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{"id":169,"date":"2014-12-18T18:07:09","date_gmt":"2014-12-18T20:07:09","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=169"},"modified":"2016-04-10T10:08:21","modified_gmt":"2016-04-10T13:08:21","slug":"biblia-como-palavra-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=169","title":{"rendered":"B\u00edblia como Palavra de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Revela\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Inspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Inerr\u00e2ncia e Veracidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 L\u00ednguas b\u00edblicas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Forma\u00e7\u00e3o do C\u00e2non<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.1 Antigas vers\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.2 A vers\u00e3o aramaica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.3 A vers\u00e3o grega<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.4 As vers\u00f5es latinas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6.5 Outras vers\u00f5es antigas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Vers\u00f5es modernas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Obje\u00e7\u00f5es \u00e0 B\u00edblia e Ci\u00eancias Humanas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este verbete envolve o percurso e a din\u00e2mica dos temas que caracterizam o ser e o agir de Deus, que se manifesta e vem ao encontro do ser humano, e denotam a percep\u00e7\u00e3o, a acolhida e a reflex\u00e3o do ser humano como resposta a essa iniciativa divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse percurso e din\u00e2mica, os temas da <em>Revela\u00e7\u00e3o<\/em> e da <em>Inspira\u00e7\u00e3o<\/em> aportam diretamente nos temas da <em>Inerr\u00e2ncia<\/em> e da <em>Veracidade <\/em>dos textos b\u00edblicos, que foram escritos em <em>hebraico, aramaico <\/em>e<em> grego<\/em>. Essas s\u00e3o as <em>l\u00ednguas originais da B\u00edblia<\/em>, que foi-se cristalizando durante um longo processo hist\u00f3rico, denominado <em>Forma\u00e7\u00e3o do C\u00e2non<\/em> do <em>Antigo Testamento<\/em> e do <em>Novo Testamento<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, este conjunto de livros difere, na sua extens\u00e3o e no seu n\u00famero, de acordo com a aceita\u00e7\u00e3o das<em> Antigas Vers\u00f5es <\/em>existentes que deram origem \u00e0s in\u00fameras <em>Vers\u00f5es Modernas <\/em>da B\u00edblia. Com o surgimento e a difus\u00e3o da <em>Cr\u00edtica Liter\u00e1ria<\/em>, teve in\u00edcio uma s\u00e9rie de <em>Obje\u00e7\u00f5es \u00e0 B\u00edblia <\/em>que, no fundo, acabaram por permitir o desenvolvimento de interpela\u00e7\u00f5es e debates oriundos das<em> Ci\u00eancias Humanas<\/em>, que, ao inv\u00e9s de descredenciarem a autoridade da Palavra de Deus, acabaram por incentivar novas pesquisas e descobrir novas formas de abordagem e de metodologias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Revela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por revela\u00e7\u00e3o entende-se o ato pelo qual o pr\u00f3prio Deus, em sua bondade infinita, dignou-se a se fazer presente e atuante na hist\u00f3ria, palco dos acontecimentos, para dar-se a conhecer ao ser humano, elegendo-o seu interlocutor, atrav\u00e9s de fatos e palavras conexos entre si. Deus, adotando e fazendo uso dessa metodologia, permitiu que o ser humano pudesse encontr\u00e1-lo e experimentar a sua presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o de forma percept\u00edvel, pelos sentidos, e intelig\u00edvel, pela raz\u00e3o. Se a experi\u00eancia dos fatos fundamenta as palavras, as palavras preservam e explicam os fatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa din\u00e2mica demonstra que a Revela\u00e7\u00e3o possui, em si, um duplo n\u00edvel: a) um n\u00edvel que diz respeito ao conte\u00fado revelado (<em>ex parte Dei<\/em>); b) um n\u00edvel que diz respeito \u00e0 intelig\u00eancia do homem em rela\u00e7\u00e3o a esse conte\u00fado revelado (<em>ex parte hominis<\/em>). Os dois n\u00edveis n\u00e3o somente envolvem as partes, mas comprometem os seus respectivos pap\u00e9is na hist\u00f3ria da revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Dei Verbum <\/em>n.2, sobre isso, afirma: \u201cEm virtude desta Revela\u00e7\u00e3o, Deus invis\u00edvel (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), no seu imenso amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e se entret\u00e9m com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem da sua comunh\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus, ao se revelar, assumiu a condi\u00e7\u00e3o tanto de \u201csujeito da revela\u00e7\u00e3o\u201d, como de \u201cobjeto da revela\u00e7\u00e3o\u201d. No primeiro caso, Deus foi quem tomou a iniciativa de se revelar e de se manifestar de forma acess\u00edvel e ao alcance das capacidades com as quais dotou o ser humano. No segundo caso, Deus tornou-se o conte\u00fado a ser experimentado, buscado e compreendido pelo ser humano, capaz de perceber e de adentrar no seu mist\u00e9rio, para reconhec\u00ea-lo como seu Criador. Apesar disso, a revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o esgota o mist\u00e9rio de Deus. O que Deus revelou ao ser humano \u00e9 o necess\u00e1rio para que ele realize a sua vontade e descubra o sentido da sua vida, da sua exist\u00eancia e do seu fim \u00faltimo: ser part\u00edcipe da sua \u00edntima comunh\u00e3o de amor (cf. 2Pd 1,4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a ess\u00eancia da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Deus, que se d\u00e1 a conhecer ao ser humano, ent\u00e3o a natureza da revela\u00e7\u00e3o consiste no modo pelo qual Deus se faz conhecido e se permite encontrar. A revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Deus \u00e9 o fundamento da Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o. Dando-se a conhecer ao ser humano, Deus inaugurou, igualmente, a via de acesso pela qual ele pode encontrar respostas para os seus questionamentos e anseios mais profundos. Ao <em>descobrir<\/em> quem \u00e9 Deus, o ser humano passa a ter a possibilidade de se autodescobrir e saber n\u00e3o somente a sua identidade, mas, tamb\u00e9m, perceber a sua miss\u00e3o e qual \u00e9 o seu fim \u00faltimo (Teleologia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 autocomunica\u00e7\u00e3o de Deus, deve ser compreendida como evento salv\u00edfico. Esse evento teve in\u00edcio com a Cria\u00e7\u00e3o, desenvolveu-se na hist\u00f3ria religiosa do antigo Israel e alcan\u00e7ou a sua plenitude no mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o, vida, minist\u00e9rio p\u00fablico, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, para culminar com o envio do Esp\u00edrito Santo. Por meio dessa trajet\u00f3ria hist\u00f3rica, Deus se deu a conhecer como comunh\u00e3o: Deus \u00e9 Uno e Trino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 um apelo de Deus, em forma de encontro e di\u00e1logo familiar com o ser humano que acredita na experi\u00eancia que faz, e \u00e9, tamb\u00e9m, uma mo\u00e7\u00e3o, enquanto abertura para a verdade, que reflete sobre a sua exist\u00eancia \u00e0 luz da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A concep\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o que se tem da inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica est\u00e3o na ordem da fenomenologia religiosa. Por meio dessa, acredita-se que uma especial a\u00e7\u00e3o de Deus possa ter acontecido em determinadas pessoas que, investidas pelo Esp\u00edrito de Deus, receberam um carisma, isto \u00e9, uma gra\u00e7a particular para poder falar, agir e escrever as palavras que o pr\u00f3prio Deus quis comunicar aos seres humanos para revelar os seus des\u00edgnios salv\u00edficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito religioso, essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 universal e, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica espec\u00edfica e exclusiva da f\u00e9 judaico-crist\u00e3. Os povos antigos (eg\u00edpcios, ass\u00edrios, babil\u00f4nios, persas, gregos, romanos), porque eram religiosos, partilharam deste mesmo parecer. A raz\u00e3o disso \u00e9 que a \u201ccomunica\u00e7\u00e3o inspirada\u201d pela divindade \u00e9 um elemento factual e potencialmente vivo na religiosidade dos povos anteriores e contempor\u00e2neos ao povo do Deus da revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na base dessa religiosidade, est\u00e1 a aceita\u00e7\u00e3o que as divindades existiam e podiam ser invocadas por mediadores, aos quais manifestavam, para um indiv\u00edduo ou uma comunidade, a sua vontade. Por meio do estabelecimento dessa comunica\u00e7\u00e3o quer-se saber quais s\u00e3os os des\u00edgnios divinos, principalmente para se obter sucesso nos projetos e neutralizar as poss\u00edveis desgra\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, a nota espec\u00edfica que distingue a concep\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 dos demais povos reside, exatamente, no fato dessa considerar como inspirados alguns escritos, que se tornaram normativos para a vida de cada indiv\u00edduo e da inteira comunidade. Esta acolhida foi o que determinou essa comunidade religiosa como povo da revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por inspira\u00e7\u00e3o divina da Sagrada Escritura entende-se, ent\u00e3o, o influxo particular e especial de Deus, exercido na vida e nas capacidades de todos os que, de forma direta ou indireta, estiveram envolvidos no processo da elabora\u00e7\u00e3o dos livros sagrados. Ao lado disso, admite-se que a inspira\u00e7\u00e3o foi o que definiu Deus e os seres humanos envolvidos nesse processo como verdadeiros \u201cautores\u201d dos textos b\u00edblicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a Sagrada Escritura, enquanto Palavra de Deus revelada e inspirada, foi escrita sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, como afirma a <em>Dei Verbum<\/em> n.11:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As verdades reveladas por Deus, que se encontram contidas e expressas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. Com efeito, a santa M\u00e3e Igreja, por f\u00e9 apost\u00f3lica, considera como sagrados e can\u00f4nicos os livros inteiros tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, tendo sido escritos por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo (cf. Jo 20,31; 2Tm 3,16; 2Pd 1,19-21; 3,15-16), t\u00eam Deus por autor e como tais foram confiados \u00e0 pr\u00f3pria Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa afirma\u00e7\u00e3o, apesar de ser um ato de f\u00e9 solene do Magist\u00e9rio da Igreja, n\u00e3o resolveu as numerosas quest\u00f5es que surgiram nos \u00faltimos tempos, e que t\u00eam exigido de biblistas e te\u00f3logos, a partir dos resultados obtidos pelos m\u00e9todos exeg\u00e9ticos, uma reflex\u00e3o cada vez maior, a fim de proporcionar uma melhor compreens\u00e3o quanto ao tema da inspira\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe no Antigo Testamento, mas a sua compreens\u00e3o pode ser depreendida das f\u00f3rmulas de introdu\u00e7\u00e3o dos or\u00e1culos prof\u00e9ticos: \u201cAssim fala o Senhor\u201d ou \u201cOr\u00e1culo do Senhor\u201d, que indicam a concep\u00e7\u00e3o da origem divina da palavra transmitida atrav\u00e9s dos Profetas. Jr 36,2.32 \u00e9 um exemplo da fixa\u00e7\u00e3o escrita da palavra prof\u00e9tica. Ao lado disso, est\u00e1 a firme convic\u00e7\u00e3o de que a Tor\u00e1 (lei \u2013 instru\u00e7\u00e3o) cont\u00e9m a palavra de Deus normativa para o antigo Israel e que foi posta por escrito por ordem do pr\u00f3prio Deus (Ex 34,27-28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em 2Tm 3,16 encontra-se a palavra <em>the\u00f3pneustos<\/em>, que pode ser traduzida por um valor predicativo (\u201cToda Escritura \u00e9 inspirada por Deus\u201d) ou por um valor atributivo (\u201cToda Escritura inspirada por Deus\u201d). Jer\u00f4nimo traduziu por <em>divinitus inspirata<\/em>. Al\u00e9m dessa cita\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, 2Pd 1,19-21 afirma que nenhuma profecia foi fruto de mera mo\u00e7\u00e3o humana, mas resulta da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, pelo qual homens falaram em nome de Deus. Esta certeza, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras contidas nos escritos prof\u00e9ticos, foi estendida aos escritos de Paulo, dando a entender que houve dificuldades de interpreta\u00e7\u00e3o da Escritura (2Pd 3,15-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa base b\u00edblica resulta a afirma\u00e7\u00e3o que Deus, ao transmitir a sua palavra, n\u00e3o dispensou os seres humanos envolvidos, mas quis revelar-se e expressar a sua vontade atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o humana, valendo-se da sua cultura, da sua l\u00edngua e das suas formas liter\u00e1rias, sem que nada do conte\u00fado ficasse comprometido. Se Deus n\u00e3o tivesse falado de forma humana, a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria estabelecida e o seu ser e o seu agir n\u00e3o poderiam ser percebidos e compreendidos pelo ser humano. \u00c9 o que est\u00e1 expresso na <em>Dei Verbum <\/em>n.11, assumindo a posi\u00e7\u00e3o j\u00e1 contida na <em>Providentissimus Deus <\/em>e na <em>Divino afflante Spiritu<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, para escrever os Livros Sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou na posse das faculdades e capacidades que tinham, para que, agindo Deus neles e por meio deles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e s\u00f3 aquilo que ele quisesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, a posi\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio, quanto \u00e0 doutrina da <em>Revela\u00e7\u00e3o <\/em>e da <em>Inspira\u00e7\u00e3o<\/em>, possui a sua base na centralidade que Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, ocupa na Sagrada Escritura, pois ele \u00e9 a sua chave interpretativa. Com isso, o profetismo, como sinal da inspira\u00e7\u00e3o divina no Antigo Testamento, e a realiza\u00e7\u00e3o das promessas, da lei e das profecias, no Novo Testamento, fundamentam a interpreta\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica que se faz de toda Sagrada Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Inerr\u00e2ncia e Veracidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos temas da <em>revela\u00e7\u00e3o <\/em>e da<em> inspira\u00e7\u00e3o <\/em>derivam os temas da <em>inerr\u00e2ncia <\/em>e da<em> veracidade<\/em> da Sagrada Escritura. Por <em>inerr\u00e2ncia <\/em>entende-se a certeza de que o conte\u00fado dos livros da Sagrada Escritura n\u00e3o cont\u00e9m erros quanto \u00e0 f\u00e9 na exist\u00eancia de Deus, enquanto fonte de conhecimento capaz de orientar o comportamento humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspectiva sobre a inerr\u00e2ncia, que se encontra na <em>Dei Verbum<\/em> n.11, revela que houve a inten\u00e7\u00e3o de se optar por uma compreens\u00e3o de tipo <em>positivo<\/em>, no sentido de que o texto, claramente, abandona o modelo <em>apolog\u00e9tico<\/em>. Embora se afirme que a B\u00edblia n\u00e3o cont\u00e9m erros, percebe-se que a \u00eanfase recaiu muito mais sobre o fato de que <em>os Livros da Escritura ensinam com certeza&#8230; a verdade relativa \u00e0 nossa salva\u00e7\u00e3o<\/em>. Assim, a inerr\u00e2ncia da B\u00edblia deixa de ser o ponto central da quest\u00e3o sobre a veracidade da Sagrada Escritura, para que a verdade salv\u00edfica apare\u00e7a como corol\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inerr\u00e2ncia, ent\u00e3o, comporta a admiss\u00e3o de que a Sagrada Escritura ensina a verdade, n\u00e3o obstante possam ser encontrados v\u00e1rios tipos de erros que ocorreram na transmiss\u00e3o escrita dos textos. Disto se ocupa a <em>Cr\u00edtica Textual<\/em>, como passo metodol\u00f3gico fundamental para se reconstruir um texto danificado ou para se determinar que texto seria o mais pr\u00f3ximo do que saiu das m\u00e3os do <em>hagi\u00f3grafo<\/em>. Nota-se, mais uma vez, que a natureza da possibilidade do <em>erro<\/em> n\u00e3o contradiz a doutrina afirmada, porque admitir um erro de transmiss\u00e3o escrita n\u00e3o significa negar a posi\u00e7\u00e3o da Igreja no que diz respeito \u00e0 inerr\u00e2ncia b\u00edblica, vinculada \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o da verdade que se refere, exclusivamente, \u00e0 salva\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano e n\u00e3o a verdades de cunho hist\u00f3rico ou cient\u00edfico, no sentido moderno desses termos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a constata\u00e7\u00e3o de erros de grafia, ao longo da transmiss\u00e3o escrita do texto, n\u00e3o compromete o sentido literal da Sagrada Escritura, que se alcan\u00e7a no acolhimento de cada texto na sua identidade liter\u00e1ria e na sua estrutura contextual. O princ\u00edpio fundamental que rege e orienta a f\u00e9 na aceita\u00e7\u00e3o e na compreens\u00e3o da inerr\u00e2ncia b\u00edblica \u00e9 a f\u00e9 de que os textos ensinam, com certeza, a verdade salv\u00edfica. Essa verdade \u00e9 obtida na compreens\u00e3o do conjunto da mensagem contida nos textos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez que a finalidade da Sagrada Escritura \u00e9 comunicar quem \u00e9 Deus e qual \u00e9 a sua vontade para o ser humano, \u00e9 imprescind\u00edvel lembrar que os autores sagrados foram pessoas totalmente integradas no contexto vital do seu tempo, imersos na sua pr\u00f3pria cultura com tudo o que de limitado e inexato ela comportava em cada \u00e9poca ou est\u00e1gio do processo de forma\u00e7\u00e3o dos livros b\u00edblicos. A <em>ci\u00eancia<\/em> dos hagi\u00f3grafos era emp\u00edrica e pertencia ao momento hist\u00f3rico, geogr\u00e1fico e cultural de cada um. Isso n\u00e3o foi um obst\u00e1culo, mas uma condi\u00e7\u00e3o e o meio eficaz para que Deus se revelasse, manifestasse a sua vontade e essa fosse transmitida com fidelidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito, gerado por correntes racionalistas e iluministas, foi querer ler e interpretar a Sagrada Escritura com a aten\u00e7\u00e3o direcionada apenas para dois pontos: a busca pela veracidade hist\u00f3rica das narrativas b\u00edblicas e a vis\u00e3o do seu conte\u00fado teol\u00f3gico reduzido a uma mera produ\u00e7\u00e3o humana, sem que houvesse fundamentos cient\u00edficos para as verdades afirmadas. O resultado foi a cria\u00e7\u00e3o de um abismo entre a verdade salv\u00edfica, transmitida na Sagrada Escritura, e a verdade acad\u00eamica, comprovada pela ci\u00eancia. Isso ser\u00e1 tratado mais adiante no t\u00f3pico \u201cObje\u00e7\u00f5es \u00e0 B\u00edblia e Ci\u00eancias Naturais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 L\u00ednguas b\u00edblicas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros do Antigo Testamento foram escritos em hebraico, aramaico e, em certos casos, em grego. J\u00e1 o Novo Testamento foi escrito em grego popular, denominado koin\u00e9. Alguns livros do Antigo Testamento, presentes no c\u00e2non cat\u00f3lico, foram preservados somente em grego pela Septuaginta ou, simplesmente, LXX, como \u00e9 conhecida. S\u00e3o os livros de: Tobias, Judite, 1-2Macabeus, Eclesi\u00e1stico, Sabedoria e Baruc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hebraico \u00e9 uma forma dialetal, que estava em circula\u00e7\u00e3o na Palestina, juntamente com o aramaico, o cananeu meridional (cartas de Amarna), o fen\u00edcio-p\u00fanico, o moab\u00edtico e o ugar\u00edtico. Esse, em particular, ajuda a compreender a pr\u00e9-hist\u00f3ria do hebraico, desde a sua forma mais antiga, denominada de p\u00e1leo-hebreu, at\u00e9 assumir a forma quadrada com a utiliza\u00e7\u00e3o do alfabeto aramaico. No Antigo Testamento, para se indicar o p\u00e1leo-hebreu, usava-se \u201cl\u00edngua de Cana\u00e3\u201d (cf. Is 19,18) ou \u201cl\u00edngua judaica\u201d, para se distinguir do aramaico falado pelos neobabil\u00f4nios (cf. 2Rs 18,26.28; Ne 13,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o hebraico b\u00edblico \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o tardia, que aparece citada no pr\u00f3logo do livro do Eclesi\u00e1stico, como sendo a l\u00edngua em que foram escritos os livros contidos na Tor\u00e1, nos Profetas e nos outros Escritos (TaNaK). O desenvolvimento do hebraico b\u00edblico, de certa forma, se confunde com o processo de forma\u00e7\u00e3o dos livros do Antigo Testamento e a sua utiliza\u00e7\u00e3o foi sendo identificada, cada vez mais, com a forma lingu\u00edstica usada no juda\u00edsmo jerusalimita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do s\u00e9culo VI aC, o hebraico foi sendo suplantado pelo uso do aramaico como l\u00edngua falada e tamb\u00e9m escrita. Alguns textos do Antigo Testamento foram escritos em aramaico imperial ou diplom\u00e1tico: Esd 4,8\u20136,18; 7,12-26; Dn 2,4b\u20137,28 (esses textos n\u00e3o aparecem nas edi\u00e7\u00f5es protestantes da B\u00edblia); Jr 10,11 e duas palavras em Gn 31,47. Ap\u00f3s as conquistas de Alexandre Magno e a difus\u00e3o do helenismo, o grego foi imposto como l\u00edngua falada, mas o aramaico conservou-se em diferentes formas dialetais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do IV s\u00e9culo aC, o grego koin\u00e9 tornou-se o principal ve\u00edculo lingu\u00edstico, falado e escrito, para propagar o helenismo em um vasto imp\u00e9rio, como cultura dominante, mas principalmente como forma de governo. Este caminho aberto serviu para que diferentes cren\u00e7as religiosas se difundissem rapidamente em todo o mundo, favorecendo o interc\u00e2mbio religioso, principalmente das chamadas religi\u00f5es de mist\u00e9rio. Foi por causa disto que a palavra sincretismo ganhou tamb\u00e9m uma forte conota\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia grega, denominada Septuaginta, e os primeiros documentos produzidos pelo cristianismo, que deram origem aos textos do Novo Testamento, foram escritos no grego koin\u00e9 falado e n\u00e3o na sua forma culta e liter\u00e1ria, o grego cl\u00e1ssico. Os crist\u00e3os, ao assumirem a LXX como texto oficial das escrituras dos judeus, porque continham as antigas promessas messi\u00e2nicas, aproveitaram esse elemento lingu\u00edstico como for\u00e7a comunicativa e conseguiram levar, para o mundo greco-romano, a f\u00e9 e os ensinamentos de Jesus Cristo, que cumpriu todas as Sagradas Escrituras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Forma\u00e7\u00e3o do C\u00e2non<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O voc\u00e1bulo grego <em>kan\u00f4n<\/em> deriva de uma palavra semita que, em ac\u00e1dico, \u00e9 <em>qin<\/em>; em ugar\u00edtico \u00e9 <em>qn<\/em>; em ass\u00edrio \u00e9 <em>qan\u00fb<\/em>; e em hebraico \u00e9 <em>q\u00e2neh<\/em>. Essa terminologia passou para as l\u00ednguas neolatinas atrav\u00e9s do latim <em>canna<\/em>, que no portugu\u00eas significa \u201ccana ou bast\u00e3ozinho\u201d. No Antigo Oriente Pr\u00f3ximo, o c\u00e2non era uma vara reta ou barra, pr\u00f3xima do que se chama de r\u00e9gua, que servia de crit\u00e9rio, isto \u00e9, representava uma unidade de medida utilizada por pedreiros ou carpinteiros (cf. Ez 40,5.6.7.8). O termo, em sentido metaf\u00f3rico-figurado, tamb\u00e9m j\u00e1 denotava uma <em>regra<\/em>, uma <em>norma<\/em>, um <em>grau de excel\u00eancia<\/em> ou um <em>crit\u00e9rio-par\u00e2metro<\/em> com o qual uma pessoa podia julgar se uma doutrina, um racioc\u00ednio ou um ju\u00edzo estava correto, isto \u00e9, de acordo com a realidade. O termo c\u00e2non ser\u00e1 utilizado, tamb\u00e9m, com o sentido de s\u00e9rie ou elenco, passando a ser aplicado \u00e0 lista dos livros sagrados dos judeus e dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista b\u00edblico, ent\u00e3o, o c\u00e2non indica um conjunto de escritos que judeus e crist\u00e3os consideram como normativos para a vida de f\u00e9 individual e comunit\u00e1ria. Ao se determinar o c\u00e2non das suas escrituras sagradas, tanto o juda\u00edsmo como o cristianismo estavam definindo a sua pr\u00f3pria identidade de f\u00e9. O crit\u00e9rio fundamental para um livro ser considerado can\u00f4nico \u00e9 o reconhecimento de que ele foi inspirado por Deus e, logo, cont\u00e9m a revela\u00e7\u00e3o da verdade que Deus quis transmitir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de forma\u00e7\u00e3o do c\u00e2non do Antigo Testamento n\u00e3o foi o mesmo que o do Novo Testamento. Os livros, que comp\u00f5em o Pentateuco, os Livros Hist\u00f3ricos, os Livros Prof\u00e9ticos e os Livros Sapienciais, passaram por um longo processo redacional at\u00e9 chegarem \u00e0 sua forma final. Esse processo durou, aproximadamente, 1000 anos para o Antigo Testamento. J\u00e1 para o Novo Testamento, o processo foi mais breve e levou cerca de 150 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A elabora\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o de novos livros pelos crist\u00e3os foi o que levou os judeus a estabelecerem os quatro crit\u00e9rios b\u00e1sicos para que um livro fosse aceito como can\u00f4nico, no final do s\u00e9culo I dC, provavelmente durante o s\u00ednodo dos antigos rabinos realizado em J\u00e2mnia, que fixou o c\u00e2non judaico dos 39 livros que formam a B\u00edblia Hebraica. O primeiro crit\u00e9rio dizia respeito \u00e0 l\u00edngua, tinha que ter sido escrito em hebraico, tida como l\u00edngua sagrada. O segundo crit\u00e9rio dizia respeito ao local, tinha que ter sido escrito na regi\u00e3o da Palestina. O terceiro crit\u00e9rio dizia respeito \u00e0 \u00e9poca, tinha que ter sido escrito antes das reformas empreendidas por Esdras e Neemias, que deram origem ao juda\u00edsmo. O quarto crit\u00e9rio dizia respeito \u00e0 conformidade com a Tor\u00e1 de Mois\u00e9s. Esse era o principal crit\u00e9rio, pois com rela\u00e7\u00e3o ao cristianismo nascente, servia de base para se refutar muitas das afirma\u00e7\u00f5es contidas nos escritos que formariam o Novo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e2non dos livros \u00e9 diferente na B\u00edblia Hebraica e na B\u00edblia Crist\u00e3. A primeira est\u00e1 subdividida em tr\u00eas blocos: Tor\u00e1, N<sup>e<\/sup>bi\u2019\u00eem e K<sup>e<\/sup>tub\u00eem. A segunda necessita, ainda, de uma distin\u00e7\u00e3o. A B\u00edblia Protestante segue o mesmo c\u00e2non da B\u00edblia Hebraica e, por isso, n\u00e3o possui sete livros: Tobias, Judite, 1-2 Macabeus, Sabedoria, Eclesi\u00e1stico e Baruc. Esses livros e alguns suplementos pr\u00f3prios da vers\u00e3o grega, presentes nos livros de Ester e Daniel, foram reconhecidos como can\u00f4nicos pela Igreja Cat\u00f3lica e, a partir de 1566, passaram a ser denominados deuterocan\u00f4nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O termo deuterocan\u00f4nico, aplicado a esses sete livros e suplementos, n\u00e3o \u00e9 muito adequado, pois, necessariamente, n\u00e3o significa que eles foram inseridos no c\u00e2non da Igreja Cat\u00f3lica num segundo momento. Designa, por\u00e9m, aqueles livros sobre os quais o car\u00e1ter inspirado e can\u00f4nico tinha sido posto em d\u00favida por alguns autores crist\u00e3os da antiguidade, entre os quais esteve S\u00e3o Jer\u00f4nimo, tradutor da B\u00edblia para o latim, denominada Vulgata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses foi o escrito ocasional que inaugurou o conjunto dos escritos que formariam o Novo Testamento. O evangelho segundo Marcos foi, provavelmente, o primeiro do g\u00eanero, seguido depois por Lucas, Mateus e, no final do s\u00e9culo I dC, por Jo\u00e3o. Estas atribui\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, s\u00e3o posteriores aos pr\u00f3prios escritos e remontam aos Padres da Igreja que foram, por certo, os respons\u00e1veis por determinar quais livros fariam parte do c\u00e2non crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A canonicidade de um escrito do Novo Testamento pode ser admitida, em linhas gerais, quando o seu conte\u00fado pode ser identificado com a f\u00e9 da Igreja primitiva. Ao lado disso, o testemunho, como express\u00e3o do tempo que se liga ao evento Jesus Cristo, foi igualmente determinante. Em geral, crit\u00e9rios externos e internos foram formulados para definir quais livros fariam parte do Novo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos crit\u00e9rios externos, em primeiro lugar, evoca-se a \u201cautoridade dos autores\u201d, muito mais pautada na Tradi\u00e7\u00e3o do que em evid\u00eancias hist\u00f3ricas. Em segundo lugar, \u201co tempo privilegiado das origens\u201d, isto \u00e9, o per\u00edodo apost\u00f3lico. Em terceiro lugar, a \u201cortodoxia da doutrina contida nos escritos\u201d, derivada quer do ensinamento de Jesus Cristo, quer da autoridade transmitida aos ap\u00f3stolos. Em quarto lugar, \u201ca utiliza\u00e7\u00e3o lit\u00fargica\u201d, pela qual os escritos eram proclamados publicamente numa reuni\u00e3o oficial da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto aos crit\u00e9rios internos, evoca-se o reconhecimento da experi\u00eancia e a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na viv\u00eancia da comunidade que acolhe e elabora, dando forma ao conte\u00fado oral ou escrito que recebe. O mais importante, \u00e9 o reconhecimento da Igreja dentro de um processo vivo e aberto, chamado Tradi\u00e7\u00e3o, que acolhe e toma posse do que foi transmitido atrav\u00e9s dos autores reconhecidamente inspirados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O c\u00e2non das Escrituras \u00e9, para a Igreja de todos os tempos, a verdadeira e pr\u00f3pria norma <em>non normata<\/em>, acontecida e revelada, implicitamente, no per\u00edodo apost\u00f3lico e elaborado, explicitamente, nas decis\u00f5es que a Igreja tomou ao longo dos s\u00e9culos, principalmente atrav\u00e9s das disposi\u00e7\u00f5es e afirma\u00e7\u00f5es frutos dos Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Antigas vers\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo termo <em>vers\u00f5es<\/em> se designam as diversas formas em que a Sagrada Escritura foi divulgada ao longo dos s\u00e9culos, tanto em l\u00ednguas originais como nas diversas tradu\u00e7\u00f5es que foram feitas. \u00c9 poss\u00edvel, ent\u00e3o, que v\u00e1rias vers\u00f5es tenham tido origem em uma mesma tradu\u00e7\u00e3o e que diversas tradu\u00e7\u00f5es tenham sido realizadas a partir de uma vers\u00e3o. Disso resultam as fam\u00edlias textuais da Sagrada Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>6.1 A vers\u00e3o aramaica<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros sagrados foram escritos em hebraico e assim eram lidos nas assembleias lit\u00fargicas, mas o povo, ap\u00f3s o ex\u00edlio na Babil\u00f4nia, adotara o aramaico como l\u00edngua falada e escrita, por ser a l\u00edngua internacional usada pelos dominadores persas. Desse fato resultou a necessidade dos \u201ctradutores\u201d interpretarem para o aramaico o que fora lido em hebraico. Quando se tratava de um texto da Tor\u00e1, a tradu\u00e7\u00e3o era feita a cada vers\u00edculo. Quando se tratava de um texto prof\u00e9tico, a tradu\u00e7\u00e3o era feita a cada tr\u00eas vers\u00edculos. \u00c9 poss\u00edvel dizer que esse procedimento sinagogal foi um real trabalho de tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea j\u00e1 na antiguidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De in\u00edcio, essa tradu\u00e7\u00e3o foi somente oral, mas a partir do s\u00e9culo I a.C. come\u00e7ou a ser feita tamb\u00e9m por escrito, originando a vers\u00e3o targ\u00famica da Sagrada Escritura. Existem livros em aramaico de quase toda a TaNak, salvo dos livros de Esdras, Neemias e de Daniel. Quando os targumim s\u00e3o comparados com o Texto Massor\u00e9tico, reproduzido no C\u00f3dice de Leningrado, notam-se algumas diferen\u00e7as. Essas s\u00e3o explicadas, na maioria das vezes, levando-se em considera\u00e7\u00e3o que na base dos targumim estaria um texto hebraico consonantal anterior ao que se tornou normativo a partir de J\u00e2mnia, e porque a tradu\u00e7\u00e3o em aramaico era livre e de cunho explicativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>6.2 A vers\u00e3o grega<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do s\u00e9culo III aC, os judeus da di\u00e1spora que passaram a viver em Alexandria, no Egito, preocupados com a transmiss\u00e3o da f\u00e9 e dos costumes judaicos aos filhos que nasciam em terras dominadas pelo helenismo e incentivados pelo rei Ptolomeu II, come\u00e7aram um trabalho de tradu\u00e7\u00e3o, da Tor\u00e1 para o grego, de um texto hebraico consonantal denominado pelos estudiosos de Protomassor\u00e9tico. Uma antiga lenda conta que setenta anci\u00e3os judeus de Alexandria foram escolhidos e designados para realizar essa tradu\u00e7\u00e3o. Disso resultar\u00e1 a denomina\u00e7\u00e3o Septuaginta para a vers\u00e3o grega da B\u00edblia Hebraica. Ap\u00f3s a tradu\u00e7\u00e3o da Tor\u00e1, o trabalho continuou e no final do s\u00e9culo I aC todos os livros estavam traduzidos. Outros tamb\u00e9m surgiram em l\u00edngua grega, mais tarde, e n\u00e3o foram aceitos pelos judeus de J\u00e2mnia, mas alguns foram adotados pelos crist\u00e3os. Dentre esses est\u00e3o os deuterocan\u00f4nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A LXX foi fundamental para a expans\u00e3o do cristianismo fora da Palestina, visto que o hebraico e o aramaico circunscreviam as Sagradas Escrituras somente aos judeus. Gra\u00e7as ao grego, adotado como l\u00edngua cultural no vasto Imp\u00e9rio Romano, a campanha mission\u00e1ria crist\u00e3, muito favorecida pelo ap\u00f3stolo Paulo, pode, em primeiro lugar, tornar as Sagradas Escrituras dos judeus conhecidas e, em segundo lugar, favorecer o surgimento dos escritos que comporiam o futuro c\u00e2non do Novo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>6.3 As vers\u00f5es latinas<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante o grego fosse uma l\u00edngua muito apreciada, o latim tamb\u00e9m tinha uma for\u00e7a muito grande, principalmente por sua valoriza\u00e7\u00e3o por poetas e escritores como Virg\u00edlio, C\u00edcero, Hor\u00e1cio e Ov\u00eddio. Com a simpatia do Imperador Constantino pelo cristianismo, pois a sua real convers\u00e3o, ao que tudo indica, aconteceu pouco antes da sua morte, e a proclama\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o crist\u00e3 como oficial de todo o Imp\u00e9rio Romano pelo imperador Teod\u00f3sio, houve uma intensa populariza\u00e7\u00e3o do cristianismo, que ocasionou a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para o latim. V\u00e1rias vers\u00f5es surgiram, mas a mais importante foi a Vetus Latina, que esteve muito em voga no Norte da \u00c1frica, visto que o latim era a l\u00edngua mais popular. A Vetus Latina foi, provavelmente, a B\u00edblia de Santo Agostinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo IV dC, S\u00e3o Jer\u00f4nimo recebeu e acolheu a solicita\u00e7\u00e3o do Papa D\u00e2maso I para que revisse a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para o latim, pois havia uma grande circula\u00e7\u00e3o de vers\u00f5es discordantes. A obra empreendida por S\u00e3o Jer\u00f4nimo ficou conhecida como Vulgata, cuja sigla \u00e9 Vg. Esta tradu\u00e7\u00e3o, inicialmente, n\u00e3o teve o mesmo impacto da Vetus Latina e somente foi adotada como vers\u00e3o oficial da Igreja Cat\u00f3lica Ocidental (Romana) durante o Conc\u00edlio de Trento (1545-1563). A sua impress\u00e3o foi patrocinada pelo Papas Sisto V e Clemente VI, raz\u00e3o pela qual passou a ser conhecida como Vulgata sisto-clementina. Duas revis\u00f5es foram feitas ap\u00f3s o Conc\u00edlio Vaticano II (1963-1965), uma promovida pelo Papa Paulo VI e outra por s\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, ambas encomendadas aos monges da Abadia de S\u00e3o Jer\u00f4nimo em Roma, e a nova publica\u00e7\u00e3o, levando em conta as pesquisas b\u00edblicas recentes e uma maior aproxima\u00e7\u00e3o do hebraico, aramaico e grego, passou a se chamar Nova Vulgata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>6.4 Outras vers\u00f5es antigas<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das tradu\u00e7\u00f5es gregas e latinas, outras vers\u00f5es, totais ou parciais, surgiram nos primeiros s\u00e9culos do cristianismo em l\u00edngua sir\u00edaca (peshita), eg\u00edpcia (copta), armena etc., que ainda est\u00e3o em uso na liturgia desses ramos do cristianismo ortodoxo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 Vers\u00f5es modernas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As vers\u00f5es parciais ou totais da B\u00edblia multiplicaram-se, nos \u00faltimos cinco s\u00e9culos, em um incont\u00e1vel n\u00famero de novas \u201cvulgatas\u201d, em l\u00ednguas germ\u00e2nica e anglo-sax\u00f4nicas: alem\u00e3o e ingl\u00eas; e em l\u00ednguas neolatinas: italiano, franc\u00eas, espanhol, portugu\u00eas etc. As vers\u00f5es elaboradas por protestantes sa\u00edram na frente e somente com o Papa Bento XIV (1757) \u00e9 que as vers\u00f5es cat\u00f3licas, tendo a Vulgata por texto oficial, come\u00e7aram a aparecer com mais frequ\u00eancia e sempre sob aprova\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9 ou, fora da Urbe, sob a constante vigil\u00e2ncia dos Bispos. Tanto o antigo C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico de 1917 (c\u00e2n.1391), como o novo C\u00f3digo de 1983 (c\u00e2n.825) regulamentaram as tradu\u00e7\u00f5es que, sem d\u00favida alguma, ganharam grandes est\u00edmulos no Conc\u00edlio Vaticano II, na <em>Dei Verbum <\/em>n.22.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ponto, ser\u00e3o citadas, apenas, as de maior relev\u00e2ncia e que tiveram maior impacto. Em alem\u00e3o, a mais famosa \u00e9 a vers\u00e3o de Lutero, que foi a primeira a ser traduzida levando em conta as l\u00ednguas originais. Na verdade, essa vers\u00e3o acabou por se tornar o par\u00e2metro de unifica\u00e7\u00e3o para a futura l\u00edngua alem\u00e3 oficial, visto que eram muitos os dialetos. Lutero n\u00e3o descuidou na sua tradu\u00e7\u00e3o, buscando sempre a palavra mais adequada, e teve presente tanto a Vulgata como os coment\u00e1rios patr\u00edsticos de sua \u00e9poca. Ele usou para o Antigo Testamento a vers\u00e3o latina do texto hebraico feito por Sante Pagnini, que o dividiu em vers\u00edculos, serviu-se inclusive da ajuda de judeus, e da edi\u00e7\u00e3o de Erasmo da Septuaginta para o Novo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da parte cat\u00f3lica, dentre as v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es, duas foram muito apreciadas: a editada por Weitenauer (Augsburg, 1783-1789) e a de Loch \u2013 Reischl (1851-1866), a partir da Vulgata, mas munida de um aparato cr\u00edtico, levando em conta as variantes do hebraico e do grego. Em 1972, para o Novo Testamento, e em 1974, para o Antigo Testamento, surgiu uma edi\u00e7\u00e3o conjunta da B\u00edblia, envolvendo os bispos da Alemanha, \u00c1ustria, Su\u00ed\u00e7a, Luxemburgo e L\u00fcttich. Em 1980, essa edi\u00e7\u00e3o sofreu uma revis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em anglo-sax\u00f4nico, as vers\u00f5es mais conhecidas e difundidas s\u00e3o a King James\u2019 Bible (1604), encomendada pelo rei anglicano James; a Authorized Version (1607-1611); a Standard Version (1881, para o NT, e 1884, parra o AT); a American Standard Version (1900-1901); a Revised Standard Version (1946-1957); a New English Bible (1961-1970), fruto desejado de uma reuni\u00e3o da principais Igrejas protestantes; e a Good News Bible, que foi publicada em 1976, tanto em Londres como em Nova York.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em italiano, antes do Conc\u00edlio de Trento, surgiram a Bibbia di Nicol\u00f2 Malermi e a tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Brucioli, feita a partir das l\u00ednguas originais. A vers\u00e3o italiana da Vulgata foi obra de Antonio Martini, em 23 volumes. Entre 1923-1958, surgiu uma tradu\u00e7\u00e3o em italiano, editada por Alberto Vaccari e colaboradores do Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico, a partir das l\u00ednguas originais, com notas de cr\u00edtica textual e coment\u00e1rio. A partir de 1943, ano da publica\u00e7\u00e3o da Enc\u00edclica <em>Divino afflante Spiritu<\/em>, de Pio XIII, surgiram a La Sacra Bibbia, obra organizada por Garofalo e Rinaldi, e um grande n\u00famero de novas vers\u00f5es com coment\u00e1rios cient\u00edficos, dentre as quais destaca-se a Nuovissima versione della Bibbia em 46 volumes, que, em 1983, foi reunida em um \u00fanico volume. Muitas outras poderiam ser citadas, um destaque, por\u00e9m, vai para a Bibbia di Gerusalemme (1974; 1993), que traz o texto oficial da Confer\u00eancia Episcopal Italiana, Bibbia CEI (1974), com as notas da Bible de J\u00e9rusalem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em franc\u00eas, a primeira vers\u00e3o completa foi a Bible de Sainte Louis IX, do s\u00e9culo XIII, traduzida do latim. Em 1535, um primo de Calvino, Olivetano publicou uma tradu\u00e7\u00e3o a partir dos originais e que serviu de base para futuras vers\u00f5es protestantes at\u00e9 o s\u00e9culo XIX. A tr\u00eas vers\u00f5es completas mais importantes foram a Bible de J\u00e9rusalem que, inicialmente, surgiu em 43 volumes (1948-1952) e, depois, em um \u00fanico volume (1956); a Bible de La Pl\u00e9iade, organizada por Dhorme (1956-1959); e a Sainte Bible, dirigida por Pirot e Clamer (1935-1959). Enfim, a Traduction Oecum\u00e9nique de la Bible (TOB), fruto da colabora\u00e7\u00e3o de cat\u00f3licos e protestantes que apareceu em 1975 e foi revista em 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em espanhol, houve vers\u00f5es parciais anteriores ao Conc\u00edlio de Trento, mas por causa da Inquisi\u00e7\u00e3o espanhola as publica\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas e a leitura da B\u00edblia foram proibidas em l\u00edngua vulgar. Essa situa\u00e7\u00e3o durou at\u00e9 1780. Em contrapartida, entre os judeus e os protestantes a hist\u00f3ria foi diferente e surgiram a Biblia de los Hebreus ou del Ferrara e a Biblia del Oso, que foi a primeira vers\u00e3o completa em espanhol (1567-1569) e foi traduzida diretamente da vers\u00e3o hebraica de Sainte Pagnini e, linguisticamente, supera a Biblia del Ferrara. No s\u00e9culo XX, surgem a edi\u00e7\u00e3o organizada por Nacar\u2013Colunga em Madrid (1944 e revista em 1968); a edi\u00e7\u00e3o de Bover\u2013Cantera, tamb\u00e9m em Madrid (1947 e revista em 1962); e a Sagrada Biblia de Cantera\u2013Iglesias, que \u00e9 uma vers\u00e3o cr\u00edtica feita a partir das l\u00ednguas originais (1975). De grande valor liter\u00e1rio \u00e9 a Biblia del Peregrino, em 3 volumes, dirigida por Alonso Sch\u00f6kel (1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Am\u00e9rica Latina, a vers\u00e3o cat\u00f3lica mais difundida \u00e9 a La Biblia Latinoamericana conhecida tamb\u00e9m por <em>La Biblia de Nuestro Pueblo<\/em> ou <em>La Nueva Biblia<\/em> &#8211; <em>Edici\u00f3n Pastoral para Latinoam\u00e9rica<\/em>, que foi feita no Chile a partir das l\u00ednguas originais. Foi obra de Bernardo Hurault, publicada na Espanha em 1972, por motivos econ\u00f4micos, pela Editorial Verbo Divino. Em 2004, uma nova edi\u00e7\u00e3o revisada foi publicada em conjunto pela San Pablo e Editorial Verbo Divino. Desde a segunda metade do s\u00e9culo passado, houve tamb\u00e9m grande circula\u00e7\u00e3o da B\u00edblia de Jerusal\u00e9m em espanhol. A entrada da B\u00edblia na Am\u00e9rica Latina de l\u00edngua espanhola deve-se, por\u00e9m, \u00e0 Sociedade B\u00edblica Brit\u00e2nica e Estrangeira que fez chegar os primeiros exemplares na Argentina e no Uruguai em 1806.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em portugu\u00eas, houve, desde antes do Conc\u00edlio de Trento, v\u00e1rias iniciativas de tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, mas nunca chegaram a uma edi\u00e7\u00e3o completa em Portugal. Jo\u00e3o Ferreira de Almeida foi o primeiro a traduzir a B\u00edblia para a l\u00edngua portuguesa, e o fez a partir das l\u00ednguas originais, come\u00e7ando pelo Novo Testamento e usando o <em>Textus Receptus<\/em>. Almeida n\u00e3o conseguiu traduzir todo o Antigo Testamento. Em 1691, ano de sua morte, tinha conseguido chegar at\u00e9 Ez 48,12. A tradu\u00e7\u00e3o foi completada por Jacobus van den Akker em 1694. Em tom comparativo, pode-se dizer: o que a tradu\u00e7\u00e3o de Lutero foi para o alem\u00e3o, a tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Ferreira representou para o portugu\u00eas. Nos \u00faltimos trinta anos, a tradu\u00e7\u00e3o do Almeida, como \u00e9 mais conhecida, recebeu v\u00e1rias revis\u00f5es, dando origem a novas edi\u00e7\u00f5es: Almeida Corrigida Fiel; Almeida Revista e Atualizada; Almeida Revista e Corrigida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da tradu\u00e7\u00e3o do Almeida, a tradu\u00e7\u00e3o do padre Ant\u00f4nio Pereira de Figueiredo tamb\u00e9m obteve grande aceita\u00e7\u00e3o. Entre 1778-1781 publicou, em 6 volumes, o Novo Testamento. Entre 1782-1790, em 17 volumes, publicou o Antigo Testamento. Em 1819, foi publicada uma vers\u00e3o em 7 volumes, e em um \u00fanico volume em 1821.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a primeira tradu\u00e7\u00e3o completa da B\u00edblia, erudita nas suas caracter\u00edsticas e bem literal a partir das l\u00ednguas originais, surgiu em 1917; contou n\u00e3o somente com a participa\u00e7\u00e3o de te\u00f3logos, mas com a revis\u00e3o lingu\u00edstica e liter\u00e1ria de Ruy Barbosa. Entre 1950 e 1990, a Editora Paulinas publicou a vers\u00e3o do padre portugu\u00eas Mattos Soares que traduziu diretamente da Vulgata, na d\u00e9cada de 1930. Em 1976, surgiu, baseada na vers\u00e3o francesa, a edi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia de Jerusal\u00e9m pela Editora Paulinas, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de muitos especialistas. Em 2002, j\u00e1 pela Paulus, surgiu a nova edi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia de Jerusal\u00e9m, revista e ampliada. A B\u00edblia Sagrada editada pelas Vozes, e sob a coordena\u00e7\u00e3o geral de Ludovico Garmus, contou com v\u00e1rios biblistas e foi publicada, a partir das l\u00ednguas originais, em 1982. Neste mesmo ano, tamb\u00e9m foi publicada uma B\u00edblia Sagrada pela Editora Santu\u00e1rio e, no ano seguinte, a B\u00edblia Mensagem de Deus, publicada pela Loyola. Em 1990, sob a coordena\u00e7\u00e3o de Ivo Storniolo, foi publicada a B\u00edblia Sagrada Edi\u00e7\u00e3o Pastoral, visando mais aos leigos e que acaba de ser reeditada (2014): Nova B\u00edblia Pastoral. Enfim, para comemorar o jubileu de ouro da CNBB, em 2001 foi publicada a B\u00edblia CNBB; est\u00e1 em andamento a sua revis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>8 Obje\u00e7\u00f5es \u00e0 B\u00edblia e Ci\u00eancias Humanas<\/strong><\/p>\n<p>A B\u00edblia recebe o maior n\u00famero de obje\u00e7\u00f5es dos meios cient\u00edficos ligados \u00e0 Hist\u00f3ria, \u00e0 Arqueologia e \u00e0s Ci\u00eancias Naturais. A juventude, por ter maior acesso aos estudos, \u00e9 a mais influenciada e disposta a erguer bandeiras, quando se depara com docentes capazes de apresentar crit\u00e9rios e argumentos que, \u00e0 primeira vista, parecem irrefut\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o raro, escutam-se questionamentos, posicionamentos e coment\u00e1rios oriundos tanto dos meios acad\u00eamicos, quanto tamb\u00e9m dos populares, do tipo: \u201cA B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 uma fonte confi\u00e1vel de hist\u00f3ria e para a hist\u00f3ria\u201d, in\u00fameros estudos derivados da Arqueologia e da Hist\u00f3ria comparada das religi\u00f5es comprovam isso; ou \u201cA B\u00edblia n\u00e3o diz a verdade, porque as Ci\u00eancias Naturais contradizem as suas afirma\u00e7\u00f5es, principalmente quanto \u00e0 origem e \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do universo e das formas de vida, em particular a humana, sobre o planeta terra\u201d. A discuss\u00e3o, ent\u00e3o, passa a oscilar entre mito e verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na base das afirma\u00e7\u00f5es est\u00e3o, sem d\u00favida, certezas de ordem cient\u00edfica, mas tamb\u00e9m est\u00e3o preconceitos ou falta de informa\u00e7\u00e3o sobre a natureza da B\u00edblia. Some-se a isso a dicotomia que permeia muitos espa\u00e7os humanos colocando em conflito a f\u00e9 e a raz\u00e3o. Por um lado, se encontram os defensores fide\u00edstas e fundamentalistas das verdades b\u00edblicas, que ignoram os postulados da Ci\u00eancia. Por outro lado, se encontram os defensores das posi\u00e7\u00f5es racionalistas, iluministas e positivistas, que ignoram os v\u00e1rios sentidos contidos nos textos b\u00edblicos. Para esses, a \u00fanica verdade que existe e deve ser aceita \u00e9 a verificada, que deriva da comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com base na repeti\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias. Em muitos casos, os dois grupos se \u201cexcomungam\u201d reciprocamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante desse impasse, ent\u00e3o, \u00e9 importante que se fa\u00e7a uma distin\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 natureza dos textos b\u00edblicos e os objetos de estudo das ci\u00eancias. Assim, \u00e9 poss\u00edvel conceder, em parte, a raz\u00e3o para ambos os lados, desde que haja o m\u00fatuo interesse em se buscar uma posi\u00e7\u00e3o equilibrada e capaz de gerar di\u00e1logos prof\u00edcuos, nos quais s\u00e3o respeitadas as compet\u00eancias. Para que isso aconte\u00e7a de maneira oportuna e eficaz, faz-se igualmente necess\u00e1rio que as verdades b\u00edblicas e as verdades cient\u00edficas n\u00e3o sejam colocadas no mesmo n\u00edvel e sobre os mesmos patamares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o horizonte da Ci\u00eancia \u00e9 o desconhecido e o ainda n\u00e3o solucionado \u2013 por exemplo, quanto \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e a compreens\u00e3o da antimat\u00e9ria do universo, por certo, em expans\u00e3o \u2013 o horizonte da B\u00edblia \u00e9 o ser humano direcionado para a harmonia do seu ser e da busca da felicidade. Quando os dois horizontes se alinham e n\u00e3o se ofuscam, como em um eclipse, s\u00e3o superadas as incertezas e iluminadas obscuridades da hist\u00f3ria do saber humano, e projeta-se luz sobre as realidades inacess\u00edveis \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fim de facilitar esse di\u00e1logo, j\u00e1 desde o s\u00e9culo XIX os estudiosos da B\u00edblia viram a necessidade de se aplicar aos textos metodologias e abordagens cient\u00edficas, para alcan\u00e7ar resultados mais convincentes quanto \u00e0 teologia e \u00e0 mensagem neles contidas. O principal foi o M\u00e9todo Hist\u00f3rico-Cr\u00edtico, de \u00edndole diacr\u00f4nica, que foi assumido dos c\u00edrculos filos\u00f3ficos preocupados em estabelecer os textos originais dos fil\u00f3sofos da antiguidade. Esse m\u00e9todo re\u00fane uma s\u00e9rie de procedimentos liter\u00e1rios, com a pretens\u00e3o de alcan\u00e7ar a g\u00eanese e os processos hist\u00f3ricos existentes por detr\u00e1s dos textos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, apesar de muitos frutos obtidos, essa metodologia recebeu fortes cr\u00edticas, porque sozinha n\u00e3o consegue dar conta de toda a problem\u00e1tica e riqueza encerradas nos textos b\u00edblicos. Ao lado dessa constata\u00e7\u00e3o, os resultados obtidos s\u00e3o, em muitos casos, at\u00e9 contradit\u00f3rios, colocando as verdades encontradas como alvo de relevantes questionamentos. Isso fez surgir, no mundo exeg\u00e9tico-teol\u00f3gico, novas abordagens e metodologias, n\u00e3o menos rigorosas e de \u00edndole mais sincr\u00f4nica, bem mais preocupadas e focadas na B\u00edblia como literatura, mostrando que seus autores e suas reflex\u00f5es estavam plenamente inseridos no contexto do Antigo Oriente Pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><em>Leonardo Agostini Fernandes,\u00a0<\/em>PUC-Rio, Brasil. Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>9 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALONSO SCH\u00d6KEL, L. <em>A Palavra Inspirada<\/em>. A B\u00edblia \u00e0 luz da ci\u00eancia da linguagem. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">APARICIO VALLS, M. C.; PI\u00c9-NINOT, S. (org.). <em>Commento alla Verbum Domini. <\/em>Roma: Gregorian &amp; Biblical Press, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">APARICIO VALLS, M. 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S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VAZ, A. S. Depois das antigas tradu\u00e7\u00f5es da B\u00edblia. In: <em>Didaskalia. <\/em>v.XLIV, p.57-103. 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VV.AA. Dei Verbum: La Bibbia nella Chiesa. In: <em>Parola, Spirito e Vita<\/em>. n.58. 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Revela\u00e7\u00e3o 2 Inspira\u00e7\u00e3o 3 Inerr\u00e2ncia e Veracidade 4 L\u00ednguas b\u00edblicas 5 Forma\u00e7\u00e3o do C\u00e2non 6.1 Antigas vers\u00f5es 6.2 A vers\u00e3o aramaica 6.3 A vers\u00e3o grega 6.4 As vers\u00f5es latinas 6.5 Outras vers\u00f5es antigas 7 Vers\u00f5es modernas 8 Obje\u00e7\u00f5es \u00e0 B\u00edblia e Ci\u00eancias Humanas 9 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas Este verbete envolve o percurso e a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-169","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/169","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=169"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1207,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/169\/revisions\/1207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}