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{"id":1790,"date":"2019-12-25T18:35:21","date_gmt":"2019-12-25T20:35:21","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1790"},"modified":"2020-02-05T20:48:13","modified_gmt":"2020-02-05T22:48:13","slug":"reconciliacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1790","title":{"rendered":"Reconcilia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Reconcilia\u00e7\u00e3o: condi\u00e7\u00e3o para a perfeita integra\u00e7\u00e3o do ser humano consigo mesmo, com Deus, com a comunidade eclesial, com a sociedade e com o cosmos<\/p>\n<p>2 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na Sagrada Escritura<\/p>\n<p>2.1 Pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o, no Antigo Testamento<\/p>\n<p>2.2 Pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o, no Novo Testamento<\/p>\n<p>3 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica da Igreja<\/p>\n<p>3.1 S\u00e9culos I-VI: reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia can\u00f4nica<\/p>\n<p>3.2 S\u00e9culos VII-XI: reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia tarifada \/ privada<\/p>\n<p>3.3 S\u00e9culos XI-XX: reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia de confiss\u00e3o<\/p>\n<p>4 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o proposta no Ritual da Penit\u00eancia de 1973 e seus desafios pastorais<\/p>\n<p>4.1 O Ritual da Penit\u00eancia de 1973<\/p>\n<p>4.1.1 Destaques teol\u00f3gico-lit\u00fargicos<\/p>\n<p>4.1.2 Avan\u00e7os e limites<\/p>\n<p>4.2 Celebrar a reconcilia\u00e7\u00e3o hoje: pistas de a\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A abordagem sobre o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o dar-se-\u00e1 a partir dos seguintes pontos: 1) A reconcilia\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o para a perfeita integra\u00e7\u00e3o do ser humano consigo mesmo, com Deus, com a comunidade eclesial, com a sociedade e com o cosmos; 2) A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na Sagrada Escritura; 3) A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica da Igreja (abordagem hist\u00f3rico-teol\u00f3gica); 4) A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o proposta no novo ritual da penit\u00eancia e seus desafios pastorais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>1 Reconcilia\u00e7\u00e3o: condi\u00e7\u00e3o para a perfeita integra\u00e7\u00e3o do ser humano consigo mesmo, com Deus, com a comunidade eclesial, com a sociedade e com o cosmos<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Dentre as quest\u00f5es existenciais postas pelo ser humano, ao longo da hist\u00f3ria, talvez a que mais o inquiete seja a da busca pela paz. Dentre as m\u00faltiplas formas de comportamento, tanto em n\u00edvel pessoal como social, h\u00e1 aquelas que geram s\u00e9rias rupturas que extrapolam o \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es humanas, a ponto de p\u00f4r em risco at\u00e9 a viabilidade da vida no planeta. Parece que as divis\u00f5es e tens\u00f5es no mundo tendem a se desenvolver em c\u00edrculos conc\u00eantricos, ou seja, desde simples conflitos interpessoais e familiares at\u00e9 grandes impasses gerados por interesses pol\u00edticos de povos e na\u00e7\u00f5es. O papa Francisco, em sua Constitui\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Veritatis Gaudium,<\/em> enfoca, com lucidez, aspectos dessa quest\u00e3o:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tanto mais que, hoje, n\u00e3o vivemos apenas uma \u00e9poca de mudan\u00e7as, mas uma verdadeira e pr\u00f3pria mudan\u00e7a de \u00e9poca,\u00a0caracterizada por uma \u201ccrise antropol\u00f3gica\u201d\u00a0e \u201csocioambiental\u201d\u00a0global, em que verificamos de dia para dia cada vez mais \u201csintomas dum ponto de ruptura, por causa da alta velocidade das mudan\u00e7as e da degrada\u00e7\u00e3o, que se manifestam tanto em cat\u00e1strofes naturais regionais como em crises sociais ou mesmo financeiras\u201d.\u00a0Em \u00faltima an\u00e1lise, trata-se de \u201cmudar o modelo de desenvolvimento global\u201d e de \u201credefinir o progresso\u201d (VG n.3).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa mudan\u00e7a e redefini\u00e7\u00e3o de modelo comportamental a que o Papa se refere pode ser vinculada \u00e0 palavra \u201creconcilia\u00e7\u00e3o\u201d, t\u00e3o cara \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblico-lit\u00fargica. \u00c9 sabido que o ser humano, na sua ess\u00eancia, aspira por um mundo melhor, justo, fraterno, reconciliado. A concretiza\u00e7\u00e3o de tal aspira\u00e7\u00e3o exige da pessoa de boa vontade a decis\u00e3o de colocar-se num cont\u00ednuo processo de <em>metanoia<\/em>, de mudan\u00e7a radical de seu pensar, agir e sentir. Isso porque o ser humano \u201cn\u00e3o \u00e9 nem um \u2018n\u00e3o\u2019, nem um \u2018j\u00e1\u2019, mas um \u2018ainda n\u00e3o\u2019, um ser inacabado chamado a se aperfei\u00e7oar, que deve ser criativo e deve se sentir chamado a lutar e avan\u00e7ar\u201d (BOROBIO, 2009, p.298).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para que se estabele\u00e7a a perfeita integra\u00e7\u00e3o do ser humano consigo mesmo, com Deus, com a comunidade eclesial, com a sociedade e com o pr\u00f3prio cosmos. Esse processo se d\u00e1, em primeira inst\u00e2ncia, no reconhecimento das limita\u00e7\u00f5es e fraquezas que induzem o ser humano a pr\u00e1ticas il\u00edcitas e injustas.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 falsa, portanto, a reconcilia\u00e7\u00e3o daquele que fecha os olhos para a realidade e faz como se n\u00e3o existisse; ou a do que come\u00e7a desculpando-se a si mesmo de modo total; ou a de quem pretende se reconciliar aniquilando o contr\u00e1rio; ou a de quem renuncia a todo esfor\u00e7o de reconcilia\u00e7\u00e3o dizendo a si mesmo: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada a fazer\u201d. Esses caminhos s\u00e3o falsos porque negam, em princ\u00edpio, a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para a reconcilia\u00e7\u00e3o: aceitar os dois polos ou realidades que devem ser reconciliados. (BOROBIO, 2009, p.297)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, fruto de cont\u00ednuo processo de convers\u00e3o que perpassa todo o agir humano, desde a simples tarefa de cumprir o dever cotidiano at\u00e9 a\u00e7\u00f5es de maior vulto como: solidariedade, corre\u00e7\u00e3o fraterna, perd\u00e3o m\u00fatuo, compromisso com a justi\u00e7a, engajamento na defesa da vida no planeta etc. Portanto, essa compreens\u00e3o de \u201cconvers\u00e3o\u201d e a consequente \u201creconcilia\u00e7\u00e3o\u201d suplantar\u00e3o a mentalidade de que o perd\u00e3o de Deus se limita t\u00e3o somente ao momento celebrativo do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>2 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na Sagrada Escritura<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A hist\u00f3ria de Israel \u00e9 marcada pela interven\u00e7\u00e3o constante daquele que \u00e9 \u201cpaciente e misericordioso\u201d, que n\u00e3o leva em conta as faltas e pecados desse povo (Sl 130,3). Esse agir salv\u00edfico do Eterno perpassa toda a Sagrada Escritura. Embora admitindo haver outras possibilidades de enfoque do tema em quest\u00e3o, para o escopo deste texto, optamos por tecer alguns apontamentos sobre a experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o a partir da tr\u00edade: pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o (cf. NOCENT, 1989, p.149-154).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>2.1 Pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o, no Antigo Testamento<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) O pecado remonta \u00e0s origens, ou seja, a partir do momento em que o ser humano ambiciona tomar o lugar do pr\u00f3prio Deus. Por causa desse pecado das origens, fomos gerados na culpa (Sl 51,7). O pecado est\u00e1 relacionado com a Alian\u00e7a. \u00c9, pois, apostasia da fidelidade a Deus. H\u00e1 diversos tipos de pecado, sendo o mais comum e mais grave o da idolatria. Em virtude dessas \u201cinfidelidades\u201d, o povo de Israel \u00e9 submetido a \u201ccastigos\u201d e experimenta a alegria do \u201cretorno\u201d a Deus. Embora sendo de responsabilidade de todos, inclusive de reis, o pecado \u00e9 tamb\u00e9m responsabilidade individual. O pecado \u00e9 escravid\u00e3o e, por isso mesmo, atrai o castigo de Deus. Esse castigo \u00e9, muitas vezes, interpretado como um tipo de rem\u00e9dio dado por Deus para corrigir seus filhos e filhas do pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 largamente cantada nos textos sagrados, pois ele \u00e9, desde sempre, miseric\u00f3rdia (Dt 4,31). No livro dos salmos, por exemplo, encontramos eloquentes vozes que cantam esse agir de Deus: \u201cEle perdoa todas as tuas iniquidades e cura todas as tuas doen\u00e7as\u201d (Sl 103,3); \u201cPerdoaste a maldade do teu povo, encobriste todos os seus pecados\u201d (Sl 85,3); \u201cN\u00e3o age conosco segundo nossos pecados, e n\u00e3o nos retribui segundo nossas iniquidades\u201d (Sl 103,10); \u201cDai gra\u00e7as ao Senhor, porque ele \u00e9 bom: sua miseric\u00f3rdia \u00e9 para sempre\u201d (Sl 136,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) A convers\u00e3o \u00e9 experimentada como dom do pr\u00f3prio Deus. Ele, em pessoa, ou atrav\u00e9s dos profetas, convida seu povo \u00e0 convers\u00e3o: \u201cFilhos dos homens, at\u00e9 quando tereis o cora\u00e7\u00e3o pesado? Para que amais a vaidade e procurais a mentira?\u201d (Sl 4,3); \u201cN\u00e3o endure\u00e7ais os vossos cora\u00e7\u00f5es como em Meriba, como no dia de Massa, no deserto\u201d (Sl 95,8); \u201cCada qual volte atr\u00e1s do seu mau caminho. Melhorai vossa conduta e vossas obras\u201d (Jr 18,11); \u201cVinde, voltemos ao Senhor\u201d (Os 6,1). Enfim, o salmo 51 sintetiza, de forma eloquente, a teologia da culpa, da convers\u00e3o e da miseric\u00f3rdia de Deus no Primeiro Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>2.2 Pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o, no Novo Testamento<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) O pecado, bem como todas as suas implica\u00e7\u00f5es, deve ser abordado \u00e0 luz do mist\u00e9rio de Cristo. Conforme o ap\u00f3stolo Paulo, o pecado entrou no mundo por um s\u00f3 homem (Rm 5,12) e por um s\u00f3 homem a morte ser\u00e1 vencida (1Cor 15,21). Portanto, o pecado adv\u00e9m do in\u00edcio do mundo e todos os seres humanos est\u00e3o implicados nele: \u201cSe dizemos que n\u00e3o temos pecado, enganamo-nos a n\u00f3s mesmos, e a verdade n\u00e3o est\u00e1 em n\u00f3s\u201d (1Jo 1,8); \u201cQuem dentre v\u00f3s n\u00e3o tiver pecado atire a primeira pedra!\u201d (Jo 8,7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, nos escritos neotestament\u00e1rios, o pecado consiste na recusa da Palavra (Mt 13,22), na nega\u00e7\u00e3o do Verbo e da luz (Jo 3,19), no n\u00e3o reconhecimento da pr\u00f3pria cegueira (Jo 9,41), na recusa de Cristo (Jo 1,11), na pr\u00e1tica da iniquidade (1Jo 2,14-17). Enfim, do \u201cpecado\u201d brotam os pecados, como bem aponta o ap\u00f3stolo Paulo em uma de suas listas: \u201clibertinos, id\u00f3latras, ad\u00falteros, sodomitas, ladr\u00f5es, gananciosos, beberr\u00f5es, maldizentes, estelionat\u00e1rios (&#8230;)\u201d (1Cor 6,9-10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A miseric\u00f3rdia caracteriza o Deus dos crist\u00e3os. Os fi\u00e9is s\u00e3o o objeto dessa miseric\u00f3rdia divina: \u201cBem-aventurados os misericordiosos, porque alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia\u201d (Mt 5,7). Jesus Cristo \u00e9 o rosto da miseric\u00f3rdia do Pai. \u201cQuando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito \u00e0 Lei, para resgatar os que eram sujeitos \u00e0 Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos\u201d (Gl 4,4-5). O evangelista Lucas \u00e9, certamente, quem melhor re\u00fane os diversos comportamentos de Jesus que manifestam a miseric\u00f3rdia. A par\u00e1bola do pai e dos dois filhos \u00e9 paradigm\u00e1tica: o pai, tomado de compaix\u00e3o, vai \u00e0s pressas ao encontro do filho que retorna e, depois de t\u00ea-lo acolhido afetuosamente (com abra\u00e7os e beijos), de ter ouvido a sua \u201cconfiss\u00e3o\u201d, o conduz para o banquete (Lc 15,11-32). Ali\u00e1s, a atitude de Jesus de se mostrar amigo dos pecadores, marginalizados, doentes, atribulados \u2013 e que foi motivo de esc\u00e2ndalo para fariseus e at\u00e9 alguns de seus disc\u00edpulos! \u2013 decorre de sua miss\u00e3o primordial, que \u00e9 revelar a miseric\u00f3rdia do Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Enfim, miseric\u00f3rdia<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00e9 condi\u00e7\u00e3o da nossa salva\u00e7\u00e3o; \u00e9 a palavra que revela o mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade; \u00e9 o ato \u00faltimo e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro; \u00e9 a lei fundamental que mora no cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa, quando v\u00ea com olhos sinceros o irm\u00e3o que se encontra no caminho da vida; \u00e9 o caminho que une Deus e o homem\u201d (MV n.2).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) A convers\u00e3o \u00e9 meio eficaz para a obten\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia e se processa sob duas vertentes: o desejo humano de uma mudan\u00e7a radical de vida (<em>metanoia<\/em>) e o aux\u00edlio divino para sua plena realiza\u00e7\u00e3o. No entanto, vale a ressalva de que a iniciativa \u00e9 sempre de Deus, como bem expressa o ap\u00f3stolo Paulo, Cristo foi enviado n\u00e3o quando est\u00e1vamos decididos a nos converter, mas quando est\u00e1vamos em plena situa\u00e7\u00e3o de pecado (cf. Rm 5,6s).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A escuta da Palavra de Deus e a consequente ades\u00e3o a ela nos reposicionam na trilha do seguimento de Cristo, pois ele nos perdoa o pecado, e nos torna criaturas novas, gra\u00e7as ao mist\u00e9rio de sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, trata-se de levar a efeito, em nossas vidas, a din\u00e2mica do mist\u00e9rio pascal de Cristo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>3 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica da Igreja \u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A Igreja, ao longo de sua hist\u00f3ria, conheceu modalidades diversas quanto \u00e0 compreens\u00e3o teol\u00f3gica e \u00e0 pr\u00e1tica celebrativa da reconcilia\u00e7\u00e3o. Para o escopo deste texto, a abordagem hist\u00f3rico-teol\u00f3gica dar-se-\u00e1 a partir dos seguintes per\u00edodos: a) s\u00e9culos I-VI (mediante penit\u00eancia can\u00f4nica); b) s\u00e9culos VII-XI (reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia tarifada \/ privada); c) s\u00e9culos XI-XX (reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia de confiss\u00e3o).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\"><strong>3.1 S\u00e9culos I-VI: reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia can\u00f4nica<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nos dois primeiros s\u00e9culos da era crist\u00e3, h\u00e1 poucos registros alusivos \u00e0 pr\u00e1tica penitencial dos crist\u00e3os. A t\u00edtulo de exemplo, citamos a Didaqu\u00e9, a Carta de Barnab\u00e9, a Primeira Carta de Clemente de Roma aos Cor\u00edntios e O Pastor de Hermas (cf. NOCENT, 1989, p.165-169).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) A <em>Didaqu\u00e9<\/em> (s\u00e9c. I), na esteira dos escritos neotestament\u00e1rios, elenca alguns pecados graves, correspondentes aos mandamentos (cap. 2). Fala, igualmente, da \u201cconfiss\u00e3o\u201d dos pecados \u00e0 assembleia (cap. 4) e imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es (confiss\u00e3o dos pecados) para a participa\u00e7\u00e3o plena na mesa do Senhor (cap. 14). Vale o alerta de que tal \u201cconfiss\u00e3o\u201d seja, possivelmente, uma esp\u00e9cie de reconhecimento p\u00fablico dos pr\u00f3prios pecados, tipo \u201cato penitencial\u201d, de nossas celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A <em>Primeira carta de Clemente de Roma aos Cor\u00edntios <\/em>(s\u00e9c. I) traz algo mais concreto: \u201cV\u00f3s que inspirastes a revolta, submetei-vos aos presb\u00edteros e aceitai o castigo como vossa penit\u00eancia, dobrando os joelhos do vosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (57,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) A <em>Carta de Barnab\u00e9 <\/em>(s\u00e9c. II), al\u00e9m de listar uma s\u00e9rie de v\u00edcios a serem evitados, traz advert\u00eancias de cunho escatol\u00f3gico: \u201cO Senhor est\u00e1 perto, com o seu sal\u00e1rio\u201d (cap. 19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) <em>O Pastor de Hermas<\/em> (s\u00e9c. II) aborda a quest\u00e3o penitencial sob os aspectos da perspectiva escatol\u00f3gica, da convers\u00e3o e da \u00fanica possibilidade de receber o perd\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A partir do s\u00e9culo III, verifica-se com mais clareza a pr\u00e1tica penitencial. Estabelece-se a \u201cpenit\u00eancia \u201ccan\u00f4nica\u201d ou \u201cp\u00fablica\u201d, concedida uma \u00fanica vez na vida para os pecados mais graves. Trata-se de uma disciplina rigorosa de expia\u00e7\u00e3o, que terminava com a reconcilia\u00e7\u00e3o eclesial, atrav\u00e9s do minist\u00e9rio do bispo. Constava, basicamente, de tr\u00eas momentos bem distintos: a) a <em>confiss\u00e3o<\/em> secreta do pecado, ao bispo. Este admitia a pessoa ao grupo dos \u201cpenitentes\u201d; b) o tempo necess\u00e1rio para a realiza\u00e7\u00e3o das <em>obras de penit\u00eancia<\/em>, ou seja: jejuns prolongados, restri\u00e7\u00f5es alimentares, uso de vestes penitenciais e de cil\u00edcio, ora\u00e7\u00e3o de joelhos etc. Ao penitente cabia, ainda, a tarefa de pedir aos membros da comunidade de f\u00e9 que orassem em seu favor; c) a <em>reconcilia\u00e7\u00e3o<\/em> ou a paz. Trata-se do momento celebrativo em que o bispo e os presb\u00edteros presentes impunham as m\u00e3os sobre os penitentes, concedendo-lhes a remiss\u00e3o dos pecados e sua readmiss\u00e3o na assembleia eclesial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Enfim, ningu\u00e9m duvida do valor pedag\u00f3gico dessa pr\u00e1tica antiga de penit\u00eancia, respaldada pela consci\u00eancia de sua estreita vincula\u00e7\u00e3o com o sacramento do batismo. Este \u00e9, na verdade, a \u201cpenit\u00eancia primeira\u201d. O sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o, por sua vez, era tido como um segundo batismo. No entanto, o rigor extremo e o fato de ser concedido somente uma vez na vida e de ter consequ\u00eancias para toda a vida contribu\u00edram para que as pessoas adiassem, o quanto poss\u00edvel, o acesso ao sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o. Disso decorreram efeitos colaterais como: o afastamento progressivo da comunh\u00e3o eucar\u00edstica e a transforma\u00e7\u00e3o da reconcilia\u00e7\u00e3o em sacramento de idosos e moribundos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\"><strong>3.2 S\u00e9culos VII-XI: reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia tarifada \/ privada<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O s\u00e9culo VII \u00e9 tido como um divisor de \u00e1guas em mat\u00e9ria de disciplina penitencial. D\u00e1-se uma ruptura com a antiga pr\u00e1tica, ou seja: a reconcilia\u00e7\u00e3o pode realizar-se privadamente e ser repetida. Essa pr\u00e1tica disciplinar, utilizada por monges irlandeses e escoceses, fora tamb\u00e9m estendida \u00e0s comunidades paroquiais. O fato de a maioria dos bispos serem tamb\u00e9m monges contribuiu para a expans\u00e3o dessa \u201cnovidade\u201d. Da\u00ed surgiram os c\u00e9lebres \u201clivros penitenciais\u201d. Nesses livros se encontram tabelas e listas de pecados e a pena correspondente (tarifa) a ser imposta ao penitente, por cada pecado cometido. O prazo de dura\u00e7\u00e3o do cumprimento dessas penas variava, conforme a gravidade do pecado, podendo estender-se em dias, semanas, meses, anos de jejum etc. Em contrapartida, continuava em vigor o princ\u00edpio: \u201cPara pecado grave e oculto, penit\u00eancia secreta; para pecado grave e p\u00fablico, penit\u00eancia p\u00fablica\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na pr\u00e1tica, a penit\u00eancia tarifada provocou impasses, tipo: como solucionar casos de, numa \u00fanica confiss\u00e3o, a pessoa se ver obrigada a reparar muitos anos de penit\u00eancia? Diante disso, criaram-se as chamadas comuta\u00e7\u00f5es ou resgates da a\u00e7\u00e3o penitencial. Tais comuta\u00e7\u00f5es podiam ser feitas conforme c\u00e1lculos previstos, por exemplo: a) a\u00e7\u00e3o penitencial de longa dura\u00e7\u00e3o: podia ser substitu\u00edda por outra mais breve, por\u00e9m mais dura; b) a\u00e7\u00e3o penitencial trocada por dinheiro: a quantia variava conforme a pena; c) a\u00e7\u00e3o penitencial substitu\u00edda pela missa: encomendava-se certo n\u00famero de missas como pagamento da penit\u00eancia imposta; d) a\u00e7\u00e3o penitencial resgatada por meio de outra pessoa: valia-se do preceito evang\u00e9lico de uns suportarem as cargas dos outros (cf. BA\u00d1ADOS, 2005, p.217).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Embora o acesso reiterado ao sacramento tenha sido um dado positivo na hist\u00f3ria da Penit\u00eancia, no que tange \u00e0 pr\u00e1tica pastoral, houve limites consider\u00e1veis, por exemplo, \u00e0 \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o\u201d das penas. Isso, al\u00e9m de acentuar o car\u00e1ter individual e m\u00e1gico do sacramento, refor\u00e7ou o bin\u00f4mio confiss\u00e3o-absolvi\u00e7\u00e3o, relativizando a penit\u00eancia como tal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>3.3 S\u00e9culos XI-XX: reconcilia\u00e7\u00e3o mediante penit\u00eancia de confiss\u00e3o<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mesmo ainda existindo a penit\u00eancia p\u00fablica reservada a pecados p\u00fablicos, tidos como escandalosos, a confiss\u00e3o auricular ocupou, gradativamente, seu espa\u00e7o, a ponto de tornar-se a \u00fanica forma de celebrar o sacramento. Desencadeia-se um tipo de \u201cconfiss\u00e3o devocional\u201d, caracterizada pela acusa\u00e7\u00e3o dos pecados (da parte do penitente) e a absolvi\u00e7\u00e3o imediata (da parte do ministro ordenado). Essa \u201cconfiss\u00e3o\u201d foi, aos poucos, tornando-se um condicionante para a comunh\u00e3o eucar\u00edstica, mesmo que uma vez ao ano, como prop\u00f4s o Conc\u00edlio de Latr\u00e3o (1215). Enfim, a reconcilia\u00e7\u00e3o que, nos primeiros s\u00e9culos, era concedida uma vez na vida \u2013 pois este sacramento era tido como um segundo batismo, ou \u201cbatismo laborioso\u201d \u2013, agora torna-se obrigat\u00f3ria uma vez ao ano. Essa pr\u00e1tica se estendeu at\u00e9 o Conc\u00edlio de Trento (s\u00e9c. XVI).<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na \u00e9poca do Conc\u00edlio de Trento, o problema teol\u00f3gico e disciplinar do sacramento da penit\u00eancia era complexo n\u00e3o s\u00f3 por causa da Reforma e da sua atitude para com o sacramento, mas tamb\u00e9m pela complexidade do problema, da disciplina do sacramento e da pr\u00f3pria Igreja. Com efeito, do ponto de vista da disciplina do sacramento verificavam-se v\u00e1rias diverg\u00eancias nas suas aplica\u00e7\u00f5es (NOCENT, 1989, p.204).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Limitando-se a dar uma resposta de cunho dogm\u00e1tico aos ataques dos reformadores, o Conc\u00edlio de Trento tratou o sacramento da penit\u00eancia em si mesmo, e quando o considera em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 eucaristia, o faz sob o aspecto da dignidade necess\u00e1ria para comungar e tamb\u00e9m para salientar que a eucaristia n\u00e3o pode substituir a absolvi\u00e7\u00e3o no caso de pecado grave. Da doutrina sobre o sacramento da penit\u00eancia ensinada por Trento, vale destacar: a) a afirma\u00e7\u00e3o sobre a institui\u00e7\u00e3o do sacramento por Cristo e sua necessidade por direito divino, para a salva\u00e7\u00e3o aos que ca\u00edram depois do batismo; b) o ensinamento de que a confiss\u00e3o s\u00f3 se faz ao sacerdote e \u00e9 secreta; c) o apelo para a necessidade de se confessar todos os pecados, inclusive os veniais, ao menos uma vez por ano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Trento enfatiza a estreita rela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e confessor: da parte do indiv\u00edduo \u00e9 exigida uma atitude de profunda contri\u00e7\u00e3o, seguida da declara\u00e7\u00e3o de todos os pecados (confiss\u00e3o) e a satisfa\u00e7\u00e3o das penas; ao confessor, representante de Deus e juiz, caber\u00e1 a absolvi\u00e7\u00e3o dos pecados do penitente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Vale destacar, ainda, o ensinamento de Trento sobre a diferen\u00e7a entre o sacramento da penit\u00eancia e o sacramento do batismo:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 evidente que este sacramento \u00e9 diferente do batismo por muitas raz\u00f5es. Pois al\u00e9m de serem muit\u00edssimo diferentes a mat\u00e9ria e a forma que perfazem a ess\u00eancia do sacramento, consta tamb\u00e9m que o ministro do batismo n\u00e3o deve ser juiz, porque a Igreja n\u00e3o exerce jurisdi\u00e7\u00e3o sobre a pessoa que n\u00e3o tenha primeiro entrado pela porta do batismo. (&#8230;) O mesmo n\u00e3o se d\u00e1 com os que s\u00e3o da fam\u00edlia da f\u00e9, os que o Cristo Senhor, com o banho do batismo, fez uma vez por todas membros de seu corpo. Com efeito, se estes se contaminarem depois de algum delito, devem, segundo a sua vontade, purificar-se, n\u00e3o por um novo batismo, o que de nenhum modo \u00e9 l\u00edcito na Igreja cat\u00f3lica, mas comparecendo como r\u00e9us diante deste tribunal da penit\u00eancia, a fim de poderem, pela senten\u00e7a do sacerdote, libertar-se, n\u00e3o apenas uma vez, mas todas as vezes que, arrependidos de seus pecados, recorrerem a ele (DENZINGER-H\u00dcNERMANN, 2007, n.1671).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nos s\u00e9culos seguintes (p\u00f3s-tridentinos), a teologia e a pr\u00e1tica pastoral do sacramento da penit\u00eancia percorrem a trilha tra\u00e7ada por Trento e n\u00e3o apresentam mudan\u00e7as substanciais, apesar de acaloradas discuss\u00f5es em torno da intensidade da \u201ccontri\u00e7\u00e3o\u201d. A \u201csatisfa\u00e7\u00e3o\u201d imposta ap\u00f3s a absolvi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de levar o penitente \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da pena (cura das sequelas do pecado cometido), torna-o mais cauteloso e vigilante no futuro. Tamb\u00e9m sobressaem nesse per\u00edodo reiterados apelos \u00e0 \u201cconfiss\u00e3o individual\u201d, quase sempre tida como condi\u00e7\u00e3o para se receber dignamente a eucaristia. A confiss\u00e3o frequente de todos os pecados (inclusive os veniais) torna-se obsess\u00e3o da parte do clero.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>4 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o proposta no Ritual da Penit\u00eancia de 1973 e seus desafios pastorais<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esta \u00faltima se\u00e7\u00e3o se ocupar\u00e1, em primeiro lugar, do estudo do Ritual da Penit\u00eancia de 1973, buscando destacar nele sua teologia. Em seguida, ser\u00e3o apresentadas tr\u00eas pistas de a\u00e7\u00e3o, tendo em vista uma consciente, ativa e frutuosa participa\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is na celebra\u00e7\u00e3o da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>4.1 O Ritual da Penit\u00eancia de 1973<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Atendendo ao pedido expresso do Conc\u00edlio Vaticano de que \u201co rito e as f\u00f3rmulas da Penit\u00eancia sejam revistos de tal forma que exprimam mais claramente a natureza e o efeito deste sacramento\u201d (SC n.72), a Sagrada Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino publicou, em Roma, no dia 2 de dezembro de 1973, o novo <em>Ritual da Penit\u00eancia<\/em> (RP).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse ritual \u00e9 composto de uma \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o geral\u201d, de um \u201cRito para a reconcilia\u00e7\u00e3o individual dos penitentes\u201d, de um \u201cRito para a reconcilia\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios penitentes com confiss\u00e3o e absolvi\u00e7\u00e3o individuais\u201d, de um \u201cRito para a reconcilia\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios penitentes com confiss\u00e3o e absolvi\u00e7\u00e3o geral\u201d; de um amplo \u201cLecion\u00e1rio\u201d; e de tr\u00eas \u201cAp\u00eandices\u201d, a saber: a) absolvi\u00e7\u00e3o de censuras e de dispensa de irregularidade; b) exemplos de celebra\u00e7\u00f5es penitenciais: Quaresma, Advento, Celebra\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias para crian\u00e7as, para jovens, para enfermos; c) esquema para exame de consci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong><em>4.1.1 Destaques teol\u00f3gico-lit\u00fargicos<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o geral\u201d do RP, afinada com a <em>Sacrosanctum Concilium<\/em>, inicia-se com a abordagem do minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o: o Pai, desde sempre, manifestou sua miseric\u00f3rdia e reconciliou o mundo consigo. Esse plano divino atingiu seu \u00e1pice no mist\u00e9rio pascal de Cristo. Desde ent\u00e3o, a Igreja jamais deixou de convocar homens e mulheres \u00e0 convers\u00e3o, mediante a celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o. A este sacramento associa-se o batismo, \u201cpelo qual o velho homem \u00e9 crucificado com Cristo para que, destru\u00eddo o corpo do pecado, j\u00e1 n\u00e3o sirvamos o pecado, mas, ressuscitados com Cristo, vivamos para Deus\u201d, e a eucaristia, que edifica a Igreja e faz de seus membros \u201cum s\u00f3 corpo e um s\u00f3 esp\u00edrito\u201d (RP n.1-2).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A segunda se\u00e7\u00e3o discorre sobre a reconcilia\u00e7\u00e3o dos penitentes na vida da Igreja: Cristo amou a Igreja e por ela se entregou para santific\u00e1-la, unindo-a a si como esposa. Essa, por sua vez, nem sempre lhe \u00e9 fiel e, por isso mesmo, necessita de cont\u00ednua purifica\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o. No sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o, \u201cos fi\u00e9is obt\u00eam da miseric\u00f3rdia divina o perd\u00e3o da ofensa feita a Deus e, ao mesmo tempo, s\u00e3o reconciliados com a Igreja, que eles feriram pelo pecado e que colabora para sua convers\u00e3o com a caridade, o exemplo e as ora\u00e7\u00f5es\u201d (LG n.11).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ainda nesta se\u00e7\u00e3o, v\u00eam apresentadas as partes constitutivas do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o, a saber:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) A <em>contri\u00e7\u00e3o<\/em>. Da contri\u00e7\u00e3o interior depende a autenticidade da penit\u00eancia. A convers\u00e3o deve atingir intimamente o ser humano para ilumin\u00e1-lo cada dia, com maior intensidade, e configur\u00e1-lo cada vez mais ao Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A <em>confiss\u00e3o<\/em> exige do penitente a vontade de abrir seu cora\u00e7\u00e3o ao ministro de Deus; e da parte deste, um julgamento espiritual pelo qual, agindo em nome de Cristo, pronuncia, em virtude do poder das chaves, a senten\u00e7a da remiss\u00e3o ou da reten\u00e7\u00e3o dos pecados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) A <em>satisfa\u00e7\u00e3o <\/em>das culpas \u00e9 express\u00e3o concreta da verdadeira convers\u00e3o, ou seja, da repara\u00e7\u00e3o do dano causado. \u00c9 necess\u00e1rio, por conseguinte, que a satisfa\u00e7\u00e3o imposta seja realmente rem\u00e9dio para o pecado e, de algum modo, renova\u00e7\u00e3o de vida. Assim, o penitente, esquecendo o que passou (Fl 3,13), integra-se de novo no mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o lan\u00e7ando-se para frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) A <em>absolvi\u00e7\u00e3o<\/em>. Pela confiss\u00e3o sacramental, Deus concede perd\u00e3o mediante o sinal da absolvi\u00e7\u00e3o, e assim realiza o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o. Por este sacramento, o Pai acolhe o seu filho que regressa; Cristo coloca sobre os ombros a ovelha perdida, reconduzindo-a ao redil; e o Esp\u00edrito Santo santifica de novo seu templo ou passa a habit\u00e1-lo mais plenamente. Isso se manifesta plenamente na participa\u00e7\u00e3o frequente ou mais fervorosa na mesa do Senhor, havendo grande j\u00fabilo na Igreja de Deus pela volta do filho distante (cf. RP n.6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Vale observar que a <em>satisfa\u00e7\u00e3o<\/em> aparece antes da absolvi\u00e7\u00e3o, ou seja, a ordem ideal da estrutura do sacramento fora restabelecida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Quanto \u00e0 reitera\u00e7\u00e3o do sacramento, dentre outras recomenda\u00e7\u00f5es, o RP esclarece que<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">n\u00e3o se trata de mera repeti\u00e7\u00e3o ritual, nem de uma esp\u00e9cie de exerc\u00edcio psicol\u00f3gico, mas de um esfor\u00e7o ass\u00edduo para aperfei\u00e7oar a gra\u00e7a do batismo, a fim de que, trazendo em nosso corpo a mortifica\u00e7\u00e3o de Cristo, a vida de Jesus se manifeste cada vez mais em n\u00f3s. (&#8230;) A celebra\u00e7\u00e3o deste sacramento \u00e9 sempre uma a\u00e7\u00e3o pela qual a Igreja proclama sua f\u00e9, d\u00e1 gra\u00e7as a Deus pela liberdade com que Cristo nos libertou, e oferece sua vida como sacrif\u00edcio espiritual para o louvor da gl\u00f3ria de Deus, enquanto se apressa ao encontro de Cristo (RP n.7).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A terceira se\u00e7\u00e3o versa sobre as fun\u00e7\u00f5es e minist\u00e9rios na reconcilia\u00e7\u00e3o dos penitentes. Al\u00e9m de destacar o papel de toda a comunidade na celebra\u00e7\u00e3o da reconcilia\u00e7\u00e3o, recorda que a Igreja est\u00e1 envolvida e age na reconcilia\u00e7\u00e3o; salienta a responsabilidade do bispo e dos presb\u00edteros (que agem em comunh\u00e3o com o bispo) na remiss\u00e3o dos pecados; lembra que \u201co fiel, enquanto experimenta e proclama em sua vida a miseric\u00f3rdia de Deus, celebra junto com o ministro ordenado a liturgia de uma Igreja que continuamente se renova\u201d (RP n.8-11).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A quarta se\u00e7\u00e3o, por sua vez, descreve as tr\u00eas modalidades de celebra\u00e7\u00e3o do sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o, buscando mostrar sua import\u00e2ncia na vida dos fi\u00e9is; ressalta a teologia da f\u00f3rmula da absolvi\u00e7\u00e3o, nestes termos:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A f\u00f3rmula da absolvi\u00e7\u00e3o mostra que a reconcilia\u00e7\u00e3o do penitente procede da miseric\u00f3rdia do Pai; indica o nexo entre a reconcilia\u00e7\u00e3o do pecador e o mist\u00e9rio pascal; exalta a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo no perd\u00e3o dos pecados, e finalmente evidencia o aspecto eclesial do sacramento, uma vez que a reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 solicitada e concedida pelo minist\u00e9rio da Igreja (RP n.19).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A quinta se\u00e7\u00e3o fala das \u201cCelebra\u00e7\u00f5es penitenciais\u201d. Quanto \u00e0 natureza e estrutura, essas celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">reuni\u00f5es do povo de Deus para ouvir sua Palavra, que convida \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 renova\u00e7\u00e3o de vida, proclamando tamb\u00e9m nossa liberta\u00e7\u00e3o do pecado pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Sua estrutura \u00e9 a mesma das celebra\u00e7\u00f5es da Palavra, proposta no \u201cRito para reconcilia\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios penitentes\u201d. (RP n.36)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Quanto \u00e0 utilidade e import\u00e2ncia, as \u201cCelebra\u00e7\u00f5es penitenciais\u201d fomentam o esp\u00edrito de penit\u00eancia da comunidade crist\u00e3; ajudam os fi\u00e9is a prepararem a confiss\u00e3o que cada um poder\u00e1 fazer oportunamente; educam as crian\u00e7as a adquirirem, gradualmente, a consci\u00eancia do pecado na vida humana e da liberta\u00e7\u00e3o do pecado por Cristo; ajudam os catec\u00famenos em sua convers\u00e3o. Al\u00e9m disso, onde n\u00e3o houver nenhum ministro ordenado dispon\u00edvel para conceder a absolvi\u00e7\u00e3o sacramental, as celebra\u00e7\u00f5es penitenciais s\u00e3o util\u00edssimas por despertar nos fi\u00e9is uma contri\u00e7\u00e3o perfeita, nascida da caridade, pela qual, com o desejo de receber mais tarde o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o, possam conseguir a gra\u00e7a de Deus (cf. RP n.37).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A \u00faltima se\u00e7\u00e3o da \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o geral\u201d do RP discorre sobre as \u201cAdapta\u00e7\u00f5es do Rito \u00e0s diversas regi\u00f5es e circunst\u00e2ncias\u201d. Tais adapta\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ser feitas pelas confer\u00eancias episcopais (RP n.38), pelo bispo diocesano (RP n.39) e pelo ministro (RP n.40).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\"><strong>4.1.2 Avan\u00e7os e limites<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para tecer algum ju\u00edzo sobre o RP de 1973, \u00e9 necess\u00e1rio levar em conta que este ritual \u00e9 fruto de um laborioso trabalho articulado pelo Consilium. A. Bugnini, em sua antol\u00f3gica obra A reforma lit\u00fargica, assim se expressa: \u201cA revis\u00e3o dos ritos da Penit\u00eancia passou por um caminho bastante longo e dif\u00edcil. Foram necess\u00e1rios sete anos para p\u00f4r em pr\u00e1tica as poucas linhas que a Constitui\u00e7\u00e3o lit\u00fargica dedica a esse assunto\u201d (2018, p.551).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Grandes quest\u00f5es foram discutidas, algumas delas, de forma \u201cacalorada\u201d, j\u00e1 na primeira etapa dos trabalhos (1966-1969), como o aspecto social e comunit\u00e1rio do pecado e da reconcilia\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o de uma poss\u00edvel celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da reconcilia\u00e7\u00e3o, com absolvi\u00e7\u00e3o geral, sem pr\u00e9via confiss\u00e3o individual, uma nova f\u00f3rmula sacramental de absolvi\u00e7\u00e3o e a possibilidade de f\u00f3rmulas sacramentais facultativas etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Foi a partir desse contexto que se elaborou o novo RP. As tr\u00eas modalidades de celebra\u00e7\u00e3o da reconcilia\u00e7\u00e3o, propostas nesse ritual, constituem um bom exemplo disso. O c\u00e9lebre liturgista A. Nocent, numa an\u00e1lise cr\u00edtica do RP, reconhece como positivas essas modalidades, sob tr\u00eas aspectos: a) a tentativa de restabelecer a unidade entre Palavra e sacramento; b) a interven\u00e7\u00e3o, ao menos parcial, da comunidade eclesial; c) a apresenta\u00e7\u00e3o de formul\u00e1rio de absolvi\u00e7\u00e3o dogmaticamente mais rico, e que corrige o aspecto jur\u00eddico. Por outro lado, lamenta que nenhuma das tr\u00eas modalidades \u00e9 realmente satisfat\u00f3ria e adequada \u00e0s circunst\u00e2ncias atuais, nestes termos:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O primeiro ritual, aquele relativo ao penitente que se encontra com o confessor, n\u00e3o se realiza facilmente: sup\u00f5e contato humano e espiritual para di\u00e1logo, une ao sacramento breve liturgia da Palavra, mas falta-lhe a visibilidade da comunidade e sobretudo dificilmente se pode realizar em par\u00f3quia ou grupo de pessoas que se apresentam juntas; e isso impossibilita a pr\u00e1tica prevista pelo ritual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O segundo ritual acentua a prepara\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria para a confiss\u00e3o, coisa que n\u00e3o tem nenhuma base na tradi\u00e7\u00e3o, mas que de fato constitui enriquecimento. Mas no momento em que o ritual sacramental deveria acentuar o aspecto comunit\u00e1rio do sacramento, a absolvi\u00e7\u00e3o, sem a licen\u00e7a do Ordin\u00e1rio, permanece individual. \u00c9 comunit\u00e1ria s\u00f3 a prepara\u00e7\u00e3o para o sacramento, enquanto o sacramento mesmo continua visivelmente individual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O terceiro ritual, a absolvi\u00e7\u00e3o sem confiss\u00e3o pr\u00e9via, n\u00e3o encontra nenhum apoio na tradi\u00e7\u00e3o, pelo fato de que a antiguidade considerava a absolvi\u00e7\u00e3o coroamento da convers\u00e3o. Aqui, ao contr\u00e1rio, a absolvi\u00e7\u00e3o \u00e9 posta em plano jur\u00eddico, sem nenhum controle sobre o modo como o penitente tenciona converter-se. Contudo, \u00e9 for\u00e7oso reconhec\u00ea-lo, vivemos em situa\u00e7\u00f5es novas, que a Igreja antiga n\u00e3o conheceu (NOCENT, 1989, p. 215-216).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #000000;\"><strong>4.2 Celebrar a reconcilia\u00e7\u00e3o hoje: pistas de a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Celebrar a reconcilia\u00e7\u00e3o nas comunidades, hoje, continua sendo um grande desafio. Mesmo assim, ousamos apontar tr\u00eas exig\u00eancias que julgamos fundamentais no incremento da pastoral da reconcilia\u00e7\u00e3o. Ei-las:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) <em>Promover uma forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico-lit\u00fargica sobre a sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o para o clero e o povo, em geral<\/em>. Uma vez que esse sacramento seja \u201cum alegre encontro do ser humano com Deus, pela media\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d, tal forma\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser realizada<em>,<\/em> a partir do trip\u00e9:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 <em>Deus<\/em>: aquele que promove e torna poss\u00edvel a plena reconcilia\u00e7\u00e3o;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 <em>A Igreja<\/em>: aquela que colabora e torna vis\u00edvel o encontro de reconcilia\u00e7\u00e3o;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 <em>O penitente<\/em>: a pessoa que aceita e participa ativamente na reconcilia\u00e7\u00e3o (BOROBIO, 2009, p.324).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) <em>Promover as celebra\u00e7\u00f5es penitenciais<\/em>. Essas celebra\u00e7\u00f5es, previstas no RP, ainda carecem de especial aten\u00e7\u00e3o da parte dos p\u00e1rocos e lideran\u00e7as das comunidades eclesiais. A liturgista I. Buyst nos d\u00e1 boas raz\u00f5es para o incremento de tais celebra\u00e7\u00f5es (cf. BUYST, 2008, p.54-66):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 As celebra\u00e7\u00f5es penitenciais poder\u00e3o facilitar a passagem de uma concep\u00e7\u00e3o individualista, legalista, formalista, para uma mentalidade mais b\u00edblica e comunit\u00e1rio-eclesial da reconcilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tendo de preocupar-se com confiss\u00e3o e absolvi\u00e7\u00e3o, as pessoas est\u00e3o mais dispostas a concentrar-se na Palavra de Deus e deixar-se transformar por ela. E ainda: com o fato de a presid\u00eancia dessas celebra\u00e7\u00f5es n\u00e3o se restringir ao ministro ordenado, torna-se mais evidente a responsabilidade da comunidade e de cada pessoa como ministra da penit\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 A comunidade poder\u00e1 privilegiar momentos prop\u00edcios para as celebra\u00e7\u00f5es penitenciais, como: nos tempos da Quaresma e do Advento, nas festas dos padroeiros, nos encontros de romarias, em momentos pontuais da caminhada eclesial, sobretudo em situa\u00e7\u00f5es de desencontros, desentendimentos, rixas etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 As celebra\u00e7\u00f5es penitenciais poder\u00e3o ajudar as comunidades na compreens\u00e3o de que a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um itiner\u00e1rio espiritual que dura toda a vida e que seu objetivo primordial \u00e9 o \u201chomem novo\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u2013 Uma vez que as celebra\u00e7\u00f5es penitenciais s\u00e3o \u201creuni\u00f5es do povo de Deus para ouvir sua Palavra, que o convida \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 renova\u00e7\u00e3o de vida, proclamando tamb\u00e9m nossa liberta\u00e7\u00e3o do pecado pela morte de Cristo\u201d (RP n.36), seu incremento na vida da comunidade propiciar\u00e1 aos fi\u00e9is a experi\u00eancia da efic\u00e1cia da Palavra proclamada que, pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, faz acontecer a convers\u00e3o e a renova\u00e7\u00e3o da vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) <em>Atentar-se para o horizonte aberto de poss\u00edveis \u201cadapta\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>. Como vimos anteriormente, a \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o geral\u201d do RP prop\u00f5e adapta\u00e7\u00f5es do rito \u00e0s diversas regi\u00f5es e circunst\u00e2ncias, abrangendo os n\u00edveis da confer\u00eancia episcopal, do bispo diocesano e do ministro (RP n.38-40).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para os dois primeiros n\u00edveis (da confer\u00eancia episcopal e do bispo diocesano), excetuando a exig\u00eancia expl\u00edcita de que se deva conservar a f\u00f3rmula sacramental na sua integralidade, todo o restante do ritual poder\u00e1 ser adaptado, inclusive com a composi\u00e7\u00e3o de novos textos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No n\u00edvel do ministro, principalmente os p\u00e1rocos, fica aberta a possibilidade de adaptar o rito \u00e0s circunst\u00e2ncias concretas dos penitentes, desde que se conserve sua estrutura essencial e a integralidade da f\u00f3rmula de absolvi\u00e7\u00e3o. Recomenda-se, tamb\u00e9m, o uso frequente de celebra\u00e7\u00f5es penitenciais ao longo do ano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Portanto, no RP, h\u00e1 um vasto campo de possibilidades de adapta\u00e7\u00f5es do rito. Isso propiciar\u00e1 \u00e0 comunidade de f\u00e9 celebrar de forma mais consciente, ativa e frutuosa a reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Conclu\u00edmos este texto com uma observa\u00e7\u00e3o sobre o t\u00edtulo do ritual. A. Bugnini assim o justifica:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O t\u00edtulo geral do volume \u00e9 <em>Ordo Paenitentiae<\/em>, porque cont\u00e9m indica\u00e7\u00f5es para os ritos quer sacramentais, quer n\u00e3o sacramentais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Para a a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica sacramental \u00e9 preferido, nos cap\u00edtulos individuais do <em>Ordo<\/em>, o termo <em>Reconciliatio<\/em>. Ele indica melhor que a penit\u00eancia sacramental \u00e9, a um tempo, a\u00e7\u00e3o de Deus e do homem, ao passo que \u201cPenit\u00eancia\u201d enfatiza mais a a\u00e7\u00e3o do homem. (&#8230;) <em>Reconciliatio<\/em> \u00e9 mais propriamente usado pela Igreja antiga para o ato sacramental. (&#8230;) Esta terminologia serve tamb\u00e9m para chamar a aten\u00e7\u00e3o e aprofundar um aspecto fundamental para a compreens\u00e3o e a renova\u00e7\u00e3o da penit\u00eancia sacramental (2018, p.560-561).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em suma, a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 a\u00e7\u00e3o de Deus, \u00e9 iniciativa de Deus, como bem expressa o Ap\u00f3stolo:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tudo vem de Deus, que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o. Sim, foi o pr\u00f3prio Deus que, em Cristo reconciliou o mundo consigo, n\u00e3o levando em conta os delitos da humanidade, e foi ele que p\u00f4s em n\u00f3s a palavra da reconcilia\u00e7\u00e3o (2Cor 5,18-19).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Joaquim Fonseca, OFM &#8211; I<\/em><\/span>nstituto Santo Tom\u00e1s de Aquino.\u00a0(texto original portugu\u00eas)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">BA\u00d1ADOS, C. P. Penit\u00eancia e reconcilia\u00e7\u00e3o. In: CELAM. <em>A celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio pascal<\/em>; os sacramentos: sinais do mist\u00e9rio pascal. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005. Manual de liturgia, v. III, p.205-238.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0BOROBIO, D. <em>Celebrar para viver<\/em>; liturgia e sacramentos da Igreja. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2009.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0BUGNINI, A. <em>A reforma lit\u00fargica<\/em> (1948-1975). S\u00e3o Paulo: Paulus; Paulinas; Loyola, 2018.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/span>BUYST, I. As celebra\u00e7\u00f5es penitenciais. In: CNBB. <em>Deixai-vos reconciliar<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008, p. 49-66. Estudos da CNBB, n.96.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0DENZINGER \u2013 H\u00dcNERMANN. <em>Comp\u00eandio dos s\u00edmbolos, defini\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es de f\u00e9 e moral<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas \/ Loyola, 2007.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0FRANCISCO. <em>Veritatis Gaudium<\/em>. Sobre as universidades e as faculdades eclesi\u00e1sticas. Dispon\u00edvel em: <a style=\"color: #000000;\" href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_constitutions\/documents\/papa-francesco_costituzione-ap_20171208_veritatis-gaudium.html\">http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_constitutions\/documents\/papa-francesco_costituzione-ap_20171208_veritatis-gaudium.html<\/a> Acesso em: 12 set 2019.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0______. <em>Misericordiae Vultus<\/em>. O rosto da miseric\u00f3rdia. Bula de proclama\u00e7\u00e3o do jubileu extraordin\u00e1rio da miseric\u00f3rdia. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0NOCENT, A. O sacramento da penit\u00eancia e da reconcilia\u00e7\u00e3o. In: NOCENT, A. et al. <em>Os sacramentos<\/em>; teologia e hist\u00f3ria da celebra\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1989, p.143-221. Anamnesis, 4.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00a0VISENTIN, P. Penit\u00eancia. In: VV.AA. <em>Dicion\u00e1rio de liturgia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1992. p. 920-937.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Reconcilia\u00e7\u00e3o: condi\u00e7\u00e3o para a perfeita integra\u00e7\u00e3o do ser humano consigo mesmo, com Deus, com a comunidade eclesial, com a sociedade e com o cosmos 2 A experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o na Sagrada Escritura 2.1 Pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o, no Antigo Testamento 2.2 Pecado \u2013 miseric\u00f3rdia \u2013 convers\u00e3o, no Novo Testamento 3 A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-1790","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1790"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1826,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1790\/revisions\/1826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}