
<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>

<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>
{"id":206,"date":"2014-12-27T08:34:42","date_gmt":"2014-12-27T10:34:42","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=206"},"modified":"2016-04-10T09:22:07","modified_gmt":"2016-04-10T12:22:07","slug":"etica-e-teologia-no-novo-testamento-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=206","title":{"rendered":"\u00c9tica e Teologia no Novo Testamento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Jesus e a \u00e9tica crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.1 As ra\u00edzes veterotestament\u00e1rias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.2 O Mestre exemplar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.3 O mandamento novo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A \u00e9tica do Reino no Serm\u00e3o da Montanha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 A supera\u00e7\u00e3o do legalismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 Uma nova forma de piedade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3 Um caminho de comunh\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A \u00e9tica da comunidade crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 \u201cUm s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 Solidariedade com os empobrecidos e marginalizados<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3 A exig\u00eancia do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A \u00e9tica do amor misericordioso<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 \u201cQuem permanece no amor, permanece em Deus\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 \u201cA maior \u00e9 a caridade!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.3 \u201cFaze isto e viver\u00e1s!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Desafio atual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00c9tica e a Teologia no Antigo Testamento foram abordadas em outro verbete, em que se mostrou como a f\u00e9 se encarnou na vida de um povo, como modo de proceder peculiar, de alta qualidade humana. Trata-se de mostrar, agora, como o caminho aberto por Jesus leva adiante e radicaliza a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9tica de Israel, num projeto de vida proposto \u00e0s comunidades crist\u00e3s, as do Novo Testamento e as de todos os tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras e os gestos de Jesus configuraram um <em>ethos<\/em> particular no \u00e2mbito da religiosidade de Israel. Tr\u00eas palavras sintetizam sua a\u00e7\u00e3o: continuidade, ruptura e supera\u00e7\u00e3o. Tudo quanto fez e ensinou situava-se no \u00e2mbito da \u00e9tica israelita, forjada ao longo dos s\u00e9culos. Nela se enraizava, dando-lhe continuidade. Entretanto, colocou-se na contram\u00e3o de certas tend\u00eancias da \u00e9poca, focadas na submiss\u00e3o aos ditames da Lei, sem comungar-lhe com o esp\u00edrito. Qui\u00e7\u00e1 os textos evang\u00e9licos induzam ao equ\u00edvoco de se tomar o voc\u00e1bulo farisa\u00edsmo como sin\u00f4nimo de hipocrisia e falsidade. O Mestre Jesus \u00e9 apresentado em cont\u00ednuo conflito com a ala legalista do movimento farisaico, sem se dar conta de haver, tamb\u00e9m, uma vertente distinta, feita de piedade verdadeira. Pode-se afirmar que nem todo fariseu o \u00e9 da maneira como se fala dos fariseus nos Evangelhos. Jesus, por\u00e9m, quis ir al\u00e9m e apresentar um modo de proceder inteiramente centrado no querer do Pai, para al\u00e9m da letra da Lei. A s\u00edntese desse intento encontra-se em Mt 5,20: \u201cEu vos digo: se vossa justi\u00e7a n\u00e3o for maior que a dos escribas e dos fariseus, n\u00e3o entrareis no Reino dos C\u00e9us\u201d. Assim, Jesus pretendeu forjar uma \u00e9tica superior \u00e0quela praticada por certos grupos, apontando para o querer do Pai como absoluto na vida do disc\u00edpulo do Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Jesus e a \u00e9tica crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 abriu novas perspectivas para a \u00e9tica de Israel. Diferentemente dos rabinos e suas escolas para o ensino da interpreta\u00e7\u00e3o da Lei Mosaica, Jesus transmitiu aos disc\u00edpulos uma sabedoria de vida \u2013 uma \u00e9tica \u2013 centrada no Reino de Deus e sua justi\u00e7a, a serem buscados em primeiros lugar (cf. Mt 6,33). Escolheu um m\u00e9todo existencial \u2013 \u201cAprendei de mim\u201d (Mt 11,29) \u2013 para transmitir um modo de ser e de agir com o testemunho de vida, palavras e atos. A linguagem parab\u00f3lica foi a maneira de pregar o evangelho do Reino. \u201cNada lhes falava a n\u00e3o ser em par\u00e1bolas\u201d (Mc 4,34). A vida e o mundo foram as escolas onde os disc\u00edpulos de Jesus se confrontavam com uma \u201cjusti\u00e7a superior \u00e0 dos escribas e \u00e0 dos fariseus\u201d (Mt 5,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>1.1 As ra\u00edzes veterotestament\u00e1rias<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o inventou uma nova \u00e9tica. Antes, foi capaz de mergulhar nas ra\u00edzes da f\u00e9 de Israel e, deste tesouro, \u201ctirar coisas novas e velhas\u201d (Mt 13,52). Seu contexto \u00e9tico-religioso exigia uma guinada. A preval\u00eancia da mentalidade de certas correntes do movimento dos escribas e fariseus deu origem a uma religi\u00e3o legalista, donde resultava uma \u00e9tica feita de submiss\u00e3o aos 613 mandamentos e proibi\u00e7\u00f5es, nos quais a Tor\u00e1 fora codificada. A religi\u00e3o e, com ela, a \u00e9tica, tornaram-se um fardo pesado, um jugo esmagador, sem espa\u00e7o para a liberdade. Jesus denunciava os opositores por causa da conduta impr\u00f3pria. \u201cAmarram fardos pesados e os p\u00f5em sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um dedo se disp\u00f5em a mov\u00ea-los\u201d (Mt 23,4). Criavam normas para os outros, sem assumi-las para si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, o novo <em>ethos <\/em>introduzido por Jesus exigia dos disc\u00edpulos profunda renova\u00e7\u00e3o interior. A continuidade com a tradi\u00e7\u00e3o de Israel comportava, tamb\u00e9m, descontinuidade. Jesus usou duas par\u00e1bolas para falar da disposi\u00e7\u00e3o para acolher a novidade de sua proposta. \u201cNingu\u00e9m p\u00f5e remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasg\u00e3o torna-se maior. Nem se p\u00f5e vinho novo em odres velhos; caso contr\u00e1rio, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Portanto, o vinho novo se p\u00f5e em odres novos; assim ambos se conservam\u201d (Mt 9,16-17). Sua proposta \u00e9tica n\u00e3o podia ser confundida com o legalismo farisaico. O Reino de Deus requeria grande abertura de cora\u00e7\u00e3o para ser acolhido sem reservas. S\u00f3 assim se poderia captar a novidade \u00e9tica do Mestre de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2 O Mestre exemplar<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, tamb\u00e9m v\u00f3s o fa\u00e7ais!\u201d (Jo 13,15). Os disc\u00edpulos eram desafiados a contemplar o agir do Mestre e nele se inspirar. Muito diferente dos fariseus hip\u00f3critas, contra os quais foram alertados. \u201cFazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas n\u00e3o imiteis suas a\u00e7\u00f5es, pois dizem, mas n\u00e3o fazem\u201d (Mt 23,3-4). Um aprendizado feito como ant\u00edtese das li\u00e7\u00f5es dos mestres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus apresentava seu testemunho de vida como modelo. \u201cAprendei de mim, porque sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o\u201d (Mt 11,29). Sua vida de bem-aventurado (cf. Mt 5,4) manifestava-se no trato com os pequeninos e marginalizados, com os quais convivia, a ponto de irritar os inimigos. \u201cOs fariseus e os escribas murmuravam: \u2018Esse homem recebe os pecadores e come com eles\u2019\u201d (Lc 15,2). E n\u00e3o lhe poupavam apodos ofensivos: \u201ccomil\u00e3o e beberr\u00e3o, amigo de publicanos e pecadores\u201d (Mt 11,19). Por\u00e9m, nada o impedia de seguir o caminho cujo \u00e1pice seria a cruz (cf. Lc 4,30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma alguma, sujeitou-se aos caprichos da lideran\u00e7a religiosa. Sua atitude foi de total liberdade diante das tradi\u00e7\u00f5es, com suas exig\u00eancias obsoletas. As exterioridades est\u00e3o fora de seu interesse. Preocupa-lhe, antes, o que sai de dentro do ser humano, pois \u201cisso \u00e9 que o torna impuro\u201d (Mc 7,20). A\u00ed t\u00eam origem os mais horrendos desvios \u00e9ticos: \u201cprostitui\u00e7\u00f5es, roubos, assass\u00ednios, adult\u00e9rios, ambi\u00e7\u00f5es desmedidas, maldades, mal\u00edcia, inveja, difama\u00e7\u00e3o, arrog\u00e2ncia, insensatez. Todas essas coisas m\u00e1s saem de dentro do homem e o tornam impuro\u201d (Mc 7,21-23). Sem um severo trabalho de educa\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, qualquer conduta \u00e9tica, decorrente do compromisso crist\u00e3o, fica inviabilizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.3 O mandamento novo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Antigo Testamento conhecia duas vers\u00f5es do Dec\u00e1logo (cf. Ex 20,2-17; Dt 5,6-21). Pode ser considerado a s\u00edntese da \u00e9tica veterotestament\u00e1ria. S\u00e3o balizas para a conduta humana, iluminada pela f\u00e9, caminho para se fazer, na hist\u00f3ria, a vontade de Deus. Todavia, o legalismo de sua \u00e9poca exigiu de Jesus reinterpretar, com total liberdade, o Dec\u00e1logo, inclusive com o direito de eliminar o que lhe parecia ultrapassado (cf. Mt 5,21-47). Diante de si estava o Pai, cujo modo de agir os disc\u00edpulos foram motivados a almejar. \u201cDeveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste \u00e9 perfeito\u201d (Mt 5,48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta de um fariseu permitiu a Jesus reduzir o Dec\u00e1logo apenas a dois mandamentos. \u201cAmar\u00e1s ao Senhor teu Deus de todo o teu cora\u00e7\u00e3o, de toda a tua alma e de todo o teu esp\u00edrito. Esse \u00e9 o maior e o primeiro mandamento. O segundo \u00e9 semelhante a esse: Amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas\u201d (Mt 22,37-40). Assim era poss\u00edvel se posicionar diante da pluralidade de exig\u00eancias da religi\u00e3o, onde coisas essenciais eram equiparadas a coisas de menor import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, j\u00e1 no final de seu minist\u00e9rio, Jesus resume as exig\u00eancias para os disc\u00edpulos no \u201cmandamento novo\u201d correspondente ao amor m\u00fatuo. \u201cDou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos tamb\u00e9m uns aos outros. Nisso reconhecer\u00e3o todos que sois meus disc\u00edpulos, se tiverdes amor uns pelos outros\u201d (Jo 13,34-35; cf. 1Jo 2,7-8). Ou, ent\u00e3o, \u201cEste \u00e9 o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei\u201d (Jo 15,12). O sinal distintivo da \u00e9tica crist\u00e3 \u00e9 a capacidade de estabelecer um v\u00ednculo de caridade nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Detalhe: o exemplo inspirador \u00e9 a obla\u00e7\u00e3o de Jesus na cruz, como prova insuper\u00e1vel de amor. \u201cNingu\u00e9m tem maior amor do que aquele que d\u00e1 a vida por seus amigos\u201d (Jo 15,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A \u00e9tica do Reino no Serm\u00e3o da Montanha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Serm\u00e3o da Montanha sintetiza a \u00e9tica do disc\u00edpulo, na perspectiva do Reino. Mt 5-7 re\u00fane ensinamentos de Jesus, com paralelos em Marcos e Lucas, em contextos diferentes. Esse catecismo do discipulado esbo\u00e7a, em grandes linhas, o agir de quem optou por centrar a vida no querer do Pai, nos passos de Jesus. Pode ser chamado de Tor\u00e1 (instru\u00e7\u00e3o, ensino) crist\u00e3, pois n\u00e3o pretende ser uma lei, no sentido jur\u00eddico do termo, e, sim, uma orienta\u00e7\u00e3o, um projeto de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 A supera\u00e7\u00e3o do legalismo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mestre Jesus ensina os disc\u00edpulos a se colocarem diante da Lei com liberdade de cora\u00e7\u00e3o, interpretando-lhe as exig\u00eancias sob o prisma da vontade original do Pai. As releituras de alguns mandamentos do Dec\u00e1logo servem de exemplo para o trato com os demais e toda e qualquer lei. O disc\u00edpulo aprende a superar a materialidade da letra para atingir o esp\u00edrito do mandamento. <em>N\u00e3o matar <\/em>vai al\u00e9m da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica do outro. A l\u00edngua pode se tornar uma arma mort\u00edfera, capaz de ferir mortalmente o semelhante (cf. Mt 5,21-26). O <em>div\u00f3rcio,<\/em> permitido pela religi\u00e3o da \u00e9poca, deve ser rejeitado por se configurar como desrespeito \u00e0s mulheres (cf. Mt 5,31-33; 19,1-19). O <em>adult\u00e9rio<\/em> se comete no cora\u00e7\u00e3o com um olhar libidinoso (cf. Mt 5,27-30). O <em>juramento falso<\/em> deve ser abolido de vez da vida do disc\u00edpulo (cf. Mt 5,33-37). A chamada lei de tali\u00e3o \u2013 <em>olho por olho e dente por dente \u2013<\/em> ser\u00e1 substitu\u00edda pela lei do perd\u00e3o e da solidariedade (cf. Mt 5,38-42). Uma \u00faltima ilustra\u00e7\u00e3o: o <em>amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo e odiar\u00e1s o teu inimigo <\/em>ser\u00e1 substitu\u00eddo pelo amor e pela ora\u00e7\u00e3o em favor dos inimigos e perseguidores (cf. Mt 5,43-47; 5,11-12). O disc\u00edpulo recusa-se a interpretar a Lei ao p\u00e9 da letra, para n\u00e3o cair no legalismo contr\u00e1rio ao querer do Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O referencial do agir do disc\u00edpulo \u00e9 o Pai. \u201cDeveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste \u00e9 perfeito\u201d (Mt 5,48) \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o do Mestre Jesus. Tendo o agir do Pai como refer\u00eancia, o disc\u00edpulo estar\u00e1 no bom caminho. O Pai n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o de pessoas. Por isso \u201cfaz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos\u201d (Mt 5,46). Quem se deixa guiar pelo Pai, agir\u00e1 inspirado nele. Essa \u00e9 a forma de alcan\u00e7ar um modo de vida \u2013 <em>justi\u00e7a<\/em> \u2013 superior \u00e0 dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 Uma nova forma de piedade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra vertente da \u00e9tica do disc\u00edpulo \u00e9 a dimens\u00e3o religiosa. Certa corrente do farisa\u00edsmo praticava os atos de piedade sem qualquer profundidade, por se preocupar com o reconhecimento alheio. A religiosidade exterior escondia o interior cheio de mal\u00edcia. Jesus denunciou com vigor prof\u00e9tica tal esquizofrenia religiosa. \u201cAi de v\u00f3s, escribas e fariseus hip\u00f3critas! Sois semelhantes a sepulcros caiados, que por fora parecem belos, mas por dentro est\u00e3o cheios de ossos de mortos e de toda podrid\u00e3o. Assim tamb\u00e9m v\u00f3s: por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade\u201d (Mt 23,27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disc\u00edpulo do Reino \u00e9 orientado a dar <em>esmola<\/em> da maneira mais discreta poss\u00edvel (cf. Mt 6,1-4). Nada de trombetear e chamar a aten\u00e7\u00e3o para si, com o desejo secreto de ser louvado. A regra do agir \u00e9: \u201cN\u00e3o saiba tua m\u00e3o esquerda o que faz tua direita\u201d (v.3). \u00c9 a \u00e9tica da discri\u00e7\u00e3o! A pr\u00e1tica da <em>ora\u00e7\u00e3o<\/em> segue a mesma linha (cf. Mt 6,5-6). Ser\u00e1 feita no segredo do quarto, com as portas fechadas, para evitar que algu\u00e9m veja o disc\u00edpulo no di\u00e1logo com o Pai. Por fim, ao fazer <em>jejum<\/em>, evitar\u00e1 qualquer sinal exterior de autopuni\u00e7\u00e3o f\u00edsica, que desfigura o rosto (cf. Mt 6,16-18). Antes, a cabe\u00e7a ungida e o rosto lavado despistar\u00e3o qualquer ind\u00edcio de jejum. S\u00f3 o Pai conhecer\u00e1 a disposi\u00e7\u00e3o interior do disc\u00edpulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 Um caminho de comunh\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem situado na tradi\u00e7\u00e3o religiosa de Israel, Jesus coloca-se ao servi\u00e7o da reconstru\u00e7\u00e3o do projeto do Pai para a humanidade. Por isso, apontar\u00e1 aos disc\u00edpulos um caminho de comunh\u00e3o e de fraternidade, motivando-os a eliminar os focos de divis\u00e3o e de inimizade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Mestre exorta-os a rejeitarem o materialismo que gera nos cora\u00e7\u00f5es a sede de possuir e acumular, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o de compartilhar (cf. Mt 6,19-21). Esse tesouro enganoso pode ser perdido num piscar de olhos. S\u00f3 os pobres em esp\u00edrito s\u00e3o capazes de trilhar o caminho apontado pelo Mestre (cf. Mt 5,3) e estarem sempre prontos a servir a Deus e jamais ao dinheiro (cf. Mt 6,24). O disc\u00edpulo \u00e9 tamb\u00e9m exortado a ter cuidado com o olhar, porta por onde podem entrar em seu cora\u00e7\u00e3o tantos sentimentos desumanizadores (cf. Mt 6,22-23). Cabe-lhe ser \u201cpuro de cora\u00e7\u00e3o\u201d (cf. Mt 5,8). A \u00e9tica do Reino exige do disc\u00edpulo cultivar a virtude da autocr\u00edtica para estar \u00e0 altura de criticar o irm\u00e3o ou a irm\u00e3 de comunidade. A hipocrisia de ver o cisco no olho do pr\u00f3ximo, sem se dar conta da trave que est\u00e1 no pr\u00f3prio olho, \u00e9 incompat\u00edvel com o desejo de viver centrado no Pai. Da\u00ed a ordem de n\u00e3o julgar para n\u00e3o ser julgado (cf. Mt 7,1-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas orienta\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o fundamentais para o disc\u00edpulo do Reino. A primeira \u00e9: \u201cBuscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justi\u00e7a, e todas essas coisas vos ser\u00e3o acrescentadas\u201d (Mt 6,33). O foco da \u00e9tica \u00e9 o Pai e seu Reino. Todas as a\u00e7\u00f5es decorrer\u00e3o desse fil\u00e3o teol\u00f3gico. A segunda \u00e9: \u201cTudo aquilo que quereis que os homens vos fa\u00e7am, fazei-o v\u00f3s a eles, pois esta \u00e9 a Lei e os Profetas\u201d (Mt 7,12). O olhar fixado em Deus est\u00e1 igualmente fixado no pr\u00f3ximo. Por\u00e9m, numa perspectiva peculiar: o disc\u00edpulo deseja para si o mesmo que deseja para o semelhante. O olhar dirigido ao outro determinar\u00e1 o que \u00e9 bom para si. Nada pode desejar para si, sem antes se perguntar se corresponde ao que deseja para o outro. Nada pode desejar para si, sem o desejar tamb\u00e9m para o outro. Nada pode desejar para o outro, sem que tamb\u00e9m seja desej\u00e1vel para si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 A \u00e9tica da comunidade crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e9tica crist\u00e3, no bojo da tradi\u00e7\u00e3o de Israel, \u00e9 comunit\u00e1ria por natureza. Os indiv\u00edduos s\u00e3o pensados nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, jamais solit\u00e1rios. Desse modo, ao longo do seu minist\u00e9rio, Jesus lan\u00e7ou a semente do que haveriam de ser as comunidades crist\u00e3s. Seu projeto \u00e9tico supunha os disc\u00edpulos do Reino reunidos em comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.1 \u201cUm s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As primeiras comunidades dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Jesus chamavam a aten\u00e7\u00e3o pela pr\u00e1tica da solidariedade (cf. At 2,44-47). A ades\u00e3o \u00e0 f\u00e9 levava-os a colocar tudo em comum, a ponto de se desfazerem de suas propriedades, pensando \u201cnas necessidades de cada um\u201d (v.45). O crescimento da comunidade se dava por seu modo de viver. A fraternidade solid\u00e1ria tornava-se um projeto de vida atraente para quem buscava um modo de vida alternativo ao que se conhecia no ambiente judaico e no ambiente romano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma met\u00e1fora sugestiva descreve a vida dos primeiros crist\u00e3os. \u201cA multid\u00e3o dos que haviam crido era um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u201d (At 4,32a). Sem romantismo, tiravam as consequ\u00eancias pr\u00e1ticas desse estilo de vida. Sempre na linha da solidariedade! \u201cNingu\u00e9m considerava exclusivamente seu o que possu\u00eda, mas tudo entre eles era comum\u201d (At 4,32b). A comunidade se organizava em fun\u00e7\u00e3o das necessidades de seus membros, para que n\u00e3o houvesse necessitados. \u201cDe fato, os que possu\u00edam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas, e os depunham aos p\u00e9s dos ap\u00f3stolos. Distribu\u00eda-se, ent\u00e3o, a cada um segundo sua necessidade\u201d (At 4,34-35). A f\u00e9 se desdobrava na \u00e9tica da caridade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2 Solidariedade com os empobrecidos e marginalizados<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carta de Tiago \u00e9 uma s\u00famula importante da \u00e9tica crist\u00e3. Um t\u00f3pico importante de sua catequese diz respeito \u00e0 aten\u00e7\u00e3o devida aos empobrecidos e marginalizados. N\u00e3o se admite que um pobre seja discriminado na assembleia da comunidade (cf. Tg 2,1-9). Engana-se quem oferece ao rico um lugar confort\u00e1vel e manda o pobre sentar-se abaixo, aos p\u00e9s dos ricos (v.3). Este modo de agir desagrada a Deus, que \u201cescolheu os pobres em bens deste mundo para serem ricos na f\u00e9 e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam\u201d (v.5). Tiago denuncia a ingenuidade de quem bajula os ricos opressores e blasfemadores, que \u201cos arrastam aos tribunais\u201d (v.6). O desrespeito aos pobres atrai a ira de Deus, pois, ao se fazer acep\u00e7\u00e3o de pessoas, se comete pecado e se incorre na condena\u00e7\u00e3o da Lei, por transgress\u00e3o (v.9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tiago estabelece a estreita rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e obras (cf. Tg 2,14-26). A f\u00e9 torna-se imprest\u00e1vel, se n\u00e3o se explicitar em a\u00e7\u00f5es em favor dos empobrecidos. N\u00e3o ter\u00e1 valor salv\u00edfico! De nada adianta ir ao encontro de um irm\u00e3o ou irm\u00e3 carente de vestu\u00e1rio e alimenta\u00e7\u00e3o com aug\u00farios dispens\u00e1veis \u2013 \u201cIde em paz, aquecei-vos e saciai-vos!\u201d (v.16a) \u2013 sem \u201clhes dar o necess\u00e1rio para a sua manuten\u00e7\u00e3o\u201d (v.16b). A solidariedade crist\u00e3 tem valor salv\u00edfico quando supera a piedade vazia e parte para a a\u00e7\u00e3o, movida pela f\u00e9. \u00c9 a \u00e9tica verdadeira que, pela media\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo necessitado, gera comunh\u00e3o com o Pai do c\u00e9u (cf. Mt 25,31-36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.3 A exig\u00eancia do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bin\u00f4mio perd\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel na \u00e9tica comunit\u00e1ria crist\u00e3. Por mais que os disc\u00edpulos do Reino se esforcem, jamais est\u00e1 descartada a possibilidade de se romperem as rela\u00e7\u00f5es. Isso pode ser inevit\u00e1vel. Entretanto, n\u00e3o se podem tolerar a inimizade e a acomoda\u00e7\u00e3o em face aos v\u00ednculos rompidos. A comunh\u00e3o fraterna \u00e9 exig\u00eancia inescus\u00e1vel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pai n\u00e3o pode suportar o culto de quem est\u00e1 de rela\u00e7\u00f5es cortadas com algum irm\u00e3o. \u201cVai primeiro reconciliar-te com teu irm\u00e3o\u201d (Mt 5,24) \u00e9 exig\u00eancia para o culto agrad\u00e1vel a Deus. Sem essa provid\u00eancia preliminar, o culto perder\u00e1 a raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem \u201cn\u00e3o perdoar, de cora\u00e7\u00e3o, ao seu irm\u00e3o\u201d (Mt 18,35) ser\u00e1 r\u00e9u de castigo divino. Afinal, cada vez que se perdoa apenas se compartilha com o pr\u00f3ximo o perd\u00e3o recebido do Pai do c\u00e9u. A par\u00e1bola do devedor que se mostra implac\u00e1vel ilustra este elemento da \u00e9tica crist\u00e3 (cf. Mt 18,23-35). O perd\u00e3o do disc\u00edpulo do Reino corresponde \u00e0 partilha do perd\u00e3o incalcul\u00e1vel recebido do Pai, ilustrado na par\u00e1bola com o cancelamento de uma d\u00edvida de dez mil talentos, sem qualquer exig\u00eancia de ressarcimento. O perd\u00e3o concedido ao irm\u00e3o ser\u00e1 irris\u00f3rio, comparado ao perd\u00e3o recebido de Deus. \u201cCem den\u00e1rios\u201d \u00e9 nada diante de \u201cdez mil talentos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perd\u00e3o reconciliador, na \u00e9tica crist\u00e3, n\u00e3o tem limites. O disc\u00edpulo do Reino \u00e9 desafiado a perdoar sempre. O di\u00e1logo entre Pedro e Jesus esclarece este vi\u00e9s do modo de proceder de quem adere ao Reino. \u201cSenhor, quantas vezes devo perdoar ao irm\u00e3o que pecar contra mim? At\u00e9 sete vezes!\u201d foi a quest\u00e3o levantada por Pedro (Mt 18,21). O disc\u00edpulo prop\u00f5e como par\u00e2metro o m\u00e1ximo de vingan\u00e7a aludido no Antigo Testamento (cf. Gn 4,24). O Mestre abre-lhe a perspectiva do perd\u00e3o ilimitado. \u201cN\u00e3o te digo at\u00e9 sete, mas at\u00e9 setenta vezes sete vezes\u201d (Mt 18,22). O Mestre quis dizer: \u201cSempre!\u201d Essa \u00e9 a forma mais conveniente de \u201cser misericordioso como o Pai \u00e9 misericordioso\u201d (Lc 6,36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A \u00e9tica do amor misericordioso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor-\u00e1gape \u00e9 a pedra basilar da \u00e9tica crist\u00e3. Tudo parte dele e se direciona para ele. Qui\u00e7\u00e1 seja esta a originalidade do ensinamento \u00e9tico de Jesus, ao apontar um eixo vertebral da a\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas do Reino, de modo a dar unidade a tudo quanto fazem. Uma frase de Santo Agostinho resume bem este vetor do agir crist\u00e3o: \u201cAma e faze o que queiras!\u201d No pressuposto de existir o amor, qualquer a\u00e7\u00e3o em favor do pr\u00f3ximo ser\u00e1 bem-vinda, por visar sempre o bem. Sem o \u201cama\u201d, o outro pode se tornar objeto nas m\u00e3os de indiv\u00edduos sem escr\u00fapulos. O amor faz tudo ser diferente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.1 \u201cQuem permanece no amor, permanece em Deus\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os escritos joaninos insistem no primado do amor na vida do crist\u00e3o, pois \u201cDeus \u00e9 amor\u201d. Por conseguinte, \u201caquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele!\u201d (1Jo 4,16). Teologia e \u00e9tica fundem-se numa unidade existencial, expressa em cada gesto ou palavra do disc\u00edpulo do Reino. Por conseguinte, o ato de f\u00e9 se torna verdadeiro no ato de amor-\u00e1gape. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, o ato de amor-\u00e1gape \u00e9 a express\u00e3o aut\u00eantica da f\u00e9, sem possibilidade de equ\u00edvocos. A pr\u00e1tica da caridade revela a comunh\u00e3o do disc\u00edpulo com Deus, pois Deus se faz presente e torna poss\u00edvel o ato de amor. Sem a presen\u00e7a divina, a caridade fica impossibilitada, j\u00e1 que o indiv\u00edduo est\u00e1 largado a si mesmo, sendo incapaz de superar os limites do ego\u00edsmo, raiz da maldade e da injusti\u00e7a cometidas contra o semelhante, sendo os fracos e indefesos as primeiras v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verbo grego <em>m\u00e9n\u014d<\/em>, traduzido por permanecer, significa habitar, morar. Isto permite descobrir uma rica sem\u00e2ntica na afirma\u00e7\u00e3o joanina. O amor-\u00e1gape possibilita ao disc\u00edpulo \u201cmorar em Deus\u201d e \u201cDeus morar nele\u201d. Se o disc\u00edpulo mora em Deus e Deus nele, s\u00f3 poder\u00e1 agir movido pelo amor. O ego\u00edsmo jamais ter\u00e1 lugar em seu cora\u00e7\u00e3o! Isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel no dia em que mudar de morada. Em outras palavras, se abra\u00e7ar uma \u00e9tica contr\u00e1ria ao projeto do Reino, anunciado por Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2 \u201cA maior \u00e9 a caridade!\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo, escrevendo \u00e0 comunidade de Corinto, indica-lhe \u201cum caminho que ultrapassa a todos\u201d (1Cor 12,31): o caminho da amor-\u00e1gape! Servindo-se de linguajar po\u00e9tico, apresenta um projeto de vida \u00e9tica de elevado teor, onde todas as a\u00e7\u00f5es humanas se alicer\u00e7am no amor que, no final das contas, ser\u00e1 a \u00fanica coisa que permanecer\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o do ser humano com Deus. O \u201chino \u00e0 caridade\u201d \u00e9 uma p\u00e9rola dos escritos neotestament\u00e1rios (cf. 1Cor 13,1-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois t\u00f3picos chamam a aten\u00e7\u00e3o. Paulo refere-se \u00e0 possibilidade de se ter \u201ctoda a f\u00e9, a ponto de transportar montanhas\u201d; sem a caridade, por\u00e9m, \u201cnada seria\u201d (v.2). N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil pensar \u201ctoda a f\u00e9\u201d desprovida de caridade. Que f\u00e9 seria? Ainda mais espantosa \u00e9 a eventualidade de algu\u00e9m distribuir todos os seus bens aos famintos e entregar seu corpo \u00e0s chamas, sem ser movido pela caridade (v.3). N\u00e3o seriam atos heroicos de oblatividade? Como pens\u00e1-los \u00e0 margem da caridade? O ap\u00f3stolo parece servir-se de uma linguagem paradoxal para chamar a aten\u00e7\u00e3o para o valor supremo da caridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor-\u00e1gape tem muit\u00edssimos rostos: paci\u00eancia, servi\u00e7alismo, gentileza, esperan\u00e7a, suportabilidade. Por outro lado, n\u00e3o cultiva a inveja, a ostenta\u00e7\u00e3o, o orgulho, a irritabilidade nem o rancor. N\u00e3o \u00e9 inconveniente; deixa de lado o interesse pessoal; se entristece com a injusti\u00e7a, mas se alegra com a verdade (v.4-7). A vida virtuosa \u00e9 fruto do amor-\u00e1gape! Deixar-se guiar por ele corresponde \u00e0 atitude mais sensata do crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ocaso da vida, o amor-\u00e1gape despontar\u00e1 como a virtude mais preciosa do crist\u00e3o. Embora permanecendo a f\u00e9 e a esperan\u00e7a, maior que ambas \u00e9 a caridade (v.13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.3 \u201cFaze isto e viver\u00e1s!\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A par\u00e1bola do bom samaritano comporta um ensinamento essencial para a \u00e9tica crist\u00e3: a miseric\u00f3rdia deve ser radical (cf. Lc 10,25-37). A quest\u00e3o de fundo \u00e9 a pergunta do doutor da Lei Mosaica, dirigida a Jesus: \u201cQue farei para herdar a vida eterna?\u201d (v.25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria contada para explicar \u201cquem \u00e9 meu pr\u00f3ximo?\u201d comporta dois personagens que, ligados a Deus por suas fun\u00e7\u00f5es, praticam uma religi\u00e3o sem entranhas de miseric\u00f3rdia. O sacerdote e o levita passam insens\u00edveis ao largo, ao se depararem com o homem ca\u00eddo na beira da estrada (v.31-32). A necessidade do pr\u00f3ximo n\u00e3o lhes toca o cora\u00e7\u00e3o. Deus lhes basta! Ser\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No extremo oposto da rela\u00e7\u00e3o com Deus na vis\u00e3o dos judeus, um samaritano \u00e9 introduzido na hist\u00f3ria. Era bem conhecida a hostilidade dos judeus em rela\u00e7\u00e3o aos samaritanos (cf. Jo 4, 9). Exatamente um samaritano se depara com o homem desnudado, espancado e deixado semimorto (v.30). A grande probabilidade de ser um judeu j\u00e1 seria motivo para passar adiante, sem se importar com sua sorte. Entretanto, deixando de lado os preconceitos, sua vida muda de dire\u00e7\u00e3o. A car\u00eancia do ser humano que tem diante de si lhe ocupa toda a aten\u00e7\u00e3o. Uma cascata de express\u00f5es de miseric\u00f3rdia acontece!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cChegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaix\u00e3o\u201d (v.33). \u00c9 o come\u00e7o de tudo! O samaritano deixou-se afetar pelo homem ca\u00eddo. A afec\u00e7\u00e3o tocou-lhe as entranhas, a ponto de n\u00e3o deix\u00e1-lo impass\u00edvel. Antes, moveu-o a agir, sem interpor dificuldades. \u201cAproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando \u00f3leo e vinho, depois o colocou em seu pr\u00f3prio animal, conduziu-o \u00e0 hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois den\u00e1rios e deu-o ao hospedeiro dizendo: \u2018Cuida dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei\u2019\u201d (v.34-35). O samaritano esgotou todas as possibilidades de se mostrar solid\u00e1rio com o homem aviltado em sua dignidade. Foi misericordioso at\u00e9 o extremo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra de Jesus ao mestre da Lei aplica-se a todos quantos se fazem disc\u00edpulos do Reino, no seguimento do Mestre de Nazar\u00e9: \u201cVai, e tamb\u00e9m tu faze o mesmo\u201d (v.37). A viv\u00eancia radical da miseric\u00f3rdia, que se faz solid\u00e1ria com as car\u00eancias do irm\u00e3o sofredor, \u00e9 a quintess\u00eancia da \u00e9tica crist\u00e3, caminho de comunh\u00e3o com o Pai, revelado por Jesus.<\/p>\n<p><strong>5 Desafio atual<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os e crist\u00e3s da Am\u00e9rica Latina deparam-se com o desafio de viver a f\u00e9, com densidade \u00e9tica, num Continente marcado pela injusti\u00e7a, com seus muitos rostos de empobrecimento, mis\u00e9ria, desigualdade, viol\u00eancia, morte e corrup\u00e7\u00e3o. Dizer-se adorador ou adoradora do Deus de Jesus Cristo, esquivando-se do confronto com o irm\u00e3o e a irm\u00e3 cujos direitos lhes s\u00e3o negados, corresponde a rejeitar com a vida (\u00e9tica) o que se professa com a f\u00e9 (teologia). As palavras do Mestre de Nazar\u00e9 continuam a soar, como aguilh\u00e3o a despertar-lhes a consci\u00eancia: \u201cNem todo aquele que me diz \u2018Senhor, Senhor\u2019 entrar\u00e1 no Reino dos C\u00e9us, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us\u201d (Mt 7,21). Qual \u00e9 a vontade do Pai celeste sen\u00e3o que vivamos a caridade, \u201cplenitude da Lei\u201d (Rm 13,10)?<\/p>\n<p><em>Jaldemir Vit\u00f3rio SJ, <\/em>FAJE, Brasil. Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>ADRIANO, J. A caridade e a \u00e9tica da vida. <em>Revista de Cultura Teol\u00f3gica<\/em>, <em>\u00a0<\/em>n.9, p.37-59. 2001.<\/p>\n<p>BARROS, M. \u00c9tica e solidariedade na B\u00edblia. <em>Magis Cadernos de F\u00e9 e Cultura<\/em>, n.2, p.109-32. 1994.<\/p>\n<p>HARRINGTON, D. <em>Jesus e a \u00e9tica da virtude: <\/em>construindo pontes entre os estudos do Novo Testamento e a teologia da moral. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2006.<\/p>\n<p>MATERA, F. J. <em>\u00c9tica do Novo Testamento:<\/em> os legados de Jesus e de Paulo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1999.<\/p>\n<p>PONTIF\u00cdCIA Comiss\u00e3o B\u00edblica. <em>B\u00edblia e Moral:<\/em> ra\u00edzes b\u00edblicas do agir crist\u00e3o<em>. <\/em>S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Jesus e a \u00e9tica crist\u00e3 1.1 As ra\u00edzes veterotestament\u00e1rias 1.2 O Mestre exemplar 1.3 O mandamento novo 2 A \u00e9tica do Reino no Serm\u00e3o da Montanha 2.1 A supera\u00e7\u00e3o do legalismo 2.2 Uma nova forma de piedade 2.3 Um caminho de comunh\u00e3o 3 A \u00e9tica da comunidade crist\u00e3 3.1 \u201cUm s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-206","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=206"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/206\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1190,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/206\/revisions\/1190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}