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{"id":2006,"date":"2020-12-31T11:46:02","date_gmt":"2020-12-31T13:46:02","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2006"},"modified":"2021-02-10T15:56:13","modified_gmt":"2021-02-10T17:56:13","slug":"ecologia-integral-e-etica-planetaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=2006","title":{"rendered":"Ecologia integral e \u00e9tica planet\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Ecologia integral: um \u201cnovo\u201d paradigma<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A emerg\u00eancia de uma \u201c\u00e9tica planet\u00e1ria\u201d<\/p>\n<p><em>2.1 A \u201cimpot\u00eancia da \u00e9tica\u201d e o desafio de uma \u00e9tica planet\u00e1ria<\/em><\/p>\n<p><em>2.2 Dignidade dos pobres \u2013 dignidade da Terra<\/em><\/p>\n<p><em>2.3 Dignidade da humanidade ou do g\u00eanero humano<\/em><\/p>\n<p><em>2.4 Dignidade da Terra e de sua Comunidade de vida<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o: uma \u201cnova\u201d \u00e9tica para um paradigma \u201cnovo\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso intuito, aqui, \u00e9 sondar os eventuais desdobramentos da rela\u00e7\u00e3o entre \u201cecologia integral\u201d e \u201c\u00e9tica planet\u00e1ria\u201d. Constatamos, de in\u00edcio, que paradigmas emergentes postulam uma total recomposi\u00e7\u00e3o da vida em sua complexidade. Neste sentido, testemunhamos uma m\u00fatua implica\u00e7\u00e3o entre processos de esgotamento do velho paradigma e paisagens e sendas descortinadas a partir do paradigma emergente. E, com isso, somos remetidos \u00e0 pergunta pelo tipo de rela\u00e7\u00e3o que haveria entre velho e novo paradigma. Dizia, a prop\u00f3sito, Zigmunt Bauman: \u201cO velho mundo est\u00e1 morrendo. Mas o novo ainda n\u00e3o nasceu\u201d. O embate entre velho e novo paradigma se daria, segundo nos parece, no interior de um mesmo processo hist\u00f3rico em que um paradigma alternativo vai emergindo mediante um processo duplo e simult\u00e2neo: radicaliza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do paradigma hegem\u00f4nico e potencializa\u00e7\u00e3o dos veios alternativos que despontam em meio a suas contradi\u00e7\u00f5es internas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Ecologia integral: um \u201cnovo\u201d paradigma<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode parecer redundante falar em \u201cecologia integral\u201d, posto que o termo \u201cecologia\u201d, compreendido a partir dos \u00e9timos que o comp\u00f5em (<em>o\u00edkos<\/em> + <em>l\u00f3gos<\/em>), remete-nos a princ\u00edpios que regem uma conviv\u00eancia harm\u00f4nica no seio da casa comum. E, da\u00ed, a conclus\u00e3o \u00f3bvia de que a integralidade se torna condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para que se possa falar em Ecologia. Como \u00e9 noto, \u201cecologia\u201d constitui um neologismo criado pelo bi\u00f3logo alem\u00e3o Ernst H\u00e4ckel que, em sua obra <em>Generale Morphologie der Organismen<\/em>, publicada em 1866, escreve:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ecologia entendemos a ci\u00eancia do relacionamento dos organismos com o mundo exterior, em que podemos reconhecer de uma maneira ampla os fatores da luta pela exist\u00eancia. [\u2026] \u00c0s condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia de natureza inorg\u00e2nica a que cada organismo deve submeter-se, pertencem, em primeiro lugar, as caracter\u00edsticas f\u00edsicas e qu\u00edmicas do <em>habitat<\/em>, o clima (luz, temperatura, umidade e letriza\u00e7\u00e3o da atmosfera), a qualidade da \u00e1gua, a natureza do solo, etc. Sob o nome de condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, compreenderemos o conjunto de rela\u00e7\u00f5es dos organismos entre si, rela\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ou desfavor\u00e1veis. (H\u00c4CKEL, 1866 apud KERBER, 2006, p. 71)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salta \u00e0 vista, portanto, a elei\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o como fio que une, como em uma teia, a complexidade dos organismos entre si. Inscrita na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de ecologia \u2013 \u201cci\u00eancia do <em>relacionamento<\/em> dos organismos com o mundo exterior\u201d \u2013, a no\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o das \u201ccondi\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia\u201d da rela\u00e7\u00e3o entre organismos e natureza inorg\u00e2nica, a saber: \u201cconjunto de <em>rela\u00e7\u00f5es<\/em> dos organismos entre si\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo assim, qual a raz\u00e3o de se continuar falando em \u201cecologia integral\u201d? Toda ecologia n\u00e3o seria, ao fim e ao cabo, integral? Qual o sentido, portanto, de acrescentar o adjetivo integral ao substantivo ecologia? A legitimar esse recurso n\u00e3o seria eventualmente a consci\u00eancia de que, dada a complexidade intr\u00ednseca \u00e0 ecologia enquanto tal, seja necess\u00e1rio o emprego de adjetivos no intuito de distinguir e explicitar, uma a uma, cada dimens\u00e3o que, articulada \u00e0s demais, comp\u00f5em essa intrincada trama?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, sentiu-se a necessidade de acrescentar adjetivos ao substantivo \u201cecologia\u201d para, assim, explicitar dimens\u00f5es outras que n\u00e3o fossem redut\u00edveis apenas ao \u00e2mbito da biologia. E isto se deu, basicamente, pelo fato de o termo ecologia ter sido, impropriamente, identificado sempre mais com \u201cambiente\u201d apenas. E, consequentemente, discursos e pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicos foram sendo cada vez mais compreendidos como relativos \u00fanica e exclusivamente \u00e0 defesa do ambiente, concebido como mero cen\u00e1rio da presen\u00e7a e atividade humanas. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, reduzir a complexidade da ecologia \u00e0 dimens\u00e3o ambiental, trairia a presen\u00e7a do inveterado antropocentrismo moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o temos, aqui, a pretens\u00e3o de reconstituir o inteiro processo no interior do qual foram sendo acrescentados adjetivos \u00e0 ecologia para explicitar v\u00e1rias de suas dimens\u00f5es constitutivas, no intuito de articul\u00e1-las reciprocamente e n\u00e3o separ\u00e1-las e menos ainda contrap\u00f4-las. De resto, nem seria aqui o lugar para faz\u00ea-lo (cf. KERBER, 2006, p. 61-85). Talvez seja oportuno, a tal prop\u00f3sito, salientar que a explicita\u00e7\u00e3o das outras dimens\u00f5es se deu a partir da delimita\u00e7\u00e3o da assim chamada ecologia natural ou ambiental. Conhecida \u00e9 a proposi\u00e7\u00e3o feita por F\u00e9lix Guattari de tr\u00eas ecologias: natural, social e mental (cf. GUATTARI, 1990). A ecologia<em> natural <\/em>se ocuparia do ambiente e quest\u00f5es conexas; a <em>social,<\/em> das quest\u00f5es referentes \u00e0s rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas e sociais; e a <em>mental<\/em> diria respeito \u00e0 subjetividade das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que tange \u00e0 ecologia <em>mental,<\/em> afirma-se que a natureza \u00e9 tamb\u00e9m interior ao ser humano e que, portanto, se d\u00e1 na mente sob a forma de energias ps\u00edquicas, s\u00edmbolos, arqu\u00e9tipos, padr\u00f5es de comportamento e mentalidades que exprimem atitudes de agress\u00e3o ou de acolhimento e cuidado (cf. BATESON, 1985; NAESS, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ecologia <em>social<\/em> se desenvolveu mais no sul global (cf. SHIVA, 1991) e, de modo especial, no continente latino-americano (cf. GUDYNAS, 1988; 1991). Nessas latitudes, buscou-se articular o grito da Terra ao grito do pobre, desmascarando a cumplicidade entre crise ambiental e injusti\u00e7a econ\u00f4mico-social. O pressuposto de base de tal posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que os limites da Terra coincidem com os limites do capitalismo neoliberal (cf. BOFF, 2009, p. 42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o passar dos anos, por\u00e9m, tem ficado cada vez mais claro que, para salvaguardar a amplitude do termo ecologia, necessitar\u00edamos de imagin\u00e1-la como uma nova arte, um novo paradigma a pautar nossas rela\u00e7\u00f5es com o sistema-Vida e com o sistema-Terra. Da\u00ed a oportunidade de conceb\u00ea-la como um novo paradigma civilizacional, acrescentando ao termo ecologia mais um adjetivo, no caso, \u201cespiritual-integral\u201d, que corresponda a uma quarta dimens\u00e3o, de import\u00e2ncia capital para amalgamar as outras tr\u00eas j\u00e1 conhecidas. Da\u00ed a raz\u00e3o de se falar em \u201cquatro ecologias\u201d (cf. BOFF, 2012). Nesse caso, a ecologia seria concebida a partir de uma vis\u00e3o sist\u00eamica e, portanto, como singular complexidade composta por quadro dimens\u00f5es: ambiental, social, mental e espiritual\/integral. Na esteira de posi\u00e7\u00f5es epistemol\u00f3gicas de F. Capra (\u201cpensar sist\u00eamico\u201d), E. Morin (\u201cpensar complexo\u201d) e Boaventura de Sousa Santos (\u201cecologia do saber\u201d), Boff escreve:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imp\u00f5e-se, pois, a tarefa de ecologizarmos tudo que fazemos e pensamos, rejeitarmos os conceitos fechados, desconfiarmos das causalidades unidirecionadas, nos propormos a ser inclusivos contra todas as exclus\u00f5es, conjuntivos contra todas as disjun\u00e7\u00f5es, hol\u00edsticos contra todos os reducionismos, complexos contra todas as simplifica\u00e7\u00f5es. Assim, o novo paradigma come\u00e7a a fazer a sua hist\u00f3ria\u201d (BOFF, 1995, p. 32).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A emerg\u00eancia de uma \u201c\u00e9tica planet\u00e1ria\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 \u00a0A <\/em><\/strong><strong><em>\u201cimpot\u00eancia da \u00e9tica\u201d<\/em><\/strong><strong><em> e o desafio de uma \u00e9tica planet\u00e1ria<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encontramo-nos hoje em uma situa\u00e7\u00e3o de \u201cimpot\u00eancia da \u00e9tica\u201d. De fato, a \u00e9tica se descobre incapaz de impedir a tecnologia na efetiva\u00e7\u00e3o de suas possibilidades. Tudo o que \u00e9 poss\u00edvel de ser feito parece ter assumido, em nossos dias, legitimidade e, portanto, passa a ser buscado mediante uma esp\u00e9cie de compuls\u00e3o obsessiva. No bojo do paradigma moderno \u2013 antropoc\u00eantrico e cient\u00edfico-t\u00e9cnico \u2013 os meios eram empregados para se atingir determinados fins. Naquele contexto, mediante a cl\u00e1ssica rela\u00e7\u00e3o entre instrumentalidade e finalidade, garantia-se uma composi\u00e7\u00e3o relativamente harm\u00f4nica entre t\u00e9cnicas e \u00e9tica. Enquanto a \u00e9tica se destinava \u00e0s finalidades \u00faltimas, as t\u00e9cnicas se ocupavam dos meios adequados para atingi-las. Era, portanto, a \u00e9tica que promovia a t\u00e9cnica, enquanto tocava-lhe a decis\u00e3o referente aos fins que deviam, por seu turno, orientar os processos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossos dias, essa situa\u00e7\u00e3o parece ter se invertido. A tecnoci\u00eancia n\u00e3o necessita mais da \u00e9tica para lhe prescrever as regras e as finalidades de seu operar. A \u00e9tica se descobre condicionada pela tecnoci\u00eancia no sentido de se sentir constrangida a tomar parte de uma realidade artificial. Os fins passam a ser, agora, os resultados dos procedimentos t\u00e9cnicos. O fazer concebido como simples produ\u00e7\u00e3o de resultados assume o primado sobre o agir concebido como escolha e decis\u00e3o dos fins. A \u00e9tica, por sua vez, encontra diante de si os resultados dos procedimentos t\u00e9cnicos e, sem t\u00ea-los escolhido, n\u00e3o consegue mais deles prescindir (cf. GALIMBERTI, 2006; 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u201cIdade da Tecnoci\u00eancia\u201d, constata-se o primado de um fazer afinalista. Pressionada pela cria\u00e7\u00e3o de um mundo cada vez mais artificial, produto das tecnologias contempor\u00e2neas, a \u00e9tica n\u00e3o pode mais dispor de outro referente a n\u00e3o ser a produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica cont\u00ednua. Por caracterizar-se como um fazer afinalista, ele tamb\u00e9m se revela, ao fim e ao cabo, como impessoal. Em nossos dias, os efeitos desse fazer n\u00e3o s\u00e3o fruto de decis\u00f5es tomadas pelo agir humano. S\u00e3o, ao contr\u00e1rio, resultados de procedimentos e m\u00e9todos j\u00e1 em andamento e que tem, no saber acumulado, sua \u00fanica base. Nesse sentido, as tecnologias seguem o seguinte racioc\u00ednio: os resultados v\u00e3o se acumulando ao longo de e mediante os pr\u00f3prios procedimentos de tal forma que os efeitos n\u00e3o possam mais ser reconduzidos aos agentes iniciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossas \u00e9ticas, amadurecidas no seio da tradi\u00e7\u00e3o ocidental, tinham, sem exce\u00e7\u00e3o, um referente diverso: cosmol\u00f3gico (Antiguidade Cl\u00e1ssica), teol\u00f3gico (Idade M\u00e9dia), antropol\u00f3gico ou ideol\u00f3gico (Modernidade). Justamente por seu car\u00e1ter religioso ou humanista \u00e9 que tais \u00e9ticas se encontram hoje numa situa\u00e7\u00e3o de inelut\u00e1vel impot\u00eancia. Elas n\u00e3o conseguem transpor o universo das rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas para alcan\u00e7ar uma realidade artificial que tem pretens\u00f5es de universalidade e cuja extens\u00e3o \u00e9, para todos os efeitos, planet\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, mesmo tentativas recentes de se propor \u00e9ticas que acolham os grandes desafios que nos s\u00e3o postos hoje esbarram nessa condicionante antropoc\u00eantrica e\/ou religiosa. Segundo nos parece, esse \u00e9 o caso da \u201c\u00c9tica da responsabilidade\u201d proposta por Hans Jonas (JONAS, 2006), da \u201c\u00c9tica comunicativo-discursiva\u201d de Habermas (HABERMAS, 2003), da \u201c\u00c9tica Global\u201d do te\u00f3logo su\u00ed\u00e7o Hans K\u00fcng (K\u00dcNG, 1992) e, por fim, da \u201c\u00c9tica da liberta\u00e7\u00e3o ou comunit\u00e1ria\u201d de Enrique Dussel (DUSSEL, 1987). Na medida em que a refer\u00eancia fundamental para a constru\u00e7\u00e3o da \u00e9tica ainda \u00e9 o ser humano (primeiro e segundo casos), a religi\u00e3o (terceiro caso) ou ainda a sociedade (quarto caso), encontramo-nos ainda referidos ao paradigma antropoc\u00eantrico, t\u00edpico da modernidade ocidental cient\u00edfico-t\u00e9cnica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao propor-nos uma \u201c\u00e9tica planet\u00e1ria\u201d, Leonardo Boff talvez seja o \u00fanico que, de fato, acolha os desafios postos pela assim chamada crise ecol\u00f3gica, compreendida como uma crise sist\u00eamica: crise do paradigma civilizacional hegem\u00f4nico. Por isso mesmo, ele prop\u00f5e uma \u00e9tica que se situe no bojo de um novo e emergente paradigma, o ecol\u00f3gico (BOFF, 2003; HATHAWAY; BOFF, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma poss\u00edvel alternativa \u00e0s \u00e9ticas amadurecidas no bojo da tradi\u00e7\u00e3o ocidental talvez pudesse ser proposta a partir da revisita\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias e princ\u00edpios \u00e9ticos de nossos povos amer\u00edndios pelas Constitui\u00e7\u00f5es Plurinacionais dos Estados da Bol\u00edvia e do Equador. Ambas as Constitui\u00e7\u00f5es se inspiraram em princ\u00edpios \u00e9ticos das na\u00e7\u00f5es e povos Aimara, Qu\u00e9chua e Guarani para elaborarem suas atuais Cartas Magnas. A Constitui\u00e7\u00e3o do Estado Plurinacional do Equador reconhece os direitos da Terra enquanto superorganismo, elaborando leis que tutelem a justi\u00e7a ecol\u00f3gica e punam os respons\u00e1veis por delitos ambientais. A Constitui\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia recupera e recria o \u201cBem viver\u201d como princ\u00edpio \u00e9tico fundamental de seu Estado Plurinacional. \u201cBem viver\u201d n\u00e3o \u00e9 o mesmo que \u201cviver bem\u201d entendido como \u201cviver melhor\u201d, lema de nossas civiliza\u00e7\u00f5es ocidentais consumistas. \u201cBem viver\u201d implica em: priorizar a vida, retomar a unidade de todos os povos, aceitando e respeitando as diferen\u00e7as entre os seres que vivem no mesmo planeta e priorizando os direitos c\u00f3smicos (ACOSTA; MART\u00cdNEZ, 2009a; 2009b e 2011).<\/p>\n<p><strong><em>2.2 Dignidade dos pobres \u2013 dignidade da Terra<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A elei\u00e7\u00e3o do termo \u201cdignidade\u201d em alternativa a \u201cdireitos\u201d necessita de uma justificativa pr\u00e9via. \u201cDireitos\u201d e seus derivados remetem-nos, em nossa opini\u00e3o, ao projeto t\u00edpico da Modernidade colonial de emancipa\u00e7\u00e3o do sujeito em seu af\u00e3 de dom\u00ednio e autonomia. Mediante a reivindica\u00e7\u00e3o, sobretudo do direito de possuir e dominar, o sujeito moderno colonial vai se emancipando de todos e de tudo que o vincule de alguma forma \u00e0 pr\u00f3pria \u201ccomunidade de vida\u201d. \u201cDignidade\u201d, ao contr\u00e1rio, remete-nos \u00e0 consci\u00eancia b\u00edblica de um dom gratuitamente recebido e, somente enquanto tal, pass\u00edvel de conquista, no bojo de uma rela\u00e7\u00e3o entre Criador e criatura e, portanto, entre o Criador e todas as criaturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, tentativas p\u00f3s-iluministas de deslocar a discuss\u00e3o acerca dos direitos humanos para o terreno da moral tornam-se cada vez mais problem\u00e1ticas por se mostrarem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, amb\u00edguas. N\u00e3o se quer, com isso, desmerecer a posi\u00e7\u00e3o inaugurada por I. Kant, que reconhecia a dignidade humana com base na liberdade e na raz\u00e3o aut\u00f4noma e, portanto, emancipada. Na opini\u00e3o dele, a especificidade da dignidade humana estaria ligada \u00e0 vontade e \u00e0 liberdade do ser humano de poder outorgar a si pr\u00f3prio uma lei que transcendesse suas necessidades naturais, psicol\u00f3gicas e sociais. Deste modo, ultrapassando os pr\u00f3prios interesses, o ser humano seria capaz de projetar-se de maneira livre e desimpedida na realiza\u00e7\u00e3o dos imperativos \u00e9ticos universais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma concep\u00e7\u00e3o t\u00e3o elevada revela-se, paradoxalmente falando, extremamente fr\u00e1gil justamente por pressupor uma avalia\u00e7\u00e3o demasiadamente sublime do sujeito. Essa concep\u00e7\u00e3o elevada do ser humano, posto que fundada na raz\u00e3o, vontade livre e aptid\u00e3o em dominar o tempo, mediante capacidade de mem\u00f3ria e de projetualidade, resistiria face \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 pessoas que s\u00e3o desprovidas ou que perderam essas eminentes qualidades? Por mais elevada que seja essa concep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se configuraria como uma armadilha cujos ref\u00e9ns seriam os mais fracos e, portanto, aqueles que mais necessitam de que a pr\u00f3pria dignidade seja tutelada? Nesse sentido, n\u00e3o estar\u00edamos hoje percebendo melhor a pertin\u00eancia do que, a tal prop\u00f3sito, dizia Schopenhauer: \u201cs\u00f3 como ironia o conceito de dignidade pode ser aplicado a um ser de vontade t\u00e3o pecaminosa e de corpo t\u00e3o vulner\u00e1vel e fr\u00e1gil como o ser humano\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem outra \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o dos textos inspiradores de nossa tradi\u00e7\u00e3o judeu-crist\u00e3, para os quais a dignidade \u00e9 conferida como dom gratuito ao conjunto dos viventes e a cada ser vivo em especial. Essa era, de fato, a consci\u00eancia presente nos textos primordiais de nossa tradi\u00e7\u00e3o de f\u00e9 quando, por exemplo, segundo a legisla\u00e7\u00e3o veterotestament\u00e1ria, os dias e anos sab\u00e1ticos deviam valer tamb\u00e9m para os animais e para a pr\u00f3pria terra. O texto do Lv 25\u201326 prescreve o \u201cs\u00e1bado da terra\u201d; e os textos de Ex 23 e de Lv 25 recomendam que, durante o ano sab\u00e1tico, se deixe a terra inculta para propiciar o direito da respiga aos pobres e para que a pr\u00f3pria terra descanse de sua fadiga. Todavia, o texto mais expressivo desta consci\u00eancia \u00e9 a amea\u00e7a divina de que o povo escolhido ser\u00e1 entregue ao cativeiro da Babil\u00f4nia at\u00e9 que a terra \u2013 a terra de Deus \u2013 tenha desfrutado todos os seus s\u00e1bados (cf. 2Cr 36,21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2.1 Dignidade da humanidade ou do g\u00eanero humano<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possui a humanidade como um todo dignidade? Ao que parece, esta quest\u00e3o n\u00e3o tem sido posta apesar de sua pertin\u00eancia e relev\u00e2ncia. Embora pare\u00e7a \u00f3bvia, a resposta a esta quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o tranquila assim, pelo simples fato da dignidade da humanidade n\u00e3o coincidir simplesmente com a somat\u00f3ria da dignidade de cada ser humano tomado singularmente. A grande amea\u00e7a \u00e0 dignidade da humanidade s\u00e3o os assim chamados \u201cdelitos da humanidade\u201d, entre os quais se destacam: o armamento nuclear, as armas qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas de destrui\u00e7\u00e3o massiva, as pesquisas no \u00e2mbito da biotecnologia e da nanotecnologia e, mais recentemente, a emerg\u00eancia de epidemias vir\u00f3ticas provocadas pela invas\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o humanas dos v\u00e1rios ecossistemas naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esp\u00e9cie humana nunca se descobriu t\u00e3o vulner\u00e1vel e mortal como nos dias atuais. Sabemos ser possuidores hoje, por exemplo, de armas nucleares suficientes para, em poucos minutos, destruir n\u00e3o apenas uma, mas v\u00e1rias vezes o Planeta. Vivemos, ademais, sob a amea\u00e7a constante da possibilidade de guerras qu\u00edmicas e nucleares e, nos \u00faltimos anos, ref\u00e9ns do surgimento de epidemias vir\u00f3ticas. Chegou-se a cunhar uma express\u00e3o que pudesse caracterizar esta peculiaridade de nossas sociedades ocidentais contempor\u00e2neas: \u201csociedade de risco\u201d (BECK, 2010). E o car\u00e1ter paradoxal e, ao mesmo tempo, alarmante de tais sociedades \u00e9 que o risco n\u00e3o \u00e9 mais representado pela experi\u00eancia ontol\u00f3gica da incompletude do ser humano nem de sua hist\u00f3rica sensa\u00e7\u00e3o de limite, mas pela consequ\u00eancia desastrosa da pr\u00f3pria atividade humana. De express\u00e3o da impot\u00eancia fundamental do ser humano diante de um mundo que o ultrapassa, o risco passa a ser percebido agora como o pre\u00e7o a pagar pelo exacerbado e inconsequente poder humano sobre esse mesmo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Face \u00e0s recentes pesquisas no \u00e2mbito da biotecnologia, emerge na linha de nosso horizonte cultural uma nova amea\u00e7a: a da autodestrui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Pois, mediante o risco da utiliza\u00e7\u00e3o esp\u00faria da eugenia e da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 descartada a hip\u00f3tese que as manipula\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas possam de fato alterar o tipo gen\u00e9tico da esp\u00e9cie humana. E o que \u00e9 ainda pior, esse funesto pesadelo do risco constante tem propiciado ainda mais o individualismo, em vez de fomentar a busca de solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis mediante uma consci\u00eancia crescente acerca da dignidade da esp\u00e9cie humana. A capacidade de aprender a lidar e a conviver com o risco constante tem se transformado num dos objetivos principais a serem perseguidos pelo ser humano. Em fun\u00e7\u00e3o disso, a realiza\u00e7\u00e3o humana passa a consistir, sobretudo, numa opera\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tudo isso, constatamos que o exagerado acento que se tem dado em nossos dias aos direitos individuais est\u00e1 nos conduzindo, paradoxalmente falando, a uma situa\u00e7\u00e3o de nega\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos da humanidade \u00e0 exist\u00eancia e \u00e0 sobreviv\u00eancia. O que est\u00e1 em jogo, ao final das contas, \u00e9 o direito da exist\u00eancia e da sobreviv\u00eancia das futuras gera\u00e7\u00f5es e, portanto, da esp\u00e9cie humana. Por esta raz\u00e3o, torna-se cada vez mais urgente atentar para o fato que, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, o direito da humanidade como um todo deve exercer uma primazia incondicional sobre os direitos particulares e individuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse particular contexto, necess\u00e1rio se faz alargar nossa concep\u00e7\u00e3o usual do que chamamos \u201chumanidade\u201d. Ela n\u00e3o deve ser considerada apenas a partir de um corte transversal do tempo, como o conjunto das pessoas que vivem numa determinada \u00e9poca. \u00c9 preciso compreend\u00ea-la tamb\u00e9m a partir de um corte longitudinal, como a sucess\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es humanas. Essa ruptura, que vem caracterizando de maneira acentuada a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental hodierna, pode se tornar fatal para a humanidade como um todo. Exemplos dessa falta de percep\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao conjunto da humanidade e ao futuro da esp\u00e9cie humana, infelizmente, n\u00e3o faltam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe-se hoje que, sobretudo em virtude do crescimento desmedido das na\u00e7\u00f5es industrializadas, corremos o risco de que sejam esgotadas, ainda na presente gera\u00e7\u00e3o, as fontes de energia n\u00e3o renov\u00e1vel como \u00f3leo, carv\u00e3o, madeira e petr\u00f3leo. Usufru\u00edmos, portanto, das vantagens e do bem-estar produzidos pela industrializa\u00e7\u00e3o, empurrando o pesado \u00f4nus e suas desastrosas consequ\u00eancias para as gera\u00e7\u00f5es futuras. O exemplo mais caracter\u00edstico, talvez, seja o do excessivo lixo que produzimos. Toneladas de lixo e de dejetos produzidos por n\u00f3s, na melhor das hip\u00f3teses, levar\u00e3o d\u00e9cadas para serem reciclados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o que quase nunca \u00e9 posta, em tal contexto, \u00e9 a da tutela dos direitos econ\u00f4micos fundamentais como condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima para que a esp\u00e9cie humana viva com dignidade. Referimo-nos aqui aos direitos elementares, tais como: alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, trabalho, moradia. Direitos estes que por serem fundamentais se tornam imprescind\u00edveis para que se possa garantir a cada uma e a todas as pessoas condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para se viver com dignidade (cf. BOFF, 1991). A tutela desses direitos econ\u00f4micos fundamentais implica em maior democratiza\u00e7\u00e3o da economia e da solidariedade propiciando a emerg\u00eancia de um mundo em que caibam todos os mundos. Pois o mundo no qual vivemos tem se caracterizado por uma sistem\u00e1tica e crescente exclus\u00e3o de nada menos que 2\/3 da inteira popula\u00e7\u00e3o do planeta. Precisamente aqui, se revela o car\u00e1ter estruturalmente excludente da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. A agravar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que, n\u00e3o apenas os seres humanos, tamb\u00e9m o planeta Terra, est\u00e3o \u00e0 merc\u00ea de uma economia neoliberal que se imp\u00f5e como a maior de todas as fatalidades do \u201cnosso tempo\u201d. \u00c0 injusti\u00e7a social e econ\u00f4mica, portanto, vem se assomar a injusti\u00e7a ecol\u00f3gica. \u00c9 por isso que os direitos sociais e econ\u00f4micos devem ser problematizados em sintonia com as condi\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas e naturais do Planeta (cf. MOLTMANN, 1990, p. 135-152; BOFF, 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2.2 Dignidade da Terra e de sua Comunidade de vida<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o melhor que temos da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal e de seus efeitos desastrosos com rela\u00e7\u00e3o ao planeta Terra e \u00e0s pessoas que nela habitam talvez seja aquela feita com invej\u00e1vel rigor e plasticidade por Edgard Morin. Segundo ele, estamos navegando rumo a uma era planet\u00e1ria movida por duas h\u00e9lices. As h\u00e9lices n\u00e3o remontam propriamente \u00e0 imagem do avi\u00e3o, mas aos modelos helicoidais do nosso DNA. A primeira se encontra sob a hegemonia do poder-domina\u00e7\u00e3o e \u00e9 impulsionada por quatro motores: a ci\u00eancia sujeita \u00e0 t\u00e9cnica que, por sua vez, \u00e9 submetida \u00e0 ind\u00fastria, que, por sua vez, \u00e9 subordinada \u00e0 l\u00f3gica do lucro. Deste modo, segundo Morin, a nave espacial Terra \u00e9 colocada em movimento por esses quatro motores interconectados. A segunda distingue-se pela luta pelos direitos da pessoa humana, pelo direito dos povos \u00e0 soberania, aos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, democracia (cf. MORIN, 2002, p. 225-243). Consciente desta alarmante situa\u00e7\u00e3o, pergunta E. Morin: \u201cSeremos capazes de ir rumo a uma sociedade-mundo portadora do nascimento da pr\u00f3pria humanidade? Eis a quest\u00e3o. A humanidade est\u00e1 em forma\u00e7\u00e3o. H\u00e1 possibilidade de recha\u00e7ar a barb\u00e1rie e realmente civilizar os humanos? Ser\u00e1 poss\u00edvel salvar a humanidade, realizando-a? Nada est\u00e1 definido, nem o pior\u201d (MORIN, 2002, p. 295).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez tenha se tornado um lugar comum a afirma\u00e7\u00e3o de estarmos atravessando, para todos os efeitos, uma crise ecol\u00f3gica. O que se convencionou chamar de crise ecol\u00f3gica corresponde na verdade a uma crise do paradigma civilizacional do Ocidente. Tratar-se-ia, nesse caso, de uma crise no sistema disciplinado mediante o qual a sociedade atual se orienta e organiza o conjunto de suas rela\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, esta crise se daria mais propriamente no conjunto de modelos ou de padr\u00f5es a partir dos quais organizamos nossa rela\u00e7\u00e3o conosco mesmos, com as demais pessoas e com o conjunto da realidade na qual estamos inseridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se encontra em crise, na verdade, \u00e9 o paradigma tipicamente ocidental, sintoma de um incorrig\u00edvel antropocentrismo, expresso na peculiar atitude de se colocar sobre as coisas, objetivando-as, e julgando-as distantes e desconectadas do ser humano considerado como sujeito. A vontade desenfreada do ser humano de tudo dominar tem marcado os destinos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental t\u00e9cnico-cient\u00edfica. A exacerba\u00e7\u00e3o do saber concebido como poder est\u00e1 nos conduzindo, paradoxalmente falando, \u00e0 total sujei\u00e7\u00e3o aos imperativos de uma Terra degradada. A ilus\u00e3o, enfim, de um crescimento desmedido e de um progresso ilimitado nos est\u00e1 levando a uma degrada\u00e7\u00e3o sem precedentes, percept\u00edvel, sobretudo, na deteriora\u00e7\u00e3o progressiva da qualidade de vida nossa, dos demais seres vivos e do pr\u00f3prio Planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista do direito privado, esse antropocentrismo inveterado se revela na oficializa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica da exist\u00eancia de \u201cpessoas\u201d e \u201ccoisas\u201d apenas. Essa r\u00edgida divis\u00e3o, aparentemente clara e distinta, reflete a cosmovis\u00e3o moderna que separa a realidade em \u201csujeitos\u201d e \u201cobjetos\u201d. Segundo essa configura\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica, sujeito mesmo \u00e9, a rigor, apenas o pr\u00f3prio indiv\u00edduo considerado em si mesmo: <em>cogito, ergo sum!<\/em> (Descartes). Todo o resto, inclusive as outras pessoas, s\u00e3o sistematicamente reduzidas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de meros \u201cobjetos\u201d. Essa \u00e9 a fatalidade do nosso paradigma civilizacional moderno. Segundo esse pressuposto, t\u00e3o somente o ser humano existe \u201cpor amor a si mesmo\u201d (Kant). Todo o resto existe apenas por causa dele e em fun\u00e7\u00e3o dele. O sentido das demais \u201ccoisas\u201d reside propriamente no seu estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do ser humano. Esse antropocentrismo moderno acaba, assim, produzindo uma situa\u00e7\u00e3o na qual a natureza resulta sem alma e os seres humanos, meros sujeitos incorp\u00f3reos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa hoje mais do que nunca salientar a reciprocidade entre a tutela da dignidade humana e a defesa da dignidade da Terra e, portanto, a m\u00fatua implica\u00e7\u00e3o entre ambas. Toda vez que se fere a dignidade das demais criaturas e do planeta como um todo, acaba-se desrespeitando a dignidade da pessoa humana. A natureza, entendida como o conjunto de todas as criaturas, deve ser protegida pelo que ela \u00e9 e n\u00e3o enquanto eventual potencial \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do ser humano. O planeta deve ser, portanto, salvaguardado em nome de uma dignidade que, para todos os efeitos, lhe \u00e9 pr\u00f3pria. Nesse sentido, salientamos a peculiar relev\u00e2ncia da \u201cCarta da Terra\u201d. Esse documento representa, na opini\u00e3o de L. Boff, membro da sua equipe de reda\u00e7\u00e3o: \u201cuma forma avan\u00e7ada de se compreender os direitos como direitos humanos, direitos sociais, direitos ecol\u00f3gicos e direitos da Terra, como Planeta vivo\u201d (BOFF, 2004, p. 10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o: uma \u201cnova\u201d \u00e9tica para um paradigma \u201cnovo\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrando que texto vem do termo latino <em>textum<\/em>, que quer dizer tecido, gostar\u00edamos de enredar alguns fios que foram aparecendo ao longo do percurso. Concebemos ecologia como singular complexidade a envolver quadro dimens\u00f5es: ambiental, social, mental e espiritual\/integral. E compreendemos, aqui, paradigma, em sentido amplo, a saber: conjunto de modelos ou de padr\u00f5es a partir dos quais a sociedade atual se orienta e organiza o conjunto de suas rela\u00e7\u00f5es. Empregamos, portanto, o termo paradigma no sentido de um sistema disciplinado mediante o qual organizamos nossa rela\u00e7\u00e3o conosco mesmos, com as demais pessoas e com o conjunto da realidade na qual estamos inseridos. Resta-nos, ainda, justificar a presen\u00e7a do adjetivo \u201cnovo(a)\u201d acompanhando os substantivos paradigma e \u00e9tica. \u201cNovo(a)\u201d, aqui, n\u00e3o significa recente, nem \u201cde moda\u201d, menos ainda \u201cde \u00faltima gera\u00e7\u00e3o\u201d. Este adjetivo \u00e9, aqui, proposto no sentido de \u201calternativo\u201d. Ao falarmos, portanto, em novo paradigma queremos nos referir \u00e0 emerg\u00eancia de poss\u00edveis alternativas ao paradigma hegem\u00f4nico que vem <em>grosso modo <\/em>caracterizando o tempo presente mediante a imposi\u00e7\u00e3o da tecnoci\u00eancia, do mercado e da m\u00eddia (TAVARES, 2014a, p. 382-401).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Propomos, em suma, a emerg\u00eancia de um novo paradigma civilizacional, precisamente o ecol\u00f3gico, concebido como trama tecida em torno a tr\u00eas n\u00f3s: complexidade, sustentabilidade e cuidado (TAVARES, 2014b, p. 13-24). Reputamos ainda que a emergente \u201c\u00e9tica planet\u00e1ria\u201d se caracterize por atitudes de perten\u00e7a e de cuidado para com todos os seres vivos. Na narrativa de Gn 2,4b-25, por exemplo, afloram rela\u00e7\u00f5es de perten\u00e7a e de cuidado como constitutivas do ato criador de Deus. E tudo \u00e9 dito metaforicamente. Ali, o Criador aparece como artes\u00e3o cuidadoso que plasma o ser humano do pr\u00f3prio barro da terra para que ele seja seu cultivador\/cuidador. Porque feito do barro da terra, o ser humano \u00e9 chamado a ser o cultivador da terra. Perten\u00e7a e cuidado, portanto, constituem simultaneamente a reinven\u00e7\u00e3o da nova rela\u00e7\u00e3o nossa com o sistema-Vida e com o sistema-Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Sinivaldo S. Tavares <\/em>OFM. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia. Texto original em portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ACOSTA, A.; MART\u00cdNEZ, E. <em>El Buen Vivir. <\/em>Uma via para el desarrollo.\u00a0 Quito:\u00a0 Abya-Yala, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______; ______. <em>Derechos de la Naturaleza<\/em>. El futuro es ahora. Quito: Abya-Yala, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______; ______. <em>La Naturaleza com Derechos. <\/em>De la filosofia a la pol\u00edtica. Quito: Abya-Yala, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BATESON, G. <em>Pasos hacia una ecologia de la mente<\/em>. Buenos Aires: Carlos Lohl\u00e9, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BECK, U. <em>Sociedade do risco<\/em>. Rumo a uma outra Modernidade. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, L. (coord.). <em>Direitos Humanos, Direitos dos Pobres<\/em>. S\u00e3o Paulo: Vozes 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Ethos mundial<\/em>. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Apresenta\u00e7\u00e3o da <em>Carta da Terra<\/em>. In: CDDH. <em>A Carta da Terra. <\/em>Valores e Princ\u00edpios para um Futuro Sustent\u00e1vel. Petr\u00f3polis: Ilustra\u00e7\u00f5es Projeto Reciclarte, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Ecologia: <\/em>grito da terra, grito dos pobres. Dignidade e direitos da M\u00e3e Terra. Petr\u00f3polis: Vozes, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. A \u00faltima trincheira: temos que mudar. Economia e ecologia. In: BEOZZO, J. O.; VOLANIN, C. J. (orgs.). <em>Alternativas \u00e0 crise. <\/em>Por uma economia social e ecologicamente respons\u00e1vel. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2009, p. 35-51.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>As quatro ecologias<\/em>. Ambiental, Pol\u00edtica e Social, Mental e Integral. Rio de Janeiro: Mar de Ideias, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUSSEL, E. <em>\u00c9tica comunit\u00e1ria<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALIMBERTI, U. <em>Psiche e techne<\/em>. O homem na idade da t\u00e9cnica. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALIMBERTI, U. O ser humano na era da t\u00e9cnica. <em>Cadernos <\/em>IHU <em>ideias<\/em>, S\u00e3o Leopoldo, v. 13, n. 218, p. 1-18, ano 13, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUATTARI, F. <em>As Tr\u00eas ecologias<\/em>. Campinas: Papirus, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUDYNAS, E. Ensayo de conceptualizaci\u00f3n de la ecologia social: uma visi\u00f3n latinoamericana. Cuadernos Latinoamericanos de Ecolog\u00eda social, Montevid\u00e9u, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>La pr\u00e1xis por la vida<\/em>. Introducci\u00f3n a las metodologias de la ecologia social. Montevid\u00e9u: Cipfe-Claes-Nordan, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HABERMAS, J. <em>Consci\u00eancia moral e agir comunicativo<\/em>. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HATHAWAY, M.; BOFF, L. <em>O Tao da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>. Explorando a ecologia da transforma\u00e7\u00e3o. Petr\u00f3polis: Vozes, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JONAS, H. <em>O Princ\u00edpio Responsabilidade: <\/em>ensaio de uma \u00e9tica para uma civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC Rio, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KERBER, G. <em>O Ecol\u00f3gico e a Teologia Latino-Americana<\/em>. Articula\u00e7\u00f5es e desafios. Porto Alegre: Editora Sulina; Genebra: Conselho Mundial de Igrejas, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">K\u00dcNG, H. <em>Projeto de \u00e9tica mundial<\/em>. Uma moral ecum\u00eanica em vista da sobreviv\u00eancia humana. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MOLTMANN, J. Direitos humanos, direitos da humanidade e direitos da natureza. <em>Concilium<\/em> (=Br), Petr\u00f3polis, v. 26, p. 135-152, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MORIN, E. <em>O m\u00e9todo 5. <\/em>A humanidade da humanidade. A identidade humana. Porto Alegre: Sulina, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NAESS, A. <em>Une \u00e9cosophie pour la Vie<\/em>. Introducti\u00f3n \u00e0 l\u2019\u00e9cologie profonde. Paris: Du Seuil, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTOS, B. S.\u00a0 <em>Justicia entre saberes<\/em>. Epistemolog\u00edas del Sur contra el epistemicidio. Madrid: Morata, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SHIVA, V. <em>Abrazar la vida. <\/em>Mujer, ecologia y superviv\u00eancia. Montevid\u00e9u: Instituto del Tercer Mundo, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TAVARES, S.S., Entre a cruz e a espada: a religi\u00e3o no mundo da tecnoci\u00eancia, do mercado e da m\u00eddia. <em>Horizonte<\/em>, Belo Horizonte, v. 12, p. 382-401, abr.\/jun. 2014a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Ecologia: um novo paradigma. In. TAVARES, S. S.; BRUNELLI, D. <em>Evangeliza\u00e7\u00e3o em Di\u00e1logo<\/em>. Novos cen\u00e1rios a partir do paradigma ecol\u00f3gico. Petr\u00f3polis: Vozes\/ITF, 2014b, p. 13-24.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Ecologia integral: um \u201cnovo\u201d paradigma 2 A emerg\u00eancia de uma \u201c\u00e9tica planet\u00e1ria\u201d 2.1 A \u201cimpot\u00eancia da \u00e9tica\u201d e o desafio de uma \u00e9tica planet\u00e1ria 2.2 Dignidade dos pobres \u2013 dignidade da Terra 2.3 Dignidade da humanidade ou do g\u00eanero humano 2.4 Dignidade da Terra e de sua Comunidade de vida Conclus\u00e3o: uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-2006","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-moraletica-teologica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2006"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2402,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2006\/revisions\/2402"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}