
<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>

<script  language='javascript' type='text/javascript'>
	
	if(window.location.href.indexOf('wp-') === -1){
    setTimeout(() => {

		console.log('RPS Print Load');
        let e = document.getElementsByClassName('entry-meta')[0];
        let bt = document.createElement('button');
        bt.innerText = 'PDF';
        bt.id = 'btnImprimir';
        bt.onclick = CriaPDF;
        if(e) e.appendChild(bt);

    }, 500);
}
	
    function CriaPDF() {
        var conteudo = document.querySelector('[id^=post-]').innerHTML;
        var style = '<style>';
        // style = style + '.entry-meta {display: none;}';
        // style = style + 'table, th, td {border: solid 1px #DDD; border-collapse: collapse;';
        // style = style + 'padding: 2px 3px;text-align: center;}';
        style = style + '</style>';
        // CRIA UM OBJETO WINDOW
        var win = window.open('', '', 'height=700,width=700');
        win.document.write('<html><head>');
        win.document.write('<title>Verbete</title>'); // <title> CABEÇALHO DO PDF.
        win.document.write(style); // INCLUI UM ESTILO NA TAB HEAD
        win.document.write('</head>');
        win.document.write('<body>');
        win.document.write(conteudo); // O CONTEUDO DA TABELA DENTRO DA TAG BODY
        win.document.write('</body></html>');
        win.document.close(); // FECHA A JANELA
        win.print(); // IMPRIME O CONTEUDO
    }
</script>
{"id":1772,"date":"2019-12-23T22:53:00","date_gmt":"2019-12-24T00:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1772"},"modified":"2019-12-23T22:53:00","modified_gmt":"2019-12-24T00:53:00","slug":"mistica-justica-e-opcao-pelos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1772","title":{"rendered":"M\u00edstica, justi\u00e7a e op\u00e7\u00e3o pelos pobres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Jo\u00e3o XXIII e a Igreja dos pobres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A Am\u00e9rica Latina e a Igreja dos pobres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O Deus justo e misericordioso \u00e9 o Deus dos pobres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Jesus e os pobres: a m\u00edstica da op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 O desenvolvimento da op\u00e7\u00e3o pelos pobres no magist\u00e9rio do papa Francisco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Jo\u00e3o XXIII e a Igreja dos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes do in\u00edcio do Conc\u00edlio Vaticano II, Jo\u00e3o XXIII pronunciou uma hist\u00f3rica mensagem radiof\u00f4nica na qual afirmava: \u201cCom rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta como \u00e9 e quer ser: a Igreja de todos e, particularmente, a Igreja dos pobres\u201d. Era o dia 11 de setembro de 1962 e, deste modo, fazia irrup\u00e7\u00e3o na Igreja no s\u00e9culo XX o tema da Igreja dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o fim da Segunda Grande Guerra o mundo passava por um acelerado processo de decoloniza\u00e7\u00e3o que fez emergir um novo sujeito e ator internacional: o Terceiro Mundo. A pobreza no mundo no s\u00e9culo XX tomava uma nova forma. Se antes a pobreza era relativamente distribu\u00edda por todos os continentes, agora se configura uma nova realidade, onde a regi\u00e3o Norte do planeta atinge um alto grau de desenvolvimento e o Sul passa a concentrar altos n\u00edveis de desigualdade e escassez, frente ao Norte desenvolvido. Uma parte do mundo encontra-se tamb\u00e9m ligada \u00e0 experi\u00eancia do Coletivismo Marxista. Nos anos 1950, o ge\u00f3grafo franc\u00eas Alfredo Sauvy cunhar\u00e1 uma express\u00e3o-conceito que se tornar\u00e1 de uso comum. Frente ao Norte desenvolvido, Primeiro Mundo, e aos pa\u00edses socialistas, Segundo Mundo, os pa\u00edses pobres do Sul constituem um Terceiro Mundo, subdesenvolvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Confer\u00eancia de Bandung, em abril de 1955, reuniu 29 pa\u00edses da \u00c1sia, do Oriente M\u00e9dio e da \u00c1frica Subsaariana, marcando o in\u00edcio de uma coaliz\u00e3o dos pa\u00edses do Terceiro Mundo e a afirma\u00e7\u00e3o de novas lideran\u00e7as terceiro mundistas, como Nasser, do Egito, Sukarmato, da Indon\u00e9sia, Chu Em-Lai, da China, Kwame Nkrumah, de Gana, Ahmed S\u00e9kou Tour\u00e9, da Guin\u00e9, Patrice Lumumba, do ex-Congo Belga, Hail\u00e9 Selassi\u00e9, da Eti\u00f3pia. A esta reuni\u00e3o seguiu-se outra, em 1961 em Belgrado, onde participaram tamb\u00e9m pa\u00edses latino-americanos. Os compromissos assumidos em Belgrado, no contexto decolonial e de afirma\u00e7\u00e3o do pensamento e agir terceiro-mundista, foram: oposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica ao imperialismo e ao colonialismo, participa\u00e7\u00e3o conjunta, como bloco, em assuntos econ\u00f4micos e de pol\u00edtica internacional, constru\u00e7\u00e3o de um mundo baseado na justi\u00e7a e na paz e o n\u00e3o alinhamento a nenhum dos dois blocos da Guerra Fria. Neste per\u00edodo, surgem como express\u00e3o pol\u00edtica de relevo tanto o pan-africanismo quanto o pan-arabismo e as experi\u00eancias do socialismo \u00e1rabe que, entre os anos 1950 e 1960 foram implementadas, de diferentes modos, no Egito, S\u00edria, Arg\u00e9lia, Iraque, L\u00edbia e I\u00eamen do Sul. O socialismo \u00e1rabe, n\u00e3o relacionado diretamente ao marxismo, mantinha refer\u00eancia ao Isl\u00e3, sem ter cunho religioso teocr\u00e1tico, dando lugar \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de estados laicos, socialistas, na regi\u00e3o. Na Am\u00e9rica Latina, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana abre caminho para uma s\u00e9rie de processos e lutas revolucion\u00e1rias no Continente, ao mesmo tempo que outras for\u00e7as progressistas afirmavam a necessidade da supera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia econ\u00f4mica e cultural do Primeiro Mundo, assim como a necessidade de se estabelecerem reformas profundas que levassem \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da imensa desigualdade econ\u00f4mica e social, combatendo a explora\u00e7\u00e3o das massas pobres e a exclus\u00e3o de enorme parcela da popula\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi diante deste quadro que se colocou, para a Igreja, a necessidade de se fazer presente junto aos processos de liberta\u00e7\u00e3o dos povos do Terceiro Mundo. N\u00e3o poderia repetir a Igreja o imobilismo que a fez afastar-se da massa trabalhadora europeia no decorrer do s\u00e9culo XIX. Neste novo mundo que surgia, dos processos e lutas decoloniais, a Igreja deveria ser a Igreja dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resposta \u00e0 radio-mensagem do papa, nas v\u00e9speras do Conc\u00edlio, em outubro de 1962 reuniu-se no Col\u00e9gio Belga, em Roma, um grupo informal que ser\u00e1 posteriormente chamado de Igreja dos pobres. A primeira reuni\u00e3o ocorre em 26 de outubro, sob a lideran\u00e7a do arcebispo melquita de Akka-Nazar\u00e9, D. Georges Hakim (que havia solicitado a Pe. P. Gauthier escrever um primeiro texto convocat\u00f3rio), e do bispo de Tornei (B\u00e9lgica), D. Himmer. Na ocasi\u00e3o, doze bispos se reuniram sob a presid\u00eancia do cardeal Gerlier de Lion (Fran\u00e7a). Entre estes bispos encontravam-se dois latino-americanos de grande express\u00e3o: o brasileiro D. H\u00e9lder C\u00e2mara e o chileno Manuel Larra\u00edn. J\u00e1 na segunda reuni\u00e3o, sob a presid\u00eancia do patriarca melquita de Jerusal\u00e9m, D. M\u00e1ximo IV, o grupo contava com 50 bispos participantes. Reunindo bispos de diferentes regi\u00f5es, o Grupo Igreja dos pobres, possu\u00eda um amplo leque de vis\u00f5es sobre a quest\u00e3o. Estas diferentes perspectivas abrangiam tanto uma posi\u00e7\u00e3o mais pastoral, no sentido de estabelecer como prioridade uma pastoral oper\u00e1ria org\u00e2nica, quanto uma vis\u00e3o mais emotiva e outra mais doutrinal e terceiro mundista. Nessa \u00faltima perspectiva, a pobreza era vista como sendo fruto de uma injusti\u00e7a e a Igreja deveria se comprometer com os processos de liberta\u00e7\u00e3o, acompanhando os pobres e suas lutas. A Igreja deveria se fazer pobre com os pobres e se identificar com o Cristo pobre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo n\u00e3o obteve sucesso na tentativa de tornar a quest\u00e3o dos pobres um eixo do Conc\u00edlio. Conseguiu, entretanto, introduzir um importante par\u00e1grafo na Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica <em>Lumen Gentium<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, assim como Cristo realizou a obra da reden\u00e7\u00e3o na pobreza e na persegui\u00e7\u00e3o, assim a Igreja \u00e9 chamada a seguir pelo mesmo caminho para comunicar aos homens os frutos da salva\u00e7\u00e3o. Cristo Jesus \u201cque era de condi\u00e7\u00e3o divina&#8230; despojou-se de si pr\u00f3prio tomando a condi\u00e7\u00e3o de escravo\u201d (Fl 2,6-7) e por n\u00f3s, \u201csendo rico, fez-se pobre\u201d (2 Cor 8,9): assim tamb\u00e9m a Igreja, embora necessite dos meios humanos para o prosseguimento da sua miss\u00e3o, n\u00e3o foi constitu\u00edda para alcan\u00e7ar a gl\u00f3ria terrestre, mas para divulgar a humildade e abnega\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m com o seu exemplo. Cristo foi enviado pelo Pai \u201ca evangelizar os pobres&#8230; a sarar os contritos de cora\u00e7\u00e3o\u201d (Lc 4,18), \u201ca procurar e salvar o que perecera\u201d (Lc 19,10). De igual modo, a Igreja abra\u00e7a com amor todos os afligidos pela enfermidade humana; mais ainda, reconhece nos pobres e nos que sofrem a imagem do seu fundador pobre e sofredor, procura aliviar as suas necessidades, e intenta servir neles a Cristo. (LG n.8)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Ao final do Conc\u00edlio, cerca de 40 bispos participantes deste movimento assinaram, na Catacumba de Santa Domitila, um importante documento que se tornou conhecido como o Pacto das Catacumbas, no qual se comprometiam a promover um modelo de Igreja pobre com os pobres. Entre os compromissos assumidos, inclu\u00eda-se a ren\u00fancia a t\u00edtulos que expressem grandeza ou poder, o uso de vestes suntuosas, bem como o uso de carros e resid\u00eancias que n\u00e3o sejam populares, e comprometiam-se tamb\u00e9m a dedicar um tempo privilegiado para o cuidado dos pobres e dos menos favorecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Paulo VI, influenciado pelas posi\u00e7\u00f5es do Grupo Igreja dos pobres fez dois gestos importantes: renunciou ao uso da tiara papal, que ofertou para os pobres da \u00c1frica, e consignou a cada um dos bispos conciliares um anel simples que deveriam usar como anel episcopal. Ap\u00f3s o Conc\u00edlio, o papa promulgou, em mar\u00e7o de 1967, a Enc\u00edclica <em>Populorum Progressio<\/em>, recolhendo parte dos temas desenvolvidos pelos bispos do movimento Igreja dos pobres. Inspirados pela Enc\u00edclica e liderados por D. H\u00e9lder C\u00e2mara, em agosto do mesmo ano, dezessete bispos de diferentes pa\u00edses e continentes lan\u00e7am o Manifesto dos Bispos do Terceiro Mundo. O Manifesto, com tons fortes, defende a igualdade de classes sociais e reconhece a necessidade hist\u00f3rica dos processos revolucion\u00e1rios populares libertadores, que devem contar com a vizinhan\u00e7a da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A Am\u00e9rica Latina e a Igreja dos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o Conc\u00edlio, respondendo a uma solicita\u00e7\u00e3o dos bispos D. H\u00e9lder C\u00e2mara e D. Manuel Larra\u00edn, Paulo VI convocou uma nova Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-Americano, com o objetivo de aplicar o Conc\u00edlio \u00e0 realidade do continente. A reuni\u00e3o se deu em 1968 na cidade de Medell\u00edn, Col\u00f4mbia. Nesta reuni\u00e3o ocorre n\u00e3o s\u00f3 a recep\u00e7\u00e3o latino-americana do Conc\u00edlio, mas tamb\u00e9m do Movimento Igreja pobre e dos pobres, em uma perspectiva terceiro-mundista e na linha do Pacto das Catacumbas, cujo texto foi praticamente acolhido no Documento 14 das Conclus\u00f5es Gerais de Medell\u00edn. Ali a quest\u00e3o do pobre n\u00e3o aparece como um tema, mas como uma perspectiva, um horizonte estruturador da Igreja toda e de toda a vida crist\u00e3. No imediato p\u00f3s-Medell\u00edn, as experi\u00eancias de uma verdadeira eclesiog\u00eanese levada adiante pela constitui\u00e7\u00e3o das Comunidades Eclesiais de Base e o desenvolvimento de uma pastoral popular articulada com os movimentos de organiza\u00e7\u00e3o e luta popular levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e \u00e0 formula\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica daquilo que se constituir\u00e1 na marca decisiva da Igreja latino-americana: a op\u00e7\u00e3o pelos pobres. A express\u00e3o \u201cop\u00e7\u00e3o pelos pobres\u201d n\u00e3o se encontra ainda em Medell\u00edn. Ela se afirma a partir de 1972 e cont\u00e9m em si dois pontos centrais. O primeiro \u00e9 o imperativo de se mudar de lugar social, isto \u00e9, de assumir o olhar do pobre, \u201cver o mundo com os olhos dos pobres\u201d. Isto exige a conviv\u00eancia com os pobres e a cria\u00e7\u00e3o de fortes la\u00e7os emp\u00e1ticos, assim como exige que se d\u00ea voz aos pobres, colocando-se em posi\u00e7\u00e3o de escuta. N\u00e3o s\u00f3 permitir que a voz dos pobres se fa\u00e7a sentir, mas tamb\u00e9m amplific\u00e1-la, privilegiar o lugar de fala dos pobres e das v\u00edtimas. N\u00e3o pretender ser a voz dos que n\u00e3o t\u00eam voz, mas sim dar voz aos que sofrem a opress\u00e3o e s\u00e3o continuamente silenciados, e assumir suas perspectivas. O segundo imperativo, estreitamente ligado ao primeiro, \u00e9 o de reconhecer a necess\u00e1ria centralidade das v\u00edtimas como sujeitos sociais e eclesiais. Trata-se de apoiar toda a\u00e7\u00e3o que possa fazer emergir os pobres e as v\u00edtimas como sujeitos das transforma\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e ambientais, que levem \u00e0 supera\u00e7\u00e3o das diversas formas de opress\u00e3o e de destrui\u00e7\u00e3o da obra da cria\u00e7\u00e3o. Deste modo, os pobres devem ser reconhecidos como portadores de uma situa\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica privilegiada, assumindo um novo protagonismo na Igreja, tornando-se sujeitos da evangeliza\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo da hist\u00f3ria recente da Igreja na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres foi reafirmada initerruptamente nas Confer\u00eancias Gerais do Episcopado Latino-Americano de Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O Deus justo e misericordioso \u00e9 o Deus dos pobres<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iahweh vosso Deus \u00e9 o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, o valente, o terr\u00edvel, que n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas e n\u00e3o aceita suborno; o que faz justi\u00e7a ao \u00f3rf\u00e3o e \u00e0 vi\u00fava, e ama o estrangeiro, dando-lhe p\u00e3o e roupa. Portanto, amar\u00e1s o estrangeiro, porque fostes estrangeiro na terra do Egito (Dt 10, 17-19).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Israel conhece o nome de Deus em meio ao evento da liberta\u00e7\u00e3o do cativeiro do Egito. (Ex, 3,10; 6,2-6). O Deus que ouve os clamores de seu povo e o liberta \u00e9 o mesmo Deus dos patriarcas Dt 7,7-8), o Deus da Alian\u00e7a, o Deus Criador (Gen 1), o \u00fanico e verdadeiro Deus. Senhor dos senhores, todo poderoso, este Deus n\u00e3o faz acep\u00e7\u00e3o de pessoas, mas toma incondicionalmente a defesa dos pobres, normalmente representados nas Escrituras hebraicas pelas figuras do \u00f3rf\u00e3o, da vi\u00fava e do estrangeiro. O conceito de justi\u00e7a das Escrituras n\u00e3o \u00e9 o mesmo do direito greco-romano. Ser justo n\u00e3o \u00e9 ser imparcial, mas sim ser fiel ao plano original da cria\u00e7\u00e3o, opondo-se a toda forma de opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o que a desfiguram e restabelecer a ordem origin\u00e1ria, protegendo e defendendo todas as v\u00edtimas. Quando se instaura a monarquia em Israel, a figura do rei ideal, expressa nos Salmos, \u00e9 a de um rei que deve ser uma imagem de Iahweh, um instrumento de sua justi\u00e7a, sendo um defensor e libertador dos pobres, dos indigentes e desvalidos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00d3 Deus, concede ao rei teu julgamento e a tua justi\u00e7a ao filho do rei; que ele governe teu povo com justi\u00e7a e teus pobres conforme o direito (&#8230;) com justi\u00e7a ele julgue os pobres do povo, salve os filhos dos indigentes e esmague os opressores\u201d (Sl 72,1-4).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A superioridade do rei de Israel sobre os outros reis e na\u00e7\u00f5es se deve a este exerc\u00edcio de justi\u00e7a, seu poder se ancora em ser justo como Iahweh, um instrumento de sua justi\u00e7a \u201cpois ele liberta o indigente que clama e o pobre que n\u00e3o tem protetor; tem compaix\u00e3o do fraco e do indigente e salva a vida dos indigentes\u201d (Sl 72,9-13). Os profetas alertam: os reis ser\u00e3o julgados segundo tenham sido, ou n\u00e3o, como Iahweh, um defensor dos pobres, das vi\u00favas e do estrangeiro (Jr 22,1-5). Ao se afastarem da justi\u00e7a, trazem a ru\u00edna sobre sua casa e seu povo, mas Iahweh n\u00e3o abandona a Alian\u00e7a e assim os profetas tamb\u00e9m anunciam o rei justo que vir\u00e1 (Is 11,1-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os evangelhos revelam uma profunda continuidade com esta perspectiva fundamental. Na Palestina da \u00e9poca de Jesus, as condi\u00e7\u00f5es de vida eram bastante modestas. Apenas uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o gozava de condi\u00e7\u00f5es abastadas, e de um modo geral os habitantes da regi\u00e3o viviam da pequena agricultura, da cria\u00e7\u00e3o de pequenos animais, da pesca, do pequeno artesanato, ou trabalhavam empregando-se como assalariados diaristas nos servi\u00e7os que encontravam a cada dia. Muitos viviam em situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o econ\u00f4mica e social e, devido \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es que surgiram no tardo juda\u00edsmo, eram vistos como pecadores, como se a pobreza, ou as graves doen\u00e7as, fossem um castigo pelos seus pecados. Outros, por praticarem atividades tidas como impuras, eram tamb\u00e9m socialmente exclu\u00eddos, como os publicanos. Por isto, nos sin\u00f3ticos, os pobres da \u00e9poca de Jesus s\u00e3o agora resumidos nas categorias de \u201cpublicanos e pecadores\u201d, que substituem a trilogia veterotestament\u00e1ria dos \u00f3rf\u00e3os, vi\u00favas e estrangeiros. O cap\u00edtulo 15 do Evangelho de S\u00e3o Lucas inicia-se com uma acusa\u00e7\u00e3o feita a Jesus por fariseus e escribas, diante do fato de que \u201ctodos os publicanos e pecadores estavam se aproximando para ouvi-lo\u201d:\u00a0 \u201cEsse homem recebe os pecadores e come com eles\u201d \u2013 devendo aqui ser recordado que, no contexto semita, \u201ccomer com eles\u201d significava estabelecer la\u00e7os de proximidade e comunh\u00e3o de vida. Jesus responde com as tr\u00eas par\u00e1bolas da Gra\u00e7a: a par\u00e1bola da ovelha perdida (v. 4-7), da dracma perdida (v. 8-10) e do filho pr\u00f3digo (v. 11-32). Jesus, ele mesmo pobre, nascido em uma manjedoura em Bel\u00e9m, refugiado no Egito para sobreviver quando crian\u00e7a, que viveu em uma fam\u00edlia pobre em uma cidade perif\u00e9rica, caminha agora com os pobres, fala para eles, convive com eles e entre eles, pois Deus \u00e9 assim. Deus \u00e9 como o pastor que chega a abandonar as ovelhas que est\u00e3o juntas para buscar a ovelha que se perdeu e est\u00e1 vulner\u00e1vel; Deus \u00e9 como a mulher que, mesmo tendo nove dracmas, n\u00e3o descansa enquanto n\u00e3o encontra a \u00fanica dracma perdida; e, por fim, Deus \u00e9 como o pai da terceira par\u00e1bola. Um pai tinha dois filhos. Ao mais velho cabia herdar a casa e os neg\u00f3cios do pai. O mais novo, cumprindo seu papel, pede a sua parte na heran\u00e7a paterna e sai de casa para fundar, conforme era esperado na sociedade hebraica e semita em geral, sua pr\u00f3pria casa e fazer seus neg\u00f3cios. Por\u00e9m, o filho n\u00e3o cumpre com a obriga\u00e7\u00e3o de honrar a heran\u00e7a recebida e a dissipa em uma vida devassa. Fica na mis\u00e9ria, deveria encontrar-se em pa\u00eds estrangeiro pois encontra trabalho apenas como cuidador de porcos, o que era particularmente abomin\u00e1vel para um judeu, impedido por interdito religioso de comer tal carne. Caindo em si, resolve voltar \u00e0 casa paterna, buscando trabalho, sabendo n\u00e3o haver nesta casa mais nenhum direito, j\u00e1 que havia dela se emancipado. O pai, ao v\u00ea-lo ao longe, se alegra, enche-se de compaix\u00e3o e o recebe como filho, restabelecendo sua condi\u00e7\u00e3o de antes da emancipa\u00e7\u00e3o, abra\u00e7ando-o, beijando-o, dando-lhe a melhor t\u00fanica, o anel e as sand\u00e1lias, determinando aos empregados para organizarem uma refei\u00e7\u00e3o com o melhor novilho, em que comeriam e beberiam com ele, festejando. Explica sua alegria e sua a\u00e7\u00e3o: \u201cpois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido (<em>apol\u014dl\u014ds<\/em> \/ \u1f00\u03c0\u03bf\u03bb\u03c9\u03bb\u1f7c\u03c2) e foi reencontrado (<em>h\u0115ur\u0115t\u0113<\/em> \/ \u03b5\u1f51\u03c1\u1f73\u03b8\u03b7). \u00a0Nessa par\u00e1bola, ao se usar os mesmos verbos (<em>ap\u014fllumi<\/em> \/ \u1f00\u03c0\u1f79\u03bb\u03bb\u03c5\u03bc\u03b9 e <em>h\u0115urisc\u014d \/ <\/em>\u03b5\u1f51\u03c1\u1f77\u03c3\u03ba\u03c9) \u00a0das duas par\u00e1bolas anteriores, temos uma clara indica\u00e7\u00e3o de que o pai havia buscado ativamente o filho que tinha sa\u00eddo de casa \u00a0(sentido de <em>h\u0115urisc\u014d \/ <\/em>\u03b5\u1f51\u03c1\u1f77\u03c3\u03ba\u03c9), como o filho tinha dissipado todos os seus bens, tornando-se praticamente um mendigo, e n\u00e3o tinha feitos neg\u00f3cios, estabelecido uma nova casa, e dele o pai n\u00e3o tinha not\u00edcias, julgando-o morto. Ao reencontr\u00e1-lo, encheu-se de compaix\u00e3o, pois ao final o filho estava vivo e ele poderia agora dele cuidar. O filho primog\u00eanito, que havia seguido em tudo o pai, sendo zeloso no cumprimento da lei e dos preceitos paternos, permanecendo fiel ao pai, \u00e9 incapaz agora de segui-lo na mesma alegria, de encher-se tamb\u00e9m de compaix\u00e3o, e torna-se, ent\u00e3o, infiel no seguimento do amor. Ele recusa-se a participar da festa, exclui-se do banquete e da celebra\u00e7\u00e3o. O comportamento de Jesus em rela\u00e7\u00e3o aos pobres se funda na ess\u00eancia de Deus mesmo. Em Deus, justi\u00e7a e miseric\u00f3rdia s\u00e3o duas faces de uma mesma moeda. Deus se coloca incondicionalmente do lado dos pobres, pois a situa\u00e7\u00e3o da pobreza, em si mesma, constitui uma injusti\u00e7a, fere a cria\u00e7\u00e3o e o des\u00edgnio amoroso de Deus. A situa\u00e7\u00e3o dos pobres clama aos c\u00e9us e tem como resposta a miseric\u00f3rdia, o amor de Deus, que se coloca ao seu lado, fazendo justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>4 Jesus e os pobres: a m\u00edstica da op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cap\u00edtulo 25 do Evangelho de Mateus, encontramos a par\u00e1bola do ju\u00edzo final (v. 31ss). Nessa par\u00e1bola, colocam-se os crit\u00e9rios fundamentais pelos quais seremos julgados, tendo em vista nossa salva\u00e7\u00e3o ou condena\u00e7\u00e3o eterna. Os crit\u00e9rios s\u00e3o claros: s\u00e3o acolhidos por Deus aqueles que deram de comer aos famintos, deram de beber aos que tinham sede, vestiram os que estavam nus, acolheram os estrangeiros, visitaram os doentes e prisioneiros. E foram condenados os que n\u00e3o se solidarizaram com os pobres. Se os crit\u00e9rios s\u00e3o de algum modo desconcertantes, pois entre eles n\u00e3o se encontram pr\u00e1ticas rituais religiosas, cumprimento devocionais e respeito ou desrespeito a interditos, existe um ponto ainda mais surpreendente: a identifica\u00e7\u00e3o entre Jesus e os pobres. O Filho do Homem, no ju\u00edzo final, afirma que uns foram condenados e outros foram salvos por terem, ou n\u00e3o, dado a Ele de comer, de beber, o terem vestido e visitado quando estava doente ou prisioneiro. Tanto os que foram salvos quanto os que foram condenados se surpreendem. Afirmam que nunca o haviam encontrado. Recebem a resposta: \u201cEm verdade vos digo: cada vez que fizestes a um desses meus irm\u00e3os mais pequeninos, a mim o fizestes\u201d (v. 40). Do mesmo modo: \u201cEm verdade vos digo: todas as vezes que deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer\u201d (v. 45) E conclui: \u201cE ir\u00e3o estes para o castigo eterno enquanto os justos ir\u00e3o para a vida eterna\u201d (v. 46).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um discurso magistral pronunciado no L\u00edbano, em 12 de abril de 1964 (LERCARO, 2014, p.121-149), o cardeal Lercaro, comentando Mateus 25,31ss, sublinha o fato de que Cristo n\u00e3o afirma ali, \u201cque aquilo que fizestes a estes pequeninos \u00e9 como se a mim tivessem feito\u201d, mas sim, que \u201ccada vez que fizestes a um desses meus irm\u00e3os mais pequeninos, a mim o fizestes\u201d. S\u00e3o palavras pr\u00f3ximas \u00e0s da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia: \u201cIsto \u00e9 o meu Corpo\u201d. Aqui existe uma identifica\u00e7\u00e3o entre Cristo e os pobres que possui profundo significado teol\u00f3gico e m\u00edstico. Os pobres s\u00e3o, ao seu modo, presen\u00e7a de Cristo entre n\u00f3s, s\u00e3o sacramentos de Cristo. Revelam o rosto de Deus. Deus n\u00e3o assumiu uma condi\u00e7\u00e3o humana qualquer, uma vida em abstrato. Assumiu a concretude de uma vida pobre, nasceu como pobre, viveu como pobre, foi perseguido, preso e condenado como pobre. Foi sepultado na cova de um amigo pois n\u00e3o tinha sepultura pr\u00f3pria. E isto n\u00e3o \u00e9 indiferente na economia da salva\u00e7\u00e3o, possuindo um profundo significado. Existe uma identifica\u00e7\u00e3o entre Deus e os pobres que se expressa em toda Escritura hebraica e culmina na pr\u00f3pria encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. Em Jesus, pobre entre os pobres, se concretiza o processo ken\u00f3tico que nos salva. O significado m\u00edstico salv\u00edfico desta identifica\u00e7\u00e3o revelada em Mateus 25 \u00e9 t\u00e3o profundo que podemos afirmar que nossa salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 indissociavelmente ligada \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que temos com os pobres. No final dos tempos seremos julgados pelo Cristo pobre, que carregou em si as injusti\u00e7as do mundo e que, tendo experimentado em sua vida e morte a extrema condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, ser\u00e1 nosso \u00fanico juiz. Para o cardeal Lercaro a identifica\u00e7\u00e3o entre Cristo e os pobres coloca claramente um imperativo para a Igreja:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">e ainda nos devemos indagar sobre a extens\u00e3o eclesiol\u00f3gica destas duas caracter\u00edsticas de Jesus, Messias dos Pobres e Messias Pobre: a Igreja enquanto deposit\u00e1ria da Miss\u00e3o Messi\u00e2nica de Jesus, a Igreja prolongamento do Mist\u00e9rio da Kenosis do Verbo, n\u00e3o pode n\u00e3o ser, antes de tudo e privilegiadamente, no sentido agora claro, a Igreja dos Pobres, enviada para a Salva\u00e7\u00e3o dos Pobres; e de outra parte n\u00e3o pode n\u00e3o ser tamb\u00e9m Igreja que, como Cristo, n\u00e3o pode salvar se n\u00e3o aquilo que assume, isto \u00e9, n\u00e3o pode salvar antes de tudo os pobres, se n\u00e3o assume a pobreza. (LERCARO, 2014, p.149)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Podemos dizer que os pobres possuem um lugar singular na economia e no mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o: constituem uma media\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e inevit\u00e1vel para o encontro com Cristo e para nossa salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por serem puros ou sem pecado, mas por sua situa\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas com quem Deus se identifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 O desenvolvimento da op\u00e7\u00e3o pelos pobres no magist\u00e9rio do papa Francisco<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Jo\u00e3o Paulo II quis recordar e celebrar a Enc\u00edclica de Paulo VI, <em>Populorum Progressio<\/em>, promulgando no vig\u00e9simo anivers\u00e1rio dessa Enc\u00edclica a sua segunda enc\u00edclica social, <em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em>. Nela, pela primeira vez em uma enc\u00edclica social, \u00e9 recepcionada a express\u00e3o e o conceito latino-americano da op\u00e7\u00e3o pelos pobres (SRS n.42). Em 1991, o papa Jo\u00e3o Paulo II retoma este conceito em sua terceira enc\u00edclica social, a <em>Centesimus Annus<\/em> (CA n.11; 57). A op\u00e7\u00e3o pelos pobres ganhou, deste modo, cidadania no Magist\u00e9rio Pontif\u00edcio. O pont\u00edfice reconheceu nestas enc\u00edclicas que \u201co amor da Igreja pelos pobres (&#8230;) \u00e9 decisivo e pertence \u00e0 sua constante tradi\u00e7\u00e3o\u201d, o que significou um grande avan\u00e7o neste momento, frente a algumas posi\u00e7\u00f5es conservadoras que negavam o privil\u00e9gio dos pobres (CA n.57). Esta realidade foi reafirmada pelo papa Bento XVI quando, em 13 de maio de 2007, pronunciou as seguintes palavras em seu discurso inaugural da V Conferencia Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, ocorrida em Aparecida: \u201cNeste sentido, a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres est\u00e1 impl\u00edcita na f\u00e9 cristol\u00f3gica naquele Deus que se fez pobre por n\u00f3s, para enriquecer-nos com a sua pobreza (cf.\u00a02Cor\u00a08,9)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A elei\u00e7\u00e3o do papa Francisco fez com que a quest\u00e3o da Igreja dos pobres irrompesse com novo vigor no Magist\u00e9rio Supremo da Igreja. Francisco reafirma a op\u00e7\u00e3o pelos pobres e a tem\u00e1tica da Igreja pobre e para os pobres em seu sentido origin\u00e1rio, tanto do Grupo Igreja dos pobres do Conc\u00edlio Vaticano II, quanto latino-americano. Francisco, logo no in\u00edcio de seu pontificado, no discurso pronunciado no dia 16 de mar\u00e7o durante o encontro que manteve com os representantes dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, afirmou, ao explicar a ado\u00e7\u00e3o do nome Francisco: \u201ccomo eu queria uma Igreja pobre e para os pobres!\u201d. Express\u00e3o depois retomada outras vezes, e explicitada na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii Gaudium<\/em>: \u201cPor isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes t\u00eam muito para nos ensinar. Al\u00e9m de participar do <em>sensus fidei<\/em>, nas suas pr\u00f3prias dores conhecem Cristo sofredor. \u00c9 necess\u00e1rio que todos nos deixemos evangelizar por eles\u201d (EG n.198). Nesse mesmo documento, o pont\u00edfice afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o devem subsistir d\u00favidas nem explica\u00e7\u00f5es que debilitem esta mensagem clar\u00edssima. Hoje e sempre, \u201cos pobres s\u00e3o os destinat\u00e1rios privilegiados do Evangelho\u201d e a evangeliza\u00e7\u00e3o dirigida gratuitamente a eles \u00e9 sinal do Reino que Jesus veio trazer. H\u00e1 que afirmar sem rodeios que existe um v\u00ednculo indissol\u00favel entre a nossa f\u00e9 e os pobres. N\u00e3o os deixemos jamais sozinhos! (EG n.48)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O chamado para ser instrumento de Deus \u201ca servi\u00e7o da liberta\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o dos pobres\u201d \u00e9 dirigido a todos, sem exclus\u00e3o, e a falta de solidariedade concreta com os pobres influi diretamente na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus (EG n.187). Afirma ainda o papa:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta linha, se pode entender o pedido de Jesus aos seus disc\u00edpulos: \u201cDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u201d (Mc 6, 37), que envolve tanto a coopera\u00e7\u00e3o para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e di\u00e1rios de solidariedade para com as mis\u00e9rias muito concretas que encontramos. Embora um pouco desgastada e, por vezes, at\u00e9 mal interpretada, a palavra \u201csolidariedade\u201d significa muito mais do que alguns atos espor\u00e1dicos de generosidade; sup\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropria\u00e7\u00e3o dos bens por parte de alguns. (EG n.188)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o dos pobres torna-se central em seu pontificado. O papa Francisco adota um estilo simples de vida, em continuidade com o modo como vivia como arcebispo de Buenos Aires, que nos torna sempre presente seja o Pacto das Catacumbas, seja o Documento 14 das Conclus\u00f5es de Medell\u00edn.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Enc\u00edclica <em>Laudato S\u00ed<\/em>, o papa Francisco d\u00e1 uma nova contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Doutrina Social da Igreja unindo a quest\u00e3o social \u00e0 ecol\u00f3gica, afirmando de modo claro que hoje n\u00e3o vivemos duas crises, uma social e outra ambiental, mas uma \u00fanica crise, socioambiental, de vastas propor\u00e7\u00f5es e terr\u00edveis consequ\u00eancias, que tem sua origem em uma economia que mata, exclui e destr\u00f3i a m\u00e3e Terra (FRANCISCO, 2015, n.3,1).\u00a0 O papa Francisco elevou ao n\u00edvel de Magist\u00e9rio Universal o Magist\u00e9rio Episcopal Latino-Americano que, de Medell\u00edn a Aparecida, afirmou enfaticamente a centralidade evang\u00e9lica dos pobres, o papel que devem possuir de sujeitos ativos na sociedade e na Igreja e fez da op\u00e7\u00e3o pelos pobres um crit\u00e9rio fundamental para o ser e o agir dos crist\u00e3os e da Igreja, em continuidade com as escrituras, a patr\u00edstica e uma rica e firme tradi\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Paulo Fernando Carneiro de Andrade, PUC Rio \u2013 texto original portugu\u00eas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0ANDRADE, P. C.; BINGEMER, M. C. <em>A fonte e o futuro da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>: o legado de Dom Helder Camara. S\u00e3o Paulo: Reflex\u00e3o, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARB\u00c9, D.; RETUMBA, E. <em>Retrato de Uma Comunidade de Base<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO. Discurso do Santo<span style=\"color: #000000;\"> Padre ao II <em>Encontro mundial com os Movimentos Populares<\/em>.<a style=\"color: #000000;\" href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html\">http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/july\/documents\/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">_____. <em>Evangelii gaudium.<\/em> A ale<\/span>gria do evangelho. Sobre o an\u00fancio do Evangelho no mundo atual. S\u00e3o Paulo: Paulus\/Loyola, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Laudato si\u2019<\/em>. Louvado sejas. Sobre o cuidado da casa comum. S\u00e3o Paulo: Paulus\/Loyola, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GAUTHIER, P. <em>La Chiesa dei Poveri e Il Concilio<\/em>. Floren\u00e7a: Vallecchi, 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LERCARO, G. <em>Per la Forza dello Spirito. <\/em>Discorsi Conciliari. Nuova edizione a cura di Saretta Marotta. Bolonha: EDB, 2014, p.121-149.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LOIS, J. <em>Teologia de la Opci\u00f3n por los Pobres, Liberaci\u00f3n<\/em>. Madri: Fundamentos, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEIRA, P. Ribeiro de. <em>Op\u00e7\u00e3o pelos pobres no S\u00e9culo XXI<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAULO VI.<em> Lumem Gentium. <\/em>Documetnos do Vaticano II. Petr\u00f3polis: Vozes, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIXLEY, J.; BOFF, CLODOVIS. <em>Op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1986.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Jo\u00e3o XXIII e a Igreja dos pobres 2 A Am\u00e9rica Latina e a Igreja dos pobres 3 O Deus justo e misericordioso \u00e9 o Deus dos pobres 4 Jesus e os pobres: a m\u00edstica da op\u00e7\u00e3o pelos pobres 5 O desenvolvimento da op\u00e7\u00e3o pelos pobres no magist\u00e9rio do papa Francisco 6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1772","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1772"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1773,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1772\/revisions\/1773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}