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{"id":2065,"date":"2020-12-31T17:05:10","date_gmt":"2020-12-31T19:05:10","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2065"},"modified":"2021-03-21T17:04:07","modified_gmt":"2021-03-21T20:04:07","slug":"teologia-de-las-religiones-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2065","title":{"rendered":"Teologia das religi\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>1 Diferen\u00e7a entre teologia e uma fenomenologia das religi\u00f5es<\/p>\n<p><em>1.1 Abordagem fenomenol\u00f3gica<\/em><\/p>\n<p>2 Pluralismo inter-religioso como um novo lugar teol\u00f3gico e as tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da teologia<\/p>\n<p><em>2.1 A posi\u00e7\u00e3o exclusivista-eclesioc\u00eantrica<\/em><\/p>\n<p><em>2.2 A posi\u00e7\u00e3o inclusivista-cristoc\u00eantrica<\/em><\/p>\n<p><em>2.3 A posi\u00e7\u00e3o pluralista-teoc\u00eantrica<\/em><\/p>\n<p>3 Reflex\u00e3o teol\u00f3gica<\/p>\n<p><em>3.1 Chaves de categorias crist\u00e3s<\/em><\/p>\n<p><em>3.1.1 A divina tri-unidade<\/em><\/p>\n<p><em>3.1.2 Chave cr\u00edstico-ken\u00f3tica<\/em><\/p>\n<p><em>3.1.3 A chave do Reino<\/em><\/p>\n<p><em>3.2 Chaves de categorias denominacionais cruzadas<\/em><\/p>\n<p><em>3.2.1 Revela\u00e7\u00e3o e excedente apof\u00e1tico<\/em><\/p>\n<p><em>3.2.2 A dimens\u00e3o teol\u00f3gica e teologal do di\u00e1logo<\/em><\/p>\n<p><em>3.2.3 Coinspira\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es para uma tripla abertura ao Real<\/em><\/p>\n<p>4 Quest\u00f5es abertas<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Diferen\u00e7a entre teologia e uma fenomenologia das religi\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia das religi\u00f5es pode ser entendida como genitivo objetivo ou genitivo subjetivo. Como genitivo objetivo, \u00e9 uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica da f\u00e9 crist\u00e3 sobre o significado da pluralidade de religi\u00f5es existentes na terra, enquanto como genitivo subjetivo indica que cada religi\u00e3o tem sua pr\u00f3pria teologia. Na verdade, deve-se perguntar se pode haver uma teologia que n\u00e3o esteja ligada a nenhuma religi\u00e3o. A abordagem esperada deste artigo \u00e9 implicitamente uma teologia crist\u00e3 das religi\u00f5es. Em outras palavras, como a partir da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 as outras religi\u00f5es da humanidade s\u00e3o compreendidas e integradas. No entanto, no final apontamos algumas pistas para uma teologia de natureza transconfessional, que poderia ser um ponto de encontro para os diferentes credos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.1 Abordagem fenomenol\u00f3gica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena fazer uma distin\u00e7\u00e3o pr\u00e9via: a diferen\u00e7a entre a abordagem fenomenol\u00f3gica e a abordagem teol\u00f3gica. A fenomenologia das religi\u00f5es aborda a experi\u00eancia e manifesta\u00e7\u00e3o do sagrado, lembrando que cada tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma difra\u00e7\u00e3o \u00fanica e diversa do Mist\u00e9rio que adquire a forma do destinat\u00e1rio que o recebe. Fenomenologicamente, a manifesta\u00e7\u00e3o do Absoluto \u00e9 insepar\u00e1vel do recept\u00e1culo que o recolhe. O Absoluto permanece condicionado pela media\u00e7\u00e3o que o manifesta. Ficamos perplexos ao ver esse elo intranspon\u00edvel. Isso n\u00e3o reduz o Mist\u00e9rio, mas nos faz perceber que s\u00f3 podemos acess\u00e1-lo de nossa perspectiva particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mantendo a abordagem fenomenol\u00f3gica, existem tr\u00eas significados da palavra <em>religi\u00e3o<\/em> relacionados \u00e0 sua etimologia: <em>religare, relegere, religere<\/em>. <em>Religare<\/em> implica &#8220;criar v\u00ednculos&#8221;, &#8220;estabelecer v\u00ednculos&#8221; com a tripla dimens\u00e3o da realidade: a divina, a humana e a c\u00f3smica. A cada uma das tr\u00eas \u00e1reas corresponde uma caracter\u00edstica: as cren\u00e7as est\u00e3o relacionadas a Deus; os c\u00f3digos de comportamento est\u00e3o relacionados \u00e0 comunidade humana e, nos ritos, nos colocam em rela\u00e7\u00e3o ao mundo e \u00e0 natureza, enquanto nos situam nas coordenadas de tempo e espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Relegere<\/em> significa &#8220;reler&#8221;, &#8220;interpretar&#8221; o mist\u00e9rio de Deus, o sentido da vida e da morte, da exist\u00eancia de cada um, a raz\u00e3o do mal. As religi\u00f5es s\u00e3o recortes poss\u00edveis do infinito para torn\u00e1-lo intelig\u00edvel e assum\u00edvel \u00e0 escala humana. O Mist\u00e9rio permanece inating\u00edvel, sempre al\u00e9m de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o que dele se fa\u00e7a. As religi\u00f5es s\u00e3o dedos apontando para a lua, mas n\u00e3o s\u00e3o a lua. Indicam um rumo a seguir para um L\u00e1 \u2013 escondido em cada Aqui \u2013 que transcende qualquer palavra e qualquer ve\u00edculo, porque Deus est\u00e1 sempre al\u00e9m de tudo e tamb\u00e9m sempre mais aqui em tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Religere<\/em> significa escolher sempre, com plena liberdade e lucidez, o caminho que a pessoa se sente chamada a percorrer. As religi\u00f5es fornecem o quadro em que se exercita o ato cont\u00ednuo de elei\u00e7\u00e3o pela Vida, estimulando atos cada vez mais l\u00facidos e livres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tr\u00eas poss\u00edveis etimologias t\u00eam em comum o <em>re-<\/em> que as precede. O prefixo indica que esses v\u00ednculos n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticos, mas est\u00e3o em movimento, na medida em que s\u00e3o capazes de se adaptar \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mut\u00e1veis \u200b\u200bque ocorrem a cada tempo e a cada gera\u00e7\u00e3o. Sem esse prefixo din\u00e2mico e reduplicativo, as religi\u00f5es podem se tornar pris\u00f5es que, por n\u00e3o serem renovadas, caem na in\u00e9rcia ou se contraem e terminam em coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As tr\u00eas esferas que abra\u00e7am as religi\u00f5es (o divino, o humano e o c\u00f3smico) est\u00e3o envolvidas em cada religi\u00e3o simult\u00e2nea e reciprocamente, pois a forma de conceber a divindade marca a forma de compreender o humano e de se relacionar com o cosmos, bem como o modo de compreender o humano determina nossa rela\u00e7\u00e3o com o divino e com o c\u00f3smico, e nossa maneira de ser e de nos relacionarmos com o mundo determina nossas imagens de Deus e nossas rela\u00e7\u00f5es com os outros. Por isso, toda <em>religa\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 ao mesmo tempo uma interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. A forma de vincula\u00e7\u00e3o cria um certo entendimento e desenvolve determinados valores. Os textos sagrados cont\u00eam a <em>revela\u00e7\u00e3o<\/em> desses c\u00f3digos de comportamento, bem como narram os momentos e atos fundantes que se perpetuam atrav\u00e9s dos ritos pr\u00f3prios de cada religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista fenomenol\u00f3gico e da hist\u00f3ria das religi\u00f5es, reconhecemos tr\u00eas grandes tipos de constela\u00e7\u00f5es religiosas: as c\u00f3smicas, as te\u00edstas e as oce\u00e2nicas. Poder\u00edamos acrescentar a religi\u00e3o secularizada ou a espiritualidade sem religi\u00e3o, fen\u00f4meno cada vez mais significativo que tamb\u00e9m faz parte do di\u00e1logo inter-religioso e da reflex\u00e3o teol\u00f3gica ainda por ser feita. As <em>religi\u00f5es abor\u00edgines<\/em> ou <em>c\u00f3smicas<\/em> enfatizam a sacralidade da terra. Nelas, a experi\u00eancia religiosa est\u00e1 diretamente relacionada aos elementos da natureza da qual o ser humano faz parte. As <em>tradi\u00e7\u00f5es te\u00edstas-personalistas<\/em> (juda\u00edsmo, cristianismo e islamismo) emanam do relato do G\u00eanesis, em que o ser humano \u00e9 concebido como \u201cimagem e semelhan\u00e7a de Deus\u201d (Gn 1,27). Da\u00ed o car\u00e1ter antropom\u00f3rfico do Deus b\u00edblico, invocado como Tu, e o car\u00e1ter teom\u00f3rfico do ser humano que \u00e9 capaz de ser interlocutor de Deus. Enquanto as tr\u00eas religi\u00f5es abra\u00e2micas se desenvolvem em uma rela\u00e7\u00e3o com o Ser Supremo que personaliza o ser humano, as <em>religi\u00f5es oce\u00e2nicas<\/em> \u2013 hindu\u00edsmo, budismo e tao\u00edsmo \u2013 pertencem a um paradigma muito diferente. Elas nos colocam em um terreno em que tanto o eu humano quanto o Tu divino s\u00e3o <em>penultimidades<\/em> a superar. Quando o eu ps\u00edquico-corporal descobre que faz parte de uma totalidade abrangente que o sustenta, deixa de ser um predador para se tornar um celebrador da exist\u00eancia. N\u00e3o havendo um eu, tampouco h\u00e1 um Tu a que se referir, porque o Tu est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao eu que se autopercebe separando-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o quadro fenomenol\u00f3gico em que se situa a teologia crist\u00e3 das religi\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Pluralismo inter-religioso como um novo lugar teol\u00f3gico e as tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da teologia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o sobre a pluralidade religiosa pode ser considerada como um novo <em>lugar teol\u00f3gico<\/em>, que foi como Melchor Cano, no s\u00e9c. XVI, nomeou as \u00e1reas que poderiam ser fecundas e inspiradoras para a reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Como um campo espec\u00edfico, estamos diante de um tema que mal tem cinquenta anos de reflex\u00e3o e discernimento teol\u00f3gico. O termo &#8220;teologia das religi\u00f5es&#8221; foi cunhado pela primeira vez na d\u00e9cada de 1960 pelo te\u00f3logo alem\u00e3o Heinz Robert Schlette. Ainda n\u00e3o temos uma terminologia adequada, e suas percep\u00e7\u00f5es e proposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o insipientes. Faltam linguagem, vocabul\u00e1rio, assim como f\u00f3rmulas maduras que tenham passado pela inevit\u00e1vel prova de acertos e erros na tentativa de encontrar express\u00f5es mais adequadas e precisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do inevit\u00e1vel reducionismo de qualquer classifica\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m mencionar as tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da teologia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras religi\u00f5es: o exclusivismo de car\u00e1ter eclesioc\u00eantrico, o inclusivismo de car\u00e1ter cristoc\u00eantrico e o pluralismo de car\u00e1ter teoc\u00eantrico. Embora esta tipologia possa servir de ponto de partida, atualmente est\u00e1 estagnada porque n\u00e3o compreende toda a complexidade que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 A posi\u00e7\u00e3o exclusivista-eclesioc\u00eantrica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exclusivismo era a posi\u00e7\u00e3o oficial que a Igreja tinha at\u00e9 o Conc\u00edlio Vaticano II. \u00c9 identific\u00e1vel com a frase <em>Extra Ecclesiam nulla salus<\/em> (\u201cFora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u201d), senten\u00e7a que foi pronunciada pela primeira vez por Cipriano de Cartago no s\u00e9c. III, num contexto de divis\u00f5es internas das comunidades crist\u00e3s, mas que foi endurecida a partir do s\u00e9c. XIV, com a bula <em>Unam Sanctam<\/em> (1302) de Bonif\u00e1cio VIII, quando foi usada contra outras religi\u00f5es. Esta posi\u00e7\u00e3o considera que n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o sem uma confiss\u00e3o expl\u00edcita de f\u00e9 em Jesus Cristo e sem uma participa\u00e7\u00e3o nos sacramentos, come\u00e7ando com o batismo. Da\u00ed o impulso mission\u00e1rio de tantas gera\u00e7\u00f5es. Contudo, mesmo nos momentos mais fechados da Igreja, o magist\u00e9rio oficial nunca o considerou em sentido restritivo, pois aceitou a possibilidade de um batismo de desejo, mesmo inconsciente. O exclusivismo \u00e9 eclesioc\u00eantrico na medida em que considera que a salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada com um reconhecimento expl\u00edcito da media\u00e7\u00e3o eclesial, atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o nos seus sacramentos e da ades\u00e3o aos seus dogmas de f\u00e9. Embora o Conc\u00edlio Vaticano II tenha abandonado esta posi\u00e7\u00e3o, ela continua a persistir em n\u00e3o poucos setores. Podemos identific\u00e1-la como um universalismo centr\u00edpeto, em que a \u201ccatolicidade\u201d do cristianismo \u00e9 condicionada pelo reconhecimento de certas media\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 A posi\u00e7\u00e3o inclusivista-cristoc\u00eantrica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 1950, do s\u00e9c. XX, a teologia da revela\u00e7\u00e3o de Jean Dani\u00e9lou, juntamente com a contribui\u00e7\u00e3o de outros te\u00f3logos, permitiu que os textos conciliares avan\u00e7assem para o que hoje se conhece como posi\u00e7\u00e3o inclusivista. Pela primeira vez em sua hist\u00f3ria, a Igreja reconheceu oficialmente que havia verdade em outras religi\u00f5es e que, por meio delas, tamb\u00e9m se podia alcan\u00e7ar Deus. Na Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica <em>Lumen Gentium<\/em> aparecem v\u00e1rias passagens em que se reconhece o aspecto subjetivo de quem professa outras cren\u00e7as:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que de bom e verdadeiro neles h\u00e1 [nos que buscam Deus com cora\u00e7\u00e3o sincero], \u00e9 considerado pela Igreja como prepara\u00e7\u00e3o para receberem o Evangelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. (<em>LG<\/em> n.16)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O documento vai al\u00e9m ao avaliar tamb\u00e9m os aspectos objetivos das demais tradi\u00e7\u00f5es, ainda que n\u00e3o apare\u00e7a a palavra <em>religi\u00e3o<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">[&#8230;] tudo quanto de bom encontra no cora\u00e7\u00e3o e no esp\u00edrito dos homens ou nos ritos e cultura pr\u00f3prios de cada povo, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pere\u00e7a mas antes seja sanado, elevado e aperfei\u00e7oado, para gl\u00f3ria de Deus. (<em>LG<\/em> n.17 e <em>Ad Gentes<\/em> n.9)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A declara\u00e7\u00e3o <em>Nostra Aetate<\/em> vai al\u00e9m, ao reconhecer que \u201co que \u00e9 verdadeiro e santo\u201d se refere explicitamente ao que os outros caminhos religiosos oferecem e lhes pertence legitimamente:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja cat\u00f3lica nada rejeita do que nessas religi\u00f5es existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela pr\u00f3pria segue e prop\u00f5e, todavia, refletem n\u00e3o raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. (<em>Nostra Aetate<\/em> n.2)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, a Igreja reconhecia que sendo prim\u00edcia do Reino n\u00e3o o esgota, mas \u00e9 caminho para ele. Em outro par\u00e1grafo do decreto, incentiva os crist\u00e3os de todo o mundo a se familiarizarem com as tradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas dos pa\u00edses em que vivem, para que \u00a0\u201cfa\u00e7am assomar \u00e0 luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo neles adormecidas\u201d (AG, 11). A express\u00e3o &#8220;sementes do Verbo&#8221; \u00e9 retirada da Patr\u00edstica, onde autores como S\u00e3o Justino, Irineu de Lyon e Clemente de Alexandria mostraram uma atitude aberta para com a cultura hel\u00eanica, reconhecendo que ela continha elementos que prefiguravam o cristianismo. Esta posi\u00e7\u00e3o inclusivista continuou avan\u00e7ando em documentos pontif\u00edcios posteriores, o mais aberto dos quais \u00e9 <em>An\u00fancio e Di\u00e1logo<\/em> (1996). No entanto, a declara\u00e7\u00e3o da <em>Dominus Iesu<\/em> (6 de agosto de 2000) representou uma mudan\u00e7a abrupta e um retrocesso \u00e0 posi\u00e7\u00e3o eclesioc\u00eantrica-exclusivista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como representantes desta segunda posi\u00e7\u00e3o, encontramos te\u00f3logos como Karl Rahner, Jacques Dupuis e Andr\u00e9s Torres Queiruga. Entre os te\u00f3logos protestantes, Wolfhart Pannenberg se destaca (D\u2019ACOSTA, 2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inclusivismo \u00e9 cristoc\u00eantrico na medida em que se desloca da media\u00e7\u00e3o eclesial \u00e0 refer\u00eancia a Jesus, Cristo, \u00fanico e universal mediador, mas de natureza trans-hist\u00f3rica. Os te\u00f3logos que defendem essa posi\u00e7\u00e3o entendem que a a\u00e7\u00e3o salvadora de Cristo vai al\u00e9m de sua confiss\u00e3o expl\u00edcita. Estamos dentro da concep\u00e7\u00e3o de \u201ccrist\u00e3os an\u00f4nimos\u201d formulada por Karl Rahner (2007). Esta express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absorvedora, no sentido de anular as outras formas de cren\u00e7a sem respeitar a sua singularidade, mas, ao aceitar a sua especificidade, reconhece nelas tra\u00e7os cr\u00edsticos, ainda que n\u00e3o crist\u00e3os. A diferen\u00e7a entre <em>cr\u00edstico<\/em> e <em>crist\u00e3o<\/em> \u00e9 que <em>crist\u00e3o<\/em> se refere \u00e0 express\u00e3o hist\u00f3rico-cultural da mensagem do Evangelho, enquanto <em>cr\u00edstico<\/em> seria o cerne da mensagem de Jesus: a exist\u00eancia entendida como doa\u00e7\u00e3o, porque essa \u00e9 a m\u00e1xima revela\u00e7\u00e3o de Deus que aconteceu em Jesus Cristo \u2013 nele, Deus revelou que a sua ess\u00eancia \u00e9 amar. Onde h\u00e1 doa\u00e7\u00e3o, o ser humano participa da revela\u00e7\u00e3o <em>cr\u00edstica<\/em>, mesmo que n\u00e3o a formule com categorias <em>crist\u00e3s<\/em>. Nesse caso, estamos perante uma universalidade de car\u00e1cter centr\u00edfugo, em que a autoafirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fecha em si mesma, mas abre-se aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 A posi\u00e7\u00e3o pluralista-teoc\u00eantrica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pluralismo vai um passo al\u00e9m e prop\u00f5e uma mudan\u00e7a de paradigma. Na d\u00e9cada de 1970 do s\u00e9c. XX, John Hick, um te\u00f3logo anglicano, o comparou \u00e0 virada copernicana: de acreditar que outras religi\u00f5es giram em torno de Cristo e do cristianismo a conceber que Cristo \u2013 e com ele, o cristianismo \u2013 \u00e9 apenas um planeta que, como as outras religi\u00f5es, gira em torno de Deus. Da\u00ed a passagem do cristocentrismo ao teocentrismo. Entre os te\u00f3logos cat\u00f3licos, destacam-se Paul Knitter e Hans Kung (1988), bem como o pensador Raimon Panikkar \u2013 uma das contribui\u00e7\u00f5es mais relevantes a esse respeito \u00e9 sua no\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo intrarreligioso, segundo o qual destaca que o di\u00e1logo entre as religi\u00f5es se estabelece em um quadro comum de experi\u00eancia do transcendente. O pluralismo trata de levar a s\u00e9rio a diversidade das manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, considerando que todas as tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o equidistantes ante o Mist\u00e9rio, que transcende todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta terceira posi\u00e7\u00e3o \u00e9 teoc\u00eantrica na medida em que ocorre o deslocamento de Cristo para Deus ou para o Mist\u00e9rio. Os te\u00f3logos que defendem esta posi\u00e7\u00e3o consideram que, na medida em que Jesus \u00e9 o caminho para o Pai, o ponto de encontro entre as religi\u00f5es deve ser procurado no Pai (como origem e fonte do Mist\u00e9rio), e n\u00e3o em Jesus. Cada religi\u00e3o tem sua media\u00e7\u00e3o para alcan\u00e7ar o Mist\u00e9rio originador, e nisso reside a singularidade de cada tradi\u00e7\u00e3o. Esta terceira posi\u00e7\u00e3o tem correntes diversas: uma acentua mais o aspecto pr\u00e1xico das religi\u00f5es, sublinhando o que as une em torno das causas justas da terra, o que levaria a falar em <em>reinocentrismo<\/em>; outra est\u00e1 mais voltada para o aspecto da transforma\u00e7\u00e3o e da liberta\u00e7\u00e3o que todas as religi\u00f5es procuram oferecer para alcan\u00e7ar a salva\u00e7\u00e3o (<em>soteria<\/em>), tanto pessoal quanto coletiva, e por isso falamos em <em>soteriocentrismo<\/em>; e uma terceira enfatiza mais o aspecto m\u00edstico ou especulativo, enfatizando a <em>philosophia perennis<\/em>, a sabedoria comum \u00e0s religi\u00f5es. Por sua vez, \u00e9 poss\u00edvel distinguir, ainda, outras duas correntes: aquelas que consideram que as religi\u00f5es s\u00e3o formas diferentes de atingir o mesmo objetivo, com tend\u00eancia a minimizar as diferen\u00e7as e advogar uma unidade progressiva de todas as religi\u00f5es; e aquelas que consideram que esta pluralidade apresenta uma singularidade irredut\u00edvel de cada uma e que nisso consiste o seu valor e riqueza. Raimon Panikkar \u00e9 um dos defensores mais radicais desta segunda posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usando outras categorias, podemos dizer que tanto o exclusivismo quanto o inclusivismo s\u00e3o unic\u00eantricos, enquanto o pluralismo \u00e9 polic\u00eantrico, tanto em seu modo centr\u00edpeto (convergente) como centr\u00edfugo (divergente). Apesar da relev\u00e2ncia dessa tripla classifica\u00e7\u00e3o, levantaram-se vozes que n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas nelas, pois embora sejam r\u00f3tulos que servem para orientar, tamb\u00e9m correm o risco de caricaturizar e desqualificar. Gavin d&#8217;Costa e Reinhold Bernhardt (2000) defendem um inclusivismo rec\u00edproco e a necessidade do particularismo para que haja um verdadeiro di\u00e1logo na diferen\u00e7a. Na mesma linha, Jos\u00e9 Ignacio Gonz\u00e1lez Faus (2003), diz que \u00e9 conveniente especificar no que ser exclusivo, no que inclusivo e no que pluralista. Porque h\u00e1 um irrenunci\u00e1vel crist\u00e3o, que \u00e9 o an\u00fancio do Deus crucificado, despojado de todo poder e incompat\u00edvel com qualquer justificativa de poder, e nesse sentido devemos falar de exclusivismo; o inclusivismo est\u00e1 na ressurrei\u00e7\u00e3o, na medida em que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Jesus que ressuscita, mas todos n\u00f3s ressuscitamos com ele; e o pluralismo est\u00e1 na universalidade da elei\u00e7\u00e3o de Deus por todos os seres humanos e, portanto, em sua revela\u00e7\u00e3o nas v\u00e1rias religi\u00f5es da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, surgiu uma nova forma de abordar a teologia das religi\u00f5es que evita essa tripla classifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 excessivamente simples e contrap\u00f5e elementos que s\u00e3o mais complexos. \u00c9 a chamada <em>nova teologia comparada<\/em>. Para esta corrente, o esquema tipol\u00f3gico acima n\u00e3o responde adequadamente \u00e0 tens\u00e3o inevit\u00e1vel que deve ser mantida entre as particularidades constitutivas de cada tradi\u00e7\u00e3o religiosa, a abertura ao di\u00e1logo e a aut\u00eantica aprecia\u00e7\u00e3o das outras religi\u00f5es. Os te\u00f3logos comparativistas tentam manter essa tens\u00e3o sem renunciar a nenhum de seus dois princ\u00edpios fundamentais: identidade e alteridade. Os autores mais significativos s\u00e3o David Tracy, Francis Clooney, James Fredericks, Robert C. Neville e Keith Ward.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todo caso, uma teologia das religi\u00f5es exige um conhecimento profundo, n\u00e3o s\u00f3 da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de outras tradi\u00e7\u00f5es, para n\u00e3o cair em confus\u00f5es e erros que prejudicam ainda mais a compreens\u00e3o da diversidade e dificultam as possibilidades de di\u00e1logo e encontro.\u00a0 Da\u00ed a import\u00e2ncia das equival\u00eancias <em>homeom\u00f3rficas<\/em>, uma express\u00e3o usada por Raimon Panikkar para estabelecer elementos comparativos sem, com isso, cair em concord\u00e2ncia, mas tampouco ficar paralisado por sistemas de cren\u00e7as incompat\u00edveis. Este pensador define as equival\u00eancias <em>homeom\u00f3rficas<\/em> como \u201canalogias de terceiro grau que desempenham uma fun\u00e7\u00e3o equivalente (n\u00e3o igual), nos respectivos sistemas, \u00e0quela que a outra no\u00e7\u00e3o (ou outras) desempenha em seu pr\u00f3prio\u201d (PANIKKAR, 2016, p.449). Assim, por exemplo, o Deus pessoal do cristianismo n\u00e3o pode simplesmente ser identificado com o Brahman impessoal do hindu\u00edsmo, ou com o Tao do tao\u00edsmo, mas todos os tr\u00eas ocupam o mesmo lugar \u00faltimo em seus respectivos sistemas. Em compara\u00e7\u00e3o com o isl\u00e3, a equival\u00eancia homeom\u00f3rfica n\u00e3o \u00e9 entre Jesus e Maom\u00e9, mas entre Jesus e o Alcor\u00e3o, j\u00e1 que, para o cristianismo, Jesus \u00e9 Deus encarnado e, para o isl\u00e3, o Alcor\u00e3o \u00e9 o verbo de Deus; o correspondente crist\u00e3o de Maom\u00e9 seria Maria, no sentido de que ambos s\u00e3o os mediadores m\u00e1ximos da revela\u00e7\u00e3o sem serem deificados por esse motivo. Este \u00e9 apenas um exemplo da dificuldade e do cuidado que se deve ter ao estabelecer di\u00e1logos teol\u00f3gicos entre religi\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Reflex\u00e3o teol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir apresentamos algumas pistas a partir das quais se pode desenvolver uma teologia das religi\u00f5es \u2013 que ainda est\u00e1 por ser feita. Tr\u00eas delas surgem da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e tr\u00eas delas t\u00eam um car\u00e1ter mais universal e poderiam ser usadas para uma teologia transconfessional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.1 Chaves das categorias crist\u00e3s<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1.1 A tri-unidade divina<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de quatro s\u00e9culos, a Igreja procurou compreender como Deus, sem perder a sua transcend\u00eancia, p\u00f4de tornar-se homem plenamente ao se encarnar na iman\u00eancia. Assim foi surgindo a compreens\u00e3o da tri-unidade divina: Deus, sem preju\u00edzo de sua unidade, se difrata ao mesmo tempo em uma pluralidade de <em>pessoas<\/em>, em que cada uma tem sua pr\u00f3pria atividade (economia, em linguagem patr\u00edstica): o Pai \u00e9 a fonte origin\u00e1ria, o Filho \u00e9 o recept\u00e1culo que recebe esta d\u00e1diva irreprim\u00edvel do Pai, ao mesmo tempo que \u00e9 a sua Palavra e a Forma que cont\u00e9m todas as formas (Cl 1,16), e o Esp\u00edrito Santo \u00e9 o dinamismo que est\u00e1 al\u00e9m e no interior de todas as palavras e formas. Em Jesus de Nazar\u00e9, o cristianismo hist\u00f3rico reconhece o Filho assumindo a forma humana. Alguns te\u00f3logos da \u00e9poca patr\u00edstica apontavam para a possibilidade de que o <em>Logos ensark\u00f3s<\/em> (o Filho ou o Verbo encarnado) n\u00e3o exaurisse o <em>Logos asark\u00f3s<\/em> (o Filho ou o Verbo n\u00e3o encarnado). Isso deixa aberta a possibilidade de admitir que em cada religi\u00e3o h\u00e1 uma manifesta\u00e7\u00e3o diferente do <em>Logos asark\u00f3s<\/em>. Essa foi a incurs\u00e3o retomada em nossos dias por Jacques Dupuis (2000, p.106-111), mas que foi rejeitada no <em>Dominus Iesu<\/em> (n.10). Por enquanto, sem poder continuar avan\u00e7ando cristologicamente nesta dire\u00e7\u00e3o, o dinamismo pneumatol\u00f3gico permanece aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, nas outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, uma estrutura tr\u00edade pode ser reconhecida no Ser ou Realidade Transcendente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Para se referir \u00e0 dimens\u00e3o fontal e origin\u00e1ria de Deus (aquele que chamamos de Pai no cristianismo), no juda\u00edsmo se fala do <em>Ein Sof<\/em> ou do nome impronunci\u00e1vel de <em>Yahweh<\/em>; no isl\u00e3, <em>Al\u00e1<\/em> \u00e9 designado como <em>Haqq<\/em> (O Real); no hindu\u00edsmo, diz-se <em>Brahman Nirguna<\/em> (O Ser Supremo sem atributos); \u00e9 o <em>Sunyata<\/em> (Vazio) do budismo e <em>Tao<\/em> (curso, caminho) no tao\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Para se referir ao seu aspecto manifesto (o que Cristo, o Filho, \u00e9 na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3), no juda\u00edsmo h\u00e1 a Sabedoria (<em>Hokmah<\/em>) de Yahweh; no isl\u00e3 pode ser identificado com o Livro eterno; no hindu\u00edsmo, \u00e9 designado como <em>Brahman Saguna<\/em> (com atributos); \u00e9 o <em>Dharmakaya<\/em> no budismo (o corpo c\u00f3smico de Buda) e a d\u00edade <em>Yin-Yang<\/em> no tao\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Quanto ao dinamismo do Esp\u00edrito, que est\u00e1 al\u00e9m de todas as formas, no juda\u00edsmo ele aparece como <em>ruah<\/em> e, no isl\u00e3, o Sopro do Misericordioso; no hindu\u00edsmo, est\u00e1 presente como <em>atman<\/em>, no budismo como <em>prajna-karuna<\/em> (sabedoria-compaix\u00e3o) e no tao\u00edsmo como <em>Chi<\/em>, a energia primordial e onipresente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o quer dizer que essas tr\u00edades expressem a mesma coisa que as tr\u00eas Pessoas da trindade crist\u00e3, mas verificamos algumas <em>equival\u00eancias homeom\u00f3rficas<\/em> nas diferentes tradi\u00e7\u00f5es que nos permitem estabelecer rela\u00e7\u00e3o entre elas. A partir delas, pode-se estabelecer algum tipo de analogia, na qual suas especificidades sejam respeitadas ao mesmo tempo que se enriquecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1.2 Chave cr\u00edstico-ken\u00f3tica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista mais estritamente cristol\u00f3gico, a quest\u00e3o que se coloca para a teologia crist\u00e3 \u00e9: o que \u00e9 que salva da f\u00e9 em Jesus? Em que consiste seu car\u00e1ter salv\u00edfico? O que salva \u00e9 viver em estado de receptividade e doa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o cerne da vida de Jesus e da mensagem evang\u00e9lica. O caminho para a Vida nada mais \u00e9 do que entrega de si. Jesus revela o rosto de Deus: Deus \u00e9 amor (1Jo 4,8), entrega radical de si, e Jesus encarna este amor total. O Deus ken\u00f3tico revela: \u201cEle, estando na forma de Deus, n\u00e3o usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas foi aniquilado [<em>ekenosen<\/em>], tomando a forma de escravo. Tornando-se semelhante a um homem(&#8230;) abaixou-se, tornando-se obediente at\u00e9 a morte, \u00e0 morte sobre uma cruz\u201d (Fl 2,6-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dinamismo pascal da f\u00e9 implica um processo cont\u00ednuo de morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de nossas refer\u00eancias sobre Deus e seus modos de se revelar. Textos e dogmas se espalham exatamente pelo que cont\u00eam. Em \u00faltima an\u00e1lise, falam apenas de uma coisa, que os impede de ficarem fechados em si mesmos: que h\u00e1 revela\u00e7\u00e3o de Deus onde h\u00e1 esvaziamento de si. Cristo Jesus \u00e9 precisamente o \u00edcone deste duplo esvaziamento: do divino no humano e do humano no divino. Este esvaziamento de Cristo n\u00e3o pode tornar-se mensagem exclusiva, mas sim de discernimento: onde h\u00e1 doa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 revela\u00e7\u00e3o do divino, manifesta\u00e7\u00e3o da Realidade \u00daltima que faz todas as coisas existirem. Esta entrega \u00e9 o sinal de que se proclama a Palavra de Deus que ilumina a vida dos homens, seja qual for a hist\u00f3ria concreta que a transmita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Cristo \u00e9 o \u00edcone da entrega plena, confess\u00e1-lo como o Senhor deveria nos introduzir no mesmo desprendimento que nos permite reconhecer em outras manifesta\u00e7\u00f5es outros dons do divino no humano e do humano no divino. S\u00f3 na medida em que participamos de seu dinamismo ken\u00f3tico podemos reconhecer o ato de revela\u00e7\u00e3o-doa\u00e7\u00e3o contido nas outras tradi\u00e7\u00f5es. A realidade completa \u00e9 este ato de desapego pelo qual o divino se manifesta. O mesmo acontece com as outras tradi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s: sua entrega \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de que nos reconhe\u00e7am como outras express\u00f5es daquilo que veneram. Foi o que aconteceu na teofania de Pentecostes: o autismo se transformou em comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dinamismo pascal culmina na teofania de Pentecostes, em que o Esp\u00edrito \u00e9 reconhecido em cada l\u00edngua. Este reconhecimento n\u00e3o consiste apenas em outras religi\u00f5es compreenderem o que dizemos de Cristo para complet\u00e1-las, mas tamb\u00e9m que somos capazes de reconhecer o que nelas \u00e9 salv\u00edfico e que nos completa. A tarefa da teologia crist\u00e3 \u00e9 descobrir de que forma Deus tamb\u00e9m se deu a conhecer por meio de outras revela\u00e7\u00f5es e como ele se expressa nas outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1.3 A chave do Reino<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tarefa de uma teologia crist\u00e3 das religi\u00f5es reconhecer as implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1xicas de cada formula\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria. A ortopr\u00e1xis n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o \u00e9tica, mas radicalmente teol\u00f3gica: &#8220;cada vez que o fizestes a um desses meus irm\u00e3os mais pequeninos, a mim o fizestes&#8221; (Mt 25,40). O que salva, da f\u00e9 em Jesus, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o cognitiva, mas um modo de vida que liberta do egocentrismo. \u201cNem todo aquele que diz: \u2018Senhor, Senhor\u2019 entrar\u00e1 no Reino dos C\u00e9us, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us \u201d(Mt 7,21). A vontade de Deus \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o, porque ele mesmo \u00e9 doa\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 amor. Assim, quem vive no amor vive em Deus e em Cristo, qualquer que seja o nome com que se identifique. Portanto, o crit\u00e9rio teol\u00f3gico, que por sua vez \u00e9 um crit\u00e9rio de discernimento para abordar outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas, consiste em observar como se expressa, motiva e promove a abertura \u00e0 alteridade e o compromisso com a solidariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2 Chaves de categorias transconfessionais<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, e al\u00e9m das categorias especificamente crist\u00e3s, se pode identificar tr\u00eas chaves transversais para todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2.1 Revela\u00e7\u00e3o e excedente apof\u00e1tico<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As religi\u00f5es est\u00e3o indissociavelmente ligadas \u00e0 no\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o e toda revela\u00e7\u00e3o tende a ser considerada a \u00fanica, ou a mais completa e definitiva. Por isso o encontro teol\u00f3gico entre as religi\u00f5es \u00e9 t\u00e3o complexo, porque nenhuma pode renunciar \u00e0 sua completude e, por sua vez, se confronta com a exist\u00eancia das outras. A aproxima\u00e7\u00e3o entre elas s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se deixarmos de competir entre todos e estivermos prontos para compartilhar plenitudes. Na medida em que toda religi\u00e3o se reconhece como recept\u00e1culo de um mist\u00e9rio que a ultrapassa, ela pode se abrir para esse excedente de Realidade e tentar aceitar que cada religi\u00e3o pode conter esse Mist\u00e9rio \u00e0 sua maneira. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio captar o n\u00facleo fundante, incandescente, de cada religi\u00e3o. Um esfor\u00e7o deve ser feito para reconhecer a experi\u00eancia religiosa do outro de dentro. Por sua vez, cada religi\u00e3o n\u00e3o pode fazer isso sen\u00e3o a partir de suas pr\u00f3prias categorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que reconhecemos que nossas imagens do Absoluto s\u00e3o radicalmente condicionadas por nossa finitude, o horizonte \u00faltimo do que \u00e9 se alarga. Isso nos leva \u00e0 dimens\u00e3o apof\u00e1tica da f\u00e9, ali onde palavras e conceitos desaparecem na sua origem, ajudando a livrar-se da tenta\u00e7\u00e3o id\u00f3latra de reduzir Deus a categorias humanas. Em todas as tradi\u00e7\u00f5es existe um dinamismo de transcend\u00eancia para se abrir a um <em>Deus semper maior<\/em>; todas t\u00eam o ant\u00eddoto para evitar cair nesse perigo, pois se referem a uma fonte que as transcende. No caso do juda\u00edsmo, \u00e9 a experi\u00eancia cont\u00ednua do <em>\u00eaxodo<\/em> em que Deus se revela como um n\u00e3o Nome, <em>YHVH<\/em>, porque \u00e9 impronunci\u00e1vel; no cristianismo, trata-se do dinamismo <em>pascal<\/em>, no qual nossas imagens de Deus morrem repetidamente para renascer em um plano posterior; no isl\u00e3, nos deparamos com a experi\u00eancia da <em>h\u00e9gira<\/em> (&#8220;partida&#8221;, &#8220;sa\u00edda&#8221;, &#8220;emigra\u00e7\u00e3o&#8221;), pois ela est\u00e1 presente na prostra\u00e7\u00e3o de sua ora\u00e7\u00e3o, o <em>sujud<\/em>, da qual brota a express\u00e3o: <em>Allah Akbar<\/em>, &#8220;Deus \u00e9 sempre maior \u201d, lembrando que toda imagem ou apropria\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 idolatria; no hindu\u00edsmo, est\u00e1 presente no dinamismo de Shiva, o aspecto destrutivo-recriativo de Deus, bem como na cren\u00e7a de que <em>Brahman<\/em> mostrou apenas um quarto de seu ser; no budismo, o vazio (<em>sunyata<\/em>) preserva toda tenta\u00e7\u00e3o da substancia\u00e7\u00e3o, assim como no Zen fala da Grande Morte; no tao\u00edsmo, o pr\u00f3prio <em>Tao<\/em> (caminho, via) n\u00e3o \u00e9 um substantivo, mas um verbo que indica o fluxo de todas as coisas e que n\u00e3o se deixa levar por nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2.2 A dimens\u00e3o teol\u00f3gica e teologal do di\u00e1logo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ser humano, como criatura, \u00e9 radicalmente um ser dial\u00f3gico. Teologicamente, existimos a partir do Outro de n\u00f3s e biologicamente somos o resultado do encontro entre dois seres. Sem relacionamento, n\u00e3o somos. Sem os outros, n\u00e3o h\u00e1 linguagem e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 ato ou reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Sair ao encontro do outro e dialogar n\u00e3o \u00e9 algo casual ou sobreposto \u00e0 f\u00e9, mas faz parte da mesma experi\u00eancia religiosa. Isso implica uma f\u00e9 dial\u00f3gica, n\u00e3o monol\u00f3gica, que acaba fechada em si mesma, transformando suas pr\u00f3prias cren\u00e7as em idolatria, brandindo-as como trof\u00e9us frente a outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o di\u00e1logo \u00e9 constitutivo da reflex\u00e3o teol\u00f3gica, significa que a escuta e a abertura \u00e0 alteridade fazem parte da teologia como m\u00e9todo. Isso faz uma teologia aberta, como deve ser toda teologia se realmente quiser se referir a Deus como Mist\u00e9rio, e n\u00e3o como uma ideologia. O pluralismo religioso torna-se uma oportunidade de escuta e abertura a esse mesmo Mist\u00e9rio multiforme, que se expressa tanto atrav\u00e9s das culturas como das linguagens humanas. Porque as religi\u00f5es nada mais s\u00e3o do que as entranhas transcendentes de cada cultura. Fazer teologia das religi\u00f5es \u00e9 exercitar a capacidade de escuta e abertura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso significa que, mais do que uma teologia do di\u00e1logo, se esteja a intuir a necessidade de uma teologia em di\u00e1logo (DUPUIS, 2000, p. 292-298).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2.2 Coinspira\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es para uma tripla abertura ao Real <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As religi\u00f5es s\u00e3o chamadas a conspirar no impulso do ser humano em dire\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito. Se n\u00e3o competirmos entre totalidades e compartilharmos plenitudes, podemos nos ajudar reciprocamente. As religi\u00f5es, como <em>re-ligare, re-legere, re-eligere<\/em>, promovem um triplo v\u00ednculo e, ao mesmo tempo, uma tripla abertura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tr\u00eas dimens\u00f5es da realidade: a divina, a humana e a c\u00f3smica. Cada uma delas abre um caminho e as tr\u00eas est\u00e3o presentes em todas as tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>a) A forma m\u00edstica e contemplativa<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No momento do encontro inter-religioso, as f\u00f3rmulas mentais com que cada tradi\u00e7\u00e3o descreve o Mist\u00e9rio s\u00e3o desafiadas e, por isso mesmo, libertas da tenta\u00e7\u00e3o de absoluto e de literalismo. O que \u00e9 desconfort\u00e1vel para a seguran\u00e7a mental resulta em purifica\u00e7\u00e3o para o processo da f\u00e9. O di\u00e1logo inter-religioso ajuda a aprofundar a desidolatriza\u00e7\u00e3o dos dogmas e a potencializar sua iconiza\u00e7\u00e3o. Dogmas guiam a f\u00e9, mas n\u00e3o podem literaliz\u00e1-la, porque ent\u00e3o bloqueiam o pr\u00f3prio processo de f\u00e9 que tentam suscitar. As diferentes concep\u00e7\u00f5es do divino s\u00e3o caminhos para percorrer dentro de cada tradi\u00e7\u00e3o e copos para dar de beber aos convidados que chegam. A dimens\u00e3o apof\u00e1tica da f\u00e9 ajuda a evitar que catedrais, sinagogas, pagodes e mesquitas se tornem pris\u00f5es dogm\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>b) A via prof\u00e9tica e \u00e9tica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro inter-religioso permite compartilhar o impulso prof\u00e9tico de todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Todas elas denunciam a tenta\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria de qualquer ideologia ou cidade terrena de abri-la \u00e0 alteridade. A \u00fanica maneira de ir em dire\u00e7\u00e3o ao Outro \u00e9 a interpela\u00e7\u00e3o que a presen\u00e7a do outro nos faz. Diante da exig\u00eancia de sua necessidade, sa\u00edmos de n\u00f3s mesmos em dire\u00e7\u00e3o ao Outro por e para o outro. Todas as origens das religi\u00f5es est\u00e3o ligadas a uma mensagem libertadora que constr\u00f3i a comunidade humana com crit\u00e9rios de fraternidade e justi\u00e7a. Deste modo, as religi\u00f5es mostram-se mestras do humano e promovem a via \u00e9tica, tamb\u00e9m em di\u00e1logo com as tradi\u00e7\u00f5es seculares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>c) A via ecol\u00f3gica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro vetor em que as religi\u00f5es podem coinspirar e fecundar umas \u00e0s outras \u00e9 no respeito \u00e0 natureza. A sensibilidade ecol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 um modismo, mas um sinal dos tempos de um momento cr\u00edtico do planeta. Trata-se de passar de uma atitude altiva e predat\u00f3ria para com a natureza para vener\u00e1-la e guard\u00e1-la, agradecendo a todo o momento o que ela nos proporciona. A transforma\u00e7\u00e3o do meio ambiente n\u00e3o pode ser exercida como uma viol\u00eancia contra a terra, mas de uma forma radicalmente \u201creligiosa\u201d, isto \u00e9, de religa\u00e7\u00e3o, que leve em conta que a natureza faz parte de n\u00f3s e n\u00f3s dela. O cristianismo \u00e9 chamado a reconhecer honesta e humildemente que a sua concentra\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica o fez negligenciar os la\u00e7os com a natureza e que devemos recorrer \u00e0 sabedoria das tradi\u00e7\u00f5es que a ela est\u00e3o mais intimamente ligadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Quest\u00f5es abertas <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As conclus\u00f5es s\u00f3 podem ser aberturas. Cristo na cruz \u00e9 a passagem pela qual se deve entrar para ter acesso \u00e0 Vida. E n\u00e3o h\u00e1 outra Vida sen\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 um dom cont\u00ednuo de si mesmo. Cristo n\u00e3o fecha o di\u00e1logo, mas o abre revelando que o fundo da exist\u00eancia \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o pura, absoluta e permanente de si mesmo. A teologia crist\u00e3 do pluralismo religioso \u00e9 chamada a descobrir como outras religi\u00f5es s\u00e3o caminhos pelos quais a Realidade \u00daltima se entrega e se revela. E, para isso, deve estar disposta a reconhec\u00ea-la sob outros nomes e outras formas al\u00e9m daqueles que j\u00e1 conhece. O dinamismo pascal de perda e rasgo do v\u00e9u do templo mostra que o ato teol\u00f3gico \u00e9, tamb\u00e9m ele, um ato de entrega. S\u00f3 assim ele pode apreender toda a realidade como entrega e P\u00e1scoa de Deus, pela qual vamos continuamente de uma margem \u00e0 outra em dire\u00e7\u00e3o a um Deus sempre maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para continuar avan\u00e7ando no campo da teologia das religi\u00f5es, os seguintes pontos devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. \u00c9 essencial conhecer a fundo as outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Um conhecimento que n\u00e3o pode se limitar \u00e0 mera informa\u00e7\u00e3o, mas debe tentar perceber com o <em>terceiro olho<\/em>, o olho do esp\u00edrito e do cora\u00e7\u00e3o, a verdade que nelas pulsa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Uma teologia que ajude a tomar consci\u00eancia de que toda religi\u00e3o \u00e9 lingu\u00edstica e culturalmente condicionada e, assim, n\u00e3o pode ter suas formula\u00e7\u00f5es ou interpreta\u00e7\u00f5es como absolutas. Isso impregna a teologia e as religi\u00f5es de humildade e as deixa abertas, conscientes de que est\u00e3o sempre situadas no espa\u00e7o e no tempo humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Na medida em que a teologia <em>fala de Deus<\/em>, deve <em>deixar Deus falar<\/em>. Da\u00ed a necessidade de restaurar a teologia \u00e0 sua dimens\u00e3o m\u00edstica. Sem ela, as religi\u00f5es se tornam ideologia e, em vez de falar do Mist\u00e9rio, que \u00e9 inexaur\u00edvel e insubstitu\u00edvel, falam apenas de si mesmas e para si mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Uma teologia que seja, ao mesmo tempo, antropologia e que ajude a descobrir o fundo transcendente do ser humano e das culturas, ainda que se expressem de formas diferentes. A teologia das religi\u00f5es \u00e9 chamada a celebrar esta diversidade e tamb\u00e9m a interpret\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. Uma teologia das religi\u00f5es que reflete sobre o mundo e para o mundo. A sua tarefa deve ser prof\u00e9tica e inspiradora, chamada a comprometer-se com as causas urgentes e dif\u00edceis do mundo e a ilumin\u00e1-las com a luz que lhe \u00e9 espec\u00edfica. A sua tarefa \u00e9 fazer com que as religi\u00f5es se entendam e sejam significativas para o nosso tempo, atentas ao que est\u00e1 cada vez mais em jogo: a sobreviv\u00eancia do planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, permanece em aberto a quest\u00e3o de saber se \u00e9 poss\u00edvel fazer uma teologia metaconfessional ou se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel subtrair-se ao quadro confessional a partir do qual se reflete sobre as outras e a pr\u00f3pria religi\u00e3o. \u00c9 uma quest\u00e3o aberta, como radicalmente est\u00e1 aberto o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Javier Melloni, SJ. <\/em>Facultad de Teolog\u00eda de Catalunya. Texto original em espanhol. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BASSET, J. C. <em>El di\u00e1logo interreligioso<\/em>. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer, 1998.<\/p>\n<p>BERNHARDT, R. <em>La pretensi\u00f3n de absolutez del cristianismo<\/em>. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer, 2000.<\/p>\n<p>CORB\u00cd, M. <em>Religi\u00f3n sin religi\u00f3n.<\/em> Madrid: PPC, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONGREGACI\u00d3N PARA LA DOCTRINA DE LA FE. <em>Declaraci\u00f3n<\/em> <em>Dominus Iesu<\/em>. Roma, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consejo Pontificio para el Di\u00e1logo interreligioso y Congregaci\u00f3n Para La Evangelizaci\u00f3n de los Pueblos. Di\u00e1logo y Anuncio. Bolet\u00edn del Consejo Pontificio para el Di\u00e1logo entre las Religiones, n.26, p.210-250, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00b4COSTA, G. (ed.). <em>La unicidad cristiana reinterpretada<\/em>. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUPUIS, J. <em>Hacia una teolog\u00eda cristiana del pluralismo religioso<\/em>. 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