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{"id":1990,"date":"2020-12-31T10:47:48","date_gmt":"2020-12-31T12:47:48","guid":{"rendered":"http:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1990"},"modified":"2021-02-10T15:54:56","modified_gmt":"2021-02-10T17:54:56","slug":"carta-aos-galatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1990","title":{"rendered":"Carta aos G\u00e1latas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Formas liter\u00e1rias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Estrutura<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Destaques teol\u00f3gicos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Conte\u00fado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.1 Cabe\u00e7alho: Gl 1,1-10<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2 Corpo da Carta <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2.1 I parte: Gl 1,11\u20132,21<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2.2 II parte: Gl 3,1\u20134,31<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2.3 III parte: Gl 5,1\u20136,10<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.3 Conclus\u00e3o: Gl 6,11-18<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Carta aos G\u00e1latas \u00e9 considerada aut\u00eantica de Paulo, tamb\u00e9m chamada de protopaulina. Seu objetivo \u00e9 superar a crise provocada pelos crist\u00e3os<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> vindos do juda\u00edsmo, os chamados judaizantes (Gl 1,7.9; 4,17; 5,7.8-10.12; 6,12.13), ao exigirem que aqueles que aderiam a Jesus Cristo, sem pertencerem \u00e0 cultura e religi\u00e3o judaica, passassem pela circuncis\u00e3o e praticassem os mandamentos determinantes para a identidade judaica (Gl 3,2; 4,10.21; 5,3-4). Eles, ainda, afirmavam que Paulo n\u00e3o anunciava o verdadeiro Evangelho aos gentios. Apesar de n\u00e3o serem expressamente identificados na Carta aos G\u00e1latas, provavelmente os judaizantes eram crist\u00e3os provenientes de Jerusal\u00e9m. A Carta aos G\u00e1latas, portanto, \u00e9 fortemente marcada pelo car\u00e1ter pol\u00eamico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 duas propostas de data\u00e7\u00e3o dessa carta, bem como do local de sua escrita. A primeira seria entre os anos 56-57 dC, na Maced\u00f4nia. A segunda hip\u00f3tese afirma que essa carta foi escrita em \u00c9feso, em meados dos anos 50 dC (entre 54-57). A segunda proposta parece ser a mais plaus\u00edvel, ao considerarmos os estudos atuais e a revis\u00e3o da data\u00e7\u00e3o das outras cartas de Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro problema surge quanto \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o dos destinat\u00e1rios dessa carta, dada a indica\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica do cabe\u00e7alho (\u201cIgrejas da Gal\u00e1cia\u201d) e por individuarmos duas \u00e1reas geogr\u00e1ficas com o mesmo nome: a Regi\u00e3o da Gal\u00e1cia, chamada de regi\u00e3o Norte (Gal\u00e1cia setentrional), e a Prov\u00edncia Romana da Gal\u00e1cia, que englobava a regi\u00e3o Sul da \u00c1sia Menor (Gal\u00e1cia Meridional). A op\u00e7\u00e3o pela <em>Regi\u00e3o<\/em>, e n\u00e3o pela<em> Prov\u00edncia<\/em>, \u00e9 a mais plaus\u00edvel, pois sabe-se que Paulo n\u00e3o costuma citar os nomes oficiais das prov\u00edncias romanas em suas cartas, e sim os das regi\u00f5es (Gl 1,17.21; 4,25; 1Ts 2,14; Rm 15,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Gal\u00e1cia era formada por uma popula\u00e7\u00e3o de origem celta, que no s\u00e9culo III aC emigrou para o centro-norte da \u00c1sia Menor, e corresponde \u00e0 <em>Regi\u00e3o <\/em>central da atual Turquia. No per\u00edodo da domina\u00e7\u00e3o grega, n\u00e3o houve resist\u00eancia dos g\u00e1latas, tendo ocorrido a heleniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. Diante das vantagens dos romanos, os g\u00e1latas os apoiaram, sendo recompensados com a amplia\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio, por Pompeu e Augusto, e em 25 aC torna-se <em>Prov\u00edncia Romana<\/em> (SCHNELLE, 2010, p. 331-335).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo nos informa que sua perman\u00eancia na regi\u00e3o da Gal\u00e1cia deu-se por causa de uma enfermidade (Gl 4,13-14). Nesse per\u00edodo, a comunidade foi fundada, sendo, em sua maioria, constitu\u00edda por pessoas de origem pag\u00e3 (Gl 4,8; 5,2s; 6,12s), origin\u00e1rias da cultura greco-helenista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao entrecruzar dados autobiogr\u00e1ficos e doutrin\u00e1rios, Paulo reafirma que os gentios n\u00e3o precisam se circuncidar nem obedecer aos mandamentos exigidos pelos judaizantes, ou seja, ningu\u00e9m precisa ser um pros\u00e9lito do juda\u00edsmo para tornar-se depois um seguidor de Cristo com o batismo, e comprova que a reden\u00e7\u00e3o prov\u00e9m da f\u00e9 em Cristo Jesus e n\u00e3o da pr\u00e1tica da lei. Desse modo, defende a validade de seu Evangelho, e aborda um dos temas principais de sua \u201cteologia\u201d, a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 em Cristo Crucificado e Ressuscitado, j\u00e1 antes aludido na Carta aos Filipenses, por\u00e9m n\u00e3o aprofundado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por estar na fase final da a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria de Paulo, G\u00e1latas reflete toda a experi\u00eancia e a maturidade teol\u00f3gica deste incans\u00e1vel ap\u00f3stolo e mission\u00e1rio de Jesus Cristo, e nos oferece v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es sobre o cristianismo primitivo (Gl 2,1-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Formas liter\u00e1rias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, podemos dizer que G\u00e1latas pertence ao g\u00eanero epistolar, com uma finalidade apost\u00f3lica, ou seja, traz um discurso de Paulo dirigido aos g\u00e1latas, num determinado momento de crise da comunidade. Al\u00e9m dessa forma liter\u00e1ria geral, alguns comentadores, ao evidenciar seus aspectos ret\u00f3ricos, prop\u00f5em outras classifica\u00e7\u00f5es, como: \u201crepreens\u00e3o-pedido\u201d, \u201cret\u00f3rica forense\u201d, \u201cret\u00f3rica deliberativa\u201d ou a mistura entre ret\u00f3rica \u201cforense\u201d (Gl 1,6\u20134,11) e \u201cdeliberativa\u201d (Gl 4,12\u20136,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Estrutura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tamb\u00e9m v\u00e1rias propostas de subdivis\u00e3o do texto, mas assumiremos uma, por privilegiar a estrutura b\u00e1sica de uma carta e o conte\u00fado (VANHOYE, 2000, p. 26-27; PITTA, 2019, p.162). Nesse caso, tem-se o cabe\u00e7alho, contendo o remetente, o destinat\u00e1rio, a sauda\u00e7\u00e3o e a indica\u00e7\u00e3o do problema a ser tratado (Gl 1,1-10); o corpo da carta (1,11\u20136,10), no qual \u00e9 desenvolvido o conte\u00fado, e a sauda\u00e7\u00e3o final (6,11-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo da carta articula-se em tr\u00eas partes: a) dados autobiogr\u00e1ficos e defesa da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 em Cristo, e n\u00e3o pela observ\u00e2ncia das obras da lei (1,13\u20132,21); b) seis argumentos que comprovam a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, tirados da experi\u00eancia da comunidade e da Escritura, particularmente de Abra\u00e3o (3,1\u20134,31); e c) a parte exortativa, advertindo os g\u00e1latas a manterem a liberdade em Cristo e a caminharem segundo o Esp\u00edrito (5,1\u2013 6,10). Conclui-se com alguns coment\u00e1rios pessoais e com uma breve b\u00ean\u00e7\u00e3o (Gl 6,11-18), conforme o esquema que segue:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"85\">\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"79\">\n<p>1,1-10<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"384\">\n<p>Cabe\u00e7alho e a indica\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td rowspan=\"3\" width=\"85\">\n<p><strong>Corpo <\/strong><strong>da<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carta<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"79\">\n<p>1,11\u20132,21<\/p>\n<p>I PARTE<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"384\">\n<p>Tese principal da carta (1,11-12)<\/p>\n<p>Dados autobiogr\u00e1ficos e defesa da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 (1,13\u20132,21)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"79\">\n<p>3,1\u20134,31<\/p>\n<p>II PARTE<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"384\">\n<p>Parte doutrin\u00e1ria: seis argumentos que comprovam a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 e n\u00e3o pela observ\u00e2ncia das obras da lei<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"79\">\n<p>5,1\u2013 6,10<\/p>\n<p>III PARTE<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"384\">\n<p>Parte exortativa: liberdade e vida segundo o Esp\u00edrito<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"85\">\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"79\">\n<p>6,11-18<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"384\">\n<p>Assinatura, coment\u00e1rios finais e b\u00ean\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Destaques teol\u00f3gicos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos eixos teol\u00f3gicos centrais de G\u00e1latas \u00e9 a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 e n\u00e3o pelas obras da lei. Para o ap\u00f3stolo, a lei \u00e9 dada para conduzir o povo eleito at\u00e9 \u00e0 plenitude da revela\u00e7\u00e3o, que se d\u00e1 com a vinda de Cristo. Desta forma, a promessa dada a Abra\u00e3o (Gl 3,6-9), por ter acreditado, realiza-se em Jesus (Gl 4,1-5), de forma particular, ao conceder a reden\u00e7\u00e3o a toda a humanidade (Gl 2,16.17.21; 3,8.11.21.24; 5,4.5). Outro elemento importante \u00e9 a <em>f\u00e9<\/em> como ades\u00e3o \u00e0 iniciativa salv\u00edfica do Pai, mediada pela obedi\u00eancia do Filho (Gl 2,19-20) e pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (Gl 4,6-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo, para falar sobre o alegre an\u00fancio salv\u00edfico centrado no mist\u00e9rio da vida de Cristo, sobretudo o mist\u00e9rio pascal, usa o termo Evangelho (Gl 1,11-12). O crist\u00e3o, acolhendo o Evangelho e aderindo a ele, participa gratuitamente, por meio do batismo, da filia\u00e7\u00e3o divina (Gl 3,26-4,7). Essa filia\u00e7\u00e3o se expressa concretamente na viv\u00eancia da liberdade em Cristo, que consiste no deixar-se conduzir pelo Esp\u00edrito (Gl 5,1-26), isto \u00e9, ter uma vida pautada pelo amor, pelo servi\u00e7o (Gl 5,13; 6,1-10), sendo uma nova criatura (Gl 6,15) (SILVANO, 2015, p.448-450).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Conte\u00fado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apresentaremos o conte\u00fado da carta conforme a estrutura supramencionada: o cabe\u00e7alho; o corpo da carta com suas tr\u00eas partes e a conclus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.1 Cabe\u00e7alho: Gl 1,1-10<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cabe\u00e7alho cont\u00e9m o remetente (Gl 1,1a-2b) e a refer\u00eancia ao destinat\u00e1rio (v. 3). Paulo acentua a proveni\u00eancia divina de sua voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o, ao se apresentar como ap\u00f3stolo, enviado por Jesus Cristo Ressuscitado (Gl 1,1) e por Deus Pai; ressalta ainda o plano salv\u00edfico do Pai, que se realiza por meio de seu Filho Jesus Cristo. Essa \u00eanfase se d\u00e1 em vista da problem\u00e1tica provocada na comunidade pelos chamados opositores, que, provavelmente, afirmavam n\u00e3o ser Paulo um verdadeiro ap\u00f3stolo e sim o anunciador de um falso evangelho. \u00c9 importante destacar que sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a defesa de sua identidade de ap\u00f3stolo, mas da verdade e da origem divina do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A introdu\u00e7\u00e3o de G\u00e1latas diferencia-se das outras cartas pelo uso de uma express\u00e3o gen\u00e9rica ao referir-se aos colaboradores que est\u00e3o com Paulo e por n\u00e3o conter uma a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as espec\u00edfica dedicada \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse cabe\u00e7alho, podemos perceber que Paulo se v\u00ea como um instrumento da a\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica de Deus no meio dos gentios, e tamb\u00e9m do an\u00fancio da filia\u00e7\u00e3o divina aberta a toda a humanidade por meio da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. Constatamos, em Gl 1,4-5, uma f\u00f3rmula querigm\u00e1tica, que expressa a a\u00e7\u00e3o soteriol\u00f3gica de Cristo (v. 4), acompanhada de uma doxologia (v. 5) que fecha a sauda\u00e7\u00e3o, ressaltando a a\u00e7\u00e3o redentora de Cristo, extensiva a todo o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo grego <em>aivw,n<\/em> (<em>ai<u>\u00f3<\/u>n<\/em>), em Gl 1,4, pode ser traduzido por <em>s\u00e9culo<\/em>, <em>\u00e9on<\/em> ou <em>mundo. <\/em>A express\u00e3o \u201ctempo presente mau\u201d prov\u00e9m da apocal\u00edptica judaica, que distinguia o tempo dominado pelo pecado, tempo da escravid\u00e3o (tempo mau) e o tempo vindouro, do reino de Deus, que para Paulo se inicia com Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s essa introdu\u00e7\u00e3o breve, Paulo substituiu a habitual a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as por uma admoesta\u00e7\u00e3o que exprime sua indigna\u00e7\u00e3o diante da inconst\u00e2ncia dos g\u00e1latas, por se deixarem levar pelos argumentos dessas pessoas que s\u00e3o chamadas por Paulo de advers\u00e1rios. Seu intuito \u00e9 apresentar a gravidade do problema e convencer os g\u00e1latas a retomarem o caminho j\u00e1 iniciado conforme seus ensinamentos. Por isso, o ap\u00f3stolo defende o Evangelho por ele anunciado e conduz os g\u00e1latas a tomar consci\u00eancia de que n\u00e3o podem se deixar seduzir pelo evangelho que ele chama de <em>diverso<\/em>. Esse evangelho <em>diverso<\/em>, provavelmente, pregado pelos judeus-crist\u00e3os (\u201cjudaizantes\u201d), defendia a necessidade de exigir dos batizados, de origem pag\u00e3, a circuncis\u00e3o e a observ\u00e2ncia da lei, sobretudo as prescri\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 identidade judaica, como o repouso sab\u00e1tico, as leis diet\u00e9ticas e aquelas referentes \u00e0s festas anuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201caquele que vos chamou mediante a gra\u00e7a\u201d, em Gl 1,6, refere-se a Deus-Pai, e traz o conte\u00fado que perpassar\u00e1 toda a carta: a f\u00e9 \u00e9 um dom gratuito de Deus dado a todos os que aderem a Jesus Cristo. Portanto, n\u00e3o \u00e9 dada somente ao povo judeu, sendo, ent\u00e3o, injustific\u00e1vel exigir que os gentios se tornassem pros\u00e9litos do juda\u00edsmo, como se esta fosse a \u00fanica porta para a f\u00e9 crist\u00e3, pois como diz Paulo, isso n\u00e3o \u00e9 a vontade de Deus. De fato, o ap\u00f3stolo afirma que os que seguem um Evangelho diferente daquele pregado por ele s\u00e3o an\u00e1temas, porque n\u00e3o seguem os des\u00edgnios de Deus (Gl 1,8-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u201cEvangelho\u201d, segundo a perspectiva paulina, designa a revela\u00e7\u00e3o do Filho Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos (Gl 1,1; 1Cor 15,1-5) ap\u00f3s a morte na cruz (1Cor 2,2). Assim, Jesus morre porque \u00e9 fiel ao plano do Pai, que foi rejeitado; por\u00e9m Deus n\u00e3o se vinga, mas continua revelando seu amor ao resgatar a humanidade do pecado e libert\u00e1-la da escravid\u00e3o. Isso expressa a solidariedade do Filho a favor de todos e instaura a economia da justi\u00e7a (Rm 1,16) anunciada pelos profetas (Rm 16,25-26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em G\u00e1latas, a palavra \u201cEvangelho\u201d exprime, ao mesmo tempo, a atividade do ap\u00f3stolo e a mensagem que ele anuncia. Desse modo, Paulo sustenta a autenticidade da mensagem e reafirma que o Evangelho anunciado por ele n\u00e3o \u00e9 de origem humana e que a reden\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 condicionada a obras humanas (v. 10). A mensagem \u00e9 divina e tem sua centralidade em Cristo. O chamado \u00e0 f\u00e9 \u00e9 um dom gratuito de Deus Pai (Gl 1,15; 5,8), fundamentando-se na obedi\u00eancia filial de Cristo Jesus e no seu amor generoso, que o levou a se entregar por cada um de n\u00f3s (Gl 2,19-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2 Corpo da carta<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conte\u00fado do corpo da carta ser\u00e1 desenvolvido em partes: a) Gl 1,11\u20132,21; b) Gl 3,1\u20134,31 e c) Gl 5,1\u20136,10.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2.1 I Parte: Gl 1,11\u20132,21<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o cabe\u00e7alho, Paulo desenvolve o argumento da carta em tr\u00eas partes. A primeira \u00e9 descrita em Gl 1,11\u20132,21 que, por sua vez, \u00e9 dividida em dois grandes blocos: a) a tese geral (vv. 11-12), e b) os argumentos baseados em dados autobiogr\u00e1ficos e na defesa da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ap\u00f3stolo reafirma a natureza (v. 11) e a origem (v. 12) do seu Evangelho, recebido por revela\u00e7\u00e3o de Deus. Para confirmar essa tese central, traz v\u00e1rios argumentos, sendo o primeiro de cunho pessoal, ou autobiogr\u00e1fico, que abarca desde sua forma\u00e7\u00e3o judaica e zelo pelas tradi\u00e7\u00f5es do juda\u00edsmo at\u00e9 a experi\u00eancia da revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo na estrada de Damasco, sua perman\u00eancia nessa cidade e sua viagem \u00e0 Ar\u00e1bia (regi\u00e3o ao sul de Damasco) depois da revela\u00e7\u00e3o (Gl 1,13-17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verbo \u201caniquilar\u201d, ou \u201cdestruir\u201d, usado na carta para descrever o motivo da viagem a Damasco, expressa a avers\u00e3o do ap\u00f3stolo para com a Igreja nascente (Gl 1,23 e At 9,21), n\u00e3o porque Paulo fosse ruim, mas por ser um fariseu zeloso pelas tradi\u00e7\u00f5es judaicas. Para os fariseus, Jesus n\u00e3o era o Messias, era um impostor, por ter morrido crucificado e por n\u00e3o ter instaurado a justi\u00e7a anunciada; era um blasfemo, por afirmar ser o Filho de Deus. Desse modo, ele estava iludindo os judeus e afastando-os das tradi\u00e7\u00f5es judaicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo, como fariseu zeloso por suas tradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poderia deixar o povo ser enganado e, portanto, decide perseguir esses seguidores de Jesus. Ele n\u00e3o poderia prender, nem aplicar a puni\u00e7\u00e3o disciplinar para esses casos, que era a de 40 golpes de vara, menos um, mas poderia lev\u00e1-los at\u00e9 as autoridades judaicas leg\u00edtimas que exerceriam tal julgamento e puni\u00e7\u00e3o (PENNA, 2018, p. 29). Em Gl 1,13-14, relata esta sua conduta no juda\u00edsmo, para mostrar a gratuidade da interven\u00e7\u00e3o de Deus em sua hist\u00f3ria pessoal, garantindo, portanto, a origem divina do seu Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gl 1,15-16, o ap\u00f3stolo define sua experi\u00eancia em Damasco como uma revela\u00e7\u00e3o direta de Jesus Cristo, por iniciativa de Deus-Pai. Essa experi\u00eancia funde-se com um chamado, \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0quela dada aos profetas do Povo de Deus (v. 15; Is 49, 1; 50,4; Jr 1,5). Conforme o seu relato, a revela\u00e7\u00e3o que Deus lhe fez tinha o seguinte conte\u00fado: Jesus, o Crucificado-Ressuscitado, \u00e9 o Filho de Deus e \u00e9 o Messias esperado (Evangelho). Paulo recebe tamb\u00e9m uma miss\u00e3o: anunciar essa Boa Nova (Evangelho) entre as na\u00e7\u00f5es. Assim, a reden\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecida gratuitamente para toda a humanidade, mediante a f\u00e9 em Cristo. A narrativa termina com algumas informa\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o, como a visita que o ap\u00f3stolo fez a Jerusal\u00e9m; seu contato com Tiago, o l\u00edder da comunidade de Jerusal\u00e9m (Gl 1,18-23; At 12,17; 15,13; 21,18; 1Cor 15,7), a Igreja-M\u00e3e; e sua viagem para as regi\u00f5es da S\u00edria e da Cil\u00edcia, a fim de cumprir a miss\u00e3o de evangelizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gl 2,1-10, Paulo narra como em companhia de Barnab\u00e9 e Tito se encontrou com os \u201cnot\u00e1veis\u201d da Igreja-m\u00e3e na chamada Assembleia de Jerusal\u00e9m. O tema central da Assembleia era a exig\u00eancia, por parte de alguns judeus-crist\u00e3os (chamados por Paulo de <em>falsos irm\u00e3os<\/em> ou <em>intrusos<\/em>), da observ\u00e2ncia das leis judaicas e da circuncis\u00e3o para os gentio-crist\u00e3os. A circuncis\u00e3o, em Israel, era uma das exig\u00eancias da Alian\u00e7a de Deus com Abra\u00e3o (Gn 17,1-14.23-27) e negligenci\u00e1-la significava violar a Alian\u00e7a. Por isso, batizar os gentios sem exigir a circuncis\u00e3o e a observ\u00e2ncia da lei, no pensamento dos judeus-crist\u00e3os, seria contradizer a afirma\u00e7\u00e3o de que Cristo \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o definitiva da Alian\u00e7a e das promessas feitas aos patriarcas. Para fortalecer seus argumentos, Paulo leva Tito, por ser ele um seguidor de Jesus de cultura grega, incircunciso, ou seja, ele era a representa\u00e7\u00e3o do problema e do resultado da Assembleia, dado que os not\u00e1veis n\u00e3o exigiram sua circuncis\u00e3o por ter ele aderido a Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo problema estava no fato de que os gentio-crist\u00e3os n\u00e3o obedeciam aos rituais de purifica\u00e7\u00e3o e \u00e0s leis alimentares, causando dificuldade ao compartilhar da mesa fraterna com os judeu-crist\u00e3os. No juda\u00edsmo da \u00e9poca, a comunh\u00e3o de mesa com os gentios n\u00e3o era vetada desde que eles observassem as leis alimentares. Essas leis consistiam em evitar alimentos impuros (Lv 15,10-14; Dt 14), sangue de animais (cf. Gn 9,4; Lv 17,10-14; Dt 12,16.23-24) e carnes imoladas aos \u00eddolos (1Cor 8\u201310). A observ\u00e2ncia das leis alimentares e sua imposi\u00e7\u00e3o aos gentios era uma forma de garantir a fidelidade \u00e9tnica e religiosa judaica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado da Assembleia de Jerusal\u00e9m foi a confirma\u00e7\u00e3o da autenticidade do Evangelho anunciado aos gentios e o reconhecimento oficial da miss\u00e3o de Paulo, por parte desses not\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo depois, o ap\u00f3stolo descreve na carta a sua discuss\u00e3o com <em>Kefas<\/em> (Pedro), que inicialmente comia com os crist\u00e3os gentios em Antioquia da S\u00edria, ou seja, n\u00e3o se preocupava com as leis diet\u00e9ticas, mas ap\u00f3s a chegada de pessoas de Jerusal\u00e9m, Pedro se recusa a comer na mesma mesa com os gentios. \u00c9 poss\u00edvel justificar a a\u00e7\u00e3o de Pedro por quest\u00f5es pr\u00e1ticas, sendo uma delas n\u00e3o escandalizar os crist\u00e3os vindos da cidade santa, visto que, na Assembleia de Jerusal\u00e9m, Pedro fora confirmado como evangelizador das pessoas de cultura judaica. Aos olhos de Paulo, no entanto, essa atitude do l\u00edder principal da Igreja soou como uma confirma\u00e7\u00e3o de que o Evangelho pregado por ele n\u00e3o era verdadeiro e que os judaizantes tinham raz\u00e3o de exigirem a circuncis\u00e3o e o cumprimento das leis diet\u00e9ticas e daquelas pr\u00f3prias dos judeus, dado que Jesus \u00e9 o Messias, esperado pelo povo judeu, e, portanto, se cumpriam as promessas dadas ao povo eleito, ao povo da Alian\u00e7a, ao povo escolhido por Deus, e n\u00e3o para todos os povos. \u00a0Desse modo, na perspectiva de Paulo, a atitude de Pedro perpetuava a divis\u00e3o entre as comunidades constitu\u00eddas por judeus, e aquelas formadas por pessoas vindas das religi\u00f5es helenistas. Diante desse cen\u00e1rio, o ap\u00f3stolo introduz um dos pontos fundamentais de sua teologia, a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 em Cristo e n\u00e3o pelas obras da lei (2,15-21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o <em>obras da lei<\/em> (Gl 2,16) pode ser entendida como observ\u00e2ncia dos atos prescritos na lei mosaica (Gl 3,2.5.10; Rm 2,15; 3,20.27-28), mas sobretudo as leis relacionadas \u00e0 identidade judaica, como foi mencionado. Para alguns judeus do Segundo Templo, s\u00f3 a observ\u00e2ncia da lei assegurava a salva\u00e7\u00e3o, portanto deveria ser cumprida a fim de serem reconhecidos como justos. Para Paulo, ao contr\u00e1rio, a lei n\u00e3o pode tornar justa uma pessoa que \u00e9 culpada, mas somente sentenci\u00e1-la, justamente pelo fato de a ter violado. O \u00fanico que pode tornar uma pessoa justa \u00e9 Jesus Cristo, pela reden\u00e7\u00e3o que vem de sua morte na cruz. Portanto, \u00e9 necess\u00e1ria a <em>f\u00e9,<\/em> que, para Paulo, sup\u00f5e a experi\u00eancia pessoal com Jesus Cristo e a ades\u00e3o a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cpela lei, para a lei morri\u201d (Gl 2,19) parte do pressuposto de que o crist\u00e3o, pelo batismo, se une \u00e0 paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, em vista de um viver para Deus (Rm 6,10). Quanto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o da lei diante da morte de Jesus, pode ser compreendida em dois sentidos: como deslegitimada por condenar um inocente; ou como inv\u00e1lida, pois n\u00e3o tem poder sobre um morto. Esses aspectos teol\u00f3gicos ser\u00e3o aprofundados na segunda parte do desenvolvimento da carta. Nessa segunda se\u00e7\u00e3o, o autor n\u00e3o se serve mais de dados autobiogr\u00e1ficos, mas de textos do Antigo Testamento, sobretudo da hist\u00f3ria de Abra\u00e3o e da experi\u00eancia de f\u00e9 dos g\u00e1latas ap\u00f3s o batismo (3,1\u20134,31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2.2 II Parte: Gl 3,1\u20134,31<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 ent\u00e3o, na primeira parte, Paulo falara sobre si mesmo: sua trajet\u00f3ria, sua voca\u00e7\u00e3o, sua rela\u00e7\u00e3o com os outros ap\u00f3stolos. Agora, na segunda, por meio de perguntas ret\u00f3ricas, apela para a experi\u00eancia batismal dos g\u00e1latas, para que possam tomar consci\u00eancia da crise que est\u00e3o vivendo (Gl 3,1-5) e do erro que cometer\u00e3o ao se deixarem levar pelos judaizantes. \u00c9 uma se\u00e7\u00e3o marcada por argumentos fundamentados na hist\u00f3ria de Abra\u00e3o, aquele que cr\u00ea (3,6-14) e na preced\u00eancia da promessa feita aos patriarcas anteriores a Mois\u00e9s, portanto n\u00e3o mediante a lei (3,15-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O argumento sintetizado em Gl 3,6-7 que todos os batizados s\u00e3o tamb\u00e9m filhos de Abra\u00e3o \u00e9 fundamental e ser\u00e1 desenvolvido nessa se\u00e7\u00e3o (3,7-29). Paulo parte do pressuposto de que Abra\u00e3o foi justificado, antes da circuncis\u00e3o e da lei dada a Mois\u00e9s, por confiar nas promessas de Deus, conforme Gn 15,6. O conte\u00fado central dessas promessas \u00e9 que em Abra\u00e3o todas as na\u00e7\u00f5es ser\u00e3o aben\u00e7oadas, e o cumprimento dessa promessa se d\u00e1 em Cristo. Assim, todos os batizados, e n\u00e3o somente os judeus, s\u00e3o filhos de Abra\u00e3o e gozam das promessas e da heran\u00e7a abra\u00e2mica Desse modo o ap\u00f3stolo estabelece uma rela\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 em Cristo e a filia\u00e7\u00e3o abra\u00e2mica, demonstrando que, na f\u00e9 em Cristo, os g\u00e1latas tornam-se filhos de Abra\u00e3o e de Deus. Portanto, essa promessa n\u00e3o est\u00e1 vinculada \u00e0 circuncis\u00e3o, nem \u00e0s leis dadas a Mois\u00e9s, consequentemente n\u00e3o devem ser exigidas dos gentios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estrategicamente, o autor serve-se de Abra\u00e3o, sendo ele um dos personagens principais dessa se\u00e7\u00e3o, por ser destinat\u00e1rio das promessas, o pai do povo eleito, o paradigma da f\u00e9 monote\u00edsta, pois \u00e9 o primeiro pros\u00e9lito que passa da adora\u00e7\u00e3o aos \u00eddolos para a adora\u00e7\u00e3o do Deus UM. De fato, Abra\u00e3o era considerado justo porque confiou nas promessas dadas por Deus. Por isso, \u00e9, para Paulo, pai daqueles que t\u00eam f\u00e9 em Cristo, e que s\u00e3o justificados por essa f\u00e9. Dessa forma, ele pode concluir afirmando que \u00e9 pela gra\u00e7a que os g\u00e1latas s\u00e3o justificados e n\u00e3o pela lei (Gl 3,7-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gl 3,15-29, Paulo provar\u00e1 que a lei foi acrescentada para que o povo tomasse consci\u00eancia das transgress\u00f5es e do pecado. Assim, a lei \u00e9 espiritual, boa (Rm 7,14.16), divina, tem uma natureza diferente das promessas dadas a Abra\u00e3o, as quais atingem seu cumprimento com a vinda de Cristo (Gl 5,14). Ela tem a fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de indicar o que \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 vontade de Deus, mas n\u00e3o tem o poder de tornar justo quem \u00e9 culpado. A lei foi necess\u00e1ria, num determinado per\u00edodo, para o amadurecimento do povo de Israel, como um pedagogo que orienta o povo de Deus, mas com a vinda de Cristo, a lei atinge seu pleno cumprimento. Por\u00e9m, conforme o pensamento de Paulo, n\u00e3o \u00e9 eliminada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo, portanto, ser\u00e1 o princ\u00edpio normativo para aqueles que aderem a Ele, para aqueles que, com o batismo, s\u00e3o inseridos no mist\u00e9rio pascal, assumindo uma nova identidade (v. 27). Em Gl 3,26-29, Paulo re\u00fane tanto a tese presente em Gl 3,6-7, como as quest\u00f5es da filia\u00e7\u00e3o, da promessa e da heran\u00e7a abra\u00e2micas, temas que perpassaram esse cap\u00edtulo, afirmando que todos s\u00e3o filhos de Deus mediante a f\u00e9 no Filho, que nos redime (Gl 3,10.13.22). Assim, as distin\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, classe, g\u00eanero, presentes na sociedade, n\u00e3o podem ser reproduzidas nas comunidades, pois \u00e9 necess\u00e1rio manter a unicidade do corpo de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os elementos citados s\u00e3o reafirmados em Gl 4,1-7. Nessa per\u00edcope, para refletir sobre a a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus na hist\u00f3ria, o ap\u00f3stolo serve-se do exemplo de um herdeiro que n\u00e3o pode usufruir da heran\u00e7a por ser menor de idade, permanecendo sob o cuidado de tutores at\u00e9 atingir a maturidade estabelecida pelo pai. De forma an\u00e1loga, ocorre tamb\u00e9m com a humanidade que vivia um tempo de imaturidade, o per\u00edodo antes da vinda do Messias, influenciada pelos <em>elementos do mundo<\/em> que indicam tanto as for\u00e7as naturais e c\u00f3smicas, que eram divinizadas pelos gentios (4,3), como os anjos (Gl 3,19) e as marcas identit\u00e1rias do juda\u00edsmo. Mas, no tempo preestabelecido pelo Pai, desde a cria\u00e7\u00e3o, na plenitude dos tempos (vv. 4-5), Deus envia o seu Filho, para inaugurar o tempo messi\u00e2nico ao assumir a condi\u00e7\u00e3o humana mortal (<em>nascido de mulher<\/em>), num determinado contexto hist\u00f3rico-social-religioso espec\u00edfico (<em>submetido \u00e0 lei<\/em>). Portanto, Jesus \u00e9 inserido plenamente na humanidade e, desse modo, poder\u00e1 libert\u00e1-la da maldi\u00e7\u00e3o da lei, da morte e do pecado. Deus envia tamb\u00e9m o Esp\u00edrito para certificar a chegada da Era Messi\u00e2nica. Ele vem habitar no cora\u00e7\u00e3o do batizado, e nele clama a ora\u00e7\u00e3o do Filho: <em>Abba<\/em>, Pai! O batizado \u00e9 adotado como filho no Filho, congregado pelo Esp\u00edrito e inserido numa comunidade de irm\u00e3os e irm\u00e3s, cujo \u00fanico Pai \u00e9 Deus (SILVANO, 2018, p. 463-467).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao resumir essa se\u00e7\u00e3o, pode-se dizer que a justifica\u00e7\u00e3o vem s\u00f3 pela f\u00e9 no Cristo Crucificado e Ressuscitado (Gl 3,1) e \u00e9 oferecida a todos os que creem (Gl 3,6\u20134,7). Com efeito, Cristo, cumprindo a promessa de b\u00ean\u00e7\u00e3o feita por Deus a Abra\u00e3o (Gl 3,8.14.18), une judeus e pag\u00e3os (3,26-29), p\u00f5e fim \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o da lei (Gl 3,10.13.22; 4,5) e lhes confere a filia\u00e7\u00e3o divina. A participa\u00e7\u00e3o da filia\u00e7\u00e3o em Cristo \u00e9 poss\u00edvel para todos os destinat\u00e1rios do Evangelho mediante o dom do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s essa se\u00e7\u00e3o, carregada de elementos teol\u00f3gicos, cristol\u00f3gicos e pneumatol\u00f3gicos, Paulo recorda o acolhimento que recebeu dos g\u00e1latas quando permaneceu na regi\u00e3o da Gal\u00e1cia por causa de uma grave enfermidade, tenta assim convenc\u00ea-los de que existe uma experi\u00eancia profunda entre ele e a comunidade. Portanto, n\u00e3o compreende como eles se deixaram influenciar pelos chamados advers\u00e1rios que afirmavam ser Paulo inimigo dos g\u00e1latas, e por terem acolhido uma prega\u00e7\u00e3o contrastante com tudo aquilo que n\u00e3o s\u00f3 o ap\u00f3stolo lhes anunciou, mas que tamb\u00e9m eles experimentaram e viveram com o batismo (Gl 4,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s esse momento de indigna\u00e7\u00e3o diante da realidade das comunidades, Paulo passa a provar a liberdade proveniente da ades\u00e3o a Cristo Jesus, na tentativa de mostrar que essa liberdade n\u00e3o pode ter origem na lei. Para isso, o autor serve-se de duas personagens b\u00edblicas, as matriarcas Sara e Agar, e de elementos do juda\u00edsmo apocal\u00edptico, que contrapunham a Jerusal\u00e9m atual \u00e0 futura (Sl 87,3-5; Is 54,1; 60-66; Ez 40-48; Tb 13; Zc 12-14). Assim, Agar, a escrava, representa a <em>Jerusal\u00e9m atual<\/em>, o presente tempo mau (1,4), e os elementos do mundo (4,3.9), fr\u00e1geis e miser\u00e1veis, que s\u00e3o tanto as pr\u00e1ticas das religi\u00f5es pag\u00e3s, como as marcas identit\u00e1rias do juda\u00edsmo, ou seja, a experi\u00eancia dos gentios e dos judeus antes da vinda de Cristo. Enquanto, Sara, a livre, representa a <em>Jerusal\u00e9m do alto<\/em>, o in\u00edcio da Era Messi\u00e2nica, inaugurada com a morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Agar e Ismael representam a lei, que n\u00e3o pode justificar, por n\u00e3o ser essa sua fun\u00e7\u00e3o. Sara e Isaac representam Cristo, o cumprimento da lei, o princ\u00edpio normativo do crist\u00e3o e, por meio do qual, podemos ser filhos e, portanto, livres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2.3 III Parte: Gl 5,1\u20136,10<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final da segunda parte, com o tema da liberdade, introduz a \u00faltima etapa do desenvolvimento da carta, na qual Paulo exorta os g\u00e1latas a perseverarem na liberdade, dada pela f\u00e9 em Cristo, e a n\u00e3o se submeterem ao jugo da escravid\u00e3o. Tal jugo pode ser entendido como a condi\u00e7\u00e3o daquelas pessoas antes da reden\u00e7\u00e3o trazida por Cristo, portanto \u00e9 uma cr\u00edtica aos argumentos dos advers\u00e1rios (Gl 4,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ap\u00f3stolo reafirma que a liberdade crist\u00e3 se fundamenta na entrega livre de Jesus Cristo, na sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, por fidelidade ao plano de amor do Pai. \u00a0Esse aspecto j\u00e1 tinha sido abordado anteriormente, por\u00e9m eram utilizadas outras terminologias e imagens soteriol\u00f3gicas, como resgatar, arrancar (1,4). Nessa se\u00e7\u00e3o, a liberdade assume um car\u00e1ter soteriol\u00f3gico, cristol\u00f3gico (Gl 5,1) e pneumatol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem de Gl 5,2-12 pode ser subdividida em duas partes. A primeira (vv. 2-6), fala da rela\u00e7\u00e3o entre Paulo e os g\u00e1latas, e a segunda (vv. 7-12), descreve a rela\u00e7\u00e3o entre Paulo, os g\u00e1latas e os judaizantes. A primeira \u00e9 mais linear, a segunda \u00e9 marcada por perguntas ret\u00f3ricas (vv. 7.11), um dito proverbial (v. 9), uma amea\u00e7a (v. 10b) e uma ir\u00f4nica invectiva no confronto com os agitadores (v. 12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essas afirma\u00e7\u00f5es Paulo objetiva defender o conte\u00fado de seu an\u00fancio universal, pois anuncia o Evangelho da liberdade em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 prega\u00e7\u00e3o dos judaizantes. Para Paulo, aceitar a circuncis\u00e3o e a lei judaica seria admitir que a obra de Cristo, Filho de Deus, n\u00e3o seria suficiente para obter a reden\u00e7\u00e3o (5,2-4; cf. 2,21), e o plano salv\u00edfico do Pai se restringiria aos judeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gl 5,5-6, ao unir <em>esperan\u00e7a com justi\u00e7a<\/em>, Paulo n\u00e3o s\u00f3 fala no dom da justi\u00e7a, recebida no in\u00edcio da vida crist\u00e3 (cf. Gl 2,16; 3,24; 1Cor 6,11), que se concretiza na viv\u00eancia da f\u00e9 e se expressa no amor ao pr\u00f3ximo e a Deus, como tamb\u00e9m afirma a esperan\u00e7a na justi\u00e7a definitiva (1Cor 1,7; Fl 3,20), aquela futura, que vir\u00e1 com a plenitude da presen\u00e7a, da <em>Parusia<\/em>. \u00a0Nesses vers\u00edculos, nota-se uma sintonia com Gl 3,28 e 6,15, e uma interliga\u00e7\u00e3o entre f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade, a chamada tr\u00edade paulina. \u00c9 importante ressaltar que o agir crist\u00e3o (a caridade) n\u00e3o \u00e9 fruto de um esfor\u00e7o humano meramente, de um voluntarismo, ou de um ser fiel \u00e0 lei, mas nasce da rela\u00e7\u00e3o profunda com Jesus, da experi\u00eancia de ser amado, redimido por Cristo, envolvido por seu amor, sendo, assim, impulsionado a tamb\u00e9m amar o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo novamente exorta aos g\u00e1latas, expressando indigna\u00e7\u00e3o diante da \u201cades\u00e3o\u201d deles aos argumentos dos judaizantes (vv. 7-12). Para isso, se serve de uma imagem esportiva, t\u00edpica das cartas paulinas (1Cor 9,24-26; Gl 2,2; Fl 2,16), que expressa o fervor inicial dos g\u00e1latas que agora desapareceu. Essa imagem, no todo da carta, nos remete a Gl 1,6-7, \u00e0 crise que os g\u00e1latas est\u00e3o vivendo por haverem cedido \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se afastar do verdadeiro Evangelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s essa exorta\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma retomada de argumentos, quando Paulo afirma que viver a liberdade \u00e9 um \u201cchamado\u201d que faz parte da voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3, ou seja, quem segue a Cristo \u00e9 chamado\/a \u00e0 comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os\/\u00e3s (1Ts 2,12; 1Cor 1,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade verdadeira, segundo Paulo, \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o da carne, isto \u00e9, dos desejos ego\u00edstas, do fechamento em si mesmo, para deixar-se guiar por Cristo, como princ\u00edpio normativo. Assim, Paulo demonstra que a lei chegou ao pleno cumprimento por meio de Jesus Cristo, e que a norma que sintetiza todo o agir \u00e9tico crist\u00e3o est\u00e1 em Lv 19,18: \u201camar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d. Essa s\u00edntese, segundo Paulo, se fundamenta na participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal de Cristo (Gl 5,14.24-25), iniciado no batismo, mas que continua no decorrer da vida do batizado. Esse processo de seguimento e cristifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel por meio da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (Gl 5,16-18; 2Cor 3,17), que torna o batizado, filho\/a de Deus e o orienta a viver o amor, nas v\u00e1rias formas de rela\u00e7\u00e3o. Assim, o \u00fanico fruto do Esp\u00edrito \u00e9 o<em> amor<\/em>, que se exprime em suas manifesta\u00e7\u00f5es (Gl 5,22-23). A n\u00e3o ades\u00e3o a Cristo \u00e9 expressa nas obras da carne, que s\u00e3o divididas em tr\u00eas grupos: a pervers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas (sexuais e comunit\u00e1rias), da rela\u00e7\u00e3o com Deus e consigo mesmo. Nesse elenco de comportamentos inadequados, percebemos que se retrata a pervers\u00e3o do amor humano (<em>impureza<\/em>), do amor para com Deus (<em>idolatria e magia<\/em>), da aus\u00eancia do amor (<em>divis\u00f5es<\/em>) e da total degrada\u00e7\u00e3o da pessoa humana e de sua rela\u00e7\u00e3o com o outro (<em>excessos \u00e0 mesa<\/em>). A obra do Esp\u00edrito, por sua vez, testemunha os atributos de Deus: <em>amor,<\/em> <em>paci\u00eancia, bondade, benevol\u00eancia<\/em>, <em>fidelidade, mansid\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gl 6,1-10, encontra-se uma reflex\u00e3o referente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es na comunidade e \u00e0 corre\u00e7\u00e3o fraterna. Essa corre\u00e7\u00e3o deve ser feita pelos chamados <em>espirituais<\/em>, o que pode designar tanto as pessoas que j\u00e1 fizeram um processo de amadurecimento na f\u00e9 (1Cor 2,15; 3,1), como todos os membros da comunidade, visto que, por meio do batismo, receberam o Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ap\u00f3stolo exorta tamb\u00e9m ao amor m\u00fatuo, que deve ser exercido em primeiro lugar dentro da comunidade, depois com os demais irm\u00e3os\/\u00e3s (1Ts 5,15; Rm 12,18) e finalmente tamb\u00e9m com os inimigos (Rm 12,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gl 6,2, o autor sintetiza a solidariedade j\u00e1 expressa em 6,1, ao pedir que os crist\u00e3os carreguem o peso uns dos outros. A palavra \u201cpeso\u201d compreende todos os sofrimentos humanos: desventura, infort\u00fanio, dor f\u00edsica, insucesso, fragilidades morais, solid\u00e3o, doen\u00e7as, frustra\u00e7\u00f5es, velhice (Rm 15,1; 2Cor 11,29). Diante da fragilidade do outro, \u00e9 necess\u00e1rio, antes de corrigir o irm\u00e3o, avaliar as motiva\u00e7\u00f5es que levam \u00e0 corre\u00e7\u00e3o fraterna (Gl 6,3), tendo presentes as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, para que seja realmente por amor ao irm\u00e3o e n\u00e3o por vangl\u00f3ria. A vangl\u00f3ria, termo t\u00edpico das cartas paulinas, \u00e9 a atitude contr\u00e1ria \u00e0 f\u00e9, \u00e9 o comportamento de quem se apoia nas pr\u00f3prias qualidades e n\u00e3o na miseric\u00f3rdia de Deus Pai e na atitude do Filho que se esvaziou de si mesmo (Fl 2,1-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carta termina exortando a comunidade a compartilhar os bens materiais (Gl 6,6) com aqueles que t\u00eam a miss\u00e3o de instruir, de evangelizar. Por\u00e9m, Paulo nunca reivindicou esse direito para si mesmo. Essas atitudes dentro da comunidade tamb\u00e9m recebem um car\u00e1ter escatol\u00f3gico, dado que os batizados ser\u00e3o julgados por aquilo que realizam, por\u00e9m essa n\u00e3o deve ser a motiva\u00e7\u00e3o para as a\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, e sim o \u201cfazer o bem a todos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>4.3 Conclus\u00e3o: Gl 6,11-18<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo conclui resumindo suas ideias principais, e se despede. Escreve algumas coisas de pr\u00f3prio punho para autenticar a carta e retoma a pol\u00eamica com os judaizantes, acusando-os de se vangloriarem com o proselitismo, de n\u00e3o cumprirem inteiramente a lei, contrapondo-se ao aspecto central do Evangelho, que \u00e9 a cruz de Cristo. Paulo, por sua vez, prega Cristo Crucificado e renuncia a qualquer gl\u00f3ria baseada em motivos humanos. Afirma tamb\u00e9m que as divis\u00f5es entre circuncisos e n\u00e3o circuncisos n\u00e3o devem prevalecer, pois o batizado j\u00e1 vive numa nova dimens\u00e3o, numa vida nova em Cristo. O que ele n\u00e3o deseja \u00e9 sofrer mais pela comunidade, dado que j\u00e1 traz em seu corpo os estigmas de Jesus. A palavra \u201cestigma\u201d refere-se, provavelmente, aos sofrimentos resultantes de seu apostolado, de sua miss\u00e3o (2Cor 4,10-12), que devem ser avaliados \u00e0 luz de sua participa\u00e7\u00e3o na paix\u00e3o e morte de Cristo, sua coparticipa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carta termina com a sauda\u00e7\u00e3o, em forma de b\u00ean\u00e7\u00e3o, pedindo a gra\u00e7a da presen\u00e7a de Jesus Cristo na vida da comunidade. Esse aspecto cristol\u00f3gico perpassa toda a carta como o fundamento da f\u00e9 crist\u00e3, dado que a preocupa\u00e7\u00e3o do ap\u00f3stolo era proteger a f\u00e9 dos g\u00e1latas contra o grave perigo de desvio que a amea\u00e7ava, que n\u00e3o era de ordem apenas disciplinar, ou um detalhe, mas trazia implica\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas s\u00e9rias, pois se tratava de decidir entre a f\u00e9 em Cristo e a confian\u00e7a na lei, entre o dom divino da justifica\u00e7\u00e3o por meio da f\u00e9 e a pretens\u00e3o humana de autojustifica\u00e7\u00e3o por meio das obras da lei, de permanecer submissos \u00e0 lei ou se submeter \u00e0 liberdade proveniente da ades\u00e3o a Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo, nessa carta, revela o desejo de que os g\u00e1latas retornem \u00e0 experi\u00eancia do batismo, compreendam a grande novidade do messianismo de Jesus e possam realmente dizer \u201c(&#8230;) fui crucificado com Cristo. Portanto, n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim; e, enquanto vivo na carne, vivo na fidelidade do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim\u201d (Gl 2,19c-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Zuleica Aparecida Silvano<\/em>, fsp. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, Brasil. Texto original em portugu\u00eas. Postado em dezembro de 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>ALETTI, J.-N. <em>Eclesiolog\u00eda de las cartas de san Pablo<\/em>. Estella: Verbo Divino, 2010. Estudios B\u00edblicos, 40.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARNEIRO, M. da S.; MARIANNO, L. D. Desconstruindo uma alegoria: G\u00e1latas 4,21-31. <em>RIBLA<\/em>, S\u00e3o Bernardo do Campo, v. 76, n. 3, p. 125-139, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FERREIRA, J. A<em>. G\u00e1latas<\/em>: a ep\u00edstola da abertura de fronteiras. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2005. Coment\u00e1rio B\u00edblico Latino-Americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PENNA, R. <em>Paulo de Tarso a Roma<\/em>: o caminho de um grande inovador. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PESCE, M. <em>De<\/em> <em>Jesus ao cristianismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2017. B\u00edblica Loyola, 71.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PITTA, A. <em>Cartas Paulinas<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2019. Introdu\u00e7\u00e3o aos estudos b\u00edblicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHNELLE. U. Paulo: vida e pensamento. S\u00e3o Paulo: Paulus; Santo Andr\u00e9: Academia Crist\u00e3, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SERNA, E. de la. G\u00e1latas \u2013 a novidade de estar \u201cem Cristo\u201d. <em>Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira<\/em>, S\u00e3o Bernardo do Campo, v. 62, p. 115-128, 2009\/1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVANO, Z. A. Carta aos G\u00e1latas: tradu\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rios. In: <em>A B\u00edblia<\/em>: Novo Testamento. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2015. p. 448-450.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>G\u2019L como chave hermen\u00eautica para a \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d na Carta aos G\u00e1latas em di\u00e1logo com &#8216;Textes messianiques&#8217; de Emmanuel L\u00e9vinas.<\/em> 2018. Tese (Doutorado em Teologia) &#8211; Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia, Departamento de Teologia, Belo Horizonte, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOUZA, R. L. de. A m\u00edstica na Ep\u00edstola aos G\u00e1latas. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim\u201d. <em>Estudos B\u00edblicos<\/em>, Petr\u00f3polis, n. 97, p. 70-85, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u00c9 um anacronismo usar o termo \u201ccrist\u00e3o\u201d no contexto do I s\u00e9culo, mas iremos utiliz\u00e1-lo somente como uma comodidade lingu\u00edstica, para n\u00e3o repetir a express\u00e3o \u201cseguidores de Jesus Cristo\u201d. Assim, a express\u00e3o \u201cjudeu-crist\u00e3o\u201d deve ser interpretada como o seguidor de Jesus Cristo proveniente da tradi\u00e7\u00e3o e da cultura judaicas; e o \u201cgentio-crist\u00e3o\u201d, aquele oriundo das v\u00e1rias religi\u00f5es polite\u00edstas, henote\u00edstas e monol\u00e1tricas ou at\u00e9 mesmo monote\u00edstas, mas entendida na concep\u00e7\u00e3o da cultura greco-romana. A inadequa\u00e7\u00e3o do uso de \u201cjudeu-crist\u00e3o\u201d e \u201cgentio-crist\u00e3o\u201d, no sentido historiogr\u00e1fico, no s\u00e9culo I, foi aprofundada por PESCE, M., <em>De<\/em> <em>Jesus ao cristianismo<\/em>, p. 207-216 e ALETTI, J.-N., <em>Eclesiolog\u00eda de las cartas de san Pablo<\/em>, p. 28-29.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Formas liter\u00e1rias 2 Estrutura 3 Destaques teol\u00f3gicos 4 Conte\u00fado 4.1 Cabe\u00e7alho: Gl 1,1-10 4.2 Corpo da Carta 4.2.1 I parte: Gl 1,11\u20132,21 4.2.2 II parte: Gl 3,1\u20134,31 4.2.3 III parte: Gl 5,1\u20136,10 4.3 Conclus\u00e3o: Gl 6,11-18 Refer\u00eancias A Carta aos G\u00e1latas \u00e9 considerada aut\u00eantica de Paulo, tamb\u00e9m chamada de protopaulina. Seu objetivo \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-1990","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1990","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1990"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1990\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2399,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1990\/revisions\/2399"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}