u00edcio teol\u00f3gico \u00e9 confrontado. (&#8230;) Incentiva um trabalho teol\u00f3gico localizado e respons\u00e1vel pela realidade concreta e n\u00e3o al\u00e9m dela. (NOEMI, 1996, p. 46)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta perspectiva se percebe, ent\u00e3o, o sucesso de uma descoberta de V\u00edctor Codina: <em>Gaudium et spes<\/em> \u00e9 \u201co texto que teve maior impacto na Am\u00e9rica Latina por seu convite a ouvir e discernir os sinais dos tempos\u201d (CODINA, 2013, p. 84). Como \u00e9 sabido, o Vaticano II deu um passo inicial e muito debatido durante a elabora\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o pastoral. Entre as novidades propostas pela \u00faltima vers\u00e3o do chamado Esquema XIII na quarta sess\u00e3o do Conc\u00edlio estava a estrutura hermen\u00eautica do documento que, como afirma C. Theobald, \u201cestava fundada sobre o m\u00e9todo indutivo \u2018ver-julgar-agir\u2019 da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, introduzido como um esquema estruturante na primavera de 1965\u201d (THEOBALD, 2015, p. 228). A partir desse momento, a interpreta\u00e7\u00e3o dos sinais dos tempos, express\u00e3o b\u00edblica e pastoral que simboliza esse m\u00e9todo, foi adquirida como princ\u00edpio teol\u00f3gico do qual toda a futura Constitui\u00e7\u00e3o se organiza. Al\u00e9m disso, essa metodologia indutiva, com uma trilogia dialeticamente articulada, criada por Joseph Cardijn, fundador da Juventude Oper\u00e1ria Crist\u00e3 (JOC), j\u00e1 era utilizada antes do Conc\u00edlio em m\u00faltiplas inst\u00e2ncias da vida das igrejas na Am\u00e9rica Latina e do Caribe (BRIGHENTI, 2015, p. 608-615).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel verificar nos di\u00e1logos e na bibliografia internacionais que a constitui\u00e7\u00e3o <em>Gaudium et spes<\/em> e, em particular, essa metodologia, foram realmente assumidas nos diversos continentes, ainda que de uma maneira diferenciada (SANDER, 2005, p. 835-859). Assim, as teologias da liberta\u00e7\u00e3o em suas diferentes formas \u2012 norte-americanas, sul-americanas, asi\u00e1ticas e africanas \u2012 tiveram, nesse modo de proceder, um \u201cpadr\u00e3o comum\u201d, um \u201cfio condutor\u201d, ainda que, sua diversidade de g\u00eanero, de origem econ\u00f4mica, nacional e \u00e9tnica, cultural e\/ou religiosa, que n\u00e3o deva ser subestimada (PHAN, 2000, p. 62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 preciso reconhecer que, a partir dessa perspectiva metodol\u00f3gica, a Am\u00e9rica Latina percorreu um caminho peculiar no p\u00f3s-Conc\u00edlio: essa abordagem teve uma repercuss\u00e3o e desenvolvimento maiores sobre ela do que em outras regi\u00f5es. A Confer\u00eancia de Medell\u00edn (1968) assumiu criativamente o m\u00e9todo de reflex\u00e3o teol\u00f3gica da Constitui\u00e7\u00e3o pastoral. Sua principal caracter\u00edstica \u00e9 que, ao contr\u00e1rio do Conc\u00edlio, o m\u00e9todo n\u00e3o s\u00f3 influenciou um documento, mas a &#8220;mec\u00e2nica de trabalho&#8221;, como era chamada, de toda a Confer\u00eancia, que se moldou aos documentos elaborados. Gra\u00e7as a Medell\u00edn, ali\u00e1s, o impacto do m\u00e9todo para moldar a identidade eclesial latino-americana nos anos seguintes \u00e9 ineg\u00e1vel. Como Brighenti afirmou, ele est\u00e1 na base de pr\u00e1ticas eclesiais populares que desembocaram na op\u00e7\u00e3o pelos pobres, na forma\u00e7\u00e3o das comunidades eclesiais de base, na pr\u00e1tica da leitura popular da B\u00edblia, no desenvolvimento da assist\u00eancia pastoral social, na milit\u00e2ncia cidad\u00e3 e na pr\u00f3pria teologia da liberta\u00e7\u00e3o (BRIGHENTI, 2015, p. 608). Todas essas express\u00f5es eclesiais, com suas riquezas e limita\u00e7\u00f5es, representam uma certa novidade teol\u00f3gico-pastoral qualitativa na hist\u00f3ria da Igreja e, em grande parte, identificam por sua &#8220;originalidade&#8221; a caminhada e o peculiar rosto latino-americano. Nesse sentido, a declara\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Legorreta, que muitos autores compartilhariam, \u00e9 significativa: &#8220;o m\u00e9todo ver-julgar-agir tornou-se emblem\u00e1tico da nova forma de ser igreja e fazer teologia na Am\u00e9rica Latina&#8221; (LEGORRETA, 2015, p. 255).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fato marcou particularmente o desenvolvimento posterior a Medell\u00edn: os questionamentos ao m\u00e9todo ver-julgar-agir nas diversas Confer\u00eancias Generais do Episcopado Latino-americano ou por ocasi\u00e3o deles. Admitido sem discuss\u00f5es na \u00e9poca de Medell\u00edn (1968), o m\u00e9todo tem sofrido repetidos ataques em confer\u00eancias subsequentes, at\u00e9 Aparecida (2007), sem exce\u00e7\u00e3o. Em especial, a Confer\u00eancia de Santo Domingo (1992), pois essa representa o caso mais relevante desse rev\u00e9s. Que essa forma teol\u00f3gica, indutiva e hist\u00f3rica de prosseguir, que tem caracterizado particularmente a maneira de ser e fazer a Igreja deste continente, tenha encontrado importantes oposi\u00e7\u00f5es, particularmente no centro romano da Igreja, \u00e9 mais um sinal de sua import\u00e2ncia e quanto estava em jogo nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>2 A irrup\u00e7\u00e3o dos pobres e neles a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Devido \u00e0 sua riqueza e complexidade, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil caracterizar em poucas palavras o n\u00facleo do processo eclesial e a originalidade teol\u00f3gica dessas d\u00e9cadas no continente gerada a partir de Medell\u00edn. V\u00e1rios autores sugeriram uma formula\u00e7\u00e3o nestes termos: a novidade est\u00e1 na irrup\u00e7\u00e3o dos pobres e neles a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus (SOBRINO, 2016, p. 208).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que foi uma convic\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria na d\u00e9cada de 1960, em 50 anos, acabou inspirando toda uma forma de entender a Igreja na Am\u00e9rica Latina e no Caribe e ativando o desenvolvimento da primeira teologia contextual propriamente dita, n\u00e3o europeia: a teologia da liberta\u00e7\u00e3o. Os pobres continuar\u00e3o a ser uma tem\u00e1tica determinante no continente, como um &#8220;lugar teol\u00f3gico&#8221; pelo qual se busque entender o Evangelho<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A express\u00e3o &#8220;perto dos pobres, pr\u00f3ximos a Deus&#8221; condensa um crit\u00e9rio chave e decisivo do discernimento evang\u00e9lico (GUTI\u00c9RREZ, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao adotar o m\u00e9todo <em>Gaudium et spes<\/em> de observar a hist\u00f3ria para examinar nela a presen\u00e7a e a vontade de Deus, os latino-americanos descobriram que, al\u00e9m do que o Conc\u00edlio havia alertado (PLANELLAS, 2014), o sinal dos tempos correspondentes ao seu contexto constitu\u00eda as grandes transforma\u00e7\u00f5es que afetavam todos os aspectos da vida das pessoas, particularmente a vida dos mais pobres e oprimidos, o surgimento deles como sujeitos hist\u00f3ricos e o alarme sobre a espiral da viol\u00eancia. Na segunda metade do s\u00e9culo XX, houve uma verdadeira irrup\u00e7\u00e3o dos pobres na hist\u00f3ria, seja como novos sujeitos capazes de organizar e lutar no campo social e pol\u00edtico, ou como massas cuja mis\u00e9ria era considerada uma injusti\u00e7a estrutural e n\u00e3o uma mera fatalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Magist\u00e9rio Episcopal Latino-Americano p\u00f3s-Conc\u00edlio e a teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, entrela\u00e7ados no in\u00edcio, refletiram sobre essa realidade de forma original. Em Medell\u00edn (1968), em particular, \u00e9 afirmado de forma rudimentar, mas com muita for\u00e7a, a origem teol\u00f3gica estrita da qual, posteriormente, a Confer\u00eancia de Puebla (1979) chamar\u00e1 de &#8220;op\u00e7\u00e3o pelos pobres&#8221; ou &#8220;op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres&#8221; (DPb n.733-735, 1134-1165). \u201cA frase op\u00e7\u00e3o preferencial \u00e9 nova, o conte\u00fado \u00e9 muito antigo, basta abrir a B\u00edblia para encontr\u00e1-lo\u201d (GUTIERREZ, 2010, p. 14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pobreza a que a Igreja Latino-Americana dos anos 1960 e 70 aludiu era principalmente a dos camponeses no ambiente rural, a dos imigrantes camponeses nas grandes cidades e dos trabalhadores industriais. De qualquer forma, foi reconhecida em pessoas socioeconomicamente pobres, ou seja, latino-americanos\/as carentes de alimentos, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o; pessoas exploradas ou multid\u00f5es desocupadas. \u00c0 medida que v\u00e1rios dos pa\u00edses perderam suas democracias e tiveram que suportar ditaduras militares, igrejas latino-americanas veriam novos tipos de pobres nas v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos (perseguidos, torturados e desaparecidos) e em seus parentes que exigiam justi\u00e7a. Somadas \u00e0s defici\u00eancias acima, estavam a inseguran\u00e7a, a falta de liberdade, a humilha\u00e7\u00e3o e a falta de moradia (DPb n.49, 314, 347).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naqueles anos, a Am\u00e9rica Latina tamb\u00e9m foi marcada pelo cen\u00e1rio da Guerra Fria travada entre as grandes pot\u00eancias dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Os pa\u00edses latino-americanos, pertencentes ao chamado Terceiro Mundo, se alinharam ou foram for\u00e7ados a faz\u00ea-lo \u2012 com o capitalismo ou o marxismo. A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana (1959) foi um marco que influenciou toda a d\u00e9cada de 1960 at\u00e9 que o acesso democr\u00e1tico ao poder do presidente Salvador Allende no Chile (1970) ofereceu outro paradigma de socialismo poss\u00edvel. O golpe militar que derrubou Allende incluiu o pa\u00eds na longa lista de na\u00e7\u00f5es latino-americanas que naqueles anos tiveram ditaduras militares (Argentina, Bol\u00edvia, Brasil, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicar\u00e1gua, Paraguai, Peru, Uruguai). A ditadura de Pinochet no Chile (1973-1990) foi pioneira em ensaiar o neoliberalismo que, mais tarde, na d\u00e9cada de 1990, dominou parte do continente. A queda do Muro de Berlim (1989), uma esp\u00e9cie de triunfo da sociedade capitalista ocidental, teve um forte impacto nos movimentos sociais e pol\u00edticos latino-americanos de esquerda, bem como na teologia da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tentativa de entender a pobreza e suas causas, na d\u00e9cada de 1960, os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o fizeram seu pr\u00f3prio caminho aplicado nas ci\u00eancias sociais, que consistia em abandonar a &#8220;teoria do desenvolvimento&#8221; \u2012 que entendia que os pa\u00edses subdesenvolvidos seguiriam naturalmente o curso dos pa\u00edses desenvolvidos \u2012 e adotar as &#8220;teorias da depend\u00eancia&#8221;, que postulavam a necessidade de &#8220;libertar&#8221; os pa\u00edses pobres dos ricos, pois o elo entre eles foi precisamente o fator que criou a riqueza de uns e a pobreza de outros (OLIVEROS, 1977, p. 38-46; GUTI\u00c9RREZ, 1990, p. 127-137). \u00c9 verdade que, &#8220;apesar dos limites&#8221;, essa &#8220;teoria fez avan\u00e7ar qualitativamente&#8221; o estudo da realidade social do continente, lembra Guti\u00e9rrez. &#8220;Talvez sua principal contribui\u00e7\u00e3o tenha sido fazer ver a necessidade de uma an\u00e1lise estrutural, ou seja, n\u00e3o se limitando a uma simples descri\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o&#8221; (GUTI\u00c9RREZ, 2018, p. 88).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito dos pobres s\u00f3 adquiriu uma densidade teol\u00f3gica maior quando Medell\u00edn, Puebla e a Teologia da liberta\u00e7\u00e3o distinguiram, gra\u00e7as \u00e0s Escrituras, entre a pobreza &#8220;material\u201d \u2012\u00a0 a pobreza socioecon\u00f4mica \u2012\u00a0 e a pobreza &#8220;espiritual\u201d \u2012\u00a0 o compromisso de solidariedade com os pobres.\u00a0 Guti\u00e9rrez usou a express\u00e3o: &#8220;com os pobres contra a pobreza&#8221;. Dessa forma, os pobres passaram a ser considerados como um tema teol\u00f3gico, seja porque t\u00eam um privil\u00e9gio epistemol\u00f3gico para entender o Evangelho, seja porque sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica sapiencial \u00e9 valorizada. A reflex\u00e3o magisterial e teol\u00f3gica valorizou a luta agonizante dos pobres simplesmente pela sua viv\u00eancia, e pela sua capacidade de evangelizar e revelar Deus como o Deus dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas d\u00e9cadas sucessivas, a persist\u00eancia do fen\u00f4meno da pobreza e da crescente complexidade de sua realidade deram origem, por um lado, a um grande n\u00famero de conceitua\u00e7\u00f5es e terminologias que buscam entender e explicar esse mundo e, por outro lado, estrat\u00e9gias e propostas de solu\u00e7\u00f5es para seus problemas estruturais. A pobreza \u00e9 dita cada vez mais de v\u00e1rias maneiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atualiza\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o teol\u00f3gica sobre o problema, o argumento central reside na aquisi\u00e7\u00e3o de uma melhor compreens\u00e3o da complexidade da pobreza. De particular import\u00e2ncia foi o desenvolvimento do aumento da conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a quest\u00e3o racial, a &#8220;apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica&#8221; das culturas abor\u00edgenes e a &#8220;emerg\u00eancia&#8221; das quest\u00f5es espec\u00edficas das mulheres. Por outro lado, um vislumbre da ecologia surgiu com os olhos dos pobres (BOFF, 2011). O Magist\u00e9rio continental, em especial nas Confer\u00eancias Gerais posteriores as de Medell\u00edn e Puebla, ou seja, as de Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), ratificaram a op\u00e7\u00e3o pelos pobres e evidenciaram sua \u00edndole cristol\u00f3gica (DSD n.2033-2035; 2130; DAp n.128, 397-399). Se Puebla pediu para descobrir no rosto de v\u00e1rios tipos de pobres o rosto de Cristo (DPb n.31-39), Santo Domingo expandiu esses rostos (DSD n.178) e Aparecida simplesmente os multiplicou (DAp n.65).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco, o primeiro papa latino-americano da hist\u00f3ria, representa hoje a escolha dos pobres no mais alto n\u00edvel da Igreja: a sede de Roma. Sua frase &#8220;o quanto queria uma Igreja pobre e para os pobres&#8221;, no in\u00edcio de seu pontificado, caracteriza seu programa de governo expresso na sua Exorta\u00e7\u00e3o <em>Evangelii Gaudium<\/em>. Com raz\u00e3o foi dito que este texto, sem ser uma carta pertencente \u00e0 doutrina social da Igreja \u2013 tema importante para sua interpreta\u00e7\u00e3o \u2012, \u00e9 o documento mais elaborado e detalhado sobre o tema da Igreja e dos pobres em toda a hist\u00f3ria do magist\u00e9rio do bispo de Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Transforma\u00e7\u00f5es em algumas formas de vida no Povo de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 perigoso idealizar romanticamente a Igreja latino-americana, alertou V. Codina (CODINA, 1990, p. 107). Muitos dos que v\u00eam ao continente pela primeira vez pensam que em cada par\u00f3quia encontrar\u00e3o comunidades de base, que em cada diocese h\u00e1 bispos como o monsenhor Romero, que em cada Igreja h\u00e1 leigas e leigos exemplares que proclamam a palavra at\u00e9 o mart\u00edrio, que em cada comunidade religiosa as pessoas est\u00e3o inseridas entre os pobres e s\u00e3o verdadeiramente prof\u00e9ticas. A realidade \u00e9 muito diferente e \u00e0s vezes at\u00e9 decepcionante. Pelo contr\u00e1rio, a grande maioria dos crist\u00e3os vive em estruturas eclesiais tradicionais, inclusive pr\u00e9-Conc\u00edlio. O machismo, em geral, e o clericalismo, em particular, permeiam fortemente as mentalidades e pr\u00e1ticas de in\u00fameros agentes pastorais, bispos e presb\u00edteros. Estruturas paroquiais n\u00e3o renovadas n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. Os \u00f3rg\u00e3os diocesanos, como conselhos sacerdotais ou conselhos pastorais, t\u00eam uma exist\u00eancia mais formal do que operacional. O d\u00e9ficit nos processos sinodais em todos os n\u00edveis \u00e9 uma caracter\u00edstica muito arraigada e generalizada. S\u00e3o todas formas de vida pessoais e pr\u00e1ticas institucionais de dif\u00edcil transforma\u00e7\u00e3o. Em particular, as iniquidades de g\u00eanero, t\u00e3o vis\u00edveis em estruturas eclesiais, encontram um importante apoio nos costumes culturais marcadamente patriarcais de nossos pa\u00edses, que se manifestam, sem exce\u00e7\u00e3o, em todas as classes sociais e nas \u00e1reas mais diversas: fam\u00edlia, pol\u00edticos, neg\u00f3cios, sindicatos, universidades etc. Assim, quando falamos de novas formas eclesiol\u00f3gicas, como as CEBs, ou a op\u00e7\u00e3o pelos pobres, refere-se a realidades minorit\u00e1rias, mas significativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma avalia\u00e7\u00e3o geral da recep\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio do ponto de vista eclesiol\u00f3gico poderia destacar, entre os principais aspectos relevantes, a colegialidade episcopal materializada no CELAM (FELICIANI, 1974; ESCALANTE, 2002), o surgimento e desenvolvimento das mesmas comunidades eclesiais de base (MARINS, 2018), tamb\u00e9m o importante significado que teve o conceito teol\u00f3gico de Povo de Deus ter sido assumido pela <em>Lumen Gentium<\/em> como categoria arquitet\u00f4nica da renovada vis\u00e3o da Igreja (GALLI, 2015, p. 413). Outro ponto de vista \u00e9 igualmente interessante para revisar: as profundas transforma\u00e7\u00f5es vivenciadas pelos v\u00e1rios membros e voca\u00e7\u00f5es no Povo de Deus; transforma\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e tamb\u00e9m em seus modos concretos de vida. Alguns aspectos de dois deles s\u00e3o brevemente destacados: presb\u00edteros e vida religiosa ou consagrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 O servi\u00e7o presbiterial<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas das ideias fundamentais do decreto <em>Presbyterorum ordinis<\/em>, que buscava promover uma renova\u00e7\u00e3o na imagem do sacerd\u00f3cio existente antes do Vaticano II, foram recentemente definidas. Elas representam um passo em uma certa dire\u00e7\u00e3o: a) da \u00f3ptica da consagra\u00e7\u00e3o at\u00e9 a perspectiva da miss\u00e3o eclesial. Trento havia partido de uma perspectiva sacramental, da eucaristia \u00e0 ordem, o Vaticano II coloca a doutrina em um contexto mais amplo, como uma modalidade de realiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o eclesial; b) a partir da singularidade do minist\u00e9rio da cultual \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rios prof\u00e9ticos e pastorais; c) de uma vis\u00e3o sacerdotal individualista a uma vis\u00e3o sacerdotal comunit\u00e1ria, na qual esse minist\u00e9rio tamb\u00e9m se caracteriza como participa\u00e7\u00e3o no minist\u00e9rio episcopal. A escolha pelo vocabul\u00e1rio presbiteral em rela\u00e7\u00e3o ao sacerdotal devido \u00e0 sua maior proximidade com a l\u00edngua do Novo Testamento e por destacar mais sua especificidade n\u00e3o pode ser subestimada; d) do presb\u00edtero <em>alter Christus<\/em> e mediador \u2012 express\u00f5es deliberadamente exclu\u00eddas \u2012 ao presb\u00edtero que atua na pessoa ou em nome de Cristo; e) da santidade como alimento do minist\u00e9rio para o minist\u00e9rio como elemento da mesma santidade com uma categoria unificadora de todos os aspectos do minist\u00e9rio e da vida sacerdotal, caridade pastoral (CASTELLUCCI, 2017, p. 317-326). Nesse sentido, parece correta a avalia\u00e7\u00e3o de que o ensinamento conciliador expresso em <em>Presbyterorum ordinis<\/em> representa &#8220;uma renova\u00e7\u00e3o e aprofundamento substancial da teologia do servi\u00e7o presbiteral&#8221;, n\u00e3o um mero &#8220;am\u00e1lgama inconsistente de concep\u00e7\u00f5es distintas\u201d, mas uma vis\u00e3o \u201cconcisa e conclusiva deste minist\u00e9rio (FUCHS, 2005, p. 543). Portanto, sem ignorar as limita\u00e7\u00f5es, o verdadeiro desenvolvimento e progresso hist\u00f3rico-dogm\u00e1tico devem ser reconhecidos nesta quest\u00e3o conciliadora. A hist\u00f3ria da recep\u00e7\u00e3o neste \u00e2mbito n\u00e3o se resume a este documento-chave, mas est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 vis\u00e3o geral da <em>Lumen Gentium<\/em>, \u00e0s importantes perspectivas abertas pela <em>Gaudium et spes<\/em>, particularmente na leitura dos sinais dos tempos e em suas reflex\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e hist\u00f3ria e, n\u00e3o menos importante, a renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica \u2012 <em>Sacrosanctum Concilium <\/em>\u2012 que rapidamente mudou a vida concreta dos sacerdotes nas pr\u00e1ticas t\u00e3o importantes como cotidianas. Mas como mostra a an\u00e1lise dos diversos processos hist\u00f3ricos no continente, a influ\u00eancia do Conc\u00edlio n\u00e3o deve ser superestimada; \u00e9 um elemento decisivo, mas junto a outros n\u00e3o menos relevantes que nos permitem entender o que aconteceu nessas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se reconhecer que este \u00e9, de fato, um dos \u00e2mbitos fracos da renova\u00e7\u00e3o conciliadora no continente. Certos aspectos de Medell\u00edn, contr\u00e1rios aos novos tons de <em>Presbyterorum ordinis<\/em>, parecem um sintoma inicial disso. Isso \u00e9 indicado, por exemplo, no vocabul\u00e1rio utilizado, no mesmo t\u00edtulo &#8220;Sacerdotes&#8221;, na constitui\u00e7\u00e3o de um minist\u00e9rio independente de uma comunidade concreta, com um esquema descendente. O julgamento de F. Taborda \u00e9 significativo: n\u00e3o obstante a perspectiva da op\u00e7\u00e3o pelos pobres, t\u00edpica de todos os textos de Medell\u00edn, &#8220;\u00e9 decepcionante a teologia do presbiterado descrito&#8221; no respectivo documento (TABORDA, 2017, p. 211). A quest\u00e3o aqui \u00e9 se, \u00e0 luz do processo vivenciado nessas d\u00e9cadas, nessa \u00e1rea n\u00e3o estamos enfrentando um fen\u00f4meno mais global, que n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico para o catolicismo latino-americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O decreto <em>Optatam totius<\/em>, por sua vez, recebeu uma recep\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel de forma semelhante aos outros documentos conciliares. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel fazer uma avalia\u00e7\u00e3o dos processos vivenciados nessas d\u00e9cadas nos semin\u00e1rios de forma\u00e7\u00e3o de candidatos ao presbiterado dada a diversidade dos pa\u00edses e a complexidade das quest\u00f5es. Ainda que seja verdade que eles mant\u00eam uma estrutura relativamente uniforme baseada nas normas e orienta\u00e7\u00f5es da Santa S\u00e9. N\u00e3o se pode negar processos de mudan\u00e7a, entre os quais \u00e9 poss\u00edvel destacar uma maior relev\u00e2ncia dada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o humana, com a crescente contribui\u00e7\u00e3o da psicologia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o pastoral. \u00c9 verdade que, ainda hoje, poderiam ser subscritos muitos dos aspectos positivos j\u00e1 reconhecidos pelo documento de Medell\u00edn:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota-se maior integra\u00e7\u00e3o na equipe de formadores; atualizando isso atrav\u00e9s de cursos e encontros de reflex\u00e3o; esfor\u00e7o para uma forma\u00e7\u00e3o mais pessoal dos seminaristas dentro de um ambiente familiar; integra\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio na comunidade eclesial e na comunidade humana; mais contato do bispo e dos padres paroquiais com o semin\u00e1rio; maior abertura para as realidades do mundo de hoje e da fam\u00edlia; renova\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos pedag\u00f3gicos; aplica\u00e7\u00e3o de uma psicologia saud\u00e1vel no discernimento e orienta\u00e7\u00e3o dos candidatos. (DMed n.13, 6)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns aspectos negativos, j\u00e1 indicados \u00e0 \u00e9poca de Medell\u00edn, parecem conservar toda sua atualidade, ainda que em um novo contexto cultural, tais como a exist\u00eancia de \u201cformadores insuficientemente preparados\u201d ou as \u201cfalhas na forma\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade humana plena\u201d (DMed n.13, 5). A participa\u00e7\u00e3o de leigas e leigos na forma\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 limitada. Um ponto central parece n\u00e3o ter sido conquistado: n\u00e3o obstante as transforma\u00e7\u00f5ess realizadas, a mentalidade clerical, expresa em formas de lideran\u00e7a e pr\u00e1ticas institucionais, n\u00e3o apresenta uma melhora substantiva. Isso coloca em quest\u00e3o a eclesiologia que, de pronto, n\u00e3o na declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es, est\u00e1 na base dos projetos de forma\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o surge at\u00e9 que ponto a pr\u00f3pria estrutura dos semin\u00e1rios n\u00e3o contribui para a imobilidade nesse aspecto t\u00e3o importante para a realiza\u00e7\u00e3o de uma eclesiologia do Povo de Deus. Os profundos desafios colocados pela chamada cultura p\u00f3s-moderna, que destaca Aparecida (DAp n.318), n\u00e3o podem ser desconhecidos. De qualquer forma, as limita\u00e7\u00f5es vistas nas estruturas de forma\u00e7\u00e3o, em grande parte, tamb\u00e9m n\u00e3o parecem ser uma caracter\u00edstica especificamente latino-americana de acolhimento conciliador, mas uma quest\u00e3o comum a outras regi\u00f5es geogr\u00e1ficas da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 Transforma\u00e7\u00f5es na vida religiosa ou consagrada<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A redescoberta de seus fundadores e seus carismas iniciais, estimulados pelo decreto conciliador <em>Perfectae caritatis<\/em>, por um lado, e o decl\u00ednio de novas voca\u00e7\u00f5es e os in\u00fameros abandonos, por outro, marcaram a vida das mais diversas congrega\u00e7\u00f5es e institutos religiosos nessas d\u00e9cadas, como uma tend\u00eancia global. As quest\u00f5es de renova\u00e7\u00e3o e de identidade representam um dos desafios e das tarefas mais relevantes do p\u00f3s-Conc\u00edlio em refer\u00eancia \u00e0 vida consagrada. Uma frase de Medell\u00edn resume bem o clima da \u00e9poca: &#8220;Nestes tempos de revis\u00e3o, muitos se perguntam qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do religioso na Igreja e qual \u00e9 sua voca\u00e7\u00e3o especial dentro do Povo de Deus&#8221; (DMed n.12,2). Assim como no resto das voca\u00e7\u00f5es na Igreja, a reconfigura\u00e7\u00e3o da identidade da vida consagrada tem sido marcada, predominantemente, por responsabilidades diante dos processos hist\u00f3ricos: &#8220;ela deve ser incorporada no mundo real e hoje com maior aud\u00e1cia do que em outros tempos\u201d (DMed n.12,2). O chamado geral da <em>Gaudium et spes<\/em> teve um impacto peculiar neste modo de vida: \u201csomos testemunhas que um novo humanismo est\u00e1 nascendo, no qual o ser humano \u00e9 definido principalmente pela responsabilidade com seus irm\u00e3os e irm\u00e3s e pela hist\u00f3ria\u201d (GS n.55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto mais geral se situa a que \u00e9, talvez, a principal novidade ou originalidade dessas d\u00e9cadas nas formas de vida consagrada, j\u00e1 estabelecida por Puebla (1979): a mudan\u00e7a de lugar social, ou seja, comunidades inseridas em meio popular. \u201cSurgem \u2018pequenas comunidades\u2019, geralmente nascidas do desejo de se inserir em bairros modestos ou no campo, ou de uma miss\u00e3o evangelizadora particular\u201d (DPb n.731). Trata-se de uma nova forma ou figura eclesial em conson\u00e2ncia com a nova consci\u00eancia da pobreza: &#8220;colocou em uma luz mais clara sua rela\u00e7\u00e3o com a pobreza dos marginalizados, o que n\u00e3o implica mais n\u00e3o apenas o desprendimento interno e a austeridade da comunidade, mas tamb\u00e9m a solidariedade, o compartilhamento e em \u2012 alguns casos \u2012 \u00a0conv\u00edvio com os pobres\u201d (DPb n.734) (MESTERS, 1997). Esse processo incluiu a revis\u00e3o das obras tradicionais e foi vivido com muitas tens\u00f5es (BARROS, 2018). \u00c9 tamb\u00e9m fruto da redescoberta da voca\u00e7\u00e3o original dos fundadores, que quase sempre responderam a uma necessidade espec\u00edfica dos pobres e marginalizados. Nesse sentido, Ronaldo Mu\u00f1oz declarou em 1987: \u201cvivemos um tempo de refunda\u00e7\u00e3o de todas as congrega\u00e7\u00f5es religiosas\u201d (MUOZ, 2002, p. 76). Este \u00e9 um passo muito significativo, particularmente por congrega\u00e7\u00f5es femininas. Por outro lado, n\u00e3o se pode ignorar a importante in\u00e9rcia institucional t\u00edpica de uma \u201cpastoral de conserva\u00e7\u00e3o\u201d (DMed n.6,19). Em suma, \u00e0 luz de uma recep\u00e7\u00e3o conciliar complexa, mas substancialmente positiva, uma variedade de quest\u00f5es e desafios s\u00e3o agora vislumbrados para dar a esses carismas eclesiais uma forma apropriada em uma situa\u00e7\u00e3o cultural profundamente transformada (VIT\u00d3RIO, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A leitura popular da B\u00edblia e a <\/strong><strong>anima\u00e7\u00e3o b\u00edblica de toda a pastoral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As v\u00e1rias iniciativas em torno da Palavra de Deus desenvolvidas nas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina e no Caribe se reconhecem explicitamente como devedores da renova\u00e7\u00e3o produzida pelo movimento b\u00edblico do s\u00e9culo XX e, particularmente, pela Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em>. O documento de 1993, \u201cA Interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja\u201d, da Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica, tamb\u00e9m teve efeitos importantes. Se a Constitui\u00e7\u00e3o conciliar desencadeou o movimento b\u00edblico no continente, este texto confirmou v\u00e1rias das intui\u00e7\u00f5es da caminhada b\u00edblica latino-americana: interdisciplinaridade na interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, o valor do contexto do leitor, leituras liberacionistas e feministas, cr\u00edticas \u00e0 leitura fundamentalista, a avalia\u00e7\u00e3o de <em>lectio divina<\/em> etc (SALAZAR, 2009, p. 18, 23). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, tamb\u00e9m, de que o uso da l\u00edngua vernacular em celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas favoreceu os processos de apropria\u00e7\u00e3o da B\u00edblia pelo Povo de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre todas as realiza\u00e7\u00f5es dessas d\u00e9cadas, uma delas merece ser particularmente destacada.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A heran\u00e7a do Conc\u00edlio encontrou sua express\u00e3o mais significativa e criativa na leitura popular da B\u00edblia, uma ampla apropria\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da Palavra de Deus que alimentou o caminho das comunidades eclesiais de base e das pastorais sociais ao longo desses anos, com grande protagonismo dos leigos, e de modo especial das mulheres. (BEOZZO, 2012, p. 442)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta declara\u00e7\u00e3o de J. O. Beozzo encontraria um consenso significativo de muitos autores\/as. Nas palavras de um dos principais propulsores, Paul Richard:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento b\u00edblico na Am\u00e9rica Latina consiste justamente em devolver a B\u00edblia ao Povo de Deus: colocar a B\u00edblia em suas m\u00e3os, seu cora\u00e7\u00e3o e suas mentes. O Povo de Deus, como o aut\u00eantico \u201cpropriet\u00e1rio\u201d da B\u00edblia e int\u00e9rprete dela, recupera seu direito divino de ler e interpretar as Sagradas Escrituras. (RICHARD, 2007, p. 11)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seu servi\u00e7o est\u00e3o a ci\u00eancia b\u00edblica e o magist\u00e9rio eclesial. Na opini\u00e3o do principal expoente dessa iniciativa, Carlos Mesters, as novidades dessa experi\u00eancia, n\u00e3o obstante as diferen\u00e7as em suas conquistas nos pa\u00edses e regi\u00f5es, est\u00e3o no objetivo, no tema da interpreta\u00e7\u00e3o e no lugar social. O objetivo n\u00e3o \u00e9 buscar informa\u00e7\u00f5es sobre o passado, mas iluminar o presente com a luz da presen\u00e7a de Deus conosco e interpretar a vida com a ajuda da B\u00edblia. O sujeito n\u00e3o \u00e9 o especialista; interpretar as escrituras \u00e9 uma atividade comunit\u00e1ria na qual todos participam, incluindo o exegeta que desempenha um papel especial nela. Se o lugar dos pobres tamb\u00e9m \u00e9 central aqui, a contribui\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas e, em particular, das mulheres \u00e9 um fato crescente e not\u00e1vel. O lugar social onde se faz a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a partir dos pobres e marginalizados. Isso muda a forma de olhar, principalmente, por sua consci\u00eancia social cr\u00edtica (MESTERS, 1991, p. 153). \u00c9 uma leitura de natureza ecum\u00eanica, n\u00e3o por causa de seus debates te\u00f3ricos, mas pelo compromisso de todos os crentes com a defesa da vida amea\u00e7ada e da busca pela liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em particular, o uso do m\u00e9todo ver-julgar-agir ajudou a desenvolver o que seus autores descrevem como uma &#8220;nova vis\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o: Deus fala hoje\u201d (MESTERS, 2015, p. 534). A B\u00edblia \u00e9 considerada &#8220;o segundo livro de Deus que nos permite discernir no Livro da Vida onde Deus est\u00e1, como Deus \u00e9, e qual \u00e9 sua Palavra para n\u00f3s&#8221;. Nesse sentido, afirma-se,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia nos revela a Palavra de Deus, mas tamb\u00e9m nos revela quando e onde Deus se revela em nossa realidade. (\u2026) Devemos ouvir a Palavra de Deus com um olho na B\u00edblia e o outro na realidade em que vivemos. Ao descobrir a prioridade do Livro da Vida como o primeiro Livro de Deus, agora podemos sair do texto da B\u00edblia para o texto da Vida. Em sua leitura pastoral, eles utilizam sempre a distin\u00e7\u00e3o entre o Livro da Vida e o Livro da B\u00edblia; dando prioridade ao Livro da Vida como o primeiro Livro de Deus. (RICHARD, 2010, p. 249)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se observa claramente, a chamada leitura popular da B\u00edblia est\u00e1 intimamente ligada a outras experi\u00eancias t\u00edpicas do p\u00f3s-Conc\u00edlio latino-americano: a escolha pelos pobres, as comunidades de base e a metodologia indutiva herdada da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica especializada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto de relevo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Palavra de Deus na vida da Igreja \u00e9 a mudan\u00e7a de paradigma produzida na pastoral b\u00edblica, isto \u00e9, uma nova forma de conceber a dimens\u00e3o b\u00edblica da a\u00e7\u00e3o pastoral das igrejas no continente: desde uma pastoral especializada com outras (pastorais educativos, pastoral da sa\u00fade, etc.) a uma anima\u00e7\u00e3o b\u00edblica de toda a pastoral. Nesse sentido, e parafraseando a express\u00e3o conciliadora sobre a B\u00edblia &#8220;como a alma da teologia sagrada&#8221; (DV n.24), as Escrituras t\u00eam sido afirmadas como a &#8220;alma da pastoral&#8221;. A express\u00e3o significativa, &#8220;anima\u00e7\u00e3o b\u00edblica de toda a pastoral&#8221;, foi assumida no magist\u00e9rio latino-americano (DAp n.248) e, posteriormente, na exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal de Bento XVI, <em>Verbum Domini<\/em> (2010) (ULLOA, 2015, p. 298).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale ressaltar as diversas iniciativas desenvolvidas pela CELAM, por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de um instituto especializado, o Cebitepal, dedicado especialmente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de pastorais e \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o da pastoral b\u00edblica. Igualmente a exist\u00eancia de revistas b\u00edblicas especializadas e algumas associa\u00e7\u00f5es de biblistas de v\u00e1rios pa\u00edses (M\u00e9xico, Chile, Argentina, Paraguai, Brasil etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode subestimar a import\u00e2ncia das v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es, como nunca antes feitas na hist\u00f3ria da Igreja no continente. Elas incluem a chamada B\u00edblia latino-americana e um projeto editorial em andamento, a B\u00edblia da Am\u00e9rica. Al\u00e9m do que aconteceu no \u00e2mbito lit\u00fargico \u2012 a introdu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua vern\u00e1cula \u2012, destacam-se tamb\u00e9m os trabalhos interconfessionais com as Sociedades B\u00edblicas Unidas. O campo b\u00edblico tem sido um dos espa\u00e7os privilegiados de iniciativas ecum\u00eanicas conjuntas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, a an\u00e1lise do biblista chileno P. Uribe parece correta. A recep\u00e7\u00e3o do movimento b\u00edblico, em geral, e dos ensinamentos da constitui\u00e7\u00e3o conciliar <em>Dei Verbum<\/em> t\u00eam sido verificada mais em experi\u00eancias pr\u00e1ticas e pastorais do que em obras te\u00f3ricas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de uma recep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o adere de forma ortodoxia ao <em>sensus fidei<\/em>, mas que sua ades\u00e3o se realiza na pr\u00e1xis e a partir dessa pr\u00e1xis se pode se refletir teoricamente, elaborando certos n\u00edveis de apropria\u00e7\u00e3o dos ensinamentos contidos na Constitui\u00e7\u00e3o. (ULLOA, 2015, p. 298)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 A reforma lit\u00fargica e a religiosidade popular<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reforma lit\u00fargica do Conc\u00edlio provavelmente foi a mudan\u00e7a mais imediata e impactante na vida concreta de in\u00fameras comunidades eclesiais em todo o continente. Em particular, o uso da l\u00edngua vern\u00e1cula visibilizou o Vaticano II, suas inten\u00e7\u00f5es pastorais e seu processo de <em>aggiornamento<\/em> sem romper com a tradi\u00e7\u00e3o anterior. Nesse sentido, o ponto central da reforma lit\u00fargica, isto \u00e9, a participa\u00e7\u00e3o ativa e frut\u00edfera dos fi\u00e9is, recebeu um importante impulso. Embora n\u00e3o tenham faltado abusos devido \u00e0 falta de observ\u00e2ncia das regras lit\u00fargicas, por um lado, ou resist\u00eancia \u00e0 renova\u00e7\u00e3o, por outro lado, ambos os aspectos encontrados em Puebla (DPb 1n.01, 903), parece que, historicamente, n\u00e3o s\u00e3o notas decisivas para caracterizar o acolhimento conciliar da reforma lit\u00fargica no continente. O <em>motu proprio Summorum pontificum<\/em> (2007), de Bento XVI, que liberalizou o uso da liturgia romana que precede a reforma conciliar e teve efeitos significativos na medida em que fortaleceu o espa\u00e7o existente do tradicionalismo lit\u00fargico legitimando teologicamente posi\u00e7\u00f5es eclesiais e lit\u00fargicas pr\u00e9-conciliares, parece n\u00e3o ter tido impacto significativo nas igrejas na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, ao contr\u00e1rio dos pa\u00edses de l\u00edngua inglesa (FAGGIOLI, 2018, p. 28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Notam-se importantes fragilidades da recep\u00e7\u00e3o conciliar, por um lado, em um processo de incultura\u00e7\u00e3o apenas recentemente iniciado, e por outro, em uma dist\u00e2ncia ou rela\u00e7\u00e3o t\u00eanue da reforma lit\u00fargica com religiosidade popular, chave na experi\u00eancia crente de milh\u00f5es de pessoas e na vida das igrejas no continente; \u00e9, al\u00e9m disso, uma quest\u00e3o pouco relevante no mesmo <em>Sacrosanctum concilium<\/em>. Sobre o primeiro aspecto, a Confer\u00eancia de S\u00e3o Domingos diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda n\u00e3o \u00e9 abordado o processo de incultura\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel da liturgia; isso faz com que as celebra\u00e7\u00f5es sejam ainda, para muitos, at\u00e9 mesmo algo ritual\u00edstico e privado que n\u00e3o os torna conscientes da presen\u00e7a transformadora de Cristo e de seu Esp\u00edrito, nem se traduz em um compromisso solid\u00e1rio para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. (DSD n.43)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A opini\u00e3o autorizada de Roberto Russo \u00e9 clara sobre isso. Parece que a determina\u00e7\u00e3o com que o di\u00e1logo entre a liturgia romana e as diversas culturas diminuiu, argumenta o liturgista uruguaio. \u201cO problema da l\u00edngua foi resolvido, e substancialmente bem. Mas fica pendente a quest\u00e3o da linguagem, que \u00e9 mais dif\u00edcil e ainda precisa ser realizada, nos textos, nos s\u00edmbolos e na m\u00fasica\u201d (RUSSO, 2013, p. 245).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o v\u00ednculo com a piedade popular ou o catolicismo popular, uma proposta pastoral de Puebla ilumina bem o problema:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Favorecer a fecunda\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre a Liturgia e a piedade popular que canalizem com lucidez e prud\u00eancia os anseios de ora\u00e7\u00e3o e vitalidade carism\u00e1tica que hoje se comprova em nossos pa\u00edses. Por outro lado, a religi\u00e3o do povo, com sua grande riqueza simb\u00f3lica e expressiva, pode proporcionar \u00e0 liturgia um dinamismo criativo. Isso, devidamente discernido, pode servir para incorporar cada vez mais e melhor a ora\u00e7\u00e3o universal da Igreja em nossa cultura. (DPb n.465) (SANCHEZ ESPINOSA, 2013)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da piedade popular, &#8220;uma express\u00e3o privilegiada da incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica&#8221; (DSD n.36), esteve presente em todas as Confer\u00eancias, desde Medell\u00edn \u00a0\u2012 de forma relevante em Puebla (DPb n.444-469) \u2012 a Aparecida. Nessa \u00faltima, com duas novas express\u00f5es \u00a0\u2012 uma verdadeira &#8220;m\u00edstica do popular&#8221; ou &#8220;espiritualidade popular&#8221; (DAp n.262, 263) \u2012 adquiriu definitivamente um lugar muito proeminente. Se destaca a import\u00e2ncia de santu\u00e1rios, peregrina\u00e7\u00f5es, festas, canto, vestidos, dan\u00e7as etc. (BIANCHI, 2009). Uma liga\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima e n\u00e3o confusa entre a liturgia e a piedade popular parece uma tarefa pendente, compreens\u00edvel no contexto da defici\u00eancia apontada sobre a incultura\u00e7\u00e3o do rito romano. Essa defici\u00eancia \u00e9 muito importante quando voc\u00ea leva em conta, em particular, o significado da piedade mariana, expressa particularmente na import\u00e2ncia dos santu\u00e1rios marianos no continente (Guadalupe, Aparecida, Luj\u00e1n etc.) que congregam anualmente milh\u00f5es de crentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fraqueza das propostas acad\u00eamicas de teologia lit\u00fargica nas faculdades e casas de forma\u00e7\u00e3o aos presb\u00edteros e, em geral, o pequeno n\u00famero de te\u00f3logos\/as e agentes pastorais formados nesta disciplina d\u00e1 o que pensar. Al\u00e9m disso, o reconhecimento expresso em Puebla de que \u00e0 pastoral lit\u00fargica n\u00e3o foi dada &#8220;a prioridade que lhe corresponde dentro da pastoral conjunto&#8221; (DPb n.901) parece conservar toda a sua atualidade. Ambos os fen\u00f4menos indicariam que a renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, embora sua import\u00e2ncia objetiva, representa uma \u00e1rea negligenciada da recep\u00e7\u00e3o conciliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um desafio de longa data e muito significativo em algumas regi\u00f5es do continente \u00e9 a falta de celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica dominical. Embora o problema seja claramente levantado em Aparecida, n\u00e3o parece que uma resposta satisfat\u00f3ria tenha sido formulada l\u00e1 (ALMEIDA, 2018). Reconhece-se a exist\u00eancia de &#8220;milhares de comunidades com seus milh\u00f5es de membros que n\u00e3o t\u00eam a oportunidade de participar da Eucaristia dominical&#8221;; eles s\u00e3o encorajados a participar das celebra\u00e7\u00f5es da Palavra e &#8220;a rezar por voca\u00e7\u00f5es sacerdotais&#8221; (DAp n.253). Neste ponto, o s\u00ednodo da Amaz\u00f4nia de outubro de 2019 indicaria um caminho a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, se a reforma lit\u00fargica \u00e9 valorizada como uma renova\u00e7\u00e3o positiva e muito significativa, as limita\u00e7\u00f5es vistas na vida das igrejas desta regi\u00e3o nos permitem entender o julgamento severo de R. Russo: &#8220;no continente latino-americano, as grandes linhas que v\u00e3o al\u00e9m da pura reforma dos ritos ou dos textos desejados pelo <em>Sacrosanctum Concilium<\/em> n\u00e3o foram desenvolvidas e n\u00e3o foram totalmente aceitas&#8221;. (RUSSO, 2013, p. 245). Os princ\u00edpios inspiradores da reforma lit\u00fargica n\u00e3o desenvolveram totalmente seu potencial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Reflex\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma avalia\u00e7\u00e3o da recep\u00e7\u00e3o conciliar deve, naturalmente, incluir muitos outros aspectos relevantes. O tema da catequese, por exemplo, tem representado uma \u00e1rea pastoral muito din\u00e2mica e criativa, com esp\u00edrito conciliar e uma grande difus\u00e3o e impacto nas comunidades crist\u00e3s. Em grande parte, este tema esteva ausente do Conc\u00edlio, mas \u00e9 uma quest\u00e3o decisiva, j\u00e1 desde Medell\u00edn, que adquiriu, n\u00e3o s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina, um desenvolvimento vigoroso no dinamismo do p\u00f3s-Conc\u00edlio. O campo educacional, por sua vez, tamb\u00e9m seguiu seu pr\u00f3prio itiner\u00e1rio, inclusive diferenciando-se da proposta geral expressa na Declara\u00e7\u00e3o <em>Gravissimum educationis<\/em> do Vaticano II. O conceito de Medell\u00edn de educa\u00e7\u00e3o libertadora mostra uma recep\u00e7\u00e3o com um relevo diversificado. O desenvolvimento do di\u00e1logo ecum\u00eanico teve, acima de tudo, iniciativas comuns diante dos problemas dos direitos humanos. A paisagem religiosa do continente passa por uma transforma\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel nessas d\u00e9cadas com a perda da verdadeira ou suposta hegemonia cat\u00f3lica anterior. Os desenvolvimentos teol\u00f3gicos t\u00eam sido relevantes, especialmente ligados aos contextos hist\u00f3ricos e culturais. A mera declara\u00e7\u00e3o de algumas de suas v\u00e1rias correntes revela a riqueza do processo que ocorreu: teologias da liberta\u00e7\u00e3o, teologias feministas latino-americanas, teologia ind\u00edgena ou amer\u00edndia e teologias afro-americanas, teologia do povo etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Victor Codina oferece uma formula\u00e7\u00e3o que sintetiza bem os processos vivenciados nessas d\u00e9cadas:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, a recep\u00e7\u00e3o do Vaticano II n\u00e3o foi uma mera assimila\u00e7\u00e3o vital, muito menos uma simples aplica\u00e7\u00e3o do Vaticano II para a Am\u00e9rica Latina: tem sido uma recria\u00e7\u00e3o original, uma fidelidade criativa, uma releitura do Conc\u00edlio de um continente ao mesmo tempo crist\u00e3o e marcado pela pobreza e injusti\u00e7a. Essa recep\u00e7\u00e3o fez avan\u00e7ar a doutrina conciliar, desenvolveu suas intui\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas, dando ao <em>aggiornamento<\/em> conciliar uma tradu\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e hist\u00f3rica muito concreta. Por essa raz\u00e3o, essa recep\u00e7\u00e3o, apesar de ter sido feita em plena comunh\u00e3o com a Igreja universal, tem sido frequentemente conflitante para setores da sociedade civil e tamb\u00e9m da Igreja, incapazes de entender o dinamismo e a novidade do Esp\u00edrito. Tem sido uma recep\u00e7\u00e3o de mart\u00edrio no sentido forte da palavra: fielmente recebida por testemunhas do evangelho que, em muitos casos, viveram sua fidelidade ao Senhor at\u00e9 o derramamento de sangue. \u00c9 por isso que a recep\u00e7\u00e3o do Vaticano II pelo continente latino-americano merece respeito: devemos nos descal\u00e7ar, estamos em solo sagrado. Ningu\u00e9m poderia imaginar os impulsos da vida que surgiram. Foi um momento de gra\u00e7a, um <em>kair\u00f3s<\/em>, um verdadeiro Pentecostes, assim como o Vaticano II. (CODINA, 2013, p. 82)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Carlos Schickendantz. <\/em>Centro Manuel Larra\u00edn (Universidade Alberto Hurtado), Santiago, Chile. Texto original espanhol. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALMEIDA, A. J. <em>Procuram-se padres. <\/em>Centralidade da Eucaristia e escassez de clero. S\u0101o Paulo: Paulinas, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARROS, M. A profecia da vida consagrada, um olhar sobre o documento 12 das Conclus\u00f5es de Medell\u00edn, 50 anos depois. In: SOUZA, N.; SBARDELOTTI, E. (eds.). <em>Medell\u00edn. <\/em>Mem\u00f3ria, profetismo e esperan\u00e7a na Am\u00e9rica Latina. Petr\u00f3polis: Vozes 2018, p.317-328.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BEOZZO, J. O. 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Costadoat por escrever as ideias desse ponto.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Sinais dos tempos \u2013 M\u00e9todo Ver-Julgar-Agir 2 A irrup\u00e7\u00e3o dos pobres e para eles a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus 3 Transforma\u00e7\u00f5es em algumas formas de vida no Povo de Deus 3.1 O servi\u00e7o presbiterial 3.2 Transforma\u00e7\u00f5es na vida religiosa ou consagrada 4 A leitura popular da B\u00edblia e a anima\u00e7\u00e3o b\u00edblica de toda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-2081","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2081"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2446,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions\/2446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}