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{"id":1752,"date":"2019-12-22T11:52:38","date_gmt":"2019-12-22T13:52:38","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1752"},"modified":"2019-12-26T12:33:09","modified_gmt":"2019-12-26T14:33:09","slug":"o-livro-do-profeta-isaias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1752","title":{"rendered":"O livro do profeta Isa\u00edas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O livro como um todo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Isa\u00edas profeta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O Primeiro Isa\u00edas (c. 1-39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.1 Composi\u00e7\u00e3o do I Is<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>3.2. Principais pontos de teologia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 O Segundo Isa\u00edas (c. 40-55)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.1 Autoria e data\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.2 Organiza\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Excurso: os textos do Servo sofredor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>4.3 Principais pontos de teologia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 O terceiro Isa\u00edas (c. 56-66)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.1 Natureza do III Is<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.2 \u00c9poca de composi\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.3 O profeta<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.4 Organiza\u00e7\u00e3o do conte\u00fado<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>5.5 Principais pontos de teologia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Forma\u00e7\u00e3o do livro de Isa\u00edas em seu conjunto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Lendo o texto hoje<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O livro como um todo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no s\u00e9culo XI, houve a percep\u00e7\u00e3o de que o livro de Isa\u00edas era composto de partes distintas. No final do s\u00e9culo XVIII, Eichhorn (1783) e D\u00f6derlein (1789) enfatizaram a distin\u00e7\u00e3o dos c. 40 \u2013 66. Os estudos de Duhm (1892), no entanto, apresentaram argumentos para se distinguir tr\u00eas grandes partes (c. 1-39, c. 40-55 e c. 56-66), atribu\u00eddas respectivamente \u00e0 \u00e9poca do profeta (s\u00e9culo VIII aC), ao per\u00edodo do ex\u00edlio babil\u00f4nico e \u00e0 \u00e9poca p\u00f3s-ex\u00edlica. A partir de ent\u00e3o, generalizou-se o modo de referir-se a elas, respectivamente como Proto (ou Primeiro) Isa\u00edas (I Is), D\u00eautero (ou Segundo) Isa\u00edas (II Is) e Trito (ou Terceiro) Isa\u00edas (III Is). Tal distin\u00e7\u00e3o \u00e9 seguida atualmente pela maior parte dos estudiosos; alguns, todavia, entendem a segunda e terceira partes como uma unidade, tratando em conjunto, por conseguinte, os cap\u00edtulos 40 a 66.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os motivos para a distin\u00e7\u00e3o das tr\u00eas partes s\u00e3o de ordem hist\u00f3rica, liter\u00e1ria e teol\u00f3gica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a. Os elementos hist\u00f3ricos referem-se ao contexto hist\u00f3rico pressuposto ou expl\u00edcito. O Primeiro Isa\u00edas reflete, em boa parte, a \u00e9poca do s\u00e9culo VIII; o Segundo sup\u00f5e o povo no ex\u00edlio babil\u00f4nico e menciona Ciro (Is 44,28; 45,1), rei persa, que come\u00e7ou a aparecer no cen\u00e1rio internacional por volta de 550 aC; o Terceiro sup\u00f5e o fim do ex\u00edlio babil\u00f4nico e refere-se \u00e0 comunidade p\u00f3s-ex\u00edlica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b. Os elementos liter\u00e1rios dizem respeito aos temas abordados, ao vocabul\u00e1rio utilizado e ao estilo. No I Is prevalece o tema do ju\u00edzo; no II Is, o an\u00fancio de salva\u00e7\u00e3o; o III Is apresenta ambos os temas, mas com acentos pr\u00f3prios. A presen\u00e7a de vocabul\u00e1rio, motivos e esquemas liter\u00e1rios diversos corroboram a divis\u00e3o em tr\u00eas partes. Assim, no I Is \u00e9 forte a presen\u00e7a do tema da santidade de Deus e da f\u00e9, com o respectivo vocabul\u00e1rio; o termo \u201cconsolar\u201d caracteriza a mensagem do II Is; no III Is ocorre a met\u00e1fora de \u201cpai\u201d para Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c. Os elementos teol\u00f3gicos referem-se a diferen\u00e7as nas tem\u00e1ticas e na \u00eanfase a elas dada. Por exemplo, \u00e9 pr\u00f3prio do II Is a ideia da unicidade de Deus, posto em contraposi\u00e7\u00e3o aos \u00eddolos; pr\u00e1ticas penitenciais s\u00e3o citadas no III Is, que ressalta tamb\u00e9m o valor do s\u00e1bado e da obedi\u00eancia \u00e0 alian\u00e7a; j\u00e1 o I Is traz, em algumas passagens, refer\u00eancia ao filho de Davi, rei em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora as tr\u00eas partes sejam distintas, h\u00e1 entre elas tamb\u00e9m rela\u00e7\u00f5es. Redigido por \u00faltimo, o III Is \u00e9 respons\u00e1vel n\u00e3o somente pela terceira parte do escrito, mas pela elabora\u00e7\u00e3o final de todo o conjunto, de modo que o livro, apesar das tr\u00eas partes, possui unidade. Com efeito, at\u00e9 algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, normalmente essas tr\u00eas grandes se\u00e7\u00f5es eram consideradas tr\u00eas unidades fechadas e independentes. Atualmente, por\u00e9m, se imp\u00f5e sempre mais a pergunta acerca da unidade final do livro, fruto de uma reda\u00e7\u00e3o globalizante. Todo o material, elaborado num largo espa\u00e7o de tempo, que compreende v\u00e1rios s\u00e9culos, foi colocado sob a \u00e9gide de Isa\u00edas, profeta do s\u00e9culo VIII, possivelmente porque os redatores concebiam-se como continuadores da mensagem do grande mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Isa\u00edas profeta<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto de Is 6,1 coloca o in\u00edcio da miss\u00e3o do profeta no \u00faltimo ano do rei Ozias (Azarias: 781-740), em cerca de 740. O t\u00edtulo do livro (Is 1,1) menciona que o profeta atuou tamb\u00e9m sob outros reis: Joat\u00e3o (740-736), Acaz (736-716) e Ezequias (716-687). Seu minist\u00e9rio prof\u00e9tico se desenvolveu no Reino do Sul, Jud\u00e1, particularmente em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dos textos do livro, podem ser distinguidos quatro per\u00edodos na atividade do profeta:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>da voca\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra siro-efraimita<\/em> (740-734), durante o reinado de Joat\u00e3o (740-734). Trata-se de uma \u00e9poca em que, no plano internacional, a Ass\u00edria domina em grande parte a regi\u00e3o, submetendo j\u00e1 ent\u00e3o o Reino do Norte (Israel) a tributo; o Reino de Jud\u00e1, contudo, n\u00e3o sofre a inger\u00eancia de nenhum poder estrangeiro e, por isso, passa por um per\u00edodo de florescimento econ\u00f4mico. Nessa situa\u00e7\u00e3o, na mensagem do profeta Isa\u00edas predomina a preocupa\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es internas de Jud\u00e1, sua situa\u00e7\u00e3o social e religiosa (por exemplo: parte dos cap\u00edtulos 1 a 5; Is 9,7-20; 10,1-4): a corrup\u00e7\u00e3o das classes dirigentes (governantes, ju\u00edzes, donos de terras), o culto sem correspond\u00eancia com a vida (Is 1,10-20), o luxo e o orgulho dos poderosos, com o consequente esquecimento de Deus (Is 3,16-24). Relativos a essa \u00e9poca s\u00e3o diversos an\u00fancios de puni\u00e7\u00e3o (Is 2,6-22; 3,1-9; 5,26-29), com chamados \u00e0 convers\u00e3o (Is 1,16-17; 9,12).<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>na \u00e9poca da guerra siro-efraimita<\/em> (734-732), durante o reinado de Acaz (734-727). Os textos giram em torno desta situa\u00e7\u00e3o (c. 7-8), em que o Reino do Norte (Israel) se uniu a Aram e investiu contra Jud\u00e1, com a finalidade de pression\u00e1-lo a fazer parte de uma coaliz\u00e3o antiass\u00edria. O rei de Jud\u00e1, Acaz, apela aos ass\u00edrios e assim se livra dessa amea\u00e7a; passa ent\u00e3o, por\u00e9m, a ser vassalo da Ass\u00edria. Ap\u00f3s a guerra, provavelmente, o profeta se retira (Is 8,16-18).<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00e9poca da minoridade de Ezequias<\/em> (727-715). Desse per\u00edodo \u00e9 o or\u00e1culo contra a Filisteia, que convida Jud\u00e1 a uma coaliz\u00e3o antiass\u00edria (Is 14,28-32), e o or\u00e1culo contra Samaria, que se rebela contra a Ass\u00edria (Is 28,1-4). Alguns autores datam dessa \u00e9poca outros or\u00e1culos contra na\u00e7\u00f5es (Is 14,24-27; 15-16; 21,11-12.13-17).<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00e9poca da maioridade de Ezequias<\/em> (714-698) (Is 39; 18,1-6), quando este rei assume plenamente o poder. Nessa fase do minist\u00e9rio do profeta, podem ser distinguidas duas etapas: ap\u00f3s a primeira revolta contra a Ass\u00edria (713-711) e por ocasi\u00e3o da segunda revolta contra a Ass\u00edria (705-701) (c. 28 -31).<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em esquema:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"123\">\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>Da voca\u00e7\u00e3o \u00e0 investida siro-efraimita<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"113\">\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>\u00c9poca da investida siro-efraimita<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"142\">\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>\u00c9poca da minoridade de Ezequias<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" colspan=\"2\" width=\"189\">\n<pre style=\"text-align: center;\"><strong>\u00c9poca da maioridade de Ezequias (ap\u00f3s714)<\/strong><\/pre>\n<pre><strong>(Is 39; 18,1-6)<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"123\">\n<pre>Is 1-5*<\/pre>\n<pre>9,7-20; 10,1-4<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"113\">\n<pre>c. 7-8<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"142\">\n<pre>Is 14,28-32; 28,1-4<\/pre>\n<pre>Is 14,24-27; c. 15-16; 21,11-17<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"85\">\n<pre>ap\u00f3s a 1\u00aa revolta antiass\u00edria<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"104\">\n<pre>por ocasi\u00e3o da 2\u00aa revolta antiass\u00edria\r\n\r\nc. 28-31<\/pre>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"123\">\n<pre>740-734<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"113\">\n<pre>734-732<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"142\">\n<pre>727-715<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"85\">\n<pre>713-711<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"104\">\n<pre>705-701<\/pre>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dados biogr\u00e1ficos do profeta s\u00e3o fornecidos pelo livro. O interesse de Isa\u00edas pela monarquia dav\u00eddica e pela cidade santa, al\u00e9m de seu conhecimento detalhado da cidade (1,10-11; 7,3; 22,9; 29,7), falam em favor de que fosse oriundo do Reino de Jud\u00e1 e habitasse em Jerusal\u00e9m. Casado, teve ao menos dois filhos, aos quais deu nomes simb\u00f3licos (Is 7,3; 8,3). Talvez pertencesse \u00e0 aristocracia, pois parece ter f\u00e1cil acesso \u00e0 corte (Is 7,3); interessa-se, por\u00e9m, pelas classes mais pobres (Is 1,17; 3,12-15). Os textos que referem suas palavras apresentam um estilo elevado, com numerosas imagens, rico em ant\u00edteses e asson\u00e2ncias (Is 1,25; 5,25-26; 18,3; 28,2; 29,6), de modo que se pode supor que o profeta possu\u00edsse alto n\u00edvel cultural, que teria influenciado tamb\u00e9m os redatores do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O Primeiro Isa\u00edas (c. 1-39)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 Composi\u00e7\u00e3o do I Is<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o I Is esteja ancorado na \u00e9poca do profeta (segunda metade do s\u00e9culo VIII aC), nem todo o material que hoje se encontra nos c. 1-39 \u00e9 desse per\u00edodo. Antes, numerosos textos sup\u00f5em \u00e9pocas posteriores, do tempo ex\u00edlico e p\u00f3s-ex\u00edlico (Is 2,1-5; c. 12; c. 24-27; 34-35 etc.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerado, por\u00e9m, o conte\u00fado com o qual o livro chegou \u00e0 sua formula\u00e7\u00e3o definitiva, podem ser distinguidos nele diversos blocos:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em> 1-12 e 28-33<\/em>: duas cole\u00e7\u00f5es compostas sobretudo por material proveniente de Isa\u00edas profeta, com temas variados.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cap\u00edtulos 1 a 12 trazem or\u00e1culos sobre Jud\u00e1 e Jerusal\u00e9m: amea\u00e7as (por exemplo Is 1,2-24; 2,6-4,1;5,1-30) e promessas de restaura\u00e7\u00e3o (por exemplo Is 2,1-5; 4,2-6; 10,20-23; 11,1-16). A se\u00e7\u00e3o 6,1 \u2013 9,6, pela men\u00e7\u00e3o ao profeta, \u00e9 chamada de \u201cmemorial de Isa\u00edas\u201d. O texto de 12,1-6 fecha toda a se\u00e7\u00e3o com um canto de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cap\u00edtulos 28 a 33 s\u00e3o formados sobretudo por palavras de puni\u00e7\u00e3o, nas quais \u00e9 caracter\u00edstica a repeti\u00e7\u00e3o de \u201cai\u201d (Is 28,1; 29,1.15; 30,1; 31,1; 33,1). Em Is 30,27-31,9 h\u00e1 amea\u00e7as \u00e0 Ass\u00edria, contraparte da salva\u00e7\u00e3o para Jud\u00e1 (Is 30,27-33; 31,4-9) e uma advert\u00eancia a Jud\u00e1, que busca apoio no Egito (Is 31,1-3).<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em> 13-23<\/em>: diversos or\u00e1culos contra as na\u00e7\u00f5es, incluindo um or\u00e1culo contra Jerusal\u00e9m (c. 22). As na\u00e7\u00f5es mencionadas s\u00e3o: Babil\u00f4nia, Ass\u00edria, Filisteia, Moab, Damasco, Israel, Cush, Egito, Duma, Edom, Ar\u00e1bia, Tiro e Sid\u00f4nia.<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em> 24-27<\/em>: apresentam tem\u00e1tica e linguagem caracter\u00edsticas, diferentes daquelas t\u00edpicas do profeta do s\u00e9culo VIII. \u00c0 diferen\u00e7a dos or\u00e1culos contra as na\u00e7\u00f5es, a perspectiva destes cap\u00edtulos n\u00e3o \u00e9 mais a de povos concretos. No primeiro momento, as palavras t\u00eam uma moldura universal (Is 24,1.3.4.5.6.17.18.19.20), para em seguida falar-se da montanha de Si\u00e3o e de Jerusal\u00e9m (Is 24,23; 27,13). Por sua dimens\u00e3o escatol\u00f3gica, estes cap\u00edtulos s\u00e3o chamados de grande escatologia (ou apocalipse) de Isa\u00edas.<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em> 34-35<\/em>: os dois cap\u00edtulos formam um d\u00edptico. O cap\u00edtulo 34 descreve a desgra\u00e7a para Edom, que serve de panorama para a descri\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o para Jerusal\u00e9m (c. 35). Em vista da nota escatol\u00f3gica que esses cap\u00edtulos apresentam, s\u00e3o chamados de pequena escatologia (ou apocalipse) \u2013 em compara\u00e7\u00e3o com a \u201cgrande escatologia\u201d dos c. 24-27.<\/li>\n<\/ul>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em> 36-39<\/em>: escritos em prosa, retomam o texto de 2Rs 18,13-20,19. Relatam acontecimentos do reinado de Ezequias, no tempo do ass\u00e9dio de Senaquerib a Jerusal\u00e9m (701). \u00c9 exaltada a figura de Ezequias, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de f\u00e9 do rei Acaz (c. 7). Isa\u00edas aparece em cena (Is 37,2.5.6.21; 38,1.4.21; 39,3.5.8). O relato termina com o profeta anunciando o ex\u00edlio babil\u00f4nico (Is 39,6-7) para o tempo posterior a Ezequias, fazendo assim o gancho com a segunda grande parte do livro (c. 40-55). A promessa de paz para o tempo de Ezequias (Is 39,8) prepara, de outro lado, o an\u00fancio, presente no II Is, de que Jud\u00e1 voltar\u00e1 do ex\u00edlio babil\u00f4nico; serve, assim, como esperan\u00e7a e consolo para os exilados (Is 40,1-2).<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em esquema:<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"102\">\n<pre><strong>1-12<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre><strong>13-23<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre><strong>24-27<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre><strong>28-33<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre><strong>34-35<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre><strong>36-39<\/strong><\/pre>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"102\">\n<pre>Cole\u00e7\u00e3o enraizada no profeta<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre>Or\u00e1culos contra as na\u00e7\u00f5es<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre>Grande escatologia<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre>Cole\u00e7\u00e3o enraizada no profeta<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre>Pequena escatologia<\/pre>\n<\/td>\n<td width=\"102\">\n<pre>Narra\u00e7\u00e3o semelhante a 2Rs 18,13-20,19<\/pre>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em><strong>3.2 Principais pontos de teologia<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>a) Acusa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c. 1 abre o livro com duas acusa\u00e7\u00f5es (vv. 1-9.10-20). Sobretudo a segunda resume bem o n\u00facleo do an\u00fancio prof\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o ao tema da injusti\u00e7a. As acusa\u00e7\u00f5es aparecem, no livro, ainda em numerosas passagens, particularmente nos \u201cais\u201d. O texto de Is 5,8-24 detalha os aspectos da situa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a. H\u00e1 um seten\u00e1rio de acusa\u00e7\u00f5es: Is 5,8-10. 11-12. 18-19. 20. 21. 22-24 e 10,1-4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A santidade de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da santidade de Deus \u00e9 fundamental na mensagem do profeta por estar relacionado \u00e0 experi\u00eancia de sua voca\u00e7\u00e3o e seu envio em miss\u00e3o (Is 6,1-13). Aparece particularmente na denomina\u00e7\u00e3o frequente de Deus como \u201co Santo de Israel\u201d (Is 5,19.24; 10,20; 17,7; 29,19; 30,15; 31,1; 37,27). Com esse tema, o livro p\u00f5e o acento na transcend\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) A f\u00e9; Isa\u00edas e a pol\u00edtica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 op\u00f5e-se, em Isa\u00edas, \u00e0 atitude de orgulho (Is 2,11-17) e \u00e0 autosseguran\u00e7a (Is 1,10-15). Implica colocar sua confian\u00e7a somente em Deus. Consiste na entrega \u00e0 vontade divina e ao plano de Deus (Is 30,15). \u00c9 fonte de seguran\u00e7a (Is 30,15-18) e se op\u00f5e a confiar exclusivamente nos pr\u00f3prios recursos, deixando de recorrer a Deus (Is 30,1-5; 31,1-3). Com isso, toca-se o tema da vis\u00e3o pol\u00edtica do profeta: ele condena a pol\u00edtica que, segura de seus pr\u00f3prios meios, age sem consulta \u00e0 vontade divina. Texto particularmente importante \u00e9 7,10-17, que tem seu ponto central no v. 9: \u201cse n\u00e3o crerdes, n\u00e3o permanecereis firmes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Teologia de Si\u00e3o-Jerusal\u00e9m<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta abomina os pecados de Jerusal\u00e9m (Is 1,21-26; 2,6-17; 3,16-24; 22,1-14; 29,1-10). No c\u00e2ntico da vinha (Is 5,1-7) resume-se de forma mais completa a gravidade das op\u00e7\u00f5es de Jerusal\u00e9m contra o Senhor. No entanto, o livro mostra tamb\u00e9m que Jerusal\u00e9m \u00e9 a cidade eleita por Deus, \u00e9 morada de Deus (Is 8,18; 14,32). Por isso, Deus a transformar\u00e1 e sustentar\u00e1 (Is 1,25-26; 28,16-17). Ela ser\u00e1 o centro dos povos, de onde surgir\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o para todos (Is 2,1-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) Expectativa messi\u00e2nica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Espera-se o \u201cmessias\u201d, um novo Davi, que restabelecer\u00e1 a o direito e a justi\u00e7a, trar\u00e1 a paz e, assim, a prosperidade para o povo de Deus, iniciando uma nova \u00e9poca (Is 9,1-6; 11,1-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo hebraico \u201cmessias\u201d significa ungido. No Antigo Testamento, eram ungidos particularmente reis e sacerdotes. A un\u00e7\u00e3o de sacerdotes os investia na fun\u00e7\u00e3o (Ex 28,41; 29,7 <em>et passim<\/em>). Mas \u00e9 sobretudo o rei que o Antigo Testamento liga \u00e0 ideia de messias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rei \u00e9 ungido no momento de sua coroa\u00e7\u00e3o (Jz 9,8; 1Sm 9-10; 2Sm 2,4; 5,3; 1Rs 1,39; 2Rs 11,12; 23,30). Recebe, ent\u00e3o, a for\u00e7a de Deus (1Sm 9,16; 10,1.10; 16,13), \u00e9 o \u201cungido do Senhor\u201d (2Sm 19,22), torna-se representante seu, intermedi\u00e1rio entre Deus e o povo. Assim, todo rei \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o \u201cmessias\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a base da promessa de Natan (2Sm 7,12-16), o povo de Israel desenvolveu a esperan\u00e7a de que sempre haveria um rei no trono de Davi (Sl 132,17). Quando os babil\u00f4nios invadiram Jud\u00e1 e o rei dav\u00eddico foi deportado para Babil\u00f4nia, cessou a dinastia dav\u00eddica em Jerusal\u00e9m. No retorno do ex\u00edlio, procurou-se restabelec\u00ea-la atrav\u00e9s da figura de Zorobabel (Ag 2,23), por\u00e9m sem sucesso, de modo que, a partir da conquista de Jerusal\u00e9m pelos babil\u00f4nios, n\u00e3o houve mais um rei judeu em Jerusal\u00e9m. Dentro do contexto de inexist\u00eancia de um descendente dav\u00eddico, cresceu, ent\u00e3o, a esperan\u00e7a de um messias rei e esta foi projetada para o futuro: desenvolveu-se a expectativa por uma figura idealizada do messias, enviado por Deus nos tempos escatol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 O Segundo Isa\u00edas (c. 40-55)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.1 Autoria e data\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor \u00e9 desconhecido. Sua obra se refere \u00e0 \u00e9poca do ex\u00edlio babil\u00f4nico j\u00e1 avan\u00e7ado, podendo chegar at\u00e9 a tempos posteriores \u00e0 queda de Babil\u00f4nia. Discute-se se foi escrita para os exilados na Babil\u00f4nia ou para os remanescentes de Jud\u00e1. Os que defendem a primeira hip\u00f3tese argumentam com textos que parecem demonstrar que o profeta conhece a situa\u00e7\u00e3o dos exilados (Is 40,27; 41,10; 49,14) e a atua\u00e7\u00e3o de Ciro (Is 41,25; 44,28; 45,1). Outros veem em certos textos ind\u00edcios de que o texto foi escrito para os que ficaram na terra (Is 40,2); nesse caso, sua fun\u00e7\u00e3o seria preparar os remanescentes para receberem os que retornariam do ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, h\u00e1 tr\u00eas tend\u00eancias de identifica\u00e7\u00e3o da autoria e localiza\u00e7\u00e3o do escrito:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>O escrito \u00e9 obra de um profeta an\u00f4nimo, chamado, desde Duhm, de D\u00eautero-Isa\u00edas; teria sido redigido no tempo do ex\u00edlio avan\u00e7ado.<\/li>\n<li>O escrito \u00e9 obra de um profeta an\u00f4nimo e seus disc\u00edpulos; teria sido redigido no tempo do ex\u00edlio avan\u00e7ado: desde a ascens\u00e3o de Ciro no plano internacional (553) at\u00e9 a tomada de Babil\u00f4nia e o rei Dario (522).<\/li>\n<li>O escrito \u00e9 uma obra coletiva, de um grupo. As afinidades de algumas passagens com os Salmos dos filhos de Cor\u00e9 (Sl 42-49; 84-85; 87-88) e os salmos da realeza do Senhor (Sl 96-98), apontariam para uma rela\u00e7\u00e3o entre os dois grupos de redatores. Isso levou \u00e0 ideia de que seriam grupos de levitas, respons\u00e1veis pela liturgia do Templo. N\u00e3o se excluiria, no entanto, que, dentre estes, tenha havido autores principais, seja no sentido de formular as teses teol\u00f3gicas mais importantes seja no de dar a forma liter\u00e1ria final. Seria poss\u00edvel, tamb\u00e9m, que tivesse havido grupos distintos: um em Babil\u00f4nia e outro em Jerusal\u00e9m, que se reuniriam com a volta do desterro.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">A data\u00e7\u00e3o tradicional do conjunto dos c. 40 \u2013 55 foi colocada no tempo final do ex\u00edlio babil\u00f4nico. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, por\u00e9m, surgiram reconstru\u00e7\u00f5es de sua hist\u00f3ria redacional, com muitas varia\u00e7\u00f5es entre os autores. Certo consenso, todavia, existe em delimitar duas grandes fases de trabalho redacional:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>o escrito teria tido origem em Babil\u00f4nia, na \u00e9poca ex\u00edlica, em uma ou mais reda\u00e7\u00f5es, e compreenderia sobretudo os textos existentes nos cap\u00edtulos 40 a 48;<\/li>\n<li>este n\u00facleo teria sido completado em Jerusal\u00e9m, no tempo p\u00f3s-ex\u00edlico, ap\u00f3s o retorno dos primeiros exilados (em torno de 530-520); seria fruto de diversas reda\u00e7\u00f5es e compreenderia basicamente os cap\u00edtulos 49 a 55.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2. Organiza\u00e7\u00e3o <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I<\/em>s 40,1-2 abre o escrito com o tema da consola\u00e7\u00e3o do povo, tema que difere fortemente do tom predominante nos c. 1-39; marca-se, assim, a distin\u00e7\u00e3o para com o Primeiro Isa\u00edas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final do c. 55, por outro lado, apresenta o tema da for\u00e7a da \u201cpalavra de Deus\u201d (Is 55,10-11) e retoma o que j\u00e1 fora apresentado na introdu\u00e7\u00e3o sobre o valor da Palavra (Is 40,7-8). Forma-se, com isso, uma moldura, que fecha o conjunto com a alus\u00e3o ao mesmo tema com que este fora aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 diversas maneiras de se considerar a estrutura dos cap\u00edtulos 40 a 55. Para al\u00e9m do pr\u00f3logo (Is 40,1-11) e do ep\u00edlogo (Is 55,6-13), os textos dos c. 40-48 enfatizam o poder criador de Deus, sua a\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria e sua contraposi\u00e7\u00e3o aos \u00eddolos. No final do c. 48 (Is 48,20), a ordem de sair de Babil\u00f4nia introduz o tema do \u201cnovo \u00eaxodo\u201d, que predomina at\u00e9 o final do escrito. Sob outra perspectiva, por\u00e9m, observa-se que, nos c. 40-48, anuncia-se a liberta\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1 das terras babil\u00f4nicas, enquanto que nos c. 49-55 fala-se da cidade de Jerusal\u00e9m, que ser\u00e1 renovada. Dessa forma, para al\u00e9m do pr\u00f3logo e ep\u00edlogo, o livro pode ser considerado em duas partes: 44,12-48,19 e 40,21-55,5 ou ent\u00e3o 42,12-48,22 e 49,1-55,5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na estrutura do livro, uma quest\u00e3o especial diz respeito aos textos do \u201cServo sofredor do Senhor\u201d<em>.<\/em> \u00c9 discutido se eles s\u00e3o obra do autor do II Is ou se s\u00e3o poemas de origem distinta e que foram aproveitados e inseridos no livro, por vezes com adapta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Excurso: os textos do Servo sofredor<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra \u201cservo\u201d aparece 21 vezes no II Is, sendo que 14 vezes refere-se a Israel (Is 44,1.2.8.9.21; 45,4; 48,20 etc.) e 7 vezes a um personagem n\u00e3o identificado (com exce\u00e7\u00e3o de Is 49,3). Estas \u00faltimas encontram-se em textos que constituem os chamados textos (tamb\u00e9m denominados \u201cc\u00e2nticos\u201d) do Servo sofredor. A partir de Duhm (1892), se fala em quatro textos, cuja delimita\u00e7\u00e3o varia entre os autores, mas que, considerando-se a tem\u00e1tica, podem ser identificados como: 42,1-7; 49,1-7; 50,4-9a; 52,13-53,12.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discute-se se outros textos do II Is se referem tamb\u00e9m a esse personagem desconhecido. Outra quest\u00e3o debatida \u00e9 se os textos s\u00e3o independentes entre si ou se formam uma unidade. H\u00e1 semelhan\u00e7as para com o horizonte teol\u00f3gico do II Is, no que tange ao tema do Servo-Israel (o monote\u00edsmo, a a\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria, a rela\u00e7\u00e3o com os povos estrangeiros, dentre outros), mas tamb\u00e9m diferen\u00e7as:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>no II Is, Israel \u00e9 pecador (Is 40,2; 42,24; 43,25-28; 44,21-22), enquanto que o Servo desconhecido \u00e9 inocente (Is 53,4.5.9), obediente ( Is 50,4-6; 53,7) e expia os pecados dos outros (Is 53,10).<\/li>\n<li>Israel tem miss\u00e3o passiva: atrav\u00e9s de sua liberta\u00e7\u00e3o, os pag\u00e3os ver\u00e3o o poder do Senhor (Is 43,12; 44,8). O Servo tem uma miss\u00e3o ativa: ser \u201calian\u00e7a do povo\u201d (Is 42,6), luz para as na\u00e7\u00f5es, instrumento de propicia\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es entre os quatro textos usualmente identificados e por isso a vis\u00e3o de que eles formem um conjunto \u00e9 a mais aceita entre os estudiosos. Dif\u00edcil, contudo, \u00e9 explicar por que eles se encontram separados no livro. Alguns pontos seguros no que concerne aos textos do Servo s\u00e3o:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>os quatro textos s\u00e3o ordenados de modo sim\u00e9trico, dois a dois:<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">49,1-6 e 50,4-9: fala o \u201ceu\u201d que \u00e9 o Servo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">42,1-7 e 52,13 \u2013 53,12: fala um outro sobre o Servo (no c. 42 fala o Senhor; no c. 53, fala um \u201cn\u00f3s\u201d de dif\u00edcil identifica\u00e7\u00e3o, mas dentro de uma moldura que p\u00f5e Deus em discurso: 52,12-15 e 53,11b-12);<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>em 49,3 o Servo recebe o nome de Israel;<\/li>\n<li>em 50,4-9 quem fala se identifica como \u201cdisc\u00edpulo\u201d;<\/li>\n<li>h\u00e1 entre os quatro textos fortes elementos de liga\u00e7\u00e3o, sobretudo o fato do sofrimento do Servo, que se vai acentuando nos poemas (Is 42,4; 49,4; 50,5; 52,13).<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.3 Principais pontos de teologia<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) A consola\u00e7\u00e3o de Israel por Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro desenvolve com \u00eanfase a ideia da consola\u00e7\u00e3o que Deus promete a seu povo. A terminologia gira em torno da raiz <em>n\u1e25m<\/em>, que tem o sentido geral de consolar. No Antigo Testamento, \u00e9 utilizada em contexto de dor (morte, afli\u00e7\u00e3o, ang\u00fastia: Gn 37,35; Gn 50,21; 2Sm 10,2-3; Lm 2,13). Consolar significa, ent\u00e3o, trazer um aux\u00edlio que tende a ser eficaz, que traz um resultado (Sl 23,4; 71,21; 86,17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se trata da consola\u00e7\u00e3o de Deus, esta restabelece a rela\u00e7\u00e3o de comunh\u00e3o com Ele (Is 12,1; 43,1-7). No contexto do II Is, a consola\u00e7\u00e3o significa propiciar ao povo no ex\u00edlio que ele retorne \u00e0 terra e a\u00ed reconstitua sua vida; significa trazer \u00e0 comunidade judaica, exilados repatriados e remanescentes na terra, novos dias de prosperidade e paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) O Deus Criador \u00e9 o Deus Salvador, o \u00fanico Deus para todos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O II Is desenvolve o tema da cria\u00e7\u00e3o e do Deus criador. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada numa perspectiva hist\u00f3rico-salv\u00edfica, como o primeiro ato salv\u00edfico de Deus. Responde-se, assim, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio, que parecia p\u00f4r em quest\u00e3o o poder de Deus. Dessa forma, o II Is d\u00e1 esperan\u00e7a de retornar \u00e0 terra: o Deus criador, todo-poderoso, trar\u00e1 seu povo de volta, realizando assim como que uma segunda cria\u00e7\u00e3o (Is 40,12-31). Ele \u00e9 o <em>redentor<\/em> de Israel (Is 41,14), aquele que o resgata da m\u00e3o dos babil\u00f4nios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema do poder de Deus que se manifesta na cria\u00e7\u00e3o desenvolve-se em dois outros aspectos. Primeiramente, se Deus \u00e9 o criador de todo o cosmo e dos seres humanos, ent\u00e3o ele \u00e9 o Deus de todos: o Senhor \u00e9 o \u00fanico Deus n\u00e3o s\u00f3 para Israel, mas em absoluto, o \u00fanico Deus verdadeiro. Tematiza-se assim, explicitamente, o <em>monote\u00edsmo<\/em>. Em contraste com a concep\u00e7\u00e3o mais antiga que admitia outros deuses fora de Israel, embora para Israel o \u00fanico fosse o Senhor (Sl 50,1; 82,1), agora existe somente um Deus, seja em Israel, seja em outras terras. Nesse contexto de afirma\u00e7\u00e3o do poder do Deus de Israel, o II Is desenvolve o tema da inutilidade dos deuses pag\u00e3os. Os outros deuses nada s\u00e3o e, por isso, tornam-se objeto de profunda cr\u00edtica, por vezes em tom ir\u00f4nico (Is 40,19-20; 41,6-7.21-24; 44,6-20. 24-28; 46,5-6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, a ideia do Deus \u00fanico abre a perspectiva de universalidade da salva\u00e7\u00e3o (Is 40,5; 41,8-16; 42,10; 43,8-13; 52,7-10). Se todos foram criados por Deus, que \u00e9 o \u00fanico Deus existente, ent\u00e3o todos s\u00e3o chamados \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. Mesmo os pag\u00e3os, se aceitarem o Deus de Israel, podem participar da sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. Tal universalismo, contudo, tem sempre Israel como centro de converg\u00eancia (Is 45,14.20-25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Deus \u00e9 o senhor da hist\u00f3ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da concep\u00e7\u00e3o da onipot\u00eancia universal de Deus, desenvolve-se ainda o tema de seu dom\u00ednio sobre toda a hist\u00f3ria. Os acontecimentos hist\u00f3ricos (no caso, o ex\u00edlio babil\u00f4nico) n\u00e3o s\u00e3o superiores ao poder divino. Deus se serve dos fatos e das conting\u00eancias hist\u00f3ricas para levar a cumprimento seu plano. A ascens\u00e3o de Ciro, com a conquista de Babil\u00f4nia, \u00e9 vista como providencial: Ciro \u00e9 instrumento de Deus para a liberta\u00e7\u00e3o de seu povo (Is 41,1-5.21-29; 44,24-28; 45,1-7. 9-13; 46,9-11; 48,12-15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste contexto que a volta dos exilados \u00e9 tematizada com um novo \u00eaxodo, mais glorioso do que o do Egito (Is 43,16-21; 48,20-21; 49,10; 51,9-10; 52,7-12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os exilados, estas afirma\u00e7\u00f5es serviam como sustenta\u00e7\u00e3o e motivo para a f\u00e9. A f\u00e9 abarca e saber entrever, nos acontecimentos da hist\u00f3ria humana, a a\u00e7\u00e3o divina, que, para al\u00e9m dos fatos, dirige tudo para a consecu\u00e7\u00e3o de seu plano, que diz respeito \u00e0 salva\u00e7\u00e3o de seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 O Terceiro Isa\u00edas (c. 56-66)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.1 Natureza do III Is<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O III Is \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de escritos heterog\u00eaneos, nos quais dificilmente se pode encontrar uma tem\u00e1tica unificadora. O livro apresenta-se como uma cole\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as, que, no entanto, receberam certa unidade ao serem colocadas no conjunto. Alguns autores veem uma liga\u00e7\u00e3o destes cap\u00edtulos com o II Is, devido a semelhan\u00e7as de linguagem e conte\u00fado em comum, mas a maioria distingue os c. 40 -55 e 56-66 como duas partes. As semelhan\u00e7as para com o II Is se d\u00e3o sobretudo nos c. 60-62. Com exce\u00e7\u00e3o desses, que formam um bloco, h\u00e1, por\u00e9m, muitas diferen\u00e7as para com o II Is:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>n\u00e3o mais se fala da esperan\u00e7a de retorno do ex\u00edlio nem de Ciro;<\/li>\n<li>fala-se do templo, que parece estar em reconstru\u00e7\u00e3o (Is 66,1) ou j\u00e1 reconstru\u00eddo, faltando somente aspectos decorativos (Is 60,10; 58,12);<\/li>\n<li>h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado (Is 58,13-14), com o modo correto de jejuar (Is 58,1-12) e de oferecer sacrif\u00edcios (Is 66,1-4), com o comportamento dos chefes (Is 56,10-11). Isto sup\u00f5e uma \u00e9poca e um pensamento diferente daqueles do II Is.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>5.2 \u00c9poca de composi\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas tend\u00eancias marcam os estudos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 data\u00e7\u00e3o do III Is. H\u00e1 quem o entenda como independente tanto do I como do II Is, tendo sido elaborado sob influ\u00eancia do II Is no p\u00f3s-ex\u00edlio imediato (entre 538 e 515), em Jerusal\u00e9m. Outra vertente considera o III Is como proveniente do mesmo autor do II Is, de modo que ele seria um prolongamento dos c. 40-55 e teria sido redigido entre a primeira metade do s\u00e9culo V e o in\u00edcio do s\u00e9culo III. Uma variante dessa \u00faltima vis\u00e3o considera que o III Is seria um pouco posterior ao II Is e se inspiraria, embora s\u00f3 parcialmente, neste. Os autores poderiam ser \u201cdisc\u00edpulos\u201d (em sentido amplo) do II Is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios elementos falam em favor da \u00e9poca p\u00f3s-ex\u00edlica, sem que se possa precisar, contudo, o tempo exato. Em Is 63,7-64,11 reflete-se sobre a hist\u00f3ria de Israel e se passa, a seguir, a uma confiss\u00e3o dos pecados e ao pedido de que Deus tenha miseric\u00f3rdia do seu povo. Aqui o pa\u00eds ainda aparece destru\u00eddo (Is 63,18; 64,9-10). Os cap\u00edtulos 60 e 62 apresentam a Jerusal\u00e9m gloriosa, mas esta \u00e9 reservada ao futuro. A cidade atual aparece ainda destru\u00edda (Is 58,12; 60,10; 61,4), semelhante \u00e0 descri\u00e7\u00e3o que ocorre no livro de Neemias (Ne 1,3; 2,13-15.17). Estes textos poderiam, portanto, ser anteriores a 445, \u00e9poca da primeira miss\u00e3o de Neemias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros textos que se referem a situa\u00e7\u00f5es que parecem ser anteriores \u00e0 reforma de Esdras e Neemias s\u00e3o: Is 58,13-14 (observ\u00e2ncia do s\u00e1bado); Is 58,1-12 (como jejuar); Is 66,1-4 (como oferecer sacrif\u00edcios); Is 56,10-11 (a conduta dos chefes do povo). Por fim, Is 57,1-13 fala contra a idolatria de modo semelhante ao dos profetas pr\u00e9-ex\u00edlicos; no entanto, n\u00e3o se pode excluir que em \u00e9poca p\u00f3s-ex\u00edlica tenha havido tais desvios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.3 O profeta<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 nenhum dado que permita tra\u00e7ar a identidade do profeta que estaria por tr\u00e1s destes cap\u00edtulos. S\u00f3 em 61,1-2 fala-se dele, mas sem oferecer dados sobre sua pessoa; menciona-se sua miss\u00e3o, em estilo semelhante ao dos cantos do Servo (fala-se em 1\u00aa pessoa e aparecem as caracter\u00edsticas de sua miss\u00e3o; Is 49,1; 50,4). \u00c9 algu\u00e9m consagrado, destinado anunciar a salva\u00e7\u00e3o, descrita como um grande ano jubilar (Lv 25,10). Textos como Lv 26 e Dn 9,11.24 indicam que em \u00e9poca tardia desenvolveu-se a expectativa de um grande e definitivo jubileu, em que todos os pecados seriam redimidos e a paz e a prosperidade seriam definitivamente instauradas. Talvez esta mesma expectativa esteja por tr\u00e1s de Is 61,2, com a esperan\u00e7a de uma salva\u00e7\u00e3o ainda ligada a este mundo (mudan\u00e7as materiais), mas tamb\u00e9m a de uma renova\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o salv\u00edfica com Deus (Is 61,6a.8-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.4 Organiza\u00e7\u00e3o do conte\u00fado<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 diferentes modos de compreender a organiza\u00e7\u00e3o do III Is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns autores distinguem, a partir de temas predominantes, duas grandes partes: at\u00e9 Is 63,6, aparecem as tem\u00e1ticas <em>direito-justi\u00e7a<\/em> e <em>salva\u00e7\u00e3o-justi\u00e7a<\/em> (Is 56,1; 58,2; 59,9.14; 60,1-63,6); a partir de Is 63,7, \u00e9 frequente a met\u00e1fora e compara\u00e7\u00e3o <em>pai-m\u00e3e<\/em> (Is 63,16; 64,7; 66,13) para Deus, num contexto de prece de s\u00faplica (Is 63,16; 64,7), que se conclui com uma pergunta (Is 64,11), \u00e0 qual Deus responde (Is 65,1-66,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trecho final (Is 66,18-24) trata do tema dos povos estrangeiros, retomando a ideia da universalidade salv\u00edfica de 56,1-8, que abrira o conjunto. Al\u00e9m disso, a men\u00e7\u00e3o de \u201ctodos os povos\u201d (Is 66,18) remete a Is 2,2, formando assim uma moldura para o livro de Isa\u00edas como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m compreender a organiza\u00e7\u00e3o do III Is a partir de outras tem\u00e1ticas nele desenvolvidas:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>56-59: apresentam den\u00fancias de infidelidade do povo ou de grupos; h\u00e1 esperan\u00e7as de futuro. Os problemas s\u00e3o mais concretos;<\/li>\n<li>60-62: o tom \u00e9 sobretudo de promessas e esperan\u00e7a. Aguarda-se a restaura\u00e7\u00e3o do povo, iluminado pela gl\u00f3ria do Senhor. Os deportados voltar\u00e3o e Jerusal\u00e9m ter\u00e1 um futuro maravilhoso;<\/li>\n<li>63-66: apresentam den\u00fancias e esperan\u00e7as, como os c. 56-59; por\u00e9m, os pecados s\u00e3o aqui menos concretizados e a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo teol\u00f3gica.<\/li>\n<\/ul>\n<p><em><strong>5.4 Principais pontos de teologia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>a) Deus \u00e9 fiel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto central da mensagem do III Is \u00e9 a quest\u00e3o da demora no cumprimento das promessas divinas de restaura\u00e7\u00e3o, que se entende a partir da dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o do povo no p\u00f3s-ex\u00edlio. Como as promessas do II Is n\u00e3o se realizaram plenamente nem pareciam realiz\u00e1veis, mesmo ap\u00f3s o retorno, e como se mostrava dif\u00edcil a reconstru\u00e7\u00e3o do templo e de Jerusal\u00e9m e o restabelecimento da normalidade da vida p\u00fablica, surgem, nesta \u00e9poca, sentimentos de desilus\u00e3o e desencorajamento (Is 58,3; 59,9.11; 63,15-19; 64,5-11). Estaria o Senhor sendo infiel a suas promessas (Is 59,1)? A resposta do profeta \u00e9 o encorajamento motivado pela fidelidade de Deus na hist\u00f3ria: Deus fez uma alian\u00e7a e permanecer\u00e1 fiel \u00e0 sua palavra (Is 59,21; 63,7-9; 66,5). \u00c9 neste contexto que podem ser compreendidas as grandes expectativas de futuro referentes a Jerusal\u00e9m (Is 60-62; 65,16-25; 66,10-14), esperan\u00e7as que se baseiam na a\u00e7\u00e3o do Senhor (Is 60,1.19-22; 62,11-12). Deus \u00e9 Pai (Is 63,8.16; 64,7) e, como j\u00e1 fez no passado, intervir\u00e1 para libertar o seu povo (Is 63,9; 64,2-3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) A comunidade renovada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus criar\u00e1 uma nova comunidade, com centro em Jerusal\u00e9m e no sacerd\u00f3cio (Is 65,18-20; 66,6.10-14.20-21). A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 prometida aos pobres (Is 61,1), os que n\u00e3o confiam em si mesmos, mas sim unicamente em Deus (Is 57,14-19; 61,1-3; 65,13-16; 66,2.5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Universalismo com centro em Jerusal\u00e9m<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 endere\u00e7ada tamb\u00e9m aos estrangeiros, que ter\u00e3o Jerusal\u00e9m como ponto de converg\u00eancia. Tal perspectiva encontra-se em Is 56,3-7 e 66,18b-21, ou seja, na abertura e na conclus\u00e3o do livro. Ser-lhes-\u00e1 permitido participar do pr\u00f3prio culto (Is 56,6-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O universalismo do III Is inclui ainda categorias de pessoas. Ao povo eleito pertencer\u00e3o tamb\u00e9m aqueles que antes tinham sido exclu\u00eddos pela Lei (Dt 23,2-5), sob a condi\u00e7\u00e3o de aceitarem e viverem a alian\u00e7a (Is 56,3-5). Mesmo o sacerd\u00f3cio n\u00e3o ser\u00e1 mais exclusivamente ligado \u00e0 tribo de Levi (Is 66,21). N\u00e3o \u00e9 claro se os estrangeiros que participar\u00e3o do sacerd\u00f3cio s\u00e3o os judeus da di\u00e1spora, que retornar\u00e3o a Jerusal\u00e9m (Is 66,20-21), ou se s\u00e3o propriamente n\u00e3o israelitas. Certo \u00e9 que o aspecto essencial ser\u00e1 o relacionamento pessoal com Deus, mesmo se s\u00e3o indicadas algumas prescri\u00e7\u00f5es exteriores (Is 56,2.6-7; 58,13-14). Ao mesmo tempo, h\u00e1 no livro textos que mencionam a submiss\u00e3o dos estrangeiros ao povo judeu (Is 60,10-16; 61,5), com reserva do sacerd\u00f3cio a este \u00faltimo (Is 61,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) O povo deve-se converter<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A causa do n\u00e3o cumprimento das promessas do II Is reside nos pecados do povo: no \u00e2mbito moral-social (Is 58,3b-12; 59,3-15; 56,10-57,1) e religioso (Is 58,13-14; 57,3-13; 65,2-7; 66,3-4). Os pr\u00f3prios textos que falam da idolatria (Is 57,3-13; 65,2-5.11) mostram que a responsabilidade pelas dificuldades recai em Israel, n\u00e3o no Senhor. O livro desenvolve uma dura cr\u00edtica aos pecados das autoridades e de certos grupos (Is 56,9-57,2), especialmente dos dirigentes (Is 56,10-11). Fala tamb\u00e9m contra a idolatria, que parece incluir sacrif\u00edcios humanos (Is 57,3-13; 65,1-7). Reprova igualmente os sacrif\u00edcios (Is 66,1-4) e as pr\u00e1ticas lit\u00fargicas (o jejum, o s\u00e1bado e a justi\u00e7a: Is 58) negligenciadas ou realizadas sem a correspondente \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus \u00e9 transcendente (Is 57,15; 63,15), mas \u00e9 pronto ao perd\u00e3o. O profeta, por isso, convida o povo \u00e0 convers\u00e3o (Is 57,14) e \u00e0 confiss\u00e3o das pr\u00f3prias culpas (Is 59,12-20; 63,7-64,11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6\u00a0 Forma\u00e7\u00e3o do livro de Isa\u00edas em seu conjunto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 numerosas repeti\u00e7\u00f5es de termos, express\u00f5es, tem\u00e1ticas, que perpassam as tr\u00eas grandes partes do livro de Isa\u00edas e d\u00e3o ao conjunto uma unidade, de modo que o livro enquanto tal se apresenta como um todo coerente. Sobressai aqui a designa\u00e7\u00e3o de Deus como \u201co Santo (de Israel)\u201d (35 vezes no livro como um todo), al\u00e9m da correspond\u00eancia entre certas passagens (Is 5,1-7 apresenta muitas semelhan\u00e7as com 27,2-6; 11,6a.7b.9 \u00e9 retomado em 65,25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A composi\u00e7\u00e3o final do livro deve ter ocorrido antes do s\u00e9culo III aC. De fato, o texto de Sir (Eclo) 48,22-25 (in\u00edcio do s\u00e9culo II) refere-se ao livro tocando temas de suas tr\u00eas partes; al\u00e9m disso, a tradu\u00e7\u00e3o grega da LXX (de meados do s\u00e9culo II a meados do s\u00e9culo I aC) conheceu o livro com todos os seus cap\u00edtulos, na forma que temos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mensagem do grande Isa\u00edas do s\u00e9culo VIII deve ter marcado c\u00edrculos de cultores das tradi\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas, de modo que ao n\u00facleo mais antigo do livro foram sendo paulatinamente acrescentados outros textos e remodeladas passagens mais antigas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel identificar com seguran\u00e7a os momentos redacionais, que devem ter ocorrido desde a \u00e9poca pr\u00e9-ex\u00edlica at\u00e9 o per\u00edodo persa, passando pelo per\u00edodo neobabil\u00f4nico. Atualmente, aceita-se cada vez mais que a segunda e terceira partes do livro n\u00e3o foram redigidas independentemente da primeira parte (c. 1-39).<\/p>\n<p><strong>7 Lendo o texto hoje<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Deus santo exige direito e justi\u00e7a em todas as realidades humanas: no agir individual, nas estruturas sociais, na pr\u00e1tica pol\u00edtica, no culto. Fundamental \u00e9 a atitude de convers\u00e3o, que implica f\u00e9 e adequa\u00e7\u00e3o do agir \u00e0 ordem divina. Deus tem o dom\u00ednio sobre a vida humana no plano pessoal, social, nacional e internacional, e, a seu tempo, realizar\u00e1 seu plano. Ele, o Deus \u00fanico, \u00e9 o senhor da hist\u00f3ria, capaz de reconduzir os deportados \u00e0 sua terra, criando para eles nova esperan\u00e7a. E para formar uma comunidade humana renovada, sem excluir ningu\u00e9m que se abra \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o. As expectativas do rei justo e s\u00e1bio, instrumento da salva\u00e7\u00e3o divina, se cumpriram em Jesus Cristo, o Filho de Davi que inaugurou seu Reino entre n\u00f3s (cf. Mc 11,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Maria de Lourdes Corr\u00eaa Lima, PUC Rio &#8211; Texto original portugu\u00eas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BERGES, U. <em>Isa\u00edas. <\/em>El profeta y el libro. Estudios b\u00edblicos 44. Estella: Verbo Divino, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FITZMYER, J. A.; BROWN, R. E.; MURPHY, R. E. (orgs.) <em>Novo coment\u00e1rio b\u00edblico S\u00e3o Jer\u00f4nimo<\/em>. Antigo Testamento. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MOTYER, A. <em>O coment\u00e1rio de Isa\u00edas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Shedd Publica\u00e7\u00f5es, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAMIS DARDER, F. D\u00e9utero-Isa\u00edas. In: BARRIOCANAL, J. L. <em>Diccionario del Profetismo B\u00edblico<\/em>. Burgos: Monte Carmelo, 2008. p. 202-214.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Proto-Isa\u00edas. In: BARRIOCANAL, J. L. <em>Diccionario del Profetismo B\u00edblico<\/em>. Burgos: Monte Carmelo, 2008, p. 590-602.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAMIS DARDER, F. <em>Isa\u00edas 40-66<\/em>. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RIDDERBOS, J. <em>Isa\u00edas. <\/em>Introdu\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rio. S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SICRE DIAZ, J. L. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao profetismo b\u00edblico<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SIMIAN-YOFRE, H. <em>Profec\u00eda y poder. <\/em>Un libro desconocido. C\u00f3rdoba: Editorial Universidad Cat\u00f3lica de C\u00f3rdoba, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Trito-Isa\u00edas. In: BARRIOCANAL, J. L. <em>Diccionario del Profetismo B\u00edblico<\/em>. Burgos: Monte Carmelo, 2008, p. 735-742.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O livro como um todo 2 Isa\u00edas profeta 3 O Primeiro Isa\u00edas (c. 1-39) 3.1 Composi\u00e7\u00e3o do I Is 3.2. Principais pontos de teologia 4 O Segundo Isa\u00edas (c. 40-55) 4.1 Autoria e data\u00e7\u00e3o 4.2 Organiza\u00e7\u00e3o Excurso: os textos do Servo sofredor 4.3 Principais pontos de teologia 5 O terceiro Isa\u00edas (c. 56-66) [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-1752","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1752"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1752\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1796,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1752\/revisions\/1796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}