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{"id":2014,"date":"2020-12-31T12:10:08","date_gmt":"2020-12-31T14:10:08","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2014"},"modified":"2021-02-10T15:57:35","modified_gmt":"2021-02-10T17:57:35","slug":"musica-ritual-crista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2014","title":{"rendered":"M\u00fasica Ritual Crist\u00e3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 A m\u00fasica como express\u00e3o da vida humana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A m\u00fasica na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 O \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d e o \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 Os \u201clouvores\u201d do Senhor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 Cantores e instrumentistas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A m\u00fasica ritual crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 A m\u00fasica como rito<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 Repert\u00f3rio lit\u00fargico<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.3 Crit\u00e9rios para a escolha do repert\u00f3rio lit\u00fargico<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A t\u00edtulo de conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dada a amplitude do tema em quest\u00e3o, optamos por abord\u00e1-lo sob tr\u00eas eixos, a saber: 1) a m\u00fasica como express\u00e3o da vida humana; 2) a m\u00fasica na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3; 3) a m\u00fasica ritual crist\u00e3. Optamos, igualmente, pelo uso do termo \u201cm\u00fasica ritual\u201d para designar aquela m\u00fasica ligada aos ritos dos diversos povos e culturas, e \u201cm\u00fasica ritual crist\u00e3\u201d para a m\u00fasica utilizada na liturgia crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 A m\u00fasica como express\u00e3o da vida humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde sua origem, a vida humana \u00e9 povoada de sons. A experi\u00eancia da escuta dos primeiros sons remonta ao seio materno. No mundo intrauterino, o novo ser \u00e9 gestado num ambiente potencialmente sonoro, a come\u00e7ar pelos sons advindos do pr\u00f3prio corpo de sua genitora e da reverbera\u00e7\u00e3o de outros, provenientes do mundo exterior. Ap\u00f3s o nascimento, o rec\u00e9m-nascido vai, aos poucos, ampliando sua capacidade de escuta, a partir dos m\u00faltiplos sons vindos do novo mundo que o cerca: da natureza em si e daqueles produzidos pelos humanos. \u00c9 mediante essa escuta que a crian\u00e7a, de forma gradativa, reage e emite seus pr\u00f3prios sons.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A m\u00fasica \u00e9 resultante da \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d de sons, desde sua forma mais elementar at\u00e9 complexas estruturas, envolvendo instrumentos musicais e a voz humana. Ali\u00e1s, pode-se afirmar que a origem da m\u00fasica se confunde com a g\u00eanese do ser humano e, igualmente, assegurar que ela exerce extraordin\u00e1rio poder sobre os humanos. Esse poder \u00e9 capaz de influenciar comportamentos, de transform\u00e1-los positiva ou negativamente e transport\u00e1-los de um extremo a outro, a ponto de converter tristeza em alegria, agita\u00e7\u00e3o em serenidade, desespero em esperan\u00e7a&#8230; e vice-versa. \u00c9 prov\u00e1vel que a c\u00e9lebre \u201cclassifica\u00e7\u00e3o\u201d dos modos gregorianos, de Ad\u00e3o de Fulda (\u20201490), tenha a ver com isso:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Omnibus est primus, sed alter est tristibus aptus; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>tertius iratus, quartus dicitur fieri blandus; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>quintum da laetis, sextum pietate probatis; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>septimus est iuvenum, sed postremus sapientum.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(O primeiro se presta a todos os sentimentos, o segundo para sentimentos tristes;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o terceiro para a ira, o quarto tem car\u00e1ter lisonjeiro;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o quinto \u00e9 alegre, o sexto \u00e9 para devotos,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o s\u00e9timo \u00e9 dos jovens, mas o oitavo \u00e9 dos s\u00e1bios.)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro prov\u00e9rbio medieval, igualmente, reza:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Primus gravis, secundus tristis; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>tertius misticus, quartus harmonicus; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>quintus laetus, sextus devotus; <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>septimus angelicus, octavus perfectus. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(O primeiro modo \u00e9 s\u00e9rio, o segundo triste,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o terceiro m\u00edstico, o quarto harm\u00f4nico,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o quinto alegre, o sexto devoto,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">o s\u00e9timo ang\u00e9lico, o oitavo perfeito.)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, a m\u00fasica acompanha as pessoas, em circunst\u00e2ncias diversas da vida, como no lazer, no trabalho, na terapia ocupacional e medicinal, na festa, no luto&#8230; Contudo, a qualidade dessa \u201cpresen\u00e7a\u201d e o grau de intensidade em que esta ou aquela m\u00fasica atinge cada pessoa depender\u00e3o da \u00edndole cultural de cada povo ou grupo, inclusive de suas disposi\u00e7\u00f5es interiores e exteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito religioso, a m\u00fasica ocupa lugar privilegiado, a ponto de exercer um tipo de \u201cpoder espiritual\u201d. Para muitas tradi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de favorecer o contato direto com a divindade, ela possui atributos divinos e, por isso mesmo, \u00e9 capaz de levar as pessoas ao transe, ao \u00eaxtase, \u00e0 hipnose. J\u00e1 em tempos remotos, tinha-se tamb\u00e9m a consci\u00eancia de que a m\u00fasica era possuidora de uma virtude m\u00e1gica, capaz de dispor, a favor ou contra a pessoa, esp\u00edritos bons ou maus. Disso se explica a predile\u00e7\u00e3o dos povos antigos pela m\u00fasica nos seus cultos e sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, vale o alerta de que o conceito \u201cm\u00fasica\u201d deve ser entendido, aqui, em sentido amplo, abarcando \u201cdesde os gritos ou os ru\u00eddos mais ou menos r\u00edtmicos, conseguidos com a percuss\u00e3o das m\u00e3os sobre frutas ou troncos vazios, at\u00e9 a m\u00fasica mais art\u00edstica com melodias cantadas ao som de instrumentos musicais mais elaborados\u201d (BASURKO, 2005, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A m\u00fasica na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os diversos povos, o de Israel se destaca como um povo eminentemente musical. A Sagrada Escritura \u00e9 a melhor refer\u00eancia disso. Nesse livro sagrado, encontram-se abundantes refer\u00eancias \u00e0 m\u00fasica, tanto ligada \u00e0 voz humana quanto aos diversos instrumentos musicais. \u201cA m\u00fasica instrumental, unida \u00e0 dan\u00e7a, \u00e0 poesia e ao canto, colaborou com a constante renova\u00e7\u00e3o do Povo de Deus, memorizando o conte\u00fado de sua Hist\u00f3ria Sagrada\u201d (MONRABAL, 2006, p. 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00edtulo de curiosidade, vale dizer que a palavra \u201ccantar\u201d, bem como suas derivadas, \u00e9 tida como a mais utilizada na B\u00edblia: no Antigo Testamento, ocorre 309 vezes; no Novo Testamento, 36 vezes (cf. RATZINGER, 2019, p. 121). Disso se deduz que, quando o ser humano se prop\u00f5e entrar em contato com a divindade, o simples falar \u00e9 insuficiente. O canto \u00e9 express\u00e3o mais eloquente para o di\u00e1logo amoroso das criaturas com seu criador: \u201cEu te louvarei entre os povos, Senhor, a ti cantarei salmos entre as na\u00e7\u00f5es, pois a tua miseric\u00f3rdia elevou-se at\u00e9 os c\u00e9us e at\u00e9 as nuvens, a tua fidelidade\u201d (Sl 57,10-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.1 O \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d e o \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por acaso, a experi\u00eancia fundante da f\u00e9 de Israel \u2014 a travessia do Mar Vermelho \u2014 foi celebrada com um \u201cc\u00e2ntico\u201d (Ex 15,1-18). Esse \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d, al\u00e9m de ser paradigma da experi\u00eancia libertadora de Deus vivida pelo povo da Primeira Alian\u00e7a, \u00e9, tamb\u00e9m, a primeira refer\u00eancia do cantar na Sagrada Escritura. Desse louvor origin\u00e1rio desabrocharam os salmos e demais c\u00e2nticos b\u00edblicos, poemas que, al\u00e9m de fazer alus\u00f5es a instrumentos musicais e aos diversos modos de cant\u00e1-los, expressam, sobretudo, experi\u00eancias de vida convertidas em ora\u00e7\u00e3o e canto: luto, lamento ou acusa\u00e7\u00e3o, temor, esperan\u00e7a, confian\u00e7a, gratid\u00e3o, alegria etc. \u201cOs salmos brotam, muitas vezes, de experi\u00eancias muito pessoais de dor e de realiza\u00e7\u00e3o, depois conduzem, contudo, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o comum de Israel, assim como se nutrem do fundamento comum das a\u00e7\u00f5es j\u00e1 realizadas por Deus\u201d (RATZINGER, 2019, p. 123). N\u00e3o sem raz\u00e3o, alguns Padres da Igreja veem nesses hinos o resumo de toda Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d (Ex 15,1-18) \u00e9 paradigma para o povo da Primeira Alian\u00e7a, o \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d (Ap 15,2-4) \u00e9, igualmente, paradigm\u00e1tico para o povo na \u201cnova e eterna Alian\u00e7a\u201d. Na verdade, esses dois c\u00e2nticos constituem uma moldura que abarca toda a Sagrada Escritura. Da\u00ed, seu uso regular na liturgia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tradi\u00e7\u00e3o judaica, o \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d era entoado na ora\u00e7\u00e3o matinal do <em>Shabat,<\/em> depois do sacrif\u00edcio vespertino e, por suposi\u00e7\u00e3o, na liturgia pascal, de forma especial no s\u00e9timo dia da P\u00e1scoa (cf. BASURKO, 2005, p. 180). A raz\u00e3o primordial desse cantar consiste na din\u00e2mica do memorial que, al\u00e9m de atualizar a experi\u00eancia do evento fundante da liberta\u00e7\u00e3o de Israel da servid\u00e3o do Egito, inclui a perspectiva futura, quando se cantar\u00e1 o \u201ccanto novo\u201d, nos dias do Messias. Na liturgia crist\u00e3, esse c\u00e2ntico \u00e9 entoado na Vig\u00edlia Pascal, logo ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da terceira leitura (Ex 14,15-15,1), e na Liturgia das Horas, no Of\u00edcio de <em>Laudes<\/em> do s\u00e1bado, da primeira semana do salt\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d, por sua vez, aparece relacionado com o \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vi como que um mar de vidro misturado com fogo; e todos aqueles que sa\u00edram vitoriosos do confronto com a fera, com a sua est\u00e1tua e com o n\u00famero do seu nome, estavam de p\u00e9 sobre o mar de vidro, tendo nas m\u00e3os harpas de Deus. Entoavam o c\u00e2ntico de Mois\u00e9s, o servo de Deus, e o c\u00e2ntico do Cordeiro: \u201cGrandes e admir\u00e1veis s\u00e3o as tuas obras, Senhor Deus, Todo-poderoso! Justos e verdadeiros s\u00e3o os teus caminhos, \u00f3 Rei das na\u00e7\u00f5es! Quem n\u00e3o temer\u00e1, Senhor, e n\u00e3o glorificar\u00e1 o teu nome? S\u00f3 tu \u00e9s santo! Todas as na\u00e7\u00f5es vir\u00e3o prostrar-se diante de ti, porque tuas justas decis\u00f5es se tornaram manifestas\u201d (Ap 15,2-4).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00edtulo de exemplo, apontaremos algumas correspond\u00eancias significativas entre os dois c\u00e2nticos, a saber: a) a imagem do \u201cmar de vidro misturado com fogo\u201d, alus\u00e3o ao Mar Vermelho do \u00caxodo; b) os protagonistas \u201cvitoriosos do confronto com a fera\u201d, alus\u00e3o aos que atravessaram o Mar Vermelho a p\u00e9 enxuto, enquanto os eg\u00edpcios foram tragados pelas \u00e1guas; c) as imagens (tipol\u00f3gicas) de \u201cMois\u00e9s\u201d e do \u201cCordeiro\u201d; d) os gestos lit\u00fargicos: \u201cde p\u00e9\u201d, \u201ccantavam&#8230;\u201d, comuns nos respectivos relatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, pode-se afirmar que o \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d \u00e9 um sum\u00e1rio do \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d, bem como de toda a Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, uma vez que seu texto se limita a cantar, genericamente, as \u201cgrandes e admir\u00e1veis obras do Todo-poderoso\u201d e a reafirmar que os caminhos de Deus s\u00e3o \u201cjustos e verdadeiros\u201d e que suas \u201cjustas decis\u00f5es se tornaram manifestas\u201d. E mais: o \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d, \u00e9, na verdade, o \u201cc\u00e2ntico novo\u201d que trouxe a reden\u00e7\u00e3o definitiva. \u201c\u00c9 a resposta nova admirativa diante da novidade da Jerusal\u00e9m celeste, onde aquele que est\u00e1 sentado em seu trono fez novas todas as coisas\u201d (BASURKO, 2005, p. 192). O \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d \u00e9 entoado na Liturgia das Horas, no of\u00edcio vespertino da sexta-feira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.2 Os \u201clouvores\u201d do Senhor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os salmos e demais c\u00e2nticos b\u00edblicos constituem um patrim\u00f4nio memorial da ora\u00e7\u00e3o de Israel. Nesses \u201clouvores\u201d est\u00e3o expressos sentimentos que brotam das profundezas do cora\u00e7\u00e3o humano, perante aquele que, desde sempre, se manifesta como criador, libertador, protetor, defensor&#8230; Os diversos g\u00eaneros (louvor, a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, s\u00faplica&#8230;) nos permitem entrever o estado da \u201calma sedenta\u201d que procura o Deus vivo (Sl 42\/41,1). O salt\u00e9rio guarda<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">um mist\u00e9rio, para que as gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o cessem de voltar a esse canto, de se purificar nessa fonte, de interromper cada vers\u00edculo, cada palavra da antiga prece, como se seus ritmos tivessem a pulsa\u00e7\u00e3o dos mundos. Pois o mundo nele se reconheceu. Como narra a hist\u00f3ria de todos, ele tornou-se o livro de todos, infatig\u00e1vel e perspicaz embaixador da palavra de IHVH junto aos povos da terra. Tamb\u00e9m a\u00ed ele se insinuou em toda parte: em todos os batismos, em todos os casamentos, em todos os enterros, em todas as igrejas. Est\u00e1 presente em todas as festas e em todos os lutos de quase todas as na\u00e7\u00f5es (CHOURAQUI, 1998, p. 13).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os, desde cedo, lan\u00e7aram m\u00e3o desses poemas sagrados. Nossos pais e m\u00e3es na f\u00e9 se inserem na ora\u00e7\u00e3o de Israel, conscientes de estarem entoando um \u201ccanto novo\u201d, pois<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Esp\u00edrito Santo, que inspirou Davi a cantar e a rezar, o faz falar de Cristo, ou melhor, o faz tornar boca de Cristo e, desse modo, n\u00f3s, nos salmos, mediante Cristo, falamos ao Pai no Esp\u00edrito Santo. Esta interpreta\u00e7\u00e3o conjuntamente pneumatol\u00f3gica e cristol\u00f3gica dos Salmos, por\u00e9m, n\u00e3o se refere apenas ao texto, mas envolve o elemento musical: \u00e9 o Esp\u00edrito Santo que ensina a cantar primeiro a Davi e depois, por meio dele, a Israel e \u00e0 Igreja (RATZINGER, 2019, p. 124).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sobretudo na Liturgia das Horas que esses \u201clouvores\u201d revelam seu poder de elevar as mentes, de despertar os cora\u00e7\u00f5es para os mais profundos afetos, bem como de propiciar o consolo, a fortaleza e o \u00e2nimo. \u201cQuem salmodia sabiamente ir\u00e1 percorrendo vers\u00edculo por vers\u00edculo, meditando um ap\u00f3s outro, sempre disposto em seu cora\u00e7\u00e3o a responder como exige o Esp\u00edrito que inspirou o salmista e assistir\u00e1 igualmente as pessoas devotas, dispostas a receber a sua gra\u00e7a\u201d (IGLH n. 104). A esse duplo movimento de recita\u00e7\u00e3o e de escuta, Goffredo Boselli chama de \u201cintelig\u00eancia espiritual\u201d ou \u201cintelig\u00eancia dos sentidos\u201d. Essa \u201cintelig\u00eancia\u201d pressup\u00f5e uma equilibrada integra\u00e7\u00e3o dos sentidos na a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, pois estes s\u00e3o uma \u201cvia privilegiada\u201d para se chegar ao sentido, ao conhecimento do mist\u00e9rio (cf. BOSELLI, 2019, p. 155-159).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3 Cantores e instrumentistas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u201cminist\u00e9rios\u201d de cantores e instrumentistas, em Israel, advinham da tribo de Levi e eram exercidos de acordo com grupos familiares, como o que vem narrado no Primeiro Livro das Cr\u00f4nicas:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Davi ordenou aos filhos dos levitas que designassem dentre seus irm\u00e3os os cantores, para fazerem ressoar sua alegria com instrumentos musicais, harpas, c\u00edtaras e c\u00edmbalos. [&#8230;] Os cantores Hem\u00e3, Asaf e Etan tocavam c\u00edmbalos de bronze. Zacarias, Oziel, Semiramot, Jaiel, Ani, Eliab, Maasias e Bana\u00edas tocavam em ala\u00fades de tom soprano. Matatias, Elifalu, Macenias, Obed-Edom, Jeiel e Azazias faziam o acompanhamento em c\u00edtaras de oitava. Conenias, chefe dos levitas encarregados, homem entendido, dirigia o of\u00edcio. [&#8230;] Os sacerdotes Sebanias, Josaf\u00e1, Natanael, Amasai, Zacarias, Bana\u00edas e Elieser tocavam trombetas diante da arca de Deus (1Cr 15,16.19-22.24).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inclusive alguns salmos conservam as indica\u00e7\u00f5es dessas fam\u00edlias: \u201cAsaf\u201d (Sl 50\/49; 73\/72-83\/82); \u201cCor\u00e9\u201d (Sl 42\/41; 44\/43-49\/48); \u201cEtan\u201d (89\/88) etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro significativo relato escritur\u00edstico deixa-nos entrever a beleza e a dignidade do servi\u00e7o lit\u00fargico-musical prestado no Templo de Jerusal\u00e9m:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os cantores lev\u00edticos, Asaf, Hem\u00e3, Iditun, com seus filhos e seus irm\u00e3os, l\u00e1 estavam, vestidos de linho, com c\u00edmbalos, harpas e c\u00edtaras, do lado oriental do altar, junto com cento e vinte sacerdotes que tocavam as trombetas. Quando todos unidos se puseram a tocar e a cantar, ouvia-se como uma \u00fanica voz louvando e agradecendo ao Senhor: \u201cSim, ele \u00e9 bom, sua miseric\u00f3rdia \u00e9 para sempre\u201d (2Cr 5, 12-13).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que a m\u00fasica instrumental estava intimamente ligada aos sacrif\u00edcios, ela perdeu sua raz\u00e3o de ser com a destrui\u00e7\u00e3o do Templo de Jerusal\u00e9m. Tal silenciamento era express\u00e3o de luto por aquela trag\u00e9dia. Agregada a essa motiva\u00e7\u00e3o, uma \u201ccorrente espiritualista\u201d no juda\u00edsmo \u2014 existente j\u00e1 antes da queda do Templo \u2014 desprezava o uso de instrumentos musicais no culto. Dentre os principais mestres dessa doutrina do \u201cculto espiritual\u201d, destaca-se Filon de Alexandria (15 aC-45 dC). N\u00e3o existindo mais o Templo, a fun\u00e7\u00e3o dos levitas se reduz a dois privil\u00e9gios, no culto sinagogal: ser convocado para fazer uma leitura e servir nas ablu\u00e7\u00f5es dos sacerdotes antes de recitar a b\u00ean\u00e7\u00e3o da congrega\u00e7\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o de \u201ccantor\u201d continua sendo muito apreciada, por\u00e9m qualquer pessoa poder\u00e1 exerc\u00ea-la, desde que tenha uma bela voz (cf. MONRABAL, 2006, p. 24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, nos sete primeiros s\u00e9culos, praticamente n\u00e3o se usavam instrumentos musicais na liturgia. Na literatura patr\u00edstica, por exemplo, encontramos total rejei\u00e7\u00e3o ao seu uso. Os instrumentos eram vistos pelos Padres como s\u00edmbolo da vida pag\u00e3, estigmatizada pela idolatria e pela imoralidade. Inclusive a \u201cren\u00fancia ao diabo e a todas as suas obras\u201d, que os catec\u00famenos deviam fazer na fonte batismal, inclu\u00eda tamb\u00e9m a ren\u00fancia aos \u201cespet\u00e1culos e cantos\u201d dos pag\u00e3os (cf. BASURKO, 2005, p. 127-128).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo desaprovando o uso de instrumentos musicais na liturgia, os Padres nos legaram uma expressiva e edificante literatura (aleg\u00f3rica) sobre os instrumentos musicais. No interior dessas alegorias, escondem-se aspectos espirituais e doutrinais. O alvo direto dessa literatura \u00e9 o mundo pag\u00e3o e suas amea\u00e7as \u00e0 integridade da f\u00e9. Dentre as in\u00fameras imagens aleg\u00f3ricas sobre os instrumentos musicais em geral, usadas pelos Padres, destacamos as da <em>c\u00edtara<\/em> e da<em> lira.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem da c\u00edtara \u2014 relacionada com a atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito na assembleia que canta \u2014 se processa da seguinte forma: assim como as diferentes cordas da c\u00edtara que, gra\u00e7as \u00e0 habilidade do tocador, produzem uma melodia harmoniosa, tamb\u00e9m a Igreja (as cordas vivas), dirigida pelo Esp\u00edrito Santo, une sua voz na mais perfeita harmonia. Em outras palavras, a fun\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito \u00e9 unificar a comunidade que canta. J\u00e1 a figura de Cristo aparece como o m\u00fasico que realiza a uni\u00e3o art\u00edstica dos sons das diversas cordas da <em>lira<\/em> e faz subir at\u00e9 o Pai um maravilhoso concerto. Muitas vezes o pr\u00f3prio Cristo vem representado como um instrumento de Deus, e a <em>c\u00edtara,<\/em> com a sua paix\u00e3o: as cordas estendidas sobre a madeira nesse instrumento musical s\u00e3o tidas como imagem do corpo de Cristo estendido sobre o madeiro da cruz (cf. BASURKO, 2005, p. 113-116).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Padres s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que a voz humana \u00e9 o instrumento mais perfeito para o louvor a Deus, e se esfor\u00e7am em convencer os fi\u00e9is \u2014 na sua maioria neoconvertidos do mundo pag\u00e3o \u2014 que o <em>canto puro<\/em> \u00e9 superior ao som de qualquer instrumento musical feito por m\u00e3os humanas. \u201cO povo de Deus, reunido no templo para o canto de hinos e salmos, \u00e9 agora a c\u00edtara espiritual que substitui e supera os instrumentos usados pelo povo judeu\u201d. Eus\u00e9bio de Cesareia chega a dizer que \u201csuperior a qualquer salt\u00e9rio material \u00e9 a multid\u00e3o que, estendida por toda o orbe, celebra ao Deus que est\u00e1 sobre todas as coisas, com um mesmo canto e com uma mesma harmonia\u201d. Para Eus\u00e9bio, o cantar \u00e9 superior ao salmodiar. Este \u00faltimo ainda carece de <em>a\u00e7\u00f5es corporais<\/em> (do uso de instrumentos como o salt\u00e9rio), enquanto o cantar \u00e9 <em>mais nobre e mais espiritual <\/em>\u2014 desprovido de suporte instrumental \u2014, mais em conson\u00e2ncia com a contempla\u00e7\u00e3o e a teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, n\u00e3o s\u00f3 a voz, mas o ser humano como um todo \u00e9, para os Padres, o mais perfeito instrumento musical, como bem resume Santo Agostinho: \u201cV\u00f3s sois a trombeta, o salt\u00e9rio, a c\u00edtara, o t\u00edmpano, o coro, as cordas e o \u00f3rg\u00e3o\u201d. Portanto, para os santos Padres, os instrumentos eram considerados no sentido \u201cespiritual\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale lembrar que, mesmo depois da introdu\u00e7\u00e3o gradativa de instrumentos musicais no culto, persistia certa ambiguidade a respeito do que era e do que n\u00e3o era l\u00edcito se fazer em mat\u00e9ria de m\u00fasica. Ali\u00e1s, esse dilema se arrastou por todo o segundo mil\u00eanio. Ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Pio X, em seu <em>Motu Proprio<\/em> <em>Tra le Sollecitudini <\/em>(1903), admite o \u00f3rg\u00e3o na Igreja; tolera alguns instrumentos de sopro; pro\u00edbe o piano, o tambor, o bombo, pratos, campainhas e semelhantes (cf. TLS n. 14s). Pio XII, na enc\u00edclica <em>Musicae Sacrae Disciplina <\/em>(1956), elogia o uso do \u00f3rg\u00e3o e admite o uso de violinos e outros instrumentos de arco, todavia continua reticente quanto ao uso de instrumentos tidos como \u201crumorosos\u201d e \u201cbarulhentos\u201d que s\u00e3o \u201cdestoantes do rito sagrado e da gravidade do lugar\u201d (cf. MSD n. 28-29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as pend\u00eancias sobre o uso dos instrumentos musicais na liturgia parecem ter chegado a termo com a reforma do Conc\u00edlio Vaticano II. A Constitui\u00e7\u00e3o <em>Sacrosanctum Concilium<\/em> (1963), al\u00e9m de classificar o \u201c\u00f3rg\u00e3o de tubos\u201d como o instrumento mais apropriado para a liturgia, admite que outros instrumentos possam ser igualmente usados, desde que haja o \u201cconsentimento da autoridade competente\u201d e, dependendo da regi\u00e3o, que estes sejam adaptados \u00e0s circunst\u00e2ncias e aos costumes do lugar (cf. SC n. 120).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Instru\u00e7\u00e3o <em>Musicam Sacram<\/em> (1967), al\u00e9m de reconhecer a utilidade e a import\u00e2ncia dos instrumentos musicais na liturgia, apresenta-nos tamb\u00e9m suas principais fun\u00e7\u00f5es: sustentar o canto, facilitar a participa\u00e7\u00e3o e criar a unidade da assembleia. Adverte-nos que o som dos instrumentos jamais dever\u00e1 cobrir as vozes, de sorte que dificulte a compreens\u00e3o dos textos. E mais: estes devem \u201cse calar quando o sacerdote ou o ministro pronuncia em voz alta algum texto, por for\u00e7a de sua fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria\u201d. Quanto aos solos instrumentais, a mesma Instru\u00e7\u00e3o \u2014 tomando como referencial a liturgia eucar\u00edstica \u2014 prev\u00ea quatro momentos adequados para esse tipo de m\u00fasica: no in\u00edcio, durante a prociss\u00e3o de entrada do presidente e demais ministros; enquanto se faz a prociss\u00e3o e a prepara\u00e7\u00e3o das oferendas; na comunh\u00e3o e no final da missa (cf. MS n. 62-65).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 m\u00fasica puramente vocal, pouco se sabe como esta era executada nos tr\u00eas primeiros s\u00e9culos da era crist\u00e3. Quanto aos corais, seu surgimento remonta ao s\u00e9culo IV. Eram formados de homens, sobretudo de monges que, inicialmente, ficavam agrupados nas primeiras filas da assembleia. N\u00e3o se trata, ainda, de cantores especializados, mas de pessoas que auxiliavam o canto da comunidade, executando aquelas partes mais dif\u00edceis de entoa\u00e7\u00e3o dos salmos, hinos, aclama\u00e7\u00f5es, ladainhas e respostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No intuito de difundir o canto gregoriano em toda a Europa, aparecem, por volta do s\u00e9culo VII, as chamadas <em>Scholae Cantorum<\/em>, que, na realidade, eram coros de meninos e de cl\u00e9rigos altamente especializados. Isto se fez necess\u00e1rio porque o canto se tornara mais rebuscado e de dif\u00edcil execu\u00e7\u00e3o. Consequentemente, os corais passaram a monopolizar o canto lit\u00fargico, enquanto o povo se contentava na condi\u00e7\u00e3o de ouvinte da \u201cdivina m\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa situa\u00e7\u00e3o se agravou ainda mais com o surgimento da polifonia vocal cl\u00e1ssica, no in\u00edcio do segundo mil\u00eanio. A partir de ent\u00e3o, gradativamente, a m\u00fasica da Igreja latina foi se confundindo com a m\u00fasica de concerto, atingindo seu \u00e1pice nos s\u00e9culos XVIII e XIX. A separa\u00e7\u00e3o entre coral e assembleia se deu de tal forma que nas igrejas n\u00e3o podia faltar o \u201ccoro\u201d \u2014 lugar elevado normalmente por cima do <em>hall<\/em> de entrada do templo, reservado aos m\u00fasicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reforma lit\u00fargica do Conc\u00edlio Vaticano II n\u00e3o aboliu o coral, apenas estabeleceu crit\u00e9rios claros quanto ao seu minist\u00e9rio na assembleia lit\u00fargica. Um coral, bem formado e orientado, poder\u00e1 prestar um importante servi\u00e7o \u00e0 assembleia, exercendo um minist\u00e9rio m\u00faltiplo, seja refor\u00e7ando o canto lit\u00fargico da assembleia, em un\u00edssono, ou enriquecendo as melodias executando arranjos a mais vozes. Por exemplo: as <em>formas lit\u00e2nicas<\/em> do \u201cSenhor, tende piedade de n\u00f3s\u201d, do \u201cCordeiro de Deus\u201d; ou ainda a <em>forma antifonal<\/em> (coro e assembleia executando um mesmo canto, de forma alternada) s\u00e3o meios eficazes de integra\u00e7\u00e3o entre coro e assembleia. Al\u00e9m dessas possibilidades, o coral tamb\u00e9m poder\u00e1 entoar uma pe\u00e7a, ou <em>motete<\/em> durante a prociss\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o das oferendas, durante ou ap\u00f3s a comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sempre oportuno lembrar que alguns cantos, em princ\u00edpio, nunca deveriam ser executados somente pelo coral, como o \u201cGl\u00f3ria\u201d e o \u201cSanto\u201d. Pelo fato de esses hinos pertencerem \u00e0 comunidade toda, eventuais arranjos a vozes para coro nunca deveriam impedir, mas antes, favorecer e refor\u00e7ar a participa\u00e7\u00e3o do povo. E quanto aos cantores e instrumentistas, seu melhor lugar \u00e9 pr\u00f3ximo aos demais fi\u00e9is, uma vez que seu minist\u00e9rio \u00e9 exercido em fun\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o da assembleia no mist\u00e9rio celebrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 A m\u00fasica ritual crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta se\u00e7\u00e3o, a abordagem sobre a m\u00fasica ritual crist\u00e3 se limitar\u00e1 a tr\u00eas pontos, a saber: a) a m\u00fasica como rito; b) o repert\u00f3rio lit\u00fargico; c) crit\u00e9rios para a escolha do repert\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.1 A m\u00fasica como rito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dito anteriormente (item 1), a m\u00fasica ocupa amplo espa\u00e7o na vida dos humanos e se presta a diversas utilidades. Contudo, h\u00e1 um tipo de m\u00fasica que possui car\u00e1ter pr\u00f3prio e se reveste de densidade \u201csacramental\u201d, quando executada numa a\u00e7\u00e3o ritual. Essa \u201cm\u00fasica ritual\u201d, nas diversas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, possui v\u00ednculo estreito com o \u201cmist\u00e9rio\u201d celebrado.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por m\u00fasica ritual, entendemos toda pr\u00e1tica musical e instrumental que, na celebra\u00e7\u00e3o, distingue-se das formas habituais, seja na palavra falada, seja nos sons ou barulhos ordin\u00e1rios. O dom\u00ednio sonoro assim designado amplia o que, normalmente, define-se como \u201cm\u00fasica\u201d ou como \u201ccanto\u201d em certos ambientes culturais (UNIVERSA LAUS, 1980, n. 1.4).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aldo Terrin, ao tecer considera\u00e7\u00f5es sobre a m\u00fasica ritual em civiliza\u00e7\u00f5es antigas, como Mesopot\u00e2mia, Egito, \u00cdndia v\u00e9dica, China&#8230;, aponta a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre m\u00fasica e rito, e ressalta, igualmente, o \u201cpoder\u201d que essa m\u00fasica exerce sobre as pessoas, nestes termos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">n\u00e3o \u00e9 mais uma m\u00fasica de acompanhamento, mas uma m\u00fasica que entra para \u201cpreformare\u201d e \u201cperformare\u201d o rito com objetivos <em>cat\u00e1rticos<\/em>, <em>apotropaicos<\/em>, <em>inici\u00e1ticos<\/em> e <em>entusi\u00e1sticos<\/em>. Nesses casos, a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 apenas parte integrante, mas parte constitutiva do rito, acompanhando-o quase que necessariamente, fazendo parte da sua ess\u00eancia. Nesse contexto, pode-se dizer que o rito desliza para o fato musical e quase que se confunde com ele (TERRIN, 2004, p. 298).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, o mesmo autor nos previne de que n\u00e3o se trata de qualquer m\u00fasica, mas de uma aut\u00eantica \u201cm\u00fasica ritual\u201d. Esta, por sua vez, deve adequar-se ao todo simb\u00f3lico do rito, funcionando como seu apoio e seu coment\u00e1rio. Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 o rito que, em virtude de sua pr\u00f3pria natureza, deve apropriar-se de uma particular estrutura musical. Uma vez que o rito n\u00e3o comporta elementos estranhos \u00e0 sua natureza, a m\u00fasica ali utilizada jamais dever\u00e1 ser arbitr\u00e1ria ou aut\u00f4noma (cf. TERRIN, p. 311-312).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma esteira, se enquadra a m\u00fasica ritual crist\u00e3. Esta, por sua vez, expressa o mist\u00e9rio pascal de Cristo, eixo axial da liturgia crist\u00e3. Joseph Gelineau recorda que a Igreja, desde seus prim\u00f3rdios, buscou solucionar quest\u00f5es relacionadas \u00e0 admiss\u00e3o ou n\u00e3o desta ou daquela express\u00e3o da arte musical emergente, no seu culto. Ao longo da hist\u00f3ria, tr\u00eas princ\u00edpios se tornaram basilares: a) a m\u00fasica n\u00e3o deve servir a dois senhores, ou seja, o mundo ou os dem\u00f4nios de um lado, e o Deus de santidade do outro (princ\u00edpio moral); b) a m\u00fasica n\u00e3o deve recusar seu servi\u00e7o ao verdadeiro Deus e nunca servir-se a si mesma \u2014 arte pela arte (princ\u00edpio teol\u00f3gico); c) a m\u00fasica n\u00e3o deve desorientar os fi\u00e9is (princ\u00edpio pastoral), ou seja, tornar-se um corpo estranho, no conjunto da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica (cf. GELINEAU, 1968, p. 54).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buscando vincular exemplos da hist\u00f3ria da m\u00fasica ritual crist\u00e3 a cada princ\u00edpio acima, J. Gelineau destaca: a) a irredutibilidade da Igreja, nos sete primeiros s\u00e9culos, quanto ao n\u00e3o uso de instrumentos musicais na liturgia. Estes eram tidos como s\u00edmbolo do paganismo; b) o embate advindo do \u201cmundo das belas artes\u201d \u2014 do belo pelo belo \u2014, desvinculado da \u201cest\u00e9tica lit\u00fargica\u201d; c) algumas formas de polifonia que tornavam o texto lit\u00fargico inintelig\u00edvel, sobressaindo apenas o complexo jogo das vozes. Essa quest\u00e3o foi discutida, inclusive, no Conc\u00edlio de Trento (cf. IBID p. 54-61).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, nada deve dificultar a participa\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is no mist\u00e9rio celebrado. Como bem nos ensina o Conc\u00edlio Vaticano II, a a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica \u00e9 a\u00e7\u00e3o de Cristo e de seu corpo, a Igreja, realizada mediante sinais sens\u00edveis que significam e realizam a salva\u00e7\u00e3o (cf. SC n. 7). A m\u00fasica ritual, por sua vez, jamais poder\u00e1 causar estranheza nos fi\u00e9is ou torn\u00e1-los espectadores passivos ou indiferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 Repert\u00f3rio lit\u00fargico<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passadas cinco d\u00e9cadas p\u00f3s-Conc\u00edlio Vaticano II, a reflex\u00e3o teol\u00f3gico-lit\u00fargico-musical tende a direcionar seu foco para a quest\u00e3o do \u201crepert\u00f3rio lit\u00fargico\u201d. Isso se faz necess\u00e1rio perante a avalanche de novas composi\u00e7\u00f5es, surgidas nesse per\u00edodo, e porque, infelizmente, nem tudo pode ser aproveitado para o uso lit\u00fargico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repert\u00f3rio \u00e9, portanto, o conjunto de cantos que cada comunidade escolhe para uso nas celebra\u00e7\u00f5es, ao longo do ano lit\u00fargico. Pressup\u00f5e uma escolha objetiva e cuidadosa, respaldada por um c\u00f3digo de crit\u00e9rios, oriundos da pr\u00f3pria natureza da liturgia. A ideia de repert\u00f3rio est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 de rito. O rito, por sua pr\u00f3pria natureza, \u00e9 <em>repeti\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>mem\u00f3ria<\/em>, <em>consenso coletivo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sedimenta\u00e7\u00e3o de um repert\u00f3rio se d\u00e1 mediante a <em>repeti\u00e7\u00e3o<\/em>. A pedagogia intr\u00ednseca de repetir, em cada tempo ou festa, um repert\u00f3rio b\u00e1sico de cantos, leva os fi\u00e9is a uma viv\u00eancia espiritual mais intensa do mist\u00e9rio celebrado gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o renovadora do Esp\u00edrito Santo. Todavia, esse princ\u00edpio n\u00e3o descarta a possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o dos repert\u00f3rios que, naturalmente, dever\u00e1 acontecer na caminhada de cada comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um repert\u00f3rio b\u00edblico-lit\u00fargico que permanece vivo na mem\u00f3ria dos fi\u00e9is, al\u00e9m de facilitar sua execu\u00e7\u00e3o como tal, tamb\u00e9m resgata a dimens\u00e3o de <em>memorial<\/em> \u2014 essencial para a liturgia. A ordem de itera\u00e7\u00e3o dada por Jesus (\u201cfazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d), atualizada em cada a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, tamb\u00e9m se aplica \u00e0 m\u00fasica ritual. Esta se p\u00f5e a servi\u00e7o da recorda\u00e7\u00e3o dos fatos salv\u00edficos, um passado significativo que aflora nos acontecimentos, no hoje da comunidade crist\u00e3 e a projeta para o futuro, para a plena configura\u00e7\u00e3o ao corpo glorioso de Cristo. \u201cAssim, na liturgia crist\u00e3, a m\u00fasica ritual vem carregada de \u2018sacramentalidade\u2019: \u00e9 atua\u00e7\u00e3o transformadora de Deus em n\u00f3s, que nos faz participantes de sua vida divina, que aprofunda em n\u00f3s a vida pascal e nos mant\u00e9m no caminho do seguimento de Jesus\u201d (BUYST, 2008, p. 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O repert\u00f3rio lit\u00fargico tamb\u00e9m se sedimenta mediante <em>consenso coletivo<\/em>. No entanto, n\u00e3o conv\u00e9m que esse consenso se restrinja a gostos meramente subjetivos, mas a ele se deve agregar o car\u00e1ter objetivo da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na liturgia, a beleza de um canto ou de uma m\u00fasica n\u00e3o existe independentemente da celebra\u00e7\u00e3o, do local, do rito e da assembleia que os acolhe. Certamente, o canto e a m\u00fasica podem manifestar e engrandecer a verdade que uma assembleia vive. Mas o que importa \u00e9 o estado de escuta do canto desta assembleia, a disponibilidade que a embeleza e a abre para a beleza que adv\u00e9m (UNIVERSA LAUS, 2002, n. 2.8).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, todas as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas (sacramentos, sacramentais, ex\u00e9quias&#8230;) devem ter seu repert\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.3 Crit\u00e9rios para a escolha do repert\u00f3rio lit\u00fargico<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio conciliar de que a m\u00fasica ritual deve estar plenamente configurada \u00e0 <em>lex orandi<\/em>, como \u201cparte necess\u00e1ria ou integrante\u201d dos diversos ritos, tem por finalidade levar os fi\u00e9is \u00e0 participa\u00e7\u00e3o ativa e frutuosa no mist\u00e9rio celebrado. Tudo o mais vem corroborar isso: a beleza das formas, o perfeito \u201ccasamento\u201d entre texto e demais express\u00f5es musicais, a nobre simplicidade etc. A t\u00edtulo de s\u00edntese, apresentaremos alguns crit\u00e9rios para a escolha do repert\u00f3rio lit\u00fargico, quanto ao texto e quanto \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tradi\u00e7\u00e3o musical da Igreja, o texto sempre teve a primazia. A melodia e demais express\u00f5es musicais, por sua vez, dever\u00e3o explicit\u00e1-lo e nunca obscurec\u00ea-lo. Isso pressup\u00f5e crit\u00e9rios objetivos, como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a)<em> Crit\u00e9rio b\u00edblico-lit\u00fargico. <\/em>Os textos \u201csejam tirados da Sagrada Escritura e das fontes lit\u00fargicas\u201d (SC 121). J. Gelineau sintetiza, de forma magistral, a aplica\u00e7\u00e3o desse crit\u00e9rio na tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja, nestes termos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da palavra b\u00edblica \u00e9 de onde vieram as melhores pe\u00e7as dos repert\u00f3rios latinos e orientais [&#8230;]. Mas, da palavra b\u00edblica recitada, memorizada, saboreada, meditada, repetida, proclamada, anunciada, cantada, sa\u00edram as salmodias, as respostas, as ant\u00edfonas breves ou longas; sobre este tronco s\u00f3lido, brotar\u00e3o depois os trop\u00e1rios e os hinos (GELINEAU, s.d., p. 68).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>b) Crit\u00e9rio da fun\u00e7\u00e3o ministerial.<\/em> A m\u00fasica ritual \u00e9 parte necess\u00e1ria ou integrante da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e ser\u00e1 tanto mais lit\u00fargica quanto mais intimamente estiver ligada \u00e0 a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, quer exprimindo mais suavemente a ora\u00e7\u00e3o, quer favorecendo a unanimidade, quer, enfim, dando maior solenidade aos ritos sagrados. Sua finalidade \u00e9 a gl\u00f3ria de Deus e a santifica\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is (cf. SC n. 112).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A funcionalidade ritual n\u00e3o pode ser encarada unicamente a partir do rito bruto (o significante). Ela implica tamb\u00e9m e sobretudo seus destinat\u00e1rios, a sensibilidade deles, a cultura, as disposi\u00e7\u00f5es, as rea\u00e7\u00f5es conscientes e inconscientes que eles t\u00eam. N\u00e3o basta que o salmo seja de forma responsorial para que ele tenha efetivamente resposta da assembleia \u00e0 Palavra. [&#8230;] Quando se \u00e9 realmente parte integrante, torna-se imposs\u00edvel isolar, num canto, o resultado sonoro da a\u00e7\u00e3o global em que est\u00e1 inserido. A est\u00e9tica de um canto lit\u00fargico n\u00e3o \u00e9 apenas a de um texto com sua m\u00fasica, mas a de toda a celebra\u00e7\u00e3o em que o canto interv\u00e9m (GELINEAU, 1968, p. 116-117).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>c) Crit\u00e9rio do \u201ctempo lit\u00fargico\u201d.<\/em> Este crit\u00e9rio possui estreita rela\u00e7\u00e3o com o anterior. Os tempos e festas do ano lit\u00fargico s\u00e3o parte integrante da a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. A m\u00fasica ritual, assim como os demais elementos que comp\u00f5em a celebra\u00e7\u00e3o, deve expressar a espiritualidade de cada tempo ou festa do calend\u00e1rio lit\u00fargico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>d) Crit\u00e9rio est\u00e9tico. <\/em>A m\u00fasica ritual privilegia a linguagem po\u00e9tica. Afinal, toda aut\u00eantica experi\u00eancia de ora\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, uma experi\u00eancia po\u00e9tica. Esta linguagem \u00e9 a que mais se ajusta ao car\u00e1ter simb\u00f3lico da liturgia. Portanto, n\u00e3o basta que seu conte\u00fado tenha inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Explicita\u00e7\u00f5es \u00f3bvias, redund\u00e2ncias, moralismos, intimismos e chav\u00f5es desqualificam a m\u00fasica ritual. A melodia, por sua vez, al\u00e9m de real\u00e7ar o sentido teol\u00f3gico lit\u00fargico-espiritual dos textos, deve ser acess\u00edvel \u00e0 grande maioria da assembleia. Todavia, vale o alerta de n\u00e3o confundir \u201cacess\u00edvel\u201d com banal, superficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>e) Crit\u00e9rio da originalidade. <\/em>A Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no ano de 1976, j\u00e1 havia alertado para a observa\u00e7\u00e3o deste crit\u00e9rio:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o aos textos, evitem cantos com letras adaptadas. Al\u00e9m de ferir os direitos do autor, tal adapta\u00e7\u00e3o, por si mesma, revela a inconveni\u00eancia do original que ser\u00e1 mentalmente evocado, evidenciando empobrecimento da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e desvirtuando o seu sentido (CNBB, 1976, n. 3.9).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo crit\u00e9rio se aplica \u00e0s demais express\u00f5es musicais: sejam evitadas adapta\u00e7\u00f5es de can\u00e7\u00f5es populares, trilhas de filmes e novelas etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>f) Crit\u00e9rio da incultura\u00e7\u00e3o lit\u00fargica.<\/em> A m\u00fasica ritual n\u00e3o pode prescindir da cultura musical do povo, de onde prov\u00eam os participantes da assembleia celebrante. A partir desse \u201cambiente\u201d cultural, os compositores dever\u00e3o buscar express\u00f5es musicais que melhor encaixem na espiritualidade de cada tempo ou festa do ano lit\u00fargico. A etnom\u00fasica religiosa pode ser uma preciosa fonte. Incultura\u00e7\u00e3o tem a ver com participa\u00e7\u00e3o. Por m\u00fasica ritual inculturada entende-se aquela que, como parte integrante da liturgia, expressa o mist\u00e9rio atrav\u00e9s da linguagem musical t\u00edpica de um povo. Assim, a m\u00fasica cumprir\u00e1, de forma mais eficaz, sua fun\u00e7\u00e3o mistag\u00f3gica de introduzir os fi\u00e9is na viv\u00eancia do mist\u00e9rio pascal de Cristo, uma vez que estes veem nessa m\u00fasica o \u201cjeito\u201d da sua pr\u00f3pria cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito da incultura\u00e7\u00e3o da m\u00fasica ritual, a Igreja na Am\u00e9rica Latina tem se esfor\u00e7ado na sedimenta\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rios lit\u00fargicos que melhor expressem as caracter\u00edsticas culturais de seus povos. No caso do Brasil, por exemplo, merecem destaque duas refer\u00eancias significativas: a) o <em>Hin\u00e1rio Lit\u00fargico <\/em>da CNBB, que cont\u00e9m amplo repert\u00f3rio para celebra\u00e7\u00f5es da eucaristia, da Palavra, dos demais sacramentos e sacramentais, abrangendo todo o ano lit\u00fargico; b) o <em>Of\u00edcio Divino das Comunidades,<\/em> que, desde 1988, tem sido um suporte valioso para as comunidades eclesiais celebrarem a Liturgia das Horas, mediante uma linguagem po\u00e9tica e musical populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A t\u00edtulo de conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa vis\u00e3o panor\u00e2mica, pudemos constatar que a m\u00fasica \u00e9 uma arte que sempre acompanhou a vida humana e tamb\u00e9m possui estreita rela\u00e7\u00e3o com o transcendente. Os diversos povos descobriram que a linguagem musical \u00e9 um meio eficaz de comunica\u00e7\u00e3o entre o ser humano e os deuses. A partir dessa descoberta, esses povos utilizaram a m\u00fasica como parte integrante de seus ritos. Nessa mesma esteira, encontra-se a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vimos, igualmente, que a m\u00fasica \u00e9 elemento indispens\u00e1vel na a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e, quando bem elaborada (simbiose entre texto e demais express\u00f5es musicais) e devidamente integrada no momento ritual, nos arremessa, pela for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, ao inef\u00e1vel de Deus. Todavia, essa \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d, no seu sentido pleno, n\u00e3o se d\u00e1 de forma autom\u00e1tica. Pressup\u00f5e uma permanente forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico-lit\u00fargica do clero, dos agentes lit\u00fargico-musicais (regentes, salmistas, corais, instrumentistas) e de todo o povo de Deus. Ali\u00e1s, existe uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d: a forma\u00e7\u00e3o \u00e9 condicionante da participa\u00e7\u00e3o. A <em>Sacrosanctum Concilium<\/em> reconhece que a liturgia \u00e9 a primeira e necess\u00e1ria fonte, da qual os fi\u00e9is podem haurir o esp\u00edrito genuinamente crist\u00e3o. E, para que isso seja levado a efeito, \u00e9 imprescind\u00edvel uma adequada forma\u00e7\u00e3o do clero e de todo o povo (cf. SC n. 14b).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acreditamos que essa forma\u00e7\u00e3o permanente poder\u00e1 acontecer mediante tr\u00eas n\u00edveis da pastoral lit\u00fargica, a saber:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a) Em \u201creuni\u00f5es semanais\u201d da equipe de celebra\u00e7\u00e3o<\/em>. Nesses encontros semanais \u2013 ocasi\u00e3o em que se avaliam as celebra\u00e7\u00f5es anteriores e se preparam as seguintes \u2013, dever\u00e3o participar todas as pessoas escaladas para o exerc\u00edcio de algum minist\u00e9rio nas celebra\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo fim de semana (leitores, salmistas, ministros extraordin\u00e1rios da comunh\u00e3o eucar\u00edstica, ac\u00f3litos, sacrist\u00e3es), bem como outros fi\u00e9is interessados. O ponto alto dessas reuni\u00f5es \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus (partindo sempre do evangelho) e sua incid\u00eancia no \u201choje\u201d da comunidade de f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>b) Em \u201creuni\u00f5es mensais\u201d dos grupos conforme sua condi\u00e7\u00e3o ministerial.<\/em> Cada grupo (m\u00fasicos, leitores e salmistas, ministros extraordin\u00e1rios da comunh\u00e3o&#8230;) deve se reunir, mensalmente, para encontros de forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico-lit\u00fargica mais sistem\u00e1tica e de avalia\u00e7\u00e3o quanto ao desempenho do respectivo minist\u00e9rio nas celebra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>c) Em encontros \u201cocasionais\u201d.<\/em> Trata-se de encontros ampliados de integra\u00e7\u00e3o dos diversos grupos (m\u00fasicos, leitores, salmistas, ministros extraordin\u00e1rios da comunh\u00e3o eucar\u00edstica&#8230;), com dura\u00e7\u00e3o de um dia ou fim de semana. Essa modalidade de forma\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ter o formato de um \u201cretiro\u201d ou \u201cminicurso\u201d e ser realizada, preferencialmente, por ocasi\u00e3o do in\u00edcio de um novo tempo lit\u00fargico. Tais encontros dever\u00e3o constar no planejamento anual das atividades da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo esse esfor\u00e7o tem como principal objetivo a participa\u00e7\u00e3o ativa, consciente e plena de todo o povo sacerdotal na a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e seus consequentes frutos no agir cotidiano. Afinal, a raz\u00e3o \u00faltima de nosso cantar reside naquele \u201cque est\u00e1 sentado no trono e ao Cordeiro\u201d, pois s\u00f3 a eles pertencem o louvor, a honra, a gl\u00f3ria e o dom\u00ednio pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos (cf. Ap 5,13b).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Joaquim Fonseca, OFM \u2013 <\/em>Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia e Instituto Santo Tom\u00e1s de Aquino, Belo Horizonte. Texto original portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BASURKO, X. <em>O canto crist\u00e3o na tradi\u00e7\u00e3o primitiva.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOSELLI, G. <em>O sentido espiritual da liturgia<\/em>. Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es CNBB, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BUYST, I.; FONSECA, J. <em>M\u00fasica ritual e mistagogia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHOURAQUI, A. <em>Louvores 1<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONFER\u00caNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. <em>Pastoral da m\u00fasica lit\u00fargica no Brasil.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1976. (Documentos da CNBB, 7)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">____. <em>A m\u00fasica lit\u00fargica no Brasil.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 1999. (Estudos da CNBB, 79)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">____. <em>Canto e m\u00fasica na liturgia:<\/em> princ\u00edpios teol\u00f3gicos, lit\u00fargicos, pastorais e est\u00e9ticos. Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es CNBB, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONC\u00cdLIO VATICANO II. Constitui\u00e7\u00e3o \u201cSacrosanctum Concilium\u201d sobre a sagrada liturgia. In: <em>Comp\u00eandio do Vaticano II<\/em>: constitui\u00e7\u00f5es, decretos e declara\u00e7\u00f5es. Petr\u00f3polis: Vozes, 1967. p. 259-306.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FONSECA, J. <em>Quem canta? O que cantar na liturgia?<\/em> 7.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">____. <em>O canto novo da Na\u00e7\u00e3o do Divino:<\/em> m\u00fasica ritual inculturada na experi\u00eancia do padre Geraldo Leite Bastos e sua comunidade. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FONSECA, J.; WEBER, J. <em>A m\u00fasica lit\u00fargica no Brasil 50 anos depois do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GELINEAU, J. <em>Canto e m\u00fasica no culto crist\u00e3o<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. La m\u00fasica de la assamblea Cristiana, veinte a\u00f1os despu\u00e9s del Vaticano II. <em>Cuadernos Phase<\/em>, Barcelona, n. 28, s.d., p. 59-69.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MONRABAL, M. V. T. <em>M\u00fasica, dan\u00e7a e poesia na B\u00edblia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIO X. Motu pr\u00f3prio \u201cTra le sollecitudini\u201d sobre a m\u00fasica sacra. In: VV.AA. <em>Documentos sobre a m\u00fasica lit\u00fargica.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005. p. 13-22. (Documentos da Igreja, 11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIO XII. Enc\u00edclica \u201cMusicae sacrae disciplina\u201d sobre a m\u00fasica sacra. In: VV.AA. <em>Documentos sobre a m\u00fasica lit\u00fargica.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005. p. 37-60. (Documentos da Igreja, 11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RATZINGER, J. M\u00fasica e liturgia. In: IBID. <em>Teologia da liturgia<\/em>; fundamento sacramental da exist\u00eancia crist\u00e3. Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es CNBB, 2019. p. 121-136.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAGRADA CONGREGA\u00c7\u00c3O DOS RITOS. Instru\u00e7\u00e3o da Sagrada Congrega\u00e7\u00e3o dos Ritos sobre a m\u00fasica sacra e a sagrada liturgia. In: VV.AA. <em>Documentos sobre a m\u00fasica lit\u00fargica.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005. p. 63-105. (Documentos da Igreja, 11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERRIN, A. N. <em>O rito<\/em>; antropologia e fenomenologia da ritualidade. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">UNIVERSA LAUS. A m\u00fasica nas liturgias crist\u00e3s. In: FONSECA, J. <em>Quem canta? O que cantar na liturgia?<\/em> 7.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2019. p. 77-88.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 A m\u00fasica como express\u00e3o da vida humana 2 A m\u00fasica na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 2.1 O \u201cc\u00e2ntico de Mois\u00e9s\u201d e o \u201cc\u00e2ntico do Cordeiro\u201d 2.2 Os \u201clouvores\u201d do Senhor 2.3 Cantores e instrumentistas 3 A m\u00fasica ritual crist\u00e3 3.1 A m\u00fasica como rito 3.2 Repert\u00f3rio lit\u00fargico 3.3 Crit\u00e9rios para a escolha do repert\u00f3rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-2014","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2014"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2014\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2405,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2014\/revisions\/2405"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}