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{"id":2079,"date":"2020-12-31T17:19:48","date_gmt":"2020-12-31T19:19:48","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2079"},"modified":"2021-04-20T15:15:46","modified_gmt":"2021-04-20T18:15:46","slug":"a-eucaristia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2079","title":{"rendered":"A Eucaristia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>1 Realidade atual da eucaristia<\/p>\n<p>2 Valoriza\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio<\/p>\n<p>3 Sacramento principal<\/p>\n<p>4 Nomes<\/p>\n<p>5 A doutrina fundamental<\/p>\n<p><em>5.1 Institu\u00edda por Cristo na \u00faltima ceia<\/em><\/p>\n<p><em>5.2 Memorial da ceia<\/em><\/p>\n<p><em>5.3 Memorial do sacrif\u00edcio<\/em><\/p>\n<p><em>5.4 A presen\u00e7a real de Cristo<\/em><\/p>\n<p><em>5.5 Transubstancia\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>5.6 A quest\u00e3o das esp\u00e9cies e a f\u00f3rmula essencial<\/em><\/p>\n<p>6 A eucaristia e a Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 A celebra\u00e7\u00e3o, em s\u00edntese<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Realidade atual da eucaristia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia, como principal celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja, sofre nestes tempos as mesmas tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es que a f\u00e9 crist\u00e3 nas sociedades contempor\u00e2neas. N\u00e3o \u00e9 estranho, porque celebra, precisamente, a f\u00e9 em Jesus Cristo, morto e ressuscitado na vida atual da humanidade e de cada crente. A liturgia \u00e9 sens\u00edvel \u00e0s mudan\u00e7as no mundo e na Igreja, porque n\u00e3o se celebra em espa\u00e7os e tempos abstratos, mas nos contextos humanos, culturais e eclesiais concretos de cada crente e de cada comunidade. Em geral, pode-se dizer que, na \u00faltima d\u00e9cada, um grande n\u00famero de cat\u00f3licos deixou de participar da eucaristia dominical e de praticar a vida sacramental. Em geral, s\u00e3o aqueles cuja rela\u00e7\u00e3o com a Igreja se baseava sobretudo na recep\u00e7\u00e3o dos sacramentos e na participa\u00e7\u00e3o nos funerais e nas grandes festas crist\u00e3s do ano lit\u00fargico ou dos santu\u00e1rios. As comunidades eclesiais de base, capelas de bairros mais homog\u00eaneos ou setores rurais, por outro lado, tendem a manter uma pr\u00e1xis celebrativa mais viva e regular. Mas tamb\u00e9m, muito frequentemente, t\u00eam se ressentido do distanciamento dos jovens e da dificuldade de engajar leigos e leigas nos v\u00e1rios pap\u00e9is lit\u00fargicos ligados \u00e0 eucaristia: coros, leitores, ac\u00f3litos. A crise resultante dos abusos de poder, consci\u00eancia e sexuais de membros do clero, que nos \u00faltimos anos foi amplamente divulgada e afetou fortemente a Igreja em muitos pa\u00edses do continente, tem sido um fator que, para muitos cat\u00f3licos com uma perten\u00e7a mais fr\u00e1gil \u00e0 Igreja e\/ou uma forma\u00e7\u00e3o mais superficial, os leva a cessar praticamente toda a participa\u00e7\u00e3o nela, a come\u00e7ar pela eucaristia dominical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, a realidade da celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia \u00e9 muito vasta e diversa para ser resumida ou generalizada em poucas linhas. De um lado, existem comunidades com celebra\u00e7\u00f5es muito vivas e participativas, e de outro, igrejas onde o n\u00famero de fi\u00e9is que v\u00e3o \u00e0 missa dominical diminuiu drasticamente, enquanto a idade m\u00e9dia dos participantes aumentou com a mesma radicalidade. Os planos pastorais diocesanos, o carisma dos p\u00e1rocos ou dos sacerdotes que presidem a eucaristia, a forma\u00e7\u00e3o dos leigos e das leigas e a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja local s\u00e3o determinantes para a qualidade da vida lit\u00fargica e, em particular, das celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas. As grandes diferen\u00e7as nestes aspectos tamb\u00e9m determinam, em grande parte, as diferen\u00e7as na qualidade, participa\u00e7\u00e3o e vivacidade das missas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este olhar realista, que n\u00e3o pretende ser pessimista, \u00e9 necess\u00e1rio no in\u00edcio de um tratamento doutrinal da eucaristia, pois n\u00f3s, cat\u00f3licos, colocamos este sacramento no lugar mais alto da vida lit\u00fargica da Igreja e n\u00e3o deixamos de proclamar sua centralidade e import\u00e2ncia. Para muitos pode parecer que essas afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade no momento e, para falar a verdade, n\u00e3o estariam errados. Por outro lado, pode a Igreja renunciar a afirmar e ensinar a import\u00e2ncia e a centralidade da eucaristia, sem com isso afetar o pr\u00f3prio cerne da sua pr\u00e1xis lit\u00fargico-sacramental?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Valoriza\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O magist\u00e9rio da Igreja continua a colocar a eucaristia em um lugar eminente na sua pr\u00e1tica cultual. O <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em> (CEC) reafirma que a eucaristia \u00e9 &#8220;a fonte e o \u00e1pice de toda a vida crist\u00e3&#8221;, citando a <em>Lumen Gentium<\/em> n.11 (CEC n.1324); que &#8220;cont\u00e9m todo o bem espiritual da Igreja, isto \u00e9, o pr\u00f3prio Cristo, nossa P\u00e1scoa&#8221;, citando <em>Presbyterorum ordinis<\/em> n.5 (CEC n.1325), e termina afirmando que &#8220;a eucaristia \u00e9 o comp\u00eandio e a soma da nossa f\u00e9&#8221; (CEC n.1327).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anteriormente, a constitui\u00e7\u00e3o sobre a liturgia do Conc\u00edlio Vaticano II, a <em>Sacrosanctum Concilium<\/em> (SC), afirmava que a liturgia, da qual a eucaristia \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima, \u00e9 \u201co \u00e1pice a que tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte da qual emana toda a sua for\u00e7a\u201d (SC n.10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II dedicou importantes p\u00e1ginas \u00e0 eucaristia no seu magist\u00e9rio, dentre as quais se destaca a sua \u00faltima carta enc\u00edclica, em 2003, <em>Ecclesia de Eucharistia<\/em> (EdE). Nela h\u00e1 passagens testemunhais de grande profundidade, como a que diz: \u201cAqui (na eucaristia) est\u00e1 o tesouro da Igreja, o cora\u00e7\u00e3o do mundo, o penhor do fim a que todo homem, ainda que inconscientemente , aspira. Um grande mist\u00e9rio, que certamente nos ultrapassa e p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade\u00a0 de nossa mente de ir al\u00e9m das apar\u00eancias\u201d (EdE n.59).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o papa em\u00e9rito Bento XVI escreveu sobre a eucaristia. Particularmente importante \u00e9 a sua exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Sacramentum caritatis<\/em> (SC), de 2007, na qual integra a reflex\u00e3o do S\u00ednodo dos Bispos de 2005, cujo tema foi precisamente a eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O magist\u00e9rio do papa Francisco, por sua vez, oferece um grande n\u00famero de catequeses, homilias e frases sobre a eucaristia. Na catequese de 8 de novembro de 2017, Francisco recorda o antigo e impressionante epis\u00f3dio dos m\u00e1rtires da Abit\u00ednia:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos esquecer o grande n\u00famero de crist\u00e3os que, no mundo inteiro, em dois mil anos de hist\u00f3ria, resistiram at\u00e9 \u00e0 morte para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar na Missa dominical. No ano de 304, durante as persegui\u00e7\u00f5es de Diocleciano, um grupo de crist\u00e3os, do norte de \u00c1frica, foram surpreendidos a celebrar a Missa numa casa e foram aprisionados. O proc\u00f4nsul romano, no interrogat\u00f3rio, perguntou-lhes por que o fizeram, sabendo que era absolutamente proibido. E eles responderam: \u201cSem o domingo n\u00e3o podemos viver\u201d, que significava: se n\u00e3o podemos celebrar a Eucaristia, n\u00e3o podemos viver, a nossa vida crist\u00e3 morreria. Com efeito, Jesus disse aos seus disc\u00edpulos: \u201cse n\u00e3o comerdes a carne do Filho do homem, e n\u00e3o beberdes o seu sangue, n\u00e3o tereis vida em v\u00f3s mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no \u00faltimo dia\u201d (Jo\u00a06, 53-54). Aqueles crist\u00e3os do norte de \u00c1frica foram assassinados porque celebravam a Eucaristia. Deixaram o testemunho de que se pode renunciar \u00e0 vida terrena pela Eucaristia, porque ela nos d\u00e1 a vida eterna, tornando-nos part\u00edcipes da vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte. Um testemunho que nos interpela a todos e exige uma resposta acerca do que significa para cada um de n\u00f3s participar no Sacrif\u00edcio da Missa e aproximarmo-nos da Mesa do Senhor. (FRANCISCO, 2017)\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta do Papa Francisco \u00e9 chave em nossos dias: o que a eucaristia significa para n\u00f3s hoje? Se houve momentos em que n\u00e3o era necess\u00e1rio fazer tal pergunta, n\u00e3o s\u00e3o estes que se vive. Certamente, para apreciar a eucaristia n\u00e3o basta saber mais sobre ela. Se o conhecimento n\u00e3o est\u00e1 em conex\u00e3o vital com toda a vida de f\u00e9, \u00e9 de pouca utilidade. Pode nos tornar mais s\u00e1bios, mas n\u00e3o ajuda celebrar melhor nossa f\u00e9. A eucaristia \u00e9, antes de tudo, uma experi\u00eancia. Uma experi\u00eancia celebrativa, festiva, que nasce da gratuidade de ser crist\u00e3o. Podemos saber muito sobre ela, mas para que adquira seu sentido pleno como sacramento da Igreja, deve ser experimentada, vivida e celebrada na comunidade dos fi\u00e9is. Dessa perspectiva, tenta-se aqui sintetizar sua doutrina fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Sacramento principal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia e os minist\u00e9rios da Igreja s\u00e3o orientados para a eucaristia. &#8220;Os outros sacramentos&#8221;, afirma o CEC n.1324, &#8220;assim como todos os minist\u00e9rios eclesiais e obras de apostolado, est\u00e3o unidos \u00e0 eucaristia e a ela s\u00e3o ordenados&#8221;. Sua centralidade na Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 clara e est\u00e1 bem fundamentada na pr\u00e1xis e na doutrina de sua hist\u00f3ria. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio conhecer esses fundamentos nestes tempos em que a forma\u00e7\u00e3o catequ\u00e9tica da Igreja costuma ser fraca e escassa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia \u00e9 o principal dos sete sacramentos. No mundo sacramental, est\u00e1 ordenada com o conjunto dos sacramentos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, juntamente com o batismo e a crisma. A tr\u00edade batismo-crisma-eucaristia foi, durante os primeiros s\u00e9culos do cristianismo, a porta de entrada para a comunidade crist\u00e3, como uma celebra\u00e7\u00e3o sacramental \u00fanica e simult\u00e2nea, da qual a eucaristia era o ponto culminante. Muito tarde na hist\u00f3ria da Igreja, apenas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, generalizou-se o costume de antecipar a eucaristia aos mais novos, alterando assim a ordem tradicional em que eram ministrados os sacramentos de inicia\u00e7\u00e3o: 1-batismo, 2-crisma e 3-eucaristia; para uma nova: 1-batismo, 2-eucaristia e 3-crisma. Mas j\u00e1 antes, na Igreja latina, a crisma havia sido separada do batismo no momento da administra\u00e7\u00e3o. A raz\u00e3o \u00e9 que, no Ocidente, ao contr\u00e1rio das comunidades do Oriente crist\u00e3o, o bispo (e n\u00e3o o sacerdote) foi institu\u00eddo como ministro ordin\u00e1rio (hoje o chamamos original) da confirma\u00e7\u00e3o. Os padres batizavam os rec\u00e9m-nascidos e somente quando o bispo visitava a localidade, ou quando crian\u00e7as ou jovens podiam ir \u00e0 s\u00e9 episcopal, eles podiam ser crismados. E muitas vezes anos se passavam entre os dois sacramentos. Mas mesmo assim, a eucaristia era recebida pela primeira vez apenas na crisma, preservando assim a ordem tradicional: 1-batismo, 2-crisma e 3-eucaristia e, portanto, se preservava o sinal concreto da eucaristia\u00a0 como culmin\u00e2ncia da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje se considera importante recuperar a unidade destes tr\u00eas sacramentos, teol\u00f3gica e pastoralmente vinculados e interdependentes. J\u00e1 que nas igrejas latinas essa unidade n\u00e3o pode ser temporal \u2013 o costume e certas vantagens pastorais de administrar a primeira eucaristia primeiro e depois a crisma est\u00e3o muito arraigados \u2013 tenta-se que seja pelo menos catequ\u00e9tica e liturgicamente clara: na forma\u00e7\u00e3o e no ritual. Considerar a eucaristia como o ponto culminante da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 s\u00f3 pode ser afirmado teoricamente, pois o sinal estabelece como ponto culminante (pelo menos temporalmente) o sacramento da crisma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O batismo e a confirma\u00e7\u00e3o imprimem car\u00e1ter, ou seja, s\u00e3o sacramentos que s\u00f3 s\u00e3o recebidos uma vez na vida, pois deixam uma marca espiritual indel\u00e9vel em quem os recebeu. A eucaristia, por sua vez, \u00e9 o sacramento do caminho crist\u00e3o: \u00e9 recebida quantas vezes forem necess\u00e1rias, como alimento para viver a uni\u00e3o pessoal com Cristo e o discipulado. \u00c9 o sacramento do viajante, do peregrino que deseja viver a sua f\u00e9 no seguimento e na fidelidade \u00e0 miss\u00e3o confiada. Na homilia do Corpus Christi de 2015, o papa Francisco afirmou que \u201ca eucaristia n\u00e3o \u00e9 uma recompensa para os bons, mas uma for\u00e7a para os fracos; para os pecadores \u00e9 o perd\u00e3o, o vi\u00e1tico que nos ajuda a andar, a caminhar\u201d. Imagem profunda e realista: a comunh\u00e3o eucar\u00edstica n\u00e3o pode ser recompensa pelos m\u00e9ritos que um crist\u00e3o possui, mas \u00e9 precisamente o alimento de que necessita na sua fragilidade e vulnerabilidade para viver e testemunhar a sua f\u00e9 no complexo mundo de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Nomes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia recebeu v\u00e1rios nomes ao longo da hist\u00f3ria. Cada um deles destaca algum aspecto de seu conte\u00fado teol\u00f3gico ou de sua forma celebrativa. A CEC os lista de forma mais completa nos n\u00fameros 1328 a 1332. Tr\u00eas deles s\u00e3o particularmente importantes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o<\/em><\/strong>. Esta express\u00e3o encontra-se em Atos 2, 42-46, no contexto da descri\u00e7\u00e3o da primeira comunidade crist\u00e3, e em Atos 20, 7-11, em um contexto que pode ser chamado de lit\u00fargico, de uma assembleia no \u201cprimeiro dia da semana&#8221; (Domingo, Dia do Senhor), com longa palestra (homilia) de S\u00e3o Paulo. A express\u00e3o fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o refere-se diretamente a uma a\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da eucaristia, como \u00e9 a de partir o p\u00e3o para distribu\u00ed-lo, mas tem suas ra\u00edzes em um costume judaico muito mais antigo: o do pai de fam\u00edlia que, depois de aben\u00e7oar a mesa, partia e repartia o p\u00e3o para os seus. Na refei\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa judaica, que \u00e9 o antecedente imediato da eucaristia, este gesto era particularmente significativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Ceia do senhor<\/em><\/strong>. Em 1Cor 11,20, S\u00e3o Paulo usa esta express\u00e3o para distinguir a ceia fraterna que precedeu a \u201cCeia do Senhor\u201d (a eucaristia) nas primeiras comunidades crist\u00e3s. Na comunidade de Corinto, as ceias anteriores eram palco de excessos e desprezo pelos mais pobres, o que motiva a cr\u00edtica de Paulo. Apesar de n\u00e3o se reproduzir na pr\u00f3pria Ceia do Senhor, sua proximidade com ela deve torn\u00e1-los coerentes com o esp\u00edrito crist\u00e3o de fraternidade, solidariedade e apre\u00e7o pelos mais pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Eucaristia<\/em><\/strong>. Este nome encontra-se, na sua forma verbal, dar gra\u00e7as, em Lc 22,19: &#8220;Pegou o p\u00e3o, deu gra\u00e7as (&#8230;)&#8221; e em 1Cor 11,24: &#8220;Pegou o p\u00e3o, agradeceu e partiu-o (&#8230;)\u201d. Bem pr\u00f3ximo est\u00e1 o termo aben\u00e7oar, utilizado em Mc 14,22 e Mt 26,26: \u201cEle tomou o p\u00e3o, aben\u00e7oou-o (&#8230;)\u201d. Dado que a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as e a b\u00ean\u00e7\u00e3o s\u00e3o a\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 liturgia crist\u00e3, e que se manifestam com particular clareza na eucaristia, este \u00e9 o termo que a liturgia atual tem privilegiado sobre os demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Missa?<\/em><\/strong> Embora a express\u00e3o \u201cmissa\u201d continue a ser usada em linguagem coloquial e pastoral em portugu\u00eas, espanhol e outras l\u00ednguas, \u00e9 um termo que deixou de ser usado em linguagem teol\u00f3gica devido \u00e0 sua escassa rela\u00e7\u00e3o com qualquer aspecto central da eucaristia. Sua origem est\u00e1 na Idade M\u00e9dia, na f\u00f3rmula de despedida dos fi\u00e9is no final da eucaristia: \u201c<em>Ite, missa est<\/em>\u201d (literalmente, \u201cvai, foi enviado\u201d, referindo-se implicitamente \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o). A partir da\u00ed, por meton\u00edmia, a eucaristia passou a ser chamada de &#8220;missa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 A doutrina fundamental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.1 Institu\u00edda por Cristo na \u00faltima ceia<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, baseada no Novo Testamento, afirma que a eucaristia foi institu\u00edda por Jesus Cristo na ceia que ele celebrou com seus ap\u00f3stolos na noite anterior \u00e0 sua paix\u00e3o. Os textos fundamentais s\u00e3o Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-25. Transmitem, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, o relato da institui\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje constitui a parte central das Ora\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas. Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental Jo 13,1-15, que relata o lava-p\u00e9s que Jesus fez durante a ceia, considerado um sinal cujo conte\u00fado e significado s\u00e3o paralelos e an\u00e1logos ao da fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o: a entrega radical de sua vida ao servi\u00e7o da humanidade. Diz que o Senhor, tendo amado os seus, amou-os at\u00e9 o fim. Sabendo que chegara a hora de deixar este mundo para voltar para seu Pai, durante o jantar, ele lavou os p\u00e9s dos ap\u00f3stolos e deixou-lhes o mandamento do amor como miss\u00e3o. \u00c9 o mesmo conte\u00fado da oferta do p\u00e3o partido e do vinho repartido, sinais da entrega radical de Jesus aos seus, que os seus disc\u00edpulos devem imitar em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na ceia, Jesus deu \u00e0 P\u00e1scoa, a principal festa judaica, seu \u201csignificado definitivo\u201d (CEC n.1340). &#8220;O nosso Salvador, na \u00faltima Ceia, na noite em que foi entregue, instituiu o sacrif\u00edcio eucar\u00edstico, (&#8230;) banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de gra\u00e7a e nos \u00e9 concedido o penhor da gl\u00f3ria futura\u201d (SC n.47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para lhes deixar um penhor desse amor, para nunca se afastar dos seus e torn\u00e1-los participantes de sua P\u00e1scoa, instituiu a eucaristia como memorial de sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o e ordenou a seus ap\u00f3stolos (\u201caqueles que constitu\u00eda os sacerdotes do Novo Testamento\u201d, Conc\u00edlio de Trento, Denziger-H\u00fcnermann (DH), n.1740) para fazerem o mesmo \u201cem sua mem\u00f3ria\u201d (Lc 22,19 e 1Cor 11,24). Eucaristia e sacerd\u00f3cio ministerial s\u00e3o dois temas que a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica manteve essencialmente ligados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falar da institui\u00e7\u00e3o da eucaristia, \u00e9 necess\u00e1rio referir-se \u00e0 compreens\u00e3o contempor\u00e2nea de &#8220;institui\u00e7\u00e3o&#8221;: n\u00e3o \u00e9 apenas o momento fundante de um sacramento, mas sobretudo a vontade de Jesus de salvar por meio de certos sinais rituais em que Ele mesmo continua a agir por meio do Esp\u00edrito Santo, atrav\u00e9s de ministros que o fazem em seu nome e em seu lugar. Ou seja, a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma a\u00e7\u00e3o do passado hist\u00f3rico, mas um efeito permanente dela, cada vez que o sacramento \u2013 neste caso, a eucaristia \u2013 \u00e9 celebrado novamente: ali est\u00e1 Jesus Cristo, agora ressuscitado e glorioso, presidindo cada assembleia que celebra sua f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.2 Memorial da Ceia<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia \u00e9 \u201cmemorial\u201d: \u201cFazei isto em mem\u00f3ria (comemora\u00e7\u00e3o) de mim\u201d. Este conceito \u00e9 fundamental na compreens\u00e3o sacramental contempor\u00e2nea. Permite-nos compreender melhor o mist\u00e9rio da presen\u00e7a e atualiza\u00e7\u00e3o da obra salv\u00edfica de Cristo na liturgia, e especialmente na eucaristia. N\u00e3o \u00e9 uma mera mem\u00f3ria subjetiva individual, mas uma a\u00e7\u00e3o ritual e eclesial que torna atual e presente a for\u00e7a libertadora das a\u00e7\u00f5es de Jesus. A eucaristia \u00e9, portanto, o memorial do mist\u00e9rio pascal de Cristo: n\u00e3o s\u00f3 evoca ou recorda, mas tamb\u00e9m traz, de algum modo, para o aqui e agora, a obra de salva\u00e7\u00e3o realizada pela sua vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Essa obra torna-se presente e atual atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica celebrada pela Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ritos e as palavras constituem a \u201cmat\u00e9ria-prima\u201d do mundo sacramental crist\u00e3o e, em particular, da eucaristia. Esses ritos, que s\u00e3o a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas realizadas pelos fi\u00e9is em lugares e com objetos significativos, e acompanhados por palavras igualmente significativas, faladas ou cantadas, s\u00e3o os elementos b\u00e1sicos de toda celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Na hist\u00f3ria da eucaristia, o \u00e2mbito significativo estendeu-se, para al\u00e9m dos ritos e das palavras, ao pr\u00e9dio em que \u00e9 celebrada, cujo centro visual e ritual \u00e9 ocupado pelo altar, acompanhado do amb\u00e3o da Palavra, a outros lugares significativos dentro dele (pia batismal, sacr\u00e1rio, sede, lugar de penit\u00eancia, imagens), e para a vestimenta dos ministros. Todos estes sinais s\u00e3o elementos que \u201cfalam\u201d, comunicando um sentido que ultrapassa a mera compreens\u00e3o racional e envolve todo o ser daqueles que formam a assembleia que celebra a sua f\u00e9. No &#8220;pr\u00e9dio-igreja&#8221; \u00e9 realizada a &#8220;Ceia do Senhor&#8221;, que em sua forma ritual evoca a ceia de Jesus com seus disc\u00edpulos antes de sua paix\u00e3o e morte. A mesa (alimento) e a palavra (comunica\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m s\u00e3o os elementos centrais de toda ceia de conv\u00edvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia \u00e9 memorial da \u00fanica ceia hist\u00f3rica que Jesus celebrou com seus disc\u00edpulos antes de padecer. Tanto a \u00faltima ceia narrada pelos Evangelhos, como tamb\u00e9m a paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, ocorridas imediatamente depois, ocorreram apenas uma vez na hist\u00f3ria (<em>ephapax<\/em>). O que foi dado temporalmente se deu uma vez por todas, sacramentalmente, pela obra do Esp\u00edrito Santo, pode ser realizado \u201cem mem\u00f3ria sua\u201d todas as vezes e em qualquer lugar que um grupo de crist\u00e3os queira celebrar sua f\u00e9, \u201cat\u00e9 que Ele venha\u201d (1Cor 11,26), atualizando <em>hic et nunc<\/em> (aqui e agora) a salva\u00e7\u00e3o ocorrida no mist\u00e9rio pascal. Assim, cada eucaristia na hist\u00f3ria participa, sacramentalmente, na \u00fanica ceia do passado temporal por obra do Esp\u00edrito Santo. Cada eucaristia \u00e9 um memorial ou comemora\u00e7\u00e3o da \u00faltima ceia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.3 Memorial do sacrif\u00edcio<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SC n. 47 afirma: \u201cO nosso Salvador instituiu na \u00faltima Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrif\u00edcio eucar\u00edstico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos s\u00e9culos, at\u00e9 Ele voltar, o sacrif\u00edcio da cruz (&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como \u00e9 um memorial da ceia, a eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m um memorial do \u00fanico sacrif\u00edcio hist\u00f3rico de Cristo na cruz. Isso \u00e9 comumente expresso simplesmente dizendo que a eucaristia \u00e9 sacrif\u00edcio. Mas essa express\u00e3o pode suscitar interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas. Tal como acontece com a ceia, quando se diz que a eucaristia \u00e9 sacrif\u00edcio, n\u00e3o se afirma em sentido hist\u00f3rico, pois historicamente Jesus morreu uma s\u00f3 vez na cruz, mas em sentido sacramental ou memorial: a eucaristia \u00e9 o &#8220;sacramento do sacrif\u00edcio (da cruz)&#8221;. No entanto, isso n\u00e3o explica por que ou em que sentido a pr\u00f3pria cruz, ou seja, a morte hist\u00f3rica de Jesus Cristo crucificado, \u00e9 um sacrif\u00edcio. O livro b\u00edblico que desenvolve essa ideia \u00e9 a carta aos Hebreus (Hb 7,26-27; 10,1-14), afirmando que Cristo \u00e9 o \u00fanico sacerdote que oferece um \u00fanico sacrif\u00edcio (oferecendo-se na cruz), uma vez e para todos. Ou seja, o sacrif\u00edcio \u00e9 feito por Jesus se oferecendo. Da\u00ed a express\u00e3o que ele \u00e9 \u201csacerdote, v\u00edtima e altar\u201d. Fora da B\u00edblia, a <em>Didaqu\u00ea<\/em>, escrita contempor\u00e2nea aos \u00faltimos livros do Novo Testamento, \u00e9 a primeira escrita que fala da eucaristia como um &#8220;sacrif\u00edcio&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia n\u00e3o \u00e9 &#8220;sacrif\u00edcio&#8221; no sentido usual da palavra, isto \u00e9, uma oferta feita a Deus para atrair algum favor, expiar uma falta ou purificar-se. O Deus de Jesus Cristo n\u00e3o precisa de sangue ou sacrif\u00edcios humanos \u2013 como a terr\u00edvel tortura e morte na cruz \u2013 para amar e favorecer seu povo. Jesus n\u00e3o se ofereceu como sacrif\u00edcio nesse sentido. O \u201ccordeiro de Deus\u201d, Jesus Cristo, que evoca aquele cordeiro sacrificado em cada P\u00e1scoa judaica para ser comido em fam\u00edlia, recordando a refei\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de cordeiro assado, p\u00e3o sem fermento e verduras amargas antes de partir para o \u00eaxodo, n\u00e3o pode ser entendido como uma oferenda apresentado pelo ser humano como um sacrif\u00edcio a Deus, para apazigu\u00e1-lo ou obter favores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a cr\u00edtica prof\u00e9tica do Antigo Testamento j\u00e1 havia alertado que os sacrif\u00edcios sangrentos (de animais sacrificados de maneiras diferentes) n\u00e3o agradam a Deus se n\u00e3o implicam uma vida di\u00e1ria coerente com a adora\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu quero miseric\u00f3rdia, n\u00e3o sacrif\u00edcios&#8221;, diz Oseias 6,6, profetizando contra a adora\u00e7\u00e3o vazia. E Isa\u00edas diz: \u201cEstou farto de holocaustos de carneiros\u2026 e o sangue de touros e bodes n\u00e3o me agrada. (&#8230;) Buscar o que \u00e9 justo, dar seus direitos aos oprimidos, fazer justi\u00e7a aos \u00f3rf\u00e3os, defender a causa da vi\u00fava \u201d(Is 1,11,17). Um sacrif\u00edcio \u201cespiritual\u201d, isto \u00e9, ora\u00e7\u00e3o crente e amor ao pr\u00f3ximo, agrada mais a Deus do que sacrif\u00edcios materiais de animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Jesus fez foi dar a sua vida por amor extremo, radical, pela humanidade, coroando assim uma vida e um minist\u00e9rio de servi\u00e7o humilde \u00e0 humanidade, representado no lava-p\u00e9s que o Evangelho segundo Jo\u00e3o coloca no lugar da Ceia do Senhor. Jesus n\u00e3o queria morrer da maneira que vislumbrava: da\u00ed a sua ora\u00e7\u00e3o pungente no jardim do Gets\u00eamani. A sua entrega \u00e0 vontade do Pai \u00e9 consequ\u00eancia de uma miss\u00e3o entregue \u00e0 miss\u00e3o de dar vida, que com a sua morte teria a sua express\u00e3o m\u00e1xima, a ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos. S\u00f3 nesse sentido pode-se dizer que a morte de Cristo foi um sacrif\u00edcio. Toda a sua vida foi ser p\u00e3o partido\/corpo entregue e vinho\/sangue derramado por seu pr\u00f3ximo. No sacrif\u00edcio da cruz culmina uma atitude permanente de Jesus, que ele entendeu como essencial na miss\u00e3o confiada pelo Pai: o despojo de si mesmo assumindo a condi\u00e7\u00e3o de escravo (Fl 2,6-8), servindo a humanidade at\u00e9 a entrega volunt\u00e1ria da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter sacrificial da eucaristia, sempre afirmado pela doutrina da Igreja Cat\u00f3lica, com extrema for\u00e7a depois que Lutero e a Reforma do s\u00e9culo XVI o negaram, deve ser entendido como uma participa\u00e7\u00e3o memorial na entrega volunt\u00e1ria e extrema de sua vida, aceita por Jesus Cristo como consequ\u00eancia da sua miss\u00e3o no mundo. Ao mesmo tempo, e da\u00ed o verdadeiro sentido da apresenta\u00e7\u00e3o das ofertas na celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia, a assembleia atualiza o sentido sacrificial da sua pr\u00f3pria vida crist\u00e3, ou seja, oferece-se como instrumento do amor de Deus pela humanidade, e est\u00e1 empenhada em perpetuar a miss\u00e3o de Cristo de anunciar e fazer presente o Reino de Deus no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A eucaristia \u00e9 sacrif\u00edcio neste horizonte. Na medida em que \u00e9 um dom recebido de Deus, a eucaristia \u00e9 memorial do seu amor extremo e, na medida em que \u00e9 oferta a Deus, \u00e9 sacrif\u00edcio: n\u00e3o para obter algo dele, mas para dar a pr\u00f3pria vida por seu Reino, como Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.4 A presen\u00e7a real de Cristo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja sempre afirmou que, nas esp\u00e9cies &#8220;eucaristizadas&#8221; do p\u00e3o e do vinho, Cristo est\u00e1 presente. A base b\u00edblica fundamental s\u00e3o as palavras de Jesus nas hist\u00f3rias da institui\u00e7\u00e3o: &#8220;Este \u00e9 o meu corpo &#8230; este \u00e9 o meu sangue&#8221; (Mt 26,26-28). A f\u00e9 na presen\u00e7a de Cristo na celebra\u00e7\u00e3o e nas esp\u00e9cies eucar\u00edsticas est\u00e1 presente desde o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o da liturgia crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Veio ent\u00e3o, no desenvolvimento hist\u00f3rico da eucaristia, a venera\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, principalmente do p\u00e3o, quando sobravam peda\u00e7os ap\u00f3s a celebra\u00e7\u00e3o. Eram conservados com respeito para serem distribu\u00eddos aos enfermos ou impossibilitados de participar da eucaristia e, posteriormente, passaram a ser objeto de devo\u00e7\u00e3o e mantidos em sacr\u00e1rios ou tabern\u00e1culos feitos especialmente para esse fim. Finalmente, em paralelo com a perda do sentido de comunh\u00e3o eucar\u00edstica, quando ningu\u00e9m ou muito poucos j\u00e1 se aproximavam para comungar, a adora\u00e7\u00e3o do p\u00e3o consagrado desenvolveu-se mais intensamente como uma liturgia pr\u00f3pria e independente da celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia, e a constru\u00e7\u00e3o dos altares barrocos, que muitas vezes exaltavam a guarda para a adora\u00e7\u00e3o em exuberantes ret\u00e1bulos que ocupavam toda a largura e altura da abside das igrejas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a de Cristo na eucaristia \u00e9 firme doutrina da Igreja Cat\u00f3lica, que tamb\u00e9m as grandes igrejas reformadas partilham, embora com nuances diferentes na sua interpreta\u00e7\u00e3o. O Conc\u00edlio de Trento formulou dogmaticamente esta afirma\u00e7\u00e3o dizendo que sob as esp\u00e9cies consagradas o pr\u00f3prio Cristo, vivo e glorioso, est\u00e1 presente de maneira verdadeira, real e substancial, com seu Corpo, seu Sangue, sua alma e sua divindade (DH n.1640, 1651) .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a presen\u00e7a real de Cristo na eucaristia nunca foi f\u00e1cil de entender racionalmente; menos ainda para a mentalidade t\u00e9cnico-cient\u00edfica contempor\u00e2nea. Percebe-se com muita clareza, como acontece com todas as verdades crist\u00e3s fundamentais, que \u00e9 somente pela f\u00e9 que pode ser aceita. A pergunta sobre como isso pode acontecer sempre acompanhou os crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.5 A transubstancia\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a permanente dificuldade em compreender racionalmente a afirma\u00e7\u00e3o de que o p\u00e3o e o vinho consagrados <em>s\u00e3o<\/em> o corpo e o sangue de Cristo \u2013 quando o bom senso e a evid\u00eancia dos sentidos da vis\u00e3o, olfato, paladar e tato dizem que s\u00f3 h\u00e1 p\u00e3o e vinho \u2013 que levou, j\u00e1 no final da Idade M\u00e9dia, a complexas reflex\u00f5es e \u00e1rduas discuss\u00f5es sobre como ocorre a mudan\u00e7a nas esp\u00e9cies. O resultado foi a teoria finalmente aceita pela Igreja Cat\u00f3lica: a doutrina da <em>transubstancia\u00e7\u00e3o<\/em> (DH n.1642).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo ela, no relato da institui\u00e7\u00e3o, ocorre a <em>transubstancia\u00e7\u00e3o<\/em> do p\u00e3o e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo. A doutrina explica que ocorre uma mudan\u00e7a de <em>subst\u00e2ncia<\/em>, ou de ess\u00eancia, do p\u00e3o e do vinho, que se tornam Corpo e Sangue de Cristo, mas sem mudar seus <em>acidentes<\/em> de <em>p\u00e3o<\/em> e <em>vinho<\/em> (apar\u00eancia, peso, cor, sabor, cheiro e textura), de modo que, embora mantenham as caracter\u00edsticas do p\u00e3o e do vinho, mudaram de ess\u00eancia, sendo agora, verdadeiramente, a do Corpo e Sangue de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doutrina da transubstancia\u00e7\u00e3o continua a ser uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel de como se d\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, mas tem sido complementada ou ampliada por outras contribui\u00e7\u00f5es na contemporaneidade, que criticam sua concentra\u00e7\u00e3o no que acontece com a esp\u00e9cie sem considerar um fator essencial da eucaristia: seu significado e sua finalidade; isto \u00e9, eles afirmam que a doutrina da transubstancia\u00e7\u00e3o considera as esp\u00e9cies estaticamente e postulam que a transforma\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies deve ser entendida de forma din\u00e2mica e de acordo com o significado do sacramento da eucaristia: alimento espiritual, for\u00e7a para a vida eclesial. Da\u00ed os nomes dessas teorias: <em>transignifica\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>transfinaliza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especialmente interessante \u00e9 a segunda, pois Jesus, na \u00faltima ceia, n\u00e3o se limitou a dizer: &#8220;Este \u00e9 o meu Corpo, este \u00e9 o meu Sangue&#8221;; em vez disso, ele fez os gestos e pronunciou essas palavras com um prop\u00f3sito: para distribuir aquela comida e aquela bebida entre os comensais e serem tamb\u00e9m consumidas por eles. Quer dizer: \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que este p\u00e3o \u00e9 o seu Corpo e que o vinho \u00e9 o seu Sangue, o seu consumo na ceia festiva e fraterna pertence teol\u00f3gica e ritualmente, como uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. E, ainda mais, este consumo visa alimentar a vida interior e a fidelidade ao seguimento de Cristo por parte de quem o faz, n\u00e3o s\u00f3 individualmente, mas como Igreja, Corpo de Cristo. N\u00e3o basta considerar a transubstancia\u00e7\u00e3o em si, sem faz\u00ea-la juntamente com sua finalidade. \u00c9 por isso que n\u00e3o poderia haver uma eucaristia em que apenas o sacerdote celebrante comungasse, visto que \u00e9 celebrada para a comunh\u00e3o eucar\u00edstica, embora parte das esp\u00e9cies sejam preservadas para serem distribu\u00eddas posteriormente ou para a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.6 A quest\u00e3o das esp\u00e9cies e a f\u00f3rmula essencial<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P\u00e3o de farinha de trigo feito na hora e vinho natural, de uva, n\u00e3o corrompido, s\u00e3o a &#8220;mat\u00e9ria&#8221; do sacramento. Um pouco de \u00e1gua deve ser misturada ao vinho. O <em>C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico<\/em> especifica que \u201c segundo a antiga tradi\u00e7\u00e3o da Igreja latina, o sacerdote utilize o p\u00e3o \u00e1zimo, onde quer que celebre\u201d (CIC n.926 \u00a71). O p\u00e3o \u00e1zimo \u00e9 o p\u00e3o feito sem fermento. Os ritos orientais geralmente usam p\u00e3o fermentado para a eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunh\u00e3o, de acordo com a Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do Missal Romano (2002), pode ser oferecida em muitas ocasi\u00f5es nas duas esp\u00e9cies (com p\u00e3o e vinho), mais do que no passado. Mas a comunh\u00e3o segue v\u00e1lida sob a esp\u00e9cie \u00fanica do p\u00e3o e, se necess\u00e1rio, quando algu\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de engolir s\u00f3lidos, sob a \u00fanica esp\u00e9cie do vinho. Mais que a validade, a verdade do sinal aconselha comungar habitualmente sob as duas esp\u00e9cies, uma vez que isso foi feito pelo Senhor na \u00faltima ceia e assim se fez durante s\u00e9culos em todas as comunidades crist\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os sacramentos t\u00eam uma f\u00f3rmula essencial, a cuja proclama\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada a sua validade e que tradicionalmente \u00e9 muito cuidada pela Igreja. Na eucaristia, esta f\u00f3rmula \u00e9 considerada a Ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica completa, desde o di\u00e1logo antes do Pref\u00e1cio \u00e0 doxologia com o Am\u00e9m final. O cerne da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00eddo pelo relato da institui\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o corresponde literalmente a nenhum dos relatos b\u00edblicos mencionados acima (Mt, Mc, Lc e 1Cor), mas cont\u00e9m o essencial deles: \u201cPeguem e comam todos dele, porque este \u00e9 o meu Corpo, que ser\u00e1 entregue por voc\u00eas. \/ Tomem e bebam todos dele, porque este \u00e9 o c\u00e1lice do meu Sangue, Sangue da nova e eterna alian\u00e7a, que se derramar\u00e1 por voc\u00eas e por muitos para remiss\u00e3o dos pecados. Fa\u00e7am isso em mem\u00f3ria de mim.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 A eucaristia e a Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Paulo afirma que os crist\u00e3os s\u00e3o o corpo de Cristo e Cristo a sua cabe\u00e7a (1Cor 12,13-30). Esta imagem tem uma express\u00e3o particularmente intensa na celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia. Nela os fi\u00e9is se re\u00fanem como &#8220;assembleia&#8221; e se identificam como &#8220;igreja&#8221; de Cristo (igreja deriva do grego <em>ecclesia<\/em>, que originalmente significa assembleia). Cada vez que celebram a eucaristia, os crist\u00e3os se constituem uma comunidade de disc\u00edpulos que continua a miss\u00e3o de Jesus na hist\u00f3ria. Celebram juntos em seu nome e \u201cem sua mem\u00f3ria\u201d, presididos pelo pr\u00f3prio Cristo, presente no ministro (SC n.7) e na pr\u00f3pria assembleia, que \u00e9 o seu Corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a liturgia, e de modo muito especial a eucaristia, \u00e9 &#8220;exerc\u00edcio do sacerd\u00f3cio de Cristo&#8221;, segundo a express\u00e3o de SC n.7. Aqui est\u00e1 a raiz teol\u00f3gica da participa\u00e7\u00e3o ativa que a reforma do Vaticano II promoveu na liturgia. Todo o Cristo, isto \u00e9, Cabe\u00e7a e Corpo, exerce seu sacerd\u00f3cio na celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia. Portanto, n\u00e3o \u00e9 o sacerdote ministro sozinho ou isolado, mas ele juntamente com toda a assembleia, que pelo batismo se constituiu em &#8220;povo sacerdotal&#8221; (1Pe 2,9), e cada homem ou mulher batizados, em &#8220;sacerdotes, profetas e reis\u201d (<em>Ritual do Batismo, ora\u00e7\u00e3o da un\u00e7\u00e3o com crisma<\/em>), que os torna protagonistas da liturgia pela sua participa\u00e7\u00e3o ativa, plena, consciente e fecunda (SC n.48). A eucaristia, cada vez que \u00e9 celebrada, \u00e9 uma express\u00e3o de toda a Igreja, um sinal hist\u00f3rico da Igreja celeste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A participa\u00e7\u00e3o ativa dos fi\u00e9is na liturgia foi uma das grandes conquistas do Conc\u00edlio Vaticano II. Desde ent\u00e3o, se quis que os crist\u00e3os n\u00e3o assistissem \u00e0 eucaristia como estranhos e mudos espectadores, mas, conscientes de que na eucaristia h\u00e1 um encontro com Jesus Cristo vivo e, ao mesmo tempo, compreendendo-o tanto quanto poss\u00edvel, dela participem pela intimidade da f\u00e9, pelos ritos e ora\u00e7\u00f5es, servi\u00e7os e minist\u00e9rios, can\u00e7\u00f5es e gestos simb\u00f3licos, na riqueza da celebra\u00e7\u00e3o. A renova\u00e7\u00e3o dos ritos, dos textos e dos cantos, e especialmente os esfor\u00e7os de incultura\u00e7\u00e3o t\u00eam facilitado este prop\u00f3sito, embora hoje, como j\u00e1 foi referido, a eucaristia sofra outras amea\u00e7as das nossas sociedades secularizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja se alimenta da eucaristia: dela vive porque \u00e9 o sacramento do caminho, da peregrina\u00e7\u00e3o crist\u00e3 pelas luzes e sombras da vida e da hist\u00f3ria, continuando a miss\u00e3o de Jesus Cristo, para a plenitude do Reino. A rela\u00e7\u00e3o entre a eucaristia e a Igreja enfatiza particularmente a dimens\u00e3o soteriol\u00f3gica (relativa \u00e0 salva\u00e7\u00e3o) e a dimens\u00e3o escatol\u00f3gica (relativa ao fim dos tempos), que tamb\u00e9m est\u00e3o intimamente ligadas entre si. Quando celebra a eucaristia, a Igreja \u00e9 uma Igreja que experimenta a salva\u00e7\u00e3o e se nutre para ser libertadora e, ao mesmo tempo, participando antecipadamente na liturgia celeste (SC n.8), \u00e9 uma Igreja da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa que a vida dos crist\u00e3os se reduza \u00e0 eucaristia; significa antes que, sendo a eucaristia o \u00e1pice e a fonte (LG n.11) da vida da Igreja, \u00e9 o momento em que toda a nossa vida \u00e9 oferecida a Deus e dele recebe for\u00e7a para continuar o seu caminho. A eucaristia sup\u00f5e a vida e \u00e9 para a vida, assim como sup\u00f5e a f\u00e9 e deve fortalec\u00ea-la. Todos os sacramentos alimentam a vida crist\u00e3, mas a eucaristia o faz de uma forma \u00fanica, como encontro do crente no centro da sua f\u00e9: Jesus Cristo morreu e ressuscitou para que todos tenham \u201cvida em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A participa\u00e7\u00e3o ativa na celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia \u00e9 um sinal de maturidade dos crist\u00e3os. Responder os di\u00e1logos com o ministro que preside, cantar no coro, saudar os vizinhos no rito da paz e, sobretudo, comungar s\u00e3o parte integrante de uma boa celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia. S\u00e3o um sinal vis\u00edvel de que n\u00e3o \u00e9 uma simples festa humana, mas um encontro pessoal e eclesial com Cristo ressuscitado e vivo na humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 A celebra\u00e7\u00e3o, em s\u00edntese<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liturgia da eucaristia desenvolve-se segundo uma estrutura fundamental que se formou e consolidou desde muito cedo e que se conserva at\u00e9 hoje. Compreende dois grandes momentos que formam uma unidade b\u00e1sica, \u201cum \u00fanico ato de culto\u201d (SC n.56): a liturgia da Palavra e a liturgia eucar\u00edstica. A elas est\u00e3o associados os dois principais centros significativos do espa\u00e7o lit\u00fargico: o altar e o amb\u00e3o, que devem ser sempre \u00fanicos. \u00c9 assim que falamos das \u201cduas mesas\u201d: a da palavra e a da eucaristia. Essas duas grandes partes s\u00e3o enquadradas nos ritos iniciais e nos ritos finais. Ao primeiro pertencem o ato penitencial e o canto de Gl\u00f3ria; ao segundo, a b\u00ean\u00e7\u00e3o final que envia a assembleia para vivenciar o que foi celebrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reforma lit\u00fargica do Conc\u00edlio Vaticano II enfatizou de forma marcante a import\u00e2ncia da Sagrada Escritura na eucaristia e em toda a liturgia da Igreja. Para isso enriqueceu o ciclo anual anterior, que se repetia a cada ano e oferecia muito menos passagens b\u00edblicas e muita repeti\u00e7\u00e3o de algumas delas, planejando um ciclo de tr\u00eas anos para os domingos e dois para as missas da semana (feriais), com uma riqueza muito maior de passagens b\u00edblicas cujo crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o foi que quem celebra a eucaristia todos os domingos, nos tr\u00eas anos, tenha uma vis\u00e3o global de toda a Sagrada Escritura. Os ciclos dominicais (ou &#8220;anos&#8221;) eram chamados de A, B e C, e cada um deles recebia a leitura de um Evangelho: Mateus para o ciclo A, Marcos e Jo\u00e3o para o ciclo B e Lucas para o C. Para a eucaristia dominical, estabeleceram-se ainda leituras do Antigo e do Novo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para as eucaristias feriais foi estabelecido um ciclo de dois anos, denominado I (anos \u00edmpares) e II (anos pares), em que o Evangelho se repete todos os anos, mas a primeira leitura \u00e9 diferente em anos \u00edmpares e pares. Tanto em quantidade como sobretudo em qualidade (crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o dos textos), a B\u00edblia tem, desde a reforma lit\u00fargica do Conc\u00edlio Vaticano II, uma presen\u00e7a digna do seu estatuto de \u201cmesa da Palavra\u201d, parte essencial da eucaristia e n\u00e3o mera prepara\u00e7\u00e3o para a comunh\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 riqueza b\u00edblica, que deve ser lida e acolhida como palavra viva, isto \u00e9, como ilumina\u00e7\u00e3o da realidade da assembleia celebrante, a reforma pede aos sacerdotes que fa\u00e7am uma homilia todos os domingos e, com sorte, em cada eucaristia, e que seja baseada na proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia n\u00e3o foi e n\u00e3o pode ser est\u00e1tica. Mantendo o cerne testemunhado pela B\u00edblia, especialmente todo o Novo Testamento e a primeira pr\u00e1xis crist\u00e3, carrega o destino de tudo o que \u00e9 humano: se desenvolve, se adapta, muda ao longo da hist\u00f3ria. A esclerose de suas normas ou a inflexibilidade para adapt\u00e1-las \u00e0s culturas e aos grupos humanos s\u00f3 a alienou do Povo de Deus, que precisa celebrar sua f\u00e9 e sempre encontrar uma maneira de faz\u00ea-lo. Que esta forma mantenha sempre a eucaristia em primeiro lugar, \u00e9 tarefa permanente da Igreja ser fiel a Jesus, que nos pediu que\u00a0 fiz\u00e9ssemos isso &#8220;em sua mem\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Guillermo Rosas, SSCC.<\/em> Pontificia Universidad Cat\u00f3lica de Chile. Texto original espanhol. Postado em 30 de dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALDAZ\u00c1BAL, J. <em>La Eucarist\u00eda<\/em>. Biblioteca Lit\u00fargica 12. Barcelona: Centre de Pastoral lit\u00fargica, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARIAS R., Maximino. <em>Eucarist\u00eda, presencia del Se\u00f1or<\/em>. CELAM, Colecci\u00f3n de Textos b\u00e1sicos para Seminarios latino-americanos. v.IX 2-2. Bogot\u00e1, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BASURKO, X. <em>Para comprender la Eucarist\u00eda<\/em>. Estella: Verbo Divino, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BENTO XVI. <em>Exhortaci\u00f3n Apost\u00f3lica Postsinodal<\/em><em> Sacramentum Caritatis.<\/em> 22 fev 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BETZ, J. La Eucarist\u00eda, misterio central. In: FEINER, J.; L\u00d6HRER, M. (eds). <em>Mysterium salutis<\/em>. v.IV\/2. Madrid: 1975. p.186-310.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOROBIO, D. <em>Eucarist\u00eda<\/em>, Sapientia Fidei 23. Madrid: BAC, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BROUARD, Maurice (dir.). <em>Enciclopedia de la Eucarist\u00eda. <\/em>Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONC\u00cdLIO VATICANO II. <em>Constituci\u00f3n sobre la Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium. <\/em>1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u2019ANNIBALE, Miguel \u00c1ngel. <em>El misterio eucar\u00edstico. <\/em>In: MANUAL DE LITURGIA del CELAM. v.III. Santaf\u00e9 de Bogot\u00e1, 2001. p.167-260.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO. Audiencia general 8 noviembre 2017. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/audiences\/2017\/documents\/papa-francesco_20171108_udienza-generale.html. Acesso em: 12 set 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GERKEN, A. <em>Teolog\u00eda de la Eucarist\u00eda<\/em>. Madrid: Paulinas, 1991.<\/p>\n<p>GESTEIRA, M. <em>La eucarist\u00eda, misterio de comuni\u00f3n<\/em>. Madri: Ediciones Cristiandad, 1983.<\/p>\n<p>GONZ\u00c1LEZ, C. I. <em>\u2019Bendijo el pan y lo parti\u00f3 (Mc 6,41)<\/em>: Tratado de Eucarist\u00eda. Conferencia del Episcopado Mexicano. M\u00e9xico, 1999.<\/p>\n<p>JUAN PABLO II. <em>Carta enc\u00edclica<\/em><em> Ecclesia de Eucharistia. <\/em>17 abr 2003.<\/p>\n<p>NOCKE, F.-J. <em>Doctrina especial de los sacramentos<\/em>. In: SCHNEIDER, T. <em>Manual de teolog\u00eda dogm\u00e1tica<\/em>. Barcelona: Herder, 1996.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Realidade atual da eucaristia 2 Valoriza\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio 3 Sacramento principal 4 Nomes 5 A doutrina fundamental 5.1 Institu\u00edda por Cristo na \u00faltima ceia 5.2 Memorial da ceia 5.3 Memorial do sacrif\u00edcio 5.4 A presen\u00e7a real de Cristo 5.5 Transubstancia\u00e7\u00e3o 5.6 A quest\u00e3o das esp\u00e9cies e a f\u00f3rmula essencial 6 A eucaristia e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-2079","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2079"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2079\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2464,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2079\/revisions\/2464"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}