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{"id":2009,"date":"2020-12-31T11:51:25","date_gmt":"2020-12-31T13:51:25","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2009"},"modified":"2021-02-10T15:56:39","modified_gmt":"2021-02-10T17:56:39","slug":"memorial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2009","title":{"rendered":"Memorial"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O conceito b\u00edblico de memorial<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.1 Memorial: no Antigo Testamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1.2 Memorial: no Novo Testamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O memorial eucar\u00edstico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1 O memorial e a compreens\u00e3o mist\u00e9rico-sacramental da eucaristia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2 A eucaristia, sacrif\u00edcio memorial<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.3 No memorial vivemos o \u201ctempo sacramental\u201d ou \u201ctempo redimido\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O conceito b\u00edblico de memorial <\/strong>(cf. CHENDERLIN, 1982; NEUNHEUSER, 1992)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia teol\u00f3gica do conceito de \u201cmemorial\u201d tem sua raiz na ordem de Jesus na \u00faltima ceia, ao instituir a <a href=\"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2031\">eucaristia<\/a>: \u201cFazei isto como meu memorial\u201d (cf. 1Cor 11,24-25; Lc 22,19). Jesus o diz em seu contexto hist\u00f3rico e cultural, a partir do horizonte veterotestament\u00e1rio e judaico que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. Cabe, pois, voltar \u00e0s ra\u00edzes b\u00edblicas de memorial\/<em>an\u00e1mnesis<\/em>\/<em>zikkaron<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMemorial\u201d \u2013 e n\u00e3o mem\u00f3ria \u2013 \u00e9 a melhor tradu\u00e7\u00e3o do grego <em>an\u00e1mnesis<\/em> que ocorre nas palavras de Jesus na \u00faltima ceia ao instituir a eucaristia e expressa o que ele mandou fazer todas as vezes que comemos do p\u00e3o e bebemos do vinho eucaristizados (cf. 1Co 11,24-25). A palavra grega, por sua vez, traduz o hebraico <em>zikkaron<\/em> que se encontra, por exemplo, em Ex 12,14, na narrativa da institui\u00e7\u00e3o da ceia pascal judaica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1.1 Memorial: no Antigo Testamento<\/strong> (cf. EISING, 1977)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro a dizer \u00e9 que <em>zakar<\/em> (<em>qal<\/em>), <em>mimne<sub>i<\/sub>skomai<\/em> (\u201clembrar\/lembrar-se\u201d), na B\u00edblia, n\u00e3o \u00e9 mera a\u00e7\u00e3o de uma subjetividade que se aferra ao passado. N\u00e3o \u00e9 retrospec\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou psicol\u00f3gica. Poderia dizer-se que \u201clembrar\u201d \u00e9 um <em>verbo performativo<\/em>, realiza algo, expressa uma a\u00e7\u00e3o com consequ\u00eancias para o presente e o futuro e, com isso, uma a\u00e7\u00e3o que, desde o passado, irrompe no presente, abrindo futuro. Para tomar um caso profano, n\u00e3o lit\u00fargico, pense-se na \u201crecorda\u00e7\u00e3o\u201d do copeiro do Fara\u00f3 em Gn 40,14.23 e 41,9. \u201cLembrar-se\u201d de Jos\u00e9 \u00e9 intervir em favor dele. Quando o mesmo verbo aparece no contexto religioso do culto ou da ora\u00e7\u00e3o, sua dimens\u00e3o performativa se refor\u00e7a, pois, quando Deus \u201cse recorda\u201d, atua salvificamente de acordo com suas promessas. Basta considerar que, em 68 ocorr\u00eancias veterotestament\u00e1rias do verbo <em>zakar<\/em> em <em>qal<\/em> (um dos modos da conjuga\u00e7\u00e3o verbal do hebraico), Deus \u00e9 o sujeito do \u201clembrar-se\u201d e o objeto \u00e9 sua a\u00e7\u00e3o em prol da humanidade, e quando o sujeito de <em>zakar<\/em> \u00e9 o ser humano, 69 vezes o objeto do ponto de vista gramatical \u00e9 Deus ou sua a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica. Essa men\u00e7\u00e3o significa que o passado recordado se torna atuante, cheio de efic\u00e1cia de salva\u00e7\u00e3o. Tal perspectiva \u00e9 comprovada pelo oposto, quando se considera um texto como Sl 34,17 ou 9,7: Deus apaga a lembran\u00e7a do \u00edmpio. Seu desaparecimento, como se nunca tivesse sido, \u00e9 atribu\u00eddo a Deus. De onde se deduz que o \u201crecordar-se\u201d de algu\u00e9m, por parte de Deus, \u00e9 algo que pertence, por assim dizer, \u00e0 ordem ontol\u00f3gica, \u00e9 existir diante de Deus e pela a\u00e7\u00e3o de Deus. \u201cO ser humano vive, porque Deus se lembra dele e este tem o dever de louvar a Deus, lembrando suas maravilhas\u201d (EISING, 1977, p.586). Por parte de Deus <em>zakar<\/em> \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o criadora em favor de seu povo (cf. EISING, 1977, p.591). O \u201clembrar(-se)\u201d \u00e9, pois, <em>eficaz, produz efeito<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O <\/em><em>sujeito da a\u00e7\u00e3o de \u201crecordar-se\u201d pode ser Deus ou o ser humano<\/em>, mas <em>o complemento, quando em contexto religioso, \u00e9 a alian\u00e7a, a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus, e a resposta humana positiva ou negativa<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, o grupo sem\u00e2ntico em torno \u00e0 palavra \u201cmemorial\u201d n\u00e3o deve ser estreitado s\u00f3 para um lado, como se um aspecto exclu\u00edsse o outro. Ao afirmar que o memorial visa a lembrar a Deus, n\u00e3o se exclui que vise tamb\u00e9m a lembrar ao ser humano e vice-versa.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto da alian\u00e7a, o grupo de palavras evoca o modo de peti\u00e7\u00e3o persistente e espalhado, acoplado com a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, no qual se pede a Deus pelo povo [&#8230;] para que \u201cse lembre de suas promessas de alian\u00e7a\u201d, uma pr\u00e1tica que, simultaneamente, sublinha que os pedintes est\u00e3o eles mesmos lembrando-se delas (CHENDERLIN: 1982, p. 216-217, \u00a7 448).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o conceito de <em>zikkaron<\/em> \u00e0 ideia de \u201clembrar(-se)\u201d se acrescenta a de sinal e, por isso, \u00e9 muitas vezes ligada a <em>\u2018\u00f4t<\/em>, sinal (cf. Js 4,6.7; Ex 13,9; Nm 17,3.5; Ex 12,13-14). E esse sinal pode ser tanto para Deus, como para o ser humano. E, portanto, ter a finalidade de lembrar a Deus como a de lembrar ao ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLembrar\u201d aparece, pois, como uma refer\u00eancia ao passado que se faz no presente. Mas \u00e9 preciso acrescentar tamb\u00e9m sua intencionalidade com rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Is 47,7 e Qo 11,8, por exemplo, mostram como tamb\u00e9m o futuro pode ser objeto do \u201clembrar-se\u201d. O futuro pode ser lembrado porque vir\u00e1, com toda a certeza, e ter\u00e1 consequ\u00eancias que se podem prever. Ou ainda, porque nele se realizar\u00e3o as promessas de Deus, j\u00e1 conhecidas. Ao presentificar culticamente a passada a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus, atualiza-se a promessa de salva\u00e7\u00e3o ligada ao evento e assim j\u00e1 acontece salva\u00e7\u00e3o. Lan\u00e7ar a Deus um clamor que recorda suas promessas desperta a esperan\u00e7a: elas h\u00e3o de cumprir-se. Dizer ao ser humano que se \u201clembre\u201d das a\u00e7\u00f5es de Deus na hist\u00f3ria incita \u00e0 obedi\u00eancia, \u00e0 observ\u00e2ncia dos mandamentos e, consequentemente, a acolher a salva\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A anamnese \u00e9 assim um \u201clembrar-se\u201d da origem que permanece decisiva para o presente e para o futuro. Lembra-se o passado para interpretar o presente e possibilitar o futuro (cf. FABRY, 1993, p. 590). O culto de Israel \u00e9 sempre uma anamnese. As festas \u2013 muitas delas ou at\u00e9 mesmo todas \u2013 origin\u00e1rias de uma religi\u00e3o da natureza s\u00e3o historizadas, tornam-se no Antigo Testamento anamnese dos grandes feitos de Deus: a liberta\u00e7\u00e3o do Egito (P\u00e1scoa), a concess\u00e3o da Tor\u00e1 (Pentecostes), a estadia do povo no deserto (Festa das Tendas). Desta maneira as festas testemunham a presen\u00e7a permanente de Deus na hist\u00f3ria, conjugando recorda\u00e7\u00e3o do passado, significado permanente e perspectiva escatol\u00f3gica. Assim se v\u00ea que n\u00e3o se trata de puro girar em torno a algo que se foi e n\u00e3o volta mais e est\u00e1 cada vez mais long\u00ednquo, mas \u00e0 anamnese \u00e9 pr\u00f3pria uma for\u00e7a atualizante que revela que a a\u00e7\u00e3o de Deus se mant\u00e9m no presente. Recordar \u00e9 uma media\u00e7\u00e3o entre a a\u00e7\u00e3o de Deus no passado que, como tal, permanece no passado e n\u00e3o se repete, e a significa\u00e7\u00e3o permanente dessa mesma a\u00e7\u00e3o que tem suas ra\u00edzes e origens naquele passado que se evoca na anamnese e \u00e9 mediada para o hoje atrav\u00e9s de uma celebra\u00e7\u00e3o ou de determinado gesto lit\u00fargico, como a realiza\u00e7\u00e3o da ceia pascal cada ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1.2 Memorial: no Novo Testamento<\/strong> (cf. MICHEL, 1942)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade dos termos memorial\/<em>an\u00e1mnesis<\/em>\/<em>zikkaron<\/em>, lembrar\/<em>zakar<\/em>\/<em>mimimne<sub>i<\/sub>skomai<\/em> permanece presente no Novo Testamento. \u201cA palavra de Jesus mostra sua for\u00e7a ao permanecer viva na lembran\u00e7a dos disc\u00edpulos\u201d (MICHEL 1942, p. 681). Pedro se lembra da profecia de Jesus sobre sua nega\u00e7\u00e3o e, por isso, chora amargamente (cf. Mc 14,72; Mt 26, 75; Lc 22,61-62). Mas \u00e9 especialmente depois da ressurrei\u00e7\u00e3o que se manifesta a efic\u00e1cia da \u201clembran\u00e7a\u201d dos disc\u00edpulos (cf. Lc 24,6.8). O Evangelho de Jo\u00e3o insiste nesse aspecto como fonte de f\u00e9 e de conhecimento (cf. Jo 2,22 e 12,16). \u201cRecordar-se\u201d \u00e9 verdadeiro conhecimento, porque resulta da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (cf. Jo 14,26). \u201cO Esp\u00edrito Santo confirma, consolida, esclarece a obra de Jesus e assim traz consigo uma recorda\u00e7\u00e3o definitiva, conclusiva\u201d (MICHEL 1942, p.681). A Tradi\u00e7\u00e3o, no sentido teol\u00f3gico forte do termo, \u00e9 esse \u201crecordar-se\u201d que se d\u00e1 pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na transmiss\u00e3o da Palavra, na conforma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da exist\u00eancia atrav\u00e9s do amor ao necessitado (cf. Hb 13,3), na celebra\u00e7\u00e3o da liturgia. N\u00e3o se trata de uma recorda\u00e7\u00e3o historizante, nem intelectualista, nem doutrin\u00e1ria, mas de uma vivifica\u00e7\u00e3o pela Palavra numa viv\u00eancia celebrada na liturgia sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Cristo. \u00c9 fundamental para a compreens\u00e3o do memorial\/<em>an\u00e1mnesis<\/em>\/<em>zikkaron<\/em> no sentido neotestament\u00e1rio essa afirma\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo como fonte e penhor do realismo salv\u00edfico que nela se opera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo o memorial \u00e9 eficaz, n\u00e3o corre o perigo de ser a <em>nuda commemoratio<\/em> que o Conc\u00edlio de Trento excluiu como explicita\u00e7\u00e3o do que acontece na eucaristia (cf. <em>DH<\/em> n. 1753). Atuando o Esp\u00edrito de Cristo, pode-se reconhecer a efic\u00e1cia do memorial. Ele \u00e9 capaz de tornar perene o sacrif\u00edcio de Cristo e fazer de n\u00f3s participantes de seu mist\u00e9rio salv\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tocante \u00e0 temporalidade do memorial, o Novo Testamento acrescenta um aspecto novo e essencial. As promessas de Deus se cumpriram definitivamente em Jesus Cristo (ele \u00e9 o \u201csim\u201d de Deus, cf. 2Co 1,20), chegaram os tempos escatol\u00f3gicos (cf. Hb 1,1), o futuro se torna presente, porque na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus os disc\u00edpulos apalparam com as m\u00e3os (cf. 1Jo 1,1) o futuro que nos cabe. A mem\u00f3ria \u00e9 assim tamb\u00e9m \u201cmem\u00f3ria do futuro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tendo em mente toda essa riqueza sem\u00e2ntica do termo b\u00edblico memorial\/<em>an\u00e1mnesis<\/em>\/<em>zikkaron<\/em> que se deve entender a ordem com que Jesus estabeleceu a itera\u00e7\u00e3o do rito criado por ele na \u00faltima ceia. A interpreta\u00e7\u00e3o da ordem de itera\u00e7\u00e3o como \u201cFazei isto para manter viva a minha mem\u00f3ria\u201d estreita e mesmo deturpa o sentido de \u201cmemorial\u201d. Primeiramente, porque entende \u201cmem\u00f3ria\u201d no sentido psicol\u00f3gico intimista. Se n\u00e3o se repete sempre o que Jesus fez, ele cair\u00e1 no esquecimento. Dependeria da a\u00e7\u00e3o humana o manter-se viva a lembran\u00e7a do Senhor e sua a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica. Nesse caso, o memorial seria mera a\u00e7\u00e3o humana e dependeria de nossa iniciativa a presentifica\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio pascal e nossa participa\u00e7\u00e3o na salva\u00e7\u00e3o que nos foi dada por Cristo. N\u00e3o fazemos o memorial \u201cpara manter viva\u201d a mem\u00f3ria de Jesus, sen\u00e3o que Deus mesmo nos convoca (como <em>ekklesia<\/em>) para celebrarmos o memorial e assim nos leva a \u201cmanter viva\u201d a mem\u00f3ria de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras palavras: o memorial \u00e9 dom. O memorial \u00e9 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo em sacramento, em mist\u00e9rio, em semelhan\u00e7a, segundo a din\u00e2mica pr\u00f3pria da a\u00e7\u00e3o sacramental (cf. GIRAUDO, 2003, p. 509-512). \u00c9 primeiramente a\u00e7\u00e3o de Deus que nos convoca (<em>ek-kles\u00eda<\/em>) para, na for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, realizarmos o sinal (<em>\u00f4t<\/em>) que \u00e9 memorial (<em>zikkaron<\/em>) do mist\u00e9rio de Cristo. O sinal \u00e9 o gesto de tomar p\u00e3o e vinho conforme a ordem de Jesus. Ele se torna memorial quando pronunciamos sobre as oferendas a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela obra salv\u00edfica consumada por Cristo. Memorial \u00e9 pura gra\u00e7a, porque obedi\u00eancia \u00e0 ordem do Senhor. \u00c9 Cristo quem age no Esp\u00edrito Santo para tornar-nos \u201ccontempor\u00e2neos\u201d do Calv\u00e1rio e do sepulcro do Ressuscitado, comungando do p\u00e3o que faz de n\u00f3s corpo de Cristo a ser entregue pelos demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito de memorial\/<em>an\u00e1mnesis<\/em>\/<em>zikkaron<\/em> n\u00e3o corresponde, portanto, ao uso corriqueiro do vocabul\u00e1rio de \u201clembran\u00e7a, mem\u00f3ria\u201d que denota subjetivismo. Numa hora nost\u00e1lgica volto meu pensamento ao passado e \u201crecordo\u201d os momentos alegres ou as passagens dolorosas da vida. O passado permanece passado, o presente \u00e9 alimentado por uma recorda\u00e7\u00e3o que desperta determinados sentimentos e a vida continua. \u00c9 pura nostalgia. No contexto b\u00edblico, lit\u00fargico, teol\u00f3gico, memorial \u00e9 muito mais; \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o estabelecida por Deus que nos reporta ao passado, d\u00e1 sentido ao presente e nos abre para o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O memorial eucar\u00edstico<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ra\u00edzes b\u00edblicas e judaicas de \u201cmemorial\u201d e seu uso no contexto da institui\u00e7\u00e3o da ceia pascal judaica (cf. Ex 12,14) iluminam a eucaristia como a p\u00e1scoa crist\u00e3, j\u00e1 que ela \u00e9 obedi\u00eancia \u00e0 ordem de itera\u00e7\u00e3o dada pelo Senhor na \u00faltima ceia que os Evangelhos Sin\u00f3ticos identificam como uma ceia pascal (cf. GIRAUDO, 2003, p. 127-143. GIRAUDO, 1989, p. 162-186).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.1 O memorial e a compreens\u00e3o mist\u00e9rico-sacramental da eucaristia<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compreens\u00e3o judaica do memorial pascal fica muito clara a partir do dito atribu\u00eddo pela tradi\u00e7\u00e3o talm\u00fadica ao Rabi Gamaliel, que seria ou o pr\u00f3prio mestre de Paulo no juda\u00edsmo (cf. At 22,3), ou seu neto hom\u00f4nimo. Ele resume de forma lapidar o que todo judeu piedoso vivia ao comer anualmente o cordeiro pascal, os p\u00e3es \u00e1zimos e as ervas amargas (cf. GIRAUDO, 2003, p. 112-115; GIRAUDO, 1989, p. 143-146):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em toda gera\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o, cada um \u00e9 obrigado a ver-se a si pr\u00f3prio como tendo <em>ele mesmo<\/em> sa\u00eddo do Egito, como foi dito \u201cE anunciar\u00e1s a teu filho naquele dia, dizendo: \u00c9 <strong>por causa disto<\/strong> que o Senhor <em>fez por mim<\/em> [o que ele fez], quando <em>sa\u00ed<\/em> do Egito\u201d [Ex 13,8]. N\u00e3o somente a nossos pais remiu o Santo \u2013 bendito seja Ele! \u2013, mas tamb\u00e9m <em>a n\u00f3s<\/em> remiu com eles, conforme est\u00e1 dito: \u201cE <em>nos fez<\/em> sair de l\u00e1, para <em>nos<\/em> fazer vir e dar-<em>nos<\/em> a terra que tinha jurado a nossos pais\u201d [Dt 6,23]. (GIRAUDO, 2003, 112s; negrito meu, it\u00e1lico do autor)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro observe-se o que est\u00e1 em it\u00e1lico, a saber: express\u00f5es que incluem no evento fundante \u2013 a liberta\u00e7\u00e3o do Egito \u2013 aquele que agora celebra a p\u00e1scoa. N\u00e3o foram eles s\u00f3, os nossos pais, mas <em>n\u00f3s hoje<\/em> que sa\u00edmos do Egito, <em>a n\u00f3s<\/em> o Alt\u00edssimo redimiu. Essa perspectiva \u00e9 confirmada por outro momento do ritual de P\u00e1scoa: a alegoria dos quatro filhos. O segundo filho, classificado como malvado, n\u00e3o se inclui na salva\u00e7\u00e3o operada na liberta\u00e7\u00e3o do Egito e assim tampouco na comunidade de Israel, negando, portanto, suas ra\u00edzes (cf. GIRAUDO, 1989, p. 137; GIRAUDO, 2003, p. 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 t\u00e3o fundamental saber-se inclu\u00eddo na celebra\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e irrepet\u00edvel de YHWH que n\u00e3o faz\u00ea-lo exclui do efeito salv\u00edfico pr\u00f3prio \u00e0 a\u00e7\u00e3o divina. Trata-se, pois, de uma compreens\u00e3o mist\u00e9rico-sacramental da ceia pascal, em que est\u00e1 em jogo a no\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria sacramental. Este \u00e9 o primeiro ponto que \u00e9 preciso ter presente para compreender a eucaristia como memorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo ponto a observar na cl\u00e1usula de Gamaliel \u00e9 o que est\u00e1 em negrito. Trata-se da interpreta\u00e7\u00e3o de Ex 13,8. \u201c\u00c9 por causa disto\u201d. Pode-se perguntar \u201cdisto\u201d qu\u00ea? No caso da P\u00e1scoa judaica: do cordeiro, do \u00e1zimo e das ervas amargas (cf. Ex 12,1-14). Vale dizer: os elementos essenciais que n\u00e3o podem faltar na ceia pascal judaica s\u00e3o os <em>sinais sacramentais<\/em> que <em>reportam figurativamente<\/em> os participantes da ceia ao evento pascal da passagem do Mar Vermelho (cf. Ex 14,15-31), evento \u00fanico e irrepet\u00edvel. Os comensais de hoje se tornam presentes <em>em mist\u00e9rio<\/em> ao evento fundador, s\u00e3o transportados por esses sinais \u00e0 passagem do Mar que, como todo acontecimento hist\u00f3rico, n\u00e3o se pode mais repetir. A P\u00e1scoa de hoje \u00e9 a mesma P\u00e1scoa dos pais. Sob o aspecto salv\u00edfico, no plano mist\u00e9rico-sacramental, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre o cordeiro, o \u00e1zimo e a erva amarga daquela \u00faltima ceia do Egito e os mesmos elementos da P\u00e1scoa atual. E \u201c\u00e9 <em>por causa disto<\/em>\u201d (do cordeiro, do \u00e1zimo, da erva amarga) que o Senhor nos remiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa perspectiva da ceia pascal judaica esclarece o sentido da eucaristia. Com a mesma inten\u00e7\u00e3o de instituir um <em>zikkaron<\/em>\/memorial\/<em>an\u00e1mnesis<\/em>, Jesus partiu o p\u00e3o e distribuiu o c\u00e1lice. A perspectiva mist\u00e9rico-sacramental herdada do juda\u00edsmo permite compreender o alcance do gesto de Jesus. Plagiando a admoesta\u00e7\u00e3o de Gamaliel cabe dizer:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, cada um de n\u00f3s \u00e9 obrigado a ver-se a si pr\u00f3prio \u2013 com os olhos penetrantes da f\u00e9 \u2013 como tendo estado l\u00e1 no Calv\u00e1rio na primeira Sexta-feira santa e diante da tumba vazia na manh\u00e3 da ressurrei\u00e7\u00e3o. Pois n\u00e3o s\u00f3 nossos pais estavam l\u00e1; mas tamb\u00e9m n\u00f3s todos, reunidos hoje aqui para celebrar a eucaristia, est\u00e1vamos l\u00e1 com eles, prestes a morrer na morte de Cristo e a ressurgir em sua ressurrei\u00e7\u00e3o (GIRAUDO, 2003, p. 90; GIRAUDO, 1989, p. 116).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos sinais do p\u00e3o e do vinho deixados por Jesus, n\u00f3s nos tornamos hoje salvificamente contempor\u00e2neos do evento redentor da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. Em mist\u00e9rio ou sacramento, participamos do acontecimento hist\u00f3rico \u00fanico e irrepet\u00edvel que trouxe a reden\u00e7\u00e3o para n\u00f3s. Por este p\u00e3o e este vinho sobre o qual se pronunciou a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as do memorial e para os quais se suplicou a vinda do Esp\u00edrito Santo, somos realmente transportados \u2013 na f\u00e9 \u2013 ao evento fundador e participamos dele. \u201c\u00c9 por causa disto\u201d (do sinal do p\u00e3o e do vinho sobre os quais se pronunciou o memorial de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as) que somos remidos (cf. JO\u00c3O PAULO II, 2003, n. 4; GIRAUDO, 2008, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transposi\u00e7\u00e3o da mistagogia judaica para a eucaristia permite captar melhor o realismo da eucaristia: pelo memorial da entrega do Senhor sob os sinais do p\u00e3o e do vinho n\u00f3s nos apropriamos da reden\u00e7\u00e3o em Cristo e ele se torna presente, como o verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do mundo. Tamb\u00e9m n\u00f3s podemos dizer: este p\u00e3o que agora partimos, \u00e9 aquele que Jesus partiu significando profeticamente seu corpo entregue por n\u00f3s; este vinho que est\u00e1 agora aqui no c\u00e1lice \u00e9 aquele vinho que Jesus bebeu na \u00faltima ceia, anunciando profeticamente seu sangue derramado (cf. GIRAUDO, 1989, p. 221-222. GIRAUDO, 2003, p. 168-169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 A eucaristia, sacrif\u00edcio memorial<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do realismo salv\u00edfico do memorial, pode-se reconhecer a eucaristia como sacrif\u00edcio. Neste ponto, o primeiro a fazer \u00e9 sublinhar que o car\u00e1ter sacrifical da eucaristia n\u00e3o empana a unicidade do sacrif\u00edcio de Cristo. Ele \u00e9 o sacerdote \u00fanico da nova e eterna alian\u00e7a; seu sacrif\u00edcio tamb\u00e9m \u00e9 \u00fanico, pois n\u00e3o \u00e9 ritual, mas hist\u00f3rico, vivencial, existencial e, como todo fato hist\u00f3rico, irrepet\u00edvel. Para express\u00e1-lo, no entanto, o autor da Ep\u00edstola aos Hebreus lan\u00e7a m\u00e3o de vocabul\u00e1rio cultual, ritual e sacerdotal, mas o transforma intrinsecamente, aplicando-o \u00e0 realidade profana da exist\u00eancia hist\u00f3rica de Jesus. A constante refer\u00eancia ao culto lev\u00edtico serve para distanciar-se dele e mostr\u00e1-lo superado pelo culto hist\u00f3rico realizado por Jesus, que culmina em sua morte de cruz. Como <em>acontecimento hist\u00f3rico<\/em>, com todos os horrores das torturas a que s\u00e3o submetidas pessoas condenadas como malfeitores, o sacrif\u00edcio de Cristo \u00e9 absolutamente irrepet\u00edvel, aconteceu de uma vez para sempre (cf. Hb 9,12 e 26) e, com isso, aboliu todos os sacrif\u00edcios. Destarte, Cristo \u00e9 o <em>fim<\/em> do sacerd\u00f3cio e dos sacrif\u00edcios, como o \u00e9 da Lei (cf. Rm 10,4). Fim significa ao mesmo tempo \u201ct\u00e9rmino\u201d e \u201cmeta\u201d. Nesse sentido, Cristo \u00e9 o fim e a realiza\u00e7\u00e3o de todo sacerd\u00f3cio, e sua vida, culminando na cruz e na ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9 o fim e a realiza\u00e7\u00e3o de todo sacrif\u00edcio. Nessa condi\u00e7\u00e3o tornam-se desnecess\u00e1rios ulteriores sacrif\u00edcios, pois por sua vida realizou definitivamente, escatologicamente, a pretens\u00e3o de todo ato sacrifical: apresentar-nos a Deus e ser acolhidos com um olhar ben\u00e9volo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessa afirma\u00e7\u00e3o irredut\u00edvel da unicidade do sacerd\u00f3cio e do sacrif\u00edcio de Cristo ilumina-se o sentido da eucaristia e de seu car\u00e1ter sacrifical. A eucaristia n\u00e3o \u00e9 o <em>pendant<\/em> neotestament\u00e1rio dos sacrif\u00edcios do templo. No templo de Jerusal\u00e9m (e nos sacrif\u00edcios de todas as religi\u00f5es), cada sacrif\u00edcio \u00e9 um novo ato sacrifical, distinto do anterior, de forma que podem ser numerados, e trinta sacrif\u00edcios valem mais do que dez. A eucaristia, ao contr\u00e1rio, \u00e9 todo o Calv\u00e1rio e nada mais que o Calv\u00e1rio. E nada lhe acrescenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreender como, apesar da unicidade e sufici\u00eancia do sacrif\u00edcio de Cristo, a eucaristia pode ser e \u00e9 \u201csacrif\u00edcio &lt;no sentido&gt; verdadeiro e pr\u00f3prio\u201d (<em>DH<\/em> n. 1751), vem em ajuda o conceito de memorial. Ele permite que se veja a eucaristia como totalmente relacional ao sacrif\u00edcio da cruz. \u00c9 sacrif\u00edcio porque memorial; \u00e9 sacrif\u00edcio porque sacramento do \u00fanico sacrif\u00edcio (cf. AVERBECK, 1967).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 No memorial vivemos o \u201ctempo sacramental\u201d ou \u201ctempo redimido\u201d<\/em> (<\/strong>PAMPALONI, 2008, p. 87-103)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o memorial nos torna contempor\u00e2neos \u00e0 a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que \u00e9 a morte de Jesus e sua manifesta\u00e7\u00e3o aos disc\u00edpulos como Ressuscitado, pode-se explic\u00e1-lo distinguindo entre \u201ctempo f\u00edsico\u201d e \u201c<em>tempo sacramental<\/em>\u201d. Respondendo ao questionamento de Calvino que negava a presen\u00e7a de Cristo no p\u00e3o eucar\u00edstico, porque estando ele no c\u00e9u, \u00e0 direita do Pai, n\u00e3o poderia estar, ao mesmo tempo, na terra sob as esp\u00e9cies de p\u00e3o e de vinho, o Conc\u00edlio de Trento faz uma importante distin\u00e7\u00e3o entre \u201cespa\u00e7o f\u00edsico\u201d e \u201c<em>espa\u00e7o sacramental<\/em>\u201d, declarando n\u00e3o haver contradi\u00e7\u00e3o entre ambos (cf. GIRAUDO, 2003, p.540). A presen\u00e7a de Cristo no c\u00e9u, \u00e0 direita do Pai, n\u00e3o obsta que ele esteja <em>presente para n\u00f3s<\/em> <em>sacramentalmente em sua subst\u00e2ncia<\/em>, em muitos outros lugares, \u201csegundo um modo de exist\u00eancia que, embora mal o possamos exprimir em palavras, podemos reconhecer pelo pensamento iluminado pela f\u00e9 como poss\u00edvel para Deus e no qual devemos crer firmemente\u201d (<em>DH<\/em> n. 1636).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras palavras: n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre a presen\u00e7a f\u00edsica \u2013 que, por defini\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanica \u2013 e a presen\u00e7a sacramental, m\u00faltipla, em todas as eucaristias que se celebram na face da terra. Da mesma forma, deve ser poss\u00edvel afirmar que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre o tempo f\u00edsico em que se realizou o sacrif\u00edcio do Calv\u00e1rio e sua perpetua\u00e7\u00e3o em cada \u201choje\u201d das celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas. O conceito de \u201ctempo sacramental\u201d \u00e9 muito feliz por evocar que \u00e9 em sacramento, em mist\u00e9rio, que, pelas palavras de Cristo e a invoca\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo (cf. CATECISMO DA IGREJA CAT\u00d3LICA, 2003, n. 1333; TABORDA, 2015, p. 287-309), nos tornamos aqui e agora contempor\u00e2neos do evento do Calv\u00e1rio e da experi\u00eancia feita pelas mulheres na manh\u00e3 do domingo junto \u00e0 tumba do Ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Massimo Pampaloni sugere que entendamos o \u201ctempo sacramental\u201d como uma irrup\u00e7\u00e3o de Deus no tempo cronol\u00f3gico, qualificando a este como \u201ctempo redimido\u201d (PAMPALONI, 2004, p. 98-100; TABORDA, 2015, p. 79-84). Na liturgia vivemos imersos na antecipa\u00e7\u00e3o sacramental do tempo redimido que \u00e9 o \u201ctempo\u201d que experienciaremos na comunh\u00e3o definitiva e escatol\u00f3gica com Deus. O tempo lit\u00fargico \u00e9, pois, tempo redimido que n\u00e3o vive a fragmenta\u00e7\u00e3o do aqui-e-n\u00e3o-l\u00e1, do agora-e-n\u00e3o-depois. A liturgia <em>n\u00e3o \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o<\/em> do passado; mas, transportando-nos pela f\u00e9 e pelos sinais sacramentais ao evento fundador, \u00e9, cada vez que se celebra, um passo ulterior em nossa caminhada rumo \u00e0 definitividade da uni\u00e3o plena com o Senhor no corpo eclesial escatol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nossa contemporaneidade com o passado e o futuro \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, porque, tendo subido aos c\u00e9us, nele j\u00e1 se realiza essa jun\u00e7\u00e3o<\/em>. Poder\u00edamos ilustr\u00e1-lo atrav\u00e9s de duas perspectivas b\u00edblicas que se encontram, respectivamente, na Ep\u00edstola aos Hebreus e no Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No <em>Apocalipse<\/em> o vidente v\u00ea o Cordeiro que est\u00e1 no centro do trono, de p\u00e9 e como que imolado (cf. Ap 5,6). O Cordeiro \u00e9 o Ressuscitado na gl\u00f3ria do Pai. Est\u00e1 de p\u00e9, como um triunfador, como algu\u00e9m que possui uma especial dignidade e pode ficar de p\u00e9 diante de Deus (cf. At 7,55). Mas ele est\u00e1 \u201ccomo que imolado\u201d, porque o Ressuscitado \u00e9 o Crucificado e Jesus est\u00e1 na gl\u00f3ria do Pai com toda sua hist\u00f3ria que culmina e se resume em sua morte. N\u00f3s \u2013 cada um de n\u00f3s \u2013 somos o que nos tornamos no decorrer de nossa hist\u00f3ria. Ningu\u00e9m nasce pronto; fazemo-nos dia a dia, atrav\u00e9s de nossas decis\u00f5es em face aos embates que sofremos, diante das circunst\u00e2ncias em que transcorre nossa exist\u00eancia, do cen\u00e1rio em que vivemos. Fazemo-nos a n\u00f3s mesmos cada dia, e somente no momento da morte podemos dizer quem verdadeiramente somos, pois s\u00f3 ent\u00e3o entramos na definitividade. Por isso Jesus, por ser verdadeiro homem, est\u00e1 junto do Pai com sua hist\u00f3ria, sua vida de entrega at\u00e9 \u00e0 cruz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na <em>Ep\u00edstola aos Hebreus<\/em>, Cristo \u00e9 apresentado como o verdadeiro sacerdote que supera e realiza o sacerd\u00f3cio lev\u00edtico. Ponto de partida \u00e9 a liturgia do Dia do Perd\u00e3o (<em>Yom Kippur<\/em>), o grande dia da expia\u00e7\u00e3o, a festa m\u00e1xima do templo de Jerusal\u00e9m (cf. Lv 16,3-34). Nesse \u00fanico dia do ano, o Sumo Sacerdote (e somente ele), para oferecer a Deus o sangue das v\u00edtimas, atravessava o v\u00e9u que separava do olhar profano a parte mais sagrada do templo, o Santo dos Santos. Mas, para que pudesse ter acesso \u00e0 presen\u00e7a do Alt\u00edssimo, precisava purificar-se dos pr\u00f3prios pecados pelo sacrif\u00edcio de novilhos e bodes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor da Ep\u00edstola aos Hebreus v\u00ea nessa liturgia do templo uma \u201csombra dos bens futuros\u201d (Hb 10,1). O verdadeiro sacerdote \u00e9 Cristo que entrou de uma vez por todas no verdadeiro Santo dos Santos, o c\u00e9u, sem precisar purificar-se previamente, porque feito semelhante a n\u00f3s em tudo, menos no pecado (cf. Hb 4,15). E ele entrou n\u00e3o por um ato ritual, mas por um ato hist\u00f3rico, sua morte como condenado, posto para fora do lugar sagrado e mesmo da Cidade Santa, tendo que levar sobre si a ignom\u00ednia da cruz (cf. Hb 13,12-13). Seu sacrif\u00edcio \u00e9 <em>ele pr\u00f3prio<\/em>, sua <em>vida<\/em>, sua <em>hist\u00f3ria<\/em>. Por isso mesmo supera todo culto antigo e l\u00e1 est\u00e1, junto do Pai, a interceder para sempre por n\u00f3s (cf. Hb 7,25), apresentando ao Pai sua vida desde a entrada no mundo (cf. Hb 10,5-7) at\u00e9 a morte na cruz (cf. Hb 13,12). Ele \u00e9, como diz a liturgia, \u201cao mesmo tempo sacerdote, altar e cordeiro\u201d (MISSAL ROMANO, Pref\u00e1cio da P\u00e1scoa V).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vista dessas duas perspectivas b\u00edblicas do Apocalipse e da Ep\u00edstola aos Hebreus, houve quem postulasse a admiss\u00e3o de um \u201csacrif\u00edcio celeste\u201d (LEPIN, 1926, p. 737-758). A hist\u00f3ria de cada um \u00e9 o que o identifica como esta pessoa (\u00e9 o \u201ccorpo\u201d da pessoa). Ora, na plenitude escatol\u00f3gica, n\u00e3o perdemos nossa identidade; pelo contr\u00e1rio, afirmamo-la, pois tamb\u00e9m l\u00e1 \u201ccarregaremos\u201d \u2013 para o bem e para o mal \u2013 nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, que \u00e9 a hist\u00f3ria de nossa liberdade. O mesmo vale do Cristo glorioso, de forma que o \u201csacrif\u00edcio celeste\u201d n\u00e3o \u00e9 \u201coutro sacrif\u00edcio\u201d, ao qual se referiria a eucaristia, mas o mesmo sacrif\u00edcio do Calv\u00e1rio perenizado na gl\u00f3ria como \u201csacrif\u00edcio celeste\u201d que serve como media\u00e7\u00e3o para que, celebrando a eucaristia, nos tornemos contempor\u00e2neos do sacrif\u00edcio da cruz perpetuado pela exist\u00eancia de Cristo na eternidade, o vencedor da morte que porta em seu corpo as chagas do Crucificado (cf. Jo 20,20 e 27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma: o memorial eucar\u00edstico faz Cristo presente e, com ele, sua vida, morte, ressurrei\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o no Esp\u00edrito, parusia, porque em seu mist\u00e9rio pascal Cristo redime o tempo. Pelo memorial, sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo (epiclese), participamos desse \u201ctempo redimido\u201d e, com isso, Cristo se torna presente <em>a n\u00f3s<\/em> e <em>em n\u00f3s<\/em>, transformando-nos, pela comunh\u00e3o, em seu corpo eclesial. Por isso, na ora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, depois de louvar o Pai, recordando (= memorial) o que fez por n\u00f3s em seu Filho Jesus e em vista dele, suplicamos que envie o Esp\u00edrito com a dupla finalidade: transformar os dons do p\u00e3o e do vinho no corpo e no sangue de Cristo, a fim de que, comungando, <em>n\u00f3s<\/em> possamos ser transformados no corpo eclesial (cf. GIRAUDO, 2003, p. 306-318; GIRAUDO, 1989,p. 436-439).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Francisco Taborda SJ \u2013 Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia. Texto original portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AVERBECK, W. <em>Der Opfercharakter des Abendmahls in der neueren evangelischen Theologie<\/em>. Paderborn: Bonifatius-Druckerei, 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CATECISMO DA IGREJA CAT\u00d3LICA. S\u00e3o Paulo; Petr\u00f3polis: Loyola, Paulinas, Ave-Maria, Paulus, Vozes, 1999 (reimpress\u00e3o: junho de 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHENDERLIN, F. <em>\u201cDo This as My Memorial\u201d<\/em>.\u00a0 The Semantic and Conceptual Background and Value of &#8216;anamnesis&#8217; in 1 Corinthians 11:24-25. Rome: Biblical Institute Press, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EISING, H. zakar. In: BOTTERWERK, G; RINGGREN, H. (eds.). <em>Theologisches W\u00f6rterbuch zum Alten Testament<\/em>. v. 2. Stuttgart; Berlin; K\u00f6ln; Mainz: Kohlhammer, 1977. p. 571-593.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FABRY, H.-J. Anamnese. III. Biblisch. In: KASPER, W. et al. (eds.). <em>Lexikon f\u00fcr Theologie und Kirche<\/em>. 3.ed. v. 1. Freiburg; Basel; Rom; Wien: Herder, 1993. p. 590-591.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GIRAUDO, C. <em>Eucaristia per la Chiesa<\/em>: Prospettive teologiche sull\u2019eucaristia a partire dalla <em>lex orandi<\/em>. Roma: Gregorian University Press; Brescia: Morcelliana, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Num s\u00f3 corpo<\/em>: tratado mistag\u00f3gico sobre a eucaristia. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Admira\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica<\/em>: para uma mistagogia da Missa \u00e0 luz da enc\u00edclica <em>Ecclesia de Eucharistia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JO\u00c3O PAULO II. <em>Enc\u00edclica Ecclesia de Eucharistia<\/em>, 17 de abril de 2003. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_20030417_eccl-de-euch.html\">http:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_20030417_eccl-de-euch.html<\/a> Acesso em: 27 fev 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LEPIN, M. <em>L\u2019id\u00e9e du sacrifice de la Messe d\u2019apr\u00e8s les th\u00e9ologiens depuis l\u2019origine jusqu\u2019\u00e0 nos jours<\/em>. Paris: Gabriel Beauchesne, 1926.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MICHEL, O. Mimine<sub>i<\/sub>skomai ktl. In: KITTEL, G. (ed.). <em>Theologisches W\u00f6rterbuch zum Neuen Testament<\/em>. v. 4. Stuttgart: W. Kohlhammer, 1942. p.678-687.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NEUNHEUSER, B. Memorial. In: SARTORE, D.; TRIACCA, A. M. (org.). <em>Dicion\u00e1rio de Liturgia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1992. p. 723-736.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAMPALONI, M. A liturgia como pastor do tempo. In: BARROS, P. C. (org.). <em>A servi\u00e7o do Evangelho<\/em>: estudos em homenagem a J. A. Ruiz de Gopegui, SJ, em seu 80\u00ba anivers\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2008. p. 87-103.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Lettura strutturale del Sermone <\/em>In Ascensione Christi<em> di Gregorio di Nissa<\/em>: teologia e percorsi sacramentali del testo. Roma: Facolt\u00e0 di Scienze Ecclesiastiche Orientali. Pontificio Istituto Orientale, 2004 (<em>pro manuscripto<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TABORDA, F. <em>O memorial da P\u00e1scoa do Senhor<\/em>: ensaios lit\u00fargico-teol\u00f3gicos sobre a eucaristia. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O conceito b\u00edblico de memorial 1.1 Memorial: no Antigo Testamento 1.2 Memorial: no Novo Testamento 2 O memorial eucar\u00edstico 2.1 O memorial e a compreens\u00e3o mist\u00e9rico-sacramental da eucaristia 2.2 A eucaristia, sacrif\u00edcio memorial 2.3 No memorial vivemos o \u201ctempo sacramental\u201d ou \u201ctempo redimido\u201d 1 O conceito b\u00edblico de memorial (cf. CHENDERLIN, 1982; NEUNHEUSER, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-2009","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2009","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2009"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2009\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2403,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2009\/revisions\/2403"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2009"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2009"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2009"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}