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{"id":181,"date":"2014-12-19T07:35:09","date_gmt":"2014-12-19T09:35:09","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=181"},"modified":"2016-04-10T09:44:50","modified_gmt":"2016-04-10T12:44:50","slug":"experiencia-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=181","title":{"rendered":"Experi\u00eancia de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Considera\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O sentido da vida, experi\u00eancia humana fundamental<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 F\u00e9 e experi\u00eancia do Mist\u00e9rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Experi\u00eancia de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Experi\u00eancia crist\u00e3 de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0 \u00a01 Considera\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra experi\u00eancia remete \u00e0 a\u00e7\u00e3o de ir ao exterior (ex), \u00e0s coisas, para buscar provar (per). Experimentar tem sentido de contato com o real. Experi\u00eancias baseiam-se em percep\u00e7\u00f5es sensoriais. Percebemos o real com os sentidos para \u201cadquiri-lo\u201d pela raz\u00e3o no exerc\u00edcio de sua atividade reflexiva e interpretativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a influ\u00eancia da moderna subjetiva\u00e7\u00e3o e metodologiza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, consideramos, geralmente, a experi\u00eancia como uma atividade, um fazer do sujeito que, sendo fundamentalmente raz\u00e3o (cogito), se dirige ao real que \u00e9, nessa perspectiva, objeto para se conhecer e dominar. Essa esquematiza\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica representa uma redu\u00e7\u00e3o do sentido de experi\u00eancia que passa a depender do m\u00e9todo cient\u00edfico para poder ser comprovada. O conceito de experi\u00eancia ser\u00e1 parte da pr\u00e1tica do conhecimento e reduzido ao dom\u00ednio da natureza em benef\u00edcio da vida humana. Experimentar ser\u00e1, portanto, a atividade de propor experimentos que passam a ser repetidos com o objetivo de levar o sujeito ao conhecimento do \u201cfuncionamento\u201d das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Experi\u00eancia, no entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas fazer. Existe uma dimens\u00e3o passiva da experi\u00eancia que deve ser considerada. A experi\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m um \u201csofrer\u201d, um ser afetado pelas ocorr\u00eancias que nos atingem no contato com o real. \u201cPercebemos com nossos sentidos as ocorr\u00eancias que nos atingem, elas tocam-nos o corpo, penetram nas camadas inconscientes de nossa alma, e de certo s\u00f3 uma pequena parte delas torna-se consciente e \u00e9 \u2018adquirida\u2019 pela raz\u00e3o no exerc\u00edcio de sua atividade reflexiva e interpretativa.\u201d (MOLTMANN, 1998, p.32). Experi\u00eancia, como podemos entender a partir dessa afirma\u00e7\u00e3o de Moltmann, n\u00e3o tem apenas o sentido ativo de meio\/m\u00e9todo que leva ao conhecimento do que \u00e9 \u00fatil, mas tem tamb\u00e9m o sentido passivo de algo que nos ocorre na medida em que nos posicionamos no mundo como seres de rela\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o sou eu que fa\u00e7o a experi\u00eancia, mas sim a experi\u00eancia que faz algo em mim. Eu percebo com meus sentidos o acontecer externo e observo em mim as altera\u00e7\u00f5es que ele realiza.\u201d (MOLTMANN, 1998, p.34). Na rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com o outro e com o Transcendente, somos afetados, mas tamb\u00e9m somos transformados em nossa maneira de pensar, sentir e agir. A experi\u00eancia aqui tem sentido existencial de fonte de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo como refer\u00eancia Jean Mouroux, o te\u00f3logo M\u00e1rio de Fran\u00e7a Miranda vai distinguir tr\u00eas tipos de experi\u00eancia: a emp\u00edrica, que \u00e9 a cotidiana e acr\u00edtica, provinda das realidades inevit\u00e1veis da vida concreta; a experimental, que tem como refer\u00eancia o m\u00e9todo cient\u00edfico; e a existencial, que \u00e9 \u201ca experi\u00eancia pessoal do ser humano no horizonte total da realidade, onde vive e se realiza como homem ou mulher.\u201d (FRAN\u00c7A MIRANDA, 1998, p.90). Neste contexto de compreens\u00e3o de experi\u00eancia podemos situar a experi\u00eancia de Deus, pois Deus n\u00e3o \u00e9 objeto de experimenta\u00e7\u00e3o met\u00f3dica. A experi\u00eancia de Deus refere-se ao sentido \u00faltimo da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O sentido da vida, experi\u00eancia humana fundamental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O humano \u00e9 ser de sentido. Distingue-se no mundo quando, em meio \u00e0s determina\u00e7\u00f5es da vida, questiona-se sobre si mesmo. N\u00e3o se adaptando \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas ou sociais que vem do exterior, coloca a si mesmo em quest\u00e3o. \u00c0 diferen\u00e7a de outros seres, o humano \u00e9 um ser que n\u00e3o se restringe a essa condi\u00e7\u00e3o de ser determinado pela natureza e pela hist\u00f3ria.\u00a0 Percebendo-se como \u201cfruto do que lhe \u00e9 estranho\u201d olha para si e pergunta:\u00a0 qual o sentido de tudo isso? Nesse momento, reflete Karl Rahner, nasce o humano, ser de transcend\u00eancia vocacionado a realizar-se no exerc\u00edcio da liberdade e responsabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao se colocar analiticamente em quest\u00e3o e abrir-se para o horizonte ilimitado de semelhante questionamento, o homem j\u00e1 transcendeu a si mesmo, bem como todas as dimens\u00f5es pens\u00e1veis dessa an\u00e1lise ou de autorreconstru\u00e7\u00e3o emp\u00edrica de si. Ao faz\u00ea-lo, afirma-se como quem \u00e9 mais que a soma desses componentes analis\u00e1veis de sua realidade. Precisamente essa consci\u00eancia de si, esse confronto com a totalidade de todos os seus condicionamentos, o fato mesmo de estar condicionado evidenciam que ele \u00e9 mais do que a soma dos seus fatores (RAHNER, 1989, p.43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa consci\u00eancia de si como totalidade aberta, no entanto, s\u00f3 se explica, esclarece Rahner, na medida em que se considera que, em sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo, o humano capta-se a si mesmo como parte de uma realidade que o transcende, como ser diante do Mist\u00e9rio, essa realidade que tudo abarca, infinitude e densidade que se encontra no mais exterior e no mais interno de todas as coisas, o Mist\u00e9rio <em>de onde<\/em> tudo vem e <em>para onde<\/em> tudo vai. O humano \u00e9, portanto, sujeito e pessoa livre e respons\u00e1vel, na medida de sua abertura para esse Mist\u00e9rio Santo, aquele que confere sentido \u00e0 sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ser aberto \u00e0 transcend\u00eancia, o humano faz a experi\u00eancia da liberdade. A liberdade n\u00e3o \u00e9 um dado particular, mas \u00e9 fruto da experi\u00eancia transcendental da subjetividade. \u201cEnquanto o homem por sua transcend\u00eancia se encontra em abertura total, \u00e9 tamb\u00e9m respons\u00e1vel por si. Est\u00e1 entregue a si n\u00e3o s\u00f3 quando conhece, mas tamb\u00e9m quando age. E neste estar entregue a si mesmo percebe-se como respons\u00e1vel e livre.\u201d (RAHNER, 1989, p.50). A liberdade transcendental \u00e9 a responsabilidade \u00faltima da pessoa por si mesma e tem como media\u00e7\u00e3o os desafios hist\u00f3ricos. Responsabilidade e liberdade s\u00e3o experi\u00eancias do sujeito que se percebe como sujeito, como ente que, por sua transcend\u00eancia, possui origin\u00e1ria e indissol\u00favel unidade e presen\u00e7a de si mesmo perante o ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 F\u00e9 e experi\u00eancia do Mist\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O humano, aberto ao infinito, atualiza a liberdade em a\u00e7\u00e3o na medida em que estabelece um compromisso vinculante com objetos, verdades e valores que derivam dessa experi\u00eancia do absoluto que confere sentido \u00e0 exist\u00eancia em seu n\u00edvel mais fundamental, assumidos, no entanto, provisoriamente em vista da exig\u00eancia que a exist\u00eancia humana tem de objetos, verdades e valores absolutos, mas que n\u00e3o se encontram dispon\u00edveis no n\u00edvel da exist\u00eancia hist\u00f3rica (cf. HAIGHT, 2004, p.36). A liberdade pressup\u00f5e a f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 \u00e9 central e nuclear, unifica, integra e articula os aspectos da personalidade. N\u00e3o \u00e9 ades\u00e3o cega a um conjunto de f\u00f3rmulas, mas \u201caquiesc\u00eancia do intelecto e da vontade\u201d ao Absoluto que permite ao humano ser sujeito e pessoa, livre e respons\u00e1vel. Ela \u00e9 tend\u00eancia interna fundada no surgir do absoluto pr\u00e9-apreendido por n\u00f3s na rela\u00e7\u00e3o com a realidade. A f\u00e9 orienta as decis\u00f5es fundamentais que implicam o agir. No contexto da consci\u00eancia hist\u00f3rica, a f\u00e9 se funde com a esperan\u00e7a. \u201c(&#8230;) na medida em que a f\u00e9 tamb\u00e9m constitui a resposta mais \u00edntima e mais central dos seres humanos \u00e0 realidade, deve-se perceber que, em um n\u00edvel mais profundo, f\u00e9 e esperan\u00e7a s\u00e3o indistintamente a mesma coisa.\u201d (HAIGHT, 2004, p.40).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 \u00e9, portanto, liberdade advinda da experi\u00eancia do Mist\u00e9rio Santo, dessa alteridade absoluta, do totalmente Outro que se revela a n\u00f3s, como professa Karl Rahner, a qual chamamos Deus:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esse Mist\u00e9rio, que confere um fundamento a cada realidade concreta e que abre um espa\u00e7o e horizonte para cada conhecimento, eu o chamo de Deus. Ele n\u00e3o precisa que andemos provando sua exist\u00eancia sem cessar. (&#8230;) Quando eu me situo em meu interior e calo, quando permito que as muitas realidades concretas de minha vida se assentem em um Fundamento [<em>Grund<\/em>], quando deixo que todas as perguntas se centralizem <em>na Pergunta<\/em>, aquela que n\u00e3o pode ser respondida com as respostas que s\u00e3o dadas \u00e0s perguntas concretas, mas deixo que o Mist\u00e9rio infinito se expresse a si mesmo, ent\u00e3o o Mist\u00e9rio est\u00e1 presente a\u00ed (RAHNER apud: VORGRIMLER, 2006, p.12).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Experi\u00eancia de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus \u00e9 o Mist\u00e9rio Santo que permite ao humano conhecer-se como ser de transcend\u00eancia. Sem Deus, afirma Karl Rahner, n\u00e3o existiria para o humano a Totalidade e a realidade se reduziria a um conjunto de preocupa\u00e7\u00f5es parciais. Sem Deus, o homem ficaria metido no mundo e em si mesmo e n\u00e3o se realizaria como ser de liberdade e responsabilidade, seria apenas um animal engenhoso (cf. RAHNER, 1989, p.65).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao nos afirmarmos como sujeitos e pessoas, livres e respons\u00e1veis, fundados nesse Absoluto que se oferece e que nos abre \u00e0 transcend\u00eancia, afirmamos ao mesmo tempo, por analogia, o ser pessoal de Deus que \u00e9 o fundamento da pessoa que somos chamados a ser. O conhecimento de Deus como pessoa se d\u00e1, entretanto, quando experimentamos, em nossa experi\u00eancia hist\u00f3rica, Deus que quer encontrar-se conosco e se tem encontrado conosco em nossas hist\u00f3rias individuais, na profundeza de nossas consci\u00eancias, e na totalidade da hist\u00f3ria humana (cf.\u00a0 RAHNER, 1989, p.95). Quando somos afetados por sua presen\u00e7a amorosa junto a n\u00f3s, conhecemos Deus por experi\u00eancia. Experi\u00eancia de Deus, vai afirmar Congar, \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o da realidade de Deus que vem a n\u00f3s e nos atrai \u00e0 comunh\u00e3o que ter\u00e1 como fruto o amor:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cExperi\u00eancia\u201d: sob esse termo entendemos a percep\u00e7\u00e3o da realidade de Deus vindo at\u00e9 n\u00f3s, ativo em n\u00f3s e por n\u00f3s, atraindo-nos a si numa comunh\u00e3o, numa amizade, isto \u00e9, num ser um para o outro. Tudo isso, \u00e9 claro, aqu\u00e9m da vis\u00e3o, sem abolir a dist\u00e2ncia na ordem do conhecimento do pr\u00f3prio Deus, mas superando-a no plano de uma presen\u00e7a de Deus em n\u00f3s como fim amado de nossa vida: presen\u00e7a que se torna sens\u00edvel atrav\u00e9s dos sinais e nos efeitos da paz, alegria, certeza, consola\u00e7\u00e3o, ilumina\u00e7\u00e3o e tudo aquilo que acompanha o amor. (&#8230;) Na ora\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica dos sacramentos da f\u00e9, na vida da Igreja, no amor de Deus e do pr\u00f3ximo, recebemos a experi\u00eancia de uma presen\u00e7a e de uma a\u00e7\u00e3o de Deus nos chamados e nos sinais que nos s\u00e3o mostrados (CONGAR, 2005, p.13-4).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia de proximidade imediata de Deus \u00e9, portanto, sempre mediada pela rela\u00e7\u00e3o com o mundo e com os outros, uma vez que Deus est\u00e1 em toda a parte, pois \u00e9 quem tudo fundamenta. Tudo o que, em nossa experi\u00eancia hist\u00f3rica, nos abre ao Mist\u00e9rio que, desde sempre, se oferece a n\u00f3s para que possamos nos realizar como seres de liberdade e responsabilidade \u00e9, para n\u00f3s, experi\u00eancia de Deus. \u201cDeus situa-se al\u00e9m de todos os nomes e imagens\u201d, considera E. Schillebeeckx, mas ele \u00e9, \u201cde forma eminente-divina e por n\u00f3s n\u00e3o descrit\u00edvel, tudo o que se pode encontrar de bom, verdadeiro, e belo no mundo dos homens e de sua hist\u00f3ria.\u201d (SCHILLEBEECKX, 1994, p.107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Experi\u00eancia crist\u00e3 de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, a experi\u00eancia de Deus se d\u00e1 plenamente pela escuta da Palavra daqueles que testemunharam o mist\u00e9rio da presen\u00e7a de Deus encarnado em Jesus de Nazar\u00e9. Quem v\u00ea Jesus, v\u00ea o Pai, proclama a comunidade dos crist\u00e3os. Ele \u00e9 luz do mundo porque revela que o Mist\u00e9rio Santo diante do qual estamos \u00e9 um Deus pessoal e amoroso que nos chama \u00e0 filia\u00e7\u00e3o.\u00a0 Jesus \u00e9 luz que, com sua vida, revela o caminho para o encontro com o Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena do batismo de Jesus \u00e9 um relato que diz muito dessa rela\u00e7\u00e3o de Jesus com Deus. Sa\u00eddo das \u00e1guas do Jord\u00e3o, afirmam os evangelhos, Jesus vai viver uma dupla experi\u00eancia: descobrir-se a si mesmo como Filho muito querido e sentir-se cheio de seu Esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s margens do Jord\u00e3o, Deus n\u00e3o se mostrar\u00e1 para Jesus como mist\u00e9rio insond\u00e1vel, Deus todo-poder, mas sim como Pai de amor infinito e de imensa miseric\u00f3rdia: \u201cTu \u00e9s o meu filho amado, em ti me comprazo\u201d (Mc 1,11). O texto fala do prazer de Deus diante de Jesus que em resposta diz \u201c<em>Abb\u00e1<\/em>\u201d. Esse nome expressa a sua confian\u00e7a e disponibilidade total a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida inteira de Jesus transpira esta confian\u00e7a. Jesus vive abandonando-se a Deus. Tudo faz animado por esta atitude genu\u00edna, pura, espont\u00e2nea, de confian\u00e7a em seu Pai. Busca sua vontade sem receios, nem c\u00e1lculos, nem estrat\u00e9gias. N\u00e3o se apoia na religi\u00e3o do templo nem na doutrina dos escribas; sua for\u00e7a e sua seguran\u00e7a n\u00e3o prov\u00e9m das Escrituras e tradi\u00e7\u00f5es de Israel. Nascem do Pai. Sua confian\u00e7a faz dele um ser livre de costumes, tradi\u00e7\u00f5es ou modelos r\u00edgidos; sua fidelidade ao Pai o faz agir de maneira criativa, inovadora e audaz. Sua f\u00e9 \u00e9 absoluta (PAGOLA, 2010, p.372).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo que ouve a voz que declara ser Ele o Filho Amado do Pai, o Esp\u00edrito desce sobre ele. No relato de Mateus podemos ler: \u00a0\u201ce ele viu o Esp\u00edrito de Deus descendo como uma pomba e pousando sobre ele\u201d (Mt 3, 16). Cheio do Esp\u00edrito de Deus, aquele que cria e sustenta a vida, que cura, que vivifica e que santifica, Jesus se lan\u00e7a em miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Movido pela for\u00e7a do Esp\u00edrito, Jesus vai aproximar-se dos enfermos para cur\u00e1-los, vai enfrentar os esp\u00edritos malignos sem medo. Ungido pelo Esp\u00edrito, vai \u201cevangelizar os pobres, proclamar a remiss\u00e3o aos presos e aos cegos a recupera\u00e7\u00e3o da vista, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar o ano da gra\u00e7a do Senhor\u201d (cf. Lc 4, 18-19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, cheio do Esp\u00edrito, desvincula-se da fam\u00edlia, deixa o seu trabalho, e p\u00f5e-se a anunciar o \u201creino de Deus\u201d que est\u00e1 irrompendo. Sua mensagem \u00e9 um convite ao acolhimento do perd\u00e3o salvador de Deus oferecido a todos e n\u00e3o apenas aos batizados no Jord\u00e3o. Para Jesus, o tempo n\u00e3o \u00e9 mais o da austeridade do deserto, mas \u00e9 o da celebra\u00e7\u00e3o festiva da vida nova querida por Deus para o seu povo. Proclama a miseric\u00f3rdia de Deus de forma sens\u00edvel e concreta curando os enfermos, aliviando a dor de pessoas abandonadas, aben\u00e7oando e abra\u00e7ando as crian\u00e7as, fazendo a todos sentir a proximidade salvadora de Deus. Sua linguagem n\u00e3o ser\u00e1 a linguagem dura do deserto, mas poesia que convida a olhar o mundo de maneira nova (cf. PAGOLA, 2010, p.106).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia crist\u00e3 de Deus \u00e9 o amor incondicional \u2013 <em>\u00e1gape<\/em> ou <em>caritas \u2013<\/em>, que \u00e9 esse v\u00ednculo de amor existente entre Deus-Pai e o Filho, amor que transborda em paix\u00e3o pelo mundo at\u00e9 a radicalidade da morte na cruz. A cruz de Jesus revela que a transforma\u00e7\u00e3o definitiva do mundo n\u00e3o se apoia na vingan\u00e7a, mas na incondicional confian\u00e7a no projeto de Deus todo-misericordioso que promove a passagem da morte para a ressurrei\u00e7\u00e3o. Em Jesus, a cruz \u00e9 passagem, p\u00e1scoa, tem sentido de salva\u00e7\u00e3o. Promove a vit\u00f3ria definitiva contra o mal, que \u00e9 fundamentalmente o escondimento da verdade com o objetivo de justificar a injusti\u00e7a e a domina\u00e7\u00e3o. Aquele que passou a vida fazendo o bem entrega-se livremente \u00e0s for\u00e7as da morte, faz ver a culpa do mundo e\u00a0 nascer o homem novo, com isso totalmente libertado da humana divis\u00e3o. A descida do Filho de Deus ao inferno do sofrimento promovido pela injusti\u00e7a revela o caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o que \u00e9 o da entrega de si em prol do reinado do amor. \u00c1gape \u00e9 o amor de Deus transformando as possibilidades humanas de amar, dando condi\u00e7\u00f5es para o estabelecimento de um v\u00ednculo fundado na gratuidade. \u00c9 amor oblativo, vivido na certeza que a entrega de si renova a vida porque \u00e9 dessa entrega que brota vida nova, ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Ceci M. C. Baptista Mariani &#8211;<\/em> PUC Campinas, Brasil. Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>6\u00a0Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONGAR, Yves. <em>Revela\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia do Esp\u00edrito<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2005. Cole\u00e7\u00e3o Creio no Esp\u00edrito Santo, n.1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HAIGHT, Roger. <em>Din\u00e2mica da Teologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRAN\u00c7A MIRANDA, M\u00e1rio de. A experi\u00eancia crist\u00e3 e suas fontes hist\u00f3ricas. In: FABRI DOS ANJOS, M\u00e1rcio (org.).<em>Experi\u00eancia religiosa: risco ou aventura?<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MOLTMANN, J\u00fcrgen. <em>O Esp\u00edrito da vida: uma pneumatologia integral<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAGOLA, Jos\u00e9 Antonio. <em>Jesus: aproxima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, Karl. <em>Curso Fundamental da F\u00e9<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHILLEBEECKX, Edward. <em>Hist\u00f3ria Humana: Revela\u00e7\u00e3o de Deus<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VORGRIMLER, Herbert. <em>Karl Rahner<\/em><em> \u2013 experi\u00eancia de Deus em sua vida e em seu pensamento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Considera\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia 2 O sentido da vida, experi\u00eancia humana fundamental 3 F\u00e9 e experi\u00eancia do Mist\u00e9rio 4 Experi\u00eancia de Deus 5 Experi\u00eancia crist\u00e3 de Deus 6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas \u00a0 \u00a01 Considera\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia A palavra experi\u00eancia remete \u00e0 a\u00e7\u00e3o de ir ao exterior (ex), \u00e0s coisas, para buscar provar (per). [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-181","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=181"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/181\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1198,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/181\/revisions\/1198"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}