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{"id":2028,"date":"2020-12-31T12:53:15","date_gmt":"2020-12-31T14:53:15","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2028"},"modified":"2021-02-10T15:58:53","modified_gmt":"2021-02-10T17:58:53","slug":"as-viragens-na-teologia-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2028","title":{"rendered":"As viragens na Teologia Contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o: o que se entende, aqui, por <em>viragem<\/em>?<\/p>\n<p>1<em> Viragem hist\u00f3rica<\/em>: a \u201chist\u00f3ria\u201d como horizonte das teologias do s\u00e9culo XX<\/p>\n<p>2 <em>Viragem social<\/em>: o \u201creverso da hist\u00f3ria\u201d como cen\u00e1rio das teologias da liberta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>3<em> Viragens <\/em>rec\u00edprocas e simult\u00e2neas: <em>ecol\u00f3gica<\/em>, <em>intercultural<\/em>, <em>decolonial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Conclus\u00e3o<\/em>: Que tipo de rela\u00e7\u00e3o vigoraria entre as distintas <em>viragens<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o: o que se entende, aqui, por <em>viragem<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imprescind\u00edvel se faz esclarecer os termos que comp\u00f5em o t\u00edtulo do verbete no intuito de explicitar melhor o objetivo ao qual se prop\u00f5e. N\u00e3o se entende <em>viragem <\/em>como ponto matem\u00e1tico de inflex\u00e3o a partir do qual se operaria uma ruptura com o passado como condi\u00e7\u00e3o para se inaugurar algo \u201cnovo\u201d. Concebe-se <em>viragem <\/em>como um movimento de reconfigura\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica da teologia com vistas \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o no di\u00e1logo com novos paradigmas culturais. As distintas <em>viragens<\/em> testemunhariam, portanto, a consci\u00eancia da teologia contempor\u00e2nea de que a pr\u00f3pria relev\u00e2ncia constitui condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para que recupere, vez por vez, sua perene atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O recorte por n\u00f3s proposto mediante a formula\u00e7\u00e3o \u201cteologia contempor\u00e2nea\u201d n\u00e3o diz propriamente respeito a uma r\u00edgida delimita\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, tarefa da qual se ocuparia a ci\u00eancia historiogr\u00e1fica. Referimo-nos, aqui, \u00e0 pluralidade de teologias produzidas no curso dos s\u00e9culos XX e XXI como resultado de experimenta\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas ocorridas a partir das provoca\u00e7\u00f5es do fen\u00f4meno hist\u00f3rico-cultural do Iluminismo. Pois foi, a partir de ent\u00e3o, que a teologia crist\u00e3 se descobriu diante do premente desafio de apresentar e, ao mesmo tempo, defender a positividade hist\u00f3rico-salv\u00edfica da f\u00e9 e sua relev\u00e2ncia em face da emerg\u00eancia da raz\u00e3o aut\u00f4noma e autossuficiente n\u00e3o mais ref\u00e9m da tutela do conhecimento via autoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1<em> Viragem hist\u00f3rica<\/em>: a \u201chist\u00f3ria\u201d como horizonte das teologias do s\u00e9culo XX<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que caracteriza <em>grosso modo<\/em> as distintas correntes teol\u00f3gicas surgidas no s\u00e9culo XX \u00e9 sua preocupa\u00e7\u00e3o em \u201cacertar o passo da hist\u00f3ria\u201d. As interpela\u00e7\u00f5es postas de forma contundente pelo Iluminismo provocaram nas teologias crist\u00e3s a consci\u00eancia de um duplo descompasso: irrelev\u00e2ncia e anacronismo. E o efeito dessa consci\u00eancia foi descobrir-se numa esp\u00e9cie de limbo, uma situa\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria e fechada em si mesma. Por um lado, a teologia crist\u00e3 se descobre aqu\u00e9m dos novos desafios postos pela situa\u00e7\u00e3o atual. Por outro, ela se reconhece alheia \u00e0s pr\u00f3prias fontes. Na origem deste despertar de consci\u00eancia encontra-se a emerg\u00eancia da historicidade como paradigma hegem\u00f4nico da Modernidade ocidental. Por essa raz\u00e3o, denominador comum de todas as formas de teologia que surgiram no s\u00e9culo XX \u00e9 a assun\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria como paradigma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se afirmar que o <em>leitmotiv<\/em> das teologias do s\u00e9culo passado \u00e9 a simultaneidade entre abertura ao tempo presente e volta \u00e0s origens. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, M.-D. Chenu expunha em modo sistem\u00e1tico as linhas caracter\u00edsticas da reforma da teologia almejada no rec\u00e9m-constitu\u00eddo escolasticado dos Dominicanos, em <em>Le<\/em> <em>Saulchoir<\/em>, na B\u00e9lgica: <em>afirma\u00e7\u00e3o do primado do dado revelado<\/em>, <em>assun\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica b\u00edblica e hist\u00f3rica<\/em>, <em>tomismo aberto<\/em>, <em>aten\u00e7\u00e3o aos problemas do pr\u00f3prio tempo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda no mesmo op\u00fasculo, o te\u00f3logo dominicano propunha a articula\u00e7\u00e3o da \u201cf\u00e9 <em>in statu scientiae<\/em>\u201d, em sua dupla fun\u00e7\u00e3o positiva e especulativa, com a \u201cf\u00e9 solid\u00e1ria com o pr\u00f3prio tempo\u201d (CHENU, 1937).\u00a0 Express\u00e3o dessa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o t\u00edtulo por ele dado a uma de suas principais obras \u2013 uma colet\u00e2nea de artigos esparsos \u2013 publicada em dois volumes: <em>La Parole de Dieu<\/em>. 1. <em>La foi dans l\u2019intelligence<\/em>; 2. <em>L\u2019\u00c9vangile dans le temps<\/em> (CHENU, 1964). Anos mais tarde, em um artigo program\u00e1tico da assim chamada <em>Nouvelle Th\u00e9ologie<\/em>, publicado na revista <em>\u00c9tudes<\/em>, sob o t\u00edtulo de \u201cLes orientations pr\u00e9sentes de la pens\u00e9e religieuse\u201d, J. Dani\u00e9lou tra\u00e7ava as diretrizes da renova\u00e7\u00e3o da teologia: 1) o <em>retorno \u00e0s fontes<\/em> (Escrituras, Padres da Igreja, Liturgia); 2) o <em>contato com as correntes do pensamento contempor\u00e2neo<\/em>; 3) o <em>contato com a vida<\/em> (DANI\u00c9LOU, 1946, p. 5-21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente nesse contexto de antecipa\u00e7\u00f5es, resist\u00eancias, recuos e avan\u00e7os que se convoca e se celebra o Conc\u00edlio Vaticano II. O t\u00e3o falado <em>aggiornamento<\/em>, querido e proposto por Jo\u00e3o XXIII, \u00e9 express\u00e3o da consci\u00eancia do anacronismo e da irrelev\u00e2ncia da Igreja e da teologia face aos novos e urgentes apelos do mundo de ent\u00e3o. A urg\u00eancia desse <em>aggiornamento<\/em> suscitou a \u201cvolta \u00e0s fontes\u201d ou o \u201cretorno \u00e0s origens\u201d como potencializa\u00e7\u00e3o da correspond\u00eancia aos apelos do mundo dos anos 60 do s\u00e9culo passado. Presente j\u00e1 na convoca\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio, essa consci\u00eancia se explicita na Alocu\u00e7\u00e3o de abertura do Vaticano II, proferida por Jo\u00e3o XXIII: a <em>Gaudet Mater Ecclesia<\/em>. Emblem\u00e1tico, nesse sentido, o fato que a Cole\u00e7\u00e3o de Teologia, em v\u00e1rios volumes tem\u00e1ticos, elaborada imediatamente ap\u00f3s o Vaticano II e sob sua influ\u00eancia, tenha recebido de seus organizadores o sugestivo t\u00edtulo de <em>Mysterium Salutis<\/em>. <em>Comp\u00eandio de Dogm\u00e1tica hist\u00f3rico-salv\u00edfica<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo a cl\u00e1ssica obra de Rosino Gibellini, intitulada <em>La teologia del XX secolo<\/em>, damo-nos conta de que as correntes teol\u00f3gicas emersas no s\u00e9culo passado se colocam, todas elas sem exce\u00e7\u00e3o, debaixo do arco-\u00edris da Hist\u00f3ria. \u00c9, portanto, no horizonte do paradigma da historicidade que se inserem todas as \u201cviragens\u201d (<em>les tournants<\/em>) teol\u00f3gicas do s\u00e9culo passado: tanto a existencial-antropol\u00f3gica como a hermen\u00eautica e, sucessivamente, a pol\u00edtica e, por fim, a planet\u00e1ria. Gibellini distingue quatro tipologias consoantes ao modo de fazer teologia no decorrer do s\u00e9culo XX: 1) Teologias da identidade; 2) Teologias da correla\u00e7\u00e3o; 3) Teologias pol\u00edticas; 4) Teologias na era da mundializa\u00e7\u00e3o (GIBELLINI, 2007, p. 559-560).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>Teologias da Identidade<\/em> estariam preocupadas em afirmar a transcend\u00eancia da Palavra de Deus (K. Barth) e atestar a absoluta superioridade da Revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia e \u00e0 sabedoria humana em geral (H.U von Balthasar). Por essa raz\u00e3o, a teologia \u00e9 apresentada como \u201cdogm\u00e1tica eclesial\u201d (Barth), como \u201cgram\u00e1tica da f\u00e9\u201d (Lindbeck) ou como \u201calgo que d\u00e1 o que pensar\u201d (J\u00fcngel).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>Teologias da correla\u00e7\u00e3o<\/em> se caracterizariam pela articula\u00e7\u00e3o entre identidade e relev\u00e2ncia no interior da teologia crist\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o existencial, antropol\u00f3gica, cultural e experiencial humana. Aqui se inscrevem as conhecidas teologias: existencial (Bultmann), da cultura (Tillich), antropol\u00f3gica (K. Rahner), da experi\u00eancia (Schillebeeckx), ecum\u00eanica e inter-religiosa (K\u00fcng), hermen\u00eautica (Geffr\u00e9 e Tracy).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>Teologias pol\u00edticas<\/em> (Metz, Moltmann e S\u00f6lle) representariam a passagem do antropol\u00f3gico existencial para a esfera do pol\u00edtico. Nesse sentido, elas prop\u00f5em que se desentranhem os conte\u00fados sociais e pol\u00edticos da mensagem crist\u00e3, recolocando assim a f\u00e9 crist\u00e3 no espa\u00e7o p\u00fablico contra toda esp\u00e9cie de privatismo religioso segundo os moldes das sociedades burguesas p\u00f3s-iluministas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluindo, dir\u00edamos que praticamente todas as teologias surgidas na \u00e1rea geogr\u00e1fica do Atl\u00e2ntico Norte no curso do s\u00e9culo passado pretendem responder \u00e0 quest\u00e3o t\u00e3o bem formulada por D. Bonhoeffer: como falar de Deus ao ser humano adulto e emancipado, aut\u00eantico filho da Ilustra\u00e7\u00e3o europeia (GUTI\u00c9RREZ, 1979, p. 546-558)? Todavia, nesse mesmo s\u00e9culo XX, emergiam outras perguntas que n\u00e3o queriam calar. Essas provinham de outras latitudes, caracterizadas por rela\u00e7\u00f5es distintas para com a Modernidade colonial ocidental. Essas quest\u00f5es emergiam, para todos os efeitos, do \u201creverso da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2<em> Viragem social<\/em>: o \u201creverso da hist\u00f3ria\u201d como cen\u00e1rio das teologias da liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gibellini considera o movimento de <em>Ingresso da teologia na era da mundializa\u00e7\u00e3o<\/em> ainda como fen\u00f4meno no interior do paradigma da hist\u00f3ria. E nesse rol ele elenca toda a diversidade cultural e de g\u00eanero que irrompeu no seio da teologia crist\u00e3 no decorrer do s\u00e9culo passado, a saber: a Teologia da liberta\u00e7\u00e3o (TdL) latino-americana, a Teologia da incultura\u00e7\u00e3o no continente africano, a Teologia das religi\u00f5es no continente asi\u00e1tico, a Teologia feminista. Seria o movimento do irromper das teologias do terceiro mundo no universo da teologia crist\u00e3 universal. Somos de opini\u00e3o, todavia, que tais teologias surjam do \u201creverso da hist\u00f3ria\u201d e n\u00e3o propriamente da hist\u00f3ria concebida, no horizonte da Modernidade colonial, como desenvolvimento linear e progressivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explicita\u00e7\u00e3o dessa nova consci\u00eancia \u2013 do \u201creverso\u201d da hist\u00f3ria \u2013 teria se verificado durante a prepara\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia de Gustavo Guti\u00e9rrez a ser proferida em Chimbote (Peru) em julho de 1968, poucas semanas antes da abertura da Assembleia dos bispos em Medell\u00edn, sobre a realidade vivida na Am\u00e9rica Latina como desafio para uma pastoral de promo\u00e7\u00e3o humana. O texto da confer\u00eancia, publicado no ano seguinte sob o t\u00edtulo <em>Para una teolog\u00eda de la liberaci\u00f3n<\/em>, significou uma aut\u00eantica <em>viragem<\/em> na teologia, pois pela primeira vez e de modo expl\u00edcito, se propunha uma \u201cteologia da liberta\u00e7\u00e3o\u201d em alternativa \u00e0 \u201cteologia do desenvolvimento\u201d. O pr\u00f3prio Guti\u00e9rrez \u00e9 quem oferece um esclarecedor testemunho sobre o contexto de sua interven\u00e7\u00e3o e sobre o seu alcance:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00f3s que t\u00ednhamos uma responsabilidade pastoral, eram os anos em que nos interrog\u00e1vamos sobre a presen\u00e7a do Evangelho e da Igreja nesta ebuli\u00e7\u00e3o de ideias, de experi\u00eancias, de correntes e busc\u00e1vamos crit\u00e9rios de discernimento. Nessa situa\u00e7\u00e3o se efetuou em Chimbote uma reuni\u00e3o de sacerdotes e leigos para tentar compreender aquilo que viv\u00edamos em nosso pa\u00eds. Foi-me confiado o relat\u00f3rio teol\u00f3gico sobre um tema que era ent\u00e3o muito discutido: a teologia do desenvolvimento. Ao preparar meu relat\u00f3rio compreendi que era mais b\u00edblico e mais teol\u00f3gico falar de uma teologia da liberta\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s de uma teologia do desenvolvimento. Ou seja, teologia da liberta\u00e7\u00e3o como teologia da salva\u00e7\u00e3o nas concretas situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em que o Senhor nos oferece a gra\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o (GUTI\u00c9RREZ, 1986, p. 125-126)<em>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se v\u00ea, a singularidade da proposta da TdL latino-americana emerge a partir da maneira alternativa de se perceber a particularidade da realidade dos povos latino-americanos no cen\u00e1rio internacional. N\u00e3o se aceita sem mais a tipologia do paradigma da hist\u00f3ria segundo o qual a realidade inteira seria capturada no bojo de um \u00fanico e inexor\u00e1vel processo hist\u00f3rico linear caracterizado pelo progresso e pelo desenvolvimento. Desenvolvimento tinha se tornado, naqueles idos, palavra-chave do processo de recoloniza\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ado pelas na\u00e7\u00f5es ricas do hemisf\u00e9rio norte. Na \u00e9poca, falava-se em povos desenvolvidos para distingui-los dos assim chamados \u201csubdesenvolvidos\u201d ou \u201cem vias de desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o pr\u00f3prio Guti\u00e9rrez que, de resto, desde o in\u00edcio chama a aten\u00e7\u00e3o para o \u201cfato mais relevante\u201d no cen\u00e1rio sociopol\u00edtico, cultural e eclesial do continente: a \u201cirrup\u00e7\u00e3o dos pobres\u201d e seu clamor por liberta\u00e7\u00e3o (GUTI\u00c9RREZ, 1982, p. 215). Nesse sentido, a teologia da liberta\u00e7\u00e3o nasce desbancando n\u00e3o apenas a ideia de desenvolvimento, mas, sobretudo, seu expediente sistem\u00e1tico de naturaliza\u00e7\u00e3o da riqueza e da pobreza. Falava-se, a tal prop\u00f3sito, de um processo linear e crescente envolvendo na\u00e7\u00f5es desenvolvidas e na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento. Essa classifica\u00e7\u00e3o, pretensamente natural, encobria a dimens\u00e3o estruturalmente conflitiva da realidade do desenvolvimento. Reputava-se natural que as na\u00e7\u00f5es do Ocidente fossem mais desenvolvidas do que as na\u00e7\u00f5es dos continentes perif\u00e9ricos que, com o passar dos anos, se tornariam tamb\u00e9m elas desenvolvidas. Concebia-se desenvolvimento como um processo cujo crescimento econ\u00f4mico e cultural se daria de modo cont\u00ednuo e linear, indo do mais primitivo e menos desenvolvido na dire\u00e7\u00e3o do mais desenvolvido e \u201ccivilizado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se percebe, a \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d proposta pela TdL emerge como cr\u00edtica estrutural ao que se considerava, ent\u00e3o, natural: hist\u00f3ria ocidental como \u00fanica hist\u00f3ria; desenvolvimento como crescimento linear e ilimitado. E, por isso mesmo, a TdL surge com a pretens\u00e3o de se apresentar como teologia feita a partir do \u201cavesso\u201d da hist\u00f3ria. N\u00e3o se fala ainda de uma hist\u00f3ria <em>outra<\/em>, mas n\u00e3o se admite sem mais o conceito naturalizado de uma hist\u00f3ria ocidental \u00fanica que vai do natural e inculto ao civilizado e desenvolvido. O conceito de \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d deflagra o lado sombrio e intencionalmente esquecido dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para exprimir essa reviravolta, surgem express\u00f5es que caracterizam o dissenso quanto \u00e0 linearidade totalizadora da universalidade do paradigma da historicidade: \u201creverso da hist\u00f3ria\u201d, \u201cavesso da hist\u00f3ria\u201d, \u201co n\u00e3o homem\u201d como interlocutor privilegiado da TdL (GUTI\u00c9RREZ, 1979), \u201c<em>Sitz im Leben und Sitz im Tode<\/em>\u201d (contexto vital e, ao mesmo tempo, contexto de morte) como lugar teol\u00f3gico, na dupla val\u00eancia de ponto de partida e tamb\u00e9m de perspectiva da reflex\u00e3o teol\u00f3gica (SOBRINO, 1989, p. 155). Como se pode ver, com a TdL temos uma primeira ruptura no tocante \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o universal do paradigma moderno da Hist\u00f3ria e mediante a deflagra\u00e7\u00e3o do sistem\u00e1tico expediente de naturaliza\u00e7\u00e3o de processos hist\u00f3ricos de desigualdade econ\u00f4mica, social e cultural. E isso se d\u00e1 mediante a elei\u00e7\u00e3o do conceito liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, vale lembrar o que propunha J. L. Segundo, j\u00e1 nos in\u00edcios dessa nova teologia, no que diz respeito a uma necessidade b\u00e1sica para a TdL: p\u00f4r em movimento o c\u00edrculo hermen\u00eautico entre \u201cliberta\u00e7\u00e3o da teologia\u201d e \u201cteologia da liberta\u00e7\u00e3o\u201d. Trata-se de um processo rec\u00edproco e, por isso mesmo, simult\u00e2neo. Esta seria, em sua opini\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para libertar a teologia cl\u00e1ssica das amarras de sua falsa consci\u00eancia universal. Explorar a autonomia relativa e a constitutiva mutualidade entre \u201cliberta\u00e7\u00e3o da teologia\u201d e \u201cteologia da liberta\u00e7\u00e3o\u201d seria <em>conditio sine qua non<\/em> para o exerc\u00edcio de uma aut\u00eantica TdL (SEGUNDO, 1975).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As intui\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas e a metodologia espec\u00edfica da TdL foram sendo aos poucos incorporadas por outras teologias e pelo pr\u00f3prio Magist\u00e9rio. Da\u00ed a raz\u00e3o se utilizar o plural para se referir \u00e0s \u2018teologias\u2019 da Liberta\u00e7\u00e3o como, por exemplo, a teologia negra e a teologia feminista da liberta\u00e7\u00e3o. Trata-se de um processo de expans\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da TdL tamb\u00e9m em outras latitudes e contextos hist\u00f3ricos e culturais, nos quais as ra\u00edzes da TdL foram se aprofundando e se interconectando sempre mais umas \u00e0s outras (LIBANIO, 1987).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Simult\u00e2neo fen\u00f4meno se deu ainda nos terrenos espec\u00edficos das minorias pobres e oprimidas do continente latino-americano. Com o passar do tempo, a concep\u00e7\u00e3o de \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d foi se desdobrando e, portanto, se explicitando sempre mais e o termo \u201cpobre\u201d ganhando fei\u00e7\u00f5es cada vez mais concretas. \u00c9 o que transparece, por exemplo, no pref\u00e1cio escrito por Gustavo Guti\u00e9rrez \u00e0 14\u00aa edi\u00e7\u00e3o de seu <em>Teolog\u00eda de la Liberaci\u00f3n. Perspectivas<\/em>, intitulado \u201cMirar lejos!\u201d, que apareceu em 1990 e, portanto, 20 anos ap\u00f3s a primeira edi\u00e7\u00e3o. No intuito de salientar que o pobre pertence a uma coletividade social, Guti\u00e9rrez emprega express\u00f5es como: \u201cpovos submetidos\u201d, \u201cclasses sociais exploradas\u201d, \u201cra\u00e7as desprezadas\u201d e ainda \u201cculturas marginalizadas\u201d (GUTI\u00c9RREZ, 1990, p. 22). Ele sublinha ainda que falar do pobre, mais do que se referir apenas a uma categoria sociol\u00f3gica ou pol\u00edtica, significa remeter-se a um complexo fen\u00f4meno: o \u201cmundo do pobre\u201d (GUTI\u00c9RREZ, 1990, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma linha, Victor Codina sublinhava uma necessidade imprescind\u00edvel para a TdL, a saber: discernir um terceiro momento no movimento hist\u00f3rico da Ilustra\u00e7\u00e3o, al\u00e9m dos dois j\u00e1 discernidos por Jon Sobrino (cf. SOBRINO, 1976, p. 177-208). Este terceiro momento no interior do Iluminismo, na opini\u00e3o dele, seria caracterizado pelos desafios postos pela racionalidade simb\u00f3lica, respons\u00e1vel, por sua vez, pela acolhida da alteridade que se manifestaria nas distintas diferen\u00e7as: culturais, raciais, de g\u00eanero, religiosas etc. (CODINA, 1993, p. 271-296).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3<em> Viragens <\/em>rec\u00edprocas e simult\u00e2neas: <em>ecol\u00f3gica<\/em>, <em>intercultural<\/em>, <em>decolonial<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual a raz\u00e3o de se considerar juntas as tr\u00eas <em>viragens<\/em>: ecol\u00f3gica, intercultural e decolonial? Pelo fato, precisamente, de nos encontrarmos diante de um processo por n\u00f3s descrito como \u201cdesdobramento de um mesmo paradigma\u201d. Com isso, n\u00e3o queremos mistur\u00e1-las nem confundi-las, mas, ao contr\u00e1rio, distingui-las para que emerjam as dimens\u00f5es e quest\u00f5es singulares propostas por cada uma dessas <em>viragens<\/em>. Somente em tal caso, salvaguardar-se-\u00e1 a possibilidade de que se interpenetrem reciprocamente e, assim, se potencializem mutuamente. Pois, de fato, as dimens\u00f5es peculiares sublinhadas por cada uma delas, ao se inter-relacionar com as demais, tornam poss\u00edvel um processo de potencializa\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea e rec\u00edproca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que diz respeito \u00e0 <em>viragem ecol\u00f3gica<\/em>, n\u00e3o se entende aqui ecologia apenas como sin\u00f4nimo de meio ambiente. A preocupa\u00e7\u00e3o com o ambiente constitui uma das dimens\u00f5es da ecologia compreendida a partir de uma vis\u00e3o sist\u00eamica. Por essa raz\u00e3o, a Ecologia seria mais bem descrita como uma nova arte, um novo paradigma a pautar nossas rela\u00e7\u00f5es com o sistema-Vida e com o sistema-Terra. Concebe-se, portanto, ecologia como uma singular complexidade composta por quadro dimens\u00f5es: ambiental, social, mental e espiritual\/integral (BOFF, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ecoteologia, por sua vez, constitui uma esp\u00e9cie de ponte entre ecologia e teologia e vice-e-versa (SUSIN; ZAMPIERI, 2015; MURAD, 2016). Ela \u00e9 express\u00e3o, mais precisamente, de um discurso articulado que procura deslindar as m\u00fatuas e rec\u00edprocas implica\u00e7\u00f5es entre os desafios postos pela atual crise ecol\u00f3gica e o an\u00fancio do \u201cevangelho da Cria\u00e7\u00e3o\u201d pr\u00f3prio da f\u00e9 crist\u00e3. De um lado, a crise ecol\u00f3gica se apresenta como um dos mais urgentes e complexos desafios para a tarefa teol\u00f3gica hodierna. De outro, o \u201cevangelho da Cria\u00e7\u00e3o\u201d constitui a utopia permanente das rela\u00e7\u00f5es harmoniosas e ternas que buscamos construir entre todos os seres, verdadeiros \u201cfilhos da Terra\u201d, nossa Casa comum (TAVARES, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ecoteologia, na perspectiva da liberta\u00e7\u00e3o, salienta que a gravidade e urg\u00eancia das quest\u00f5es atinentes ao discurso acerca do cuidado de nossa \u201cCasa comum\u201d exigem que todo discurso teol\u00f3gico respons\u00e1vel \u2013 e que, portanto, n\u00e3o se deixa tragar pela indiferen\u00e7a e pelo cinismo \u2013 se construa a partir da condi\u00e7\u00e3o dos pobres e numa perspectiva ut\u00f3pico-libertadora. Um discurso acerca da tutela da vida no Planeta que n\u00e3o incorpore as quest\u00f5es da pobreza e da fome, da injusti\u00e7a social e das contradi\u00e7\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal peca por ingenuidade e coniv\u00eancia. Da mesma forma, um discurso acerca do cuidado e da sustentabilidade da vida no planeta Terra, nossa Casa comum, que n\u00e3o brote, de maneira esperan\u00e7osa, dos sulcos fecundos do \u201cevangelho da cria\u00e7\u00e3o\u201d, acabar\u00e1 sucumbindo a um pessimismo tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ecoteologia da liberta\u00e7\u00e3o, portanto, salienta a necessidade de se \u201carticular o grito da Terra com o grito do pobre\u201d (BOFF, 1995; 1996, p. 75-88; 2000, p. 1889-207). E o pressuposto \u00e9 de que a injusti\u00e7a social e a crise ambiental s\u00e3o ambas provocadas por um sistema de morte, deflagrado como produto de um paradigma civilizacional, caracterizado pelo poder hegem\u00f4nico do mercado, da tecnoci\u00eancia e da m\u00eddia (TAVARES, 2014a, p. 382-401). \u00c9 este sistema, no fundo, o respons\u00e1vel \u00faltimo pelos processos em curso que, juntos, comp\u00f5em o que temos justamente denominado de \u201ccrise ecol\u00f3gica\u201d. A ecoteologia se inspira na utopia de um novo e emergente paradigma, o ecol\u00f3gico. Este se encontra ainda em fase de gesta\u00e7\u00e3o, mas seus rebentos se revelam cada vez mais promissores. Fruto de um novo olhar, as novas rela\u00e7\u00f5es propiciadas pelo emergente paradigma ecol\u00f3gico seriam fortemente marcadas pelos valores da complexidade, do cuidado e da sustentabilidade, entre outros (TAVARES, 2014b, p. 13-24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tocante \u00e0 <em>viragem intercultural<\/em>, tem-se advertido a necessidade de uma transforma\u00e7\u00e3o intercultural da teologia, expressa no prop\u00f3sito de se fazer teologia <em>interculturalmente<\/em> (MIRANDA, 2001; IRARR\u00c1ZAVAL, 2002; FORNET-BETANCOURT, 2007; TAVARES, 2015; 2018; <em>HERRERA RODR\u00cdGUES, 2019<\/em>). Nesse intuito, formula-se uma tr\u00edplice cr\u00edtica \u00e0s teologias surgidas no contexto do s\u00e9culo passado, todas elas sob o arco-\u00edris do paradigma moderno da Hist\u00f3ria. Critica-se: a afirma\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica Hist\u00f3ria; a ideia imposta e difusa de <em>contemporaneidade<\/em> como express\u00e3o da assimetria entre as v\u00e1rias temporalidades e tempos diferentes; a assun\u00e7\u00e3o de <em>uma<\/em> hist\u00f3ria particular como <em>a<\/em> Hist\u00f3ria universal. E a partir desse dissenso cr\u00edtico, explicita-se a nova proposta escandida em tr\u00eas passos: o respeito \u00e0s distintas temporalidades e \u00e0 complexidade do Tempo; a simetria entre distintas temporalidades e entre \u201ctempos\u201d diferentes; a consci\u00eancia de que o universal n\u00e3o \u00e9 separado do local nem se contrap\u00f5e ao particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teologia intercultural, portanto, n\u00e3o \u00e9 avessa \u00e0 ideia de universalidade, como se poderia pensar apressada e superficialmente. N\u00e3o prop\u00f5e a fragmenta\u00e7\u00e3o do mundo nem faz apologia de regionalismos ou de provincianismos. O que postula a teologia intercultural \u00e9 uma universalidade a partir das diferen\u00e7as culturais. A diversidade cultural n\u00e3o compromete nem inviabiliza a universalidade. A perspectiva do encontro e do di\u00e1logo \u00e9 que possibilita, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a verdadeira universalidade, posto que a aut\u00eantica experi\u00eancia de universalidade brota das experi\u00eancias particulares e locais. H\u00e1 uma comunica\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 pelas ra\u00edzes, a partir de baixo, e por isso verdadeiramente inclusiva. N\u00e3o existe universalidade desvinculada dos processos locais e particulares, visto que o universal n\u00e3o se d\u00e1 separado do local nem tampouco contraposto ao particular. Qualquer tentativa de universaliza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o brote das particularidades de cada situa\u00e7\u00e3o e das diferen\u00e7as de cada realidade local resultar\u00e1 fruto de imposi\u00e7\u00e3o e de impostura. Uma concep\u00e7\u00e3o de universalidade que n\u00e3o se nutre do encontro e da partilha das diferen\u00e7as se degenerar\u00e1 em uma mera tautologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Teologia intercultural, enfim, n\u00e3o se satisfaz simplesmente com afirmar ou constatar a pluralidade das culturas; afirma que seu lugar teol\u00f3gico \u00e9 constitu\u00eddo pela pluralidade de culturas em comunica\u00e7\u00e3o. Interculturalidade, aqui, \u201cdescreve rela\u00e7\u00f5es sim\u00e9tricas e horizontes entre duas ou mais culturas, a fim de enriquecer-se mutuamente e contribuir a uma maior plenitude humana\u201d (ESTERMANN, 2010, p. 33). Esse \u00e9 precisamente seu momento \u201cinter\u201d. Trata-se, em suma, de uma teologia elaborada a partir do contexto do encontro e do di\u00e1logo entre as culturas e sob sua perspectiva. Pois como afirma Fornet-Bettancourt: \u201cN\u00e3o existe apenas uma pluralidade de hist\u00f3rias, a historicidade humana \u00e9 temporalmente pluralista\u201d (2009, p. 99).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>viragem decolonial<\/em> vem se dando a partir do momento em que a teologia tem se sentido interpelada por quest\u00f5es suscitadas pelo grupo de estudos \u201cModernidad-Colonialidad\u201d ao propor uma \u201cviragem decolonial\u201d: movimento que, partindo da an\u00e1lise da modernidade-colonialidade, culmina na perspectiva e discurso da decolonialidade<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual se insiste em conceb\u00ea-la como movimento, processo, guinada, op\u00e7\u00e3o. Constata-se, portanto, que a l\u00f3gica da colonialidade e a ret\u00f3rica da modernidade constituem, de fato, cara e coroa da mesma moeda e que, portanto, \u00e9 justific\u00e1vel falar de um \u00fanico fen\u00f4meno: \u201cmodernidade-colonialidade\u201d (DUSSEL, 2000, p. 29-30; QUIJANO, 1997; PORTO GON\u00c7ALVES, 2003, p. 168; MIGNOLO, 2010; 2017). A colonialidade seria, portanto, a face \u201cocultada\u201d da modernidade ocidental. Anibal Quijano, soci\u00f3logo peruano, insiste no fato de que a conquista e explora\u00e7\u00e3o violentas do \u201cnovo\u201d continente n\u00e3o apenas precedem historicamente a constitui\u00e7\u00e3o da Europa, mas s\u00e3o <em>conditio sine qua non <\/em>da sua imposi\u00e7\u00e3o como protagonista do primeiro padr\u00e3o de poder internacional: capitalista, colonial, euroc\u00eantrico, racista, patriarcal (QUIJANO, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, de fato, a colonialidade se apresenta como \u201co lado mais escuro da modernidade\u201d (MIGNOLO, 2017), tamb\u00e9m a teologia se sente instada a desvelar aspectos mantidos no encobrimento e que serviriam de contraponto ao projeto t\u00e3o decantado da Modernidade ocidental que, no decorrer de s\u00e9culos, dela tem se servido como uma de suas mais fortes bases ideol\u00f3gicas de sustenta\u00e7\u00e3o. Por esta raz\u00e3o, adverte-se a necessidade de se operar, simultaneamente, uma verdadeira \u201cdescoloniza\u00e7\u00e3o da teologia\u201d. Na impossibilidade de elencar e aprofundar, aqui, a complexidade dos aspectos mantidos no encobrimento, salienta-se apenas que a teologia decolonial se sente interpelada pelo sistem\u00e1tico processo de \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d que constitui a espinha dorsal do inteiro projeto moderno colonial e que continua tendo vig\u00eancia em nossos dias mediante expedientes de uma nova colonialidade global. Trata-se de tr\u00edplice \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d, posto que \u00e0 \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d da desigualdade social entre colonizador e colonizado, mediante a \u201cinven\u00e7\u00e3o da ideia de ra\u00e7a\u201d (Quijano), e da racionalidade moderno-colonial veio se somar em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal a \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d do mercado e da tecnoci\u00eancia como necessidades imperativas (TAVARES, 2019a, p. 77-101; 2019b, p. 481-488). Interpelada, portanto, pelas quest\u00f5es oriundas da <em>viragem decolonial<\/em>, a teologia se mostrar\u00e1 sens\u00edvel aos desafios postos e \u00e0s prospectivas abertas pela modernidade colonial a partir de sua constitutiva interrela\u00e7\u00e3o entre capitalismo, racismo, eurocentrismo e patriarcalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/strong><strong>: Que tipo de rela\u00e7\u00e3o vigoraria entre as distintas <em>viragens<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta-nos, enfim, dizer uma palavra acerca da rela\u00e7\u00e3o vigente entre as distintas <em>viragens<\/em>. Preferimos conceb\u00ea-la em termos de \u201cassun\u00e7\u00e3o\u201d ou de \u201cincorpora\u00e7\u00e3o\u201d. E o pressuposto \u00e9 que fen\u00f4menos e mentalidades hist\u00f3ricos n\u00e3o se encontram distribu\u00eddos ao longo de uma hist\u00f3ria linear e progressiva e classificados segundo crit\u00e9rios que justificariam a supera\u00e7\u00e3o do mais recente em rela\u00e7\u00e3o ao anterior, deixado para tr\u00e1s. Tal postura trairia o h\u00e1bito reconhecidamente moderno e colonial, cuja pretens\u00e3o \u00e9, entre outras, inventar um saber que se constitui, cada vez, a partir de um novo in\u00edcio. Da\u00ed a raz\u00e3o de se buscar a novidade, n\u00e3o raras vezes, de maneira obsessiva. Entretanto, n\u00e3o se quer negar o car\u00e1ter de supera\u00e7\u00e3o das tr\u00eas viragens simult\u00e2neas e rec\u00edprocas (ecol\u00f3gica, intercultural e decolonial) com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>viragem <\/em>social e dessa, por sua vez, com respeito \u00e0 <em>viragem<\/em> hist\u00f3rica. H\u00e1 sim um processo de supera\u00e7\u00e3o entre as respectivas <em>viragens<\/em>, apenas que tal supera\u00e7\u00e3o se d\u00e1 a modo de incorpora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o propriamente de supress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Sinivaldo S. Tavares, <\/em>OFM. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia. Texto original portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">BALLESTRIN, L. <em>Am\u00e9rica Latina e o giro decolonial<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/S010333522013000200004\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/S010333522013000200004<\/a>. Acesso em: 4 fev 2020.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, L. <em>Ecologia<\/em>: Grito da Terra, Grito dos pobres<em>.<\/em> S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Da liberta\u00e7\u00e3o e ecologia: desdobramento de um mesmo paradigma. In: ANJOS, M. F. (org.). <em>Teologia e novos paradigmas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1996. p. 75-88.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. O pobre, a nova cosmologia e a liberta\u00e7\u00e3o \u2013 como enriquecer a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. In: SUSIN, L. C. (org.). <em>Sar\u00e7a ardente. <\/em>Teologia na Am\u00e9rica Latina: Prospectivas. S\u00e3o Paulo: Soter\/Paulinas, 2000. p. 189-207.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>As quatro ecologias<\/em>. Ambiental, Pol\u00edtica e Social, Mental e Integral. Rio de Janeiro: Mar de Ideias, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHENU, M.-D. <em>Une \u00e9cole de th\u00e9ologie<\/em>: le Saulchoir. Paris: Cerf, 1937.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>La Parole de Dieu<\/em>. 1. La foi dans l\u2019intelligence; 2. L\u2019\u00c8vangile dans le temps. Paris: Cerf, 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V. Fe latinoamericana y desencanto occidental. In: COMBLIN, J.; GONZ\u00c1LEZ FAUS, J. I.; SOBRINO, J. (eds.). <em>Cambio social y pensamento cristiano en Am\u00e9rica latina<\/em>. Madrid: Trotta, 1993, p. 271-296.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DANI\u00c9LOU, J. Les orientations pr\u00e9sentes de la pens\u00e9e religieuse. <em>\u00c9tudes<\/em>, Paris, p. 5-21, avril 1946.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUSSEL, E. Europa, modernidad y eurocentrismo. In: LANDER, E. (ed.). <em>La colonialidad del saber: <\/em>eurocentrismo y ciencias sociales<em>. <\/em>Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, 2000, p. 24-33.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ESTERMANN, J. <em>Interculturalidad<\/em>: vivir la diversidad. La Paz: ISEAT, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORNET-BETANCOURT, R. El quehacer teol\u00f3gico en el contexto del di\u00e1logo entre las culturas en Am\u00e9rica Latina. <em>Revista Iberoamericana de Teolog\u00eda,<\/em> n. 4, p. 73-84, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______.<em> Tareas y propuestas de la Filosof\u00eda Intercultural<\/em>. Aachen: Mainz Verlag, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GIBELLINI, R. <em>La teologia del XX secolo<\/em>. Brescia: Queriniana, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUTI\u00c9RREZ, G. Os limites da teologia moderna. Um texto de Bonh\u00f6ffer. <em>Concilium<\/em> (Br), Petr\u00f3polis, v. 15, p. 546-558, 1979.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>La fuerza hist\u00f3rica de los pobres<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Non possiamo fare teologia in un\u00b4angolo morto della storia, In: GIBELLINI, R. <em>Il dibattito sulla teologia della liberazione<\/em>. Brescia: Queriniana, 1986, p. 125-126.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______.\u00a0 \u201cMirar Lejos\u201d. <em>Teolog\u00eda de la Liberaci\u00f3n. Perspectivas.<\/em> 14.ed. Salamanca: S\u00edgueme, 1990, p. 17-53.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HERRERA RODR\u00cdGUES, L. A.<em> Teologia e cultura. <\/em><em>Theologica Latinoamericana<\/em><em>. Enciclopledia digital. Dispon\u00edvel em:<\/em> <a href=\"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1557\">http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1557<\/a><em>. Acesso em: 12 set 2020.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRARR\u00c1ZAVAL, D. La cuesti\u00f3n intercultural. <em>P\u00e1gina<\/em>s, Lima, n.177, p. 74-82, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIBANIO, J. B. <em>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. <\/em>Roteiro did\u00e1tico para um estudo. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MELLA, P. La teolog\u00eda latinoamericana y el giro descolonizador. <em>Perspectiva Teol\u00f3gica<\/em>, Belo Horizonte, v. 48, n. 3, p. 439-461, set\/dez 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MIGNOLO, W. <em>Desobediencia epist\u00e9mica<\/em>: ret\u00f3rica de la modernidad, l\u00f3gica de la colonialidad y gram\u00e1tica de la descolonialidad. Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. <em>Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais<\/em>. Rio de Janeiro, v. 32, n. 94, p. 1-18, jun 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MIRANDA, M. F. <em>Incultura\u00e7\u00e3o da F\u00e9<\/em>. Uma abordagem teol\u00f3gica. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MURAD, A. 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Rumo a uma teologia intercultural. <em>Horizonte<\/em>, Belo Horizonte, v. 13, n. 40, p. 1955-1981, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Por uma transforma\u00e7\u00e3o intercultural da teologia. <em>Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira<\/em>, Petr\u00f3polis, v. 78, n. 311, p. 695-722, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Saber-se Terra. Trama que enla\u00e7a \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cviragem decolonial\u201d. In: KUZMA, C.; ANDRADE, P. F. C. (orgs.). <em>Decolonialidade e pr\u00e1ticas emancipat\u00f3rias<\/em>. Novas perspectivas para a \u00e1rea de Ci\u00eancias da Religi\u00e3o e Teologia. S\u00e3o Paulo: Paulinas-SOTER, 2019a, p. 77-101.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Modernidade Colonial: o uso sistem\u00e1tico do expediente de naturaliza\u00e7\u00e3o. In: BAVARESCO, A.; PONTEL, E.; TAUCHEN, J. (orgs). <em>Cordeiro de Deus<\/em>. Festscrift em homenagem a Luiz Carlos Susin. Porto Alegre: Funda\u00e7\u00e3o F\u00eanix, 2019b. p. 481-488.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Para uma maior compreens\u00e3o da genealogia dos \u201cestudos decoloniais\u201d e sua rela\u00e7\u00e3o com os \u201cestudos p\u00f3s-coloniais\u201d e tamb\u00e9m com os \u201cestudos subalternos\u201d, ver MELLA, 2016, p. 442-448; BALLESTRIN, 2013. Constatamos, n\u00e3o raras vezes, o uso indiscriminado dos prefixos \u201cp\u00f3s-\u201d e \u201cde-\u201d, talvez pela car\u00eancia de maiores refer\u00eancias com respeito a esclarecimentos terminol\u00f3gicos que, para al\u00e9m de mero jogo de palavras, s\u00e3o introduzidos com o fito de delimitar o estatuto epistemol\u00f3gico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o: o que se entende, aqui, por viragem? 1 Viragem hist\u00f3rica: a \u201chist\u00f3ria\u201d como horizonte das teologias do s\u00e9culo XX 2 Viragem social: o \u201creverso da hist\u00f3ria\u201d como cen\u00e1rio das teologias da liberta\u00e7\u00e3o 3 Viragens rec\u00edprocas e simult\u00e2neas: ecol\u00f3gica, intercultural, decolonial Conclus\u00e3o: Que tipo de rela\u00e7\u00e3o vigoraria entre as distintas viragens? Introdu\u00e7\u00e3o: o que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-2028","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2028","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2028"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2028\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2408,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2028\/revisions\/2408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}