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{"id":2011,"date":"2020-12-31T11:53:20","date_gmt":"2020-12-31T13:53:20","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2011"},"modified":"2021-02-10T15:57:09","modified_gmt":"2021-02-10T17:57:09","slug":"mistica-medieval-seculos-xiii-e-xiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2011","title":{"rendered":"M\u00edstica medieval: s\u00e9culos XIII e XIV"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Elementos contextuais: as condi\u00e7\u00f5es para o surgimento da nova m\u00edstica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Nova atitude em rela\u00e7\u00e3o ao mundo: \u201c<em>laudato sie, mi signore, cun tucte le tue creature<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o: \u201ca excel\u00eancia de Marta sobre Maria\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Aniquilamento e nobreza: sob a influ\u00eancia do Areopagita<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 M\u00edstica medieval e poesia trovadoresca: \u201cmulheres trovadoras de Deus\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em vista a compreens\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, podemos afirmar que a espiritualidade crist\u00e3 evolui na hist\u00f3ria em continuidade com a tradi\u00e7\u00e3o. Em seu estudo hist\u00f3rico <em>The presence of God: a history of Western Christian mysticism<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><em>, <\/em>Bernard McGinn distingue tr\u00eas grandes tradi\u00e7\u00f5es espirituais. A primeira, iniciada no s\u00e9culo IV, tem como refer\u00eancia o monaquismo; a segunda come\u00e7a no s\u00e9culo XIII, nos movimentos mendicantes e nas beguinarias; e a terceira tem in\u00edcio no s\u00e9culo XVII e estende-se at\u00e9 a atualidade. A m\u00edstica crist\u00e3 medieval<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, objeto deste estudo, tem ent\u00e3o seus in\u00edcios nos anos 1200 e \u00e9 devedora da tradi\u00e7\u00e3o inaugurada pela patr\u00edstica, florescendo com elementos acrescentados pelos cistercienses e c\u00f4negos da Abadia de S\u00e3o V\u00edtor (MCGINN, 2012, 199-200). Dentre esses elementos se destacam, a \u00eanfase na experi\u00eancia, a linguagem amorosa er\u00f3tica e a tentativa de introduzir o modelo escol\u00e1stico para ordenar a doutrina da <em>contemplatio<\/em>. A compreens\u00e3o do caminho da perfei\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo vai modelar o cristianismo medieval subsequente (MCGINN, 2017, p. 15-16). At\u00e9 o s\u00e9culo XI, nos meios mon\u00e1sticos ocidentais, dava-se \u00eanfase mais \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o que \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios divinos, e apenas no s\u00e9culo XII aparecer\u00e3o as primeiras obras que descrevem de maneira mais sistem\u00e1tica a passagem da reflex\u00e3o \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o no conhecimento dos mist\u00e9rios divinos. No s\u00e9culo XIII, enfim, essa corrente vai ganhar o mundo dos leigos e das mulheres (VINCENT, 2009, p. 259).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando as condi\u00e7\u00f5es contextuais dos s\u00e9culos XII e XIII, buscamos levantar alguns elementos para caracterizar a nova m\u00edstica. Destacamos a nova rela\u00e7\u00e3o com o mundo, referenciada pela centralidade da pobreza evang\u00e9lica; a busca de uma nova forma de s\u00edntese entre vida contemplativa e vida ativa; o desenvolvimento de uma m\u00edstica do ser apoiada na releitura da Teologia M\u00edstica de Dion\u00edsio, o Areopagita, e o aprofundamento de uma m\u00edstica po\u00e9tica do amor de estilo trovadoresco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Elementos contextuais: as condi\u00e7\u00f5es para o surgimento da nova m\u00edstica <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os s\u00e9culos XII e XIII ser\u00e3o s\u00e9culos de grandes transforma\u00e7\u00f5es: efervesc\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica, intelectual e espiritual. No s\u00e9culo XII, o renascimento do com\u00e9rcio transforma a Europa Ocidental, libertando-a do imobilismo de uma organiza\u00e7\u00e3o social baseada unicamente nas liga\u00e7\u00f5es do homem com a terra, conforme afirma Henri Pirenne:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os quadros do sistema feudal, que tinham, at\u00e9 ent\u00e3o, encerrado a atividade econ\u00f4mica, quebraram-se e toda a sociedade se impregna de um car\u00e1ter mais male\u00e1vel, mais ativo e mais variado. De novo, como na antiguidade, o campo se orienta para as cidades. Sob a influ\u00eancia do com\u00e9rcio, as antigas cidades romanas reanimam-se, repovoam-se, aglomera\u00e7\u00f5es de mercadores agrupam-se junto dos burgos, estabelecem-se ao longo das costas mar\u00edtimas, nas margens dos rios, na conflu\u00eancia das ribeiras, nos pontos de encontro das vias naturais de comunica\u00e7\u00e3o (PIRENNE, 1977, p. 82).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emerge, nesse contexto, uma nova classe social entregue ao exerc\u00edcio do com\u00e9rcio e \u00e0 ind\u00fastria, que aos poucos vai ganhando o <em>status<\/em> de uma ordem privilegiada que forma uma classe jur\u00eddica distinta e goza de um direito especial. Esta nova classe social ganha for\u00e7a suficiente para reivindicar para si a liberdade que at\u00e9 ent\u00e3o era monop\u00f3lio da nobreza. No \u00e2mbito das cidades, a liberdade ser\u00e1 um atributo natural do cidad\u00e3o. Pelo com\u00e9rcio e pela economia urbana, o antigo regime senhorial se transforma.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A circula\u00e7\u00e3o, que se torna cada vez mais intensa, favorece necessariamente a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, desloca os quadros que a tinham manietado at\u00e9 ent\u00e3o, arrasta-a para as cidades, moderniza-a e, ao mesmo tempo, liberta-a. Desprende o homem do solo a que tinha estado por tanto tempo sujeito. Substitui cada vez mais amplamente o trabalho servil pelo trabalho livre (PIRENNE, 1977, p. 166).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No interior dessa transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, opera-se tamb\u00e9m uma transforma\u00e7\u00e3o cultural e religiosa. Observa-se uma mudan\u00e7a nos m\u00e9todos de educa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada, unida \u00e0 instru\u00e7\u00e3o em l\u00edngua vern\u00e1cula. Consequentemente, crescem o n\u00famero de leigos que sabem ler e a porcentagem de mulheres, religiosas e leigas, alfabetizadas (MCGINN, 2017, p. 17-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento, no contexto de grandes mudan\u00e7as no estilo de vida das pessoas em vista da evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, da nova organiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, administra\u00e7\u00e3o do dinheiro, enfim, da nova conjuntura t\u00e9cnica e social, vai tornar-se mais especulativo e cr\u00edtico. Surge a escol\u00e1stica, novo modo cientificamente organizado e academicamente profissional de buscar o <em>intellectus fidei<\/em>. O m\u00e9todo escol\u00e1stico, afirma Bruno Forte, revela esse novo esp\u00edrito inquieto e sedento de esclarecimento presente na cultura:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">na tens\u00e3o entre o \u201c<em>sic<\/em>\u201d e o \u201c<em>non<\/em>\u201d, atra\u00eddo por argumenta\u00e7\u00f5es opostas, que colhem momentos e aspectos diversos da realidade e que fazem \u201cproblema\u201d, o esp\u00edrito descobre-se a si mesmo como problem\u00e1tico e inquieto, sedento de an\u00e1lises e distin\u00e7\u00f5es esclarecedoras (FORTE, 1991, p.\u00a0100).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto a teologia patr\u00edstica e mon\u00e1stica, que dominou at\u00e9 a alta Idade M\u00e9dia, \u00e9 contemplativa, simb\u00f3lica e totalizante, atenta \u00e0 trama profunda da realidade imersa no mist\u00e9rio, a mentalidade escol\u00e1stica vive da an\u00e1lise met\u00f3dica e cr\u00edtica, do racioc\u00ednio dial\u00e9tico<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>: \u201cposto na presen\u00e7a de proposi\u00e7\u00f5es opostas, o esp\u00edrito deve encontrar uma raz\u00e3o em favor de um dos termos da alternativa, ou alguma distin\u00e7\u00e3o que permita atribuir a cada um sua parte da verdade\u201d (FORTE, 2002, p. 103).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7am tamb\u00e9m a aparecer nas cidades in\u00fameras funda\u00e7\u00f5es religiosas de car\u00e1ter laical. Segundo informa o historiador Andr\u00e9 Vauchez, uma grande explos\u00e3o espiritual ocorre fora da institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica (VAUCHEZ, 1995, p. 65-129). Analisando testemunhos indiretos (especialmente as condena\u00e7\u00f5es formuladas nos conc\u00edlios ou contidas nos penitenciais), se descobre um conjunto de pr\u00e1ticas religiosas populares que acabam determinando o desaparecimento de uma concep\u00e7\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3 caracterizada por sua dimens\u00e3o de mist\u00e9rio e espera dos \u00faltimos tempos (pr\u00f3pria da patr\u00edstica) e o surgimento de outro conjunto de representa\u00e7\u00f5es, fundamentadas na descoberta do Cristo hist\u00f3rico, na valoriza\u00e7\u00e3o da vida moral e na import\u00e2ncia dada aos ritos e gestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas se\u00e7\u00f5es gerais do IV Conc\u00edlio de Latr\u00e3o (1215) indicam as grandes preocupa\u00e7\u00f5es espirituais desses novos tempos: vida apost\u00f3lica (<em>vita apostolica<\/em>) e renova\u00e7\u00e3o pastoral (<em>cura animarum<\/em>). A primeira diz respeito ao prop\u00f3sito de um encontro com o mundo voltado para fora, entendendo que pregar e evangelizar s\u00e3o elementos centrais para uma vida inspirada em Cristo e nos ap\u00f3stolos; os componentes essenciais dessa vida ser\u00e3o penit\u00eancia, pobreza e prega\u00e7\u00e3o. A segunda preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada ao combate \u00e0 heresia, aos sacramentos, \u00e0s devo\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m \u00e0s prega\u00e7\u00f5es, que ser\u00e3o centrais na vida religiosa da Idade M\u00e9dia tardia. No contexto da reforma pastoral, a mensagem proclamada ser\u00e1 centrada na penit\u00eancia e na Eucaristia. O mesmo conc\u00edlio incentivou a renova\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o, ordenou a recep\u00e7\u00e3o anual da penit\u00eancia e da comunh\u00e3o, e definiu a realidade da presen\u00e7a do Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia, adotando o termo \u201ctransubstancia\u00e7\u00e3o\u201d. A reforma pastoral promover\u00e1 tamb\u00e9m uma explos\u00e3o devocional, destacando-se a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Paix\u00e3o de Cristo e a Maria (MCGINN, 2017, p. 19-30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto se desenvolve, segundo McGinn, um novo modo de entender e apresentar a consci\u00eancia direta da presen\u00e7a de Deus, uma nova m\u00edstica que, ao contr\u00e1rio da m\u00edstica medieval dos in\u00edcios, de vi\u00e9s mon\u00e1stico, caracterizada pelo abandono do mundo e a constitui\u00e7\u00e3o de uma elite espiritual, ser\u00e1 impulsionada por processos de democratiza\u00e7\u00e3o e seculariza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, pela convic\u00e7\u00e3o de que todos podem gozar da consci\u00eancia imediata da presen\u00e7a de Deus, que pode ser encontrado no \u00e2mbito secular, em meio \u00e0 experi\u00eancia cotidiana. Para o autor, tr\u00eas processos devem ser destacados nesse desenvolvimento: as novas atitudes quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre mundo e claustro; uma nova rela\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres \u2013 que abre espa\u00e7o \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o feminina para a espiritualidade; e o recurso a novas linguagens e modos de representa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia m\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Nova atitude em rela\u00e7\u00e3o ao mundo: \u201c<em>laudato sie, mi signore, cun tucte le tue creature<\/em>\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferente da m\u00edstica mon\u00e1stica, que orientava a fuga do mundo para o claustro, onde se poderia, atrav\u00e9s de exerc\u00edcios espirituais, chegar a Deus, o movimento evang\u00e9lico na Idade M\u00e9dia tardia, motivado por novas maneiras de entender a vida apost\u00f3lica, vai promover uma outra rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Exemplar para a compreens\u00e3o desse elemento novo que caracteriza a m\u00edstica medieval \u00e9 o itiner\u00e1rio espiritual de Francisco de Assis (1181 ou 1182 &#8211;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1226\">1226<\/a>). Jovem de h\u00e1bitos cavalheirescos, pertencente \u00e0 burguesia comercial urbana emergente, segundo informa Le Goff (2001), e grande esbanjador. Admirava a fina poesia trovadoresca e era tamb\u00e9m, como bom cavaleiro, atra\u00eddo pela guerra e pelo of\u00edcio das armas. Convertido pelo encontro com Cristo crucificado, vai experimentar a pobreza como lugar de salva\u00e7\u00e3o e uma rela\u00e7\u00e3o com o mundo marcada pela fraternidade com toda a cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vai se refugiar na solid\u00e3o do deserto ou da fuga do mundo, mas vai ao encontro da cidade, rompendo, neste sentido, com o monaquismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das narrativas de sua convers\u00e3o, a qual come\u00e7a com uma enfermidade que o leva a refletir sobre o destino humano e as rela\u00e7\u00f5es entre o<strong> homem interior<\/strong> e o <strong>homem exterior<\/strong>, destacam-se alguns eventos. O primeiro \u00e9 relacionado \u00e0 ren\u00fancia aos bens paternos. Conta-se que o jovem, comovido com a deteriora\u00e7\u00e3o da igrejinha de S\u00e3o Dami\u00e3o, pega tecidos da casa do pai e, sem autoriza\u00e7\u00e3o, vende-os e oferece o fruto da venda ao padre. Enfurecido, o pai o encarcera em casa. Solto pela m\u00e3e, procura abrigo junto ao bispo, o qual testemunha o ato solene de ren\u00fancia que marca a ruptura de Francisco com a vida anterior. Faz parte da mem\u00f3ria franciscana o momento em que ele renuncia a todos os bens da fam\u00edlia e entrega tudo ao pai, inclusive as roupas que estava usando. Despido diante do progenitor e de outras testemunhas, teria manifestado, por meio desse ato simb\u00f3lico, seu despojamento absoluto (LE GOFF, 2001, p. 66). Outro evento marcante \u00e9 o beijo no leproso, testemunho da vit\u00f3ria \u00e0 repugn\u00e2ncia pela experi\u00eancia de miseric\u00f3rdia. Lembrado em seu <em>Testamento,<\/em> esse evento fez entrar na vida de Francisco \u201co tema da repugn\u00e2ncia vencida, da caridade para com os que sofrem, a novidade de ter o corpo como irm\u00e3o, [\u2026] o servi\u00e7o aos mais infelizes, para os mais pequeninos\u201d (LE GOFF, 2001, p. 67). Tamb\u00e9m na Igreja de S\u00e3o Dami\u00e3o, diante do crucifixo, Francisco ouve de Deus o chamado para restaurar a sua casa. Interpreta que deveria trabalhar na reconstru\u00e7\u00e3o material das Igrejas e vai trabalhar como pedreiro em S\u00e3o Dami\u00e3o, S\u00e3o Pedro e Porci\u00fancula, orat\u00f3rio pr\u00f3ximo a dois lepros\u00e1rios que ser\u00e1, segundo S\u00e3o Boaventura, o lugar que Francisco mais amou. L\u00e1, ao ouvir do padre, na missa, o trecho do Evangelho de Mateus, cap\u00edtulo 10, sobre a miss\u00e3o dos ap\u00f3stolos, \u201ctransbordando de alegria\u201d, entende a sua pr\u00f3pria miss\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">descal\u00e7a os sapatos, joga fora seu bord\u00e3o e n\u00e3o conserva mais do que uma \u00fanica t\u00fanica, que amarra com uma corda \u00e0 maneira de cinto. Essa t\u00fanica, enfeita-a com uma imagem de Cristo e a confecciona t\u00e3o \u00e1spera que a\u00ed crucificar\u00e1 sua carne com seus v\u00edcios e seus pecados, t\u00e3o pobre e t\u00e3o feia que ningu\u00e9m no mundo a invejar\u00e1 (LE GOFF, 2001, p. 68-69).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro com Cristo na escuta do Evangelho \u00e9 central para ele. Francisco, afirma Velasco, assume o Evangelho como mestre e busca uma perfeita imita\u00e7\u00e3o da vida de Jesus Cristo. Sua rela\u00e7\u00e3o m\u00edstica com o Evangelho o lan\u00e7a no mist\u00e9rio de Deus experimentado como amor. Sua compreens\u00e3o profunda de Deus enquanto Pai floresce na abertura ao outro e numa vida virtuosa que se expressa de forma original. N\u00e3o em termos de mandamento e proibi\u00e7\u00f5es, mas de bem-aventuran\u00e7a. A pr\u00e1tica das virtudes ser\u00e1 fonte de alegria: \u201cA forma de vida enormemente exigente contida nas bem-aventuran\u00e7as aparece assim ao mesmo tempo como resultado da alegria de quem descobriu o tesouro, a p\u00e9rola preciosa do reino\u201d (VELASCO, 2001, p. 127).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pobreza vivida na radicalidade, portanto, tem tamb\u00e9m um lugar fundamental no itiner\u00e1rio m\u00edstico de Francisco. Apoiada no seguimento a Cristo pobre, n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ada por esfor\u00e7o heroico, mas pelo amor e adora\u00e7\u00e3o a uma vida simples. Pobreza ser\u00e1 despojamento e vai se referir a todo tipo de riqueza: \u201c\u00e0 da pr\u00f3pria vontade, \u00e0 do saber e a ci\u00eancia, \u00e0 da fun\u00e7\u00e3o que se exerce, at\u00e9 chegar a exigir a expropria\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria pobreza, relativizada em compara\u00e7\u00e3o com o amor e a expropria\u00e7\u00e3o de si mesmo\u201d (VELASCO, 2003, p. 67). No bojo dessa m\u00edstica, a pobreza ser\u00e1 vivida tal qual uma exig\u00eancia advinda do reconhecimento de Deus como Bem supremo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O reconhecimento de Deus como Deus, Bem supremo, exige do homem deixar de ser o centro, abandonar o esp\u00edrito de posse e de dom\u00ednio e adotar a atitude de desprendimento ou deslocamento que, radicalizando at\u00e9 o desprendimento de si mesmo, abre no homem o vazio que ser\u00e1 preenchido por Deus (VELASCO, 2001, p. 137).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa viv\u00eancia radical da pobreza que contempla o aniquilamento de si estar\u00e1 presente de maneira muito significativa na m\u00edstica medieval. A \u201cSenhora santa Pobreza\u201d, louvada e cantada por Francisco como virtude, \u00e9, para ele, condi\u00e7\u00e3o para uma maior abertura a Deus e, por isso tamb\u00e9m, para uma rela\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria com os mais pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, o tra\u00e7o mais saliente da m\u00edstica de Francisco \u00e9 a sua consci\u00eancia da fraternidade universal. Sua rela\u00e7\u00e3o com Deus, vivenciada como imita\u00e7\u00e3o de Cristo, leva-o a propor \u201ccomo programa um ideal positivo, aberto ao amor de todas as criaturas e de toda a cria\u00e7\u00e3o enraizado na alegria\u201d (LE GOFF, 2001, p. 114). Sua obra-prima l\u00edrica, o <em>C\u00e2ntico do irm\u00e3o Sol<\/em>, na qual ele louva o Senhor com todas as suas criaturas, dizendo \u201c<em>Laudato sie, mi signore, cun tucte le tue creature<\/em>\u201d, expressa essa experi\u00eancia m\u00edstica de confraterniza\u00e7\u00e3o fundada, segundo McGinn (2017, p. 92), na cren\u00e7a trinit\u00e1ria em Deus Criador, Redentor e Salvador, este revelado em Jesus Cristo como Senhor e Servo crucificado, e traz como novidade a experi\u00eancia imediata da presen\u00e7a de Deus no cosmo e em cada um de seus elementos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">seu c\u00e2ntico mostra uma novidade por causa da solidariedade que ele exprime entre a ordem humana e c\u00f3smica, e tamb\u00e9m por causa do modo como transmite uma experi\u00eancia do mundo como uma harmoniosa e \u00fanica teofania de Deus [\u2026] Francisco apresenta uma m\u00edstica especificamente crist\u00e3 da natureza, na qual a presen\u00e7a de Deus \u00e9 experimentada como luminosamente real e imediata no cosmo como um todo e em cada um de seus elementos, na medida em que refletem algum aspecto da plenitude divina (MCGINN, 2017, p. 94).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o: \u201ca excel\u00eancia de Marta sobre Maria\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ajudam tamb\u00e9m a compreender essa nova rela\u00e7\u00e3o com o mundo os serm\u00f5es de Mestre Eckhart (1260-1328), te\u00f3logo dominicano e um dos grandes expoentes da m\u00edstica renana. No contexto da problem\u00e1tica da tens\u00e3o entre contempla\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, que marca a diferen\u00e7a da m\u00edstica desse momento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mon\u00e1stica, pode ser citado o serm\u00e3o 86 da obra alem\u00e3, conhecido como \u201cA excel\u00eancia de Marta sobre Maria\u201d. Sem negar a import\u00e2ncia do despojamento que faz parte da simb\u00f3lica do deserto, t\u00e3o preciosa para a perspectiva mon\u00e1stica, esse serm\u00e3o ajuda a compreender a din\u00e2mica paradoxal da rela\u00e7\u00e3o com o exterior que caracterizar\u00e1 a nova m\u00edstica: a viv\u00eancia do compromisso amoroso com o mundo por aquele que passa pelo deserto, isto \u00e9, que vive um processo de despojamento. Surpreendentemente, na interpreta\u00e7\u00e3o dessa passagem, que geralmente serve ao enaltecimento da contempla\u00e7\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade, Eckhart fala sobre a dimens\u00e3o ativa do desprendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse serm\u00e3o, Eckhart destaca duas posturas relativas \u00e0 vida espiritual. A de Maria, sentada aos p\u00e9s de Jesus, e a de Marta, ocupada em servir o Mestre. P\u00f5e em quest\u00e3o o sentido da contempla\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o, integrando as duas atitudes num mesmo processo. Referindo-se \u00e0 passagem do Evangelho de Lucas, cap\u00edtulo 10, vers\u00edculos 38\u201140, inicia o serm\u00e3o fazendo a distin\u00e7\u00e3o entre as duas atitudes, citando as raz\u00f5es que motivam cada atitude:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas raz\u00f5es fizeram Maria sentar-se aos p\u00e9s de Jesus. A primeira era esta: a bondade de Deus tinha preso a sua alma ao Senhor. A segunda era um grande, indiz\u00edvel desejo; ela suspirava por algo, sem saber o qu\u00ea! O terceiro era o doce consolo e a del\u00edcia que ela hauria da palavra eterna que flu\u00eda da boca de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Marta era movida por tr\u00eas raz\u00f5es, que a fizeram movimentar-se e servir ao car\u00edssimo Senhor Jesus. Uma era a sua idade de matrona e o modo de ser empenhada e dedicada ao extremo. [\u2026] A outra raz\u00e3o provinha de uma s\u00e1bia pondera\u00e7\u00e3o que sabia orientar a atividade externa para o melhor que o amor possa ditar. O terceiro motivo: a suma dignidade do caro h\u00f3spede (ECKHART, 2006, p. 170).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marta, que por sua idade de matrona tem grande sabedoria de vida, pede ao Senhor que ordene a Maria que a ajude. Suspeitamos, pondera Mestre Eckhart, que Maria estava ali sentada mais por causa do doce sentimento do que por causa do aproveitamento espiritual. Marta, interpreta ele, \u201ctemia que Maria ficasse parada neste suave sentimento, sem nenhum progresso\u201d (ECKHART, 2006, p. 172).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta de Jesus, continua ele, n\u00e3o foi em tom de censura a Marta. Ele lhe diz que Maria ainda iria chegar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o que ela almejava. Tr\u00eas elementos s\u00e3o destacados por Eckhart na resposta de Jesus: o fato de ele chamar Marta duas vezes pelo nome, a preocupa\u00e7\u00e3o dela e a sua rela\u00e7\u00e3o com as coisas, e a considera\u00e7\u00e3o sobre a \u201c\u00fanica coisa necess\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, levado por seu eterno saber, chama Marta pelo nome duas vezes. Com isso queria indicar que ela possu\u00eda a gra\u00e7a temporal e eterna daquele cujo nome est\u00e1 registrado no livro que \u00e9 o pr\u00f3prio Verbo Eterno, tal qual aqueles que, testemunha a escritura, tiveram o seu nome pronunciado por Deus: Mois\u00e9s e Natanael. \u201cNa primeira vez que disse \u2018Marta\u2019, demonstra sua perfei\u00e7\u00e3o nas obras temporais. Quando pronunciou pela segunda vez o nome \u2018Marta\u2019, demonstrou tudo que pertence \u00e0 bem-aventuran\u00e7a eterna, da qual ela nada carecia\u201d (ECKHART, 2008, p. 128).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por possuir o bem temporal e eterno, Marta \u00e9 cuidadosa, isto \u00e9, em todos os afazeres se encontra sem impedimentos. Sua preocupa\u00e7\u00e3o pelas ocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 a daqueles que est\u00e3o juntos \u00e0s coisas e n\u00e3o dentro delas, que realizam seus afazeres sem entrave porque ordenam e disp\u00f5em das coisas segundo o exemplo da divina luz. \u201cPois quem trabalha na luz ascende a Deus livremente e sem media\u00e7\u00f5es: sua luz \u00e9 seu sustento e seu sustento \u00e9 sua luz\u201d (ECKHART, 2006, p. 174). \u201cUma coisa s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1ria\u201d, diz Jesus a Marta, \u201ceu e tu envoltos e unidos pela luz eterna\u201d (ECKHART, 2006, p. 174).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas s\u00e3o os caminhos para dentro de Deus, ensina Eckhart, o primeiro \u00e9 procurar a Deus em todas as criaturas, com m\u00faltiplo empreendimento (com discernimento interno e n\u00e3o a partir de motiva\u00e7\u00f5es exteriores) e amor ardente. O segundo caminho \u00e9 o arrebatamento, o caminho sem caminho. \u00c9 quando se \u00e9 elevado \u201cpelo Pai celestial num abra\u00e7o amoroso, com uma for\u00e7a avassaladora, sem estar ciente disso, num esp\u00edrito voltado para o alto, acima de todo o intelecto, no poder do Pai celestial\u201d (ECKHART, 2008, p.\u00a0130). O terceiro \u00e9 o que se chama \u201ccaminho\u201d; o caminho que j\u00e1 \u00e9 lar, que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo, \u201ccaminho, verdade e vida\u201d. Nesse caminho somos conduzidos para dentro de Deus pela luz da palavra de Cristo, envolvidos no amor do Esp\u00edrito de ambos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto deste terceiro caminho, podemos compreender que a obra operada de maneira ordenada nos disp\u00f5e a Deus e se constitui numa m\u00edstica do servi\u00e7o. A atitude espiritual ativa de Marta possui uma excel\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atitude contemplativa de Maria, afirma Eckhart, pois a matrona Marta revela, em sua a\u00e7\u00e3o, uma viv\u00eancia ordenada da vontade:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida virtuosa possui tr\u00eas pontos relacionados com a vontade. O primeiro \u00e9 este: renunciar \u00e0 vontade em Deus, pois \u00e9 indispens\u00e1vel que se recuse plena e totalmente o que se conhecer\u00e1 ent\u00e3o, seja na recusa ou na aceita\u00e7\u00e3o. H\u00e1, pois, tr\u00eas tipos de vontade. A primeira \u00e9 uma vontade sens\u00edvel, a segunda uma vontade racional e a terceira uma vontade eterna. A vontade sens\u00edvel ordena instru\u00e7\u00e3o, ela quer que ou\u00e7amos mestres verdadeiros. A vontade racional consiste em que tomemos p\u00e9 em todas as obras de Jesus Cristo e dos santos, o que significa que palavra, conduta e opera\u00e7\u00e3o sejam ordenadas, de maneira igual, ao que h\u00e1 de mais elevado. Quando tudo isso for cumprido, ent\u00e3o Deus ir\u00e1 conceder outra coisa ao fundo da alma: \u00e9 a vontade eterna, com o mandamento amoroso do Esp\u00edrito Santo. Ent\u00e3o a alma diz: \u201cSenhor, fala em mim o que \u00e9 a tua vontade eterna\u201d. Se a alma se satisfizer assim com o que dissemos antes, e se isso agradar a Deus, ent\u00e3o o Pai amado pronunciar\u00e1 sua palavra eterna na alma (ECKHART, 2008, p. 132).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria, aos p\u00e9s de Jesus, assentada pelo prazer e pela do\u00e7ura, ainda n\u00e3o era a Maria que estava destinada a ser, \u201cum corpo bem exercitado, obediente a uma alma s\u00e1bia\u201d, aquela que, tendo ouvido a Jesus e aprendido a viver, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o do filho e a recep\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, p\u00f4r-se-ia a servir e ensinar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, a maturidade espiritual rumo a uma vida intensiva de f\u00e9, a uma experi\u00eancia direta de Deus, para al\u00e9m das media\u00e7\u00f5es \u00e9, segundo Eckhart, caminho de integra\u00e7\u00e3o entre contempla\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o. Uma postura n\u00e3o exclui a outra. A contempla\u00e7\u00e3o sem a\u00e7\u00e3o pode paralisar o crescimento espiritual; a a\u00e7\u00e3o sem a contemplativa entrega de si \u00e0 vontade divina, por sua vez, ser\u00e1 apenas esfor\u00e7o para a expia\u00e7\u00e3o de culpas ou para afastar o medo do castigo eterno. A verdadeira bem-aventuran\u00e7a \u00e9, portanto, fruto de uma vida de contempla\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Aniquilamento e nobreza: sob a influ\u00eancia do Areopagita<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Mestre Eckhart, a pobreza, assumida de forma radical, como aniquilamento, \u00e9 tamb\u00e9m central. A nobreza do humano \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada no processo de aniquilamento, isto \u00e9, um processo que implica desprender-se de tudo que significa seguran\u00e7a, para chegar \u00e0 liberdade perfeita daquele para quem uma \u00fanica coisa \u00e9 necess\u00e1ria: Deus. O homem nobre, define ele, invertendo o sentido mundano de nobreza, \u00e9 aquele que \u201cpartiu para uma terra distante, a fim de tomar posse de um reino, e regressou\u201d (ECKHART, 2006, p. 90); \u00e9 aquele que avan\u00e7a no caminho do desprendimento, degrau a degrau, at\u00e9 o limite que implica despojar-se da pr\u00f3pria imagem humana para assumir a imagem divina; \u00e9 quem tem o Filho de Deus no fundo da alma como uma fonte divina. Sai do conforto e da prote\u00e7\u00e3o da casa onde se pode contar com o \u201cleite\u201d da m\u00e3e, aparta-se dela, distancia-se do seu colo e \u201ccorre a buscar, pressuroso, a doutrina e o conselho de Deus e da sabedoria divina, dando as costas \u00e0 humanidade e voltando o rosto para Deus, deixando o rega\u00e7o da m\u00e3e e sorrindo para o pai\u201d (ECKHART, 2006, p. 92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os primeiros degraus no caminho para a santidade, para Eckhart, s\u00e3o aqueles em que se pode contar com o exemplo das pessoas boas e santas, a prote\u00e7\u00e3o da m\u00e3e (a Igreja) e a seguran\u00e7a das media\u00e7\u00f5es que a vida de f\u00e9 apoiada na institui\u00e7\u00e3o oferece. A maturidade espiritual, no entanto, na perspectiva m\u00edstica, sup\u00f5e a disposi\u00e7\u00e3o para ascender a outros degraus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro degrau \u00e9 aquele em que se experimenta alegria, do\u00e7ura e bem-aventuran\u00e7a na profunda uni\u00e3o de amor com Deus, de tal modo que aquilo que \u00e9 alheio e dessemelhante causa aborrecimento. Este \u00e9, segundo a perspectiva desse m\u00edstico, um est\u00e1gio de risco, pois as del\u00edcias dessa experi\u00eancia podem, fazendo a pessoa pensar que j\u00e1 se acha numa atitude espiritual suficiente, paralisar o processo de amadurecimento da vida espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quarto degrau, o maior crescimento no amor e na fixa\u00e7\u00e3o em Deus promove a disposi\u00e7\u00e3o para \u201cenfrentar com vontade e gosto, com sofreguid\u00e3o e alegria, toda esp\u00e9cie de prova\u00e7\u00e3o, de tenta\u00e7\u00e3o, de contrariedade e de padecimento\u201d (ECKHART, 2006, p. 92). O quinto degrau \u00e9 o da paz interior. Este est\u00e1gio de aprofundamento espiritual \u00e9 aquele em que se descansa \u201ctranquilamente na riqueza e na superabund\u00e2ncia da suprema e inef\u00e1vel sabedoria\u201d (ECKHART, 2006, p. 92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O coroamento desse caminho m\u00edstico se d\u00e1, explica Eckhart, no sexto degrau, que consiste \u201cno despojar-se da imagem (humana) e no revestir a imagem da eternidade divina, pelo esquecimento total e perfeito da vida transit\u00f3ria e temporal, de tal modo que, feito filho de Deus, e atra\u00eddo por Deus, o homem se transmute em imagem de Deus\u201d (ECKHART, 2006, p. 93).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ser um \u201chomem nobre\u201d, \u00e9 preciso \u201cpartir\u201d, \u201capartar-se de todas as imagens e de si mesmo, e distanciar-se e desassemelhar-se de tudo isso, se \u00e9 que realmente quer e deve acolher o Filho e tornar-se filho no seio e no cora\u00e7\u00e3o do pai\u201d (ECKHART, 2006, p.\u00a094). O homem nobre \u00e9 aquele que, com tudo o que \u00e9 e tem, sujeita-se e obedece a Deus; \u201clevantando os olhos ao c\u00e9u, contempla a Deus e n\u00e3o o que \u00e9 seu\u201d. \u201cConv\u00e9m saber\u201d, continua Eckhart, \u201ccom efeito, aqueles que conhecem a Deus sem v\u00e9u, conhecem ao mesmo tempo as criaturas\u201d (ECKHART, 2006, p. 95).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O despojamento de tudo e de si mesmo que se d\u00e1 nesse \u201cprocesso negativo\u201d \u2013 o qual implica retirar aquilo que recobre o mais essencial \u2013 possibilita, ao homem que partiu, regressar. Tendo contemplado a Deus sem v\u00e9u, o homem nobre conhece que Dele vem o ser de toda a criatura, pois \u201cDeus d\u00e1, primeiro, o ser a toda criatura e, depois, no tempo, mas sem tempo, (d\u00e1) a cada um em particular tudo o que lhe (isto \u00e9, ao ser) pertence\u201d (ECKHART, 2006, p. 97). V\u00ea-se aqui, claramente, que a refer\u00eancia \u00e0 Teologia M\u00edstica de Dion\u00edsio Areopagita foi fundamental na constitui\u00e7\u00e3o da m\u00edstica medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cTeologia M\u00edstica\u201d remonta \u00e0 obra de Pseudo-Dion\u00edsio, o Areopagita, escritor mon\u00e1stico que viveu por volta de 500 d.C., provavelmente na S\u00edria, a qual teve grande influ\u00eancia sobre o Ocidente latino. Al\u00e9m de cunhar o termo \u201cTeologia M\u00edstica\u201d, deu express\u00e3o sistem\u00e1tica a uma vis\u00e3o dial\u00e9tica da rela\u00e7\u00e3o de Deus com o mundo que foi fonte dos sistemas especulativos por pelo menos mil anos. Nesse tratado, \u201cm\u00edsticas\u201d s\u00e3o revela\u00e7\u00f5es dos mist\u00e9rios simples, absolutos e imut\u00e1veis da teologia revelados na treva superluminosa do sil\u00eancio que ensina ocultamente. Revela\u00e7\u00f5es a que se chega quando se deixa de lado \u201cas sensa\u00e7\u00f5es, as opera\u00e7\u00f5es intelectuais, todas as coisas sens\u00edveis e intelig\u00edveis, tudo o que n\u00e3o existe e que existe\u201d para unir-se com Aquele que est\u00e1 acima de todo o ser e de todo conhecimento num abandono irrestrito, absoluto e puro (MARIANI, 2009, p. 362-363).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Pseudo-Dion\u00edsio Areopagita, o acesso ao \u201cprinc\u00edpio supernatural\u201d, se d\u00e1 mediante a remo\u00e7\u00e3o. Para ver atrav\u00e9s da cegueira e da ignor\u00e2ncia, e para conhecer o princ\u00edpio superior \u00e0 vis\u00e3o e ao conhecimento, explica Dion\u00edsio, \u00e9 preciso ir removendo todas as coisas \u201cdo mesmo modo pelo qual aqueles que modelam uma bela est\u00e1tua aplainam-lhe os impedimentos que poderiam obnubilar a pura vis\u00e3o de sua arcana beleza, sendo capazes de mostr\u00e1-la plenamente, mediante remo\u00e7\u00e3o\u201d (PSEUDO-DION\u00cdSIO AREOPAGITA, 2005, p. 21). A teologia ou teosofia, sabedoria de Deus, implica uma dial\u00e9tica ascendente que envolve afirma\u00e7\u00f5es e nega\u00e7\u00f5es que, para ele, \u201cdevem ser louvadas com procedimentos contr\u00e1rios\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, afirmamos, quando partimos dos princ\u00edpios mais origin\u00e1rios e descemos atrav\u00e9s dos membros interm\u00e9dios \u00e0s \u00faltimas coisas; no caso das nega\u00e7\u00f5es, todavia, removemos tudo, quando subimos das \u00faltimas coisas \u00e0s mais origin\u00e1rias, para conhecer a ignor\u00e2ncia escondida em todos os seres por todas as coisas cognosc\u00edveis, e para ver a treva supernatural escondida por todas as luzes presentes nos seres (PSEUDO-DION\u00cdSIO AREOPAGITA, 2005, p. 21-22).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dion\u00edsio vai mostrar que a rela\u00e7\u00e3o com Deus absolutamente transcendente implica o \u00eaxtase operado atrav\u00e9s do procedimento da nega\u00e7\u00e3o (remo\u00e7\u00e3o), com a finalidade \u00faltima da uni\u00e3o transformadora (diviniza\u00e7\u00e3o) pelo amor que \u00e9 Deus, absolutamente transcendente e totalmente presente em toda a cria\u00e7\u00e3o. M\u00edstica \u00e9, para ele, qualidade da teologia, um tipo de sabedoria de Deus na qual penetram os iniciados que se disp\u00f5em a despojar-se do pr\u00f3prio saber e, abandonando-se de forma irrestrita, absoluta e pura, deixam-se conduzir para o alto e viver Naquele que a tudo transcende, unindo-se ao princ\u00edpio superdesconhecido segundo o melhor de suas faculdades, mas conhecido al\u00e9m da intelig\u00eancia (PSEUDO-DION\u00cdSIO AREOPAGITA, 2005, p. 18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Idade M\u00e9dia tardia vai reler Dion\u00edsio, enfatizando, no itiner\u00e1rio que leva ao encontro do Mist\u00e9rio, o processo de despojamento ontol\u00f3gico pelo qual necessita passar nossa humanidade. O acolhimento da verdade inef\u00e1vel de Deus exige, segundo escritos desse per\u00edodo, o conhecimento dos limites da intelig\u00eancia e da vontade pr\u00f3prios da condi\u00e7\u00e3o humana. Uma literatura m\u00edstica se afirma e se desenvolve como express\u00e3o da busca pelo divino dentro da alma e como experi\u00eancia de unidade com Deus, <em>unio mystica<\/em>. Claramente influenciada por Dion\u00edsio Areopagita, essa literatura anuncia que no fundamento de todo esfor\u00e7o de falar sobre Deus existe uma experi\u00eancia indiz\u00edvel a que se chega pelo despojamento de tudo, inclusive de si mesmo. No despojamento at\u00e9 o limite do aniquilamento de si, o m\u00edstico experimenta um grande esvaziamento que o capacita para a acolhida da verdade de Deus, acolhida esta que transforma seu pensar e seu querer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 M\u00edstica medieval e poesia trovadoresca: \u201cmulheres trovadoras de Deus\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema do amor infinito, maior que tudo, ocupou, portanto, um lugar importante na m\u00edstica medieval. Procurou-se uma maneira de falar sobre esse imenso amor misericordioso de Deus que, vindo ao encontro do humano, opera na alma (que \u00e9 o princ\u00edpio transcendente do humano) um \u00eaxodo, uma sa\u00edda de si, uma transforma\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica que, divinizando-a, capacita-a para o encontro com o mist\u00e9rio. Foi na poesia trovadoresca que se encontraram os recursos de express\u00e3o para essa experi\u00eancia do amor que, segundo muitos m\u00edsticos e m\u00edsticas, n\u00e3o achava lugar na linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, afirma Rougemont, observa-se, entre a m\u00edstica e a poesia trovadoresca, mais do que uma analogia de palavras: pode-se verificar uma rela\u00e7\u00e3o entre essas duas realidades, a realidade da paix\u00e3o amorosa cantada pelos trovadores e a da transforma\u00e7\u00e3o de amor relatada pelos m\u00edsticos (ROUGEMONT, 1999, p. 127). No centro das cantigas de amor dos trovadores, existe um amante que se entrega de corpo e alma a uma paix\u00e3o incontrol\u00e1vel e ao dedicado servi\u00e7o amoroso \u00e0 mulher amada, uma dama, em geral inating\u00edvel por estar espacial ou socialmente inacess\u00edvel (BARROS, 2008). A fidelidade a esse amor imposs\u00edvel, exaltada pela poesia trovadoresca, faz ver a dimens\u00e3o transcendente do amor, livre dos condicionamentos naturais (do encontro genital) e dos limites institucionais (do casamento). O trovador exalta o amor casto que \u00e9 Eros supremo, que transporta a alma para a uni\u00e3o luminosa al\u00e9m desta terra (ROUGEMONT, 1999, p. 64). Canta o amor infinito que transforma a vida porque promove uma ascese do desejo. Embora esteja voltado a um objeto inacess\u00edvel, o amor cort\u00eas sup\u00f5e, por outro lado, uma recompensa suprema, uma grande alegria (<em>joy<\/em>) advinda da descoberta do amor sem fim, pelo impedimento da posse do amado. O amor puro alimenta indefinidamente o desejo e engendra um aperfei\u00e7oamento intermin\u00e1vel. O sofrimento pela paix\u00e3o jamais satisfeita \u00e9, ao mesmo tempo, alegria de viver o amor na liberdade, a salvo do decl\u00ednio e do cansa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, no paradoxo da experi\u00eancia do desejo dirigido a Deus \u2013 Mist\u00e9rio Santo, amado indispon\u00edvel \u00e0 posse do amante \u2013, o m\u00edstico, a m\u00edstica, descobre tamb\u00e9m a transcend\u00eancia do amor no processo de ascese do desejo. A m\u00edstica \u00e9 tamb\u00e9m relato da transforma\u00e7\u00e3o operada pela busca do amor infinito, que, em sua transcend\u00eancia, \u00e9 maior do que tudo o que se pode pensar ou querer. Tanto a m\u00edstica quanto a cortesia v\u00e3o se referir a um amor faminto, desejante, que n\u00e3o pode ser saciado. Amor que \u00e9 dor da dist\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m alegria, porque traz como fruto a \u201cliberdade perfeita\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00edstica e poesia trovadoresca, informa McGinn, destacaram-se algumas mulheres, que come\u00e7am, depois de 1200, a assumir um lugar proeminente na tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica, poss\u00edvel, nesse momento, gra\u00e7as ao surgimento de novas formas de coopera\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres na busca por uma vida apost\u00f3lica e um conhecimento amoroso de Deus. Acrescenta-se, tamb\u00e9m, vinculado a essa nova rela\u00e7\u00e3o entre g\u00eaneros no \u00e2mbito da m\u00edstica, o aparecimento de novas formas de linguagem associadas ao uso da l\u00edngua vern\u00e1cula. Hagiografias, vis\u00f5es e tamb\u00e9m o uso da poesia para exprimir a experi\u00eancia m\u00edstica ganharam novo significado:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O latim estava, quando muito, semivivo na Idade M\u00e9dia \u2013 nunca era a l\u00edngua aprendida primeiro, vivia ligado a uma elite cultural dominada por homens, e que era regulado por modelos herdados de propriedade lingu\u00edstica que tornavam dif\u00edcil a inova\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o fosse imposs\u00edvel. As l\u00ednguas vern\u00e1culas que estavam come\u00e7ando a se tornar l\u00ednguas cultas no pleno sentido por volta de 1200 ofereciam, ao contr\u00e1rio, not\u00e1vel potencial para uma inova\u00e7\u00e3o criativa (MCGINN, 2017, p. 42).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Minne-mystik<\/em> ou \u201cm\u00edstica cortes\u00e3\u201d, fen\u00f4meno pr\u00f3prio dessas novas condi\u00e7\u00f5es, vai combinar a m\u00edstica dos coment\u00e1rios mon\u00e1sticos ao <em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em> com os temas do <em>fin\u2019amour<\/em> cortes\u00e3o, possibilitando um novo aprofundamento. As beguinas, mulheres com novo estilo de vida religiosa n\u00e3o conventual, est\u00e3o entre os autores exemplares desses escritos m\u00edsticos que t\u00eam como tra\u00e7o caracter\u00edstico o car\u00e1ter ao mesmo tempo especulativo e experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos escritos dessas \u201ctrovadoras de Deus\u201d, segundo \u00c9piney-Burgard e Zum Brunn (2007), o simbolismo do amor cort\u00eas se funde \u00e0 express\u00e3o metaf\u00edsica do amor a Deus, gra\u00e7as \u00e0 conviv\u00eancia com a cultura profana e religiosa que o ambiente urbano onde vivem lhes proporciona. As beguinas s\u00e3o mulheres de origem nobre ou burguesa que viviam em comunidades, sob a orienta\u00e7\u00e3o de uma mestra e com o compromisso de uma vida de ora\u00e7\u00e3o e austeridade. Sobreviviam do pr\u00f3prio trabalho: tecelagem, bordado, costura, ensinamento de crian\u00e7as e servi\u00e7os de damas idosas. Eram adeptas do evangelismo, buscavam conhecer textos b\u00edblicos na sua literalidade, e valorizavam a liberdade de prega\u00e7\u00e3o, o amor \u00e0 pobreza, a contesta\u00e7\u00e3o do mundo e o estilo de vida mais que a doutrina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ideal proposto por essas m\u00edsticas \u00e9 o da \u201calma nobre\u201d, identificada com o cavaleiro que aceita todas as provas impostas por sua dama, como na novela cortes\u00e3. Deus \u00e9 a Dama Amor, \u201camor de longe\u201d, almejado por desejo profundo e \u00e0s vezes violento, objeto de amor imposs\u00edvel de se possuir. Para algumas mulheres do s\u00e9culo XIII, afirma McGinn:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">o anseio parece tornar-se mais importante do que a posse; quer dizer, em alguns casos, a frui\u00e7\u00e3o do amor vem residir na paradoxal n\u00e3o frui\u00e7\u00e3o do cont\u00ednuo anseio pelo Amado. [\u2026] em certo n\u00famero de mulheres m\u00edsticas [\u2026] h\u00e1 uma fus\u00e3o paradoxal de estados na qual a aus\u00eancia \u00e9 presen\u00e7a e vice-versa (MCGINN, (2017, p. 259).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Marguerite Porete (1260-1310), uma das beguinas destac\u00e1veis desse per\u00edodo, o Fino Amor \u00e9 o Esp\u00edrito Santo, Deus que habita a alma despojada de tudo, at\u00e9 das faculdades de pensar e de querer, faculdades fundamentais que determinam o ser. \u00c9 ele, canta a Alma aniquilada em sua obra <em>O espelho das almas simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a>, que a faz encontrar os versos da can\u00e7\u00e3o com os quais pode louvar seu bem-amado, seu Amor de longe, aquele que permanecer\u00e1, em sua transcend\u00eancia, sempre inacess\u00edvel \u00e0s possibilidades humanas, inalcan\u00e7\u00e1vel pela intelig\u00eancia e pela vontade. Aquele do qual nada se sabe dizer, mas de cuja bondade n\u00e3o se pode deixar de falar:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amor me fez, por nobreza,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses versos de can\u00e7\u00e3o encontrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela \u00e9 da Deidade pura,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a qual a Raz\u00e3o n\u00e3o sabe falar,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um amado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que tenho, sem m\u00e3e,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que proveio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Deus Pai,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E de Deus Filho tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu nome \u00e9 Esp\u00edrito Santo,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o qual tenho no cora\u00e7\u00e3o tal uni\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que me faz viver na alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00e9 o pa\u00eds da nutri\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que o amado d\u00e1 se o amamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada lhe quero pedir,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois grande seria minha maldade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo, sobretudo, confiar-me<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao amor de tal amante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(PORETE, 2008, p. 200)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Marguerite Porete constitui uma alegoria m\u00edstica sobre o caminho que conduz a alma \u00e0 uni\u00e3o perfeita com seu criador e Senhor e se estrutura como um di\u00e1logo em que os principais interlocutores s\u00e3o o Amor, a Raz\u00e3o e a Alma aniquilada personificados.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus, para Marguerite Porete, \u201ctrovadora de Deus\u201d, \u00e9 amor cortesia que com grande delicadeza transforma a alma pela autocomunica\u00e7\u00e3o de seu maior tesouro, a liberdade perfeita. Aniquilando-se, reconhecendo-se nada, a alma amorosa de Deus se abre para ter sua raz\u00e3o e vontade transformadas. De Deus recebe mais saber do que o contido nas escrituras, mais compreens\u00e3o do que a que est\u00e1 ao alcance da capacidade humana. A alma, sendo nada, possui tudo e n\u00e3o possui nada, v\u00ea tudo e n\u00e3o v\u00ea nada, sabe tudo e n\u00e3o sabe nada. Recebida gratuitamente de Deus, a liberdade perfeita \u00e9 conquistada pela alma, num itiner\u00e1rio doloroso que implica o desprendimento de tudo o que representa alguma seguran\u00e7a: mandamentos, virtudes, conselhos, natureza, esp\u00edrito, vontade e desejo, o qual \u00e9 o grande motor que alavanca a alma para o encontro com a Deidade. Para ela, a alma que n\u00e3o se disp\u00f5e a perder sua vontade n\u00e3o est\u00e1 preparada para falar \u00e0 \u201cDama Divino Amor\u201d em sua c\u00e2mara secreta. A bem-amada \u00e9 aquela que n\u00e3o teme perda nem ganho, sen\u00e3o somente pelo bom prazer de Amor, pois, de outro modo, ela encontraria seu pr\u00f3prio interesse e n\u00e3o o dele (MARIANI; AMARAL, 2015, p. 93).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por suas ousadas aspira\u00e7\u00f5es espirituais vivenciadas fora de controle institucional, essas mulheres foram colocadas sob suspeita, pois revelaram em seus escritos o potencial cr\u00edtico da m\u00edstica. A experi\u00eancia de Deus como mist\u00e9rio indispon\u00edvel, combinada \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do limite da condi\u00e7\u00e3o humana diante da realidade divina e a impossibilidade de abarc\u00e1-lo, aparece nesses escritos como uma fina percep\u00e7\u00e3o da nobreza que se adquire atrav\u00e9s da humildade e do aniquilamento, e oferece clareza em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 relatividade de todas as media\u00e7\u00f5es que servem de amparo nesse caminho humano de busca por Deus, mas que acabam sendo, muitas vezes, transformadas em seguran\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos relatos encontramos descri\u00e7\u00f5es de processos que implicam o atravessamento das media\u00e7\u00f5es: acolhimento, submiss\u00e3o e posterior supera\u00e7\u00e3o de todo recurso oferecido pelas institui\u00e7\u00f5es como formas de rela\u00e7\u00e3o com Deus, em favor de uma proximidade maior. Isso quer dizer que Deus, em seu amor misericordioso, opera na alma (que \u00e9 o princ\u00edpio transcendente do humano), um \u00eaxodo, uma sa\u00edda de si, uma transforma\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica que a capacita para o encontro, isto \u00e9, para a uni\u00e3o m\u00edstica com o mist\u00e9rio. O centro da experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 a uni\u00e3o \u00edntima com o divino (MARIANI; AMARAL, 2015, p. 89).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No horizonte dessa m\u00edstica est\u00e1, portanto, a uni\u00e3o com Deus, que transforma a alma para uma rela\u00e7\u00e3o livre com o mundo, rela\u00e7\u00e3o nem sempre aceita e compreendida pelas institui\u00e7\u00f5es religiosas. Marguerite Porete foi condenada \u00e0 fogueira pela incompreens\u00e3o de sua obra entre as pessoas de religi\u00e3o, apesar de ter sido aprovada por importantes representantes da teologia de seu tempo<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Morreu queimada em Paris, no dia 1\u00ba de junho de 1310, impressionando a assist\u00eancia comovida, conforme o testemunho das cr\u00f4nicas da \u00e9poca, por seu sil\u00eancio e pelos sinais de penit\u00eancia, nobreza e devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando para o florescimento da m\u00edstica na Idade M\u00e9dia tardia, percebe-se que esse n\u00e3o foi tempo de trevas como julgaram os iluministas. Muita inspira\u00e7\u00e3o espiritual se capta na tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica desse per\u00edodo, que j\u00e1 anuncia a necessidade de uma \u201cm\u00edstica de olhos abertos\u201d (conforme denomina Metz, 2013) que se desenvolver\u00e1 no ocidente, posteriormente, com o advento da modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resgate do valor da pobreza evang\u00e9lica, o esfor\u00e7o de harmonizar contempla\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, a valoriza\u00e7\u00e3o de uma racionalidade ampla, intuitiva po\u00e9tica, a dimens\u00e3o cr\u00edtica provocada pela experi\u00eancia de intimidade com Deus e muitos outros elementos podem ser encontrados no estudo de textos de homens e mulheres desse per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Ceci M. C. Baptista Mariani<\/em>. PUC Campinas. Texto original portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARROS, J. A. Os trovadores medievais e o Amor Cort\u00eas: reflex\u00f5es historiogr\u00e1ficas. <em>Revista Aletheia<\/em>, S\u00e3o Jos\u00e9, v. 1, n. 1, abr.\/maio 2008. 15 p.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ECKHART, M. <em>O livro da divina consola\u00e7\u00e3o e outros textos seletos<\/em>. Bragan\u00e7a Paulista: Editora Universit\u00e1ria S\u00e3o Francisco, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Serm\u00f5es alem\u00e3es<\/em>: serm\u00f5es de 61 a 105. Bragan\u00e7a Paulista: Editora Universit\u00e1ria S\u00e3o Francisco; Petr\u00f3polis: Vozes, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORTE, B. <em>A teologia como companhia, mem\u00f3ria e profecia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Teologia em di\u00e1logo<\/em>: para quem quer e para quem n\u00e3o quer saber nada disso. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIBANIO, J. B. <em>Teologia da revela\u00e7\u00e3o a partir da modernidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MCGINN, B. <em>As funda\u00e7\u00f5es da m\u00edstica<\/em>: das origens ao s\u00e9culo V. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2012. Tomo\u00a0I.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>O florescimento da m\u00edstica<\/em>: homens e mulheres da nova m\u00edstica (1200-1350). S\u00e3o Paulo: Paulus, 2017. Tomo III.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARIANI, C. M. C. B. Marguerite Porete. In: BINGEMER, M. C.; PUNHEIRO, M. R. (Org.). <em>Narrativas m\u00edsticas<\/em>: antologias de textos m\u00edsticos da hist\u00f3ria do cristianismo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2006. p. 133-150.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARIANI, C. M. C. B. Marguerite Porete, m\u00edstica e te\u00f3loga do s\u00e9culo XIII. In: TEIXEIRA, F. (Org.). <em>Caminhos da m\u00edstica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2012. 75-111.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARIANI, C. M. C. B.\u037e AMARAL, M. J. C. A m\u00edstica como cr\u00edtica nas narrativas de mulheres medievais. <em>Revista de Cultura Teol\u00f3gica<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 23, p. 85-107, jul.\/dez. 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">METZ, J. B. <em>M\u00edstica de olhos abertos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIRENNE, H. <em>As cidades da Idade M\u00e9dia<\/em>. Lisboa: Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PORETE, M. <em>O espelho das almas simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo e no desejo do Amor<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PSEUDO-DION\u00cdSIO AREOPAGITA. <em>Teologia m\u00edstica<\/em>. Rio de Janeiro: Fissus, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ROUGEMONT, D. de. <em>O amor e o Ocidente<\/em>. Lisboa: Veja, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VINCENT, C. A m\u00edstica no Ocidente. In: CORBIN, A. <em>Hist\u00f3ria do Cristianismo<\/em>: para compreender melhor o nosso tempo. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VAUCHEZ, A<em>. A espiritualidade na Idade M\u00e9dia Ocidental<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VELASCO, J. M. <em>Experi\u00eancia crist\u00e3 de Deus<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Doze m\u00edsticos crist\u00e3os<\/em>: experi\u00eancia de f\u00e9 e ora\u00e7\u00e3o. Petr\u00f3polis: Vozes, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZUM BRUNN, E.; \u00c9PINEY-BURGARL, G. <em>Mujeres trobadoras de Dios<\/em>. Barcelona: Paid\u00f3s Iberica, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sobre a no\u00e7\u00e3o conciliar de revela\u00e7\u00e3o, vale conferir a obra de J. B. Libanio, <em>Teologia da revela\u00e7\u00e3o a partir da modernidade<\/em>, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A obra de McGinn, dedicada \u00e0 hist\u00f3ria e teologia da m\u00edstica crist\u00e3 ocidental, foi publicada em quatro volumes. Os dois primeiros, j\u00e1 traduzidos em portugu\u00eas, foram publicados pela editora Paulus. Estudam o primeiro grande per\u00edodo da m\u00edstica crist\u00e3 at\u00e9 o s\u00e9culo XII, o terceiro volume compreende o per\u00edodo posterior at\u00e9 o s\u00e9culo XVI, de florescimento das \u201cescolas\u201d cl\u00e1ssicas de m\u00edstica. O \u00faltimo volume \u00e9 sobre a crise da m\u00edstica, os desafios internos e externos enfrentados desde o s\u00e9culo XVI at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O presente verbete \u00e9 consagrado a alguns autores da m\u00edstica latina e necessita ser completado com o estudo de outros autores importantes desse per\u00edodo fecundo da hist\u00f3ria da m\u00edstica crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u00c9 refer\u00eancia importante para a compreens\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica-teol\u00f3gica desse momento a figura da Pedro Abelardo. A este prop\u00f3sito, \u00e9 interessante o trabalho em l\u00edngua portuguesa de Orlando Vilela, <em>O drama Helo\u00edsa Abelardo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o brasileira de S\u00edlvia Schwartz, publicada pela Editora Vozes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O livro de Maguerite foi, antes da sua primeira condena\u00e7\u00e3o em 1306, avaliado e aprovado por tr\u00eas nomes importantes, representantes dos grandes grupos que participavam das discuss\u00f5es teol\u00f3gicas da \u00e9poca: um frade menor, um monge cisterciense e um mestre em teologia da Universidade de Paris. O texto da aprova\u00e7\u00e3o figura \u00e0 maneira de ep\u00edlogo nos manuscritos das vers\u00f5es latina e italiana e a modo de pr\u00f3logo na vers\u00e3o inglesa.<\/p>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Elementos contextuais: as condi\u00e7\u00f5es para o surgimento da nova m\u00edstica 2 Nova atitude em rela\u00e7\u00e3o ao mundo: \u201claudato sie, mi signore, cun tucte le tue creature\u201d 3 A\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o: \u201ca excel\u00eancia de Marta sobre Maria\u201d 4 Aniquilamento e nobreza: sob a influ\u00eancia do Areopagita 5 M\u00edstica medieval e poesia trovadoresca: \u201cmulheres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2011","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2011","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2011"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2011\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2404,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2011\/revisions\/2404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2011"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2011"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2011"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}