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{"id":1782,"date":"2019-12-24T19:37:36","date_gmt":"2019-12-24T21:37:36","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1782"},"modified":"2020-02-05T21:41:27","modified_gmt":"2020-02-05T23:41:27","slug":"missal-de-sao-pio-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1782","title":{"rendered":"Missal de S\u00e3o Pio V"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Terminologia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Hist\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Controv\u00e9rsias em torno do Missal de S\u00e3o Pio V<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Das controv\u00e9rsias \u00e0 separa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Em busca da reconcilia\u00e7\u00e3o e da paz lit\u00fargica: Bento XVI e a <em>Summorum Pontificum<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Desafios que permanecem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Terminologia <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os termos \u201cMissal de S\u00e3o Pio V\u201d, \u201cMissal tridentino\u201d, \u201cMissal tradicional\u201d, \u201cMissal de sempre\u201d, \u201cMissal gregoriano\u201d, \u201cMissal romano cl\u00e1ssico\u201d e tamb\u00e9m missal da <em>forma antiquior<\/em> (da forma mais antiga), do <em>usus antiquior<\/em> (uso mais antigo) ou do <em>vetus ordo<\/em> (velho ordo) formam o campo lexical em torno daquela forma de celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica que Bento XVI designou como \u201cmissa segundo a forma extraordin\u00e1ria do rito romano\u201d. Com essa classifica\u00e7\u00e3o, Bento XVI esclareceu que o Missal Romano, promulgado por Paulo VI em 1969, \u00e9 a express\u00e3o ordin\u00e1ria da <em>lex orandi<\/em> da Igreja Cat\u00f3lica de rito latino. Todavia, desde 2007 e por for\u00e7a do Motu Proprio <em>Summorum Pontificum<\/em>, abriram-se possibilidades mais amplas da celebra\u00e7\u00e3o segundo o <em>usus antiquior<\/em>, consolidada na edi\u00e7\u00e3o t\u00edpica do Missal Romano de 1962, sob o pontificado de Jo\u00e3o XXIII. N\u00e3o se trata de dois ritos distintos, mas de duas formas diferentes do mesmo rito. Por causa do seu amplo uso e de sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica, conservaremos nesse verbete a designa\u00e7\u00e3o \u201cMissal de S\u00e3o Pio V\u201d. Essa designa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 empregada pela Instru\u00e7\u00e3o geral do Missal Romano (IGMR n.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a partir do s\u00e9culo X que termo \u201cmissal\u201d e seus correlatos (<em>liber missalis, missale plenum, missale plenarium<\/em>) se tornaram frequentes para indicar os livros lit\u00fargicos dotados de todos os textos eucol\u00f3gicos e escritur\u00edsticos necess\u00e1rios para a celebra\u00e7\u00e3o da missa. O termo missal surgiu por motivos de ordem pr\u00e1tica que produziram a fus\u00e3o dos v\u00e1rios textos prescritos para as missas num \u00fanico volume port\u00e1til. Anteriormente, tais textos encontravam-se separados, parte deles nos sacrament\u00e1rios, que tamb\u00e9m traziam as ora\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas e o rito de comunh\u00e3o, e as outras partes nos lecion\u00e1rios, salt\u00e9rios e antifon\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescente desuso e olvido da concelebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, o fen\u00f4meno da multiplica\u00e7\u00e3o das \u201cmissas privadas\u201d por motivos devocionais, sobretudo o sufr\u00e1gio dos defuntos, ocasionaram a edi\u00e7\u00e3o de fasc\u00edculos com s\u00e9ries de missas (<em>libelli missarum<\/em>) com numerosas missas quotidianas pelos defuntos e outras missas votivas. A praticidade desses livretos, por dispensarem o manuseio dos volumosos sacrament\u00e1rios e antigos lecion\u00e1rios, caiu no gosto do clero religioso e secular. Dessa forma, j\u00e1 no s\u00e9culo XIII estava conclu\u00edda a transi\u00e7\u00e3o que estabeleceu a prefer\u00eancia pelo missal como o livro lit\u00fargico do altar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coube sobretudo aos franciscanos, em suas atividades mission\u00e1rias e expans\u00e3o de funda\u00e7\u00f5es conventuais, espalhar por toda a Europa aquele que se tornou o missal mais difundido at\u00e9 ent\u00e3o. Trata-se do <em>Missale secundum consuetudinem curiae, <\/em>ou seja, o missal da Capela Papal que, por sua vez, reproduzia fielmente o missal vigente no pontificado de Inoc\u00eancio III (1198-1216). Com o advento da imprensa, este missal recebeu sua primeira edi\u00e7\u00e3o impressa em 1474 e foi posteriormente a refer\u00eancia fundamental para a elabora\u00e7\u00e3o do Missal de S\u00e3o Pio V, em 1570.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e9culo XVI foi profundamente agitado pelos eventos decorrentes da Reforma Protestante, iniciada por Lutero em 1517. A onda de contesta\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas tamb\u00e9m atingiu a pr\u00e1xis lit\u00fargica da Igreja romana. Por outro lado, j\u00e1 existia um consistente movimento de renova\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e pastoral no pr\u00f3prio \u00e2mbito romano. Tal renova\u00e7\u00e3o exigia esclarecimentos doutrinais, aprofundamento espiritual e normas disciplinares em rela\u00e7\u00e3o aos sacramentos, sobretudo a eucaristia. \u00c9 nesse contexto que se realiza o Conc\u00edlio de Trento (1545-1563) e a consequente edi\u00e7\u00e3o de livros lit\u00fargicos revisados. \u00c9 desse ambiente que emerge o Missal Romano de S\u00e3o Pio V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que se refere \u00e0 eucaristia, ainda que com matizes variados, o protestantismo nascente questionou a compreens\u00e3o tradicional sobre a presen\u00e7a de Cristo no sacramento eucar\u00edstico e recha\u00e7ou o entendimento da missa como atualiza\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio do calv\u00e1rio, oferecido de forma incruenta e m\u00edstica sobre o altar por meio do minist\u00e9rio dos sacerdotes. O Conc\u00edlio de Trento defendeu e reafirmou a doutrina cat\u00f3lica sobre a missa, ressaltando a presen\u00e7a real de Cristo sob as esp\u00e9cies eucar\u00edsticas e o car\u00e1ter sacrifical da missa (DH\u00a0 1738-1743, 1751-1754). Catalogou-se tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de abusos a serem evitados na missa e indicou-se o modo correto de sua celebra\u00e7\u00e3o (BOROBIO, 1993, p.232-240).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o per\u00edodo medieval, os numerosos abusos lit\u00fargicos constitu\u00edam uma dolorosa chaga aberta na vida da Igreja. O conc\u00edlio tridentino empenhou-se em coibir a irrever\u00eancia e o descuido bem como punir o sacril\u00e9gio, a supersti\u00e7\u00e3o e a avareza que frequentemente deturpavam os atos lit\u00fargicos (JUNGMANN, 2010, p.145-149). Coube ao papa Pio IV (1499-1565) receber oficialmente a pesada incumb\u00eancia de uma grande revis\u00e3o da pr\u00e1xis lit\u00fargica, mas foi o seu imediato sucessor, o papa Pio V (1504-1572) quem efetivamente a realizou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A finalidade prec\u00edpua da revis\u00e3o lit\u00fargica tridentina era a salvaguarda da ortodoxia doutrinal e a elimina\u00e7\u00e3o dos abusos. A revis\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o dos livros lit\u00fargicos reformados foi o caminho escolhido. Buscando realiz\u00e1-lo, tinha-se como meta restaurar os ritos lit\u00fargicos em conformidade com a antiga norma dos Santos Padres. Os limites da pesquisa, naqueles tempos verdadeiramente dif\u00edceis, fizeram com que S. Pio V optasse por conservar aquelas formas hist\u00f3ricas da tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica \u00e0s quais tiveram acesso os eruditos de ent\u00e3o. Diante dessa tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica impugnada pelos reformadores, optou-se tamb\u00e9m por introduzir o m\u00ednimo de modifica\u00e7\u00f5es nos ritos sagrados. Por isso, \u201co missal de 1570 pouco difere do primeiro missal impresso em 1474 que, por sua vez, reproduz com fidelidade o do tempo do papa Inoc\u00eancio III\u201d (IGMR n.7). A limita\u00e7\u00e3o imposta aos liturgistas tridentinos tamb\u00e9m se referia \u00e0s fontes pesquisadas: \u201cal\u00e9m disso, os manuscritos da Biblioteca Vaticana, ainda que sugerissem algumas corre\u00e7\u00f5es, n\u00e3o permitiam que se fosse al\u00e9m dos coment\u00e1rios lit\u00fargicos medievais, na investiga\u00e7\u00e3o dos antigos e provados autores\u201d (IGMR n.7).\u00a0 Ponto culminante desse processo se deu em 1570 com a bula <em>Quo primum tempore<\/em>, em que Pio V promulgou o missal revisado, posteriormente associado ao seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A compreens\u00e3o sobre a \u201cnorma dos Santos Padres\u201d, isto \u00e9, a pr\u00e1xis lit\u00fargica dos Pais da Igreja, foi a diretriz inspiradora da revis\u00e3o que gerou o Missal de S\u00e3o Pio V. A compreens\u00e3o da liturgia da Igreja antiga foi grandemente ampliada e enriquecida com o posterior avan\u00e7o da pesquisa lit\u00fargica. As numerosas edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas dos venerandos sacrament\u00e1rios do per\u00edodo patr\u00edstico, assim como a redescoberta dos livros lit\u00fargicos hisp\u00e2nicos e galicanos, resgataram do esquecimento eucologias de grande valor espiritual at\u00e9 ent\u00e3o ignoradas. Igualmente as tradi\u00e7\u00f5es dos primeiros s\u00e9culos, anteriores \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos ritos do Oriente e do Ocidente, s\u00e3o agora melhor conhecidas, ap\u00f3s a descoberta de numerosos documentos lit\u00fargicos. Al\u00e9m disso, o progresso dos estudos patr\u00edsticos lan\u00e7ou sobre a teologia eucar\u00edstica a luz da doutrina dos Padres mais eminentes da antiguidade crist\u00e3 (IGMR n.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destarte, \u201ca norma dos Santos Padres\u201d n\u00e3o exige apenas que se conserve o que os nossos antepassados mais recentes nos legaram. Esses \u201cantepassados recentes\u201d, assim compreendeu Paulo VI, s\u00e3o os promotores da grande revis\u00e3o lit\u00fargica tridentina. \u00c9 igualmente imperioso que \u201cse assuma e se julgue do mais alto valor todo o passado da Igreja e todas as manifesta\u00e7\u00f5es de f\u00e9, em formas t\u00e3o variadas de cultura humana e civil como as semitas, gregas e latinas\u201d (IGMR n.9), o que implica uma compreens\u00e3o integral do que realmente \u00e9 a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja e sua rela\u00e7\u00e3o com os processos naturais de revis\u00e3o e reforma dos seus ritos lit\u00fargicos: \u201cesta vis\u00e3o mais ampla nos permite perceber como o Esp\u00edrito Santo concede ao Povo de Deus uma admir\u00e1vel fidelidade na conserva\u00e7\u00e3o do imut\u00e1vel dep\u00f3sito da f\u00e9, apesar da enorme variedade de ora\u00e7\u00f5es e ritos\u201d (IGMR n.9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Controv\u00e9rsias em torno do Missal de S\u00e3o Pio V<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A promulga\u00e7\u00e3o do Missal Romano de Paulo VI, em 1969, tornou-se o ponto de partida de uma controv\u00e9rsia que se estende at\u00e9 os nossos dias. Controv\u00e9rsia que op\u00f5e n\u00e3o s\u00f3 o Missal de Paulo VI ao Missal de Pio V, mas se desdobra na ins\u00f3lita afirma\u00e7\u00e3o de um antagonismo entre o Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965) e a restante Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja. O ponto inicial dessa controv\u00e9rsia foi o <em>Breve exame cr\u00edtico do Novus Ordo Missae, <\/em>elaborado pelos cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci naquele mesmo ano de 1969. As afirma\u00e7\u00f5es contidas nesse exame cr\u00edtico eram da maior gravidade e projetavam uma tremenda suspeita de heresia em rela\u00e7\u00e3o ao Missal de Paulo VI. Nele encontramos a chocante acusa\u00e7\u00e3o de que o novo missal se afasta de maneira impressionante, no conjunto e no particular, da teologia cat\u00f3lica da santa missa. Pese ainda mais a condi\u00e7\u00e3o do principal signat\u00e1rio do exame cr\u00edtico: o cardeal Alfredo Ottaviani, pr\u00f3-prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 at\u00e9 1968. O pol\u00eamico exame cr\u00edtico exprimia a opini\u00e3o de um grupo de te\u00f3logos ligados ao arcebispo franc\u00eas Marcel Lef\u00e8bvre (1905-1991), marcado pela rejei\u00e7\u00e3o radical tanto do Missal Romano de Paulo VI quanto do Conc\u00edlio Vaticano II. Os cardeais Ottaviani e Bacci apadrinharam o texto, assumindo-o como pr\u00f3prio. A chamada \u201cinterven\u00e7\u00e3o Ottaviani\u201d \u00e9, ainda hoje, a fonte privilegiada de argumenta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao <em>Novus Ordo Missae<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Analisemos brevemente algumas obje\u00e7\u00f5es apresentadas pelos que se valem do Missal de S\u00e3o Pio V para rejeitar o Missal de Paulo VI. A primeira delas \u00e9 referente \u00e0 perpetuidade da bula <em>Quo primum tempore<\/em> de S\u00e3o Pio V. Nesse documento, parece que o referido papa fixa uma forma imut\u00e1vel para o <em>Ordo Missae<\/em> (a forma de celebra\u00e7\u00e3o da missa) e nessa imutabilidade empenha toda a sua autoridade pontif\u00edcia, proibindo quaisquer modifica\u00e7\u00f5es posteriores nos ritos e cerim\u00f4nias codificados pelo missal de 1570. Na pr\u00e1tica, os tradicionalistas costumam afirmar uma pretensa intangibilidade do Missal de Pio V, canonizada pela <em>Quo primum tempore.<\/em> Todavia, uma estreita interpreta\u00e7\u00e3o dessa perpetuidade n\u00e3o se sustenta. Em resposta oficial, datada de 11 de junho de 1999, a Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino esclareceu que nenhum papa pode fixar perpetuamente um rito. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio Conc\u00edlio de Trento, ao refletir sobre a administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, afirmou que a Igreja pode aperfei\u00e7oar as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas modificando e estatuindo novos elementos, desde que n\u00e3o se altere a identidade espec\u00edfica dos sacramentos. Pode fazer isso levando em conta a utilidade dos que recebem os sacramentos conforme a variedade das coisas, tempos e lugares (DH 1728). Do ponto de vista can\u00f4nico, quando um papa escreve <em>perpetuo concedimus, <\/em>deve-se sempre entender \u201cat\u00e9 que seja ordenado de outro modo\u201d. \u00c9 pr\u00f3prio da autoridade soberana do Pont\u00edfice Romano n\u00e3o ser limitado pelas leis meramente eclesi\u00e1sticas, muito menos pelas disposi\u00e7\u00f5es dos seus predecessores. Um papa est\u00e1 limitado, evidentemente, pela imutabilidade das leis divina e natural, al\u00e9m da pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o da Igreja (cf. RIFAN, 2007, p.45-46).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi essa compreens\u00e3o que tiveram os v\u00e1rios sucessores do papa Pio V quando modificaram ou introduziram elementos no missal por ele promulgado em 1570. Fizeram isso sem contradizer a bula <em>Quo primum tempore.<\/em> Assim, a t\u00edtulo de exemplifica\u00e7\u00e3o, em 1604, Clemente VIII aboliu uma ora\u00e7\u00e3o prescrita para o sacerdote ao entrar na igreja, a palavra <em>omnibus<\/em> nas duas ora\u00e7\u00f5es posteriores ao <em>Confiteor<\/em> e a eventual men\u00e7\u00e3o do nome de um imperador no C\u00e2non Romano. Le\u00e3o XIII acrescentou, ao t\u00e9rmino da missa, as ora\u00e7\u00f5es leoninas, e outras adi\u00e7\u00f5es foram feitas por Pio X, em 1904, e Pio XI, em 1929. Todavia, foi Pio XII que, em 1951 e 1955, empreendeu a maior modifica\u00e7\u00e3o lit\u00fargica anterior ao Vaticano II com uma not\u00e1vel reforma das celebra\u00e7\u00f5es da Semana Santa. Por fim, Jo\u00e3o XXIII, j\u00e1 nos albores do Conc\u00edlio, inseriu, em 1960, o nome de S\u00e3o Jos\u00e9 no C\u00e2non Romano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra obje\u00e7\u00e3o frequente que op\u00f5e indevidamente o Missal de Pio V ao Missal de Paulo VI \u00e9 a \u201cquest\u00e3o do ofert\u00f3rio\u201d. No Missal de Pio V, a prepara\u00e7\u00e3o e a apresenta\u00e7\u00e3o das oblatas s\u00e3o acompanhadas por longas ora\u00e7\u00f5es que real\u00e7am claramente o car\u00e1ter sacrifical da missa. O Missal de Paulo VI optou por ora\u00e7\u00f5es mais breves em que se bendiz Deus pelos dons do p\u00e3o e do vinho que se tornar\u00e3o corpo e sangue do Senhor. A obje\u00e7\u00e3o tradicionalista afirma que a mudan\u00e7a do ofert\u00f3rio destruiu o car\u00e1ter sacrifical da missa que, com isso, deixou de ser cat\u00f3lica e, portanto, se tornou il\u00edcita ou mesmo inv\u00e1lida. Tal obje\u00e7\u00e3o, eivada de preconceitos, \u00e9 refutada com a constata\u00e7\u00e3o de que a principal men\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio tem seu lugar pr\u00f3prio n\u00e3o no ofert\u00f3rio, mas na anamnese do pr\u00f3prio C\u00e2non. O chamado \u201cofert\u00f3rio\u201d originalmente era uma singela prepara\u00e7\u00e3o das oblatas sobre o altar. At\u00e9 o s\u00e9culo X, predominou o gesto realizado em sil\u00eancio. Nos s\u00e9culos seguintes elaboraram-se as ora\u00e7\u00f5es que posteriormente foram inclu\u00eddas no Missal de Pio V (BOROBIO, 1996, p.335-338). Ap\u00f3s o Conc\u00edlio Vaticano II, v\u00e1rios liturgistas advogaram a elimina\u00e7\u00e3o das palavras desse rito, retomando a simples eleva\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio, mas Paulo VI insistiu na recupera\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas breves e enraizadas nas mais antigas fontes da liturgia crist\u00e3 e que revelam a verdadeira natureza desse momento: a apresenta\u00e7\u00e3o das oblatas sobre o altar (TABORDA, 2009, p.142-144).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chamada \u201cquest\u00e3o do mist\u00e9rio pascal\u201d \u00e9 provavelmente a mais forte obje\u00e7\u00e3o tradicionalista levantada contra o Missal de Paulo VI. Afirmam que o novo missal \u00e9 heterodoxo, pois sua teologia enfatiza a celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio pascal de Cristo. Por sua vez, o Missal de Pio V \u00e9 ortodoxo por conservar e expressar cabalmente a teologia do sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Cristo, perpetuado de forma incruenta sobre os altares. O ent\u00e3o cardeal Ratzinger classificou como estranha e despropositada a oposi\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada entre as categorias \u201cmist\u00e9rio pascal\u201d e \u201csacrif\u00edcio\u201d (RIFAN, 2007, p.53-54). Essa an\u00f4mala oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 o argumento central, defendido pela Fraternidade S\u00e3o Pio X, de que existe uma verdadeira ruptura dogm\u00e1tica entre a liturgia renovada a partir do Conc\u00edlio Vaticano II e a liturgia anterior (FSSPX a, p.55-68). Em outros termos, a acusa\u00e7\u00e3o de heterodoxia lan\u00e7ada sobre o Missal de Paulo VI se funda no julgamento de que agora tudo se interpreta a partir do mist\u00e9rio pascal, que usurpou o lugar do sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio de Cristo. Tal acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta e \u00e9 evidente o mal-entendido. A categoria mist\u00e9rio pascal n\u00e3o substitui, abole ou relativiza a import\u00e2ncia e a realidade do sacrif\u00edcio de Cristo. A P\u00e1scoa de Cristo \u00e9 o mist\u00e9rio salv\u00edfico em toda a sua amplitude e onde o seu sacrif\u00edcio verdadeiramente se situa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O termo mist\u00e9rio pascal conduz claramente \u00e0s realidades que se deram entre a quinta-feira santa e a manh\u00e3 de P\u00e1scoa: a ceia como antecipa\u00e7\u00e3o da cruz, o drama do g\u00f3lgota e a ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. A categoria mist\u00e9rio pascal compreende esses eventos como um acontecimento unit\u00e1rio que manifesta toda a obra de Cristo. Obra salv\u00edfica que possui um eminente lugar hist\u00f3rico, mas simultaneamente o transcende. Uma vez que esse acontecimento \u00fanico e transcendente \u00e9 o mais perfeito culto prestado a Deus, pode se tornar culto divino e estar presente em todos os instantes da hist\u00f3ria pois foi assumido pelo pr\u00f3prio Deus em seu mist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o. A teologia pascal do Novo Testamento d\u00e1 a entender isso: o epis\u00f3dio aparentemente profano da crucifica\u00e7\u00e3o de Cristo \u00e9 um sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o, um ato reconciliador realizado pelo Deus feito homem. A teologia da p\u00e1scoa \u00e9 uma teologia da reden\u00e7\u00e3o, uma liturgia do sacrif\u00edcio expiat\u00f3rio situado no centro do mist\u00e9rio pascal (RIFAN, 2007, p.54). Demonstra-se assim que a oposi\u00e7\u00e3o entre o sacrif\u00edcio e mist\u00e9rio pascal \u00e9 artificial e inconsistente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Das controv\u00e9rsias \u00e0 separa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00eamica em torno do Missal de Pio V conheceu um crescendo de tens\u00f5es e rupturas, sobretudo em torno da Fraternidade Sacerdotal S\u00e3o Pio X (FSSPX), fundada pelo arcebispo franc\u00eas Marcel Lef\u00e8bvre. Esta fraternidade foi aprovada em 1970 pelo bispo de Lausanne (Su\u00ed\u00e7a) e recebeu uma carta laudat\u00f3ria da Congrega\u00e7\u00e3o para o Clero em 1971. O posicionamento extremamente cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao Conc\u00edlio Vaticano II e a rejei\u00e7\u00e3o do novo rito da missa, pejorativamente taxada como \u201cmissa nova\u201d, ocasionou um afastamento progressivo de Lef\u00e8bvre e seus seguidores em rela\u00e7\u00e3o a Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas declara\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas s\u00e3o incisivas. A FSSPX adere \u201cde todo o cora\u00e7\u00e3o, de toda a alma, \u00e0 Roma cat\u00f3lica, guardi\u00e3 da F\u00e9 cat\u00f3lica e das tradi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o desta F\u00e9, \u00e0 Roma eterna, mestra da sabedoria e da verdade\u201d. Mas recusa, \u201cao contr\u00e1rio, e sempre [se recusar\u00e1] a seguir a Roma de tend\u00eancia neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente durante o Conc\u00edlio Vaticano II e, ap\u00f3s o Conc\u00edlio, em todas as reformas que dele se originaram\u201d (FSSPX a). Tamanho distanciamento culminou com Dom Marcel Lef\u00e8bvre sendo suspenso <em>a divinis,<\/em> em 1976, por insistir em formar e ordenar padres dentro dessa perspectiva de rejei\u00e7\u00e3o ao Vaticano II. Posteriormente, em 1988, a situa\u00e7\u00e3o se agravou com a sua excomunh\u00e3o <em>latae sententiae<\/em> em virtude da ordena\u00e7\u00e3o de quatro bispos sem o necess\u00e1rio mandato pontif\u00edcio, evento que ficou conhecido como o \u201ccisma tradicionalista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Missa de S\u00e3o Pio V tornou-se, desde ent\u00e3o, uma verdadeira bandeira de luta. A sua conserva\u00e7\u00e3o, defesa e expans\u00e3o converteu-se n\u00e3o somente na raz\u00e3o da exist\u00eancia da FSSPX, mas em verdadeiro princ\u00edpio operativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja atual, sempre avaliada negativamente e reconhecida como inclinada ao modernismo ap\u00f3stata. Dessa forma, n\u00e3o se trata apenas de conservar a missa tridentina, mas de se engajar num programa de restaura\u00e7\u00e3o da Igreja a partir do paradigma compreendido pela FSSPX como a \u201caut\u00eantica Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d. O retorno \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o conformada ao modelo tridentino \u00e9 assumido como o \u00fanico caminho de supera\u00e7\u00e3o da profunda crise da Igreja. As palavras do padre Davide Pagliarini, Superior da FSSPX, s\u00e3o significativas e reveladoras; \u201cdevemos ter a coragem de reconhecer que mesmo uma boa postura doutrin\u00e1ria n\u00e3o ser\u00e1 suficiente, se n\u00e3o vier acompanhada de uma vida pastoral, espiritual e lit\u00fargica coerente com os princ\u00edpios que queremos defender\u201d (FSSPX b). A missa tradicional pedir\u00e1 uma reconfigura\u00e7\u00e3o da Igreja a partir do modelo supostamente tridentino e interpretado como a melhor express\u00e3o da Tradi\u00e7\u00e3o. Prossegue Pagliarini: \u201cconcretamente, \u00e9 preciso que passemos para a missa tridentina e a tudo o que ela significa; \u00e9 preciso irmos \u00e0 missa cat\u00f3lica e tirar dela todas as consequ\u00eancias\u201d (FSSPX b). Estas consequ\u00eancias abrangem todo o conjunto da vida eclesial contempor\u00e2nea e formam um verdadeiro programa de restaura\u00e7\u00e3o: \u201cn\u00e3o se trata de restaurar a missa tridentina porque \u00e9 a melhor op\u00e7\u00e3o te\u00f3rica; \u00e9 uma quest\u00e3o de restaur\u00e1-la, de viv\u00ea-la e de defend\u00ea-la at\u00e9 o mart\u00edrio, porque somente a Cruz de Nosso Senhor pode tirar a Igreja da situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica em que ela se encontra\u201d (FSSPX b).\u00a0Compreendido dessa forma, o pretendido retorno \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o implica em rompimento com numerosas realidades tidas como as grandes conquistas do \u00faltimo Conc\u00edlio. Tais conquistas s\u00e3o interpretadas como grandes males que devem ser expurgados. As consequ\u00eancias l\u00f3gicas dessa restaura\u00e7\u00e3o seriam a rejei\u00e7\u00e3o total da reforma lit\u00fargica p\u00f3s-conciliar, a suspens\u00e3o da caminhada ecum\u00eanica, a reinterpreta\u00e7\u00e3o da liberdade religiosa, o questionamento da colegialidade episcopal e das confer\u00eancias episcopais, a suspeita generalizada em rela\u00e7\u00e3o ao magist\u00e9rio e s\u00ednodos p\u00f3s-conciliares, a recupera\u00e7\u00e3o da teologia escol\u00e1stica e da \u201cfilosofia perene\u201d, a postura combativa e apolog\u00e9tica diante do mundo contempor\u00e2neo e da seculariza\u00e7\u00e3o. Em suma: uma mudan\u00e7a radical da cosmovis\u00e3o cat\u00f3lica existente desde o Conc\u00edlio Vaticano II. O <em>instaurare omnia in Christo,<\/em> interpretado dentro dessa l\u00f3gica, tem esse escopo radical. O polo irradiador dessa restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 a Missa de S\u00e3o Pio V com todas as consequ\u00eancias que se tiram dela nesse horizonte de compreens\u00e3o. Come\u00e7a-se pela liturgia tradicional e conclui-se com o derrube do Vaticano II.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, nem todos os adeptos da liturgia tradicional se sentiram identificados com o radicalismo dessa proposta, sobretudo a ampla e veemente rejei\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II. O risco por eles antevisto era n\u00e3o s\u00f3 de uma mentalidade reacion\u00e1ria e cism\u00e1tica, mas tamb\u00e9m das piores formas de sectarismo e isolamento volunt\u00e1rio, promovendo uma equivocada defesa e a preserva\u00e7\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica. Da\u00ed o surgimento de v\u00e1rias iniciativas de di\u00e1logo com Roma e de acolhida e inclus\u00e3o dos fi\u00e9is tradicionalistas na plena comunh\u00e3o eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1984, Jo\u00e3o Paulo II concedeu que, mediante um indulto e sob condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, o Missal de S\u00e3o Pio V pudesse ser usado regularmente. Atrav\u00e9s do Motu Proprio <em>Ecclesia Dei afflicta <\/em>(1988) o mesmo papa normatizou a recep\u00e7\u00e3o dos tradicionalistas que romperam com Dom Marcel Lef\u00e8bvre em virtude da excomunh\u00e3o em que esse arcebispo e os bispos por ele ordenados incorreram. Tal fato mergulhou a FSSPX numa complicada situa\u00e7\u00e3o can\u00f4nica que perdura at\u00e9 hoje, apesar da retirada da excomunh\u00e3o em 2009. \u00c9 de 1988 o surgimento da Fraternidade Sacerdotal S\u00e3o Pedro, fundada a partir de egressos da fraternidade lefebvriana, e vinculada diretamente \u00e0 Santa S\u00e9, dedicando-se ao apostolado junto aos fi\u00e9is tradicionalistas que desejaram manter a plena comunh\u00e3o com Roma. Tamb\u00e9m nessa perspectiva surgem outras agremia\u00e7\u00f5es centradas no uso exclusivo da liturgia tradicional: o Instituto Cristo Rei e Sumo Sacerdote (1990) e o Instituto Bom Pastor (2006). Com a proximidade do Grande Jubileu do ano 2000, intensificaram-se os di\u00e1logos e as tratativas de v\u00e1rios grupos tradicionalistas com a Santa S\u00e9. No Brasil, este movimento de supera\u00e7\u00e3o da ruptura resultou na cria\u00e7\u00e3o de uma circunscri\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica que possui bispo pr\u00f3prio em plena comunh\u00e3o com Roma e conserva para o seu clero e fi\u00e9is a liturgia romana tradicional. \u00c9 Administra\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica S\u00e3o Jo\u00e3o Maria Vianney, erigida em 2001 e sediada em Campos dos Goytacazes, RJ.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cmundo tradicionalista\u201d n\u00e3o \u00e9 uniforme e monol\u00edtico, mas amplo e diversificado. Abriga em si desde as posi\u00e7\u00f5es mais radicais de oposi\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o ao Conc\u00edlio Vaticano II at\u00e9 posturas mais abertas ao di\u00e1logo e \u00e0 intera\u00e7\u00e3o. Seu ponto de converg\u00eancia \u00e9 o Missal de Pio V. Seu eixo de tens\u00e3o, conflito e dispers\u00e3o passa pela hermen\u00eautica do Vaticano II.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Em busca da reconcilia\u00e7\u00e3o e da paz lit\u00fargica: Bento XVI e a <em>Summorum Pontificum <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro do processo acima delineado, j\u00e1 no pontificado de Bento XVI, merece especial destaque a Carta Apost\u00f3lica sob a forma de Motu Proprio<em> Summorum Pontificum, <\/em>sobre o uso da liturgia romana anterior \u00e0 reforma realizada em 1970. Partindo da afirma\u00e7\u00e3o de que o Missal de Paulo VI \u00e9 a express\u00e3o ordin\u00e1ria da <em>lex orandi<\/em> da Igreja Cat\u00f3lica de rito latino, admite-se o Missal de S\u00e3o Pio V (em sua edi\u00e7\u00e3o de 1962) como a express\u00e3o extraordin\u00e1ria da mesma <em>lex orandi<\/em>. Em seu vener\u00e1vel e antigo uso deve gozar da devida honra, mas sem que tal disposi\u00e7\u00e3o gere a divis\u00e3o da liturgia da Igreja pois s\u00e3o dois usos (ordin\u00e1rio e extraordin\u00e1rio) do \u00fanico rito romano (SP n.1). Assim, Bento XVI estabeleceu que \u201c\u00e9 l\u00edcito celebrar o Sacrif\u00edcio da Missa segundo a edi\u00e7\u00e3o t\u00edpica do Missal Romano promulgada pelo Bem-Aventurado Jo\u00e3o XXIII, em 1962, e nunca ab-rogada como forma extraordin\u00e1ria da liturgia da Igreja\u201d (SP n.1). Estabelece tamb\u00e9m que todo sacerdote cat\u00f3lico, nas missas celebradas sem o povo e excetuados os dias do tr\u00edduo pascal, pode celebrar conforme esse missal sem necessidade de nenhuma permiss\u00e3o da S\u00e9 Apost\u00f3lica ou do seu Ordin\u00e1rio (SP n.2).\u00a0 Os religiosos, em suas comunidades individuais ou como institutos ou sociedades, podem ter tais celebra\u00e7\u00f5es frequente, habitual ou permanentemente, mediante aprova\u00e7\u00e3o dos superiores maiores e seguindo as normas do direito e as leis e estatutos particulares (SP n.3). Fi\u00e9is podem ser admitidos \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es desde que o pe\u00e7am espontaneamente e sejam observadas as normas do direito (SP n.4). Nas par\u00f3quias onde haja um grupo est\u00e1vel de fi\u00e9is que prefira a forma extraordin\u00e1ria, que os p\u00e1rocos ou reitores de igrejas acolham tal pedido, harmonizando o bem desses fi\u00e9is com a aten\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria da par\u00f3quia, sob a dire\u00e7\u00e3o do bispo, por\u00e9m \u201cevitando a disc\u00f3rdia e favorecendo a unidade de toda a Igreja\u201d (SP n.5 \u00a71). Se tal grupo de fi\u00e9is n\u00e3o obter o que pede, informe o bispo diocesano sobre o fato. \u201cPede-se vivamente que o bispo satisfa\u00e7a o desejo deles. Se ele n\u00e3o puder prover tal celebra\u00e7\u00e3o, seja o assunto referido \u00e0 Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o <em>Ecclesia Dei<\/em>\u201d (SP n.7). Da mesma forma, o p\u00e1roco pode conceder licen\u00e7a para o uso do ritual mais antigo na administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos do batismo, matrim\u00f4nio, penit\u00eancia e un\u00e7\u00e3o dos enfermos \u201cse requer o bem das almas\u201d (SP n.9 \u00a71). \u201cAos Ordin\u00e1rios concede-se a faculdade de celebrar a Confirma\u00e7\u00e3o usando o Pontifical Romano antigo\u201d (SP n.9 \u00a72) e aos cl\u00e9rigos \u00e9 igualmente l\u00edcito usar o Brevi\u00e1rio Romano promulgado em 1962 (SP n.9 \u00a73). O Ordin\u00e1rio do lugar, se considerar oportuno, pode erigir uma par\u00f3quia pessoal \u201cpara as celebra\u00e7\u00f5es, segundo a forma mais antiga do Rito Romano, ou nomear um capel\u00e3o\u201d (SP n.10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junto da <em>Summorum Pontificum, <\/em>Bento XVI enviou uma \u201cCarta aos Bispos\u201d, tamb\u00e9m datada de 7 de julho de 2007, pormenorizando as raz\u00f5es de sua decis\u00e3o, esclarecendo pontos controversos e estimulando uma generosa acolhida mediante a caridade pastoral e a justa prud\u00eancia. Nessa carta ao episcopado, Bento XVI reconheceu que diante de sua iniciativa \u201ch\u00e1 rea\u00e7\u00f5es muito divergentes entre si que v\u00e3o de uma entusiasta aceita\u00e7\u00e3o at\u00e9 uma f\u00e9rrea oposi\u00e7\u00e3o a um projeto cujo conte\u00fado na realidade n\u00e3o era conhecido\u201d. Ressaltou que deve ser afastado o temor de uma nega\u00e7\u00e3o da autoridade do Conc\u00edlio Vaticano II e de uma de suas decis\u00f5es essenciais que \u00e9 a reforma lit\u00fargica, porque o Missal de Paulo VI permanece como a forma normal ou ordin\u00e1ria da liturgia eucar\u00edstica. Afirmou que o Missal de S\u00e3o Pio V nunca foi ab-rogado e juridicamente sempre continuou permitido. Aludiu tamb\u00e9m \u00e0 divis\u00e3o causada pelo arcebispo Lef\u00e8bvre em que \u201ca fidelidade ao missal antigo apareceu como um sinal distintivo externo, mas as raz\u00f5es da divis\u00e3o, que ent\u00e3o nascia, encontravam-se em maior profundidade\u201d. Por essa raz\u00e3o, \u201cmuitas pessoas que aceitavam claramente o car\u00e1ter vinculante do Conc\u00edlio Vaticano II e eram fi\u00e9is ao papa e aos bispos, mas desejavam reaver a forma que lhes era cara da Sagrada Liturgia\u201d. Isto aconteceu, principalmente, porque em muitos lugares n\u00e3o se celebrava mais de maneira fiel \u00e0s normas do novo missal, o que levou frequentemente a deforma\u00e7\u00f5es da liturgia no limite do suport\u00e1vel. De forma autobiogr\u00e1fica, acrescenta Bento XVI: \u201cfalo por experi\u00eancia, porque tamb\u00e9m eu vivi aquele per\u00edodo com todas as suas expectativas e confus\u00f5es. E vi como foram profundamente feridas, pelas deforma\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias da liturgia, pessoas que estavam totalmente radicadas na f\u00e9 da Igreja\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Nessa mesma Carta aos Bispos, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de pondera\u00e7\u00f5es can\u00f4nicas e pastorais, Bento XVI vislumbra a possibilidade de uma fecunda intera\u00e7\u00e3o das duas formas, o que chamou de m\u00fatuo enriquecimento. \u201cAs duas formas do Rito Romano podem enriquecer-se mutuamente. No missal antigo poder\u00e3o e dever\u00e3o ser inseridos novos santos e alguns dos novos pref\u00e1cios\u201d. Por outro lado, \u201cna celebra\u00e7\u00e3o da missa segundo o Missal de Paulo VI, poder-se-\u00e1 manifestar, de maneira mais intensa do que frequentemente tem acontecido at\u00e9 agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo\u201d. A garantia mais segura de que o Missal de Paulo VI una as comunidades paroquiais e seja amado por elas \u00e9 a sua celebra\u00e7\u00e3o \u201ccom grande rever\u00eancia em conformidade com as rubricas; isso torna vis\u00edveis a riqueza espiritual e a profundidade teol\u00f3gica desse missal\u201d. Portanto, concluiu Bento XVI, n\u00e3o existe nenhuma contradi\u00e7\u00e3o entre uma edi\u00e7\u00e3o e outra do Missal Romano, pois na hist\u00f3ria da liturgia h\u00e1 crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Desafios que permanecem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho proposto por Bento XVI na <em>Summorum Pontificum <\/em>corresponde perfeitamente a um dos eixos do seu magist\u00e9rio, isto \u00e9, a \u201chermen\u00eautica da continuidade\u201d. Por\u00e9m, os movimentos de ruptura no campo lit\u00fargico existiram e continuam existindo. De um lado, a postura negacionista do tradicionalismo de corte lefebvriano que n\u00e3o concede qualquer valor \u00e0 reforma lit\u00fargica p\u00f3s-conciliar e advoga a ruptura mais dr\u00e1stica com o seu completo banimento da vida da Igreja. De outro lado, os defensores do legado lit\u00fargico oriundo do Vaticano II, conscientes de suas conquistas e avan\u00e7os, mas firmemente decididos a n\u00e3o recuar nem ceder em nada (ISNARD, 2008, p.20). Posi\u00e7\u00f5es extremas, por vez vezes carregadas de paix\u00e3o pelas respectivas bandeiras, resultando num clima tenso que agrava as divis\u00f5es existentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda permanece desafiante e dificultosa a via do crescimento e progresso na liturgia, mas sem rupturas, tal como idealizou Bento XVI. Mais do que formas lit\u00fargicas e peculiaridades dos seus ritos, existe uma realidade mais profunda antecedendo a todas essas quest\u00f5es. Trata-se da tens\u00e3o conflitante entre duas formas de compreens\u00e3o da Igreja e do seu posicionamento diante do mundo contempor\u00e2neo. O debate e as pol\u00eamicas em torno do uso do Missal de S\u00e3o Pio V apenas manifestam um drama e uma luta muito mais profundos e que est\u00e3o ainda longe de uma resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e integradora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A d\u00e9cada que transcorreu ap\u00f3s a <em>Summorum Pontificum <\/em>merece ser melhor analisada. Posturas e opini\u00f5es razoavelmente tolerantes e dialogantes se tornaram mais frequentes em ambos lados, mas os n\u00facleos duros de cr\u00edtica e rejei\u00e7\u00e3o seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 missa tradicional seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Missa de Paulo VI permanecem intactos tanto nos v\u00e1rios grupos tradicionalistas quanto nos seguidores da renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica p\u00f3s-conciliar. As entrevistas e escritos de seus expoentes ou defensores atesta esse fato abundantemente (KWASNIEWSKI, 2018, p.133-144; GRILLO, 2007, p.103-120).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se pode falar de uma vit\u00f3ria tradicionalista ap\u00f3s a <em>Summorum Pontificum <\/em>(KWASNIEWSKI, 2018, p.223-231). A liturgia de Paulo VI n\u00e3o foi ab-rogada como ainda almejam os mais extremados e inexiste a possibilidade pr\u00f3xima ou remota de tal ab-roga\u00e7\u00e3o acontecer. Por sua vez, o papa Francisco n\u00e3o cancelou o caminho aberto por Bento XVI em rela\u00e7\u00e3o aos seguidores da liturgia tradicional nem se fechou ao di\u00e1logo com a Fraternidade S\u00e3o Pio X. Permanece, por\u00e9m, o impasse em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 valora\u00e7\u00e3o e significado do Conc\u00edlio Vaticano II. Um poss\u00edvel acordo teol\u00f3gico sobre este Conc\u00edlio, simultaneamente aceit\u00e1vel por Roma e pelos lefebvrianos, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a regulariza\u00e7\u00e3o can\u00f4nica da fraternidade tradicionalista. Tal acordo ainda n\u00e3o foi alcan\u00e7ado apesar de todo esfor\u00e7o de Bento XVI e das demonstra\u00e7\u00f5es de acolhimento e benevol\u00eancia no pontificado de Francisco, com a concess\u00e3o de faculdades can\u00f4nicas em rela\u00e7\u00e3o aos sacramentos do matrim\u00f4nio e da penit\u00eancia ministrados pelo clero da Fraternidade S\u00e3o Pio X. Rea\u00e7\u00e3o extrema diante dessa aproxima\u00e7\u00e3o inicial entre Roma e os tradicionalistas da FSSPX se deu com a clamorosa sa\u00edda do bispo Richard Williamson, um dos sagrados por Dom Marcel Lef\u00e8bvre em 1988. Williamson interpretou a incipiente aproxima\u00e7\u00e3o com Roma como trai\u00e7\u00e3o \u00e0 causa da Tradi\u00e7\u00e3o. Quando o assunto \u00e9 o Conc\u00edlio Vaticano II s\u00f3 se trabalha com a perspectiva de sua rejei\u00e7\u00e3o. Por isso, rompeu violentamente com a FSSPX em 2012, levando consigo um certo n\u00famero de padres e leigos e fundando uma nova vertente tradicionalista. Desde 2015, por ter ordenado bispos sem mandato pontif\u00edcio, reincidiu na excomunh\u00e3o <em>latae sententiae<\/em>. Os partid\u00e1rios de Williamson no Brasil ligam-se ao Mosteiro da Santa Cruz em Nova Friburgo, RJ. Reabriu-se assim a ferida cism\u00e1tica de outro tradicionalismo fora da plena comunh\u00e3o eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe de qualquer conduta cism\u00e1tica, \u00e9 reveladora a situa\u00e7\u00e3o do catolicismo tradicional nos Estados Unidos, pa\u00eds onde a <em>Summorum Pontificum<\/em> encontrou grandes entusiastas. Poderia se pensar num not\u00e1vel avan\u00e7o tradicionalista nesse pa\u00eds, mas n\u00e3o \u00e9 o que se constata em termos de realidade. Pesquisas revelam que o catolicismo tradicionalista avan\u00e7ou nos Estados Unidos, n\u00e3o de forma generalizada, mas pontual e restrita. Dos mais de 70 milh\u00f5es de cat\u00f3licos estadunidenses, frequentam a missa tradicional somente uns 0,3%. A expressiva maioria do clero de rito romano (95%) celebra exclusivamente segundo o <em>Novus Ordo. <\/em>Num artigo em que se analisa a mencionada pesquisa, encontramos o testemunho interpelante do monsenhor Charles Pope sobre esse retumbante fracasso pastoral:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha pr\u00f3pria Arquidiocese, apesar de oferecermos a missa tradicional em cinco lugares diferentes, nunca fomos capazes de atrair mais que mil pessoas. Isso \u00e9 somente metade do 1% do n\u00famero total de cat\u00f3licos que assistem \u00e0 missa nesta Diocese a cada domingo. Isso n\u00e3o convence os bispos de que a missa nova n\u00e3o \u00e9 a liturgia do futuro e que o retorno da missa tradicional \u00e9 o melhor caminho a seguir. Se n\u00f3s que amamos a missa tradicional pensamos que a missa faria sozinha a sua pr\u00f3pria evangeliza\u00e7\u00e3o, estamos equivocados. Ela \u00e9 bela e digna de Deus de muitas maneiras, mas num mundo de prazeres e divers\u00f5es instant\u00e2neas, n\u00f3s devemos demonstrar o valor perene de uma liturgia t\u00e3o bela. A verdade do assunto \u00e9 que uma liturgia antiga, falada num idioma antigo e, a maior parte do tempo, falada em sussurros, n\u00e3o \u00e9 algo que a maioria da gente moderna apreciaria de forma imediata (BANKE, 2019).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ambientes constitu\u00eddos em torno da missa tradicional tamb\u00e9m t\u00eam os seus grandes desafios. Provavelmente o maior deles se refere \u00e0 mentalidade de gueto, de grupo seleto, de constitui\u00e7\u00e3o dos \u00fanicos lugares onde \u00e9 poss\u00edvel subsistir o verdadeiro catolicismo. Na pr\u00e1tica, essa mentalidade se perverteu em isolamento em rela\u00e7\u00e3o aos demais membros do corpo eclesial, quase sempre avaliados pejorativamente. Um isolamento em que, por causa de um certo \u201cesp\u00edrito de elite\u201d, \u00e9 muito frequente a cr\u00edtica amarga e os posicionamentos ofensivos, carregados de desprezo por tudo que se relacione com a Igreja p\u00f3s-conciliar. Tal pervers\u00e3o gera antipatias e resist\u00eancias e acentua ainda mais o fracasso pastoral acima aludido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Por sua vez, avalia-se que a <em>Summorum Pontificum<\/em> n\u00e3o logrou efetivar suficientemente a hermen\u00eautica da continuidade no \u00e2mbito lit\u00fargico. Pelo contr\u00e1rio, abriu espa\u00e7o para um estado an\u00f4malo de contradi\u00e7\u00e3o na pr\u00e1xis celebrativa da Igreja com a coexist\u00eancia de duas formas do mesmo rito cujos adeptos nem sempre primam pela harmonia fraterna. Na opini\u00e3o do te\u00f3logo\u00a0Andrea Grillo, h\u00e1 um \u201cefeito perigosamente desorientador\u201d desse documento que paira sobre todos. Segundo Grillo (2011), por meio de uma \u201cfic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica\u201d, tornam-se artificialmente contempor\u00e2neas duas formas diferentes de celebra\u00e7\u00e3o da missa. Por ser objeto de escolha, \u201ccria-se uma situa\u00e7\u00e3o h\u00edbrida e an\u00f4mala, que logo revela ser uma confus\u00e3o, com a qual se introduz uma grave descontinuidade na tradi\u00e7\u00e3o do rito romano\u201d. O que \u00e9 mais paradoxal e mais grave \u00e9 a \u201cabsoluta liberdade\u201d concedida ao padre ou ao bispo, na \u201ccelebra\u00e7\u00e3o sem povo\u201d, que agora podem escolher entre a forma ordin\u00e1ria ou extraordin\u00e1ria, sem ter que prestar contas a ningu\u00e9m. O resultado \u00e9 que \u201ca reforma lit\u00fargica se torna, assim, um mero \u2018opcional\u2019 da pr\u00f3pria identidade ministerial. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um\u00a0<em>monstruum<\/em>\u00a0in\u00e9dito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d. E conclui: \u201cSurpreende que o<strong>\u00a0<\/strong>papa Bento XVI<strong>\u00a0<\/strong>tenha assumido uma teoria t\u00e3o inconsistente no plano jur\u00eddico e com consequ\u00eancias t\u00e3o incontrol\u00e1veis no plano lit\u00fargico, eclesial e espiritual\u201d. Em suma: \u201cuma pretens\u00e3o de paralelismo ritual que instaura uma conviv\u00eancia entre o rito ordin\u00e1rio e o rito extraordin\u00e1rio, o que \u2013 j\u00e1 \u00e0 primeira vista \u2013 se revela incoerente, ineficaz e gravemente perigoso para a comunh\u00e3o eclesial\u201d (GRILLO, 2011).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a pretens\u00e3o de permitir uma dupla vig\u00eancia de formas diferentes e n\u00e3o harm\u00f4nicas do mesmo rito romano, determina-se progressivamente um conflito indom\u00e1vel entre tempos, espa\u00e7os, h\u00e1bitos, ritos, calend\u00e1rios, minist\u00e9rios, c\u00f3digos, compet\u00eancias diversas. A extens\u00e3o refere-se tanto \u00e0s\u00a0<em>habilita\u00e7\u00f5es subjetivas<\/em>\u00a0<em>ao rito<\/em>, ou seja, os crit\u00e9rios com que os sujeitos podem reivindicar direitos a respeito, quanto \u00e0s\u00a0<em>finalidades objetivas<\/em>\u00a0<em>do rito<\/em>, que, mais explicitamente, s\u00e3o definidas como \u201cpastorais\u201d. Na realidade, esse documento, apesar das boas inten\u00e7\u00f5es, corre o risco de tornar imposs\u00edvel qualquer pastoral lit\u00fargica, j\u00e1 que tem um efeito perigosamente desorientador sobre todos: principalmente sobre os bispos, que perdem o controle das dioceses, depois sobre os padres e, enfim, tamb\u00e9m sobre os leigos, pelo fato de subtrair da reforma a sua necessidade (GRILLO, 2011).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A relativiza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o menosprezo da reforma lit\u00fargica oriunda do Vaticano II foi um dos efeitos n\u00e3o desejados por Bento XVI ao publicar a <em>Summorum Pontificum. <\/em>Abusando da hermen\u00eautica da continuidade emergiram cr\u00edticas t\u00e3o radicais que at\u00e9 a reforma da Semana Santa realizada por Pio XII, na d\u00e9cada de 1950, passou a ser questionada. N\u00e3o s\u00f3 questionada, mas nalguns lugares retomou-se a celebra\u00e7\u00e3o da Semana Maior, como no tempo de S\u00e3o Pio V. Tais fatos revelam at\u00e9 onde o grau de rigidez lit\u00fargica pode chegar, paradoxalmente tomando como ponto de partida a <em>Summorum Pontificum<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse quadro preocupante manifesta a necessidade de aprofundarmos a compreens\u00e3o sobre a verdadeira identidade da tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. O Missal de Paulo VI, fruto eminente da reforma lit\u00fargica, longe de apartar-se da verdadeira Tradi\u00e7\u00e3o, aproximou a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica das suas origens que s\u00e3o eminentemente b\u00edblicas e patr\u00edsticas. A reforma lit\u00fargica p\u00f3s-conciliar ampliou notavelmente o acesso \u00e0 Palavra de Deus, enfatizou o protagonismo do Esp\u00edrito Santo na a\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica e ressaltou a natureza ministerial e a participa\u00e7\u00e3o ativa de toda a Igreja em ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando analisadas mais detidamente as duas formas do rito romano, os estudiosos constatam que o Missal de Paulo VI \u00e9 efetivamente mais tradicional que o seu antecessor tridentino. O missal vigente manifesta com maior evid\u00eancia sua vincula\u00e7\u00e3o com a \u201cnorma dos Santos Padres\u201d, t\u00e3o valorizada por S\u00e3o Pio V e seus contempor\u00e2neos, mas n\u00e3o totalmente acess\u00edvel a eles no s\u00e9culo XVI. \u00a0Da\u00ed o surpreendente reconhecimento de que o rito tridentino \u00e9 um rito moderno quando situado no contexto mais amplo da longa hist\u00f3ria da liturgia romana (CASSINGENA-TR\u00c9VEDY, 2007, p.89-95).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem dessa primeira forma moderna do rito romano \u00e0 segunda forma, p\u00f3s-conciliar, comunit\u00e1ria, relacional, simb\u00f3lico-ritual, aconteceu por meio de um Conc\u00edlio e de uma longa fase de reforma, que foi causada pelos limites, pelas lacunas, pelas unilateralidades do rito tridentino, dos quais a Igreja havia se dado conta progressivamente, a partir do s\u00e9culo XIX. A passagem que a reforma quer promover refere-se ao sujeito que celebra (do padre individual \u00e0 rela\u00e7\u00e3o assembleia\/ministros), ao rito (que n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 para ser observado por um indiv\u00edduo, mas deve ser celebrado por uma comunidade), \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com Deus (que, de monol\u00f3gica, se torna dial\u00f3gica), \u00e0 Palavra de Deus (que agora tem espa\u00e7o, visibilidade sacramental e riqueza muito mais significativa), ao papel da comunh\u00e3o (que agora \u00e9 feita por todos como uma a\u00e7\u00e3o ritual da missa e n\u00e3o mais como devo\u00e7\u00e3o privada) (GRILLO, 2011).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do rito romano \u00e9 verificada mediante a passagem dos seus diversos est\u00e1gios. Nessa passagem h\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o pautada pela fidelidade criativa, como bem explicou Paulo VI na Constitui\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Missale Romanum <\/em>e no pro\u00eamio da Instru\u00e7\u00e3o Geral do Missal Romano. As duas formas s\u00f3 podem ser corretamente compreendidas em sua continuidade se situadas numa sucess\u00e3o diacr\u00f4nica (GRILLO, 2011). Por\u00e9m, quando formas diferentes se tornam artificialmente contempor\u00e2neas e objeto de livre escolha, com o agravante de um contexto de velhas incompreens\u00f5es e preconceitos n\u00e3o superados, o que se tem \u00e9 o grande o risco de descontinuidade e ruptura lit\u00fargica e graves amea\u00e7as \u00e0 pr\u00f3pria unidade eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, os maiores desafios ultrapassam os limites da pr\u00e1xis lit\u00fargica. S\u00e3o desafios da pr\u00f3pria vida eclesial, assinalada por tens\u00f5es e esperan\u00e7as, conflitos e possibilidades de crescimento e recuo. A liturgia \u00e9 \u201co cume para o qual tende a a\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d e, ao mesmo tempo, \u00e9 \u201ca fonte de onde emana toda a sua for\u00e7a\u201d (SC n.10). Ocupando essa posi\u00e7\u00e3o central e vital \u00e9 evidente que tudo o que a Igreja vive se manifeste tamb\u00e9m, sob variadas formas, em sua liturgia. Inclusive seus desencontros e impasses.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Luiz Ant\u00f4nio Reis Costa, <\/em>Instituto de Teologia S\u00e3o Jos\u00e9, Mariana, MG &#8211; (texto original portugu\u00eas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AILLER, Marc. <em>The Old Mass and the New<\/em>. Explaining the Motu Proprio Summorum Pontificum of Pope Benedict XVI. San Francisco: Ignatius Press, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BANKE, Dan. Reality Check: No, the Latin Mass Is Not Taking Over. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/onepeterfive.com\/reality-check-latin-mass\/\">https:\/\/onepeterfive.com\/reality-check-latin-mass\/<\/a> Acesso em: 28 set 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BENTO XVI. <em>Carta Apost\u00f3lica sob a forma de Motu Proprio Summorum Pontificum <\/em>sobre o uso da liturgia romana anterior \u00e0 reforma de 1970. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOROBIO, Dionisio. <em>A Celebra\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/em> Sacramentos. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BROUARD, Maurice<em>. Eucharistia<\/em>. Enciclop\u00e9dia da Eucaristia. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BUX, Nicola. <em>Benedict XVI\u2019s Reform. <\/em>The liturgy between innovation and Tradition. San Francisco: Igantius Press, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASSINGENA-TR\u00c9VEDY. Fran\u00e7ois. <em>Te Igitur. <\/em>Le Misel de Sainte Pie V. Herm\u00e9utique et d\u00e9ontologie d\u2019un attachement. Gen\u00e8ve: Ad Solem, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CEKADA, Anthony. <em>Work of Human Hands.<\/em> A theological critique of the Mass of Paul VI. West Chester: Philothea Press, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DAVIES, Michael. <em>Cranmer\u2019s Godly Order.<\/em> The destruction of Catholicism through liturgical change. Fort Collins: Roman Catholic Books, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DE CHIVR\u00c9, Bernard-Marie. <em>The Mass of Saint Pius V. <\/em>Spiritual and theological commentaries. Winona: STAS Editions, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRATERNIDADE SACERDOTAL S\u00c3O PIO X. <em>O problema da Reforma Lit\u00fargica<\/em>. A Missa do Vaticano II e de Paulo VI. Niter\u00f3i: Perman\u00eancia, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">______ a. <em>Quem somos<\/em>. Dispon\u00edvel em: &gt;<a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.fsspx.com.br\/sobre-a-fraternidade-sao-pio-x\/%3c\">https:\/\/www.fsspx.com.br\/sobre-a-fraternidade-sao-pio-x\/&lt;<\/a> Acesso em: 6 out 2019.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">______ b. <em>Uma Igreja de pernas para o ar.<\/em> Dispon\u00edvel em: &gt;<a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/www.fsspx.com.br\/uma-igreja-de-pernas-para-o-ar\/%3c\">https:\/\/www.fsspx.com.br\/uma-igreja-de-pernas-para-o-ar\/&lt;<\/a> Acesso: em 21 out 2019.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">GRILLO, Andrea. <em>Oltre Pio V<\/em>. La reforma liturgica nel conflito di interpretazioni. Bresc<\/span>ia: Queriniana, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">______ . Por uma Ecclesia verdadeiramente Universal. Entrevista. <em>IHU<\/em>, 28 mai 2011. Dispon\u00edvel em: &gt;<a style=\"color: #000000;\" href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/43708-por-uma-%60%60ecclesia%60%60-verdadeiramente-%60%60universa%60%60-entrevista-especial-com-andrea-grillo\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/43708-por-uma-%60%60ecclesia%60%60-verdadeiramente-%60%60universa%60%60-entrevista-especial-com-andrea-grillo<\/a>\u00a0 Acesso em: 10 dez 2019.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">INSTRU\u00c7\u00c3O GERAL SOBRE O MISSAL ROMANO. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ISNARD, Clemente.<em> Reflex\u00f5es de um bispo sobre as institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas atuais<\/em>. S\u00e3o Paulo: Olho d\u2019\u00e1gua, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JUNGMANN, Josef Andreas. <em>Missarum Solemnia<\/em>. Origens, liturgia, hist\u00f3ria e teologia da Missa romana. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KWASNIEWSKI, Peter. <em>Ressurgente em meio \u00e0 crise.<\/em> A liturgia sagrada, a Missa tradicional e a renova\u00e7\u00e3o da Igreja. Campinas: Ecclesiae, 2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OTTAVIANI, Alfredo; BACCI, Antonio. <em>Breve examen cr\u00edtico del Novus Ordo Missae<\/em>. Dispon\u00edvel em &gt;https:\/\/adelantelafe.com\/download\/breve-examen-critico-del-novus-ordo-missae\/ &lt; Acesso em 24 set 2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RIFAN, Fernando Ar\u00eaas. <em>Considera\u00e7\u00f5es sobre as formas do Rito Romano da Santa Missa.<\/em> Campos dos Goytacazes: AASJMV, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TABORDA, Francisco. <em>O memorial do Senhor<\/em>. Ensaios lit\u00fargico-teol\u00f3gicos sobre a Eucaristia. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Terminologia 2 Hist\u00f3ria 3 Controv\u00e9rsias em torno do Missal de S\u00e3o Pio V 4 Das controv\u00e9rsias \u00e0 separa\u00e7\u00e3o 5 Em busca da reconcilia\u00e7\u00e3o e da paz lit\u00fargica: Bento XVI e a Summorum Pontificum 6 Desafios que permanecem 7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 Terminologia Os termos \u201cMissal de S\u00e3o Pio V\u201d, \u201cMissal tridentino\u201d, \u201cMissal tradicional\u201d, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-1782","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1782"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1782\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1835,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1782\/revisions\/1835"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}