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{"id":1999,"date":"2020-12-31T11:18:38","date_gmt":"2020-12-31T13:18:38","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1999"},"modified":"2021-02-10T15:55:44","modified_gmt":"2021-02-10T17:55:44","slug":"eclesialidade-das-cebs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1999","title":{"rendered":"Eclesialidade das CEBs"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 CEBs: movimento ou Igreja?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Compreens\u00e3o da eclesialidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Primeiros passos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 O que dizem te\u00f3logos e pastoralistas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 O que diz o Magist\u00e9rio da Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.1 O magist\u00e9rio da Igreja no Brasil<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.2 Confer\u00eancias Gerais do Episcopado LAeC<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.3 O Magist\u00e9rio pontif\u00edcio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sopro do Esp\u00edrito Santo despertou a Igreja para muitas experi\u00eancias de renova\u00e7\u00e3o que, no decorrer do s\u00e9c. XX, prepararam o Conc\u00edlio Vaticano II. Entre essas experi\u00eancias pode-se citar com seguran\u00e7a o movimento comunit\u00e1rio. Ele alentou muitas iniciativas de participa\u00e7\u00e3o de leigos, entre eles os jovens, para uma viv\u00eancia profunda de comunidade eclesial, com participa\u00e7\u00e3o na vida lit\u00fargica, na comunidade paroquial, com o olhar voltado n\u00e3o s\u00f3 para dentro da Igreja, mas descobrindo tamb\u00e9m a dimens\u00e3o do empenho de renova\u00e7\u00e3o social pela pr\u00e1tica da justi\u00e7a e da solidariedade (cf. LIBANIO, 2005, p. 21-48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as muitas experi\u00eancias de renova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode deixar de citar a das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Hoje, depois de v\u00e1rias d\u00e9cadas de viv\u00eancia das CEBs como escolas de forma\u00e7\u00e3o de f\u00e9 eclesial, podemos dizer que elas j\u00e1 fazem parte do patrim\u00f4nio teol\u00f3gico-pastoral da Igreja, em especial no Continente latino-americano e caribenho (=ALeC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua trajet\u00f3ria, as CEBs j\u00e1 enfrentaram muitas dificuldades. Uma delas e a mais persistente foi, sem d\u00favida, a eclesialidade. As CEBs s\u00e3o movimento dentro da Igreja ou Igreja na base eclesial?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1<\/strong> <strong>CEBs: movimento ou Igreja?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como fen\u00f4meno hist\u00f3rico-eclesial, as CEBs est\u00e3o submetidas \u00e0 ambiguidade pr\u00f3pria dos fen\u00f4menos hist\u00f3ricos. Desde cedo elas tiveram que definir sua identidade eclesial, delimitando-se com os novos movimentos eclesiais. Para os que vivem o dia a dia dessas comunidades, elas expressam, de modo prof\u00e9tico, a nova compreens\u00e3o de Igreja do Conc\u00edlio Vaticano II. Mas h\u00e1 os que fazem uma leitura diferente, interpretando-as mais como movimento contestador da estrutura hier\u00e1rquica da Igreja institucional. Ou seja, elas tamb\u00e9m enfrentam escolhos, suscitam entusiasmo e paix\u00e3o, d\u00favidas e mesmo rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para evitar desvios, as CEBs foram constantemente objeto da aten\u00e7\u00e3o de te\u00f3logos e pastoralistas e da solicitude pastoral do magist\u00e9rio da Igreja \u2013 em n\u00edvel de Confer\u00eancias Episcopais, do Episcopado do Continente latino-americano e mesmo do magist\u00e9rio da Igreja universal, zelando pela sua eclesialidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal <em>Christifideles Laici<\/em> (CfL), de 1988, recolhendo os frutos do S\u00ednodo sobre a <em>Voca\u00e7\u00e3o e Miss\u00e3o dos Leigos na Igreja e no Mundo<\/em>, de 1987, nos oferece preciosa indica\u00e7\u00e3o para responder \u00e0 quest\u00e3o da diferencia\u00e7\u00e3o entre CEBs e movimentos eclesiais. Na parte em que se ocupou das par\u00f3quias como \u201ca pr\u00f3pria Igreja que vive no meio das casas\u201d, o texto pontif\u00edcio nos faz ver que a realidade eclesial dos movimentos tem aspectos que dificilmente se enquadram numa categoria ligada a territ\u00f3rio, edif\u00edcio, estrutura. Essa realidade eclesial se liga mais com \u201cfam\u00edlia de Deus\u201d, \u201cfraternidade animada pelo esp\u00edrito de unidade\u201d, enraizada numa comunidade de f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade, enfim, numa comunidade eucar\u00edstica. Na verdade, no contexto de vida paroquial se desenvolvem estruturas paroquiais que promovem a participa\u00e7\u00e3o dos leigos, por um lado, e as \u201cpequenas comunidades eclesiais de base, tamb\u00e9m chamadas comunidades vivas\u201d, por outro (CfL n. 26). O texto nos ajuda, pois, a distinguir aquelas estruturas que sustentam a participa\u00e7\u00e3o dos leigos na vida eclesial e \u201cpequenas comunidades de base\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais adiante o texto se abre para \u201cformas agregativas de participa\u00e7\u00e3o\u201d e para uma \u201cnova era agregativa\u201d. Essas \u201cformas agregativas\u201d n\u00e3o s\u00e3o mera concess\u00e3o da autoridade. S\u00e3o fruto do batismo, vivido sob a responsabilidade do leigo (cf. CfL n. 29). \u00a0Cabe \u00e0 autoridade eclesi\u00e1stica indicar com clareza os crit\u00e9rios de eclesialidade, tais como apontados na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica (cf. CfL n. 30). Esses agrupamentos ou os novos movimentos t\u00eam alguns aspectos parecidos com as CEBs. Eles tamb\u00e9m podem se pensar como \u201cum novo jeito de ser Igreja\u201d, de a Igreja se realizar. Pode-se dizer que \u201ca voca\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica de cada batizado se expressa tamb\u00e9m com iniciativas coletivas ou grupais que caracterizam os movimentos eclesiais\u201d (MA\u00c7ANEIRO, 2015, p. 644).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por seu lado, as CEBs t\u00eam carater\u00edsticas diferentes e mais abrangentes do que os movimentos eclesiais. Nelas se sublinha a participa\u00e7\u00e3o dos membros da comunidade como \u201cIgreja local\u201d que envolve todos: crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres. Todos se re\u00fanem ao redor da comunidade que celebra sua f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade. Ser\u00e1 instrutivo recordar um dos textos mais iluminadores da hist\u00f3ria das CEBs. O <em>Documento de Medell\u00edn<\/em> (DMd) afirma que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">a viv\u00eancia da comunh\u00e3o a que foi chamado deve ser encontrada pelo crist\u00e3o em sua \u201ccomunidade e base\u201d, isto \u00e9, em uma comunidade local ou ambiental, que corresponda \u00e0 realidade de um grupo homog\u00eaneo, e que tenha uma dimens\u00e3o tal que permita o trato pessoal fraterno entre seus membros. (DMd 15, 10)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa pr\u00f3xima preocupa\u00e7\u00e3o visa compreender essa <em>eclesialidade<\/em> como identidade das CEBs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2<\/strong> <strong>Compreens\u00e3o<\/strong> <strong>de eclesialidade <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja de Jesus Cristo tem seu ponto de partida na Trindade santa pelo des\u00edgnio eterno do Pai, que quer a salva\u00e7\u00e3o de todos, e pela miss\u00e3o do Filho e do Esp\u00edrito (cf. LG n. 2-4). Posta essa iniciativa, a Igreja tem seu \u201censaio\u201d hist\u00f3rico na vida de Jesus e sua prega\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, e se explicita a partir do <em>querigma, <\/em>que liga os seguidores de Jesus \u00e0 sua vida, paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa a\u00e7\u00e3o divina que se d\u00e1 no acontecimento da salva\u00e7\u00e3o em Cristo pelo Esp\u00edrito se torna realidade emp\u00edrica na obra de Jesus: ele anuncia o Reino do Pai, convoca disc\u00edpulos para estarem com ele no aprendizado do discipulado e, depois, serem enviados em miss\u00e3o. Pode-se afirmar que, por sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o e pelo Pentecostes, a Igreja adquire densidade hist\u00f3rica palp\u00e1vel, vis\u00edvel, como sacramento universal da salva\u00e7\u00e3o. Pela experi\u00eancia do Ressuscitado e do Esp\u00edrito, a Igreja pode celebrar na hist\u00f3ria a gra\u00e7a libertadora at\u00e9 o fim dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer, ent\u00e3o, que pela experi\u00eancia do Ressuscitado e do Esp\u00edrito Santo \u00e9 que se constitui a primeira comunidade apost\u00f3lica e todas aquelas comunidades \u2013 <em>ekklesiai<\/em> no sentido que nos chega no Novo Testamento \u2013 que v\u00e3o se constituindo pela hist\u00f3ria afora at\u00e9 o fim dos tempos. Toda e qualquer comunidade crist\u00e3 precisa desse in\u00edcio como fato <em>estruturante<\/em>. A f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade nos constituem como Igreja. Dizendo de outra forma, a eclesialidade n\u00e3o \u00e9 dada como obra humana, mas \u00e9 essencialmente a\u00e7\u00e3o comunicativa de Deus no mundo. Assim \u00e9 que se constituem todas as Igrejas locais, grandes, pequenas, pobres, dispersas. \u00c9 a essa experi\u00eancia das comunidades apost\u00f3licas a que as CEBs se ligam para se afirmarem hoje como Igreja em condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-conjunturais diversas dos tempos apost\u00f3licos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta dire\u00e7\u00e3o, nos ajuda a afirma\u00e7\u00e3o, de autoridade incontest\u00e1vel, da <em>Lumen Gentium<\/em> \u201ca Igreja de Cristo est\u00e1 verdadeiramente presente em todas as leg\u00edtimas comunidades locais de fi\u00e9is, que, unidas com seus pastores, s\u00e3o tamb\u00e9m elas no Novo Testamento chamadas \u2018igrejas\u2019\u201d (LG n. 26). Vejamos ent\u00e3o qual o significado dessa preciosa inser\u00e7\u00e3o justamente no cap. III da <em>Lumen Gentium<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos debates conciliares sobre a compreens\u00e3o da Igreja, surgiu a observa\u00e7\u00e3o de que havia, na verdade, uma certa vis\u00e3o unilateral em favor da Igreja universal, oferecida pelos cap. I e II da <em>Lumen Gentium<\/em>, respectivamente sobre o mist\u00e9rio da Igreja vista a partir da Trindade, e o Povo de Deus na sua plena historicidade. Assim, a dimens\u00e3o \u201cuniversal\u201d da Igreja se fez representar muito bem. Mas faltava trabalhar mais proximamente a Igreja em sua realidade \u201clocal\u201d. Sem ela faltaria a refer\u00eancia \u00e0 vida concreta onde a Igreja realmente se realiza em seus diferentes n\u00edveis: na Igreja diocesana, na par\u00f3quia ou nas CEBs. Esses v\u00e1rios n\u00edveis, mesmo diferentes, se complementam entre si, sempre sob o pastoreio do bispo. Trata-se, pois, da compreens\u00e3o da Igreja n\u00e3o tanto desde sua \u201cuniversalidade abstrata\u201d, mas desde a comunidade concreta, na qual se proclama a Palavra e se celebra o Memorial do Senhor. Deste modo se faz presente na comunidade viva a salva\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica. Assim, a pequena comunidade \u00e9 Igreja no verdadeiro sentido do termo. Dessa realidade escatol\u00f3gica, presente e real, se pode buscar a compreens\u00e3o da Igreja como um todo. Isto porque o mist\u00e9rio da Igreja, na sua universalidade, est\u00e1 presente realmente (no texto latino: <em>vere adest<\/em>) na comunidade local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto conciliar tem um contexto espec\u00edfico, em que se explicita o lugar do minist\u00e9rio do bispo, que, pela plenitude do sacramento da ordem, preside a Igreja particular ou local. A partir desse minist\u00e9rio apost\u00f3lico pode-se afirmar que a Igreja de Cristo se encontra em todas as leg\u00edtimas assembleias locais de fi\u00e9is, n\u00e3o importa se pequenas, pobres ou na dispers\u00e3o. Nelas se encontra presente o Senhor Ressuscitado. \u00c9 por for\u00e7a dessa presen\u00e7a vitoriosa do Ressuscitado que a comunidade local se une ao mist\u00e9rio da <em>una, santa, cat\u00f3lica e apost\u00f3lica<\/em> Igreja de Cristo, tal como professamos no <em>Credo apost\u00f3lico <\/em>(cf. RAHNER, 1966, p. 242-245).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois desses pressupostos para a compreens\u00e3o da \u201ceclesialidade\u201d, percorremos o caminho seguido pelas CEBs, perguntando-nos pelos <em>primeiros passos<\/em> dessa experi\u00eancia e sobre a leitura que seus atores hist\u00f3ricos fizeram dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3<\/strong> <strong>Primeiros passos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colocadas as condi\u00e7\u00f5es estruturantes da eclesialidade, verificamos agora como seus atores viveram a experi\u00eancia das CEBs e a expressaram no dia a dia. Nesse itiner\u00e1rio, \u00e9 fundamental, de in\u00edcio, dizer que as CEBs n\u00e3o surgiram de um planejamento pr\u00e9vio. N\u00e3o houve um momento espec\u00edfico em que os participantes decidem que v\u00e3o \u201ccriar uma comunidade de base\u201d, ou seja, uma comunidade crist\u00e3 com outra figura de Igreja que n\u00e3o simplesmente a Igreja de sempre, que expressa essa identidade que vem dos ap\u00f3stolos e que se apresenta com nova visibilidade, um modelo hist\u00f3rico em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O impulso renovador do Esp\u00edrito Santo, j\u00e1 presente em muitas Igrejas particulares da Igreja latino-americana, vem ao encontro do anseio de renova\u00e7\u00e3o que j\u00e1 antecede o Conc\u00edlio Vaticano II e se manifesta de forma crescente, sobretudo, nos anos 50 e 60 do s\u00e9culo XX. Ressaltamos que, neste ponto, privilegiamos o caminho seguido pelas CEBs na Igreja no Brasil, pelo fato \u00f3bvio de vivermos essa experi\u00eancia eclesial nessa Igreja. Participantes de outras realidades eclesiais, com certeza, ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de alargar a nossa vis\u00e3o, enriquecendo-a com suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao redor do Conc\u00edlio Vaticano II em nosso Continente vive-se uma nova consci\u00eancia eclesial. Fatos novos se anunciam: primeiro, a emerg\u00eancia de um novo sujeito social na sociedade em nosso continente, o sujeito popular, que ansiava a participa\u00e7\u00e3o; segundo, a emerg\u00eancia de um novo sujeito eclesial, portador de uma nova consci\u00eancia na Igreja. Ele ansiava participar ativa e corresponsavelmente da vida e da miss\u00e3o da Igreja. Esse sujeito provoca novas descobertas e convers\u00f5es pastorais (cf. Doc. CNBB, 1986, n. 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde encontramos as sementes dessa experi\u00eancia? Para dar resposta a essa pergunta, precisamos voltar nosso olhar para a nossa hist\u00f3ria e descobrir os fatores que provocaram o surgimento das CEBs. No passado da nossa hist\u00f3ria, notamos que em muitos rinc\u00f5es de nosso continente foram os fi\u00e9is leigos que, povoando o interior, levaram consigo a f\u00e9 e suas express\u00f5es, construindo orat\u00f3rios e capelas, alimentando a pr\u00f3pria f\u00e9 simples, mas fervorosa e devotada. Eles fizeram com que a pr\u00f3pria viv\u00eancia da vida crist\u00e3 garantisse a transmiss\u00e3o da f\u00e9 eclesial, antes mesmo que o clero por l\u00e1 chegasse. Mais recentemente esse fundo hist\u00f3rico se encontra com os v\u00e1rios movimentos de renova\u00e7\u00e3o que prepararam o Conc\u00edlio Vaticano II. Tais movimentos t\u00eam como sujeito portador de mudan\u00e7a o \u201csujeito moderno\u201d. Esse encontro entre o que nos chega da tradi\u00e7\u00e3o com esse novo esp\u00edrito, sobretudo de participa\u00e7\u00e3o, de renova\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, vai desembocar em novas experi\u00eancias entre as quais est\u00e3o a das CEBs. Assim, d\u00e1-se o despertar de uma nova consci\u00eancia eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto desse despertar do Esp\u00edrito no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, as primeiras experi\u00eancias de renova\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria se deram j\u00e1 na d\u00e9cada de 1950 no Brasil, no Chile, no Panam\u00e1 e em muitas outras Igrejas locais. No caso brasileiro, citamos duas iniciativas pioneiras, preanunciando as pequenas comunidades crist\u00e3s, logo chamadas de base. A <em>primeira<\/em> delas \u00e9 a experi\u00eancia da catequese popular na diocese de Barra do Pira\u00ed (RJ), incentivada pelo ent\u00e3o bispo diocesano Dom Agnelo Rossi. Ela incentivava a participa\u00e7\u00e3o dos leigos nos sal\u00f5es comunit\u00e1rios, sob a guia dos catequistas, para a proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus e a catequese. A <em>segunda<\/em> experi\u00eancia se deu no assim chamado Movimento de Natal, iniciado na d\u00e9cada de 1950 do s\u00e9c. XX. Nele se articulava a promo\u00e7\u00e3o humana pela educa\u00e7\u00e3o popular e sindicaliza\u00e7\u00e3o rural, com a forma\u00e7\u00e3o da f\u00e9, valorizando a comunidade local. Essa iniciativa teve o incentivo de Dom Eug\u00eanio Sales, da arquidiocese de Natal, no Estado do Rio Grande do Norte (cf. TEIXEIRA, 1988, p. 56-67).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto com a renova\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, cresce tamb\u00e9m a renova\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio presbiteral. Os presb\u00edteros descobrem o seu lugar eclesial junto \u00e0s comunidades que se entusiasmam e crescem. O minist\u00e9rio da Igreja deixa de lado o seu tradicional sentido de <em>status <\/em>clerical e estabelece uma rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com a comunidade. A par\u00f3quia tamb\u00e9m se renova. Aos poucos, acontece uma real convers\u00e3o espiritual e pastoral, como que antecipando o que a Confer\u00eancia de Aparecida \u00a0explicitou (cf. DAp n. 370).\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Converge para essa renova\u00e7\u00e3o em curso a preocupa\u00e7\u00e3o que o papa Jo\u00e3o XXIII manifestou logo depois da sua elei\u00e7\u00e3o, num discurso aos membros da Comiss\u00e3o para a Am\u00e9rica latina (CAL), em 15 de novembro de 1958. Esse apelo n\u00e3o chegou a surtir o efeito desejado. Por isso, o papa voltou a insistir em outro discurso, em 8 de dezembro de 1961. Nele, Jo\u00e3o XXIII sublinha de novo a urg\u00eancia de uma mobiliza\u00e7\u00e3o que envolvesse os v\u00e1rios aspectos da vida eclesial na pastoral de conjunto e num planejamento pastoral realista (cf. FREITAS, 1997, p.78).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como resposta aos apelos do papa Jo\u00e3o XXIII, a CNBB lan\u00e7ou, em 1962, um <em>Plano de Emerg\u00eancia<\/em> (PE), visando \u00e0 renova\u00e7\u00e3o pastoral, que acentua a necessidade de dinamizar as par\u00f3quias para responderem \u00e0 realidade e serem realmente \u201cuma comunidade de f\u00e9, de cultura e de caridade\u201d. E acrescentava duas coisas importantes para a experi\u00eancia das CEBs: a) \u201cAos leigos cabe nestas comunidades um papel muito decisivo\u201d (CNBB, 1963, n. 5,5). Tratava-se da iniciativa evangelizadora ou \u201cdo protagonismo de todos os batizados na vida e na miss\u00e3o da Igreja, deixando para tr\u00e1s a passividade\u201d; b) nessa tarefa de evangelizar, \u201co m\u00e9todo mais seguro \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o partindo dos problemas da vida\u201d (CNBB, 1963, n. 5,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o impulso mais forte vem do clima de entusiasmo e alegria eclesial suscitado pelo Conc\u00edlio Vaticano II. O esp\u00edrito eminentemente pastoral que irradia do Conc\u00edlio cria um clima novo de renova\u00e7\u00e3o pastoral das par\u00f3quias e comunidades. Por isso, seria muito \u00fatil recordarmos aqui alguns pontos b\u00e1sicos de eclesiologia do Conc\u00edlio e que cabem muito bem na compreens\u00e3o das CEBs:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>o <em>primeiro<\/em> ponto que influi profundamente na vida das CEBs \u00e9 a nova compreens\u00e3o de Igreja como povo de Deus peregrino e mist\u00e9rio de comunh\u00e3o;<\/li>\n<li>o <em>segundo<\/em> ponto diz respeito \u00e0 <em>Gaudium et Spes<\/em>, que nos apresenta a Igreja dentro do mundo contempor\u00e2neo, em di\u00e1logo cr\u00edtico, sobretudo a partir da teologia dos \u201csinais dos tempos\u201d (cf. CNBB, 1963, n. 4 e 11);<\/li>\n<li>o <em>terceiro<\/em> ponto refere-se \u00e0 dimens\u00e3o pastoral, abrindo espa\u00e7o para novas experi\u00eancias comunit\u00e1rias para al\u00e9m da cl\u00e1ssica pastoral sacramentalista de conserva\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria das cristandades. Por essa janela aberta pelo sopro do Esp\u00edrito passa uma das mais esperan\u00e7osas cria\u00e7\u00f5es: as pequenas comunidades que, inspiradas pela experi\u00eancia das comunidades apost\u00f3licas, se apresentam agora como resposta viva e criativa, vinda de dentro mesmo do povo de Deus peregrino.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 O que dizem te\u00f3logos e pastoralistas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa j\u00e1 bastante longa hist\u00f3ria das CEBs, muitos te\u00f3logos e pastoralistas se pronunciaram. No Brasil, tivemos o primeiro Encontro Intereclesial das CEBs em Vit\u00f3ria (ES), com extensa an\u00e1lise da experi\u00eancia das CEBs, de Carlos Mesters com o t\u00edtulo <em>O Futuro do nosso Passado. \u201cO que deve ser tem for\u00e7a!\u201d <\/em>(ENCONTRO DE VIT\u00d3RIA, 1975, p. 120-200)<em>. <\/em>No mesmo relat\u00f3rio, Leonardo Boff faz uma r\u00e1pida reflex\u00e3o sobre <em>As Eclesiologias presentes nas Comunidades Eclesiais de Base<\/em> (ENCONTRO DE VIT\u00d3RIA, 1975, p. 201-209).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas foi em 1977 que Leonardo Boff aprofundou, de forma sistem\u00e1tica, o tema das CEBs no seu livro, reconhecido internacionalmente: <em>Eclesiog\u00eanese. As Comunidades Eclesiais de Base reinventam a Igreja<\/em> (1977). Ele enfrenta a quest\u00e3o crucial: \u201ca CEB \u00e9 Igreja ou s\u00f3 possui elementos eclesiais?\u201d (BOFF, 1977, p. 21). Ele parte de um pressuposto teol\u00f3gico incontest\u00e1vel: \u201ca Igreja se constitui como Igreja quando homens se d\u00e3o conta do apelo salv\u00edfico feito em Jesus Cristo e se re\u00fanem em comunidade, professam a mesma f\u00e9, celebram a mesma liberta\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica e tentam viver o seguimento de Jesus Cristo\u201d. E conclui que \u201cs\u00f3 podemos falar <em>num sentido pr\u00f3prio<\/em> de Igreja, quando emergir essa consci\u00eancia eclesial\u201d (BOFF, 1977, p. 22). Posta essa condi\u00e7\u00e3o <em>a priori<\/em>, admite que no momento concreto das CEBs h\u00e1 opini\u00f5es divergentes que ele atribui \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m ocupa na estrutura da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua argumenta\u00e7\u00e3o, Boff segue a linha que lhe oferecem as experi\u00eancias que v\u00eam das bases eclesiais e de seus int\u00e9rpretes. Entre os apoios ele cita, primeiro, J. Marins: \u201cpara n\u00f3s, a CEB \u00e9 a pr\u00f3pria Igreja, sacramento universal da salva\u00e7\u00e3o, continuando a miss\u00e3o de Cristo, profeta, sacerdote e pastor. Portanto, comunidade de f\u00e9, culto e amor. Sua miss\u00e3o se explicita em n\u00edvel universal, diocesano e local (de base) \u201d (BOFF, 1975, p. 405). E, em segundo lugar, A. Antoniazzi, na sua interpreta\u00e7\u00e3o mais nuan\u00e7ada. Para ele, as CEBs s\u00e3o realidades eclesiais, mas carentes de desenvolvimento mais pleno: \u201cdo ponto de vista pastoral, estes grupos ou comunidades de base devem ser considerados aut\u00eantica realidade eclesial, carente sem d\u00favida de desenvolvimento, mas j\u00e1 integrada na \u00fanica comunh\u00e3o com o Pai em Cristo pelo Esp\u00edrito Santo\u201d (cf. BOFF, 1977, p. 25). Antoniazzi compreende as CEBs em sua eclesialidade b\u00e1sica ainda em crescimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, essa compreens\u00e3o da Igreja como realidade local j\u00e1 se encontra no NT, especialmente na literatura paulina. Num primeiro momento, Paulo testemunha a exist\u00eancia de diferentes Igrejas (<em>ekklesiai<\/em>). Elas s\u00e3o Igrejas locais que se constituem n\u00e3o pela quantidade dos membros, mas pela voca\u00e7\u00e3o a que s\u00e3o chamados os seguidores de Jesus para se constitu\u00edrem o \u201cpovo novo\u201d, reunindo os que foram santificados pelo batismo e que Paulo chama de \u201ccorpo do Cristo\u201d. \u00c9 s\u00f3 num segundo momento que emerge a consci\u00eancia de que as muitas Igrejas locais no seu conjunto s\u00e3o compreendidas como Igreja universal, a fim de qualificar a comunh\u00e3o das Igrejas no \u00fanico mist\u00e9rio trinit\u00e1rio como povo de Deus peregrino na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto a ser rapidamente aprofundado diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre o \u201cuniversal\u201d e o \u201cparticular\u201d ou \u201clocal\u201d na Igreja. Na verdade, \u201cuniversal\u201d e \u201cparticular\u201d n\u00e3o s\u00e3o coisas compar\u00e1veis. O \u201cuniversal\u201d da Igreja n\u00e3o \u00e9 uma realidade eclesial hist\u00f3rica vis\u00edvel, palp\u00e1vel, abrangendo o conjunto das Igrejas, mas o mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o que se faz presente nas diferentes Igrejas locais. O universal existe no particular, ou seja, na realidade da hist\u00f3ria concreta no tempo e lugar em que o mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecido e onde \u201ca f\u00e9 constitui a realidade m\u00ednima constituidora da Igreja particular\u201d (BOFF, 1977, p. 32). Sob essa perspectiva \u201co fiel, por causa de sua f\u00e9-comunidade, \u00e9 j\u00e1 presen\u00e7a da Igreja universal\u201d (BOFF, 1977, p. 33). Nestes termos, a Igreja \u201cuniversal\u201d n\u00e3o \u00e9 \u201cvis\u00edvel\u201d. Ela \u00e9 \u201cmist\u00e9rio\u201d. O que \u00e9 \u201cvis\u00edvel\u201d \u00e9 a Igreja particular na qual concretamente nos entendemos como disc\u00edpulos de Cristo em comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boff afirma, como conclus\u00e3o, que as CEBs \u201cs\u00e3o \u201cIgreja universal realizada na base\u201d (1977, p. 37). Como Igreja na base eclesial, a CEB \u00e9 sinal vis\u00edvel, historicamente percept\u00edvel, do mist\u00e9rio da vontade salv\u00edfica universal de Deus em Cristo pelo Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 O Magist\u00e9rio da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa parte pretendemos expor, primeiro, o que diz o magist\u00e9rio da Igreja no Brasil pelo simples fato de que falamos a partir daqui. Mas pode-se partir de cada Confer\u00eancia Episcopal; segundo, o que dizem as Confer\u00eancias Gerais do Episcopado LAeC; terceiro, as principais afirma\u00e7\u00f5es do magist\u00e9rio pontif\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.1 O magist\u00e9rio da Igreja no Brasil<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ensinamento da Igreja no Brasil sobre as CEBs come\u00e7ou em 1962 com o <em>Plano de Emerg\u00eancia<\/em>. J\u00e1 acenamos a ele mais acima. Ao t\u00e9rmino do Conc\u00edlio, a CNBB lan\u00e7a um ousado <em>Plano de Pastoral de Conjunto <\/em>(PPC) em 1966. Nele, a Igreja no Brasil se prop\u00f4s como objetivo \u201ccriar meios e condi\u00e7\u00f5es para que a Igreja no Brasil se ajuste, o mais r\u00e1pida e plenamente poss\u00edvel, \u00e0 imagem da Igreja do Vaticano II\u201d (CNBB, 1966, p. 25). No esfor\u00e7o de renova\u00e7\u00e3o, o PPC indicava ser \u201curgente uma descentraliza\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia\u201d, suscitando \u201ccomunidades de base\u201d. Nelas \u201cos crist\u00e3os n\u00e3o sejam pessoas an\u00f4nimas, que apenas buscam um servi\u00e7o ou cumprem uma obriga\u00e7\u00e3o, mas sintam-se acolhidas e respons\u00e1veis, e dela parte integrante, em comunh\u00e3o de vida com Cristo e com todos os seus irm\u00e3os\u201d (CNBB, 1966, p. 38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que a Igreja no Brasil pudesse se ajustar \u00e0 imagem da Igreja do Vaticano II, o PPC nos diz: \u201cA Igreja \u00e9 e ser\u00e1 sempre uma comunidade. Nela estar\u00e1 sempre presente e atuante o minist\u00e9rio da Palavra, a vida lit\u00fargica e especialmente a eucar\u00edstica, a a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, a forma\u00e7\u00e3o na f\u00e9 de todos os membros do povo de Deus, a presen\u00e7a de Deus no desenvolvimento humano, a organiza\u00e7\u00e3o vis\u00edvel da pr\u00f3pria comunidade eclesi\u00e1stica\u201d (CNBB, 1966, p. 27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o PPC, a CEB j\u00e1 faz parte da estrutura da Igreja diocesana em seu n\u00edvel. Ele observa que as CEBs \u201ccorrespondem, no meio rural, \u00e0s capelas rurais\u201d. N\u00e3o deixa, por\u00e9m, de anotar que \u201cno meio urbano \u00e9 necess\u00e1rio intensificar as experi\u00eancias incipientes\u201d (CNBB, 1966, p. 106). Desde os prim\u00f3rdios assinala a dificuldade que as CEBs tinham de se implantarem no espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, as CEBs continuam a enfrentar novos desafios. Na d\u00e9cada de 1970, o desafio foi assegurar sua plena eclesialidade, com acento mais no \u00e2mbito interno da Igreja. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1980, o desafio se situa mais na sua rela\u00e7\u00e3o com os movimentos sociais. No clima de mudan\u00e7a para um Estado democr\u00e1tico, em situa\u00e7\u00e3o de relativa liberdade, abrem-se novas perspectivas para os partidos pol\u00edticos, os movimentos sociais, os sindicados, entre outros. Surgem ent\u00e3o quest\u00f5es ligadas \u00e0 articula\u00e7\u00e3o das CEBs com esses novos atores pol\u00edticos, sociais e populares, que implicam aspectos particulares da pastoral das CEBs. Para dar conta desse novo quadro conjuntural e, assim, orientar a vida eclesial e a pr\u00e1tica pastoral das CEBs, os bispos editaram, no in\u00edcio dos anos 1980 o documento intitulado <em>Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil<\/em> (CNBB, 1986). Dele retomamos os pontos b\u00e1sicos, mesmo correndo o risco de repeti\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) Se reafirma, com \u00eanfase, a eclesialidade das CEBs. Elas s\u00e3o um \u201cfen\u00f4meno estritamente eclesial\u201d e \u201cnasceram no seio da Igreja-institui\u00e7\u00e3o\u201d para se tornarem \u201cnovo modo de ser Igreja\u201d (CNBB, 1986, n. 3) e \u201cnovo modo de a Igreja estar no mundo\u201d (CNBB, 1986, n. 4);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) Sublinha-se que os pobres t\u00eam um lugar privilegiado na Igreja. As CEBs, nesse contexto, \u201cs\u00e3o express\u00e3o do amor preferencial da Igreja pelo povo simples\u201d (CNBB, 1986, n. 47, cf. DPb n. 643). Mas n\u00e3o se pode reduzir as CEBs aos pobres, deixando a par\u00f3quia e outras organiza\u00e7\u00f5es \u00e0s classes m\u00e9dia e rica (CNBB, 1986, n. 48). Ao contr\u00e1rio, \u201co fundamento das CEBs se dirige como ideal a todos os crist\u00e3os\u201d (CNBB, 1986, n. 51). Nelas se ensaiam \u201cformas de organiza\u00e7\u00e3o e estruturas de participa\u00e7\u00e3o capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade\u201d. Nela se testemunha que \u201csem uma radical comunh\u00e3o com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunh\u00e3o puramente humana &#8230; termina fatalmente voltando-se contra o pr\u00f3prio homem\u201d (CNBB, 1986, n. 54, cf. DPb n. 273);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Outro aspecto diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o das CEBs com a dimens\u00e3o sociopol\u00edtica da evangeliza\u00e7\u00e3o. O S\u00ednodo sobre <em>A Justi\u00e7a no Mundo<\/em>, de 1971, j\u00e1 tinha afirmado que \u201ca a\u00e7\u00e3o pela justi\u00e7a e a participa\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o do mundo nos aparecem claramente como uma dimens\u00e3o constitutiva da prega\u00e7\u00e3o do Evangelho, isto \u00e9, da miss\u00e3o da Igreja pela reden\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano e a liberta\u00e7\u00e3o de toda situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o\u201d (<em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em>). Ao afirmar que a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja \u00e9 \u201ceminentemente pastoral\u201d, n\u00e3o se quer dizer que ela possa se omitir em quest\u00f5es sociopol\u00edticas enquanto \u201capresentam uma relevante dimens\u00e3o \u00e9tica\u201d (CNBB, 1981, n. 2). Em vista disso, o documento 25 da CNBB exorta as CEBs e demais comunidades eclesiais a se manterem fi\u00e9is \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9, no conte\u00fado e nos m\u00e9todos, na busca da liberta\u00e7\u00e3o plena, superando a tenta\u00e7\u00e3o \u201cde reduzir a miss\u00e3o da Igreja \u00e0s dimens\u00f5es de um projeto puramente temporal\u201d (CNBB, 1986, n. 64, cf. <em>Evangelii Nuntiandi<\/em> 32);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Outro ponto se refere \u00e0 rela\u00e7\u00e3o das CEBs com os movimentos populares na luta pela justi\u00e7a. As CEBs \u201cn\u00e3o podem arrogar-se o monop\u00f3lio do Reino de Deus\u201d. Na verdade, a CEB deve tomar consci\u00eancia de que, \u201ccomo Igreja, \u00e9 sinal e instrumento do Reino, \u00e9 aquela pequena por\u00e7\u00e3o do povo de Deus onde a Palavra de Deus \u00e9 acolhida e celebrada nos sacramentos&#8230; sobretudo na Eucaristia\u201d (CNBB, 1986, n. 70). Assim formadas, elas buscam \u201ca colabora\u00e7\u00e3o fraterna com pessoas e grupos que lutam pelos mesmos valores\u201d (CNBB, 1986, n. 73). O Documento, no entanto, manifesta ressalva com rela\u00e7\u00e3o a \u201cgrupos ideol\u00f3gicos fechados em si mesmos\u201d, sobretudo, os que \u201cexplicitamente repudiam a f\u00e9 e a abertura a Deus\u201d (CNBB, 1986, n. 74). Enfim, pede-se manter \u201cclara a distin\u00e7\u00e3o entre CEBs e movimentos populares\u201d. Nem as CEBs podem ocupar o espa\u00e7o de um movimento secular, nem se acomodar aos movimentos populares, correndo o risco de perder a pr\u00f3pria identidade eclesial (CNBB, 1986, n. 76);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) Duas quest\u00f5es ainda preocupam os bispos no interior da Igreja. Primeiro, a rela\u00e7\u00e3o das CEBs com os movimentos leigos. No contexto, o Documento afirma com clareza que \u201ca CEB n\u00e3o \u00e9 um movimento. \u00c9 nova forma de ser Igreja\u201d. Sendo Igreja, \u201co minist\u00e9rio pastoral ou hier\u00e1rquico faz parte da CEB\u201d no seu papel espec\u00edfico de \u201ctornar presente o Cristo-Cabe\u00e7a\u201d (CNBB, 1986, n. 79). Segundo, no que diz respeito \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o e responsabilidade \u00faltima das CEBs, o mesmo Documento esclarece a rela\u00e7\u00e3o dos <em>Encontros Intereclesiais<\/em> das CEBs com o minist\u00e9rio pastoral dos bispos. De fato, para \u201cgarantir a plena eclesialidade\u201d desses encontros, ele pede que \u201ca coordena\u00e7\u00e3o geral seja assumida pelo Regional ou diocese que acolhe\u201d. E acrescenta o princ\u00edpio geral que rege a eclesialidade dentro de toda a Igreja: \u201cA coordena\u00e7\u00e3o da pastoral \u00e9 um dos aspectos do minist\u00e9rio episcopal e deve ser exercida em profunda comunh\u00e3o com o Bispo e sob sua responsabilidade \u00faltima\u201d (CNBB, 1986, n. 86).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coroando esse ponto, acenamos a outro documento da CNBB, de n\u00famero 92 (2010). Ele representa o empenho dos bispos na anima\u00e7\u00e3o das CEBs, agora frente a outros desafios de uma realidade plural, que sugere \u201cdiferentes jeitos de viver a mesma f\u00e9 na sociedade p\u00f3s-moderna. A mudan\u00e7a de \u00e9poca, enquanto se manifesta no n\u00edvel mais profundo da cultura e da l\u00f3gica do mercado, corr\u00f3i a estrutura fundamental da sociabilidade b\u00e1sica (cf. CNBB, 2010 p. 12). Como resposta ao novo clima conjuntural, o documento prop\u00f5e: \u201cvalorizar as experi\u00eancias de sociabilidade b\u00e1sica\u201d (CNBB, 2010, p. 13) e expressar com \u00eanfase a experi\u00eancia dos intereclesiais como \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel da eclesialidade das CEBs&#8230; Neles se expressa a comunh\u00e3o entre os fi\u00e9is e seus pastores\u201d (CNBB, 2010, p. 14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.2 Confer\u00eancias Gerais do Episcopado LAeC<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito latino-americano, pode-se dizer que as CEBs \u201cganham foro de cidadania\u201d em Medell\u00edn (TEIXEIRA, 1988, p. 294). De fato, a II Assembleia Geral do Episcopado Latino-americano (1968) tratou das CEBs de forma positiva e incentivadora. Enumera os pontos fundamentais que constituem as CEBs como Igreja: a) ser \u201ccomunidade de f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade\u201d; b) ser \u201co primeiro e fundamental n\u00facleo eclesial\u201d, ou seja, \u201cc\u00e9lula inicial de estrutura\u00e7\u00e3o eclesial\u201d; c) \u201cfoco de evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d e d) \u201catualmente fator primordial de promo\u00e7\u00e3o humana e de desenvolvimento\u201d (DMd n. 15, 10). Nesse contexto, a par\u00f3quia torna-se \u201cum conjunto unificador das comunidades de base\u201d. Por sua vez, as CEBs se tornam dinamismo renovador e descentralizador da pastoral (DMd n. 15, 13), suscitando nela novos minist\u00e9rios e espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja, nas novas pastorais que v\u00e3o surgindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, o documento de Medell\u00edn recomenda tr\u00eas pontos para garantir o acompanhamento e incentivo das CEBs no futuro: a) que bispos e p\u00e1rocos se preocupem com a descoberta e a forma\u00e7\u00e3o de l\u00edderes para as CEBs (DMd n. 15, 11); b) que se fa\u00e7am estudos teol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e hist\u00f3ricos, com a devida divulga\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias (DMd n. 15, 12); c) que os seminaristas tenham melhor prepara\u00e7\u00e3o para o ambiente latino-americano, ou seja, \u201cforma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica sobre pastoral de conjunto, prepara\u00e7\u00e3o para fundar e assistir as comunidades de base, conveniente forma\u00e7\u00e3o e treinamento de din\u00e2mica de grupos e rela\u00e7\u00f5es humanas (&#8230;)\u201d (DMd n. 13, 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fase de experi\u00eancia incipiente se fecha positivamente com a legitima\u00e7\u00e3o das CEBs pelo episcopado latino-americano. A\u00ed se reconhece que elas correspondem quer aos anseios dos fi\u00e9is de participarem da vida e miss\u00e3o da Igreja quer aos ensinamentos do Conc\u00edlio sobre a Igreja. Isso fez das CEBs uma esperan\u00e7a para a Igreja no Continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em Medell\u00edn as CEBs \u201cganham foro de cidadania\u201d, em Puebla (1979) elas s\u00e3o confirmadas. Passando por dificuldades e at\u00e9 persegui\u00e7\u00f5es, elas amadurecem. Pelo recrudescimento da repress\u00e3o aos movimentos sociais e pol\u00edticos, e da censura, as CEBs se tornaram, em muitos lugares, em espa\u00e7o da sociedade civil e, em especial, dos movimentos populares. Nelas repercute a voz da Igreja para a sociedade. Na verdade, \u201ca Igreja foi se desligando daqueles que det\u00eam o poder econ\u00f4mico ou pol\u00edtico\u201d (DPb n. 623).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Visando assegurar a plena eclesialidade das CEBs, o Documento de Puebla parte da pergunta: \u201cQuando uma pequena comunidade pode ser considerada comunidade eclesial de base?\u201d E responde, didaticamente: \u00e9 <em>comunidade<\/em> quando \u201cintegra fam\u00edlias, adultos e jovens, numa \u00edntima rela\u00e7\u00e3o interpessoal de f\u00e9\u201d; \u00e9 <em>eclesial<\/em> quando \u201c\u00e9 comunidade de f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade; celebra a Palavra de Deus e se nutre da Eucaristia &#8230; realiza a Palavra de Deus na vida\u201d; \u00e9 <em>de base<\/em> quando \u201cconstitu\u00edda de poucos membros, em forma permanente e \u00e0 guisa de c\u00e9lula da grande comunidade\u201d (DPb n. 641).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Puebla faz ainda um discernimento sobre a assim chamada \u201cIgreja popular\u201d. Na verdade, havia na d\u00e9cada de 1970 diverg\u00eancias sobre o tema. Para que n\u00e3o houvesse desvios no projeto original como \u201cnovo modo de ser Igreja\u201d o Documento de Puebla trabalha a Igreja como \u201cpovo peregrino\u201d e afirma que as CEBs se inserem \u201cvitalmente\u201d dentro da Igreja \u201ccomo povo hist\u00f3rico institucional\u201d (DPb n. 261). Por conseguinte, integradas \u00e0 totalidade do povo de Deus, as CEBs evitar\u00e3o os escolhos da seita, do autoabastecimento como \u201cIgreja popular\u201d (DPb n. 262).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed se distingue o sentido correto de \u201cpopular\u201d: \u201cque procura encarnar-se nos meios populares\u201d, \u201cque surge da resposta da f\u00e9\u201d e, assim, evita o escolho da \u201cIgreja que nasce do povo\u201d. Essa Igreja \u201cvem do alto\u201d. N\u00e3o aceita aquele sentido de \u201cpopular\u201d que estabelece uma contraposi\u00e7\u00e3o entre a assim chamada Igreja \u201cinstitucional\u201d ou \u201coficial\u201d e aquela que nasce de baixo, do povo. Ela introduz uma \u201cdivis\u00e3o no interior da Igreja\u201d que \u00e9 inaceit\u00e1vel (DPb n. 263). Leva consigo o perigo de \u201cdegenerar em anarquia organizativa\u201d ou \u201celitismo fechado ou sect\u00e1rio\u201d (DPb n. 261). De qualquer modo, o texto conclui que \u201cesta designa\u00e7\u00e3o parece pouco feliz\u201d (DPb n. 263).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Superando as ambiguidades que, \u00e0s vezes, o calor da luta traz consigo, o Documento de Puebla pode ainda afirmar positivamente que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">o compromisso com os pobres e o surgimento das Comunidades de Base ajudaram a Igreja a descobrir o potencial evangelizador dos pobres, enquanto estes a interpelam constantemente, chamando-a \u00e0 convers\u00e3o e pelo muito que eles realizam em sua vida os valores evang\u00e9licos de solidariedade, servi\u00e7o, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus. (DPb n. 1147)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois acontecimentos marcantes dessa fase se pronunciaram sobre as CEBs. Primeiro, a Confer\u00eancia de Santo Domingo concebe a par\u00f3quia como \u201ccomunidade de comunidades e movimentos\u201d e situa as CEBs dentro dela como \u201cc\u00e9lula viva\u201d (DSD n. 61). Segundo a abordagem das CEBs na V Confer\u00eancia Geral de Aparecida, \u00a0foi objeto de pol\u00eamica entre os defensores das Comunidades e aqueles que j\u00e1 traziam obje\u00e7\u00f5es. Para esses n\u00e3o agradava a \u00eanfase que o Documento final (DAp), aprovado pelos Bispos, dava \u00e0s CEBs. Por isso foi objeto de mudan\u00e7as. Na verdade, o texto das CEBs, que foi aprovado na terceira reda\u00e7\u00e3o do Documento de Aparecida, sumiu na quarta vers\u00e3o. Foi reintroduzido, a pedido de 10 Confer\u00eancias Episcopais. \u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de terem sido aben\u00e7oadas por Medell\u00edn, pela Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii Nuntiandi<\/em> n. 58 (Paulo VI) e por Puebla, \u00e9 curioso encontrar-nos na situa\u00e7\u00e3o de ter que defender essa experi\u00eancia leg\u00edtima e original da Igreja na Am\u00e9rica Latina e que faz hist\u00f3ria tamb\u00e9m em outros continentes, como Igreja <em>na base<\/em>: a estrutura mais simples e humanamente percept\u00edvel da presen\u00e7a dos disc\u00edpulos de Jesus Cristo na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, o saldo entre o que foi tirado do texto aprovado em Aparecida e o texto \u201ccorrigido\u201d, que, de certa forma, \u00e9 negativo, pode ser considerado preocupante. De fato, o que foi tirado \u00e9 incentivador, positivo, com o olhar voltado para o futuro da Igreja e da experi\u00eancia de renova\u00e7\u00e3o que trazem as CEBs. Enquanto o que foi posto em seu lugar se caracteriza pela precau\u00e7\u00e3o, com o olhar mais para o passado que para um futuro de esperan\u00e7a que as CEBs anunciam. Esse texto n\u00e3o distingue bem a presen\u00e7a das CEBs de outros grupos dentro da par\u00f3quia. Na verdade, as CEBs n\u00e3o se acrescentam aos grupos e movimentos, mas s\u00e3o realmente Igreja local dentro da qual cabem grupos, movimentos e outras realidades eclesiais. O texto corrigido acaba reduzindo a grande experi\u00eancia eclesial das CEBs \u00e0 \u201cexperi\u00eancia eclesial de algumas Igrejas da Am\u00e9rica Latina e do Caribe\u201d (DAp n. 178).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, vale ressaltar que o Documento de Aparecida chama a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da eucaristia na comunidade \u201ccomo centro de sua vida\u201d (DAp n. 180). Inclusive acentua \u201ca grande import\u00e2ncia do preceito dominical\u201d (DAp n. 252). L\u00e1 os bispos manifestam preocupa\u00e7\u00e3o com a maioria de nossas CEBs que \u201cn\u00e3o t\u00eam oportunidade de participar da eucaristia dominical\u201d, por falta de ministro. Por isso, nossos bispos lembraram de uma reflex\u00e3o, que j\u00e1 se fazia na patr\u00edstica, sobre a presen\u00e7a real e verdadeira de Jesus Cristo na Palavra proclamada. Assim, nossas CEBs \u201cpodem alimentar seu j\u00e1 admir\u00e1vel esp\u00edrito mission\u00e1rio, participando da \u2018celebra\u00e7\u00e3o dominical da Palavra\u2019, que faz presente o mist\u00e9rio pascal no amor que congrega (cf. 1Jo 3,14), na Palavra acolhida (cf. Jo 5,24-25) e na ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria\u201d (DAp n. 253).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.3 O Magist\u00e9rio pontif\u00edcio<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fixando-nos no magist\u00e9rio pontif\u00edcio, \u00e9 oportuno lembrar do ensinamento precioso de Paulo VI, na <em>Exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal Evangelii Nuntiandi<\/em> (1975). A multiplica\u00e7\u00e3o e a diversifica\u00e7\u00e3o das CEBs na Igreja universal levaram o S\u00ednodo sobre <em>A Evangeliza\u00e7\u00e3o no Mundo Contempor\u00e2neo<\/em> (1974) a fazer um discernimento eclesial sobre elas. Paulo VI, j\u00e1 no discurso final do S\u00ednodo, nos diz: \u201cnotamos, n\u00e3o sem alegria, que as pequenas comunidades crist\u00e3s trazem uma grande esperan\u00e7a para a Igreja, e que elas t\u00eam origem do Esp\u00edrito Santo\u201d (REB 136, 1974, p. 945). Na <em>Evangelii Nuntiandi,<\/em> o papa, retomando as contribui\u00e7\u00f5es dos padres sinodais, constata que as CEBs, \u201cflorescentes mais ou menos por toda a parte na Igreja, diferem bastante entre si\u201d (EN n. 58). Por isso \u00e9 necess\u00e1rio um constante discernimento sobre o seu valor eclesial. Em vista disso, ele analisa dois tipos de CEBs:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>h\u00e1 aquelas que \u201cbrotam e se desenvolvem no interior da Igreja, e s\u00e3o solid\u00e1rias com a vida da Igreja e alimentadas pela sua doutrina, e conservam-se unidas aos seus pastores\u201d (EN n. 58);<\/li>\n<li>h\u00e1 outras que \u201cagrupam comunidades de base com esp\u00edrito de cr\u00edtica acerba em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja\u201d, contrapondo Igreja \u201cinstitucional\u201d e \u201ccomunidades carism\u00e1ticas, libertas de estruturas\u201d. Elas \u201ccontestam radicalmente a Igreja\u201d. Essas \u201ccomunidades de base\u201d, segundo o papa, t\u00eam \u201cuma designa\u00e7\u00e3o puramente sociol\u00f3gica\u201d. Por isso, \u201cn\u00e3o poderiam, sem abuso de linguagem, intitular-se comunidades eclesiais de base\u201d (EN n. 58).<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa designa\u00e7\u00e3o de CEBs, diz ainda o papa, \u201cpertence \u00e0s outras, ou seja, \u00e0quelas que se re\u00fanem em Igreja, para se unir \u00e0 Igreja e para fazer aumentar a Igreja\u201d. Essas, sim, s\u00e3o Igreja, pois: a) \u201cnascem da necessidade de viver mais intensamente a vida da Igreja\u201d; b) \u201cvivem uma dimens\u00e3o mais humana\u201d; c) \u201ccongregam-se para ouvir e meditar a Palavra de Deus e celebrar os sacramentos para o v\u00ednculo do \u00c1gape\u201d (EN n. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atentas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de sua eclesialidade, adverte o papa, \u201cas comunidades eclesiais de base corresponder\u00e3o \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o mais fundamental: de ouvintes do Evangelho que lhes \u00e9 anunciado e de destinat\u00e1rios privilegiados da evangeliza\u00e7\u00e3o, elas pr\u00f3prias se tornar\u00e3o, sem tardan\u00e7a, anunciadoras do Evangelho\u201d. Assim, ser\u00e3o \u201clugar de evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cesperan\u00e7a para a Igreja universal\u201d (EN n. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com sua peculiar clareza, Jo\u00e3o Paulo II, em sua <em>Mensagem \u00e0s Comunidades Eclesiais de Base<\/em> (Manaus, 1980) explica como deve ser entendido o termo <em>Base<\/em>: \u201cSer eclesiais \u00e9 sua marca original e seu modo de existir e operar. E a base a que se referem \u00e9 de car\u00e1ter nitidamente eclesial e n\u00e3o meramente sociol\u00f3gico ou outro\u201d (JO\u00c3O PAULO II, 1980, n. 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, queremos sublinhar a recente contribui\u00e7\u00e3o do papa Francisco para uma nova din\u00e2mica mission\u00e1ria da Igreja. Primeiro, devemos dizer que Francisco n\u00e3o fez o Conc\u00edlio, mas o assimilou no interior da Igreja na Am\u00e9rica Latina, onde captou o esp\u00edrito conciliar de abertura ao mundo de hoje dentro do qual a Igreja deve ser mission\u00e1ria. Na <em>Evangelii Gaudium <\/em>(EG) ele cunhou a feliz express\u00e3o \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d para dizer que uma comunidade mission\u00e1ria n\u00e3o se fecha sobre si mesma (cf. EG n. 24). Segundo, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s CEBs, podemos dizer que faz parte da experi\u00eancia do jovem padre jesu\u00edta Bergoglio o trabalho pastoral nas periferias da arquidiocese de Buenos Aires, onde floresciam as CEBs. Terceiro, como bispo e depois arcebispo, sempre incentivou a renova\u00e7\u00e3o pastoral em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o eclesial e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale ressaltar sua participa\u00e7\u00e3o, como presidente da Comiss\u00e3o de Reda\u00e7\u00e3o do Documento final, na V Confer\u00eancia Geral dos Bispos Latino-americanos e Caribenhos de Aparecida. Nele se privilegia a dimens\u00e3o mission\u00e1ria, se incentiva as Comunidades de Base e as Pequenas Comunidades a serem evangelizadoras, sem perder contato com a par\u00f3quia, no contexto da pastoral org\u00e2nica (cf. EG n. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Bispo de Roma, o papa Francisco, mesmo sofrendo incompreens\u00f5es de alguns grupos dentro da Igreja, leva adiante sua preocupa\u00e7\u00e3o com as periferias do mundo de hoje, por isso convocou um S\u00ednodo especial dos Bispos para a Amaz\u00f4nia em 2019. Assim, ele quer situar no centro da solicitude da Igreja os mais pobres dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluindo, dizemos que as CEBs s\u00e3o fruto da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que renova a Igreja desde suas bases eclesiais. Elas n\u00e3o s\u00e3o compreendidas pelos seus participantes, em especial os pobres, como Movimentos na Igreja, mas como Igrejas na base eclesial dentro das Igrejas Particulares. Essa por\u00e7\u00e3o do Povo de Deus, mesmo pequena e pobre, \u00e9 Igreja de Cristo que \u201cest\u00e1 verdadeiramente presente em todas as leg\u00edtimas comunidades locais de fi\u00e9is\u201d. Sempre unidas aos seus pastores, elas geram \u201cum novo modo de ser Igreja\u201d e \u201cde a Igreja estar presente no mundo\u201d (CNBB, 1986, n. 3 e seguintes).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Cleto Caliman, SDB.\u00a0<\/em>PUC Minas \u2013 texto original em portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, Leonardo. <em>Eclesiog\u00eanese. <\/em>As Comunidades eclesiais de Base reinventam a Igreja<em>. <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARIAS, C. Pinto. Igreja, Povo de Deus, Comunidade e Comunidades Eclesiais de Base. In: BRIGHENTI, A.; PASSOS, J. D\u00e9cio (orgs.). <em>Comp\u00eandio das<\/em> <em>Confer\u00eancias dos Bispos da Am\u00e9rica Latina e Caribe<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas\/Paulus, 2018. p. 315-324.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CELAM. <em>Documento de<\/em> <em>Medell\u00edn<\/em>. Presen\u00e7a da Igreja na atual transforma\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina \u00e0 luz do Conc\u00edlio Vaticano II. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.faculdadejesuita.edu.br\/eventodinamico\/eventos\/documentos\/documento-FwdDtt9v3ukKPDZq.pdf\">https:\/\/www.faculdadejesuita.edu.br\/eventodinamico\/eventos\/documentos\/documento-FwdDtt9v3ukKPDZq.pdf<\/a> Acesso em: 4 nov 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CELAM. <em>Documento de<\/em> <em>Puebla. <\/em>Evangeliza\u00e7\u00e3o no presente e no futuro da Am\u00e9rica Latina. Conclus\u00f5es da III Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/portal.pucminas.br\/imagedb\/documento\/DOC_DSC_NOME_ARQUI20130906182452.pdf\">http:\/\/portal.pucminas.br\/imagedb\/documento\/DOC_DSC_NOME_ARQUI20130906182452.pdf<\/a> Acesso em: 12 dez 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CELAM. <em>Documento de<\/em> <em>Santo Domingo<\/em>. Nova evangeliza\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o humana e cultura crist\u00e3. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/portal.pucminas.br\/imagedb\/documento\/DOC_DSC_NOME_ARQUI20130906182452.pdf\">http:\/\/portal.pucminas.br\/imagedb\/documento\/DOC_DSC_NOME_ARQUI20130906182452.pdf<\/a> Acesso em: 12 set 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CELAM. <em>Documento de Aparecida<\/em>. V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.dhnet.org.br\/direitos\/cjp\/a_pdf\/cnbb_2007_documento_de_aparecida.pdf\">http:\/\/www.dhnet.org.br\/direitos\/cjp\/a_pdf\/cnbb_2007_documento_de_aparecida.pdf<\/a> Acesso em: 6 nov 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CNBB. <em>Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil.<\/em> 4.ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1986 (Documentos da CNBB 25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CNBB. <em>Mensagem ao Povo de Deus das Comunidades Eclesiais de Base.<\/em> Bras\u00edlia: Edi\u00e7\u00f5es CNBB, 2010 (Documentos da CNBB 92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CNBB. <em>Plano de emerg\u00eancia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1963.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CNBB. <em>Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1966.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CNBB. <em>Reflex\u00e3o crist\u00e3 sobre a Conjuntura pol\u00edtica<\/em>. Conselho Permanente, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ENCONTRO DE VIT\u00d3RIA, ES. <em>Comunidades Eclesiais de Base: uma Igreja que nasce do Povo. <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FERRARO, Benedito. Comunidades Eclesiais de Base, Par\u00f3quia, Igreja Particular. In: SOUZA, N.; SBARDELOTTI, E. (Orgs.). <em>Puebla: <\/em>Igreja na Am\u00e9rica Latina e no Caribe<em>.<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes, 2019. p. 312-324.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREITAS, M. Carmelita de. <em>Uma Op\u00e7\u00e3o renovadora. <\/em>A Igreja no Brasil e o Planejamento pastoral. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JO\u00c3O PAULO II. <em>Mensagem do Papa Jo\u00e3o Paulo II aos l\u00edderes das Comunidades de Base do Brasil<\/em>. Mensagens pontif\u00edcias. Site Vaticano. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/messages\/pont_messages\/1980\/documents\/hf_jp-ii_mes_19800711_comunita-base-brasile.html\">http:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/messages\/pont_messages\/1980\/documents\/hf_jp-ii_mes_19800711_comunita-base-brasile.html<\/a> Acesso em: 23 nov 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIBANIO, J. Batista. <em>Conc\u00edlio Vaticano II. <\/em>Em busca de uma primeira compreens\u00e3o<em>.<\/em> S\u00e3o Paulo: Loyola, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MA\u00c7ANEIRO, Mar\u00e7al. Movimentos eclesiais. In: PASSOS, J. D.; SANCHEZ, W. L. <em>Dicion\u00e1rio do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas-Paulus, 2015. p. 643-647.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARINS, Jos\u00e9. Comunidades Eclesiais de Base na Am\u00e9rica Latina. <em>Concilium,<\/em> v. 104, n. 4, p. 404-413, 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAULO VI. Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <em>Evangelii Nuntiandi<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/paul-vi\/pt\/apost_exhortations\/documents\/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi.html\">http:\/\/www.vatican.va\/content\/paul-vi\/pt\/apost_exhortations\/documents\/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi.html<\/a> Acesso em: 5 out 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, Karl. Kommentar. In: <em>Lexikon f\u00fcr Theologie und Kirche<\/em> 12<em>.<\/em> Freiburg \u2013 Basel \u2013 Wien: Herder, 1966. p. 210-259.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEIXEIRA, L. C. Faustino. <em>A G\u00eanese das CEBs no Brasil. <\/em>Elementos explicativos<em>. <\/em>S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1988.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 CEBs: movimento ou Igreja? 2 Compreens\u00e3o da eclesialidade 3 Primeiros passos 4 O que dizem te\u00f3logos e pastoralistas 5 O que diz o Magist\u00e9rio da Igreja 5.1 O magist\u00e9rio da Igreja no Brasil 5.2 Confer\u00eancias Gerais do Episcopado LAeC 5.3 O Magist\u00e9rio pontif\u00edcio Conclus\u00e3o Refer\u00eancias Introdu\u00e7\u00e3o O sopro do Esp\u00edrito Santo despertou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1999","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1999"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2401,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1999\/revisions\/2401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}