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{"id":171,"date":"2014-12-18T18:15:42","date_gmt":"2014-12-18T20:15:42","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=171"},"modified":"2018-10-16T10:08:57","modified_gmt":"2018-10-16T13:08:57","slug":"recepcao-judaica-e-crista-da-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=171","title":{"rendered":"Recep\u00e7\u00e3o judaica e crist\u00e3 da B\u00edblia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O TaNaK desde o Ex\u00edlio at\u00e9 nossos dias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Tradu\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 A B\u00edblia grega<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 Targum<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O Talmud<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A B\u00edblia crist\u00e3 e sua leitura n\u00e3o judaica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 Na Patr\u00edstica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 Na Idade M\u00e9dia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.3 Na Modernidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A reaproxima\u00e7\u00e3o entre leitura judaica e leitura crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.1 Vaticano II<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.2 O povo judeu e suas Sagradas Escrituras na B\u00edblia crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.3 Verbum domini<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surgimento da B\u00edblia se deu ao longo de v\u00e1rios s\u00e9culos, em lugares, tempos e padr\u00f5es liter\u00e1rios diversificados (cf. Hb 1,1). Da mesma forma, tamb\u00e9m n\u00e3o foi acolhida imediatamente, mas gradativamente. A composi\u00e7\u00e3o dos textos b\u00edblicos faz parte de um processo que tem como principal marco hist\u00f3rico a domina\u00e7\u00e3o estrangeira sobre \u201co povo da Alian\u00e7a\u201d. Foi para firmar a pr\u00f3pria identidade e evitar a dilui\u00e7\u00e3o cultural em meio \u00e0s na\u00e7\u00f5es estrangeiras que os descendentes dos hebreus empregaram o recurso de colocar por escrito suas experi\u00eancias com o Deus dos antepassados, como testemunho de f\u00e9 para as gera\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O TaNaK desde o ex\u00edlio at\u00e9 nossos dias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estabelecimento da monarquia no antigo Israel (por volta de 1013 aC) suscitou a presen\u00e7a de escribas (cf. 1Rs 4,3) na Corte real, como redatores de documentos e de cr\u00f4nicas anuais sobre a\u00e7\u00f5es dos reis. Muitas informa\u00e7\u00f5es, nesses anais, serviram de base para v\u00e1rios textos b\u00edblicos posteriores (cf. 1Rs 14,19 <em>et passim<\/em>). Depois do cisma pol\u00edtico (em torno de 931 aC), o Reino do Norte sofreu v\u00e1rios golpes de estado, at\u00e9 que, em 722 aC, os ass\u00edrios\u00a0 tomaram a capital Samaria e miscigenaram a popula\u00e7\u00e3o com as de outras regi\u00f5es de seu imp\u00e9rio (cf. 2Rs 17).\u00a0 No Sul, por\u00e9m, perpetuava-se no comando pol\u00edtico a linhagem de Davi, at\u00e9 que a capital Jerusal\u00e9m caiu sob o poder dos babil\u00f4nios. As elites pol\u00edticas, religiosas e intelectuais do Reino de Jud\u00e1 foram exiladas para a Babil\u00f4nia a partir de 586 aC O ex\u00edlio durou at\u00e9 538 aC, quando Ciro, rei da P\u00e9rsia, permitiu que os judeus voltassem para Jerusal\u00e9m e restaurassem a religi\u00e3o (DONNER, 1997, p.433-43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o ex\u00edlio babil\u00f4nico e depois dele, os judeus, tanto os exilados como os remanescentes em Jud\u00e1, consignaram em forma de livro sua experi\u00eancia com Deus. Tradi\u00e7\u00f5es orais e lit\u00fargicas tomaram corpo e sofreram diversas reda\u00e7\u00f5es at\u00e9 culminarem em um <em>corpus <\/em>escritur\u00edstico integrado. Esse <em>corpus <\/em>passou a ser conhecido como TaNaK, um acr\u00f3stico de suas tr\u00eas partes: Tor\u00e1 (Lei), Neviim (Profetas) e Ketuvim (Escritos). \u00c9 comumente aceito que Meliton (falecido em 180 dC), bispo de Sardes (na \u00c1sia Menor), tenha cunhado a terminologia <em>Antigo Testamento, <\/em>para denominar os livros que o juda\u00edsmo chama de TaNaK (SKARSAUNE, 1996, p.411-6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Tor\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 chamada de Lei, Lei de Mois\u00e9s e Pentateuco. Designa os cinco primeiros livros da B\u00edblia e \u00e9 considerada como os escritos fundamentais da f\u00e9 judaica, porque trata da elei\u00e7\u00e3o, da promessa e da alian\u00e7a de Deus para com os patriarcas. Os Neviim ou Profetas narram os fatos que v\u00e3o desde a morte de Mois\u00e9s at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do Primeiro Templo pelo imp\u00e9rio babil\u00f4nico e incluem relatos de acontecimentos, profecias, exorta\u00e7\u00f5es, consola\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as de um futuro promissor para o povo da Alian\u00e7a. Os Ketuvim, tamb\u00e9m chamados de Escritos, tem conte\u00fado educacional, ora\u00e7\u00f5es, filosofias, contos edificantes, textos apocal\u00edpticos, can\u00e7\u00f5es e lamentos de v\u00e1rios tipos etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ser lida e estudada nas sinagogas judaicas, logo depois do ex\u00edlio babil\u00f4nico, a B\u00edblia ainda n\u00e3o era o que \u00e9 atualmente. De acordo com a maioria dos pesquisadores, a atual configura\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento data de depois do ano 70 de nossa era, final do processo de recep\u00e7\u00e3o desses escritos e a consequente fixa\u00e7\u00e3o do conjunto dessas obras que constituem o TaNaK. A destrui\u00e7\u00e3o do Segundo Templo, em 70 dC, foi um dos principais catalisadores para a defini\u00e7\u00e3o dos livros aceitos como sagrados (lidos na liturgia da sinagoga) e dos livros reservados \u00e0 leitura pessoal e n\u00e3o p\u00fablica. A sacralidade de alguns deles foi discutida, como o Eclesiastes, o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e Ester, e esses, ap\u00f3s longa discuss\u00e3o, foram finalmente aceitos como sagrados. Al\u00e9m desses, alguns escritos foram proibidos de ser lidos por terem sido considerados como obras de grupos sect\u00e1rios de judeus helenistas e seguidores de Jesus de Nazar\u00e9 (BARTON, 1996, p.67-83).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final do processo de aceita\u00e7\u00e3o do TaNaK visava firmar a identidade do juda\u00edsmo e servir como medida preventiva contra desvios na interpreta\u00e7\u00e3o da Tor\u00e1. A aceita\u00e7\u00e3o final dos livros tornou o juda\u00edsmo definitivamente uma \u201creligi\u00e3o do livro\u201d, porque \u00e9 nesse conjunto de obras reconhecidamente inspiradas que o judeu de cada \u00e9poca interpreta sua experi\u00eancia de f\u00e9 e sua identidade como povo. A aceita\u00e7\u00e3o do TaNaK se configura como fator de unidade entre os judeus espalhados entre as na\u00e7\u00f5es em todas as \u00e9pocas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Tradu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 A B\u00edblia grega<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os judeus estavam sob o dom\u00ednio helen\u00edstico dos ptolemeus, cuja sede pol\u00edtica era Alexandria, no Egito, o TaNaK, escrito originalmente em hebraico, foi traduzido pelos judeus da di\u00e1spora helenista para o grego koin\u00e9 (entre o III e o I s\u00e9culo aC). Essa vers\u00e3o grega, chamada Septuaginta (LXX), fez v\u00e1rias mudan\u00e7as nos t\u00edtulos originais dos livros hebraicos e na forma de agrup\u00e1-los, os quais foram organizados em novas se\u00e7\u00f5es assim distribu\u00eddas: Pentateuco, Hist\u00f3ricos, Hagi\u00f3grafa (do grego: escritos sagrados) e Profetas. Por causa da mudan\u00e7a de uma l\u00edngua semita para um idioma indo-europeu, os tradutores tiveram que lidar com dificuldades em verter os conceitos de uma cultura para outra, portanto muitas modifica\u00e7\u00f5es foram inseridas tamb\u00e9m nos textos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a LXX levou muitos s\u00e9culos para ser terminada, enquanto o trabalho de tradu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava, a lista de livros se expandia. Por isso, al\u00e9m da tradu\u00e7\u00e3o daqueles livros que pertenciam ao dom\u00ednio judaico do TaNaK, a vers\u00e3o grega tamb\u00e9m adicionou outras obras originalmente escritas em grego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juda\u00edsmo rab\u00ednico (posterior ao ano 70 dC, cujo marco \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o do Segundo Templo), n\u00e3o recebeu a Septuaginta como texto adequado para a leitura p\u00fablica na liturgia da sinagoga. V\u00e1rias raz\u00f5es foram dadas para isso. Primeiramente, alguns erros de tradu\u00e7\u00e3o foram denunciados. Em segundo lugar, os textos hebraicos, em alguns casos (especialmente o livro de Daniel), utilizados pela Septuaginta diferiam do texto hebraico declarado sagrado e fixado. Em terceiro lugar, os rabinos queriam distinguir a tradi\u00e7\u00e3o genuinamente judaica daquela emergente confessada pelos seguidores de Jesus. De fato, as comunidades crist\u00e3s dos prim\u00f3rdios aceitaram amplamente a LXX e fizeram dela a Escritura Sagrada para fundamentar sua f\u00e9. Finalmente, os rabinos alegaram autoridade divina para a l\u00edngua hebraica, em contraste com o aramaico ou o grego, mesmo quando essas l\u00ednguas se tornaram idioma franco dos judeus naquela \u00e9poca. Entretanto, nas obras de judeus helenistas como F\u00edlon de Alexandria e Fl\u00e1vio Josefo, a LXX \u00e9 considerada com igual valor que o texto hebraico. Tamb\u00e9m foram encontradas c\u00f3pias da Septuaginta entre os manuscritos de Qumran no Mar Morto; isso testemunha seu valor para os judeus daquele tempo (WEVERS, 1996, p.87-90).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta do s\u00e9culo II dC, v\u00e1rios fatores levaram a maioria dos judeus a abandonar o uso da LXX. O principal deles foi a associa\u00e7\u00e3o da LXX com o cristianismo, tornando-a suspeita aos olhos das novas gera\u00e7\u00f5es de judeus. De fato, a maior parte dos crist\u00e3os desconhecia o hebraico, seja porque tinham vindo do juda\u00edsmo helenista ou porque fossem gentios. Como a LXX era a \u00fanica vers\u00e3o grega da B\u00edblia at\u00e9 ent\u00e3o, ela se tornou extremamente necess\u00e1ria para essas pessoas e passou a ser a B\u00edblia do cristianismo nascente. Os escritores do Novo Testamento, ao citarem as escrituras judaicas, utilizam-se livremente da LXX, dando a entender que Jesus e os ap\u00f3stolos a consideravam confi\u00e1vel. Durante as pol\u00eamicas judaico-crist\u00e3s dos primeiros s\u00e9culos de nossa era, pensou-se inclusive que os judeus tinham alterado o texto hebraico para torn\u00e1-lo diferente da tradu\u00e7\u00e3o grega em v\u00e1rias passagens que eram fundamentais para os crist\u00e3os (WEVERS, 1996, p.91).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 Targum<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As suspeitas levantadas contra a LXX, por causa de sua vincula\u00e7\u00e3o a uma religi\u00e3o em conflito com o juda\u00edsmo da \u00e9poca, podem ter contribu\u00eddo para mais ampla utiliza\u00e7\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o aramaica autorizada do TaNaK, denominada de Targum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Targum n\u00e3o era de fato uma tradu\u00e7\u00e3o, mas se constitu\u00eda como par\u00e1frases com explica\u00e7\u00f5es e amplia\u00e7\u00f5es dos textos do TaNaK, feitas por um int\u00e9rprete autorizado, na linguagem comum dos ouvintes, com o objetivo de atualizar o texto antigo para novas gera\u00e7\u00f5es e novos contextos hist\u00f3ricos. As principais modifica\u00e7\u00f5es feitas pelo Targum tinham por objetivo evitar os antropomorfismos e dar prefer\u00eancia \u00e0 alegoria, para salvaguardar a transcend\u00eancia de Deus (RIBERA, 1994, p.218-25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O TaNaK foi recebido pelo Targum com muita liberdade. V\u00e1rias modifica\u00e7\u00f5es foram acrescentadas no texto, mesmo porque n\u00e3o houve a pretens\u00e3o de substituir o texto hebraico pelo aramaico. O texto hebraico continuou sendo lido publicamente na sinagoga e logo depois o Targum auxiliava a compreens\u00e3o dos ouvintes, visto que poucos sabiam hebraico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas tradi\u00e7\u00f5es judaicas a partir da Babil\u00f4nia aceitaram o Targum como escrito de autoridade, ou seja, como texto sagrado ao lado do TaNaK. Isso, posteriormente, tornou-se uma quest\u00e3o de debate. Somente no I\u00eamen ainda se usa o Targum na liturgia da sinagoga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de todas as controv\u00e9rsias na recep\u00e7\u00e3o do Targum para definir sua import\u00e2ncia e seu uso, hoje \u00e9 amplamente admitido que a par\u00e1frase aramaica \u00e9 essencial para o estudo do TaNaK, mesmo quando as comunidades judaicas n\u00e3o eram mais falantes do aramaico. O fato de o Targum nunca ter deixado de ser uma fonte importante para a exegese judaica mostra sua ampla aceita\u00e7\u00e3o como fonte fundamental de coment\u00e1rio do TaNaK. V\u00e1rios manuscritos b\u00edblicos medievais cont\u00eam o texto hebraico e o aramaico interpolados vers\u00edculo por vers\u00edculo. Esse fato tem suas ra\u00edzes na exig\u00eancia de utiliza\u00e7\u00e3o do Targum para estudo privado do TaNaK lido publicamente no s\u00e1bado (RIBERA, 1994, p.218-25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O Talmud<\/strong><\/p>\n<p>O Talmud, compila\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es rab\u00ednicas sobre os diversos aspectos da pr\u00e1xis judaica, tamb\u00e9m se posiciona sobre a recep\u00e7\u00e3o das Escrituras. Os coment\u00e1rios rab\u00ednicos do TaNaK que comp\u00f5em o Talmud s\u00e3o apresentados como a Tor\u00e1 oral dada a Mois\u00e9s e transmitida \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes (Avot 1,1). Por isso, o Talmud, como resultado das tradi\u00e7\u00f5es orais de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de rabinos, \u00e9 tido com igual autoridade do texto b\u00edblico da Tor\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Talmud da Babil\u00f4nia, no tratado sobre o Sin\u00e9drio, Sanhedrin 90a, os \u00a0rabinos discutem sobre quem participar\u00e1 ou n\u00e3o do mundo vindouro, do mundo regenerado. Nessas discuss\u00f5es afirmam, entre outras coisas, que estar\u00e1 exclu\u00eddo do mundo futuro todo aquele que n\u00e3o tiver a Tor\u00e1 como divinamente inspirada. E Rabi Akiva acrescentou que tal aconteceria, tamb\u00e9m, a quem lesse um livro n\u00e3o can\u00f4nico, ou seja, um dos livros entre os que n\u00e3o \u201cmancham as m\u00e3os\u201d, i.e., que n\u00e3o deixam as m\u00e3os marcadas pela sacralidade. Dada a import\u00e2ncia de Akiva e a pol\u00eamica entre judeus e crist\u00e3os nos primeiros s\u00e9culos da era comum, esta postura mais severa tamb\u00e9m foi inclu\u00edda no Talmud de Jerusal\u00e9m, tratado Sanhedrin 10a e 28a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os livros que \u201cn\u00e3o mancham as m\u00e3os\u201d, o Eclesi\u00e1stico, ou Sir\u00e1cida, recebeu o tratamento mais excludente no Talmud, pois foi colocado entre as obras pertencentes aos <em>minim<\/em> ou hereges (Tosefta Yadaim II, 13). Apesar de ter sido exclu\u00eddo do c\u00e2non e das proibi\u00e7\u00f5es com que foi cercado, o Sir\u00e1cida permaneceu popular entre os judeus e \u00e9 citado frequentemente no Talmud (TREBOLLE BARRERA, 1993, p.48-9; 141-50; 159-213).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso mostra uma atitude paradoxal, presente na compila\u00e7\u00e3o do Talmud, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 recep\u00e7\u00e3o das Escrituras. Por um lado, certas obras s\u00e3o muito \u00fateis para fundamentar a pr\u00e1xis do juda\u00edsmo dos primeiros s\u00e9culos da era comum. Por outro lado, essas mesmas obras, como o S\u00edr\u00e1cida, s\u00e3o igualmente fundamentais para justificar o cristianismo. Portanto, elas s\u00e3o usadas com frequ\u00eancia como\u00a0<em>dicta probantia<\/em> pelos rabinos e s\u00e3o, igualmente, declaradas proibidas como livros dos hereges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A posi\u00e7\u00e3o dos compiladores do Talmud tamb\u00e9m n\u00e3o difere muito a respeito da LXX. Eles t\u00eam que enfrentar o fato de que a vers\u00e3o grega existe e \u00e9 amplamente usada pelos judeus, visto que poucos ainda dominam a l\u00edngua <em>mater<\/em> dos ancestrais. No entanto, o Talmud n\u00e3o pode oficializar uma aprova\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o grega do TaNaK por motivos ideol\u00f3gicos e hist\u00f3ricos, compreens\u00edveis dentro do contexto no qual as tradi\u00e7\u00f5es rab\u00ednicas foram compiladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para resolver esse impasse, os rabinos acolhem uma lenda, bastante divulgada, sobre o surgimento da LXX. A men\u00e7\u00e3o a essa lenda reflete as preocupa\u00e7\u00f5es e ansiedade dos rabinos n\u00e3o s\u00f3 sobre a Septuaginta, mas tamb\u00e9m sobre sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o, autodefinida como transmissores da tradi\u00e7\u00e3o mosaica, em um contexto no qual s\u00e3o desafiados tanto por uma hegemonia cultural greco-romana, quanto pela exist\u00eancia dos judeus crist\u00e3os e judeus helenistas, que pretendem ser os verdadeiros herdeiros dos patriarcas e profetas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lenda sobre o surgimento da LXX relata que o rei Ptolomeu reuniu setenta e dois anci\u00e3os e os colocou em setenta e duas salas separadas, sem dizer-lhes por que os tinha reunido. Depois o rei teria dito, a cada um deles em particular, que traduzissem a Tor\u00e1 de Mois\u00e9s. Deus, ent\u00e3o, os inspirou de forma que todos concebessem a mesma ideia (Talmud da Babil\u00f4nia, tratado Megilla 9a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A LXX \u00e9 um fato. A lenda tal como est\u00e1 no Talmud traz uma ambiguidade, afirma que \u201celes conceberam a mesma ideia\u201d, mas n\u00e3o diz que a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 boa. Para os rabinos compiladores do Talmud, a Tor\u00e1 jamais ser\u00e1 traduzida de forma adequada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns textos rab\u00ednicos veem a tradu\u00e7\u00e3o como um processo essencialmente problem\u00e1tico e consideram as tentativas de realiz\u00e1-lo como algo escandaloso. Intimamente ligado a isto est\u00e1 a quest\u00e3o da precis\u00e3o do texto b\u00edblico recebido e transmitido pelos rabinos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es das Escrituras, que podem, por vezes, refletir diferentes vers\u00f5es dos textos no idioma original hebraico. Isso levanta quest\u00f5es urgentes para a teologia rab\u00ednica, visto que, ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do Templo, os rabinos n\u00e3o apenas escolheram os livros sagrados, mas tamb\u00e9m o texto hebraico que melhor servia para conferir a autenticidade de suas tradi\u00e7\u00f5es no momento de pol\u00eamicas em que estavam vivendo (TOV, 1999, p.1-20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao Targum, o Talmud preocupou-se, antes de tudo, em deixar bem claro que o texto b\u00edblico e sua tradu\u00e7\u00e3o eram coisas bem diferentes, sendo distinto o valor de cada um. A legisla\u00e7\u00e3o do Talmud a respeito do Targum vai, principalmente, manter essa distin\u00e7\u00e3o: o leitor e o tradutor (<em>metargumen<\/em>, int\u00e9rprete) n\u00e3o podem ser o mesmo (Talmud da Babil\u00f4nia, tratado Sotah 39b) e o texto b\u00edblico tem que ser lido, enquanto a tradu\u00e7\u00e3o deve ser feita de mem\u00f3ria (Talmud de Jerusal\u00e9m, tratado Megilla 74d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, ainda que a tradu\u00e7\u00e3o (o targum) esteja claramente subordinada ao texto b\u00edblico, ela permitia, ao mesmo tempo, dar a conhecer a correta interpreta\u00e7\u00e3o desse, atualizando-o e at\u00e9 mesmo mudando-lhe o significado. Dessa forma, a vers\u00e3o aramaica mantinha intoc\u00e1vel o texto hebraico, considerado sagrado e, ao mesmo tempo, atualizava-o para que respondesse aos novos desafios, sem a necessidade de modificar o texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Targum foi escrito, junto \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de tradu\u00e7\u00e3o e de atualiza\u00e7\u00e3o desempenhou tamb\u00e9m o papel de instrumento de estudo do texto b\u00edblico dentro do sistema educativo rab\u00ednico, e isso ent\u00e3o se tornou sua fun\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria at\u00e9 agora (P\u00c9REZ, 1996, p.533-62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A B\u00edblia crist\u00e3 e sua leitura n\u00e3o judaica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os s\u00e9culos I-VI, os judeus crist\u00e3os tiveram muitos problemas com a sinagoga e precisaram justificar a sua f\u00e9 procurando na Escritura passagens que os ajudassem a reler a vida de Jesus. Esse tipo de leitura b\u00edblica configurou-se como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; tipol\u00f3gico: as passagens do Antigo Testamento seriam figuras e tipos das a\u00e7\u00f5es messi\u00e2nicas de Cristo. Ex: Mt 16,4; Lc 11,29.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; aleg\u00f3rico: prevaleceu o s\u00edmbolo, mais que a interpreta\u00e7\u00e3o literal ou hist\u00f3rica. Ex: Gl 4,22-28.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; cristol\u00f3gico: o mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o tem o seu \u00fanico eixo em Cristo. Ex: Lc 24,25-27 (GILBERT, 1995, p.65-126).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.1 Na Patr\u00edstica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Padres Apost\u00f3licos procuram fundamentar na B\u00edblia suas doutrinas que tinham um cunho pastoral. Os apologetas estavam \u00e0s voltas com pol\u00eamicas provocadas pelos pag\u00e3os e pelos judeus. Seu acesso \u00e0 B\u00edblia tinha por objetivo: refutar cal\u00fanias conta os crist\u00e3os; lutar contra costumes, mitos e ritos judaicos e pag\u00e3os; defender como verdadeiras as doutrinas dos crist\u00e3os e rejeitar literaturas judaicas e pag\u00e3s que poderiam se contrapor ao cristianismo (S\u00c1NCHEZ, 1996, p.58-62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o per\u00edodo da patr\u00edstica, a recep\u00e7\u00e3o da B\u00edblia se efetivou a partir do sentido <em>hist\u00f3rico<\/em>, moral e aleg\u00f3rico. Hist\u00f3rico significa, nessa perspectiva, que cada acontecimento fala sobre Jesus, portanto as Escrituras Hebraicas nada mais fazem que falar sobre Cristo e sua igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>4.2 Na Idade M\u00e9dia<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos sentidos conhecidos at\u00e9 ent\u00e3o (literal, hist\u00f3rico, aleg\u00f3rico, moral), na Idade M\u00e9dia foi utilizado tamb\u00e9m o anag\u00f3gico, sentido m\u00edstico que elevava o crist\u00e3o at\u00e9 as realidades celestiais. Como muitos eram iletrados e n\u00e3o podiam ter acesso \u00e0 B\u00edblia, foi incentivada a representa\u00e7\u00e3o de cenas b\u00edblicas atrav\u00e9s da pintura. \u00c0 prega\u00e7\u00e3o caberia, ent\u00e3o, a miss\u00e3o de dar a explica\u00e7\u00e3o dessas representa\u00e7\u00f5es. Fundou-se uma catequese pela imagem, fornecendo uma consci\u00eancia limitada da B\u00edblia, representada sem as dificuldades, contradi\u00e7\u00f5es, diferen\u00e7as e incoer\u00eancias do texto b\u00edblico. Apesar disso, a B\u00edblia foi a fonte de todo conhecimento na Idade M\u00e9dia, mesmo seu acesso sendo restrito a poucos (S\u00c1NCHEZ, 1996, p.62-3; GILBERT, 1995, p.127-34).<\/p>\n<p><strong><em>4.3 Na Modernidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a inven\u00e7\u00e3o da imprensa, a B\u00edblia tornou-se um livro acess\u00edvel a quem desejasse e pudesse possu\u00ed-lo. O texto que antes estava oculto aos olhos da maioria, logo come\u00e7ou a revelar sua dificuldade, provocando d\u00favidas, cr\u00edticas e as mais diversas interpreta\u00e7\u00f5es. Assim, o sentido literal, antes n\u00e3o muito importante, passou a ocupar a primazia. Lutero proclama \u201cs\u00f3 a Escritura\u201d, relativizando toda a interpreta\u00e7\u00e3o realizada at\u00e9 ali. E, para completar, os Reformadores conclamaram uma volta \u00e0 verdade hebraica. A partir de ent\u00e3o, come\u00e7ou um estudo cr\u00edtico das Escrituras, mas a verdade hebraica t\u00e3o conclamada ainda n\u00e3o era uma reaproxima\u00e7\u00e3o com a leitura judaica das Escrituras. A B\u00edblia ainda era recebida sem se levar em conta suas ra\u00edzes mais profundas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 A reaproxima\u00e7\u00e3o entre leitura judaica e leitura crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A considera\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes hebraicas das Escrituras e a reaproxima\u00e7\u00e3o entre a leitura judaica e a leitura crist\u00e3 teve seu in\u00edcio entre os cat\u00f3licos quando, em 1943, o Papa Pio XII escreveu a enc\u00edclica <em>Divino Afflante Spiritu,<\/em> sobre o modo mais oportuno de promover os estudos da Sagrada Escritura. Nesse documento, Pio XII pede que a B\u00edblia ocupe um lugar central na teologia e na vida dos fi\u00e9is. Afirma a import\u00e2ncia do conhecimento sobre o hagi\u00f3grafo, o g\u00eanero liter\u00e1rio, a hist\u00f3ria, as antiguidades etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um acontecimento muito significativo para esta reaproxima\u00e7\u00e3o entre judeus e cat\u00f3licos na recep\u00e7\u00e3o das Escrituras foi a descoberta dos manuscritos de Qumran, em 1947, que provocou certo <em>frisson<\/em> entre pesquisadores. Consequ\u00eancia disso foi um despertar para pesquisas referentes aos diversos aspectos da vida judaica em torno do primeiro s\u00e9culo da era comum, fato que fez surgir um movimento de retorno \u00e0s ra\u00edzes judaicas da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a05.1 Vaticano II<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1962 come\u00e7ou o Conc\u00edlio Vaticano II, fruto de v\u00e1rios movimentos de renova\u00e7\u00e3o, moderniza\u00e7\u00e3o e reaproxima\u00e7\u00e3o, que vinham se desenvolvendo j\u00e1 h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Declara\u00e7\u00e3o <em>Nostra Aetate<\/em>, sobre as rela\u00e7\u00f5es da Igreja com as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s, os padres conciliares afirmam que a Igreja n\u00e3o deve esquecer que, por meio do povo de Israel, \u201cela recebeu a Revela\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento e se alimenta pela raiz de boa oliveira, na qual como ramos de zambujeiro foram enxertados os Povos\u201d (<em>Nostra Aetate<\/em> n.4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O coroamento desse movimento de reaproxima\u00e7\u00e3o no Vaticano II foi a promulga\u00e7\u00e3o, no dia 18 de novembro de 1965, pelo Papa Paulo VI, da <em>Dei Verbum<\/em>, Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica sobre a Revela\u00e7\u00e3o Divina. Nessa Constitui\u00e7\u00e3o se reafirma a mesma postura de abertura tamb\u00e9m presente na <em>Nostra Aetate<\/em>, quando escreveram os padres conciliares que \u201cDeus, desejando a salva\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano, escolheu \u2018por especial provid\u00eancia\u2019 o povo de Israel e com ele estabeleceu alian\u00e7a e a ele confiou suas promessas, para preparar a salva\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano\u201d (<em>Dei Verbum<\/em> n.14). Portanto, a revela\u00e7\u00e3o narrada e explicada no Antigo Testamento \u00e9 verdadeira palavra de Deus (<em>Dei Verbum<\/em> n.14), pois manifesta conhecimento a respeito de Deus e do ser humano e o modo como todos os seres humanos s\u00e3o tratados pelo Deus justo e misericordioso. \u201cTais livros, apesar de conterem tamb\u00e9m coisas imperfeitas e transit\u00f3rias, revelam, contudo, a verdadeira pedagogia divina\u201d (<em>Dei Verbum<\/em> n.15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a05.2 O povo judeu e suas Sagradas Escrituras na B\u00edblia crist\u00e3<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em prepara\u00e7\u00e3o para a celebra\u00e7\u00e3o dos 50 anos da <em>Dei Verbum<\/em>, a Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o B\u00edblica, em 24 de maio de 2001, lan\u00e7ou o documento <em>O povo judeu e suas Sagradas Escrituras na B\u00edblia crist\u00e3. <\/em>A quest\u00e3o ali levantada \u00e9 sobre as rela\u00e7\u00f5es que a B\u00edblia estabelece entre judeus e crist\u00e3os, j\u00e1 que a B\u00edblia crist\u00e3 \u00e9 composta em sua maior parte pelas Sagradas Escrituras do povo judeu e o Novo Testamento, no qual se expressa a f\u00e9 em Jesus Cristo, est\u00e1 em estreita rela\u00e7\u00e3o com o Antigo Testamento (n.1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Novo Testamento n\u00e3o \u00e9 uma novidade absoluta: est\u00e1 enraizado nas Escrituras do povo judeu e lhes reconhece a autoridade divina. Esse reconhecimento \u00e9 expresso de modo impl\u00edcito usando terminologias, reminisc\u00eancias e cita\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas e expl\u00edcitas (n.2-4). Proclama-se que o Novo Testamento est\u00e1 de acordo com as Sagradas Escrituras do povo judeu na dupla convic\u00e7\u00e3o: da necessidade de que se cumpram as Escrituras e na conformidade dos eventos do Novo Testamento com as Escrituras do povo judeu (n.6-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da recep\u00e7\u00e3o das Escrituras judaicas na f\u00e9 de Cristo considera, principalmente, a unidade do plano de Deus e a no\u00e7\u00e3o de cumprimento, pois o Antigo Testamento se abre progressivamente a uma perspectiva de cumprimento \u00faltimo e definitivo, que o cristianismo v\u00ea como j\u00e1 realizado substancialmente no mist\u00e9rio de Cristo. Sendo assim, a contribui\u00e7\u00e3o da leitura judaica da B\u00edblia \u00e9 muito \u00fatil, an\u00e1loga \u00e0 leitura crist\u00e3 que se desenvolveu em paralelo durante alguns s\u00e9culos. Mas, por raz\u00f5es hermen\u00eauticas, os crist\u00e3os n\u00e3o devem fazer a leitura judaica da B\u00edblia da mesma maneira que os judeus, pois isso significaria aceitar todos os seus pressupostos, como a autoridade do Talmud, a primazia da Tor\u00e1 sobre os demais livros, a cren\u00e7a que o messias ainda n\u00e3o veio etc. Cada uma das leituras, a judaica e a crist\u00e3, \u00e9 coerente com sua vis\u00e3o de f\u00e9 respectiva, da qual \u00e9 resultado e express\u00e3o, e s\u00e3o mutuamente irredut\u00edveis. Os crist\u00e3os podem aprender com a exegese judaica, e vice-versa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a05.3 Verbum Domini<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 11 de novembro de 2010, o Papa Bento XVI publicava a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal <em>Verbum Domini<\/em>, que recolheu as conclus\u00f5es da assembleia do S\u00ednodo dos Bispos celebrada no Vaticano em outubro de 2008, com o objetivo de \u201crevalorizar a Palavra divina na vida da Igreja\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O objetivo do documento, esclarecia o Papa na introdu\u00e7\u00e3o, era \u201cindicar algumas linhas fundamentais para uma redescoberta, na vida da Igreja, da Palavra divina, fonte de constante renova\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m disso, o Papa expressou o desejo e a esperan\u00e7a de que a Palavra de Deus se tornasse cada vez mais o \u201ccora\u00e7\u00e3o de toda a atividade eclesial\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precisamente dentro desse objetivo e esperan\u00e7a que a <em>Verbum Domini<\/em> considera a rela\u00e7\u00e3o entre Antigo e Novo Testamento, admitindo que essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00edntima e que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cfixar a aten\u00e7\u00e3o no v\u00ednculo peculiar que isso cria entre crist\u00e3os e judeus, um v\u00ednculo que n\u00e3o deveria jamais ser esquecido\u201d (n.43). Admitir que existe esse v\u00ednculo peculiar \u201cn\u00e3o significa ignorar as rupturas atestadas no Novo Testamento relativamente \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Antigo Testamento\u201d. Essas rupturas existem, est\u00e3o na ordem do processo hist\u00f3rico e da hermen\u00eautica constitutivos da identidade de judeus e crist\u00e3os, embora tamb\u00e9m seja fundamental considerar \u201co cumprimento das Escrituras no mist\u00e9rio de Jesus Cristo, reconhecido Messias\u201d pelos crist\u00e3os (n.43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa posi\u00e7\u00e3o dos padres sinodais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Escrituras hebraicas torna-se, na <em>Verbum Domini,<\/em> o coroamento da posi\u00e7\u00e3o oficial dos cat\u00f3licos de reaproxima\u00e7\u00e3o entre leitura judaica e leitura crist\u00e3 da b\u00edblia, quase cinquenta anos depois do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<p><em>A\u00edla Pinheiro, <\/em>FCF, Brasil. Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARTON, John. The Significance of a Fixed Canon of the Hebrew Bible. 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G\u00f6ttingen: Vandenhoeck &amp; Ruprecht, 1996. v.1. p.84-107.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O TaNaK desde o Ex\u00edlio at\u00e9 nossos dias 2 Tradu\u00e7\u00f5es 2.1 A B\u00edblia grega 2.2 Targum 3 O Talmud 4 A B\u00edblia crist\u00e3 e sua leitura n\u00e3o judaica 4.1 Na Patr\u00edstica 4.2 Na Idade M\u00e9dia 4.3 Na Modernidade 5 A reaproxima\u00e7\u00e3o entre leitura judaica e leitura crist\u00e3 5.1 Vaticano II 5.2 O povo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-171","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=171"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1636,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/171\/revisions\/1636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}