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{"id":1700,"date":"2018-12-31T12:14:55","date_gmt":"2018-12-31T14:14:55","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1700"},"modified":"2020-02-20T10:36:25","modified_gmt":"2020-02-20T13:36:25","slug":"os-salmos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1700","title":{"rendered":"Os Salmos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00cdndice<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O Salmo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1\u00a0 O termo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2\u00a0 A atitude<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3 Os g\u00eaneros liter\u00e1rios<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3.1 A variedade dos g\u00eaneros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3.2 A teologia dos g\u00eaneros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.4 Os salmos imprecat\u00f3rios ou \u201cviolentos\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.5 O louvor e suas implica\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O Livro dos Salmos ou salt\u00e9rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 O termo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 A forma\u00e7\u00e3o do livro<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3 A estrutura da obra<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.4 Salt\u00e9rio: profetismo e Tor\u00e1 de Davi<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.5 O salt\u00e9rio: express\u00e3o de di\u00e1logo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.6 O salt\u00e9rio: continua\u00e7\u00e3o do templo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.7 A figura de Davi no salt\u00e9rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.8 Os pobres no salt\u00e9rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.9 A numera\u00e7\u00e3o dos salmos e data\u00e7\u00e3o do salt\u00e9rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Os Salmos e o NT<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 Os salmos e Jesus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 Os salmos e a Igreja nos textos do NT<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro dos Salmos faz parte dos livros po\u00e9ticos e sapienciais do AT, formado por 150 poemas provenientes de v\u00e1rias pessoas, situa\u00e7\u00f5es, \u00e9pocas, lugares. Enquanto <em>ora\u00e7\u00f5es,<\/em> s\u00e3o palavras humanas dirigidas a Deus. Por meio desses poemas, o ser humano exprime diante de Deus sua ang\u00fastia, sua s\u00faplica, sua sede, seu louvor, sua gratid\u00e3o e alegria. Enquanto texto b\u00edblico, \u00e9, tamb\u00e9m e ao mesmo tempo, <em>palavra<\/em> de Deus que acolhe, consola e afaga, mostra sua miseric\u00f3rdia, mas tamb\u00e9m sua intoler\u00e2ncia com a perversidade e a duplicidade de cora\u00e7\u00e3o (Sl 12,2). \u00c9 o livro que deixa transbordar a rela\u00e7\u00e3o de <em>alian\u00e7a<\/em> entre dois amantes: Deus e seu povo. \u00c9 um <em>caminho<\/em> de felicidade (Sl 1) para quem faz do louvor divino, da pr\u00e1tica da justi\u00e7a e do conv\u00edvio entre irm\u00e3os (Sl 133,1; cf. 22,23) o fundamento da vida. O salt\u00e9rio \u00e9 a hist\u00f3ria do povo e a Lei divina transformadas em ora\u00e7\u00e3o. Desde outrora, serve ao culto e \u00e0 interioriza\u00e7\u00e3o do projeto divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2\u00a0O Salmo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1 O termo <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os salmos s\u00e3o ora\u00e7\u00f5es b\u00edblicas em forma de poesia ou poemas b\u00edblicos para rezar. Numa linguagem mais acad\u00eamica: <em>teopoesia<\/em>. O termo salmo vem do grego <em>psalmos<\/em> que significa uma recita\u00e7\u00e3o em forma de cantilena acompanhada por instrumentos de cordas. Com este termo, a B\u00edblia grega (LXX) traduz o hebraico <em>mizm\u00f4r <\/em>(frequente em t\u00edtulos de salmos) e com o plural (<em>psalmoi <\/em>= salmos) muitos de seus manuscritos designam o inteiro livro como \u00e9 o caso do C\u00f3digo Vaticano (B).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 A atitude<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A atitude atr\u00e1s do termo. A linguagem po\u00e9tica, extrapolando a mera racionalidade do discu<\/em>rso, aponta para a atitude humana fundamental que est\u00e1 por tr\u00e1s de cada salmo ou da grande maioria deles: o <em>transbordamento da alma perante Deus<\/em>. Ao salmodiar, o ser humano <em>derrama todo seu ser diante do Senhor, soberano do universo,<\/em> a partir das v\u00e1rias circunst\u00e2ncias da vida que o rodeiam, diante daquele que governa o mundo, mudou ou pode mudar a nossa sorte. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e depend\u00eancia amorosa da criatura frente a seu Criador. Nas palavras do pr\u00f3prio salmista: \u201cConfiai nele, \u00f3 povo, em qualquer tempo, derramai [<em>sh<\/em><em>\u0101<\/em><em>pak<\/em>] vosso cora\u00e7\u00e3o em sua presen\u00e7a, pois Deus \u00e9 um abrigo para n\u00f3s\u201d (Sl 62[61],9). Isto \u00e9 o que faz Ana na sua afli\u00e7\u00e3o (I Sm 1,15-16), \u00e9 o que faz J\u00f3 na sua dor (J\u00f3 30,16), \u00e9 o que faz o autor das Lamenta\u00e7\u00f5es na noite escura deixada pelos babil\u00f4nicos (Lm 2,19a), \u00e9 o que faz o infeliz ou perseguido em seu infort\u00fanio (Sl 22,15; 102[101],1; 142[141],3). Em princ\u00edpio, a express\u00e3o \u201cderramar [<em>sh<\/em><em>\u0101<\/em><em>pak<\/em>] a alma ou o cora\u00e7\u00e3o\u201d aparece nas situa\u00e7\u00f5es de lamento, mas \u00e9 tamb\u00e9m o que faz o israelita com sede e saudade de Si\u00e3o (Sl 42[41],5a). Contudo, por extens\u00e3o, pode ser a atitude aplicada tamb\u00e9m ao louvor ou a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. Estas tamb\u00e9m s\u00e3o ocasi\u00f5es em que: \u201cMeu cora\u00e7\u00e3o transborda [<em>r<\/em><em>\u0101<\/em><em>\u1e25ash<\/em>] num belo poema&#8230;\u201d (Sl 45[44],2a). Mas \u00e9 a atitude que muda a vida. \u00c9 o que ocorre com Ana: \u201cE a mulher seguiu o seu caminho, comeu e o <em>seu aspecto<\/em> <em>n\u00e3o era mais o mesmo<\/em>\u201d (I Sm 1,18) ou com J\u00f3 (42,1-6). A\u00ed est\u00e1 a origem e meta do salmo: brota da realidade da vida e visa mudar ou melhorar a pr\u00f3pria vida enquanto reconhece e enaltece o Senhor, criador e soberano do universo, que muda nossa sorte, fortalece e alimenta o caminho. O salmo \u00e9, portanto, antes de tudo uma rela\u00e7\u00e3o viva e din\u00e2mica do crente com o Deus-vivente e vivificante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salmodiar \u00e9 uma atitude humana livre, mas \u00e9 tamb\u00e9m um dom de Deus. \u00c9 ele quem \u201cabre nossos l\u00e1bios\u201d (51,17a) e \u201ccoloca o louvor em nossa boca\u201d (40,4). E corresponde ao sacrif\u00edcio do templo, \u00e9 a oferenda dos l\u00e1bios: \u201cEm lugar de touros n\u00f3s queremos oferecer nossos l\u00e1bios\u201d (Os 14,3b; cf. Hb 13,15; Sl 69,31-32; 119,108).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em><strong>2.3 Os g\u00eaneros liter\u00e1rios<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta atitude b\u00e1sica interior se configura ou se exprime em formas ou g\u00eaneros liter\u00e1rios. Eles escondem uma din\u00e2mica atr\u00e1s de si, traduzem as grandes manifesta\u00e7\u00f5es humanas do crente diante de Deus. E assim, mais do que se deter na abstra\u00e7\u00e3o da forma ou do g\u00eanero, \u00e9 decisivo perceber esta din\u00e2mica que d\u00e1 vida \u00e0 forma para melhor compreender (e mesmo saborear) cada salmo. Vejamos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A) <em>O projeto de Deus<\/em>. Nas situa\u00e7\u00f5es normais da vida, o ser humano se sabe criado e se sente amado por Deus e volta-se para ele numa rela\u00e7\u00e3o de respeito (temor), amor e amizade. \u00c9 o encontro de dois seres ou sujeitos: <em>eu<\/em> e <em>tu<\/em>, o crente e seu Deus, a criatura e o criador. Sendo que o <em>eu<\/em> pode ser a comunidade, Israel que reza. \u00c9 a rela\u00e7\u00e3o ideal, o projeto sonhado por Deus. Em n\u00edvel macro e paradigm\u00e1tico, \u00e9 aquela situa\u00e7\u00e3o inicial de Gn 1-2. Em n\u00edvel micro, \u00e9 nosso cotidiano vivido na harmonia e na paz, sem a perturba\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es da vida. Na vida, nem tudo \u00e9 deserto, tamb\u00e9m h\u00e1 o\u00e1sis. \u00c9 o dia ensolarado<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, esta \u00e9 a din\u00e2mica do hino de louvor. Focaliza o ser e o agir divinos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B) <em>O antiprojeto humano<\/em>. Esta rela\u00e7\u00e3o normal e positiva entre o <em>eu<\/em> e o <em>tu<\/em> \u00e9 interrompida. Entrep\u00f5em-se um terceiro sujeito, o <em>\u00edmpio<\/em>. Tem-se ent\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B1) O <em>problema<\/em>. O \u00edmpio obscurece a rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entra na din\u00e2mica do louvor. N\u00e3o aceita a depend\u00eancia de Deus, quer ocupar seu lugar e construir o projeto contr\u00e1rio. N\u00e3o consegue conhecer ou sentir o amor do criador. Em n\u00edvel macro, \u00e9 aquela situa\u00e7\u00e3o de Gn 3-4, os exemplos paradigm\u00e1ticos s\u00e3o Ad\u00e3o que afronta Deus e Caim que mata seu irm\u00e3o. Em n\u00edvel micro, \u00e9 a realidade do mundo que nos rodeia, o contexto social de ontem e hoje dominados pela viol\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o, injusti\u00e7a, opress\u00e3o etc., o antiprojeto do Reino. O <em>eu<\/em> passa a ser v\u00edtima do <em>\u00edmpio<\/em>. \u00c9 o dia nublado, quando n\u00e3o se pode ver o sol e \u00e9 dif\u00edcil perceber seu calor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>\u00edmpio<\/em> pode ser uma pessoa (inimiga) ou uma estrutura de poder que oprime, algo externo. Mas pode tamb\u00e9m estar dentro de n\u00f3s como \u00e9 o caso do pecado e da doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, esta \u00e9 a din\u00e2mica do <em>lamento <\/em>ou<em> queixa<\/em>. \u00c9 mais horizontal enquanto apresenta o problema. A queixa \u00e9 t\u00edpica do crente, o \u00edmpio n\u00e3o reclama. Os problemas comuns s\u00e3o: enfermidade (6,7; 38,1-8), fome, guerra (3,7; 27,3), epidemias, abandono (22,2), acusa\u00e7\u00f5es (35,1.11), impiedades ou maldades de quem persegue (7,2; 35,3-4), opress\u00e3o (42,10; 44,8.11), pecado (41,5; 51) etc. Nos salmos, aparecem mais de 90 denomina\u00e7\u00f5es para o inimigo, tal \u00e9 a import\u00e2ncia do tema para o orante. Pode ser expresso, por\u00e9m, mediante imagin\u00e1rio po\u00e9tico como: \u00e1gua at\u00e9 o pesco\u00e7o, lodo profundo, correnteza que me arrasta, lama, fundo das \u00e1guas, po\u00e7o (69,2-3.15-16; 124,4-5), feras (22,13-14.22; 57,5), ossos que tremem (6,3), secam (22,15), se consomem (31,11b; 32,3) ou s\u00e3o quebrados (42,11), cora\u00e7\u00e3o que se agita (38,11) ou se derrete (22,15), \u00e1guas do abismo, la\u00e7os da morte (18,5-6) ou do abismo (116,3), xeol (6,6; 86,13; 88,4) etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B<sub>2<\/sub>) O <em>apelo por solu\u00e7\u00e3o<\/em>. Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode continuar assim, tem que ter um fim. O <em>eu<\/em>, v\u00edtima, apela \u00e0 sua divindade, grita por socorro (Ex 2,23). \u00c9 o \u201cat\u00e9 quando Senhor?\u201d (Sl 13,2-3; 90,13). Deus, intolerante com toda forma de impiedade (5,5-7; 6,9; 145,20), ouve e interv\u00e9m libertando a v\u00edtima e restaurando a rela\u00e7\u00e3o (Ex 2,24; 3,7-10; Sl 34,7.18). Os \u00edmpios devem desaparecer, seu projeto n\u00e3o tem consist\u00eancia (cf. Sl 1,4-6). Mas o <em>eu<\/em> tamb\u00e9m deve ser intolerante com a impiedade, j\u00e1 a partir daquela que est\u00e1 dentro de si. Numa linguagem moderna, o desaparecimento do \u00edmpio se d\u00e1 pela convers\u00e3o (cf. Ez 18,23; 33,11; I Pd 3,9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, esta \u00e9 a din\u00e2mica da <em>s\u00faplica<\/em>. Ela \u00e9 mais vertical enquanto apela a Deus pela solu\u00e7\u00e3o do problema. <em>Lamento-s\u00faplica<\/em> s\u00e3o, na verdade, os dois lados de uma mesma moeda. Cara e coroa s\u00e3o nitidamente distingu\u00edveis, mas formam uma mesma e \u00fanica moeda. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es complementares e nem sempre s\u00e3o t\u00e3o puras. Pois n\u00e3o h\u00e1 s\u00faplica se uma situa\u00e7\u00e3o lamentosa n\u00e3o leva a isso e n\u00e3o se lamenta pelo simples prazer de lamentar. Ao lamentar, implicitamente se est\u00e1 almejando uma solu\u00e7\u00e3o do problema, ou seja, o lamento n\u00e3o deixa de ser uma s\u00faplica impl\u00edcita. \u00c0s vezes, o salmista carrega de cores um aspecto, outras vezes, outro. Eis porque n\u00e3o raro nos deparamos com confus\u00f5es na classifica\u00e7\u00e3o destes salmos. Depende muitas vezes das cores que mais despertaram o olhar do biblista<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>c) O restabelecimento da ordem e o reconhecimento<\/em>. Deus ent\u00e3o interv\u00e9m e liberta, restabelecendo a ordem, o seu projeto, e o ser humano, por sua vez, <em>reconhece<\/em>. Em n\u00edvel macro, \u00e9 paradigm\u00e1tico o evento do <em>\u00eaxodo <\/em>em que restabelece a liberdade de seu povo. Em n\u00edvel micro, s\u00e3o aquelas conquistas cotidianas em termos de direitos humanos e sociais, as inclus\u00f5es e humaniza\u00e7\u00f5es etc., sem esquecer as supera\u00e7\u00f5es pessoais, as mudan\u00e7as de vida pessoais e comunit\u00e1rias. Volta-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o <em>eu-tu<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a din\u00e2mica da a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as ou agradecimento. Foca o agir pontual de Deus em meu ou nosso favor. Ele interv\u00e9m e liberta, e a v\u00edtima agraciada prorrompe na a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. Nestes salmos, d\u00e1-se, portanto, o reconhecimento do benef\u00edcio recebido<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D) Os salmos que abordam o caminho do justo em sua busca de Deus, n\u00e3o raro num dilema que requer dele discernimento e escolha, decis\u00e3o em vista de uma vida acertada e feliz, s\u00e3o os salmos sapienciais. O exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o Sl 1. Uma das perguntas que incomoda os s\u00e1bios, como mostra o Sl 73 ou 49, \u00e9 aquela feita a Deus por Jeremias: \u201cPor que o caminho dos perversos prospera?\u201d (Jr 12,1). Outra \u00e9: \u201cpor que o justo sofre?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E) Alguns salmos retomam as fa\u00e7anhas de Deus em favor de seu povo, relatam momentos relevantes da sua hist\u00f3ria. Rezam a hist\u00f3ria, apresentam a hist\u00f3ria feita ora\u00e7\u00e3o. Sugerem que o Deus que agiu no passado atua tamb\u00e9m no presente. S\u00e3o os salmos hist\u00f3ricos. \u00c9 o caso dos Sl 78; 105; 106; 135; 136.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>2.3.1 A variedade dos g\u00eaneros<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As atitudes ou manifesta\u00e7\u00f5es fundamentais do ser humano diante de Deus e, por conseguinte, os g\u00eaneros liter\u00e1rios que as veiculam s\u00e3o estes indicadas acima e mais estreitamente: o hino de louvor, o lamento-s\u00faplica e a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. As demais formas ou g\u00eaneros s\u00e3o consideradas derivadas ou variantes. Por exemplo: os c\u00e2nticos de Si\u00e3o (Sl 46; 48; 76; 87) s\u00e3o hinos que exaltam, com certo tom escatol\u00f3gico, a cidade santa, enquanto habita\u00e7\u00e3o do Deus-vivo. Dali ele governa seu povo. Enaltece-se a gl\u00f3ria de Si\u00e3o e de seu santu\u00e1rio, destino dos peregrinos (cf. Sl 84 e 122); os salmos do Reino de Deus (caracterizado pela f\u00f3rmula <em>o Senhor reina<\/em> Sl 96,10; 97,1; 99,1; Is 24,23; 52,7) s\u00e3o hinos cujo tema b\u00e1sico \u00e9 a realeza divina (cf. Sl 47; 93; 95-99; 145); a confian\u00e7a \u00e9 um elemento caracter\u00edstico dos salmos de s\u00faplicas ou de lamento. \u00c0s vezes, por\u00e9m, o salmista acentua tanto a sua confian\u00e7a na interven\u00e7\u00e3o divina que este tema domina o salmo inteiro (cf. 4; 11; 25); variante dos salmos de lamento-s\u00faplica seriam ainda os penitenciais e os imprecat\u00f3rios etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m \u00e9 preciso considerar as particularidades dos salmos. H\u00e1 salmos que assimilaram (ou s\u00e3o) or\u00e1culos (Sl 2; 50; 75; 81; 82; 85; 95; 110), outros assimilaram uma a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica (Sl 15; 24), outros s\u00e3o formados por mais de um g\u00eanero (Sl 89: v. 2-19 hino; v. 20-38 or\u00e1culo; v. 39-52 lamento). O Sl 119 \u00e9 um hino \u00e0 Lei, mas ora apresenta tra\u00e7os do lamento individual, ora tra\u00e7os da sapi\u00eancia etc. Estes elementos s\u00e3o compreens\u00edveis se considerarmos que o orante n\u00e3o segue um protocolo na sua ora\u00e7\u00e3o, ele simplesmente reza e a vida n\u00e3o \u00e9 dividida em compartimentos, antes \u00e9 \u201cmisturada\u201d. Junta-se a isso o fen\u00f4meno das releituras, atualiza\u00e7\u00f5es, coletiviza\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atr\u00e1s da variedade de g\u00eaneros, se esconde, portanto, o aspecto din\u00e2mico da ora\u00e7\u00e3o de Israel. N\u00e3o era fossilizada ou cristalizada no tempo, mas algo vivo que se movimentava ao longo da hist\u00f3ria. A variedade espelha tamb\u00e9m a pluralidade das situa\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3.2 A teologia dos g\u00eaneros liter\u00e1rios <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hino de louvor celebra a grandeza e majestade de Deus, manifestada na cria\u00e7\u00e3o, e sua bondade expressa na sua atua\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria. Ele \u00e9 rei e criador (desde Si\u00e3o). O orante contempla o ser e o agir divinos e devolve no louvor. O tom do hino \u00e9 de triunfo, gozo, alegria, solenidade. \u00c9 o clima da assembleia lit\u00fargica em festa. Sua base \u00e9 o <em>hall<sup>e<\/sup>l\u00fb-yah, <\/em>isto \u00e9, louvai ao Senhor<em>. <\/em>O louvor pressup\u00f5e abertura generosa e gratuita ao grande Outro, desapego de n\u00f3s mesmos. N\u00e3o \u00e9 utilitarista ou interesseiro, mas centrado no amor. Nas palavras do salmista: \u201cSeu amor vale mais do que a vida e por isso meus l\u00e1bios vos louvam\u201d (Sl 63,4). Ora, o ego\u00edsta encontra dificuldade para louvar. Algumas religi\u00f5es (sen\u00e3o todas) possuem a ora\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a s\u00faplica, voltada para as necessidades vitais do orante. O louvor pressup\u00f5e certa grandeza do indiv\u00edduo ou comunidade: reconhecer que Deus deve e merece ser louvado independente de meus interesses. Eis uma particularidade da ora\u00e7\u00e3o b\u00edblica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta atitude \u00e9 normalmente expressa com verbos como: <em>h<\/em><em>\u0101<\/em><em>lal<\/em> = louvar; <em>b<\/em><em>\u0101r<\/em><em>ak<\/em> = bendizer; y<em>\u0101d\u00e2 = <\/em>dar gra\u00e7as; <em>r\u0101nan = <\/em>regozijar-se; gritar de alegria; <em>r\u00fbm<\/em> = exaltar (aparecem, p. ex., no Sl 145) e z<em>\u0101mar = <\/em>cantar louvor; fazer m\u00fasica; <em>sh\u00eer<\/em> = cantar (aparecem, p. ex., no Sl 33) etc., ou substantivos como: <em>t<sup>e<\/sup>r\u00fb\u2018\u00e2<\/em> = ova\u00e7\u00e3o (Sl 27,6; 33,3; 47,6); <em>t<sup>e<\/sup>hill\u00e2<\/em> = louvor (Sl 33,1; 145,1 etc).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lamento-s\u00faplica \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o que brota da ang\u00fastia, da afli\u00e7\u00e3o, do sofrimento, na expectativa de encontrar socorro, liberta\u00e7\u00e3o, consolo. \u00c9 marcada por uma total depend\u00eancia e confian\u00e7a em Deus, aquele que pode mudar a sorte do aflito. Pois ele \u00e9 \u201cum Deus que n\u00e3o aceita a iniquidade\u201d (Sl 5,5), \u00e9 fiel aos pequenos e n\u00e3o ignora seu grito (18,7; 22,25). Enquanto no hino de louvor o salmista glorifica Deus, no lamento-s\u00faplica ele dirige-se a ele apresentando sua dor, seu infort\u00fanio. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais centrada no \u201ceu\u201d, \u00e9 interesseira e n\u00e3o gratuita. O termo t\u00e9cnico para o lamento \u00e9 <em>q\u00een\u00e2<\/em>. Mas o termo em si n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para que o salmo seja de lamento. O sofrimento tende a revoltar e afastar o crente de Deus, o lamento-s\u00faplica, por sua vez, conserva a rela\u00e7\u00e3o. Nesta categoria de salmo, entram os salmos penitenciais. Por um lado, nestes salmos se d\u00e1 a revela\u00e7\u00e3o do pecado, Deus permite o crente descobrir a mis\u00e9ria do pecado que desumaniza. O orante percebe que o infort\u00fanio que o faz sofrer est\u00e1 dentro de si (Sl 32,3-4) e apela para que Deus aniquile este inimigo hospedado em seu ser (Sl 41,5; 51,3-4.9). Por outro, abre-se para acolher o perd\u00e3o divino assim que se sinta recriado, refeito pelo perd\u00e3o (Sl 32,1-2; 51,10.12.14). A s\u00faplica penitencial \u00e9 baseada numa confian\u00e7a profunda na miseric\u00f3rdia infinita de Deus que tudo renova (Sl 103; 118; 136).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as \u00e9 a atitude de reconhecimento pelos benef\u00edcios que Deus concede. O verbo y<em>\u0101d\u00e2<\/em> (render gra\u00e7as, agradecer) significa, antes de tudo, reconhecer. \u00c9 edificante saber-se agraciado pelo bem alheio, comunicado como dom, como gra\u00e7a. Estes salmos s\u00e3o menos gratuitos e mais pontuais e diretos que o hino de louvor. Agradece-se uma a\u00e7\u00e3o pontual de Deus. Estive enfermo, supliquei, ele me atendeu e me curou e eu agrade\u00e7o. O clima destes salmos \u00e9 a alegria e o termo t\u00e9cnico \u00e9 y<em>\u0101d\u00e2<\/em>. Deus liberta o orante de seu infort\u00fanio e o faz passar da morte \u00e0 vida, da opress\u00e3o \u00e0 liberdade. A ingratid\u00e3o \u00e9 uma das mis\u00e9rias humanas, \u00e9 algo reprov\u00e1vel no ser humano. A gratid\u00e3o, por sua vez, \u00e9 uma atitude de generosidade e grandeza. \u00c9 nobre ser grato, particularmente a Deus, a quem devemos tudo o que temos e somos (I Cor 4,7). A crian\u00e7a pode facilmente sorrir ou chorar, exprimir alegria ou dor. Assim, de modo mais ou menos espont\u00e2neo, pode ocorrer o louvor ou o lamento-s\u00faplica. Se dermos um chocolate a uma crian\u00e7a, ela o receber\u00e1 e at\u00e9 olhar\u00e1 para n\u00f3s com simpatia. Mas a m\u00e3e precisar\u00e1 dizer-lhe: \u201cMeu filho, diga-lhe <em>obrigado<\/em>\u201d! Portanto, a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as requer instru\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, estes g\u00eaneros liter\u00e1rios est\u00e3o a servi\u00e7o de um mesmo e \u00fanico louvor a Deus. A tradi\u00e7\u00e3o judaica intitula o livro dos salmos como <em>sefer<\/em> <em>t<sup>e<\/sup>hillim<\/em>, isto \u00e9, \u201cLivro dos Louvores\u201d. Significa que todas as atitudes humanas diante de Deus s\u00e3o expressas nos salmos e que estas formas liter\u00e1rias que as revestem s\u00e3o louvores a Deus. O lamento-s\u00faplica e at\u00e9 mesmo os salmos imprecat\u00f3rios podem e devem ser vistos como louvor (VON RAD, 1973, p. 341-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.4 Os salmos imprecat\u00f3rios ou \u201cviolentos\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A impreca\u00e7\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula de juramento na qual se invocam maldi\u00e7\u00f5es sobre algu\u00e9m n\u00e3o raro exprimindo sentimentos violentos. Os salmos imprecat\u00f3rios s\u00e3o aqueles em que o orante suplica a Deus para que ele puna o inimigo n\u00e3o s\u00f3 com a vergonha e a afli\u00e7\u00e3o ou infort\u00fanio (para ele e sua fam\u00edlia), mas at\u00e9 mesmo o amaldi\u00e7oe, destrua, aniquile, extirpe. S\u00e3o salmos que assustam pelo tom violento em plena ora\u00e7\u00e3o. Este elemento aparece em v\u00e1rios salmos, domina, por\u00e9m, a ponto de caracterizar os seguintes salmos: 35; 58; 69; 83; 109; 137,8-9. Todavia, a impreca\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita aos salmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A impreca\u00e7\u00e3o n\u00e3o era via ordin\u00e1ria. Era o \u00faltimo recurso quando a via ordin\u00e1ria, a institui\u00e7\u00e3o competente, se mostrava ineficaz para realizar a justi\u00e7a. O infrator n\u00e3o podia ficar impune e a maldi\u00e7\u00e3o era a prote\u00e7\u00e3o de quem era incapaz de se defender (Pr 11,26; 28,27; 30,10; Sir 4,4-5). Era a arma dos oprimidos: apelar a Deus contra o opressor. Portanto, a impreca\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o era a afirma\u00e7\u00e3o da impot\u00eancia humana. Aconselhava-se a ajudar o inimigo (Pr 25,21-22; Ex 23,4-5). O objetivo n\u00e3o era a viol\u00eancia em si, mas a exig\u00eancia de justi\u00e7a. Era o desejo que a justi\u00e7a divina se manifestasse e restaurasse o equil\u00edbrio, a igualdade na vida social. Tanto \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 o orante quem executa tal vingan\u00e7a ou viol\u00eancia, mas se delega a Deus, como juiz, que retribua ao perverso segundo seus atos (cf. Sl 94,1-3). A ele cabe a vingan\u00e7a (Dt 32,35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 Deus que deve agir segundo seus crit\u00e9rios e n\u00e3o segundo a f\u00faria do orante. O efeito da impreca\u00e7\u00e3o depende, portanto, de Deus. Vale a m\u00e1xima: \u201cComo posso amaldi\u00e7oar quando Deus n\u00e3o amaldi\u00e7oa?\u201d (Nm 23,8). Ele pode transformar uma maldi\u00e7\u00e3o em b\u00ean\u00e7\u00e3o (cf. Sl 109,28) e vice-versa (cf. Ml 2,2). O efeito da impreca\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o depende de um lado da culpabilidade do amaldi\u00e7oado, isto \u00e9, ela deve ser leg\u00edtima ou justa, j\u00e1 que \u201ca maldi\u00e7\u00e3o injusta n\u00e3o chega a lugar nenhum\u201d (Pr 26,2b). E por outro lado, ela depende da vontade soberana do Deus justo e misericordioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, exprimindo estes sentimentos violentos na ora\u00e7\u00e3o, o orante se liberta deles e os confia \u00e0quele que pode libertar. A impreca\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m cat\u00e1rtica. N\u00e3o visa despertar sentimentos de \u00f3dio e viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No NT, predomina, por\u00e9m, o preceito de amar o inimigo (Mt 5,44; Lc 6,27-29; Rm 12,14.20). Pensamento n\u00e3o ausente no AT. Paradoxalmente, Jesus \u201ctornou-se maldi\u00e7\u00e3o por n\u00f3s\u201d (Gl 3,13), \u201co justo pelos injustos\u201d (I Pd 3,18). Esta foi a \u201cvingan\u00e7a\u201d de Deus para mostrar que o crit\u00e9rio \u00faltimo da impreca\u00e7\u00e3o \u00e9 o perd\u00e3o e a miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.5 O louvor e suas implica\u00e7\u00f5es <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Sl 1 \u00e9 a porta de entrada do livro dos Salmos, \u00e9 o pr\u00f3logo. Ele oferece a chave hermen\u00eautica para a leitura do livro. \u00c9 um salmo sapiencial, isto \u00e9, um salmo de sabedoria que prop\u00f5e dois caminhos a serem discernidos e escolhidos. Trata-se do caminho dos \u00edmpios e do caminho do justo. Isto significa que o louvor implica uma op\u00e7\u00e3o de vida, e vida <em>feliz<\/em> (v. 1a), j\u00e1 que o \u00edmpio n\u00e3o louva nem Deus reconhece seu caminho (v. 6). \u00c9 uma op\u00e7\u00e3o que vai se consumando ao longo do caminho, salt\u00e9rio adentro e ao longo da vida. Esta op\u00e7\u00e3o vale tanto para o indiv\u00edduo (Sl 1,1; 112,1; 119,1-2; 128,1) como para o povo (144,15). Ao mesmo tempo, louvar implica ades\u00e3o a Deus e a seu projeto conforme sua Lei (v. 2) e consequente afastamento radical da roda dos \u00edmpios, dos perversos (v. 1; cf. 146,8-9). Isto resulta numa conduta \u00e9tica fecunda atestada pelos frutos (v. 3) e, enfim, ser justo (v. 5b.6a). O crente \u00e9, portanto, aquele que faz da justi\u00e7a um crit\u00e9rio de vida. Ela confere veracidade e fidedignidade \u00e0 piedade, torna-se media\u00e7\u00e3o para Deus. Ora, esta ades\u00e3o a Deus implica, ent\u00e3o, ren\u00fancia veemente ao louvor e \u00e0 adora\u00e7\u00e3o aos \u00eddolos e \u00e0 barganha interesseira. O Sl 15 tamb\u00e9m responde em que implica \u201cresidir na tenda divina\u201d, isto \u00e9, em que implica louvar. O mesmo ocorre no Sl 24,3-4. Portanto, o louvor, para al\u00e9m do am\u00e9m-aleluia, \u00e9 conduta de vida embebida do projeto divino. O <em>Midrash Tehilim<\/em> parafraseia o Sl 1,1 da seguinte forma: \u201cOs louvores (do) homem (s\u00e3o) que ele n\u00e3o andou no conselho dos perversos, e n\u00e3o se colocou no caminho dos pecadores, nem sentou na reuni\u00e3o dos zombadores\u201d. O louvor s\u00e1lmico, portanto, n\u00e3o se compatibiliza com a injusti\u00e7a ou com qualquer forma de impiedade e intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O Livro dos Salmos ou salt\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 O termo <\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Livro dos Salmos \u00e9 a designa\u00e7\u00e3o com a qual a vers\u00e3o grega (LXX) traduz o hebraico <em>livro dos<\/em> <em>louvores<\/em>. A designa\u00e7\u00e3o \u00e9 usada tamb\u00e9m por Lucas (Lc 20,42; [24,44]; At 1,20). Trata-se de um conjunto de 150 salmos (vers\u00e3o grega 151), tamb\u00e9m chamado salt\u00e9rio. O termo salt\u00e9rio \u00e9 uma translitera\u00e7\u00e3o do grego <em>Psalt\u00e9rion, <\/em>que na verdade \u00e9 o nome do instrumento de corda que acompanhava os c\u00e2nticos (cf. Dn 3,5) e que a vers\u00e3o grega usa para traduzir o termo hebraico <em>n\u0113bel <\/em>= harpa (p. ex.: Sl 32,2; 56,9). \u00c9 ainda o termo usado como t\u00edtulo do livro no C\u00f3digo Alexandrino (s\u00e9c. V dC). Este dado aponta para a natureza e posterior uso lit\u00fargico destes poemas, ou seja, eram normalmente acompanhados com instrumentos de corda. Isto explica tamb\u00e9m as in\u00fameras ocorr\u00eancias deste tipo de instrumento ao longo do livro bem como as in\u00fameras instru\u00e7\u00f5es musicais nos t\u00edtulos dos salmos (p. ex.: 4,1; 5,1; 6,1; 9,1; 22,1 etc).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 A forma\u00e7\u00e3o do livro <\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O salt\u00e9rio n\u00e3o surgiu assim como o conhecemos hoje. Houve um processo. Neste processo, poucos foram produzidos por um escriba, os que podemos chamar de salmos redacionais. A maioria deles surgiu das situa\u00e7\u00f5es existenciais do indiv\u00edduo ou mesmo da comunidade. A fonte deles \u00e9 o ordin\u00e1rio da vida, ali onde o crente procura Deus. A\u00ed estaria a primeira fase, a fase oral. Num segundo momento, estes poemas foram escritos e passaram por releituras ou acr\u00e9scimos, ou seja, foram coletivizados (adaptados ao uso comunit\u00e1rio) e atualizados (no tempo e no espa\u00e7o) e at\u00e9 mesmo \u201creciclados\u201d de outras culturas (p. ex.: Sl 19,1-7; 29; 104) etc. Em seguida, algu\u00e9m (ou alguns) agrupou os salmos, formando as cole\u00e7\u00f5es. Assim temos, por exemplo, as cole\u00e7\u00f5es de salmos dedicados: a Davi (3-41; 51-72; 138-145) com uma evid\u00eancia intencional (72,20). H\u00e1 ainda outros avulsos dedicados a Davi; a Asaf (50; 73-83); aos filhos de Cor\u00e9 (42-49.84-85.87-88); uma cole\u00e7\u00e3o de salmos de subida ou graduais (Sl 120-134), usados nas peregrina\u00e7\u00f5es; os grupos alelui\u00e1ticos, ou seja, aqueles que come\u00e7am e\/ou terminam com aleluia (105-107; 111-118; 135-136; 146-150) etc. Por fim, de forma an\u00e1loga a uma diocese, ou par\u00f3quia ou congrega\u00e7\u00e3o, que re\u00fane os cantos mais comuns, que ajudam a rezar, e forma um livro de canto, um redator (ou uma escola) deu forma final \u00e0 obra e ela passou a fazer parte do c\u00e2non, chegando at\u00e9 n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns ind\u00edcios, vis\u00edveis a olho nu, apontam para este processo de forma\u00e7\u00e3o. Por exemplo: a) o nome divino <em>Jav\u00e9<\/em> (= Senhor) aparece de forma quase exclusiva nos Sl 1-41; 84-150 enquanto o nome <em>Elohim<\/em> (= Deus) predomina nos Sl 42-83 a ponto de ser chamado salt\u00e9rio elo\u00edsta; b) os salmos atribu\u00eddos a <em>pessoas<\/em> caracterizam decididamente os Sl 3-89, enquanto a partir da\u00ed torna-se escassa tal atribui\u00e7\u00e3o. A partir do Sl 90, predominam os salmos com t\u00edtulos tem\u00e1ticos como \u201caleluia\u201d (Sl 106; 111-113; 135), ou \u201crendei gra\u00e7as\/celebrai\u201d (Sl 105; [106]; 107; 118; 136), ou \u201csubidas\u201d (Sl 120-134), ou an\u00f4nimos (114-117; 119; 137); c) os salmos com t\u00edtulos biogr\u00e1ficos, isto \u00e9, com informa\u00e7\u00f5es a respeito da vida de Davi (cf. Sl 3; 7; 18; 34; 51; 52; 54; 56; 57; 59; 60; 63), s\u00e3o um fen\u00f4meno t\u00edpico dos Sl 3-72. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o fora deste bloco \u00e9 o Sl 142; d) a part\u00edcula hebraica <em>sel\u00e2<\/em> (provavelmente informa\u00e7\u00e3o musical, talvez \u201cpausa\u201d) aparece 37 vezes entre os Sl 3-89 enquanto no resto do salt\u00e9rio encontramos apenas em 140,4.6 e 143,6; e) as duplicatas de salmos em diferentes cole\u00e7\u00f5es. Por exemplo: Sl 14 e 53; 40,14-18 e 70; 57,8-12 + 60,7-14 e 108; 18 e II Sm 22 (e com varia\u00e7\u00f5es em 144,1-10); o Sl 115,4-11 \u00e9 retomado com varia\u00e7\u00f5es no Sl 135,15-20 etc. Estes ind\u00edcios n\u00e3o s\u00e3o casuais, antes revelam um trabalho intencional de colecionadores e\/ou redatores na forma\u00e7\u00e3o da obra. Mas n\u00e3o s\u00f3, sugerem tamb\u00e9m uso de salmos em locais e \u00e9pocas diversas bem como um processo din\u00e2mico da vida orante de Israel. Conv\u00e9m lembrar que os salmos n\u00e3o se limitam ao salt\u00e9rio, eles est\u00e3o espalhados por toda a B\u00edblia. Por exemplo: Ex 15,1-18; Dt 32; I Sm 2,1-11; Is 12,1-6; 38,10-20; Jn 2,3-10; Sir 51,1-12 ou, mais evidente, o Sl 18 encontra-se tamb\u00e9m em II Sm 22 ou, ainda, I Cr 16,8-36 \u00e9 formado por tr\u00eas salmos: v. 8-22 = Sl 105,1-15; v. 23-33 = Sl 96 e v. 34-36 = Sl 106,1.47-48, respectivamente in\u00edcio e fim do Sl 106.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.3 A estrutura da obra<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes 150 salmos n\u00e3o est\u00e3o aleatoriamente justapostos. Eles foram organizados numa estrutura, cujos elementos delimitat\u00f3rios s\u00e3o oferecidos pela pr\u00f3pria obra. Trata-se das doxologias (= glorifica\u00e7\u00f5es) presentes nos Sl\u00a0 41,14; 72,18-19; 89,53; 106,48. Elas s\u00e3o formadas por quatro elementos b\u00e1sicos: a) o louvor: \u201cbendito seja o Senhor\u201d; b) especifica\u00e7\u00e3o: \u201cDeus de Israel\u201d; c) elemento temporal: \u201cdesde sempre e para sempre\u201d; d) elemento conclusivo: \u201cam\u00e9m, am\u00e9m\u201d. O Sl 145, \u00fanico com o t\u00edtulo hebraico <em>louvor,<\/em> cujo plural intitula o inteiro salt\u00e9rio (livro dos louvores), desempenha a fun\u00e7\u00e3o da 5\u00aa doxologia (TORQUATO, 2009, p. 430-45). A doxologia n\u00e3o tem apenas a fun\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica de dar gl\u00f3ria ou bendizer a Deus, mas tem tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de delimita\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m das doxologias, existem dois blocos de salmos chamados \u201c\u00f3rf\u00e3os\u201d, isto \u00e9, sem t\u00edtulos (1-2; 146-150) que tem a fun\u00e7\u00e3o de moldura, respectivamente introdu\u00e7\u00e3o e conclus\u00e3o. A partir da\u00ed, se pode visualizar a estrutura do salt\u00e9rio da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Salt\u00e9rio messi\u00e2nico<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1-2: pr\u00f3logo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3-41: I<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">42-72: II<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">73-89: III<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Salt\u00e9rio teocr\u00e1tico<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">90-106: IV<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">107-145: V<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">146-150: ep\u00edlogo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota-se que o salt\u00e9rio \u00e9 formado por 5 partes (ou livros) \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do Pentateuco (ZENGER, 2003, p. 314) e por isso tamb\u00e9m conhecido como <em>Tor\u00e1 de Davi<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A organiza\u00e7\u00e3o atual reproduz, na opini\u00e3o de alguns pesquisadores, a caminhada hist\u00f3rica de Israel a partir da monarquia: a) o per\u00edodo de Davi corresponderia aos dois primeiros livros (Sl 2-72), como sugerem sobretudo os t\u00edtulos dos salmos, e o Sl 72,20, \u00e0 sucess\u00e3o simbolizada na figura de Salom\u00e3o a quem \u00e9 dedicado o Sl 72,1 como prece do pai ao filho. Esse salmo apresenta um verdadeiro programa de governo do rei; b) em seguida, a fal\u00eancia da monarquia no terceiro livro, como mostra sua conclus\u00e3o (Sl 89). Estas tr\u00eas primeiras partes ou livros (Sl 3-89) formariam o salt\u00e9rio messi\u00e2nico introduzido pelo Sl 2. A institui\u00e7\u00e3o da monarquia e seu rei humano fracassaram; c) o quarto livro corresponderia ao per\u00edodo do ex\u00edlio babil\u00f4nico, outro \u201cEgito\u201d. Curiosamente, a abertura, o Sl 90, \u00e9 dedicada a Mois\u00e9s e o livro \u00e9 caracterizado pelas refer\u00eancias a Mois\u00e9s (99,6; 103,7; 105,26; 106,16.23.32-33); d) o quinto livro corresponderia ao p\u00f3s-ex\u00edlio, Deus que repatria e re\u00fane o seu povo (cf. Sl 107,3; 126,1-3) despertando outra vez a esperan\u00e7a. Nesse livro, est\u00e1 a cole\u00e7\u00e3o dos salmos de subida ou peregrina\u00e7\u00e3o a Jerusal\u00e9m (Sl 120-134). Seria a fase do redator. Esses dois livros formariam o salt\u00e9rio teocr\u00e1tico, isto \u00e9, quando a institui\u00e7\u00e3o fracassa, o pr\u00f3prio Deus continua a governar seu povo. O rei humano \u00e9 deposto, mas o Senhor continua a reinar. Este salt\u00e9rio praticamente abre (Sl 93-99) e conclui (Sl 145) com os salmos da realeza divina: o Senhor \u00e9 rei. Enfim, o salt\u00e9rio aparece como hist\u00f3ria rezada, a hist\u00f3ria feita ora\u00e7\u00e3o. Exprime, no louvor, as maravilhas divinas feitas a seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes dois salt\u00e9rios teriam hist\u00f3rias redacionais diferentes at\u00e9 sua fus\u00e3o na obra \u00fanica. Enquanto os salmos de lamento-s\u00faplica dominam o primeiro salt\u00e9rio, os salmos de louvor e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as dominam o segundo. A din\u00e2mica da obra (presente tamb\u00e9m em muitos salmos) revela uma passagem da opress\u00e3o e suas causas para a liberdade e a alegria. \u201cNa tarde pode vir o pranto, mas pela manh\u00e3 a alegria\u201d (30,6b), pois ele \u201ctransforma o luto em dan\u00e7a\u201d (30,12). Significa que o salt\u00e9rio segue uma din\u00e2mica pascal. Al\u00e9m disso, h\u00e1 temas que s\u00e3o transversais no salt\u00e9rio todo, como: a sapi\u00eancia, a tor\u00e1 (dav\u00eddica), a alian\u00e7a, dimens\u00e3o messi\u00e2nica, a teocracia, a realeza divina, a peregrina\u00e7\u00e3o a Si\u00e3o, os pobres, o conflito justo x \u00edmpio, a cria\u00e7\u00e3o, Deus como escudo, aux\u00edlio e miseric\u00f3rdia etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada salmo individual tem obviamente a sua teologia, a sua mensagem. Todavia, quando situado no seu respectivo livro ou parte do salt\u00e9rio ele ganha um brilho maior. Eis porque a interpreta\u00e7\u00e3o do salmo individual n\u00e3o deveria ignorar o conjunto do salt\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.4<\/strong> <strong>Salt\u00e9rio: profetismo e Tor\u00e1 de Davi<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro de Jeremias, Deus fala em estabelecer uma alian\u00e7a nova (Jr 31,31) e, em seguida, especifica em que consiste a novidade: \u201cEu porei minha lei no seu seio e a escreverei em seu cora\u00e7\u00e3o\u201d (v. 33). N\u00e3o ser\u00e1 mais em pedra (externa), mas no cora\u00e7\u00e3o (interior). Nesta linha caminha o movimento prof\u00e9tico, na tentativa de interiorizar a Lei e os valores da f\u00e9. Superar a mera obriga\u00e7\u00e3o e abra\u00e7ar a lei como valor que d\u00e1 sabor \u00e0 vida. Era preciso ultrapassar o formalismo. No p\u00f3s-ex\u00edlio, o salt\u00e9rio teria assumido esta tarefa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Deuteron\u00f4mio, Deus prop\u00f5e aos israelitas \u2013 mediante Mois\u00e9s \u2013 dois caminhos: a vida feliz e a morte, ben\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o (Dt 30,15-20). O primeiro \u00e9 baseado na Lei divina. Israel precisa discernir e optar, ter\u00e1 que decidir, fazer uma escolha s\u00e1bia. Em seguida, o livro apresenta uma bem-aventuran\u00e7a (Dt 33,29) e com ela praticamente conclui o Pentateuco. O texto que segue trata da morte de Mois\u00e9s e \u00e9 considerado tardio. Esta bem-aventuran\u00e7a transforma, portanto, a Lei de Mois\u00e9s, a Tor\u00e1 (expressa no Pentateuco), num ideal de vida e vida feliz. Este ideal \u00e9 reproposto na entrada da terra prometida como base para o come\u00e7o de um novo projeto de vida: agir segundo a Lei (Tor\u00e1) e t\u00ea-la nos l\u00e1bios, meditando nela dia e noite e assim ter \u00eaxito (Js 1,7-8). Ora, o Sl 1, introdu\u00e7\u00e3o do livro dos salmos, abre-o com uma bem-aventuran\u00e7a (v. 1) retomando e repropondo os dois caminhos: o caminho do justo e o do \u00edmpio. Ora, o caminho do justo, do <em>\u201c<\/em>feliz\u201d, \u00e9 baseado na Lei (Tor\u00e1) (v. 1-2). Assim, a Tor\u00e1 de Davi (o salt\u00e9rio a ele atribu\u00eddo) seria uma continua\u00e7\u00e3o ou uma resposta \u00e0quela de Mois\u00e9s. Somente agora aberta a todo ser humano: \u201cfeliz o homem\u201d (Sl 1,1). Esta rela\u00e7\u00e3o entre as duas Tor\u00e1s n\u00e3o \u00e9 nova. A tradi\u00e7\u00e3o judaica j\u00e1 a percebeu h\u00e1 s\u00e9culos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mois\u00e9s presenteou Israel com Cinco Livros da Tor\u00e1 e Davi presenteou Israel com Cinco Livros dos Salmos. Mois\u00e9s concluiu a Tor\u00e1 com a ben\u00e7\u00e3o \u201cQu\u00e3o digno de louvor tu \u00e9s, Israel, quem te \u00e9 compar\u00e1vel?\u201d Davi come\u00e7ou seus Salmos com a express\u00e3o final de Mois\u00e9s, \u201cOs louvores do homem\u201d. (&#8230;) Davi enfatizou essa verdade, come\u00e7ando sua f\u00f3rmula de felicidade com o aviso para se evitar os perversos e os pecadores (primeiro vers\u00edculo)(Midrash Tehilim, Sl 1,1).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O salt\u00e9rio \u00e9, portanto, a Tor\u00e1 rezada ou cantada: \u201cOs teus decretos tornaram-se os meus c\u00e2nticos (&#8230;)\u201d (cf. Sl 119,54). Mais ainda, \u00e9 a Tor\u00e1 interiorizada: \u201cMeu Deus, eu quero ter a tua Lei dentro das minhas entranhas\u201d (Sl 40,9), l\u00e1 onde ela \u00e9 fecunda. A Lei deixa de ser aquela externa apresentada outrora por Mois\u00e9s na pedra (Ex 24,12; 31,18), para ser aquela que o justo medita <em>com prazer<\/em> dia e noite, recitada nos salmos. Por Lei = Tor\u00e1, n\u00e3o se entende algo negativo e legalista, pois seu primeiro sentido \u00e9 instru\u00e7\u00e3o, ensinamento, orienta\u00e7\u00e3o para a vida, express\u00e3o da vontade divina, plena de sabedoria e intelig\u00eancia como os rios (Sir 24,23-28). Por isso ela e seus sin\u00f4nimos v\u00e3o aparecer nos salmos como <em>\u1e25\u0101p\u0113ts<\/em> = prazer, deleite (cf. Sl 1,2; 112,1; 119,35), como <em>sha\u2018\u0103shu\u2018\u00eem<\/em> = del\u00edcia, prazer, deleite (cf. Sl 119,16.24.47.70.77.92.143.174), que reside no cora\u00e7\u00e3o (Sl 37,31), que se ama (Sl 119,47b.48.97.113.119.127.159.163). Ela \u00e9 do Senhor (78,1.5) e \u00e9 perfeita (19,8-9), deve ser observada (105,45) pois \u00e9 instrumento educativo (94,12). Embora exista a possibilidade de se rejeitar (78,10; 89,31-32). Mas enfim, a Lei se torna ora\u00e7\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o viva com o Deus vivente e em resposta a seu dom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os salmos em si nasceram das circunst\u00e2ncias cotidianas sem finalidade necessariamente lit\u00fargica. \u00c9 ineg\u00e1vel, por\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o do salt\u00e9rio com o culto. Esta rela\u00e7\u00e3o deve estar na base da forma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio salt\u00e9rio. Isto significa que houve uma evolu\u00e7\u00e3o no uso dos salmos. Passam a servir \u00e0 liturgia e mais exatamente \u00e0 interioriza\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia da Lei enquanto express\u00e3o da vontade, do projeto de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.5 O salt\u00e9rio: express\u00e3o de di\u00e1logo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Sagrada Escritura \u00e9 palavra de Deus ao ser humano. Por meio dela, Deus prop\u00f5e algo ao homem para que o ajude a caminhar na sua presen\u00e7a e ser feliz. Os salmos, enquanto ora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o palavras humanas a Deus. Pela salmodia, o ser humano responde a Deus.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 que Jav\u00e9 n\u00e3o escolheu um povo para ser objeto passivo de sua vontade hist\u00f3rica, mas o escolheu para o di\u00e1logo. A resposta de Israel, que extrairemos do salt\u00e9rio, j\u00e1 \u00e9, no plano teol\u00f3gico, uma quest\u00e3o em si mesma (VON RAD, 1973, p. 340-341).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, se os salmos s\u00e3o parte da Sagrada Escritura \u00e9 porque tamb\u00e9m s\u00e3o palavra de Deus. Logo, palavra Deus n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a que ele nos fala, mas tamb\u00e9m aquela que ele quer ouvir de n\u00f3s (BONHOEFFER, 1969, p. 66-68). Ele n\u00e3o s\u00f3 ouve nossa ora\u00e7\u00e3o, mas faz dela as suas pr\u00f3prias palavras e nos devolve como dom para que possamos louv\u00e1-lo como conv\u00e9m. \u00c9 ele quem abre os nossos l\u00e1bios (Sl 51,17) e p\u00f5e o louvor em nossa boca (Sl 40,4a), que inspira o louvor [mesmo] na noite (J\u00f3 35,10b). Portanto, instaura-se a\u00ed um di\u00e1logo provocado e querido pelo pr\u00f3prio Deus. Ainda segundo D. Bonhoeffer, \u00e9 algo compar\u00e1vel \u00e0 crian\u00e7a: \u201cA crian\u00e7a aprende a falar porque seu pai lhe fala; deste modo, ela aprende a l\u00edngua de seu pai. Do mesmo modo aprendemos a falar a Deus porque Deus nos falou e continua a nos falar\u201d (1969, p. 65, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.6 O salt\u00e9rio: continua\u00e7\u00e3o do templo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na di\u00e1spora, sem templo e aparato lit\u00fargico, para onde peregrinar para contemplar a face do Senhor? Onde apresentar as oferendas e sacrif\u00edcios? O texto de Daniel, embora tardio, exprime esta realidade: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais chefe, nem profeta, nem pr\u00edncipe, nem holocausto, nem sacrif\u00edcio, nem obla\u00e7\u00e3o, nem incenso, nem lugar onde oferecermos as prim\u00edcias (<em>&#8230;<\/em>)\u201d (Dn 3,38). \u00c9 o vazio das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edtica e religiosa. Como encontrar Deus? Ezequiel oferece uma grande ajuda. Ele v\u00ea a gl\u00f3ria do Senhor se afastar do templo (Ez 10,3-22; 11,22-24) e voltar (43,1-9). Mostra, assim, que Deus n\u00e3o est\u00e1 amarrado \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, mas ao seu povo. E Deus mesmo \u00e9 seu santu\u00e1rio (Ez 11,16). O pr\u00f3logo do salt\u00e9rio mostra que aquela seiva, a \u00e1gua da vida, que antes vinha do templo e fazia a \u00e1rvore frutificar (cf. Ez 47,12; Sl 52,10; 92,13-16), agora vem pela medita\u00e7\u00e3o prazerosa da Lei (Sl 1,1-3). Deus mesmo vai at\u00e9 aquele que o invoca com a condi\u00e7\u00e3o de que ele o invoque sinceramente (Sl 145,18). Pois ele \u00e9 \u201co Santo que habita-reina (<em>y\u0101shab<\/em>) nos louvores de Israel\u201d (Sl 22,4). Deus reina onde quer que Israel salmodie. A salmodia d\u00e1 continuidade ao templo e a servi\u00e7o disso est\u00e1 o salt\u00e9rio. \u00c9 a ora\u00e7\u00e3o como incenso, oferenda (Sl 141,2). O louvor \u00e9 ades\u00e3o ao projeto deste grande Rei, independente do lugar. \u00c9 a oferenda dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no Sl 1,1-2, o indiv\u00edduo come\u00e7a sozinho, mas termina no conselho (<em>\u2018<\/em><em>\u0113<\/em><em>d\u00e2<\/em>), isto \u00e9, no coletivo, na comunidade. A mesma din\u00e2mica se encontra em todo o salt\u00e9rio. O fiel que louva converge para a <em>q\u0101h\u0101l<\/em>, a Assembleia (Sl 22,23.26; 26,12; 35,18; 40,10-11; 89,6; 107,32; 149,1). O verdadeiro louvor n\u00e3o isola, leva \u00e0 comunidade. O templo \u00e9 importante enquanto lugar onde a Assembleia se realiza. Todavia, o templo pelo templo pode mascarar a rela\u00e7\u00e3o com o Senhor (cf. Jr 7,1-11) se faltar a interioriza\u00e7\u00e3o dos valores da f\u00e9. \u00c9 da Assembleia que parte o louvor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.7 A figura de Davi no salt\u00e9rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, Davi n\u00e3o \u00e9 somente o rei, \u00e9 tamb\u00e9m animador da liturgia: organiza os levitas (1Cr 23,6) e os cantores (1Cr 25,1; Esd 3,10-11; Ne 12,24), ele mesmo sabia dedilhar a lira (1Sm 16,16-18) e \u201ccantou de cora\u00e7\u00e3o, mostrando seu amor por seu Criador\u201d (Sir 47,8) e por isso \u00e9 o \u201ccantor dos c\u00e2nticos de Israel\u201d (2 Sm 23,1). Ora, ele aparece no salt\u00e9rio de tr\u00eas formas: a) no t\u00edtulo dos salmos atribu\u00eddos a ele, os salmos <em>l<sup>e<\/sup>d\u0101v\u012bd<\/em> = de Davi<em>.<\/em> S\u00e3o 61 salmos no hebraico e mais 14 na vers\u00e3o grega. As diferen\u00e7as revelam o trabalho redacional. Qumran e a tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica atribuem, por\u00e9m, todos os salmos a Davi. A Igreja n\u00e3o ser\u00e1 diferente (cf. Mt 22,43-45; At 2,25.34; Rm 4,6-8). \u00c9 prov\u00e1vel que esta atribui\u00e7\u00e3o evoque a atua\u00e7\u00e3o lit\u00fargica de Davi, homem cantor de louvores, o servidor (cf. 2 Cr 29,30). Conv\u00e9m lembrar que tamb\u00e9m Asaf, os filhos de Cor\u00e9, Em\u00e3 e Et\u00e3, a quem s\u00e3o atribu\u00eddos salmos, todos eram cantores do templo (Esd 2,41; 3,10-11; 1Cr 25). Alguns biblistas, por\u00e9m, preferem ver a\u00ed a figura do israelita exemplar e rei ideal, figura do messias futuro. Seriam salmos, portanto, a serem lidos em chave messi\u00e2nica; b) nos t\u00edtulos biogr\u00e1ficos. Trata-se de 13 t\u00edtulos vinculados a eventos da vida de Davi relatados em 1Sm 19; 21-24; 2Sm 8; 10-12; 15-16; 22 (\/\/ Sl 18), portanto, provenientes da Obra Hist\u00f3rica Deuteronomista (OHD). Seria uma releitura do salmo na \u00f3tica desta obra, conferindo uma nova luz ao salmo. N\u00e3o \u00e9 o Davi da realeza (exceto 51,1), mas o homem simples, escolhido por Deus em favor de Israel, com virtudes e fraquezas, emo\u00e7\u00f5es, medo, coragem, amor, lamento, que convida ao louvor. \u00c9 o servo do Senhor, perseguido, sofredor exemplar, pecador, cujo motivo de sua ora\u00e7\u00e3o \u00e9 ser salvo ou liberto por Deus em suas dificuldades. \u00c9 o Davi a altura de qualquer israelita ou de qualquer pessoa em igual situa\u00e7\u00e3o; c) no interior de alguns salmos (18,51; 78,70; 89,4.21.36.50; 132,1.10-11.17; 144,10; cf. ainda 122,5). Para estes salmos, Davi \u00e9 o rei do Senhor, o seu servo, o eleito, o ungido, algu\u00e9m com quem ele fez um pacto com um juramento solene que a sua dinastia duraria para sempre (cf. 2Sm 7). \u00c0 luz destes textos, quando em outros salmos se fala de ungido, de rei, de servo do Senhor, o leitor ou orante v\u00ea o rei Davi e as promessas feitas a ele. Assim, o Davi que canta os salmos \u00e9 um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a do tempo messi\u00e2nico (LORENZIN, 2014, p. 551-552).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.8 Os pobres no salt\u00e9rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, a tem\u00e1tica se limitar\u00e1 a um exemplo. No primeiro livro do salt\u00e9rio (Sl 3-41), o orante aparece envolto em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o que s\u00e3o apresentadas a Deus na ora\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9, portanto, um oprimido, um pobre. O \u00edmpio, que se levanta contra ele (3,2) e tenta impedi-lo de levantar-se (41,9), forma a moldura deste livro, caracterizado pelo verbo <em>q\u00fbm<\/em> = levantar(-se). Uma ininterrupta s\u00faplica do orante para que o Senhor se levante (<em>q\u00fbm<\/em>) (3,8; 7,7; 9,20; 10,12; 17,13; 35,2) e tenha compaix\u00e3o (<em>\u1e25\u0101nan<\/em>) (4,2; 6,3; 9,14; 25,16; 26,11; 27,7; 30,11; 31,10) culmina em 41,11, convergindo ambas as express\u00f5es: \u201ctende compaix\u00e3o de mim levanta-me\u201d. Deus, por sua vez, toma posi\u00e7\u00e3o: \u201cpelos pobres oprimidos e os necessitados que gemem, agora me levanto (<em>q\u00fbm<\/em>)\u201d (12,6). Na conclus\u00e3o desse primeiro livro, o salmista faz da defesa do fraco um ideal de vida, uma bem-aventuran\u00e7a: \u201cfeliz quem cuida (<em>\u015b\u0101kal<\/em>) do pobre (<em>pt\u014dchos<\/em>) e do fraco (<em>d\u0101l<\/em>), no dia da infelicidade o Senhor o liberta\u201d (Sl 41,2). E cuidar a exemplo de Deus (41,11-13). Aqui se explicita em que consiste \u201cbuscar o abrigo de Deus\u201d presente na bem-aventuran\u00e7a da introdu\u00e7\u00e3o (Sl 2,12b). A op\u00e7\u00e3o de Deus pelo fraco \u00e9 uma constante no salt\u00e9rio (cf. p. ex.: 107,41; 113,7; 138,6; 146,7-9; 147,6). Portanto, a ora\u00e7\u00e3o dos salmos n\u00e3o ignora a sorte dos fracos, antes a tem por pressuposto elementar. Ali\u00e1s, na maioria dos salmos, s\u00e3o eles que se dirigem a Deus contra os \u00edmpios, convictos que Deus n\u00e3o compactua com o perverso e enganador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.9 A numera\u00e7\u00e3o dos salmos e data\u00e7\u00e3o do salt\u00e9rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vers\u00e3o grega (LXX), seguida pela vers\u00e3o latina (Vulgata = Vg), une os Sl 9 e 10 e os Sl 114 e 115 e divide em dois os Sl 116 e 147. Por esta raz\u00e3o, as B\u00edblias que seguem a vers\u00e3o grega ou latina, como a Ave Maria, passam a ter uma unidade num\u00e9rica a menos ap\u00f3s o Sl 10. Eis porque a maioria dos salmos aparece com duas numera\u00e7\u00f5es. Isto resulta na seguinte tabela (LORENZIN, 2014, p. 11):<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"280\">B\u00edblia Hebraica (TM)<\/td>\n<td width=\"284\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>B\u00edblias Grega (LXX) e Latina (Vg)<\/p>\n<p>Sl 1-8<\/p>\n<p>Sl 9-10<\/p>\n<p>Sl 11-113<\/p>\n<p>Sl 114-115<\/p>\n<p>Sl 116,1-9<\/p>\n<p>Sl 116,10-19<\/p>\n<p>Sl 117-146<\/p>\n<p>Sl 147,1-11<\/p>\n<p>Sl 147,12-20<\/p>\n<p>Sl 148-150\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sl 1-8<\/p>\n<p>Sl 9<\/p>\n<p>Sl 10-112<\/p>\n<p>Sl 113<\/p>\n<p>Sl 114<\/p>\n<p>Sl 115<\/p>\n<p>Sl 116-145<\/p>\n<p>Sl 146<\/p>\n<p>Sl 147<\/p>\n<p>Sl 148-150<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Quanto \u00e0 data\u00e7\u00e3o da obra, n\u00e3o \u00e9 tarefa simples. Todavia, a afinidade da moldura do salt\u00e9rio (1-2; 146-150) com o livro de Sir\u00e1cida, composto por volta de 175 aC, a afinidade dos temas da sapi\u00eancia da lei, escatologia e louvor divino desta mesma moldura com os textos ess\u00eanios encontrados em Qumran, dat\u00e1veis entre 200 a 150 aC, e a proximidade do salt\u00e9rio teocr\u00e1tico (Sl 90-150) com a sapi\u00eancia levam a pesquisa atual a conjecturar a reda\u00e7\u00e3o do salt\u00e9rio entre 200 e 150 aC, isto \u00e9, no s\u00e9c. II aC (LORENZIN, 2014, p. 25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Os Salmos e o NT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.1 Os salmos e Jesus<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Livros de Isa\u00edas e dos Salmos s\u00e3o as obras mais citadas no NT. O salt\u00e9rio \u00e9 citado expressamente por volta de 78 vezes e alus\u00f5es superam outras 300. Obviamente que este uso porta uma novidade, os salmos s\u00e3o lidos em chave cristol\u00f3gica. O evangelista Lucas coloca na boca do pr\u00f3prio Jesus uma frase que ilustra isso: \u201cera preciso que se cumprisse tudo o que est\u00e1 escrito sobre mim na Lei de Mois\u00e9s, nos Profetas e nos Salmos\u201d (24,44). Mas Jesus teria utilizado os salmos durante sua vida? Quais os ind\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) Jesus participa das festas judaicas (Lc 2,41; Jo 2,13; 5,1; 7,14.37; 10,22; 12,12-13). Ora, na liturgia das festas fazia parte o uso de salmos como mostram as referencias do Talmud. Na P\u00e1scoa, por exemplo, se recitava o <em>hallel <\/em>eg\u00edpcio (Sl 113-118). Em Lc 22,7-20, Jesus celebra a P\u00e1scoa com os disc\u00edpulos. Mt 26,30 e Mc 14,26 seriam refer\u00eancia \u00e0 recita\u00e7\u00e3o do <em>hallel<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) as peregrina\u00e7\u00f5es a Jerusal\u00e9m e a festa das Tendas eram animadas com os c\u00e2nticos de <em>subida<\/em> (Sl 120-134). Jesus com os pais e depois com os disc\u00edpulos pode ter se servido desta cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) Jesus frequentava a sinagoga, l\u00e1 <em>fez leitura<\/em> (cf. Lc 4,16) e <em>ensinou<\/em> (Mc 1,21; 6,2). Ap\u00f3s a leitura da Tor\u00e1 e dos Profetas se cantava um salmo. Disso o Sl 92,1 \u00e9 um ind\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Nos salmos, Jesus encontra inspira\u00e7\u00e3o para seu <em>ensino<\/em>. Em Mt 13,35, ele cita o salmo para justificar sua pedagogia: \u201cVou abrir minha boca em par\u00e1bolas\u201d (Sl 78,2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, esses ind\u00edcios ainda n\u00e3o permitem afirmar, mas pressupor, que Jesus tenha usado os salmos. H\u00e1 outras ocorr\u00eancias, por\u00e9m, em que os salmos aparecem na boca de Jesus como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) No ensino e nas controv\u00e9rsias com os advers\u00e1rios: Mt 7,23 (Sl 6,9); 21,16 (Sl 8,3); 21,42 (Sl 118,22-23); 22,43-44 (Sl 110,1); 23,39 (Sl 118,26); Mc 12,10-11 (Sl 118,22-23); 12,36 (Sl 110,1); 14,18 (Sl 41,10); Lc 12,27 (Sl 6,9); 13,35 (Sl 118,26); 20,17 (Sl 118,22-23); 20,42-43; 22,69 (Sl 110,1); Jo 10,34 (Sl 82,6); 13,18 (Sl 41,10). Existe, ainda, um n\u00famero consider\u00e1vel de alus\u00f5es aos salmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) Na vida pessoal: \u201cao entrar no mundo\u201d o autor de Hb 10,5-7 coloca na boca de Jesus o Sl 40,7-9. Ele anuncia o nome divino aos irm\u00e3os na Assembleia (Hb 2,12; cf. Sl 22,23). Na cruz, usa os salmos para dizer \u201ctenho sede\u201d (Jo 19,28; cf. Sl 22,16; 69,22), lamentar o abandono por parte de Deus (Mt 27,46; Mc 15,34; cf. Sl 22,2) e para se entregar ao Pai e deixar este mundo (Lc 23,46; cf. Sl 31,6) (GOURGUES, 1984, p. 80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes \u00faltimos elementos confirmam a pressuposi\u00e7\u00e3o precedente enquanto mostram que a Igreja primitiva via em seu mestre um amante dos salmos. Ele se serviu dos salmos na miss\u00e3o e na rela\u00e7\u00e3o com o Pai. Por conseguinte, o salt\u00e9rio deve significar algo para o crente e a comunidade que rezam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2 Os Salmos e a Igreja nos textos do NT<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja faz, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, cita\u00e7\u00f5es diretas do salt\u00e9rio para iluminar a vida ou minist\u00e9rio de seu messias e Senhor. Al\u00e9m dos textos j\u00e1 indicados, h\u00e1 outra s\u00e9rie de textos conforme alguns exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) nos Evangelhos: Mt 4,6 (Sl 91,11-12); 21,9 (Sl 118,25-26); 27,43 (Sl 22,9); Mc 15,24 (Sl 22,19). Em Lucas, o <em>Magnificat<\/em> (Lc 1,46-55) \u00e9 tecido, entre outros textos, com os Sl 89,11; 98,3; 103,17; 107,9; 111,9; o <em>Benedictus<\/em> (Lc 1,67-79) utiliza as doxologias dos Sl 41,14; 72,18; 106,48; 111,9 e h\u00e1 os salmos que falam da miseric\u00f3rdia e alian\u00e7a com os antepassados: Sl 105,8-9; 106,45a. Al\u00e9m disso: Lc 3,22 (Sl 2,7); 4,10-11 (Sl 91,11-12); 19,38 (Sl 118,25-26); 23,34 (Sl 22,19); Jo 2,17 (Sl 69,10); 6,31 (Sl 78,24); 12,13 (Sl 118,25-26); 19,24 (Sl 22,19); 19,36 (Sl 34,21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) nos Atos: 1,20 (Sl 69,26; 109,8); 2,25-28 (Sl 16,8-11); 2,34-35 (Sl 110,1); 4,11 (Sl 118,22); 4,25-26 (Sl 2,1-2); 13,33 (Sl 2,7); 13,35 (Sl 16,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) nas ep\u00edstolas de Paulo: para dizer que o ser humano \u00e9 pecador \u2013 em Rm 3,10-18 \u2013 o ap\u00f3stolo se serve dos Sl 5,10; 14,1-3; 36,2; 107,7; 140,4. Deus, por\u00e9m, justifica: Rm 4,7-8 (Sl 32,1-2). Para outros exemplos: 8,36 (Sl 44,23); 11,9-10 (Sl 69,23-24); 15,3 (Sl 69,10b); 15,9 (Sl 18,50); 15,11 (Sl 143,2); I Cor 3,20 (Sl 94,11); 10,26 (Sl 24,1); 15,25 (Sl 110,1); II Cor 4,14 (Sl 116,10a); 9,9 (Sl 112,9); Gl 2,16 (Sl 143,2); Ef 1,22 (Sl 8,7); 4,8 (Sl 68,19); 4,26 (Sl 4,6 cf. LXX); II Tm 4,14 (Sl 62,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) na ep\u00edstola aos Hebreus: 1,5-13 para provar que Cristo \u00e9 superior aos anjos, o autor recorre aos Sl 2,7; 45,7-8; 97,7; 102,26-28; 104,4; 110,1. O homem pouco menor que os anjos: 2,6-8 (Sl 8,5-7); Jesus, o irm\u00e3o: 2,12 (Sl 22,23); o tema do <em>repouso<\/em> tem por base o Sl 95: 3,7-11 (Sl 95,7-11); 4,1.3.5 (Sl 95,11); 4,7 (Sl 95,7-8); o tema do sacerd\u00f3cio de Cristo: 5,5 (Sl 2,7); 5,6.10; 6,20; 7,1.11.17.21 (Sl 110,4); o tema do sacrif\u00edcio: 10,5-7 (Sl 40,7-9 cf. LXX); 10,9 (Sl 40,8); 10,12-13; 12,2 (Sl 110,1). Nas recomenda\u00e7\u00f5es finais (13,6), recorre ao Sl 118,6.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) nas ep\u00edstolas cat\u00f3licas: Tg 5,11b (Sl 103,8a); 1Pd 2,7 (Sl 118,22); 3,10-12 (Sl 14,13-17); 5,7 (Sl 55,23); 2Pd 3,8 (Sl 90,4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) no Apocalipse: 1,5 (Sl 89,28); 2,23 (Sl 62,13); 2,26-27 (Sl 2,8-9); 9,20 (Sl 115,4; 135,15); 11,18b; 19,5 (Sl 115,13); 15,3 (Sl 92,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece obvia a relev\u00e2ncia dos salmos nos escritos neotestament\u00e1rios e, por conseguinte, de uso na Igreja nascente no an\u00fancio e ensino da Boa-Nova. Alguns elementos se destacam:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) a prefer\u00eancia dos autores neotestament\u00e1rios pelos Sl 2; 22; 110; 118, evocando o aspecto messi\u00e2nico;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) o fato que os dois grandes ap\u00f3stolos da Igreja primitiva se valham dos salmos para anunciar a ressurrei\u00e7\u00e3o: Pedro recorre aos Sl 16,8-11 e 110,1 em At 2,25-28.34, e Paulo recorre aos Sl 2,7 e 16,10 em At 13,33-37. Hebreus recorre ao salmo para falar tamb\u00e9m da vinda de Jesus ao mundo (Hb 10,7.9; cf. Sl 40,8-9) e de seu sacerd\u00f3cio (Hb 5,6.10; 6,20; 7,11.17.21; cf. Sl 110,4);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) a Igreja se re\u00fane para ora\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o de Pedro em At 4,23-30 e toma por base o Sl 2,1-2 (cf. At 4,25b-26);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) Paulo recomenda o uso de salmos na vida crist\u00e3: \u201c(&#8230;) em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as a Deus, entoem vossos cora\u00e7\u00f5es salmos, hinos e c\u00e2nticos espirituais\u201d (Cl 3,16) e \u201cFalai uns aos outros com salmos e hinos e c\u00e2nticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso cora\u00e7\u00e3o\u201d (Ef 5,19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste quadro se pode concluir que os salmos ocuparam lugar importante na express\u00e3o da f\u00e9 da Igreja primitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Rivaldave Paz Torquato<\/em>, O. Carm. Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia. Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BONHOEFFER, D. <em>Pregare i salmi con Cristo<\/em>. Brescia: Queriniana, 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GOURGUES, M. <em>Os Salmos e Jesus, Jesus e os Salmos<\/em> (CB 25). S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LORENZIN, T. <em>I Salmi <\/em>(PT 20)<em>.<\/em> Milano: Paoline, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEHILIM Ner Yossef.<em> O Livro dos Salmos comentado. <\/em>Trad. A. Wasserman e C. Szwertszarf. S\u00e3o Paulo: Maayanot, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TORQUATO, R. P. <em>Malkut Adonai<\/em>. Uma leitura do Sl 145 no horizonte da Tor\u00e1 dav\u00eddica. Roma: Edizioni Carmelitane, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VAZ, A. Os Salmos: A vida feita ora\u00e7\u00e3o. Para uma recita\u00e7\u00e3o vital crist\u00e3 dos salmos. In: VV.AA. <em>Ora\u00e7\u00e3o, encontro de comunh\u00e3o<\/em>. I Semana de Espiritualidade. Oiras: Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, 1985. p.37-77.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VON RAD, G. <em>Teologia do Antigo Testamento I.<\/em> S\u00e3o Paulo: Aste, 1973.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZENGER, E. O livro dos salmos. In: VV.AA. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento <\/em>(BL 36). S\u00e3o Paulo: Loyola, 2003, 306-323.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Literatura recomendada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALONSO SCH\u00d6KEL, L.; CARNITI, C. <em>Salmos I<\/em> (Sl 1-72). S\u00e3o Paulo: Paulus, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Salmos II<\/em> (Sl 72-150). S\u00e3o Paulo: Paulus, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ASENSIO, V. M. <em>Livros sapienciais e outros escritos<\/em> (IEB 5). S\u00e3o Paulo: Ave Maria, 1997. p.253-394.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BALLARINI, T.; REALI, V. <em>A po\u00e9tica hebraica e os salmos<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARROS SOUZA, M. de. <em>Seu louvor em nossos l\u00e1bios<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>E a vida vira ora\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Amor que une vida e ora\u00e7\u00e3o \u2013 Os salmos b\u00edblicos e a liturgia. <em>RIBLA<\/em> n.45, p.155-169, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FERNANDES, L. A.; GRENZER, M. <em>Dan\u00e7a, \u00f3 terra!<\/em> Interpretando Salmos. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GIRARD, M. <em>Como ler o livro dos Salmos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GONZ\u00c1LEZ, A. <em>El<\/em> <em>Libro de los Salmos<\/em>. Introducci\u00f3n, versi\u00f3n y comentario. Barcelona: Herder, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KRAUS, H.-J. <em>Teologia<\/em> <em>de los Salmos<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAILHIOT, G.-D. <em>Os salmos<\/em>. Rezar com as palavras de Deus. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MESTERS, C. <em>O Rio dos Salmos das Nascentes ao Mar<\/em>. Belo Horizonte: CEBI, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. Jesus e os Salmos \u2013 A ora\u00e7\u00e3o dos Salmos na vida de Jesus. <em>RIBLA<\/em> n.45, p.142-154, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______; OROFINO, F.; WEILER, L. <em>Rezar os salmos hoje:<\/em> a lei orante do povo de Deus. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MURPHY, R. E. <em>J\u00f3 e Salmos. <\/em>Encontro e confronto com Deus (PCB \u2013 AT). S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1985. p.7-72.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ROSE, M. Salmos. In: R\u00d6MER, T. et al. (orgs.) <em>Antigo Testamento.<\/em> Hist\u00f3ria, escritura e teologia. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010. p.581-600.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHILLING, O. Os Salmos, Louvor de Israel a Deus. In: SCHREINER, J. (ed) <em>Palavra e Mensagem.<\/em> Introdu\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e cr\u00edtica aos problemas do AT (NCB 8). S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1978. p.382-406.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHMIDT, W. H. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento.<\/em> S\u00e3o Leopoldo: Sinodal, 1994. p.284-294.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVA, C. M. D.; L\u00d3, R. C. <em>Caminho n\u00e3o muito suave<\/em>. Cartilha de literatura sapiencial b\u00edblica. Campinas: Al\u00ednea, 2012. p.105-137.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">STADELMANN, L. I. J. <em>Os Salmos<\/em>. Estrutura, conte\u00fado e mensagem. Petr\u00f3polis: Vozes, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Os Salmos<\/em>. Coment\u00e1rio e ora\u00e7\u00e3o. Petr\u00f3polis: Vozes, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VV.AA. <em>Os Salmos e os outros escritos.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00cdndice 1 Introdu\u00e7\u00e3o 2 O Salmo 2.1\u00a0 O termo 2.2\u00a0 A atitude 2.3 Os g\u00eaneros liter\u00e1rios 2.3.1 A variedade dos g\u00eaneros 2.3.2 A teologia dos g\u00eaneros 2.4 Os salmos imprecat\u00f3rios ou \u201cviolentos\u201d 2.5 O louvor e suas implica\u00e7\u00f5es 3 O Livro dos Salmos ou salt\u00e9rio 3.1 O termo 3.2 A forma\u00e7\u00e3o do livro 3.3 A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-1700","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1700"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1700\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1930,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1700\/revisions\/1930"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}