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{"id":1814,"date":"2019-12-31T15:45:19","date_gmt":"2019-12-31T17:45:19","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1814"},"modified":"2019-12-31T15:45:19","modified_gmt":"2019-12-31T17:45:19","slug":"teologia-publica-da-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1814","title":{"rendered":"Teologia p\u00fablica da cidadania"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Cidadania entre o c\u00e9u e a terra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O conceito de cidadania<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Uma teologia da cidadania como teologia p\u00fablica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 Bases de uma teologia da cidadania<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2 Teologia trinit\u00e1ria para a cidadania<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Uma teologia p\u00fablica: contextual e cat\u00f3lica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Cidadania entre o c\u00e9u e a terra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidadania \u00e9 uma quest\u00e3o central da conviv\u00eancia humana. Ela ocupa um lugar proeminente no terceiro livro da <em>Pol\u00edtica<\/em>, do fil\u00f3sofo grego Arist\u00f3teles, em que define o cidad\u00e3o (<em>polites<\/em>) da cidade (<em>polis<\/em>) com sua constitui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica (<em>politeia<\/em>). O ap\u00f3stolo Paulo insiste que ele \u00e9 \u201cjudeu, natural de Tarso, cidade importante da Cil\u00edcia\u201d (Atos 21,39) e reivindica, ao mesmo tempo, ser cidad\u00e3o romano (Atos 16,38; 22,25-28), invocando direitos e privil\u00e9gios espec\u00edficos impl\u00edcitos. O autor da carta aos Ef\u00e9sios enfatiza que vale para os judeus e os gregos em Cristo: \u201c(&#8230;) j\u00e1 n\u00e3o sois estrangeiros nem forasteiros, mas concidad\u00e3os dos santos e familiares de Deus\u201d (Ef 2,19). O autor da carta aos Hebreus sublinha o car\u00e1ter prec\u00e1rio da cidadania terrena: \u201cNa verdade, n\u00e3o temos aqui cidade permanente, mas estamos \u00e0 procura da que est\u00e1 por vir\u201d (Hb 13.14). A vis\u00e3o do livro do Apocalipse \u00e9 uma cidade, a Jerusal\u00e9m celestial, curiosamente uma cidade sem templo (Ap 21,22). No fim dos tempos, o profano e o espiritual, o secular e o religioso coincidem na presen\u00e7a de Deus. Agostinho escreveu proeminentemente sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a cidade de Deus e a cidade terrena. Assim, pode-se afirmar que a cidadania \u00e9 um tema crist\u00e3o que est\u00e1 presente desde os prim\u00f3rdios do cristianismo. A cidade humana \u00e9 sempre prec\u00e1ria, mas \u00e9 a localiza\u00e7\u00e3o adequada dos crist\u00e3os em sua vida. Os crist\u00e3os s\u00e3o fi\u00e9is \u00e0 cidade de Deus, que deve ser revelada e instalada em sua plenitude, e que j\u00e1 est\u00e1 presente na cidade humana com todas as suas ambiguidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na atualidade, as quest\u00f5es da cidadania nacional, e especialmente a luta pela inclus\u00e3o em um sentido mais amplo pela moradia, pelo \u201cdireito de ter direitos\u201d (ARENDT, 2012, p.296), de pertencer a algum espa\u00e7o e deter propriedade desse lugar s\u00e3o quest\u00f5es aut\u00eanticas e centrais. Tamb\u00e9m se pode mencionar aqui os fluxos de migrantes e refugiados que o mundo acompanha e enfrenta hoje. Estas realidades mostram o desafio do desarraigamento e do deslocamento. Crist\u00e3os sabem que nunca est\u00e3o totalmente \u201cem casa\u201d neste mundo, e sua fidelidade n\u00e3o pode ficar ininterrupta com rela\u00e7\u00e3o a um lugar espec\u00edfico, um povo espec\u00edfico, uma na\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. O Evangelho transcende os limites estabelecidos pelos seres humanos. No entanto, pessoas crist\u00e3s s\u00e3o chamadas a dar sua contribui\u00e7\u00e3o precisamente em um contexto e num momento espec\u00edficos, para ajudar seus pares a se sentirem em casa onde quer que estejam. Isso implica que devam trabalhar para os direitos da cidadania para todas as pessoas em todos os lugares. Na medida em que a teologia reflete sobre seu devido lugar e sua incid\u00eancia na sociedade, na esfera p\u00fablica, trata-se de uma teologia p\u00fablica, que aqui formulamos como uma teologia p\u00fablica da cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A conceito de cidadania<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCidadania\u201d denota antes um campo conceitual do que de um conceito claramente definido, devido \u00e0 crescente multiplicidade de assuntos, quest\u00f5es, objetivos e pol\u00edticas relacionados. Foi historicamente forjado no Ocidente, tendo como refer\u00eancia inicial Atenas e Roma e passando pelas revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XVIII nos Estados Unidos e na Fran\u00e7a. No entanto, n\u00e3o se deve esquecer que a primeira pessoa a falar de \u201cdireitos humanos\u201d foi Bartolom\u00e9 de Las Casas (1484-1566), que desencadeou uma importante discuss\u00e3o sobre o <em>status<\/em> humano dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas Janoski define a cidadania como \u201cser membro passivo e ativo de indiv\u00edduos em um Estado-Na\u00e7\u00e3o com direitos e obriga\u00e7\u00f5es universais em um n\u00edvel espec\u00edfico de igualdade\u201d (1998, p.9). Muitos autores referem-se \u00e0s tr\u00eas categorias de direitos do soci\u00f3logo brit\u00e2nico Thomas H. Marshall (1893-1981) \u2013 civis, pol\u00edticos e sociais \u2013, conquistados nesta ordem entre os s\u00e9culos XVIII e XX (cf. CARVALHO, 2001). O advogado brasileiro Darc\u00edsio Corr\u00eaa introduz sua defini\u00e7\u00e3o destacando aspectos econ\u00f4micos e sociais da cidadania: \u201cA cidadania (&#8230;) significa a realiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de uma sociedade, compartilhada por todos os indiv\u00edduos ao ponto de garantir a todos o acesso ao espa\u00e7o p\u00fablico e condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia digna, tendo como valor-fonte a plenitude da vida\u201d(2006, p.217). \u00c9 evidente que tal defini\u00e7\u00e3o ultrapassa a quest\u00e3o dos direitos (e deveres) previstos na lei, introduzindo uma dimens\u00e3o ut\u00f3pica e escatol\u00f3gica quando se fala da \u201cplenitude da vida\u201d (ver Jo\u00e3o 10,10, texto frequentemente citado por movimentos sociais e ONGs ligadas a igrejas). \u201cAcesso ao espa\u00e7o p\u00fablico\u201d aponta para as necess\u00e1rias garantias a serem providenciadas pelo sistema pol\u00edtico e jur\u00eddico, bem como para a esfera p\u00fablica como espa\u00e7o discursivo, de forma\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o p\u00fablica, enquanto a \u201csobreviv\u00eancia digna\u201d indica que as necessidades b\u00e1sicas devem ser adequadamente atendidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso frequente, na literatura e advocacia brasileiras, de \u201cconquista\u201d, \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ccidadania ativa\u201d indicam a esperan\u00e7a e, de fato, a expectativa de muitas pessoas ativas na sociedade civil para construir uma sociedade nova, uma sociedade \u201cde baixo\u201d, com mais \u00eanfase dada ao social do que ao individual. Para o soci\u00f3logo Pedro Demo, a cidadania \u00e9 \u201cum processo hist\u00f3rico de conquista popular, pelo qual a sociedade adquire, progressivamente, condi\u00e7\u00f5es de se tornar um sujeito hist\u00f3rico consciente e organizado, com capacidade para conceber e tornar efetivo um projeto pr\u00f3prio\u201d (1992, p. 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Um exemplo disso pode ser o chamado Or\u00e7amento Participativo, uma inven\u00e7\u00e3o brasileira hoje praticada em muitas partes do mundo e que faz parte desta nova vis\u00e3o: parte da execu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento municipal \u00e9 decidida em assembleias populares, sendo as prioridades estabelecidas para a aplica\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento p\u00fablico pela participa\u00e7\u00e3o popular e democr\u00e1tica. As consultas populares s\u00e3o outro meio de uma \u201ccidadania ativa\u201d (BENEVIDES, 2003) previstas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 (Art. 14), mas ainda pouco utilizadas, ao menos enquanto voto oficial. Seriam outro avan\u00e7o importante da participa\u00e7\u00e3o popular na pol\u00edtica. Contudo, como sempre na democracia, o voto da maioria precisa ser contracenado com a garantia dos direitos humanos e, especialmente, a prote\u00e7\u00e3o de minorias. Quest\u00f5es como a pena de morte sabiamente n\u00e3o foram postas \u00e0 vota\u00e7\u00e3o, porque o direito \u00e0 vida \u00e9 um direito fundamental (CONSTITUI\u00c7\u00c3O FEDERAL, 1988, Art. 5\u00ba, inciso XLVII) que, por princ\u00edpio, n\u00e3o est\u00e1 sujeito a mudan\u00e7as. De acordo com pesquisas de opini\u00e3o, no entanto, \u00e9 bastante prov\u00e1vel que uma vota\u00e7\u00e3o popular encontraria uma maioria a favor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No sentido de forma\u00e7\u00e3o para a cidadania e exerc\u00edcio de participa\u00e7\u00e3o do povo de Deus, as igrejas podem exercer um papel de escolas de democracia, onde s\u00e3o testadas formas de relacionar a motiva\u00e7\u00e3o, a an\u00e1lise e a a\u00e7\u00e3o a uma discuss\u00e3o e a\u00e7\u00e3o participativa, tanto para dentro quanto para fora dos muros das igrejas. Isto pode ser o caso mesmo onde estruturas hier\u00e1rquicas e patriarcais, a princ\u00edpio, n\u00e3o d\u00e3o muito espa\u00e7o para a participa\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a cidad\u00e3. Mesmo em tais ambientes, capacita\u00e7\u00f5es importantes como a de mulheres como lideran\u00e7as comunit\u00e1rias podem ocorrer e incidir sobre a vida comunit\u00e1ria da igreja e da comunidade local. Al\u00e9m disto, motiva\u00e7\u00f5es cidad\u00e3s podem ocorrer mesmo em igrejas com autoridade centralizadora. Mais amplamente falando, a cultura c\u00edvica, ou seja, o significado atribu\u00eddo \u00e0 cidadania e \u00e0s atitudes de (des)cren\u00e7a dos cidad\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua cidadania, tem influ\u00eancia direta no grau em que a cidadania pode ser efetiva e participativa, principalmente porque o poder e o trabalho na m\u00e1quina p\u00fablica tamb\u00e9m s\u00e3o realizados por pessoas cidad\u00e3s e suas defici\u00eancias refletem o seu potencial e as suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, a cidadania n\u00e3o pode ser reduzida a direitos e deveres em um Estado nacional. Por um lado, a lei escrita precisa basear-se em algo que \u00e9 anterior a ela, ao qual as pessoas, pelo menos, concordam e se sentem comprometidas. A moral e a normatividade entram aqui, assim como os direitos humanos, que, por defini\u00e7\u00e3o, ultrapassam as fronteiras nacionais. Em segundo lugar, a lei \u00e9 in\u00fatil, a menos que esteja efetivamente dispon\u00edvel para as pessoas, que implica tanto como \u00e9 tratada pelas autoridades institu\u00eddas quanto como \u00e9 percebida pelos cidad\u00e3os. Em terceiro lugar, a cidadania \u00e9 moldada pelo discurso e a pr\u00e1tica na esfera p\u00fablica, em que a sociedade civil (inclusive as igrejas que, hoje, pertencem a esta esfera) tem uma tarefa espec\u00edfica como a parte organizada baseada, como eu defino, na iniciativa privada envolvida na promo\u00e7\u00e3o da cidadania na esfera p\u00fablica para promover o bem comum para toda a sociedade. \u00c9 na esfera p\u00fablica nacional que as pessoas podem efetivamente lutar pela melhoria de suas vidas e por maior participa\u00e7\u00e3o. Ainda assim, \u00e9 preciso destacar que a sociedade civil est\u00e1 interagindo em redes no todo o mundo, a exemplo do F\u00f3rum Social Mundial que come\u00e7ou em Porto Alegre\/RS. Existem realidades e concep\u00e7\u00f5es de uma cidadania global. Uma economia globalizada, bem como meios de comunica\u00e7\u00e3o cada vez mais r\u00e1pidos, parecem n\u00e3o fazer sentido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fronteiras nacionais. Mas a fragmenta\u00e7\u00e3o, as quest\u00f5es \u00e9tnicas, a migra\u00e7\u00e3o com rea\u00e7\u00f5es frequentes de xenofobia, e o fechamento das fronteiras tamb\u00e9m criaram novas fronteiras e refor\u00e7aram antigas. Em todo caso, \u00e9 a configura\u00e7\u00e3o nacional que coloca em pr\u00e1tica direitos concretos e direitos de livre manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volto ao papel de igrejas na luta pela cidadania. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as igrejas contribu\u00edram e continuam contribuindo de forma importante para a democracia e a cidadania (cf. SINNER, 2012a; 2018; 2019). No Brasil, notadamente a Igreja Cat\u00f3lica Romana tornou-se amplamente reconhecida por fornecer uma esp\u00e9cie de incubadora para a sociedade civil emergente no final dos anos 1960 e 1970. A contribui\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a das igrejas protestantes hist\u00f3ricas, entre elas a Igreja Evang\u00e9lica da Confiss\u00e3o Luterana no Brasil, \u00e9 menos vis\u00edvel. Muitas vezes essa foi criticada por seu quietismo ou at\u00e9 mesmo por dar apoio indireto ao regime militar. Contudo, vem desenvolvendo importantes trabalhos educacionais e diaconais, al\u00e9m de ter se pronunciado, desde 1970, acerca de tem\u00e1ticas candentes na sociedade (SINNER, 2019, p.111-133). J\u00e1 igrejas pentecostais como as Assembleias de Deus, o segmento de igrejas de mais r\u00e1pido crescimento no Brasil, bem como na Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e partes da \u00c1sia, s\u00e3o, muitas vezes, eficazes no estabelecimento de um sentido mais importante da dignidade humana entre os seus crentes (MARIZ, 1994; CORTEN, 1996; MAJEWSKI, 2008). Elas promovem a autoestima, proporcionando oportunidades para qualifica\u00e7\u00e3o pessoal e profissional, e o resgate de muitos prisioneiros e pessoas viciadas em drogas. Ao mesmo tempo, muitas igrejas do segmento pentecostal e neopentecostal \u201cnomeiam\u201d e apoiam candidatos espec\u00edficos para cargos pol\u00edticos, buscando influ\u00eancia p\u00fablica e at\u00e9 hegemonia. No geral, a imagem desse setor \u00e9 bastante amb\u00edgua, o que ficou especialmente vis\u00edvel nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras de 2018 e no governo que as seguiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro aspectos parecem ser particularmente importantes em rela\u00e7\u00e3o a uma potencial contribui\u00e7\u00e3o de igrejas crist\u00e3s para a cidadania: (1) a pr\u00e1tica das igrejas; (2) seu papel pedag\u00f3gico; (3) sua a\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico e (4) sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Explico essas quatro dimens\u00f5es brevemente e, como indicado acima, alerto pela enorme diversidade de igrejas, posi\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) <em>A pr\u00e1tica das igrejas:<\/em> a forma como se d\u00e1 a pr\u00e1tica de f\u00e9 nas igrejas, seja na adora\u00e7\u00e3o, na catequese, nos retiros, nos grupos de leitura da B\u00edblia, nos programas sociais e similares, refletir\u00e1 sobre como ir\u00e3o se comportar os cidad\u00e3os conscientes de seus direitos e deveres. Tal pr\u00e1tica abrange as atividades desenvolvidas pelas igrejas e pode incluir membros da igreja ou at\u00e9 mesmo a popula\u00e7\u00e3o al\u00e9m de sua membresia. As atividades, em muitos lugares, contam com membros batizados e n\u00e3o batizados, contribuintes e n\u00e3o contribuintes, at\u00e9 porque muitas igrejas n\u00e3o possuem um sistema de registro confi\u00e1vel. De uma ou outra forma, as igrejas contribuem para o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o em geral baseadas em sua f\u00e9, independentemente da afilia\u00e7\u00e3o religiosa ou aus\u00eancia dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) <em>O papel pedag\u00f3gico das igrejas:<\/em> em muitos lugares, as igrejas alcan\u00e7am mais pessoas do que qualquer outra organiza\u00e7\u00e3o, tendo uma capilaridade incompar\u00e1vel. Muitas de suas atividades incluem algum tipo de educa\u00e7\u00e3o, seja diretamente \u2013 atrav\u00e9s de serm\u00f5es, palestras, catequese, retiros \u2013 ou indiretamente, atrav\u00e9s do desenvolvimento das habilidades pr\u00e1ticas, organizacionais e de lideran\u00e7as. De forma expl\u00edcita ou impl\u00edcita, as quest\u00f5es da cidadania podem ser parte de tais processos educacionais. Outro ponto s\u00e3o as escolas vinculadas \u00e0s igrejas, j\u00e1 que muitas delas s\u00e3o consideradas as melhores escolas dentre as privadas \u2013 embora muitas vezes exclusivas \u2013 em v\u00e1rios pa\u00edses, e tamb\u00e9m existem universidades confessionais com excelentes padr\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) <em>A a\u00e7\u00e3o das igrejas na esfera p\u00fablica:<\/em> as igrejas, atrav\u00e9s de seus membros e\/ou suas lideran\u00e7as, congrega\u00e7\u00f5es, m\u00eddias ou organiza\u00e7\u00f5es e minist\u00e9rios espec\u00edficos, colaboram com a sociedade civil e com o governo em todos os n\u00edveis e fazem suas contribui\u00e7\u00f5es cr\u00edticas e construtivas atrav\u00e9s da busca de solu\u00e7\u00f5es. Dada a crescente competi\u00e7\u00e3o entre igrejas em muitos lugares, contudo, n\u00e3o s\u00e3o apenas parte da solu\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m do problema, em termos de tend\u00eancias corporativas e concorrentes que refletem na sua forma de ser e o desenvolvimento de suas a\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do grande desgaste da imagem p\u00fablica das igrejas, que torna dif\u00edcil ou quase imposs\u00edvel a colabora\u00e7\u00e3o entre diferentes igrejas, muito mais ainda entre diferentes religi\u00f5es, embora existam exemplos do contr\u00e1rio. A crescente busca por forma\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o por parte das igrejas mais recentes oferece uma chance \u00edmpar de superar a competi\u00e7\u00e3o e descobrir poss\u00edveis sinergias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4) <em>Reflex\u00e3o teol\u00f3gica: <\/em>embora nem sempre sejam expl\u00edcitas, as reflex\u00f5es teol\u00f3gicas sustentam a a\u00e7\u00e3o das igrejas, tanto <em>ad intra<\/em> como <em>extra<\/em>, \u00e0s vezes chamadas de teologia confessional e teologia p\u00fablica, respectivamente (cf. SOARES; PASSOS, 2011). Os documentos oficiais das igrejas geralmente carregam com eles um fundamento teol\u00f3gico de seu argumento, mesmo que seja afirmado, em vez de desenvolvido, ou impl\u00edcito e n\u00e3o expl\u00edcito. Ao mesmo tempo, eles se relacionam com quest\u00f5es do debate mais amplo sobre democracia, cidadania, pol\u00edtica, espa\u00e7o p\u00fablico, pobreza e outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as igrejas desenvolvem, de fato, um papel p\u00fablico. Isso se d\u00e1 por sua presen\u00e7a num\u00e9rica, sua influ\u00eancia na vida das pessoas, bem como, no sistema pol\u00edtico, nas in\u00fameras institui\u00e7\u00f5es e projetos educacionais e sociais, gozando ainda de not\u00e1vel confian\u00e7a entre a popula\u00e7\u00e3o. Veremos o que impulsiona igrejas a exercerem tal papel tamb\u00e9m por princ\u00edpio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Uma teologia da cidadania como teologia p\u00fablica <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.1 Bases de uma teologia da cidadania<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dito anteriormente, a cidadania celestial das pessoas crist\u00e3s em sua rela\u00e7\u00e3o com a cidadania mundana \u00e9 uma quest\u00e3o que vem acompanhando o cristianismo desde o seu surgimento. Minha inten\u00e7\u00e3o aqui, no contexto brasileiro e latino-americano, \u00e9 explorar o patrim\u00f4nio da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e suas recentes inova\u00e7\u00f5es. Um dos ensaios mais desafiadores da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1990 foi um artigo do te\u00f3logo cat\u00f3lico romano e professor de educa\u00e7\u00e3o Hugo Assmann (1933-2007). Assmann reivindicou precisamente a continua\u00e7\u00e3o da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o como uma \u201cteologia da cidadania e da solidariedade\u201d. Sua cr\u00edtica \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica incluiu a falta de percep\u00e7\u00e3o de quem s\u00e3o os pobres e de que ela tenha mantido uma vis\u00e3o idealizada destes como sujeitos de sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o enquanto n\u00e3o percebeu seus genu\u00ednos desejos. Assim, ele conta entre os desafios pendentes \u201cuma teologia do direito a sonhar, ao prazer, \u00e0 <em>fraternura<\/em>, ao <em>criativiver<\/em>, \u00e0 felicidade\u201d (ASSMANN, 1994, p.30 et seq.), resumida na no\u00e7\u00e3o de corporeidade. Ao mesmo tempo, como os pobres tornaram-se perfeitamente dispens\u00e1veis \u200b\u200bpara o capitalismo de mercado neoliberal dominante, eles s\u00e3o vistos apenas por aqueles \u201cconvertidos \u00e0 solidariedade\u201d (ASSMANN, 1994, p.31). Assim, o autor trabalhou consistentemente na educa\u00e7\u00e3o para a solidariedade, insistindo que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cconjugar valores solid\u00e1rios com direitos efetivos de cidadania\u201d (ASSMANN, 1994, p.33). Pressupondo a presen\u00e7a duradoura de uma economia de mercado, h\u00e1 necessidade de compensar a l\u00f3gica dos efeitos da exclus\u00e3o, combinando medidas de mercado e sociais por institui\u00e7\u00f5es instaladas democraticamente. Assmann critica a \u00eanfase exagerada dada pelos crist\u00e3os aos relacionamentos comunit\u00e1rios, como se fossem suficientes para tornar a solidariedade efetiva em sociedades grandes, complexas e urbanizadas. H\u00e1 necessidade de um (novo) pacto social que n\u00e3o fique apenas na ret\u00f3rica. Denuncia Assmann que \u201c(&#8230;) h\u00e1 um perigoso descuido do uso da lei como arma dos mais fracos (&#8230;), sobretudo um falacioso vi\u00e9s anti-institucional\u201d (1994, p.33). Enquanto Assmann situa seu argumento mais na esfera econ\u00f4mica, pode-se acrescentar que a situa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica p\u00f3s-regime militar permitiu novas formas de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o que tornou necess\u00e1rio e oportuno um novo tipo de teologia, precisamente uma teologia centrada na cidadania. Isto \u00e9 v\u00e1lido mesmo com os retrocessos recentes, com uma pol\u00edtica de direita que n\u00e3o valoriza os direitos humanos. Enquanto o sistema democr\u00e1tico se mostrar est\u00e1vel, pode \u2013 e deve \u2013 se utilizar os espa\u00e7os existentes para articula\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sem d\u00favida isto significa, mais do que nunca, uma situa\u00e7\u00e3o conflitiva e de resist\u00eancia, mas n\u00e3o de abstin\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O te\u00f3logo metodista Clovis Pinto de Castro (2000) dedicou um estudo importante ao tema da cidadania, no qual reivindicou uma pastoral da cidadania (\u201ca\u00e7\u00e3o pastoral para a cidadania\u201d) como \u201cdimens\u00e3o p\u00fablica da igreja\u201d. Seu conceito central \u00e9 o de uma \u201ccidadania ativa e emancipada\u201d, que ele desenvolve com base no conceito de <em>vita activa<\/em> de Hannah Arendt, nas reflex\u00f5es da fil\u00f3sofa pol\u00edtica brasileira Marilena Chau\u00ed sobre o mito fundacional do Brasil \u2013 que promoveu o paternalismo e o messianismo, ao contr\u00e1rio de uma no\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e participativa de cidadania ) e na cr\u00edtica de Pedro Demo, de uma cidadania paternalista (cidadania tutelada, como em um estado liberal) ou de assist\u00eancia social (cidadania assistida, como em um estado de bem-estar), a favor de uma cidadania emancipada, na qual a participa\u00e7\u00e3o efetiva das pessoas \u00e9 fundamental para a democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Teologicamente, Castro baseia a pastoral da cidadania em Deus como aquele que ama a justi\u00e7a e\u00a0o direito, no mandamento de amar o pr\u00f3ximo,\u00a0na pr\u00e1tica de\u00a0boas obras e\u00a0na\u00a0justi\u00e7a de acordo com o testemunho do Novo\u00a0Testamento;\u00a0tamb\u00e9m no\u00a0conceito de\u00a0<em>shalom<\/em>\u00a0(\u201cpaz\u201d) como bem-estar abrangente e, finalmente, na perspectiva do Reino de Deus. A partir da\u00ed, ele deduz o mandato da igreja de viver n\u00e3o s\u00f3 no privado, mas na sua dimens\u00e3o p\u00fablica (pastoral), orientada para os seres humanos em sua vida di\u00e1ria e real, e n\u00e3o apenas para os seus membros. A f\u00e9 consciente da cidadania (f\u00e9 cidad\u00e3) \u00e9 orientada pelas tr\u00eas dimens\u00f5es da f\u00e9 \u2013 como confiss\u00e3o (conhecer Deus), como confian\u00e7a (amar Deus) e como a\u00e7\u00e3o (servir a Deus). O \u00faltimo inclui a forma\u00e7\u00e3o de assuntos de cidadania (sujeito cidad\u00e3o) e participa\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os na administra\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica das cidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidadania, portanto, passou pelo menos de forma inicial pela teologia. Vejo isso como uma poss\u00edvel e pertinente recontextualiza\u00e7\u00e3o de ideias centrais da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, especialmente a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres e a import\u00e2ncia teol\u00f3gica da pr\u00e1xis. Uma insist\u00eancia semelhante pode ser identificada em outros contextos (cf. BUTTELLI; LE BRUYNS; SINNER, 2014; SINNER, 2017). Koopman, do ponto de vista de um di\u00e1logo Sul-Sul entre a \u00c1frica do Sul e o Brasil, insiste que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sociedades est\u00e3o famintas por pessoas de virtude p\u00fablica e c\u00edvica: sabedoria p\u00fablica em contextos de complexidade, ambival\u00eancia, ambiguidade, paradoxalidade, trag\u00e9dia e aporia (becos sem sa\u00edda); justi\u00e7a p\u00fablica em contexto de desigualdades e injusti\u00e7as nos n\u00edveis local e mundial; temperan\u00e7a p\u00fablica em contexto de gan\u00e2ncia e consumismo em meio \u00e0 pobreza e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o; valentia p\u00fablica em situa\u00e7\u00f5es de impot\u00eancia e in\u00e9rcia; f\u00e9 p\u00fablica em meio a sentimentos de desorienta\u00e7\u00e3o e de desarraigo nas sociedades contempor\u00e2neas; esperan\u00e7a p\u00fablica em meio a situa\u00e7\u00f5es de desespero e melancolia; amor p\u00fablico em sociedades onde a solidariedade p\u00fablica e a compaix\u00e3o est\u00e3o ausentes. (KOOPMAN, 2015, p. 434; tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora \u00e9 minha tarefa cavar ainda mais nos fundamentos teol\u00f3gicos de uma teologia p\u00fablica da cidadania. Como mencionado, Nico Koopman relaciona a cidadania teologicamente \u00e0s marcas tradicionais da igreja, em dire\u00e7\u00e3o a uma cidadania cat\u00f3lica e inclusiva, unida e pedindo justi\u00e7a, santa, virtuosa, apost\u00f3lica e respons\u00e1vel. No entanto, ele tamb\u00e9m expandiu a Trindade no \u00e2mbito de uma teologia p\u00fablica, abordando a teologia planet\u00e1ria de Sallie McFague (2001) e insistindo na \u201cdimens\u00e3o p\u00fablica da f\u00e9 trinit\u00e1ria\u201d (KOOPMAN, 2015, p.243) que relacione Deus e o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2 Teologia trinit\u00e1ria para a cidadania<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua confer\u00eancia inaugural realizada na Universidade Stellenbosch em 2009, Koopman (2009) defendeu uma \u201cantropologia teol\u00f3gica da relacionalidade, vulnerabilidade e interdepend\u00eancia que se baseia principalmente no chamado pensamento trinit\u00e1rio econ\u00f4mico\u201d. Enfatizar a Trindade econ\u00f4mica permitiu que Koopman discuta a antropologia \u201cem rela\u00e7\u00e3o a desafios p\u00fablicos concretos, como pessoas com defici\u00eancia, rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, discursos <em>ubuntu<\/em>, identidade social, dignidade humana e viol\u00eancia\u201d (KOOPMAN, 2009, p.6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suas teologias trinit\u00e1rias, J\u00fcrgen Moltmann e Leonardo Boff assumiram uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao que eles chamam de \u201cmonote\u00edsmo\u201d \u2013 em vez disso, deveria ser o monarquismo \u2013 na compreens\u00e3o de Deus que, segundo eles, deu lugar a poss\u00edveis analogias do tipo \u201cum Deus &#8211; um Imp\u00e9rio &#8211; um Imperador\u201d, uma linha de pensamento que Erik Peterson denunciou notoriamente em uma tese hist\u00f3rica como cr\u00edtica contempor\u00e2nea contra o nazismo crescente na Alemanha. Positivamente, eles sugeriram uma analogia social da Trindade atrav\u00e9s da pericorese (interconex\u00e3o) que poderia sustentar uma comunh\u00e3o igualit\u00e1ria tanto dentro da igreja como na sociedade. Boff, al\u00e9m disso, apresenta a vis\u00e3o de uma comunidade planet\u00e1ria da natureza e da humanidade, dos humanos entre si, da humanidade e de Deus; para ele, a cidadania \u00e9 cidadania (nacional), cocidadania e cidadania da Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9 como essa \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d trinit\u00e1ria pode ser aplicada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de estruturas na sociedade e na igreja. O pr\u00f3prio Boff n\u00e3o vai al\u00e9m de reivindicar, em termos gerais, a necessidade de uma \u201cdemocracia fundamental\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A democracia fundamental visa a maior igualdade poss\u00edvel entre as pessoas mediante processos cada vez mais abrangentes de participa\u00e7\u00e3o em tudo o que concernir \u00e0 exist\u00eancia humana pessoal e social. Al\u00e9m da igualdade e participa\u00e7\u00e3o intenciona a comunh\u00e3o com os valores transcendentes, aqueles que definem o sentido supremo da vida e da hist\u00f3ria (BOFF, 1987, p.190).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentando combinar a fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e construtiva de uma doutrina trinit\u00e1ria pericor\u00e9tica e os desafios da sociedade brasileira, gostaria de enfatizar quatro aspectos que considero serem aspectos fundamentais para a contribui\u00e7\u00e3o das igrejas motivadas pela f\u00e9 para a democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um primeiro aspecto central \u00e9 a <em>alteridade<\/em>. A pluralidade implica a diversidade e a comunidade, em uma democracia, \u00e9 impens\u00e1vel sem reconhecer a singularidade de cada membro da sociedade. Portanto, o respeito \u00e0 alteridade, o reconhecimento da diferen\u00e7a e o direito de ser diferente \u00e9 essencial. Na teologia latino-americana, isso se originou entre aqueles que estavam em contato direto com os povos ind\u00edgenas, mas recebeu uma aten\u00e7\u00e3o mais ampla nos \u00faltimos tempos. Uma hermen\u00eautica sens\u00edvel do outro \u00e9 necess\u00e1ria para preservar a singularidade de cada pessoa e seu direito \u00e0 diferen\u00e7a, incluindo a diferen\u00e7a religiosa. A alteridade preserva o mist\u00e9rio e busca a compreens\u00e3o, como acontece na teologia tentando desvendar e, ao mesmo tempo, respeitar o mist\u00e9rio de Deus como <em>tri-uno<\/em>, unidade na diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um segundo aspecto \u00e9 a <em>participa\u00e7\u00e3o.<\/em> Este conceito \u00e9 fundamental para o discurso sobre a cidadania. O aspecto da participa\u00e7\u00e3o efetiva do cidad\u00e3o vem \u00e0 tona, assim como a cultura pol\u00edtica pela qual essa participa\u00e7\u00e3o \u00e9 encorajada ou prejudicada. As igrejas, como parte da sociedade civil, t\u00eam um papel importante a desempenhar nesse encorajamento da participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, e de fato, de maneiras diferentes, como apontei acima. Em muitos lugares, as igrejas podem contar com participa\u00e7\u00e3o muito maior de pessoas do que outros tipos de organiza\u00e7\u00f5es de volunt\u00e1rios. Em termos de teologia trinit\u00e1ria, o aspecto da participa\u00e7\u00e3o constitui uma analogia apropriada da ideia de interconex\u00e3o, pericorese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um terceiro aspecto \u00e9 a necessidade de <em>confian\u00e7a<\/em>. Numa sociedade democr\u00e1tica, torna-se necess\u00e1rio confiar nas pessoas de forma bastante abstrata, porque nunca conhe\u00e7o a maioria dos meus concidad\u00e3os. Para que a democracia funcione, tenho que pressupor que outros tenham um interesse semelhante no funcionamento da democracia. Se esse interesse comum n\u00e3o pode ser dado por certo, e se um bom n\u00famero de cidad\u00e3os, especialmente aqueles que det\u00eam mais poder do que eu, falhar na confian\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio um motivo mais profundo para ainda estar pronto para investir na confian\u00e7a. Essa raz\u00e3o pode ser dada pela f\u00e9, que essencialmente significa confian\u00e7a \u2013 n\u00e3o em si mesmo, mas em Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especialmente pessoas crist\u00e3s luteranas est\u00e3o acostumadas a pensar no ser humano como simultaneamente justo e pecador. Elas sabem que os seres humanos n\u00e3o podem confiar em si mesmos e uns aos outros por seu pr\u00f3prio bem e m\u00e9rito, mas pelo amor e m\u00e9rito de Deus, porque ele prova ser confi\u00e1vel, mesmo na ambiguidade da vida. Deus visto como <em>tri-uno<\/em> preserva a continuidade em meio a situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas diferentes, altamente amb\u00edguas, onde ele se manifesta, mais centralmente na cruz em G\u00f3lgota, mas tamb\u00e9m na cria\u00e7\u00e3o e na presen\u00e7a do Esp\u00edrito, e capacita as pessoas para viverem suas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, um quarto elemento necess\u00e1rio \u00e9 a <em>coer\u00eancia<\/em>: ter um projeto para toda a sociedade e n\u00e3o apenas para si pr\u00f3prio ou para o grupo de pares, ou mesmo para a igreja. Isso depende de uma percep\u00e7\u00e3o espec\u00edfica da sociedade e da f\u00e9, sendo necess\u00e1ria uma hermen\u00eautica de coer\u00eancia. O mercado religioso altamente competitivo emergente em muitos lugares do mundo, especialmente na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina, com uma diversidade cada vez maior de igrejas e movimentos religiosos, est\u00e1 dando um testemunho muito triste dessa (in)coer\u00eancia. Teologicamente falando, insistir em Deus como Trindade pode ajudar a prevenir mal-entendidos restritivos, como se Deus fosse somente o Esp\u00edrito Santo e n\u00e3o apenas o Filho, feito humano em Jesus Cristo e Pai, como criador. Este equil\u00edbrio de unidade e diversidade em Deus \u00e9 propenso a promover a <em>koinonia<\/em>, a palavra ecum\u00eanica para a comunidade entre os diferentes membros do Corpo de Cristo. Em termos da sociedade como um todo, essa integra\u00e7\u00e3o da unidade e da diversidade poderia, se bem-sucedida, ser uma importante contribui\u00e7\u00e3o das igrejas para uma sociedade pluralista. Isso pressup\u00f5e que os crist\u00e3os e as igrejas n\u00e3o busquem principalmente obter vantagens para as respectivas igrejas, mas ver sua miss\u00e3o como testemunho de servi\u00e7o (<em>diakonia<\/em>) para toda a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Uma teologia p\u00fablica da cidadania: contextual e cat\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate sobre teologia p\u00fablica, como desenvolvido no Brasil e, internacionalmente, na Rede Global de Teologia P\u00fablica e seu peri\u00f3dico <em>International Journal of Public Theology<\/em>, mostra a diversidade de entendimentos e implica\u00e7\u00f5es do conceito (cf. SINNER, 2012b). J\u00e1 as primeiras quest\u00f5es da revista trataram explicitamente do projeto geral e as implica\u00e7\u00f5es do conceito. V\u00e1rios autores afirmaram que a teologia p\u00fablica n\u00e3o era uniforme nem monol\u00edtica, n\u00e3o tinha um \u00fanico significado e que n\u00e3o havia uma teologia p\u00fablica universal. No entanto, existe uma articula\u00e7\u00e3o global em torno do termo. Eu chamaria isso de \u201cconceito agregador\u201d, isto \u00e9, uma maneira de expressar uma dimens\u00e3o intr\u00ednseca \u00e0 igreja, ao mesmo tempo em que incorpora uma diversidade de aspectos e focos. \u00c9 mais uma dimens\u00e3o do que uma linha de pensamento espec\u00edfica, al\u00e9m de denotar um campo \u2013 a esfera p\u00fablica. Embora isso ofere\u00e7a uma ampla abertura para a contextualiza\u00e7\u00e3o, mostra certa imprecis\u00e3o e flexibilidade do conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto brasileiro, uma \u2013 note-se o consciente uso do artigo indefinido \u2013 teologia p\u00fablica pode ser adequadamente qualificada como teologia da cidadania (cf. ZEFERINO, 2018), o que mostra concretamente como as igrejas \u2013 e a teologia que sobre sua pr\u00e1tica reflete \u2013 contribuem para uma dimens\u00e3o profundamente necess\u00e1ria e ainda desej\u00e1vel da vida humana. N\u00e3o se trata de um simples oportunismo, mas posturas e a\u00e7\u00f5es arraigadas em suas convic\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas. Uma teologia p\u00fablica insiste em formas de comunica\u00e7\u00e3o al\u00e9m das igrejas, na esfera p\u00fablica. Como bem disse David Tracy, a pessoa te\u00f3loga atende \u00e0 igreja, \u00e0 academia e \u00e0 sociedade, cada uma com seus discursos e linguajar espec\u00edficos. \u00c9, portanto, uma teologia desenvolvida de dentro para fora, comunicando a miss\u00e3o da igreja na f\u00e9, na vida e na a\u00e7\u00e3o (catolicidade). Ao mesmo tempo, \u00e9 desenvolvida a partir e dentro de um contexto espec\u00edfico, com seus p\u00fablicos e sua esfera p\u00fablica espec\u00edficos (contextualidade). Isso torna necess\u00e1ria uma an\u00e1lise apurada e um di\u00e1logo interdisciplinar. Metodologicamente, portanto, tanto a contextualidade quanto a catolicidade da teologia p\u00fablica devem sempre ser levadas em considera\u00e7\u00e3o e explicitadas quanto ao seu significado espec\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0<em>Rudolf von Sinner,\u00a0<\/em>PUC Paran\u00e1, Brasil (colabora\u00e7\u00e3o do doutorando Ezequiel Hanke, Faculdades EST, texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARENDT, Hannah. <em>Origens do totalitarismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0ASSMANN, Hugo. Teologia da Solidariedade e da Cidadania. In: ______. <em>Cr\u00edtica \u00e0 L\u00f3gica da Exclus\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1994. p.13-36.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0BENEVIDES, Maria Vit\u00f3ria de Mesquita. <em>A cidadania ativa<\/em>: referendo, plebiscito e iniciativa popular. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0BOFF, Leonardo. <em>A Trindade e a sociedade.<\/em> 3.ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0BUTTELLI, Felipe Gustavo Koch; LE BRUYNS, Clint; SINNER, Rudolf von. <em>Teologia p\u00fablica no Brasil e na \u00c1frica do Sul: <\/em>Cidadania, Interculturalidade, HIV\/AIDS (Teologia p\u00fablica v.4). S\u00e3o Leopoldo: Sinodal; EST, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0CARVALHO, Jos\u00e9 Murilo de. <em>Cidadania no Brasil<\/em>. O longo caminho. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0CASTRO, Cl\u00f3vis Pinto de. <em>Por uma f\u00e9 cidad\u00e3.<\/em> A dimens\u00e3o p\u00fablica da igreja. Fundamentos para uma pastoral da cidadania. S\u00e3o Bernardo do Campo: Ci\u00eancias da Religi\u00e3o; S\u00e3o Paulo: Loyola, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0CORR\u00caA, Darc\u00edsio. <em>A constru\u00e7\u00e3o da cidadania<\/em>: reflex\u00f5es hist\u00f3rico-pol\u00edticas. Iju\u00ed: Uniju\u00ed, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0CORTEN, Andr\u00e9. Os pobres e o Esp\u00edrito Santo: o pentecostalismo no Brasil. Trad. Mariana Nunel Ribeiro Echalar. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0DEMO, Pedro. <em>Cidadania menor.<\/em> Algumas indica\u00e7\u00f5es quantitativas de nossa pobreza pol\u00edtica. Petr\u00f3polis: Vozes, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0JANOSKI, Thomas. <em>Citizenship and Civil Society.<\/em> New York: Cambridge University Press, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0KOOPMAN, Nico. <em>For God so Loved the World:<\/em> Some Contours of Public Theology in South Africa. Inaugural Lecture delivered on 10 March, 2009. Stellenbosch: Sunprint, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0_____. Citizenship in South Africa Today: some insights from Christian ecclesiology. <em>Missionalia,<\/em> p.425-37, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0MARIZ, Cec\u00edlia Mareto. <em>Coping with Poverty.<\/em> Pentecostals and Christian Base Communities in Brazil<em>. <\/em>Philadelphia: Temple University Press, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0MAJEWSKI, Rodrigo Gon\u00e7alves. <em>Pentecostalismo e reconcilia\u00e7\u00e3o:<\/em> uma an\u00e1lise do discurso teol\u00f3gico popular das Assembleias de Deus do Brasil a partir de suas revistas de escola dominical. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Teologia). Escola Superior de Teologia, S\u00e3o Leopoldo, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0McFAGUE, Sallie. <em>Life Abundant:<\/em> Rethinking Theology and Economy for a Planet in Peril. Minneapolis: Fortress Press, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0SOARES, Afonso Maria Lig\u00f3rio; PASSOS, Jo\u00e3o D\u00e9cio (Orgs.). <em>Teologia p\u00fablica. <\/em>Reflex\u00f5es sobre uma \u00e1rea de conhecimento e sua cidadania acad\u00eamica. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0SINNER, Rudolf von. <em>The Churches and Democracy in Brazil<\/em>: Towards a Public Theology Focused on Citizenship. Eugene, Or.: Wipf &amp; Stock, 2012a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0_____. Teologia p\u00fablica no Brasil: um primeiro balan\u00e7o. In: JACOBSEN, Eneida; SINNER, Rudolf von; ZWETSCH, Roberto E. (Orgs.). <em>Teologia p\u00fablica:<\/em> desafios \u00e9ticos e teol\u00f3gicos. S\u00e3o Leopoldo: Sinodal; EST, 2012b. p.13-38. Teologia P\u00fablica v.3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0____. Public Theology as a Theology of Citizenship. In: KIM, Sebastian; DAY, Katie (Orgs.). <em>A Companion to Public Theology. <\/em>Leiden; Boston: Brill, 2017. p.231-250.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0_____. <em>Teologia p\u00fablica num estado laico:<\/em> ensaios e an\u00e1lises. S\u00e3o Leopoldo: Sinodal; EST, 2018. Teologia p\u00fablica v.7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0_____. <em>Paz no meio da viol\u00eancia:<\/em> subs\u00eddios para a compreens\u00e3o e o exerc\u00edcio da cidadania crist\u00e3. S\u00e3o Leopoldo: Sinodal, 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0ZEFERINO, Jefferson. <em>Karl Barth e a teologia p\u00fablica:<\/em> contribui\u00e7\u00f5es ao discurso teol\u00f3gico p\u00fablico na rela\u00e7\u00e3o entre cl\u00e1ssicos teol\u00f3gicos e <em>res publica<\/em> no horizonte da teologia da cidadania. Tese (doutorado em Teologia). Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Teologia, Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1. Curitiba, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Cidadania entre o c\u00e9u e a terra 2 O conceito de cidadania 3 Uma teologia da cidadania como teologia p\u00fablica 3.1 Bases de uma teologia da cidadania 3.2 Teologia trinit\u00e1ria para a cidadania 4 Uma teologia p\u00fablica: contextual e cat\u00f3lica Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 Cidadania entre o c\u00e9u e a terra A cidadania \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1814","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-e-pratica-crista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1814"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1814\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1815,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1814\/revisions\/1815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}