
<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>

<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>
{"id":199,"date":"2014-12-27T07:37:09","date_gmt":"2014-12-27T09:37:09","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=199"},"modified":"2016-04-10T09:32:46","modified_gmt":"2016-04-10T12:32:46","slug":"sacramentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=199","title":{"rendered":"Sacramentos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos por Cristo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A hierarquia dos sacramentos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O n\u00famero dos sacramentos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A efic\u00e1cia dos sacramentos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante s\u00e9culos a Igreja celebrou e refletiu sobre o que hoje chamamos de \u201csete sacramentos\u201d, sem reuni-los numa lista \u00e0 parte e pens\u00e1-los sistematicamente. A partir do s\u00e9c. XII, aproximadamente, a teologia listou-os e procurou estabelecer certos tra\u00e7os comuns aos sete. Desde ent\u00e3o determinados conceitos se tornaram temas obrigat\u00f3rios na abordagem gen\u00e9rica dos sacramentos, tais como a afirma\u00e7\u00e3o de que os sete sacramentos foram institu\u00eddos por Cristo e de que sua efic\u00e1cia se exerce <em>ex opere operato<\/em>, que alguns imprimem car\u00e1ter e que n\u00e3o todos tem a mesma import\u00e2ncia. H\u00e1, entre eles, uma hierarquia em que sobressaem, como \u201csacramentos maiores\u201d, a eucaristia e o batismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas quest\u00f5es, devidamente sistematizadas, passaram ao patrim\u00f4nio da f\u00e9 na Igreja latina e foram assim apresentadas j\u00e1 no Conc\u00edlio de Floren\u00e7a (1439), em vista da uni\u00e3o com as Igrejas Orientais. Ser\u00e1, por\u00e9m, no Conc\u00edlio de Trento, contra as nega\u00e7\u00f5es dos Reformadores, que os princ\u00edpios da teologia dos sacramentos em geral tomar\u00e3o forma, com concis\u00e3o e exatid\u00e3o escol\u00e1stica, tornando-se, na teologia posterior a esse Conc\u00edlio, como que a espinha dorsal do tratado <em>De Sacramentis in genere<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os temas desse tratado, escolhemos quatro que parecem centrais e merecem que se procure seu sentido perene. (Veja-se, sobre o car\u00e1ter, o verbete \u201cA eclesialidade dos sacramentos. 3 Os sacramentos irrepet\u00edveis como constituintes da Igreja\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos por Cristo <\/strong>(TABORDA, 1998, p.115-24)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Conc\u00edlio de Trento afirmou como caracter\u00edstica fundamental dos sete sacramentos sua institui\u00e7\u00e3o por Cristo (cf. <em>DH<\/em> 1601). O ponto central dessa afirma\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica consiste em professar a origem dos sacramentos na iniciativa divina e n\u00e3o na inven\u00e7\u00e3o humana. Cristo \u00e9 a origem dos sacramentos, que est\u00e3o todos nele fundamentados e enraizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exegese moderna n\u00e3o permite que se entenda por \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\u201d um suposto ato jur\u00eddico de Jesus, determinando que haja tal sacramento e seja administrado de tal ou tal forma. Nesse sentido, ser\u00e1 v\u00e3o procurar no Novo Testamento textos que demonstrem a institui\u00e7\u00e3o de cada um dos sacramentos. Mesmo para os sacramentos claramente atestados pela Escritura subsiste o problema. O \u201cfazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d talvez n\u00e3o se possa considerar <em>ipsissima verba Jesu<\/em>. O mandato do batismo \u00e9 feito pelo Senhor Ressuscitado e n\u00e3o pelo Jesus terrestre e est\u00e1 numa per\u00edcope que \u00e9 composi\u00e7\u00e3o de Mateus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 muito antes de a exegese moderna ter surgido e adquirido foro de cidadania na Igreja cat\u00f3lica, era conhecido o problema, pelo menos com rela\u00e7\u00e3o a alguns sacramentos. Tendo-o em vista, discutia-se se a institui\u00e7\u00e3o fora mediata (por meio de outros) ou imediata (diretamente por Cristo). Mas disputava-se tamb\u00e9m se ela fora espec\u00edfica (indicando em linhas gerais mat\u00e9ria e forma de cada sacramento &#8211; cf. hilemorfismo sacramental) ou gen\u00e9rica (determinando a gra\u00e7a de cada um, mas n\u00e3o os elementos f\u00edsicos\/vis\u00edveis que o constituiriam), direta (ordenando que se fizesse assim) ou indireta (deixando entender determinada pr\u00e1tica sacramental). O Conc\u00edlio de Trento tinha consci\u00eancia dessa discuss\u00e3o, mas n\u00e3o quis dirimir a quest\u00e3o, seguindo o princ\u00edpio que se impusera de n\u00e3o intervir nas disputas entre as escolas teol\u00f3gicas cat\u00f3licas. Apenas afirma, contra os Reformadores, a institui\u00e7\u00e3o por Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos gestos sacramentais \u2013 em parte conhecida pelos Padres de Trento \u2013 n\u00e3o permitia reconduzir a uma determina\u00e7\u00e3o de Jesus cada um dos sacramentos em sua fei\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica concreta. Bastava percorrer as modifica\u00e7\u00f5es havidas nos ritos essenciais de cada sacramento para se perceber o problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levando em considera\u00e7\u00e3o essa evolu\u00e7\u00e3o indiscut\u00edvel, \u00e9 preciso p\u00f4r o problema da institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos num contexto mais amplo. As formas de express\u00e3o do sacramento s\u00e3o secund\u00e1rias (n\u00e3o no sentido de serem menos importantes, mas no sentido de serem decorrentes da gra\u00e7a significada pelos gestos). Assumem-se, pois, gestos que no contexto cultural em que se formou o cristianismo s\u00e3o significativos do aspecto do mist\u00e9rio de Cristo que deve ser significado e celebrado por eles. O <em>sacramento<\/em> enquanto forma de express\u00e3o (isto \u00e9, enquanto gesto; o <em>sacramentum tantum<\/em> da Escol\u00e1stica) pode j\u00e1 existir antes. Logicamente anterior ao sacramento como express\u00e3o e mais b\u00e1sico do que ele, \u00e9 o acontecimento que ele expressa e realiza: a participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio de Cristo. Em outras palavras: Deus, enquanto por Cristo no Esp\u00edrito Santo re\u00fane a Igreja e a convoca e provoca pelo memorial do mist\u00e9rio de Cristo, \u00e9 o autor dos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema da institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos s\u00f3 pode ser resolvido satisfatoriamente, se se considera que Cristo instituiu primeiramente um caminho de vida e consequentemente seu seguimento. No contexto desse caminho, pela necessidade antropol\u00f3gica de expressar atrav\u00e9s de ritos o fundamento da vida crist\u00e3, adquirem sentido os sacramentos. <em>Instituindo<\/em> um caminho de vida, convidando ao seguimento, Cristo institui os sacramentos. Assim Deus, Cristo, o Esp\u00edrito Santo, a Igreja \u2013 cada qual a seu modo, na medida e forma de sua participa\u00e7\u00e3o no plano salv\u00edfico \u2013 s\u00e3o autores dos sacramentos: Deus como fonte \u00faltima da salva\u00e7\u00e3o, Jesus como o mediador \u00fanico, o Esp\u00edrito Santo como quem presentifica Cristo atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, a Igreja como corpo do Senhor Ressuscitado (cf. verbete \u201cA eclesialidade dos sacramentos: 1 A Igreja faz os sacramentos\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o contraria o Conc\u00edlio de Trento (cf. <em>DH<\/em> 1601), porque n\u00e3o se deve nem se pode reduzir a institui\u00e7\u00e3o a um ato jur\u00eddico-formal realizado no passado e tampouco o texto conciliar o exige. Pelo contr\u00e1rio, a interpreta\u00e7\u00e3o m\u00edstica dos Padres da Igreja, segundo os quais os sacramentos t\u00eam sua origem no acontecimento da cruz, o que \u00e9 expresso pelo sangue e pela \u00e1gua jorrados do costado de Cristo, \u00e9 bem mais fundamental que a discuss\u00e3o em moldes jur\u00eddicos dos te\u00f3logos medievais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos, como a da Igreja, \u00e9 algo constante, permanente, express\u00e3o do \u201cestarei convosco todos os dias at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos\u201d (Mt 28,20). De fato, em geral a palavra \u201cinstitui\u00e7\u00e3o\u201d sugere um ato realizado num determinado momento do passado. Mas ent\u00e3o a Igreja \u2013 e com ela os sacramentos \u2013 estaria sujeita a desaparecer com o passar das gera\u00e7\u00f5es, pela vontade dos humanos, da mesma forma como deixa de existir com o tempo uma sociedade criada por seres humanos para cultuar a mem\u00f3ria de algum personagem eminente. Passado o impacto da presen\u00e7a hist\u00f3rica daquela pessoa, a sociedade acaba por desfazer-se e morrer. Mas a Igreja n\u00e3o cai nessa categoria de associa\u00e7\u00f5es, porque \u00e9 sempre de novo constitu\u00edda por Cristo Ressuscitado, presente a ela por seu Esp\u00edrito. A Igreja n\u00e3o \u00e9 mero acaso nem inven\u00e7\u00e3o humana: ela pertence ao pr\u00f3prio mist\u00e9rio da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Sem Igreja, isto \u00e9, sem a comunidade dos que creem no Ressuscitado, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o teria sido a manifesta\u00e7\u00e3o definitiva e escatol\u00f3gica do Deus revelado (RAHNER; TH\u00dcSING, 1975, p.43-4). Por isso, a Igreja \u00e9 o Corpo do Ressuscitado, vive da vida do Ressuscitado. Vale dizer: \u00e9 criada constantemente pela presen\u00e7a e atua\u00e7\u00e3o de Cristo no Esp\u00edrito Santo. Nesse sentido Cristo funda e institui a Igreja sempre de novo. Ela est\u00e1 enraizada em Cristo e, como para a \u00e1rvore, n\u00e3o basta que um dia tenha tido ra\u00edzes para poder ainda hoje viger, crescer e produzir frutos, assim tamb\u00e9m a Igreja. A raiz precisa estar presente e atuante para que a \u00e1rvore viva. Semelhantemente tamb\u00e9m Cristo, porque permanece na Igreja, a <em>institui<\/em> \u2013 como raiz \u2013 sempre de novo e, com isso, <em>institui<\/em> constantemente os sacramentos pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 luz dessa institui\u00e7\u00e3o permanente dos sacramentos, entende-se melhor o axioma agostiniano: \u201cQuer batize Pedro, quer batize Judas, \u00e9 Cristo quem batiza\u201d (AGOSTINHO, <em>In Joannis Evangelium <\/em>6, 7: <em>PL<\/em> 35, 1428). Assim se compreende que o sacramento independe da dignidade e santidade do ministro (cf. <em>DH<\/em> 1612 e 1611), porque \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo que atua nele. Essa presen\u00e7a din\u00e2mica de Cristo nos sacramentos se enquadra no contexto geral da presen\u00e7a do Senhor Ressuscitado em sua Igreja (cf. <em>SC<\/em> 7; PAULO VI, 1965). Porque os sacramentos est\u00e3o enraizados em Cristo, Deus n\u00e3o deixa de atuar neles e se autocomunicar indefectivelmente pelo fato de a celebra\u00e7\u00e3o ser presidida por um homem indigno, que vive longe do caminho de Jesus. \u00c9 Cristo quem age, porque ele constantemente fundamenta os sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa perspectiva, a preocupa\u00e7\u00e3o de buscar no Novo Testamento uma institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos pelo Jesus pr\u00e9-pascal deixa de ter interesse. Ela seria, ali\u00e1s, insuficiente, pois os sacramentos s\u00f3 podem ter sentido depois da P\u00e1scoa. Tom\u00e1s de Aquino estabelece um princ\u00edpio muito v\u00e1lido nesse contexto \u2013 embora ele pr\u00f3prio o aplique insuficientemente. Escreve: \u201c\u00c9 por sua institui\u00e7\u00e3o que os sacramentos conferem a gra\u00e7a. Conclui-se, pois, que um sacramento \u00e9 institu\u00eddo no momento em que recebe a for\u00e7a de produzir seu efeito\u201d (<em>STh<\/em> III, q.66, a.2). Ora, a for\u00e7a dos sacramentos prov\u00e9m do mist\u00e9rio pascal de Cristo e dos mist\u00e9rios da vida de Cristo, enquanto preparam e levam \u00e0 morte e ressurrei\u00e7\u00e3o e s\u00e3o confirmados e transfigurados por esta. Segue-se, pois, que s\u00f3 ap\u00f3s a P\u00e1scoa cabe falar da institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos, no sentido pleno da palavra. Por isso a Tradi\u00e7\u00e3o patr\u00edstica ensinava que os sacramentos jorraram do costado aberto do Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se os sacramentos radicam em Cristo, a Igreja n\u00e3o \u00e9 senhora, mas servidora dos sacramentos. Essa verdade \u00e9 expressa pelo Conc\u00edlio de Trento ao declarar que a Igreja n\u00e3o pode mudar a \u201csubst\u00e2ncia dos sacramentos\u201d (<em>DH<\/em> 1728). A \u201csubst\u00e2ncia dos sacramentos\u201d n\u00e3o \u00e9 o gesto simb\u00f3lico ou o rito, mas sua significa\u00e7\u00e3o, seu sentido que \u00e9 o sentido mesmo de tudo o que Jesus fez e ensinou. Significa que \u00e9 a imposs\u00edvel a Igreja se estruturar ou modificar por si mesma, pelas veleidades dos seres humanos que a constituem. Ela tem que ser fiel ao caminho institu\u00eddo por Cristo, do qual ela \u00e9 o sacramento e os sete sacramentos suas express\u00f5es rituais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A hierarquia dos sacramentos<\/strong> (TABORDA, 1998, p.124-7; CONGAR, 1968)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de serem listados num rol de sete, como se fossem iguais, os sacramentos diferem entre si. A afirma\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio de Trento de que h\u00e1 sacramentos \u201cmais dignos\u201d que outros (cf. <em>DH<\/em> 1603), sup\u00f5e uma diferen\u00e7a radical entre eles, desde o ponto de vista teol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sacramentos celebram nossa participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio de Cristo. Ora, tanto a vida crist\u00e3 como o mist\u00e9rio de Cristo t\u00eam momentos de diferente densidade. A vida humana n\u00e3o \u00e9 uma mon\u00f3tona plan\u00edcie, onde um fato se desenvolve depois do outro, com a mesma import\u00e2ncia. Tamb\u00e9m a vida de Jesus apresenta momentos diferenciados por sua intensidade. O mist\u00e9rio pascal de Cristo \u00e9 um momento de muito maior peso que qualquer outro momento da vida de Jesus, at\u00e9 por ser o resultado de todos os outros momentos menores e iluminar todos eles. Como os sacramentos celebram nossa participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio de Cristo, tamb\u00e9m eles t\u00eam diferente peso para a vida crist\u00e3. H\u00e1 entre eles uma hierarquia, onde se destacam sacramentos maiores ou principais. Quanto mais um acontecimento da vida do crist\u00e3o significa participa\u00e7\u00e3o no centro do mist\u00e9rio de Cristo, sua P\u00e1scoa, tanto mais import\u00e2ncia tem o sacramento que sinaliza essa comunh\u00e3o com o cerne do mist\u00e9rio de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que todo sacramento relaciona a vida do crist\u00e3o e da comunidade com o mist\u00e9rio pascal, mas h\u00e1 sacramentos em que a participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal est\u00e1 em primeiro plano, inclusive do ponto de vista do gesto simb\u00f3lico. Tal \u00e9 o caso do batismo e da eucaristia. A passagem pela \u00e1gua \u00e9 um s\u00edmbolo que evoca a passagem da morte \u00e0 vida que \u00e9 a convers\u00e3o dos \u00eddolos ao Deus verdadeiro. Como outrora o povo escolhido passou da escravid\u00e3o \u00e0 liberdade pela travessia do Mar Vermelho, pelo batismo o ne\u00f3fito passa da vida velha do pecado \u00e0 nova vida \u00e0 imagem de Cristo. Como Cristo atravessou o mar da morte, passando da morte \u00e0 vida em seu mist\u00e9rio pascal, tamb\u00e9m o crist\u00e3o pelo batismo se renova e se reveste do \u201chomem novo\u201d em Cristo (TABORDA, 2012, p.155-81). Na eucaristia, a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as sobre o p\u00e3o e o vinho faz mem\u00f3ria do corpo entregue por n\u00f3s na morte de Jesus, desse corpo que \u00e9 fonte de vida, que se entrega em favor da vida dos demais. Do ponto de vista do gesto simb\u00f3lico, o partir do p\u00e3o e o distribuir do c\u00e1lice evoca a doa\u00e7\u00e3o de vida pelo outro que Jesus realizou na cruz e ressurrei\u00e7\u00e3o (TABORDA, 2009, p. 56-82). Mostra-se assim o lugar central do batismo e da eucaristia, entre todos os sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A centralidade dos dois sacramentos maiores \u00e9 ainda corroborada por serem ambos constitutivos do ser crist\u00e3o e edificadores da Igreja enquanto tal. Fazem da multid\u00e3o o Povo de Deus. O batismo, porque incorpora \u00e0 Igreja quem o recebe. A eucaristia, porque faz da multid\u00e3o dos redimidos o Corpo de Cristo, cria e exprime a unidade e a comunh\u00e3o dos muitos em Cristo. Em outras palavras: batismo e eucaristia constituem a pessoa como crist\u00e3o. Os demais sacramentos atingem-na em situa\u00e7\u00f5es particulares da vida crist\u00e3: o pecado, a doen\u00e7a, a voca\u00e7\u00e3o ministerial, o amor conjugal. Est\u00e3o, por isso mesmo, em outro n\u00edvel de import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A afirma\u00e7\u00e3o do batismo e da eucaristia como sacramentos principais \u00e9 o conte\u00fado essencial de uma hierarquia dos sacramentos. A hierarquiza\u00e7\u00e3o que se possa estabelecer entre os demais sacramentos \u00e9 secund\u00e1ria e depender\u00e1 dos crit\u00e9rios que se adote para estabelec\u00ea-la, variando segundo o ponto de vista assumido. A perspectiva, no entanto, pela qual se estabeleceu aqui a principalidade de batismo e eucaristia \u00e9 a perspectiva b\u00e1sica por fundar-se no significado mesmo do sacramento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recuperar na teologia sacramental esse dado da Tradi\u00e7\u00e3o, reafirmado no Conc\u00edlio de Trento (cf. <em>DH<\/em> 1603), \u00e9 de grande interesse ecum\u00eanico, tendo em vista a posi\u00e7\u00e3o das Igrejas hist\u00f3ricas provenientes da Reforma que aceitam s\u00f3 dois sacramentos: batismo e eucaristia. Tem tamb\u00e9m sua import\u00e2ncia pastoral em vista da sele\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea praticada por nosso povo que procura, por exemplo, o batismo para as crian\u00e7as e a missa em determinadas ocasi\u00f5es (no s\u00e9timo dia do falecimento de um fiel, em datas especiais como as bodas de prata ou de ouro&#8230;). O \u201cinstinto da f\u00e9\u201d os orienta nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O n\u00famero dos sacramentos <\/strong>(TABORDA, 1998, 138-43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00famero \u201csete\u201d dos sacramentos n\u00e3o \u00e9 primeiramente aritm\u00e9tico-num\u00e9rico-quantitativo, mas simb\u00f3lico. Tanto \u00e9 assim que a afirma\u00e7\u00e3o de Trento, de que os sacramentos s\u00e3o sete, nem mais nem menos (cf. <em>DH<\/em> 1601), pode ser mantida, ainda que se admita que episcopado, presbiterado e diaconado s\u00e3o sacramentos (o que poderia elevar a nove a numera\u00e7\u00e3o aritm\u00e9tica dos sacramentos); ou se mantenha com o Conc\u00edlio de Trento que a <em>extrema-un\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 \u201co acabamento\u201d da penit\u00eancia (cf. <em>DH<\/em> 1694), o que a constituiria como uma quase-unidade e perigaria diminuir para seis o valor aritm\u00e9tico da lista sacramental; ou ainda se aceite a \u00edntima unidade entre batismo e confirma\u00e7\u00e3o que poderiam ser considerados sacramentos complementares e com isso somar como um no rol dos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender o que significa afirmar que o n\u00famero \u201csete\u201d dos sacramentos \u00e9 uma grandeza antes simb\u00f3lica que aritm\u00e9tica, antes qualitativa que quantitativa, ser\u00e1 preciso considerar alguns elementos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n\u00famero \u201csete\u201d n\u00e3o foi simplesmente consequ\u00eancia l\u00f3gica de uma defini\u00e7\u00e3o exata de sacramento. Os te\u00f3logos n\u00e3o definiram primeiro o que \u00e9 sacramento e depois sa\u00edram \u00e0 busca de ritos que preenchessem os requisitos da defini\u00e7\u00e3o, encontrando casualmente sete, nem mais nem menos. O fato hist\u00f3rico \u00e9 que na evolu\u00e7\u00e3o da teologia sacramental o n\u00famero \u201csete\u201d aparece simultaneamente com um conceito ainda amplo de sacramento, o que sugere que n\u00famero e defini\u00e7\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es independentes. Ali\u00e1s, em toda a hist\u00f3ria da teologia dos sacramentos, nunca se chegou a um conceito que de fato abrangesse todos os sete e s\u00f3 os sete (CHAUVET, 1976).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta considera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, decorre como conclus\u00e3o prov\u00e1vel que n\u00e3o foi a defini\u00e7\u00e3o de sacramento que serviu de crit\u00e9rio para escolher os sete. Mas tampouco foi a pr\u00e1tica lit\u00fargica e eclesial que levou a privilegiar esses sete e n\u00e3o outros. Nessa pr\u00e1tica, s\u00f3 batismo e eucaristia sempre tiveram o primado incontest\u00e1vel; os demais \u201csinais sagrados\u201d mereceram diversos acentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A raz\u00e3o \u00e9 que o n\u00famero sete n\u00e3o tem significado quantitativo-num\u00e9rico, mas qualitativo. Claro que o conceito qualitativo s\u00f3 existe se podem ser enumerados sete quantitativamente, mas o n\u00famero sete n\u00e3o \u00e9 aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito qualitativo de n\u00famero situa-se no contexto de m\u00edstica dos n\u00fameros da Idade M\u00e9dia. Essa \u00e9 muitas vezes fundamentada em Sb 11,20: \u201cTudo dispuseste com medida, n\u00famero e peso\u201d. Pensava-se, a partir da\u00ed, que o n\u00famero expressasse ao mesmo tempo o pensamento divino e a estrutura fundamental da realidade. A m\u00edstica dos n\u00fameros remonta, atrav\u00e9s de Isidoro de Sevilha (\u2020636), a Agostinho (\u2020430) e, por meio deste, a Plat\u00e3o (\u2020347 aC) e da\u00ed a Pit\u00e1goras (\u2020495 aC). Seu pressuposto \u00e9 que, compreendendo-se as rela\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas, n\u00e3o se fala sobre a realidade, mas a pr\u00f3pria realidade nelas se manifesta. A m\u00edstica dos n\u00fameros era enormemente estendida na Idade M\u00e9dia, como o prova sua exist\u00eancia tamb\u00e9m entre os judeus (cabala). Pelo simbolismo dos n\u00fameros, a cabala queria fundir os princ\u00edpios matem\u00e1ticos e cient\u00edficos para poder, por assim dizer, <em>espiar<\/em> para dentro do mist\u00e9rio das coisas. O simbolismo dos n\u00fameros transcende o pensamento e permite penetrar mais a realidade. A m\u00edstica dos n\u00fameros, nessa perspectiva, n\u00e3o \u00e9 uma meta de conhecimento, mas uma inst\u00e2ncia mediadora de maior conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa perspectiva do simbolismo num\u00e9rico para expressar a natureza das coisas, sobressai o n\u00famero sete por seu significado. O n\u00famero sete \u00e9 s\u00edmbolo qualitativo da perfei\u00e7\u00e3o: o n\u00famero um significa origem, aludindo ao uno antes de seu desdobramento em m\u00faltiplos; o n\u00famero dois representa o outro, fundamento da multiplicidade; o n\u00famero tr\u00eas tem sua import\u00e2ncia como s\u00edntese da unidade (n\u00famero 1) com a multiplicidade (n\u00famero 2), al\u00e9m de ser o n\u00famero da mais simples figura geom\u00e9trica, o tri\u00e2ngulo. Por essa raz\u00e3o, tr\u00eas \u00e9 o n\u00famero da perfei\u00e7\u00e3o divina<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, designa a totalidade, s\u00edmbolo da unidade do uno (n\u00famero 1) e do m\u00faltiplo (n\u00famero 2). O n\u00famero quatro \u00e9 o n\u00famero da perfei\u00e7\u00e3o material, c\u00f3smica, o n\u00famero da propor\u00e7\u00e3o perfeita (2:2) e, portanto, da ordem do cosmos. Quatro s\u00e3o os elementos, os ventos, os rios do para\u00edso, os imp\u00e9rios segundo as vis\u00f5es de Daniel etc. Como soma de tr\u00eas e quatro, o sete \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia, pois une numa totalidade a tr\u00edade divina e o quatern\u00e1rio c\u00f3smico. \u00c9, pois, o n\u00famero da harmonia. Da\u00ed ser ele frequente: sete s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 os sacramentos, mas tamb\u00e9m as virtudes, os dons do Esp\u00edrito Santo, os pecados capitais, os planetas, os per\u00edodos celestes, os tons da escala musical, sem falar nas diversas ocorr\u00eancias do septen\u00e1rio no livro do Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse horizonte \u00e9 que se devem localizar os sete sacramentos. O n\u00famero sete j\u00e1 \u00e9 uma <em>defini\u00e7\u00e3o<\/em> de sacramento: Deus (tr\u00edade divina) que se comunica aos humanos na realidade c\u00f3smica dos gestos simb\u00f3licos (o quatern\u00e1rio c\u00f3smico). Mesmo em Trento, apesar do acento quantitativo, permanece o sentir qualitativo. O acento aritm\u00e9tico responde \u00e0 nega\u00e7\u00e3o protestante que tamb\u00e9m \u00e9 aritm\u00e9tica. A Reforma protestante se agarra \u00e0 letra da Escritura e n\u00e3o apreende o alcance qualitativo do n\u00famero sete. Posicionando-se sempre face \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es ou nega\u00e7\u00f5es dos Reformadores, Trento entra no terreno do valor aritm\u00e9tico de sete nem mais nem menos. Entretanto, a Reforma nega n\u00e3o s\u00f3 o n\u00famero dos sacramentos, mas o pr\u00f3prio princ\u00edpio da sacramentalidade. Trento, defendendo o n\u00famero sete e pondo-se em p\u00e9 de igualdade (aritmeticamente) com a Reforma, na realidade defende a pr\u00f3pria sacramentalidade da salva\u00e7\u00e3o, expressa simbolicamente no n\u00famero sete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O parentesco qualitativo-aritm\u00e9tico com a posi\u00e7\u00e3o protestante teve, no entanto, consequ\u00eancias: a quantifica\u00e7\u00e3o dos sacramentos com a correspondente tend\u00eancia a medir a intensidade da vida crist\u00e3 pela frequ\u00eancia aos sacramentos. N\u00e3o \u00e9 preciso ser contra a quantifica\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica dos sete, mas contra a perda de seu valor qualitativo e o consequente \u201cconsumo\u201d dos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo reconhecendo o valor simb\u00f3lico do n\u00famero sete, no entanto, n\u00e3o se pode abstrair do fato de que ele \u00e9 mediado pelo valor aritm\u00e9tico sete. Isto \u00e9: sete a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas da Igreja \u2013 e n\u00e3o outras \u2013 foram reconhecidas aptas para expressar simbolicamente, no simbolismo dos n\u00fameros, o princ\u00edpio da sacramentalidade, a saber: que Deus se comunica ao ser humano no hist\u00f3rico-sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar \u00e9 preciso dizer que n\u00e3o se pode estabelecer <em>a priori<\/em> que sejam esses e por que esses e n\u00e3o outros os sete sacramentos. Mas, <em>a posteriori<\/em> \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma l\u00f3gica na escolha dessas a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e n\u00e3o de outras. \u00c9 que essas a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas marcam momentos decisivos na vida do crist\u00e3o e consequentemente na pr\u00f3pria vida da comunidade eclesial. Historicamente, n\u00e3o \u00e9 de desprezar o confronto do problema concreto \u201cquais sete?\u201d com os dados da Escritura, que a sele\u00e7\u00e3o desses gestos simb\u00f3licos implica. De todos eles o te\u00f3logo medieval encontrava resqu\u00edcios no Novo Testamento. Al\u00e9m do batismo e da eucaristia, que obviamente s\u00e3o dados b\u00edblicos, via-se a confirma\u00e7\u00e3o na imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os pelos ap\u00f3stolos em At 8,17; a penit\u00eancia, em Jo 20,23 e Mt 18,18; a un\u00e7\u00e3o dos enfermos, em Tg 5,14; a ordem, em At 6; o matrim\u00f4nio, em Ef 5,32, onde a tradu\u00e7\u00e3o latina fazia ler <em>magnum sacramentum<\/em>, express\u00e3o forte, t\u00e3o incisiva que foi capaz de vencer os preconceitos vigentes contra o sexo e o matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na fixa\u00e7\u00e3o dos sete sacramentos, h\u00e1 um paralelismo com a forma\u00e7\u00e3o do c\u00e2non neotestament\u00e1rio: s\u00f3 depois de uma evolu\u00e7\u00e3o, de um lapso relativamente longo de tempo, a Igreja chegou a fixar o c\u00e2non. Poder\u00e1, \u00e0 primeira vista, ter sido levada pela autoria apost\u00f3lica dos escritos, que hoje, para muitos livros, \u00e9 negada ou pelo menos posta em quest\u00e3o. Nem por isso os livros selecionados na forma\u00e7\u00e3o do c\u00e2non deixam de ser inspirados e can\u00f4nicos. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria da Igreja, sua identidade, que se construiu sobre esses livros e somente esses, n\u00e3o permite voltar atr\u00e1s. E, para quem cr\u00ea que a Igreja \u00e9 conduzida pelo Esp\u00edrito Santo, \u00e9 uma garantia da propriedade da escolha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semelhantemente se poderia dizer dos sete sacramentos: a Igreja n\u00e3o apenas celebrou durante s\u00e9culos esses sacramentos, talvez sem privilegi\u00e1-los, mas, uma vez reconhecidos, eles marcaram de tal forma a comunidade crist\u00e3, sua vida e sua pr\u00e1tica, que j\u00e1 n\u00e3o pode viver sem celebr\u00e1-los. Conduzida pelo Esp\u00edrito Santo, a Igreja s\u00f3 poderia ter aceitado evolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o prenhe de consequ\u00eancias sob a a\u00e7\u00e3o do mesmo Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, discutir se se pode hoje voltar atr\u00e1s de Trento e acrescentar \u201cnovos\u201d sacramentos ou reduzir o septen\u00e1rio, \u00e9 perder de vista que a Igreja n\u00e3o se reduz \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, mas esses se p\u00f5em no contexto mais amplo do testemunho de f\u00e9 no mist\u00e9rio pascal de Cristo, decisivo para que os sacramentos deem frutos de vida crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A efic\u00e1cia dos sacramentos<\/strong> (TABORDA, 1998, p.170-2)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Conc\u00edlio de Trento ensina que \u201cos sacramentos da Nova Lei (&#8230;) conferem a gra\u00e7a pela pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do ato &lt;sacramental&gt;\u201d (<em>ex opere operato<\/em>) (<em>DH<\/em> 1608). O significado profundo dessa express\u00e3o, muitas vezes mal entendida num sentido m\u00e1gico ou quase m\u00e1gico, \u00e9 que \u00e9 Deus e somente Deus quem atua nos sacramentos. A an\u00e1lise da express\u00e3o tradicional ajudar\u00e1 a compreender melhor essa prioridade de Deus nos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o <em>opus operatum<\/em> significa a \u201ca\u00e7\u00e3o como tal\u201d, \u201ca pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do ato\u201d. Contrap\u00f5e-se a <em>opus operantis<\/em>, que poderia ser traduzido literalmente como a \u201ca\u00e7\u00e3o de quem atua\u201d. Na primeira express\u00e3o se atende objetivamente \u00e0 a\u00e7\u00e3o; na segunda, a um sujeito que realiza a a\u00e7\u00e3o. As express\u00f5es se elucidam, se se recorda o problema que historicamente est\u00e1 em sua origem. Elas surgiram na teologia (e mais exatamente na soteriologia) na segunda metade do s\u00e9culo XII. Ao tratar da obra redentora de Cristo, distinguia-se o <em>opus operatum<\/em>, sua obra redentora ao morrer na cruz, sua a\u00e7\u00e3o de morrer, e o <em>opus operantis<\/em>, a a\u00e7\u00e3o dos que levaram Jesus \u00e0 morte (Judas, por sua trai\u00e7\u00e3o; An\u00e1s e Caif\u00e1s, os membros do Sin\u00e9drio, e Pilatos, como mandantes do crime; os verdugos, como executores&#8230;). O efeito redentor da morte de Cristo se d\u00e1 <em>ex opere operato<\/em> e n\u00e3o <em>ex opere operantis<\/em>; prov\u00e9m da a\u00e7\u00e3o de Cristo ao morrer e n\u00e3o da a\u00e7\u00e3o dos homens que o mataram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XIII a express\u00e3o foi transposta para a teologia dos sacramentos: a gra\u00e7a sacramental n\u00e3o depende do ministro nem de quem recebe o sacramento (<em>opus operantis<\/em>), mas da a\u00e7\u00e3o sacramental, exterior, percept\u00edvel, vis\u00edvel (<em>opus operatum<\/em>). \u00c9 importante considerar a preposi\u00e7\u00e3o <em>ex<\/em> que ocorre na express\u00e3o. Ela significa \u201cpor causa de\u201d, \u201ca partir de\u201d. O sacramento n\u00e3o \u00e9 eficaz <em>ex opere operantis<\/em>, n\u00e3o significa que o <em>opus operantis<\/em> n\u00e3o seja importante, mas sim que a for\u00e7a do sacramento, a gra\u00e7a sacramental, n\u00e3o prov\u00e9m do ministro ou da f\u00e9 de quem recebe o sacramento. Entretanto, para que o sacramento seja eficaz <em>ex opere operato<\/em>, \u00e9 preciso sempre algum <em>opus operantis<\/em>, seja do ministro (\u201ca inten\u00e7\u00e3o de (&#8230;) fazer o que a Igreja faz\u201d, <em>DH<\/em> 1611), seja de quem o recebe (n\u00e3o p\u00f4r obst\u00e1culo \u00e0 gra\u00e7a, cf.\u00a0<em>DH<\/em> 1606). E, mais que a inten\u00e7\u00e3o, exige-se f\u00e9 por parte de quem recebe o sacramento, uma entrega a Deus correspondente \u00e0 gra\u00e7a concedida, uma vida de acordo com o sacramento ou, pelo menos, a disposi\u00e7\u00e3o interna de come\u00e7ar um caminho de convers\u00e3o. A efic\u00e1cia <em>ex opere operato<\/em> n\u00e3o substitui o <em>opus operantis<\/em>; entretanto, a gra\u00e7a n\u00e3o vem do <em>opus operantis<\/em>. A fonte da gra\u00e7a \u00e9 a a\u00e7\u00e3o sacramental, mas n\u00e3o no sentido m\u00e1gico, pois o <em>opus operatum<\/em> n\u00e3o est\u00e1 na materialidade da a\u00e7\u00e3o sacramental, mas em ser ela a\u00e7\u00e3o de Cristo pelo Esp\u00edrito Santo. Os sacramentos agirem <em>ex opere operato<\/em> significa, portanto, que agem por for\u00e7a da obra salv\u00edfica de Cristo presentificada pelo sacramento. <em>Opus operatum<\/em> e <em>opus operantis<\/em> se encontram no sacramento. Este \u00e9 o momento em que a gra\u00e7a se expressa como gra\u00e7a que leva a pessoa a aceit\u00e1-la livremente e, por isso e ao mesmo tempo, o gesto pelo qual a pessoa expressa seu livre assentimento \u00e0 gra\u00e7a, assentimento que, por sua vez, lhe \u00e9 dado totalmente pela gra\u00e7a. Longe de se oporem, <em>opus operatum<\/em> e <em>opus operantis<\/em> se sup\u00f5em mutuamente como gra\u00e7a e liberdade (cf. antropologia teol\u00f3gica).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa a\u00e7\u00e3o de Cristo no Esp\u00edrito pelos gestos simb\u00f3licos da celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecimento que Deus faz de si pr\u00f3prio ao ser humano (autocomunica\u00e7\u00e3o de Deus). O oferecimento n\u00e3o deixa de ser oferecimento pelo fato de algu\u00e9m n\u00e3o aceitar o que foi oferecido, embora para ser oferecimento sempre deva haver a possibilidade de aceita\u00e7\u00e3o. Se, por exemplo, um louco oferece a uma pessoa um terreno na lua, n\u00e3o \u00e9 oferecimento real, porque ele n\u00e3o tem possibilidade de dar o que ofereceu. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 oferecimento se algu\u00e9m oferece a um surdo-mudo um CD com uma sinfonia de Beethoven ou a algu\u00e9m que amputou as duas pernas, um par de sapatos. Mas n\u00e3o deixa de ser oferecimento se algu\u00e9m oferece a uma pessoa com plena capacidade auditiva um CD de Beethoven ou a algu\u00e9m que tem ambas as pernas um par de sapatos, embora alguns n\u00e3o o aceitem, porque n\u00e3o gostam de m\u00fasica erudita, ou porque n\u00e3o se agradam do modelo do sapato. \u00c9 um oferecimento real, mesmo quando n\u00e3o aceito. Tamb\u00e9m Jesus era uma chance de convers\u00e3o para os fariseus, embora eles n\u00e3o o tenham aceitado. A a\u00e7\u00e3o <em>ex opere operato<\/em> dos sacramentos expressa essa estrutura fundamental do sacramento: Deus se oferece \u00e0 pessoa atrav\u00e9s deles e esse oferecimento subsiste independente de que a pessoa o aceite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo: a f\u00f3rmula \u201cos sacramentos agem <em>ex opere operato<\/em>\u201d significa negativamente que a efic\u00e1cia do sacramento n\u00e3o procede do ser humano; positivamente que a efic\u00e1cia procede da obra de Cristo, sua vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, objeto do memorial, e que o gesto sacramental \u00e9 um oferecimento permanente de Deus ao ser humano, quer este o aceite, quer n\u00e3o. Por isso, a express\u00e3o p\u00f5e em primeiro plano a a\u00e7\u00e3o sacramental como tal, pela qual o mist\u00e9rio de Cristo (<em>opus operatum<\/em>) \u00e9 celebrado e assim oferecido como convite a esta pessoa e a esta comunidade para que assumam mais profundamente a vida de seguimento de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francisco Taborda SJ,<\/em> FAJE, Brasil. Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHAUVET, L.-M. Le mariage, un sacrement pas comme les autres. In: <em>LMD,<\/em> n.127, p.85-105. 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONGAR, Y. A no\u00e7\u00e3o de sacramentos maiores ou principais. In: <em>Concilium, <\/em>n.31, p.21-31. 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAULO VI. <em>A sagrada eucaristia: <\/em>enc\u00edclica <em>Mysterium fidei<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1965. Documentos Pontif\u00edcios, 153.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K.; TH\u00dcSING, W. <em>Cristolog\u00eda<\/em>: estudio sistem\u00e1tico y exeg\u00e9tico. Madrid: Cristiandad, 1975. Biblioteca Teol\u00f3gica Cristiandad, 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TABORDA, F. <em>Sacramentos, pr\u00e1xis e festa<\/em>: para uma teologia latino-americana dos sacramentos. 4.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>O memorial da P\u00e1scoa do Senhor<\/em>: ensaios lit\u00fargico-teol\u00f3gicos sobre a eucaristia. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Nas fontes da vida crist\u00e3<\/em>: uma teologia do batismo-crisma. 3.ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2012. Theologica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A qualifica\u00e7\u00e3o do n\u00famero tr\u00eas como n\u00famero da divindade n\u00e3o tem nada a ver com a no\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de que Deus \u00e9 Trindade. Esse sentido do n\u00famero existe tamb\u00e9m no juda\u00edsmo, por exemplo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Institui\u00e7\u00e3o dos sacramentos por Cristo 2 A hierarquia dos sacramentos 3 O n\u00famero dos sacramentos 4 A efic\u00e1cia dos sacramentos 5 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas Durante s\u00e9culos a Igreja celebrou e refletiu sobre o que hoje chamamos de \u201csete sacramentos\u201d, sem reuni-los numa lista \u00e0 parte e pens\u00e1-los sistematicamente. A partir do s\u00e9c. XII, aproximadamente, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=199"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/199\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1194,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/199\/revisions\/1194"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}