
<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>

<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>
{"id":1816,"date":"2019-12-31T16:11:30","date_gmt":"2019-12-31T18:11:30","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1816"},"modified":"2021-01-25T10:30:47","modified_gmt":"2021-01-25T12:30:47","slug":"inspiracao-e-inerrancia-da-sagrada-escritura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1816","title":{"rendered":"Inspira\u00e7\u00e3o e Inerr\u00e2ncia da Sagrada Escritura  \u00a0"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>1 Etimologia<\/p>\n<p>2 Paradigma de revela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>3 O cristocentrismo do conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>4 O cristocentrismo da verdade b\u00edblica<\/p>\n<p>5 O cristocentrismo da inerr\u00e2ncia da Escritura<\/p>\n<p>6 A normatividade da inten\u00e7\u00e3o divina<\/p>\n<p>7 Autoria divina<\/p>\n<p>8 O tempo dos ap\u00f3stolos<\/p>\n<p>9 Autoria humana<\/p>\n<p>10 O testemunho da Igreja<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 crist\u00e3 e cat\u00f3lica professa como elementos importantes que os livros da Sagrada Escritura tiveram origem divina mediante um carisma denominado inspira\u00e7\u00e3o, e gozam de uma qualidade denominada inerr\u00e2ncia. Trata-se de dois elementos muito antigos da f\u00e9 eclesial e que permanecem indispens\u00e1veis a ela. Inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia s\u00e3o temas tradicionalmente abordados pela Teologia Fundamental e \u00e9 nessa perspectiva que se desenvolve a presente exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia b\u00edblica estiveram sob especial escrut\u00ednio nos \u00faltimos s\u00e9culos. Em tal per\u00edodo, a origem divina e a inerr\u00e2ncia da Escritura tornaram-se questionadas especialmente por descobertas propiciadas pela Ci\u00eancia moderna. Frente a tais contraposi\u00e7\u00f5es, o ponto de partida adotado para mostrar a natureza da origem divina e da verdade da B\u00edblia n\u00e3o pode ser o pr\u00f3prio texto b\u00edblico. Valer-se da Escritura para demonstrar a inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia seria uma peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio na qual a conclus\u00e3o que se pretende apresentar (que a B\u00edblia \u00e9 inspirada e inerrante) j\u00e1 vem assumida como premissa (que a B\u00edblia possui tal autoridade para fundamentar a demonstra\u00e7\u00e3o). Mesmo assim tal caminho do autotestemunho foi adotado pelo documento <em>Inspira\u00e7\u00e3o e verdade,<\/em> da Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica (2014, n.6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio, o ponto de partida aqui \u00e9 a ades\u00e3o \u00e0quilo que precede cronol\u00f3gica e teologicamente o texto b\u00edblico: o ato de f\u00e9 dos autores humanos da B\u00edblia e o objeto da revela\u00e7\u00e3o (Deus revelado plenamente em Jesus Cristo). Trata-se de ponto de partida inerente ao m\u00e9todo teol\u00f3gico, que procede dentro da confiss\u00e3o religiosa e n\u00e3o \u201cem cima do muro\u201d. Tal ponto de partida \u00e9 mais consistente para o estudo da inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia (ALVES, 2012, p.375). Nossa exposi\u00e7\u00e3o examinar\u00e1 primeiramente a etimologia da palavra \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d. Em seguida, inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia ser\u00e3o apresentadas de modo sistem\u00e1tico mediante nove elementos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Etimologia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os atuais termos teol\u00f3gicos <em>inspirare<\/em> e <em>inspiratio<\/em> derivam da passagem paulina de 2Tm 3,16, segundo o texto latino da Vulgata, que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o que Jer\u00f4nimo fez da Sagrada Escritura no final do s\u00e9culo\u00a0IV. Naquela passagem do ap\u00f3stolo Paulo, o trecho original grego diz: \u201c\u03a1\u1fb6\u03c3\u03b1 \u03b3\u03c1\u03b1\u03c6\u1f74 \u03b8\u03b5\u03cc\u03c0\u03bd\u03b5\u03c5\u03c3\u03c4\u03bf\u03c2\u201d (\u201cP\u00e1sa graph\u00e9 the\u00f3pneustos\u201d). Esse texto grego foi assim traduzido para o latim por Jer\u00f4nimo: \u201cOmnis Scriptura divinitus inspirata est\u201d. A passagem pode ser traduzida deste modo numa formula\u00e7\u00e3o mais \u00e0 letra: \u201cToda a Escritura \u00e9 soprada dentro [de seres humanos] por Deus\u201d. Nas tradu\u00e7\u00f5es atuais, a formula\u00e7\u00e3o \u00e9 menos literal: \u201cToda a Escritura \u00e9 divinamente inspirada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u0398\u03b5\u03cc\u03c0\u03bd\u03b5\u03c5\u03c3\u03c4\u03bf\u03c2 (\u201cthe\u00f3pneustos\u201d) \u00e9 o termo grego traduzido por Jer\u00f4nimo quase \u00e0 letra como <em>divinitus inspirata<\/em> e significa, em nossa l\u00edngua, tamb\u00e9m \u00e0 letra: \u201csoprada dentro [de seres humanos] por Deus\u201d. O termo grego \u00e9 a justaposi\u00e7\u00e3o de dois outros. Um \u00e9 o substantivo \u03b8\u03b5\u03cc\u03c2 (\u201cthe\u00f3s\u201d, Deus); outro, o verbo \u03c0\u03bd\u03ad\u03c9 (\u201cpn\u00e9o\u201d, soprar) que aparece em sentido literal em Mt 7,25: \u201cOs ventos sopraram\u201d. A passagem de 2Tm 3,16 utiliza o verbo \u201csoprar\u201d em sentido figurado, como analogia para expressar a ideia de uma realidade invis\u00edvel aos olhos que gerou efeito concreto no mundo real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u0398\u03b5\u03cc\u03c0\u03bd\u03b5\u03c5\u03c3\u03c4\u03bf\u03c2 (\u201cthe\u00f3pneustos\u201d) pode ter tanto um sentido ativo (\u201csopra, exala Deus\u201d), como passivo (\u201c\u00e9 soprada por Deus\u201d). A forma ativa \u00e9 pouco comum. Bem mais frequente \u00e9 a forma passiva, em conson\u00e2ncia com as concep\u00e7\u00f5es tanto pag\u00e3 como hebraico-crist\u00e3 de subordina\u00e7\u00e3o dos seres humanos \u00e0 divindade. A religi\u00e3o pag\u00e3 grega atribu\u00eda \u00e0s pitonisas de templos como o de Apolo, em Delfos, a faculdade de serem passivamente tomadas pela divindade quando se encontravam sob o efeito de gases naturais. Contudo, no Antigo e Novo Testamento \u00e9 recorrente a ideia de que, sem perder a consci\u00eancia, o ser humano est\u00e1 sujeito ao influxo divino. Ali, quem procede em nome de Deus \u00e9 a pessoa consciente e que pelo Esp\u00edrito Santo vem \u201csoprada por dentro\u201d ou insuflada. Nessa forma passiva, \u03b8\u03b5\u03cc\u03c0\u03bd\u03b5\u03c5\u03c3\u03c4\u03bf\u03c2 (\u201cthe\u00f3pneustos\u201d) pode ser encontrado na literatura helenista em autores como Plutarco e Pseudo-Foc\u00edlides (s\u00e9culo\u00a0I) e Vettius Vallens (s\u00e9culo\u00a0II) (BEA, 1954, p.2-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verbo latino <em>inspirare<\/em> deriva de duas outras palavras: o prefixo <em>in-<\/em> (\u201cdentro\u201d ou \u201cpara dentro\u201d) e o verbo <em>spirare<\/em> (\u201crespirar\u201d). Segundo o uso lingu\u00edstico no s\u00e9culo\u00a0I, o resultado assim justaposto \u2013 <em>inspirare<\/em> \u2013 significa \u201csoprar dentro\u201d entendido em sentido f\u00edsico. <em>Inspirare<\/em>, nesse sentido, aparece na literatura pag\u00e3 no sentido literal de \u201csoprar\u201d, como por exemplo na obra <em>Hist\u00f3ria Natural<\/em> do autor romano Pl\u00ednio, o Velho (s\u00e9culo\u00a0I): \u201cin transversas harundines foramen inspirantes\u201d (\u201csoprando dentro da abertura de tubos inclinados\u201d; <em>Naturalis Historia<\/em> X, 43,3). No uso comum, al\u00e9m do sentido literal, <em>inspirare<\/em> j\u00e1 tinha tamb\u00e9m o sentido figurado de instilar uma impress\u00e3o em outra pessoa, como aparece no poeta romano Virg\u00edlio (s\u00e9culos I e II): \u201cUt te accipiet Dido, &#8230;] occultum inspires ignem, fallasque veneno\u201d (\u201cQuando a [rainha] Dido te receber, [&#8230;] sopra dentro dela a chama secreta, e ardilosamente o veneno\u201d; <em>Aeneida<\/em> I, 688).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo \u03b8\u03b5\u03cc\u03c0\u03bd\u03b5\u03c5\u03c3\u03c4\u03bf\u03c2 (\u201cthe\u00f3pneustos\u201d) da passagem de 2Tm 3,16 foi palavra seminal que estimulou a reflex\u00e3o crist\u00e3. No que diz respeito ao conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o, talvez pelo seu car\u00e1ter anal\u00f3gico \u00e9 que aquela passagem de Paulo foi bem mais influente que 2Pd 1,20-21. Esta comp\u00f5e a outra refer\u00eancia do Novo Testamento que indica a origem divina da Escritura. A a\u00e7\u00e3o divina na composi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia \u00e9 expressa ali pelo verbo \u03c6\u03ad\u03c1\u03bf (\u201cf\u00e9ro\u201d; levar, mover):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma profecia da Escritura \u00e9 objeto de explica\u00e7\u00e3o pessoal, visto que jamais uma profecia foi proferida por vontade humana. Ao contr\u00e1rio, seres humanos falaram da parte de Deus levados [\u03c6\u03b5\u03c1\u03cc\u03bc\u03b5\u03bd\u03bf\u03b9; fer\u00f3menoi] pelo Esp\u00edrito Santo. (2Pd 1,20-21)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Paradigma de revela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modo de conceber a inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia b\u00edblica \u00e9 poderosamente influenciado pelo paradigma de revela\u00e7\u00e3o que se adota. Num contexto em que quase n\u00e3o se fala mais disso, a indica\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de se explicitar tal paradigma \u00e9 \u00a0de extrema relev\u00e2ncia (ALVES, 2012, p.153-154). Consideramos aqui dois paradigmas cujos t\u00edtulos derivam de uma passagem de uma obra cl\u00e1ssica nesse campo. A revela\u00e7\u00e3o, \u201cantes que manifesta\u00e7\u00e3o de alguma coisa, \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de Algu\u00e9m a algu\u00e9m. \u00c9 Yahweh ao mesmo tempo sujeito e objeto da revela\u00e7\u00e3o\u201d (LATOURELLE, 1972, p.37-38). Da\u00ed os t\u00edtulos dados a seguir a esses dois modos de se conceber a revela\u00e7\u00e3o: um paradigma coisificado (a manifesta\u00e7\u00e3o apenas de coisas) e um paradigma personalista (a manifesta\u00e7\u00e3o sobretudo de Algu\u00e9m).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o concebe aquilo que \u00e9 mostrado por Deus como apenas \u201calgo\u201d, que pode ser (embora n\u00e3o em todos os tempos) palavras, um novo conhecimento ou luz de julgamento. Na hist\u00f3ria da Teologia, um marco nesse paradigma \u00e9 representado pela Teologia escol\u00e1stica, da qual Tom\u00e1s de Aquino \u00e9 um exemplo (LATOURELLE, 1972, p.169-204). Segundo esse paradigma, aquilo que Deus revelou foram unicamente coisas, na maior parte das vezes palavras que comp\u00f5em frases. Por isso tal paradigma pode tamb\u00e9m ser designado de verbalista ou \u201cpalavrista\u201d. Trata-se de uma concep\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o vigorosa desde a Antiguidade e que assinalaria esferas em outros aspectos d\u00edspares entre si como o Isl\u00e3, a Teologia escol\u00e1stica, a Reforma protestante, os Conc\u00edlios de Trento e do Vaticano I e a Teologia evang\u00e9lica norte-americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa concep\u00e7\u00e3o, a revela\u00e7\u00e3o consistiria na passagem, do \u00e2mbito divino para o humano, de um imenso conjunto de palavras que foi colocado por escrito. O processo dessa passagem j\u00e1 estaria terminado. No caso das correntes crist\u00e3s mencionadas, uma parte pr\u00e9via daquele \u201calgo\u201d foi transmitida pelos profetas do Antigo Testamento, e a parte principal foi confiada a Cristo. Tal imenso conjunto de frases reveladas foi ent\u00e3o entregue aos ap\u00f3stolos e \u00e0 Igreja. A partir da\u00ed, na concep\u00e7\u00e3o da Teologia escol\u00e1stica, de Trento e do Vaticano I, a Igreja transmitiu esse imenso conjunto de palavras por escrito (a B\u00edblia) e tamb\u00e9m oralmente (as tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o escritas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essa concep\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi redigido o esquema pr\u00e9-conciliar <em>De fontibus revelationis,<\/em> apresentado aos bispos no in\u00edcio do Conc\u00edlio Vaticano II e rejeitado pela maioria conciliar. J\u00e1 na concep\u00e7\u00e3o da Teologia protestante, tal transmiss\u00e3o teria se dado apenas por escrito. Segundo esse paradigma, Palavra de Deus \u00e9 apenas \u201calgo\u201d, um imenso conjunto de frases postas por escrito. Tal concep\u00e7\u00e3o de revela\u00e7\u00e3o permeia a compreens\u00e3o contempor\u00e2nea (generalizada entre cat\u00f3licos e protestantes) de que \u201cPalavra de Deus\u201d \u00e9 um equivalente estrito de \u201cB\u00edblia\u201d. Nesse caso, inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia consistiriam na origem divina e na infalibilidade desse imenso conjunto de frases reveladas num processo j\u00e1 encerrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era esse, contudo, o paradigma de revela\u00e7\u00e3o do \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d, isto \u00e9, do Israel do Antigo Testamento, de Cristo e dos ap\u00f3stolos, que era o paradigma personalista. Tal paradigma foi tamb\u00e9m aquele da Igreja nos primeiros s\u00e9culos. Segundo essa concep\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 revelado continuamente por Deus \u00e9, <em>sobretudo,<\/em> \u201cAlgu\u00e9m\u201d, a saber, o pr\u00f3prio Deus. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 revela\u00e7\u00e3o, Deus n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 o autor, mas tamb\u00e9m o objeto. Acima de tudo, o que se d\u00e1 a descobrir, num processo permanente que prossegue at\u00e9 hoje, \u00e9 o pr\u00f3prio Deus transcendente. No antigo Israel come\u00e7ou e se desenvolveu at\u00e9 o ponto m\u00e1ximo esse paradigma revelativo divino <em>sui generis<\/em>. \u201cAgradou a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar a si mesmo [seipsum] e manifestar o mist\u00e9rio da sua vontade\u201d (<em>Dei Verbum<\/em> n.2). Mais do que revela\u00e7\u00e3o de palavras que comp\u00f5em frases, \u00e9 o pr\u00f3prio Algu\u00e9m divino \u2013 <em>Seipsum<\/em> \u2013 que se apresenta (LATOURELLE, 1972, p.11-85).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse processo revelativo singular atingiu seu maior grau poss\u00edvel no evento de Jesus Cristo. D\u00e1-se a descobrir Algu\u00e9m num processo cont\u00ednuo que j\u00e1 atingiu no passado o maior grau poss\u00edvel (por isso \u00e9 o \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d) que pode se dar neste \u00e2mbito em que vivemos antes da morte, e que continua no presente. No per\u00edodo p\u00f3s-apost\u00f3lico, nada de novo sobre Deus ser\u00e1 revelado que j\u00e1 n\u00e3o tenha sido revelado em Cristo. A revela\u00e7\u00e3o, contudo, continua a acontecer no encontro sem intermedi\u00e1rios entre Deus e a criatura humana. Para os indiv\u00edduos das gera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-apost\u00f3licas, essa revela\u00e7\u00e3o representar\u00e1 novidade, pois tal encontro significa \u201cnascer do alto\u201d (Jo 3,3). Isso, por\u00e9m, n\u00e3o constituir\u00e1 novidade revelativa quando considerado o conjunto das gera\u00e7\u00f5es compreendidas desde o tempo b\u00edblico at\u00e9 hoje. No paradigma personalista de revela\u00e7\u00e3o, \u201cPalavra de Deus\u201d \u00e9 sobretudo \u201cAlgu\u00e9m\u201d, o pr\u00f3prio Cristo (Jo 1,1.14). \u00c9 Jesus a \u201cPalavra de Deus por excel\u00eancia\u201d (LOHFINK, 1964, p.172; MARTINI, 1980, p.57), em sentido absoluto e que se revela cont\u00ednua e pessoalmente a cada gera\u00e7\u00e3o. A esse Algu\u00e9m \u00e9 que o \u201calgo\u201d \u2013 o livro da B\u00edblia \u2013 se encontra subordinado e dele recebe por analogia o ep\u00edteto de \u201cPalavra de Deus\u201d. Nesse caso, inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia da Escritura dizem respeito a esse Algu\u00e9m, a pessoa de Cristo, da qual a B\u00edblia \u00e9 o registro escrito insuper\u00e1vel. O conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o e o tema da inerr\u00e2ncia da Escritura se concebem essencialmente na sua rela\u00e7\u00e3o com Cristo e com o processo revelativo que j\u00e1 atingiu o seu cume em Jesus e que continua no presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No campo da inspira\u00e7\u00e3o e da inerr\u00e2ncia estar\u00e1 truncada a reflex\u00e3o que seguir o paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o segundo o qual a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente \u201calgo\u201d: as palavras da B\u00edblia. Uma reflex\u00e3o assim estaria privada da parte mais essencial da revela\u00e7\u00e3o mesma que aconteceu no \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d, cujo n\u00facleo \u00faltimo n\u00e3o \u00e9 \u201calgo\u201d, mas Algu\u00e9m, Cristo. Uma parte da hist\u00f3ria teol\u00f3gica das reflex\u00f5es sobre a inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia, contudo, foi de fato feita com o paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o, o que constitui para tais estudos um <em>handicap<\/em>. A hist\u00f3ria das reflex\u00f5es indica como \u00e9 crucial resgatar o paradigma personalista de revela\u00e7\u00e3o na considera\u00e7\u00e3o da inspira\u00e7\u00e3o e da inerr\u00e2ncia b\u00edblica. O paradigma personalista permite elevar a reflex\u00e3o sobre a inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia a um patamar mais condizente com o n\u00facleo \u00faltimo da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O cristocentrismo do conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o possui um v\u00ednculo essencial com a pessoa de Jesus de Nazar\u00e9. No Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano\u00a0II isso vem evidenciado no fato que a doutrina sobre a inspira\u00e7\u00e3o da Escritura est\u00e1 inserida no quadro maior da Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica <em>Dei Verbum<\/em>, cujo tema \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o divina. Jesus Cristo est\u00e1 no centro daquela exposi\u00e7\u00e3o sobre a revela\u00e7\u00e3o. Por isso ele deve estar tamb\u00e9m no centro dos assuntos secund\u00e1rios ali presentes, como a inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a enc\u00edclica <em>Divino afflante Spiritu<\/em>, de Pio\u00a0XII, em 1943, havia mencionado que, al\u00e9m de se buscar, mediante os g\u00eaneros liter\u00e1rios, o sentido do texto b\u00edblico que os autores humanos inspirados haviam intencionado, era necess\u00e1rio tamb\u00e9m considerar outro sentido b\u00edblico inspirado: \u201co [sentido] espiritual, desde que este tenha sido legitimamente posto [no momento da inspira\u00e7\u00e3o] por Deus. Esse sentido espiritual [spiritualis sensus] s\u00f3 Deus o conhecia e nos pode revelar\u201d (DH 3828). Trata-se de um sentido que, na ocasi\u00e3o da inspira\u00e7\u00e3o que gerou os textos b\u00edblicos, foi \u201cintencionado e posto pelo pr\u00f3prio Deus [a Deo ipso intentum et ordinatum]\u201d (DH\u00a03828). A enc\u00edclica adverte que se deve ter \u201ccuidado, por\u00e9m, para n\u00e3o confundir esse sentido espiritual, intencionado e posto [no momento da composi\u00e7\u00e3o da Escritura] por Deus, com os sentidos metaf\u00f3ricos das coisas\u201d (DH 3828), chamados um pouco atr\u00e1s, naquela enc\u00edclica, de \u201cm\u00edsticos\u201d (DH 3827).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na reflex\u00e3o teol\u00f3gica pr\u00e9-conciliar, esse \u201csentido espiritual\u201d passou a ser chamado de <em>sensus plenior<\/em>. Tal sentido inspirado mais profundo do texto b\u00edblico foi intencionado pelo autor divino no momento da reda\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, situava-se em geral al\u00e9m daquilo que os autores humanos tinham consci\u00eancia e visava manifestar Jesus Cristo e a salva\u00e7\u00e3o. O recurso aos g\u00eaneros liter\u00e1rios muitas vezes \u00e9 insuficiente para identificar tal sentido mais profundo. Ainda assim, ele \u00e9 sentido, inspirado, intencionado por Deus, que d\u00e1 unidade e coes\u00e3o \u00e0 B\u00edblia inteira, tendo seu foco em Cristo e na salva\u00e7\u00e3o divina ali prometida e realizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os muitos autores que examinaram a quest\u00e3o, os principais foram Joseph Coppens, Fran\u00e7ois Braun, Raymond Brown e Pierre Benoit (ALVES, 2012, p.77-83).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse senso mais profundo \u00e9 praticado desde o in\u00edcio pela Igreja. [&#8230;] Se n\u00e3o vinha indicado por um nome especial, era um discernimento ent\u00e3o deficiente que hoje fazemos melhor [&#8230;], capaz de exprimir o cumprimento de todas as expectativas na pessoa e nas obras de Cristo. [&#8230;] \u00c9 uma das conquistas da nossa moderna ci\u00eancia b\u00edblica. (BENOIT, 1960, p.194)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 luz desse sentido b\u00edblico mais profundo, a inspira\u00e7\u00e3o divina que plasmou a B\u00edblia o fez de modo totalmente relativo a Cristo. O conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito meramente a um livro. Ao contr\u00e1rio, \u201co fato constitu\u00eddo por Cristo \u00e9 [&#8230;] como uma chave escrita no in\u00edcio da partitura e que determina tudo\u201d (LOHFINK, 1964, p.172). A inspira\u00e7\u00e3o que produziu a B\u00edblia, \u201calgo\u201d, teve total subordina\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m que est\u00e1 fora da Escritura, Cristo. A raz\u00e3o de ser da totalidade da Escritura inspirada \u00e9 exatamente registrar e professar que a revela\u00e7\u00e3o plena de Deus e da salva\u00e7\u00e3o se encontram fora dela em Algu\u00e9m, Jesus de Nazar\u00e9. Seria um contrassenso no conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o considerar o elemento subordinado (o livro) sem o elemento subordinante e principal, Jesus. Conceber a inspira\u00e7\u00e3o da Escritura sem tomar na devida considera\u00e7\u00e3o aquele que \u00e9 o motivo da inspira\u00e7\u00e3o significa entender a B\u00edblia por si mesma, como imenso aglomerado divinamente inspirado de p\u00e1ginas escritas. Ignorar Cristo \u00e9 entender mal o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o (ALVES, 2012, p.385-386).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No n\u00famero 11 da Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano\u00a0II, esse elemento essencial do conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o permaneceu subentendido, n\u00e3o foi explicitado. Naquele n\u00famero do documento conciliar o nome de Cristo n\u00e3o aparece nem uma vez sequer, mas \u00e9 sempre tido como impl\u00edcito em virtude daquelas reflex\u00f5es sobre a inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia b\u00edblica serem desenvolvidas em tal documento claramente cristoc\u00eantrico sobre a revela\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 O cristocentrismo da verdade b\u00edblica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m no que diz respeito \u00e0 verdade do Livro Sagrado, conceb\u00ea-la sem levar apropriadamente em conta sua subordina\u00e7\u00e3o \u00e0quele que \u00e9 tal verdade pessoal \u2013 Cristo \u2013 significa entender de maneira equivocada a natureza da verdade daquelas p\u00e1ginas. Tratar-se-ia de uma compreens\u00e3o do elemento relativo (o livro inspirado) por si mesmo, como uma imensa massa precisa e exata de afirma\u00e7\u00f5es divinas. Ignorar Cristo \u00e9 entender mal a verdade inteira da B\u00edblia (ALVES, 2012, p.384-386). Jesus \u00e9, no conjunto de sua pessoa, a revela\u00e7\u00e3o divina definitiva, a verdade e a salva\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os objetos centrais da mensagem da B\u00edblia inteira. Ele \u00e9 o objeto formal de toda a Sagrada Escritura, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 seu objeto material. Tal distin\u00e7\u00e3o entre \u201cobjeto formal\u201d e \u201cobjeto material\u201d \u00e9 cl\u00e1ssica na hist\u00f3ria da Teologia. Ela j\u00e1 aparecia numa obra importante publicada em 1870 pelo cardeal Johannes Baptist Franzelin:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Referimo-nos aqui com a palavra <em>formal<\/em> a tudo aquilo de que um determinado livro \u00e9 constitu\u00eddo e sem o qual ele n\u00e3o atinge o que o autor quer como objetivo do livro. Chamamos de <em>material<\/em> aquilo que poderia encontrar-se em modo diverso, sem que o livro deixasse de atingir o que o autor quer como objetivo. (FRANZELIN, 1870, p.297)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por objeto material da B\u00edblia entende-se aquilo que se v\u00ea com os olhos naquelas p\u00e1ginas, as proposi\u00e7\u00f5es verbais do texto b\u00edblico. Por objeto formal da Sagrada Escritura entende-se o sentido, aquilo que constitui o prop\u00f3sito intencionado pelo autor (no caso, o autor divino). A pergunta pela verdade b\u00edblica extrapola o objeto material e dirige-se ao objeto formal, o sentido intencionado por Deus. O Esp\u00edrito Santo quis revelar Jesus Cristo. Por isso o que se deve procurar na B\u00edblia toda \u00e9 Cristo, verdade e salva\u00e7\u00e3o b\u00edblicas. \u201cA B\u00edblia tem um s\u00f3 autor, Deus, e um \u00fanico objeto central, a revela\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o em Jesus Cristo. Portanto todas as suas afirma\u00e7\u00f5es est\u00e3o ligadas entre si e convergem na dire\u00e7\u00e3o de um \u00fanico centro\u201d (MARTINI, 1969, p.250). A import\u00e2ncia disso n\u00e3o \u00e9 pequena para o estudo da inspira\u00e7\u00e3o e da inerr\u00e2ncia da Sagrada Escritura, pois reflete uma consci\u00eancia que tinham o pr\u00f3prio Cristo, os ap\u00f3stolos e a Igreja do tempo dos ap\u00f3stolos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9, portanto, a natureza da verdade b\u00edblica? Em primeiro lugar, a natureza da verdade b\u00edblica \u00e9 Algu\u00e9m, e nesse sentido \u00e9 uma verdade pessoal, Cristo, e n\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es de cunho cient\u00edfico, como as geogr\u00e1ficas, cosmol\u00f3gicas ou bot\u00e2nicas. Deus quis indicar na Sagrada Escritura sobretudo essa verdade pessoal, ao inv\u00e9s de um grande apanhado de verdades abstratas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano\u00a0II isso vem afirmado desde o in\u00edcio e precisa ser tido como pressuposto ao se estudar o que esse conc\u00edlio apresentou a respeito da inspira\u00e7\u00e3o e da inerr\u00e2ncia: \u201ca verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salva\u00e7\u00e3o do ser humano [&#8230;] resplandece para n\u00f3s em Cristo\u201d (<em>Dei Verbum<\/em>, n.2). Pelo fato da verdade da B\u00edblia ser Cristo \u00e9 que a Sagrada Escritura \u2013 algo \u2013 pode por analogia ser chamada de \u201cPalavra de Deus\u201d, j\u00e1 que \u00e9 totalmente subordinada \u00e0quele Algu\u00e9m que \u00e9 a Palavra de Deus por excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 O cristocentrismo da inerr\u00e2ncia da Escritura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O v\u00ednculo essencial do conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o com a pessoa de Jesus Cristo traz tr\u00eas consequ\u00eancias para a compreens\u00e3o mais aprofundada e justa da inerr\u00e2ncia b\u00edblica.<\/p>\n<p>a) A atitude de Deus em rela\u00e7\u00e3o ao erro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira consequ\u00eancia da vincula\u00e7\u00e3o entre conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o e Cristo \u00e9 a de permitir vislumbrar, de um modo mais fiel \u00e0 revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o modo pelo qual o Deus \u00fanico, infal\u00edvel e suma verdade se relaciona de fato com o erro humano. As atitudes de Deus s\u00e3o reveladas plenamente nas atitudes de Cristo, e aquilo que Deus no fundo \u00e9 foi revelado em plenitude s\u00f3 em Jesus de Nazar\u00e9: \u201cQuem me viu, viu o Pai\u201d (Jo 14,9). Portanto a rela\u00e7\u00e3o de Deus com o erro s\u00f3 \u00e9 compreendida adequadamente na pessoa de Cristo, na sua vida e no seu jeito de ser. Conceber a inerr\u00e2ncia da B\u00edblia sem tomar na devida considera\u00e7\u00e3o aquele que \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o plena da atitude de Deus em rela\u00e7\u00e3o ao erro significa n\u00e3o entender direito a inerr\u00e2ncia. Ignorar Cristo \u00e9 entender mal a inerr\u00e2ncia da Sagrada Escritura (ALVES, 2012, p.387). Nesse ponto, \u00e9 necess\u00e1rio purificar pr\u00e9-compreens\u00f5es a respeito da rela\u00e7\u00e3o de Deus com o erro (ALVES, 2012, p.362-367).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus Cristo mostrou a aut\u00eantica rela\u00e7\u00e3o de Deus com o erro no seu desenvolvimento como ser humano e nas suas atitudes em rela\u00e7\u00e3o aos demais seres humanos. Na encarna\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus por excel\u00eancia \u2013 segunda pessoa da Sant\u00edssima Trindade \u2013 Jesus: 1) excluiu do seu pr\u00f3prio agir o erro que \u00e9 pecado e 2) incluiu erros humanos n\u00e3o pecaminosos, como aqueles que acontecem ao aprender a falar e andar, por exemplo. Sempre chamando os seres humanos a uma santidade radical de vida como a dele pr\u00f3prio, Jesus: 3) convidou os que erram, os fracos e os pecadores com seus pecados a fazer parte do seu corpo m\u00edstico. Isso se v\u00ea nos relatos da sua Paix\u00e3o e tamb\u00e9m em outros momentos essenciais dos Evangelhos, como o epis\u00f3dio da mulher ad\u00faltera, a par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo e a institui\u00e7\u00e3o dos doze, entre os quais \u201cJudas Iscariotes, aquele que o traiu\u201d (Mc\u00a03,19; Mt\u00a010,4). Pelos pecadores Cristo deu a pr\u00f3pria vida (Rm 5,8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus, que \u00e9 suma verdade e santidade, tem eternamente essa conduta amorosa em rela\u00e7\u00e3o ao erro, atitude s\u00f3 plenamente revelada em Cristo. \u201cCom esse modo de agir Deus criou o universo e o mant\u00e9m, e com esse mesmo eterno modo de agir inspirou integralmente a Sagrada Escritura\u201d (ALVES, 2012, p.372). Por isso h\u00e1 erros e imperfei\u00e7\u00f5es materiais no texto sagrado. Eles n\u00e3o envilecem a autoridade da B\u00edblia. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o ind\u00edcios da pedagogia divina em rela\u00e7\u00e3o a essas coisas (SEGUNDO, 2000, p.137-144).<\/p>\n<p>b) A natureza da inerr\u00e2ncia b\u00edblica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda consequ\u00eancia de se vincular o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o a Cristo \u00e9 permitir ver, de modo mais fiel \u00e0 revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, a natureza da inerr\u00e2ncia. Essa diz respeito \u00e0 subst\u00e2ncia da mensagem intencionada por Deus ao originar a B\u00edblia: precisamente Cristo. Em toda a Escritura, aquilo que Deus teve de fato a inten\u00e7\u00e3o de anunciar de modo infal\u00edvel \u00e9 Jesus Cristo. Tal inten\u00e7\u00e3o divina, concretizada na Escritura de maneira inerrante, verificava-se mesmo naquelas ocasi\u00f5es em que os autores humanos \u2013 sempre fazendo uso de suas faculdades e for\u00e7as \u2013 n\u00e3o tinham consci\u00eancia de tal inten\u00e7\u00e3o divina (pensa-se aqui particularmente nos hagi\u00f3grafos do Antigo Testamento).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano\u00a0II, o abade beneditino Christopher Butler foi quem quantitativamente mais contribuiu para a reda\u00e7\u00e3o do n\u00famero 11 da Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> no qual vem exposta a doutrina conciliar acerca da inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia. Ap\u00f3s o conc\u00edlio, ele escreveu a respeito: \u201cEm resumo, o que a B\u00edblia ensina fielmente e sem erro \u00e9 Cristo e o que se refere diretamente a ele\u201d (BUTLER, 1968, p.101).<\/p>\n<p>c) Motivo de a provid\u00eancia divina indicar-nos erros materiais na Sagrada Escritura<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira consequ\u00eancia de vincular o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o com a pessoa de Jesus Cristo \u00e9 trazer \u00e0 luz o motivo pelo qual a provid\u00eancia divina concede-nos modernas ferramentas de an\u00e1lise que evidenciam a presen\u00e7a de inexatid\u00f5es da informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cient\u00edfica na B\u00edblia. J\u00e1 S\u00e3o Jer\u00f4nimo era capaz de manifestar ali a presen\u00e7a de erros materiais. Ao comentar a carta de Paulo aos Ef\u00e9sios, ele afirma: \u201cEste [Paulo], portanto, que comete solecismos nas palavras, que n\u00e3o pode produzir hip\u00e9rbatos [elegantes] nem fechar [elegantemente] frases, reivindica corajosamente a sabedoria\u201d (JER\u00d4NIMO, 1845, II:3,1-4, c.478). Solecismos s\u00e3o erros de concord\u00e2ncia, reg\u00eancia e constru\u00e7\u00e3o frasal. O reconhecimento de Jer\u00f4nimo da exist\u00eancia de erros desse g\u00eanero em Paulo era relevante num contexto no qual os advers\u00e1rios da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 argumentavam que tais erros da B\u00edblia indicavam que ela n\u00e3o poderia ter origem divina. Jer\u00f4nimo mostrava com isso que a inerr\u00e2ncia precisava ser mais bem compreendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A identifica\u00e7\u00e3o de erros materiais na Sagrada Escritura tornou-se muito acentuada nos s\u00e9culos XIX e XX. Tais erros materiais consistiam daquilo que, na compreens\u00e3o moderna, s\u00e3o inexatid\u00f5es da informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cient\u00edfica. Isso levou \u00e0 frequente impress\u00e3o de que o cristianismo sustentaria que a B\u00edblia n\u00e3o contivesse erros de informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cient\u00edfica. Nesse caso o termo \u201cerro\u201d adquiriu ambiguidade e assumiu um sentido n\u00e3o desejado na origem divina do texto sagrado. Durante o Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano\u00a0II, o abade ingl\u00eas Christopher Butler chamava a aten\u00e7\u00e3o para a ambiguidade indevida que tal voc\u00e1bulo havia adquirido na compreens\u00e3o moderna e que dificultava a compreens\u00e3o da inerr\u00e2ncia:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso da palavra \u201cerro\u201d, mesmo que n\u00f3s compreendamos o que ela significa, s\u00f3 traz confus\u00e3o \u00e0s pessoas de hoje. Elas conhecem, nas descri\u00e7\u00f5es da Escritura, muitas coisas que contradizem a hist\u00f3ria cient\u00edfica e as ci\u00eancias naturais. N\u00f3s conseguimos contornar essa dificuldade. Mas, para os que s\u00e3o pequeninos no assunto, a palavra \u201cerro\u201d \u00e9 causa de trope\u00e7o. (ALVES, 2012, p.211)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II, houve apelos para que se manifestasse com precis\u00e3o o sentido da palavra \u201cerro\u201d ao se afirmar a inerr\u00e2ncia b\u00edblica. Os bispos de express\u00e3o alem\u00e3 manifestaram nesse sentido:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m que examine as afirma\u00e7\u00f5es do Magist\u00e9rio eclesial de Le\u00e3o XIII a Pio XII ousaria negar que a Sagrada Escritura \u00e9 absolutamente isenta de qualquer erro. Mas \u2013 para que o esquema tenha, na realidade, um car\u00e1ter verdadeiramente pastoral, isto \u00e9, tendo em conta tanto a mentalidade como as dificuldades de nosso tempo \u2013 pode-se desejar ao menos uma breve explica\u00e7\u00e3o do que se deve entender aqui com a palavra <em>erro<\/em>. [&#8230;] As pessoas de hoje, que falando com sua pr\u00f3pria terminologia encontram erros na Sagrada Escritura, dificilmente podem ser persuadidas a mudar de opini\u00e3o a este respeito. (ALVES, 2012, p. 156)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o mesmo evento, pela primeira vez na hist\u00f3ria da Igreja foram apresentados a um conc\u00edlio ecum\u00eanico trechos b\u00edblicos concretos para que ele se pronunciasse a respeito do tema da inerr\u00e2ncia da Escritura. Os mesmos bispos de express\u00e3o alem\u00e3 apresentaram exemplos de inexatid\u00f5es da informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cient\u00edfica que se encontram na B\u00edblia e pediram:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que a autoridade da Sagrada Escritura n\u00e3o sofra nenhum dano, deve-se falar delas lealmente e sem ambiguidade, e n\u00e3o artificialmente e com receio. [&#8230;] Mc 2,26 conta o que aconteceu durante uma visita de Davi ao templo de Jerusal\u00e9m no per\u00edodo em que Abiatar era sumo sacerdote. Mas 1Sm 21,1-7 afirma que era Abimelec, pai de Abiatar. Mt 27,9-10 cita uma passagem do AT e a atribui ao profeta Jeremias, mas na verdade \u00e9 uma passagem do profeta Zacarias (Zc 11,12-13). Dn 1,1 afirma que Nabucodonosor cercou Jerusal\u00e9m no terceiro ano do reinado de Joaquim, mas as cr\u00f4nicas do rei da Babil\u00f4nia achadas em escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas mostram que isso s\u00f3 pode ter acontecido tr\u00eas anos depois. (ALVES, 2012, p.212)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela mesma ocasi\u00e3o, o bispo brasileiro Dom Jo\u00e3o Batista da Mota e Albuquerque acrescentou outros exemplos nessa linha:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A genealogia de Cristo em Mt 1,1-17 afirma que, entre Abra\u00e3o e Jesus, houve tr\u00eas s\u00e9ries de 14 gera\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria mostra que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. [&#8230;] \u00c9 s\u00f3 [tamb\u00e9m] recordarmos a cosmologia antiga: o movimento do sol ao redor da Terra, a massa das \u00e1guas que se acreditava acima dos c\u00e9us. N\u00e3o s\u00e3o g\u00eaneros liter\u00e1rios, ou certo modo de falar. Na verdade, os antigos acreditavam firmemente nessa cosmologia. (ALVES, 2012, p.212-213)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em passagens b\u00edblicas desse tipo, com inexatid\u00f5es da informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cient\u00edfica, o termo \u201cerro\u201d assume um sentido n\u00e3o desejado na origem divina da Escritura a partir do Esp\u00edrito Santo. O que ent\u00e3o Deus, que \u00e9 \u00fanico, infal\u00edvel e suma verdade, quer mostrar de Si quando, mediante sua divina provid\u00eancia, concede-nos ferramentas de an\u00e1lise que identificam erros desse tipo na B\u00edblia? Precisamente que a sua completa e amorosa atitude em rela\u00e7\u00e3o ao erro humano \u00e9 muito mais rica e complexa do que a mera exclus\u00e3o de erros por arrog\u00e2ncia ou dureza de cora\u00e7\u00e3o, como se tais erros consistissem em impurezas das quais Ele deveria se manter apartado por ser desprovido de condescend\u00eancia, miseric\u00f3rdia e compaix\u00e3o incondicionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De que esse Deus \u00fanico e suma-verdade quer tornar a Igreja mais consciente ao conceder tais instrumentos de an\u00e1lise que evidenciam esses erros de informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cient\u00edfica na B\u00edblia? Ele quer torn\u00e1-la mais consciente de sua divina inten\u00e7\u00e3o original, a saber, que a subst\u00e2ncia da mensagem da Sagrada Escritura inteira \u00e9 Cristo, e que nisso a totalidade da B\u00edblia \u00e9 imune a erro (ALVES, 2012, p.384-385). Santo Agostinho j\u00e1 alertava para o risco de se perder o foco a esse respeito:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem-se o costume de se perguntar qual a forma e estrutura do c\u00e9u em que devemos acreditar segundo nossas Escrituras. Muitos, de fato, polemizam a respeito dessas coisas [&#8230;] que n\u00e3o t\u00eam utilidade para uma vida feliz e, o que \u00e9 pior, ocupam tempo muito precioso que devia ser ocupado com os assuntos da salva\u00e7\u00e3o. Que import\u00e2ncia tem [na B\u00edblia] se o c\u00e9u se estende como uma esfera com a terra equilibrada no meio, ou se recobre esta como a um disco s\u00f3 pela parte de cima? Trata-se aqui da credibilidade da Escritura [&#8230;]. O Esp\u00edrito de Deus, que falava mediante eles [os autores humanos da B\u00edblia], n\u00e3o quis ensinar aos seres humanos esse tipo de coisa que n\u00e3o tem utilidade para a salva\u00e7\u00e3o. (AGOSTINHO, 1845, II,9,20, c.270)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 A normatividade da inten\u00e7\u00e3o divina<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro elemento que o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o inclui \u00e9 o car\u00e1ter normativo da inten\u00e7\u00e3o divina quando, mediante a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, atuou de maneira direta na composi\u00e7\u00e3o do texto sagrado. A inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica acarretou um car\u00e1ter de normatividade para esses textos que \u00e9 expresso mediante um adjetivo especial: <em>Sagrada<\/em> Escritura. Tal normatividade da inten\u00e7\u00e3o divina manifestou-se como parte da inten\u00e7\u00e3o divina mais ampla de gerar o Israel do Antigo Testamento e a Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A normatividade, contudo, n\u00e3o \u00e9 suficiente para caracterizar a inten\u00e7\u00e3o divina manifestada durante a composi\u00e7\u00e3o inspirada da B\u00edblia. A Igreja possui outros textos normativos posteriormente elaborados, como por exemplo as declara\u00e7\u00f5es dos conc\u00edlios ecum\u00eanicos, a lista do c\u00e2none dos livros b\u00edblicos e o C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico. Desses textos pode at\u00e9 mesmo ser dito que, de algum modo, eles tiveram uma certa origem divina na medida em que sua composi\u00e7\u00e3o contou com a ilumina\u00e7\u00e3o ou assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo (ALVES, 2012, p.376). Eles, contudo, n\u00e3o s\u00e3o sagrados. \u00c9 necess\u00e1rio ent\u00e3o acrescentar um elemento mais espec\u00edfico que explique porque, de todos os textos normativos, s\u00f3 a B\u00edblia \u00e9 designada como sagrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 Autoria divina<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o, para explicitar o elemento que s\u00f3 se pode atribuir ao texto normativo da B\u00edblia e a nenhum outro mais, uma afirma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica \u00e9 a de que Deus \u00e9 o autor da Sagrada Escritura. De nenhum outro texto normativo diz-se que Deus foi seu autor. A a\u00e7\u00e3o de Deus como autor de um texto verificou-se mediante uma dire\u00e7\u00e3o especial do Esp\u00edrito Santo j\u00e1 encerrada na hist\u00f3ria (O\u2019COLLINS, 1991, p.297). Em Teologia, Deus-autor \u00e9 uma express\u00e3o que, quando aplicada a um texto, s\u00f3 \u00e9 aplicada \u00e0 B\u00edblia e em estreita vincula\u00e7\u00e3o com o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9, portanto, o fen\u00f4meno cuja origem \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o divina normativa com a qual, atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo, Deus produziu e estabeleceu como autor o texto normativo e definitivo que registrou a revela\u00e7\u00e3o de Algu\u00e9m \u2013 Ele pr\u00f3prio, Deus \u2013 acontecida num processo de automanifesta\u00e7\u00e3o cuja plenitude deu-se na vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, segunda pessoa da Sant\u00edssima Trindade e Palavra de Deus por excel\u00eancia que existia antes de todos os tempos. Nenhum outro texto pode honrar-se em ter Deus como autor (ALVES, 2012, p.376).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>8 O tempo dos ap\u00f3stolos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o implica um elemento cl\u00e1ssico de Teologia Fundamental: h\u00e1 uma diferen\u00e7a essencial entre, por um lado, a fase da Igreja do tempo dos ap\u00f3stolos e do Israel do Antigo Testamento e, por outro lado, a fase da Igreja p\u00f3s-apost\u00f3lica (O\u2019COLLINS, 1991, p.125-127). A inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 um fen\u00f4meno que corresponde apenas \u00e0 primeira fase (O\u2019COLLINS, 1991, p.283). Nos textos teol\u00f3gicos do Magist\u00e9rio isso transparece no fato que, desde a enc\u00edclica <em>Providentissimus Deus,<\/em> em 1893, os termos <em>inspirare<\/em> e <em>inspiratio<\/em> s\u00e3o empregados apenas no sentido limitado \u00e0 composi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. A inten\u00e7\u00e3o divina inspiradora manifestou-se apenas naquela primeira fase, que era normativa. Essa \u00e9 a tese central do c\u00e9lebre texto de Karl Rahner sobre a inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica (RAHNER, 1956, p.150-160).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso n\u00e3o se deve confundir o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o com o emprego ordin\u00e1rio da palavra \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d. Na vida cotidiana essa palavra pode ser efetivamente empregada para descrever a\u00e7\u00f5es do nosso tempo. Por\u00e9m o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o designa um termo t\u00e9cnico que possui um sentido t\u00e9cnico limitado \u00e0 Igreja do tempo dos ap\u00f3stolos e do Israel do Antigo Testamento. Houve uma rela\u00e7\u00e3o qualitativamente \u00fanica de Deus com o antigo Israel e a Igreja do tempo dos ap\u00f3stolos na qual, mediante o carisma da inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica que se encontra encerrado, a inten\u00e7\u00e3o divina gerou a Escritura como elemento normativo e permanente para a Igreja das \u00e9pocas posteriores (ALVES, 2012, p.83-85). A utiliza\u00e7\u00e3o na linguagem cotidiana do termo \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o possui esse limite. Um texto teol\u00f3gico sobre inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica que n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o sentido t\u00e9cnico exclusivo do conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o indica uma lacuna no campo da Teologia da revela\u00e7\u00e3o e em Teologia Fundamental, mais do que inova na reflex\u00e3o sobre a inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica (ALVES, 2012, p.377). Tal falta de distin\u00e7\u00e3o mais atrapalha que ajuda, pois gera falta de clareza sobre algo que \u00e9 qualitativamente restrito ao primeiro per\u00edodo (aquele do \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d) enquanto normatizador para o segundo per\u00edodo, o nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 que tal distin\u00e7\u00e3o qualitativa entre os dois per\u00edodos significaria que houve uma interrup\u00e7\u00e3o na revela\u00e7\u00e3o, que esta deixou de ser contempor\u00e2nea \u00e0s gera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-apost\u00f3licas e que n\u00e3o se conta mais com a criatividade destas (GIBERT; THEOBALD, 2007, p. 280)? Ser\u00e1 que o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o se encontra mais atuante nos seres humanos? As respostas s\u00e3o negativas. A revela\u00e7\u00e3o no per\u00edodo p\u00f3s-apost\u00f3lico continua acontecendo e significando novidade para cada gera\u00e7\u00e3o. Deus d\u00e1-se a descobrir como \u201cAlgu\u00e9m\u201d num processo cont\u00ednuo que j\u00e1 atingiu no passado o maior grau poss\u00edvel nesta realidade em que vivemos antes da morte e que continua no presente. O Esp\u00edrito Santo continua vivo e atuante. Se no per\u00edodo p\u00f3s-apost\u00f3lico nada de novo sobre Deus ser\u00e1 revelado que j\u00e1 n\u00e3o tenha sido revelado em Israel e em Cristo (o \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d), contudo a revela\u00e7\u00e3o permanece acontecendo no encontro sem intermedi\u00e1rios entre Deus e a criatura humana. Para os indiv\u00edduos das gera\u00e7\u00f5es p\u00f3s-apost\u00f3licas, essa revela\u00e7\u00e3o representar\u00e1 novidade e envolver\u00e1 criatividade, pois tal encontro pessoal significa \u201cnascer do alto\u201d (Jo 3,3). O Esp\u00edrito Santo continua a tornar presente Deus j\u00e1 plenamente revelado em Cristo. Isso n\u00e3o ser\u00e1, contudo, novidade revelativa se considerado o conjunto de todas as gera\u00e7\u00f5es desde o tempo dos ap\u00f3stolos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 de fato uma linha de reflex\u00e3o que tomou rumo diverso e que n\u00e3o limita o conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o ao tempo dos ap\u00f3stolos. Ela aparece com frequ\u00eancia na reflex\u00e3o feita ap\u00f3s o Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II. Em 1964 \u2013 antes, portanto, da Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> \u2013 o biblista jesu\u00edta Luis Alonso Sch\u00f6kel terminou a obra seminal <em>A Palavra inspirada<\/em>, que marcaria a reflex\u00e3o p\u00f3s-conciliar sobre a inspira\u00e7\u00e3o num grau n\u00e3o menor que o pr\u00f3prio documento do Vaticano\u00a0II. O subt\u00edtulo do livro \u2013 <em>A B\u00edblia \u00e0 luz da Ci\u00eancia da linguagem<\/em> \u2013 anunciava sua originalidade: trabalhar o tema da inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica segundo o ponto de vista dessa ci\u00eancia. No pr\u00f3logo da edi\u00e7\u00e3o de 1986, o autor diz que sua inten\u00e7\u00e3o foi a de transpor o tratado da inspira\u00e7\u00e3o do campo do conhecimento para o campo da linguagem. Sch\u00f6kel repensa ali a reflex\u00e3o sobre a inspira\u00e7\u00e3o como carisma de linguagem e o faz mediante categorias lingu\u00edsticas: as fun\u00e7\u00f5es da linguagem e seus n\u00edveis. Ele centra seu estudo a respeito da inspira\u00e7\u00e3o da B\u00edblia sobre \u201calgo\u201d, isto \u00e9, a obra liter\u00e1ria concreta da Sagrada Escritura, ao inv\u00e9s de faz\u00ea-lo precisamente sobre \u201cAlgu\u00e9m\u201d, a pessoa de Jesus Cristo. Isso leva o autor a um ponto de partida que se tornaria comum nas d\u00e9cadas seguintes: os pr\u00f3prios livros inspirados (SCH\u00d6KEL, 1992, p. 84). Outro elemento relevante \u00e9 o da vincula\u00e7\u00e3o entre escrever e ler, que \u00e9 refletida mediante a categoria de \u201cc\u00edrculo hermen\u00eautico\u201d. Com base em tal v\u00ednculo \u00e9 utilizado na obra o sentido que o termo \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d tem na linguagem ordin\u00e1ria cotidiana<em>.<\/em> Isso levou Sch\u00f6kel a pensar a inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 na forma\u00e7\u00e3o do texto sagrado, mas tamb\u00e9m na atividade dos leitores dos s\u00e9culos posteriores: os leitores lit\u00fargicos e o leitor que medita a Sagrada Escritura (SCH\u00d6KEL, 1992, p. 249).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de ent\u00e3o, o fasc\u00ednio da Ci\u00eancia da linguagem e o emprego do sentido ordin\u00e1rio da palavra \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d assinalam em geral os estudos p\u00f3s-conciliares no campo da inspira\u00e7\u00e3o da Escritura. Nesse campo tornou-se comum designar tamb\u00e9m como inspira\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo sobre o leitor da B\u00edblia. Empregada nesse sentido, tornou-se c\u00f4moda a frase \u201cA B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 apenas inspirada, mas tamb\u00e9m inspirante\u201d (IZQUIERDO, 2002, p. 79.130). No tempo p\u00f3s-apost\u00f3lico, o leitor da B\u00edblia poderia \u201cfazer a experi\u00eancia da inspira\u00e7\u00e3o\u201d (GIBERT; THEOBALD, 2007, p. 293). Express\u00e3o dessa atual linha da reflex\u00e3o \u00e9 o documento <em>Inspira\u00e7\u00e3o e verdade da Sagrada Escritura<\/em> da Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica, publicado em 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que o Esp\u00edrito Santo \u00e9 respons\u00e1vel pelo texto b\u00edblico tanto no \u201cescrever\u201d, durante a composi\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura, como no \u201cler\u201d, em ocasi\u00e3o de sua leitura no per\u00edodo p\u00f3s-apost\u00f3lico. Sendo, contudo, atividades diferentes, tamb\u00e9m a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo ser\u00e1 diferente (ALVES, 2012, p.359). A doutrina da inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica ensina que o Esp\u00edrito Santo era atuante como inspirador apenas na composi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. Uma maneira teologicamente j\u00e1 consagrada de expressar isso \u00e9 dizer que esse \u00e9 o \u00fanico escrito que tem Deus como autor. Tal a\u00e7\u00e3o divina exclusiva durante a composi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia refletia uma inten\u00e7\u00e3o divina j\u00e1 encerrada e que representa o \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d. Na segunda atividade (o \u201cler\u201d no per\u00edodo p\u00f3s-apost\u00f3lico, atividade diversa de \u201cescrever\u201d o texto b\u00edblico), o mesmo Esp\u00edrito Santo permanece ativo, mas de modo diverso e que pode ser denominado assist\u00eancia, ilumina\u00e7\u00e3o, mo\u00e7\u00e3o ou impulso do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal distin\u00e7\u00e3o entre conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia ou ilumina\u00e7\u00e3o n\u00e3o representa obst\u00e1culo porque n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o ou contradi\u00e7\u00e3o entre as duas a\u00e7\u00f5es diferentes do mesmo Esp\u00edrito Santo, mas apenas a distin\u00e7\u00e3o qualitativa mencionada. Em ambas a viva revela\u00e7\u00e3o divina continua contempor\u00e2nea de cada gera\u00e7\u00e3o e chamando-as \u00e0 criatividade inerente a quem se insere em tal di\u00e1logo revelativo com base no que Cristo revelou definitivamente pela primeira vez no evento de sua vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, o n\u00facleo do \u201cdep\u00f3sito da f\u00e9\u201d. Longe de representar obst\u00e1culo, a denomina\u00e7\u00e3o diferenciada para referir as a\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito Santo no \u201cescrever\u201d a B\u00edblia no passado e no \u201cler\u201d hoje o mesmo texto sagrado evita a confus\u00e3o de qualidade entre os dois per\u00edodos.\u00a0 Isso talvez n\u00e3o seja pouco, pois convida \u00e0 humildade em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo em que vivemos e contribui para uma mais justa compreens\u00e3o da importante diferen\u00e7a qualitativa presente na inten\u00e7\u00e3o divina historicamente manifestada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>9 Autoria humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o integra pelo menos tr\u00eas elementos acerca dos seres humanos. Primeiro, a Sagrada Escritura inspirada teve verdadeiros autores humanos. O Magist\u00e9rio designa os hagi\u00f3grafos como autores desde a enc\u00edclica <em>Providentissimus Deus,<\/em> de Le\u00e3o\u00a0XIII. em 1893 (ALVES, 2012, p.38). No Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano\u00a0II, o n\u00famero 11 da Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> chama-os de \u201cverdadeiros autores\u201d, no sentido de verdadeiros escritores do texto que elaboraram. Nesse mesmo sentido, desde a enc\u00edclica <em>Divino afflante Spiritu,<\/em> de Pio\u00a0XII, em 1943, o Magist\u00e9rio havia abandonado o termo <em>dictare<\/em> para expressar a autoria divina da Sagrada Escritura. No s\u00e9culo XX, por aparecer traduzido nas l\u00ednguas modernas no sentido de \u201cditar\u201d, tal termo havia adquirido um significado mec\u00e2nico incompat\u00edvel com a autoria humana da B\u00edblia. Pela mesma raz\u00e3o, durante o Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II o Magist\u00e9rio abandonou nesse campo as categorias aristot\u00e9lico-tomistas de causalidade eficiente, que levavam a chamar o hagi\u00f3grafo de autor-instrumental e a Deus de autor-principal da Escritura. O termo \u201cinstrumento\u201d aplicado ao hagi\u00f3grafo mais escondia que patenteava o papel do ser humano como verdadeiro autor do texto sagrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo, a quantidade desses verdadeiros autores humanos da B\u00edblia foi muito grande. Hagi\u00f3grafos, ou autores humanos da Escritura, foram todos aqueles que de fato tomaram parte na reda\u00e7\u00e3o dos textos b\u00edblicos. Dois extremos devem ser evitados: por um lado, que a a\u00e7\u00e3o divina teria se espalhado indistintamente sobre todos os membros do povo de Israel, e por outro lado, que a inspira\u00e7\u00e3o divina teria sido coisa que aconteceu apenas no \u00faltimo redator que interveio no texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terceiro, a psicologia dos autores humanos durante a inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o era caracterizada por um estado fenomenol\u00f3gico interno que teria sido exclusivo, distinto dos estados internos nos quais a inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica n\u00e3o se manifestava. O n\u00famero 11 da Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> utilizou a esse respeito termos aptos a descrever tamb\u00e9m outras a\u00e7\u00f5es divinas sobre o ser humano: \u201cDeus escolheu homens dos quais se valeu \u2013 fazendo, estes, uso de suas faculdades e for\u00e7as, e agindo Ele pr\u00f3prio neles e atrav\u00e9s deles \u2013 a fim de que colocassem por escrito\u201d (<em>Dei Verbum<\/em> n.11). O elemento distintivo da inspira\u00e7\u00e3o da B\u00edblia n\u00e3o se encontra no n\u00edvel da experi\u00eancia subjetiva do hagi\u00f3grafo inspirado. \u201cAqui a Teologia deve fazer-se particularmente modesta\u201d (GIBERT; THEOBALD, 2007, p. 69). Aquilo que d\u00e1 ao conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o seu car\u00e1ter espec\u00edfico, \u00fanico e irrepet\u00edvel encontra-se na inten\u00e7\u00e3o de Deus, e n\u00e3o no estado mental do autor humano inspirado (ALVES, 2012, p.378).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10 O testemunho da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, a inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia b\u00edblicas incluem a prova dessas coisas: \u00e9 dada pelo testemunho da Igreja que remonta ao tempo dos ap\u00f3stolos. N\u00e3o conv\u00e9m prov\u00e1-las mediante o pr\u00f3prio texto b\u00edblico, pois seria peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio. No Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II, o n\u00famero 11 da Constitui\u00e7\u00e3o <em>Dei Verbum<\/em> recorre tr\u00eas vezes ao testemunho da Igreja. Duas vezes refere-a pelo nome: \u201ca santa m\u00e3e Igreja\u201d e \u201cIgreja\u201d. Uma vez o faz indicando algo que se deve tomar como profiss\u00e3o de f\u00e9: \u201cportanto [&#8230;] deve-se professar\u201d (\u201cinde [&#8230;] profitendi sunt\u201d. A inspira\u00e7\u00e3o e a inerr\u00e2ncia b\u00edblicas s\u00e3o garantidas com base no testemunho eclesial. \u00c9 tal testemunho com base na f\u00e9 da Igreja (que remonta ao tempo dos ap\u00f3stolos) que prova e garante a origem divina e a inerr\u00e2ncia da Sagrada Escritura (ALVES, 2012, p.379).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo da inspira\u00e7\u00e3o e da inerr\u00e2ncia ganha em qualidade ao ser deixado de lado o paradigma coisificado de revela\u00e7\u00e3o, segundo o qual aquilo que Deus faria passar do \u00e2mbito divino ao humano seriam palavras exatas contendo seus textos revelados em uma precisa grafia e fraseologia. Esse estudo s\u00f3 obt\u00e9m tal ganho de qualidade \u00e0 luz da Teologia Fundamental quando \u00e9 inserido no quadro mais amplo da revela\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 em seu car\u00e1ter de paradigma personalista segundo o qual o que \u00e9 revelado \u00e9 sobretudo Algu\u00e9m, cuja plenitude revelativa deu-se em Jesus de Nazar\u00e9. Esse era o paradigma de revela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Cristo e dos ap\u00f3stolos. Cristo presente continua se revelando no tempo atual, embora o que de si venha agora a mostrar j\u00e1 tenha sido revelado anteriormente no tempo da revela\u00e7\u00e3o fundamental. A B\u00edblia, inspirada e inerrante \u00e0 luz dessas reflex\u00f5es, \u00e9 o registro da revela\u00e7\u00e3o fundamental j\u00e1 culminada e guia com seguran\u00e7a o encontro atual com Cristo vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>C\u00e9sar Andrade Alves SJ. <\/em>Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia \u2013 Belo Horizonte, Brasil. Texto original portugu\u00eas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AGOSTINHO DE HIPONA. <em>De Genesi ad litteram<\/em>. Paris: 1845, col. 246-486. (<em>Migne Patrologiae Cursus Completus<\/em>, PL 34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALVES, C. A. <em>Ispirazione e verit\u00e0. <\/em>Genesi, sintesi e prospettive della dottrina sull\u2019ispirazione biblica del Concilio Vaticano II (DV\u00a011). Roma: Armando, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BEA, A. <em>De inspiratione et inerrantia Sacrae Scripturae<\/em>. Roma: PIB, 1954.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BENOIT, P. La pl\u00e9nitude de sens des Livres Saints. <em>Revue Biblique, <\/em>n.67, p. 161-196, 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BUTLER, C. Revelation and Inspiration. In: ______. <em>The Theology of Vatican\u00a0II<\/em>. London: Darton, Longman &amp; Todd, 1967, p. 28-58.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. The inspiration of the Bible. <em>The Tablet,<\/em> n.222, p. 100-101, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COLLINS, R. Inspiration. In: BROWN, R. et al. (orgs.). <em>The New Jerome Biblical Commentary<\/em>. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1990, p. 1023-1033.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONC\u00cdLIO VATICANO\u00a0II. <em>Constitui\u00e7\u00e3o Dei Verbum<\/em>. Roma, 1965. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/index.htm. Acesso em: 12 set 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DH\u00a0=\u00a0DENZINGER, H.;\u00a0H\u00dcNERMANN, P. (org.).\u00a0<em>Comp\u00eandio dos s\u00edmbolos, defini\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es de f\u00e9 e moral<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas; Loyola, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FISICHELLA, R. Inspira\u00e7\u00e3o. In: LATOURELLE, R,; FISICHELLA, R. (orgs.). <em>Dicion\u00e1rio de Teologia Fundamental<\/em>. 2.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017, p. 407-410.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANZELIN, J. B. <em>Tractatus de Divina Traditione et Scriptura<\/em>. Roma: Sacra Congregatio de Propaganda Fide, 1870.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GIBERT, P.; THEOBALD, C. (orgs.). <em>La r\u00e9ception des \u00c9critures inspir\u00e9es. <\/em>Ex\u00e9g\u00e8se, histoire et th\u00e9ologie<em>. <\/em>Paris: Bayard, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IZQUIERDO, A. (org.), <em>Scrittura ispirata<\/em>. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JER\u00d4NIMO. <em>Commentaria in Epistolam ad Ephesios<\/em>. Paris: 1845, col. 439-554. (<em>Migne Patrologiae Cursus Completus<\/em>, PL 26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LATOURELLE, R. <em>Teologia da revela\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LOHFINK, N. \u00dcber die Irrtumslosigkeit und die Einheit der Schrift. <em>Stimmen der Zeit,<\/em> n.174, p. 161-181, 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARTINI, C. Ispirazione e verit\u00e0 nella Sacra Scrittura. <em>La Civilt\u00e0 Cattolica,<\/em> n.120, p. 4\/241-4\/251, 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______. <em>La Parola di Dio alle origini della Chiesa<\/em>. Roma: PUG, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u2019COLLINS, G. <em>Teologia Fundamental<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PONTIF\u00cdCIA COMISS\u00c3O B\u00cdBLICA. <em>Inspira\u00e7\u00e3o e verdade da Sagrada Escritura<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K. \u00dcber die Schriftinspiration. <em>Zeitschrift f\u00fcr katholische Theologie,<\/em> n.78, p. 137-168, 1956.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCH\u00d6KEL, L. A. <em>A Palavra inspirada. <\/em>A B\u00edblia \u00e0 luz da Ci\u00eancia da Linguagem. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDO, J. L. <em>Inspira\u00e7\u00e3o e inerr\u00e2ncia<\/em>. In: ______. <em>O dogma que liberta<\/em>. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2000, p. 119-144.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: inherit;\">.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Etimologia 2 Paradigma de revela\u00e7\u00e3o 3 O cristocentrismo do conceito teol\u00f3gico de inspira\u00e7\u00e3o 4 O cristocentrismo da verdade b\u00edblica 5 O cristocentrismo da inerr\u00e2ncia da Escritura 6 A normatividade da inten\u00e7\u00e3o divina 7 Autoria divina 8 O tempo dos ap\u00f3stolos 9 Autoria humana 10 O testemunho da Igreja Conclus\u00e3o Refer\u00eancias Introdu\u00e7\u00e3o A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-1816","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1816"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1816\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2355,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1816\/revisions\/2355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}