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{"id":1658,"date":"2018-12-24T15:23:06","date_gmt":"2018-12-24T17:23:06","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1658"},"modified":"2018-12-24T15:23:06","modified_gmt":"2018-12-24T17:23:06","slug":"teologia-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1658","title":{"rendered":"Teologia Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Express\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.1 Origem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.2 Ambiguidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1.3 Delimita\u00e7\u00e3o de enfoque<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Abordagem teol\u00f3gica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 Panorama hist\u00f3rico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1.1 Antiga teologia pol\u00edtica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1.1 Nova teologia pol\u00edtica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 Caracter\u00edsticas fundamentais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2.1 Fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e criativa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2.2 Teologia Fundamental Pr\u00e1tica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2.3 Autoridade das v\u00edtimas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Relev\u00e2ncia e limites<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Express\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conv\u00e9m come\u00e7ar fazendo algumas considera\u00e7\u00f5es acerca da express\u00e3o \u201cTeologia Pol\u00edtica\u201d (TP), pois ela nem surgiu nem foi utilizada sempre em contexto teol\u00f3gico-crist\u00e3o e seu desenvolvimento propriamente teol\u00f3gico nem sempre foi expresso nesses termos. Da\u00ed a import\u00e2ncia de indicarmos sua origem e as perspectivas em que foi desenvolvida e delimitarmos o enfoque de nossa abordagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.1 Origem<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o TP n\u00e3o surgiu em ambiente crist\u00e3o e, na verdade, s\u00f3 na segunda metade do s\u00e9culo XX foi assumida e desenvolvida em sentido estritamente teol\u00f3gico-crist\u00e3o. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o tenha havido uma teologia pol\u00edtica ou uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre a dimens\u00e3o e as realidades pol\u00edticas ao longo da hist\u00f3ria do cristianismo. Pelo contr\u00e1rio. Mas essa reflex\u00e3o n\u00e3o foi formulada at\u00e9 recentemente em termos de TP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora chegue a n\u00f3s atrav\u00e9s de Agostinho em sua obra <em>A cidade de Deus<\/em>, a express\u00e3o TP remete \u00e0 distin\u00e7\u00e3o estoica dos tr\u00eas g\u00eaneros ou tipos de teologia: m\u00edtica, f\u00edsica e pol\u00edtica ou civil. Isso j\u00e1 aparece no m\u00e9dio estoicismo de Pan\u00e9cio de Rodes (+ 100? aC) e se consolida no ambiente cultural romano com Marcos Var\u00e3o (+ 27 aC). Em sua obra enciclop\u00e9dica <em>De Antiquitatibus<\/em>, citada por Agostinho, Var\u00e3o explica esses tr\u00eas g\u00eaneros de teologia: \u201cChamam-no m\u00edtico porque usado principalmente pelos poetas, f\u00edsico, porque o manuseiam os fil\u00f3sofos, e civil, porque o empregam os povos\u201d. Segundo ele, \u201ca primeira teologia \u00e9 principalmente pr\u00f3pria ao teatro, a segunda, ao mundo, a terceira, \u00e0s cidades\u201d. A teologia pol\u00edtica ou civil, diz Var\u00e3o, \u00e9 aquela que \u201cos cidad\u00e3os e de modo especial os sacerdotes devem conhecer e p\u00f4r em pr\u00e1tica nas urbes. Nela se acha a que deuses se h\u00e1 de render culto p\u00fablico e a que ritos e sacrif\u00edcios est\u00e1 cada qual obrigado\u201d (AGOSTINHO, 2016, p. 251-253).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 importante atentar aqui para duas quest\u00f5es que marcar\u00e3o decisivamente a hist\u00f3ria da express\u00e3o TP. Em primeiro lugar, ela aparece em contexto filos\u00f3fico-pol\u00edtico como uma teologia subordinada e a servi\u00e7o do Estado: controlada pelos agentes do Estado e com a fun\u00e7\u00e3o de sua legitima\u00e7\u00e3o ou justifica\u00e7\u00e3o religiosa. Em segundo lugar, ela aparece em conflito com a doutrina crist\u00e3. Agostinho retoma a distin\u00e7\u00e3o estoica num tom claramente pol\u00eamico e de reprova\u00e7\u00e3o como se pode ver nos livros VI a VIII da obra <em>A cidade de Deus<\/em>. N\u00e3o por acaso, a express\u00e3o TP \u00e9 recordada na Idade M\u00e9dia apenas como \u201cum dos muitos erros do paganismo\u201d (SCATTOLA, 2009, p. 20). E, embora seja utilizada nos s\u00e9culos XVI e XVII para \u201cindicar as mat\u00e9rias comuns \u00e0 administra\u00e7\u00e3o religiosa e pol\u00edtica\u201d, referindo-se \u201ca um dos v\u00e1rios campos de a\u00e7\u00e3o da autoridade do pr\u00edncipe\u201d (SCATTOLA, 2009, p. 21), s\u00f3 ser\u00e1 retomada e desenvolvida de modo positivo a partir do s\u00e9culo XIX em ambientes cat\u00f3licos conservadores e contrarrevolucion\u00e1rios (Bonald, De Maistre, Cort\u00e9s, Schmitt etc.) e, em sentido contr\u00e1rio e agora estritamente teol\u00f3gico, na segunda metade do s\u00e9culo XX com a \u201cnova teologia pol\u00edtica\u201d (Metz, Moltmann, S\u00f6lle etc.) (cf. SCATTOLA, 2009, p. 34-40).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.2 Ambiguidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do car\u00e1ter controvertido da express\u00e3o TP na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 desde os primeiros s\u00e9culos, h\u00e1 uma ambiguidade que diz respeito ao pr\u00f3prio estatuto te\u00f3rico dessa express\u00e3o. \u00c9 que ela nem nasceu nem foi desenvolvida em ambiente crist\u00e3o e, conforme j\u00e1 indicamos, s\u00f3 na segunda metade do s\u00e9culo XX foi desenvolvida em sentido estritamente teol\u00f3gico. Nasceu no \u00e2mbito da filosofia estoica, foi assumida no \u00e2mbito jur\u00eddico, retomada no contexto da filosofia e das ci\u00eancias pol\u00edticas modernas e, finalmente, no \u00e2mbito da teologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ambiguidade, aqui, diz respeito ao fato da express\u00e3o TP se referir \u00e0 teologia, mas ser desenvolvida, sobretudo, filos\u00f3fica, jur\u00eddica, social e politicamente. Na verdade, a express\u00e3o diz respeito muito mais \u00e0 rela\u00e7\u00e3o religi\u00e3o-pol\u00edtica considerada pela filosofia e\/ou por outras ci\u00eancias que \u00e0 teologia em sentido estrito enquanto <em>intellectus fidei<\/em>. Sem falar que a reflex\u00e3o propriamente teol\u00f3gica sobre a rela\u00e7\u00e3o religi\u00e3o-pol\u00edtica, a modo de justifica\u00e7\u00e3o ou de cr\u00edtica, foi desenvolvida ao longo de hist\u00f3ria em outros termos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>1.3 Delimita\u00e7\u00e3o de enfoque<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ambiguidade te\u00f3rica da express\u00e3o TP exige de n\u00f3s uma delimita\u00e7\u00e3o clara de nossa abordagem. N\u00e3o vamos tratar dos diversos enfoques da rela\u00e7\u00e3o religi\u00e3o-pol\u00edtica que subjazem \u00e0 express\u00e3o TP. Uma vis\u00e3o panor\u00e2mica nessa dire\u00e7\u00e3o pode ser encontrada na obra j\u00e1 referida de Merio Scattola (2009), <em>Teologia Pol\u00edtica<\/em>, em que, numa vis\u00e3o diacr\u00f4nica que justap\u00f5e e inter-relaciona perspectivas te\u00f3ricas distintas, esbo\u00e7a a problem\u00e1tica da rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica no Ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa abordagem da TP ser\u00e1 de ordem estritamente teol\u00f3gica, o que, embora n\u00e3o possa deixar de se referir e mesmo de se enraizar na hist\u00f3ria da teologia, \u00e9 muito recente: nasce e se desenvolve na Alemanha na segunda metade do s\u00e9culo XX. \u00c9 verdade, como j\u00e1 advertimos, que a reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre a dimens\u00e3o e as realidades pol\u00edticas \u00e9 t\u00e3o antiga como o cristianismo. Mas s\u00f3 recentemente isso foi formulado e desenvolvido explicitamente em termos de TP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Abordagem teol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento estritamente teol\u00f3gico de uma TP na segunda metade do s\u00e9culo XX est\u00e1 ligado a nomes como J\u00fcrgen Moltmann (cf. MOLTMANN, 2011, p. 389-418; 2004, p. 102-105), Dorothee S\u00f6lle (cf. S\u00d6LLE, 1982) e, sobretudo, Johann Baptist Metz (cf. METZ, 1997). \u00c9 com eles que a express\u00e3o TP adquire estatuto teol\u00f3gico e marca uma nova etapa na teologia europeia, caracterizada pela passagem de uma perspectiva de cunho transcendental-personalista-existencial para uma perspectiva marcadamente social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para uma melhor compreens\u00e3o desse movimento teol\u00f3gico que teve uma import\u00e2ncia muito grande no processo de renova\u00e7\u00e3o da teologia europeia em di\u00e1logo com o mundo moderno, bem como na teologia latino-americana que come\u00e7ava a despontar, conv\u00e9m fazer algumas considera\u00e7\u00f5es de ordem hist\u00f3rica e indicar suas principais caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 Panorama hist\u00f3rico<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de tudo, \u00e9 importante situar esse movimento teol\u00f3gico no contexto mais amplo da teologia, particularmente no que diz respeito \u00e0 problem\u00e1tica religi\u00e3o-pol\u00edtica e \u00e0 pr\u00f3pria express\u00e3o TP. Ali\u00e1s, esse foi um dos primeiros desafios com que Metz teve que se confrontar. \u00c9 que a express\u00e3o TP, com a qual ele designava sua perspectiva e seu projeto teol\u00f3gicos, tem uma hist\u00f3ria muito controvertida que remetia \u00e0 teologia pol\u00edtica ou civil dos estoicos, ao cristianismo constantiniano e, mais proximamente, \u00e0s discuss\u00f5es e controv\u00e9rsias entre Carl Schmitt (SCHMITT, s\/d) e Erik Peterson (PETERSON, 1999) na primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para livrar-se dessa carga hist\u00f3rica controvertida e demarcar as fronteiras de seu projeto teol\u00f3gico, Metz fala de \u201cnova teologia pol\u00edtica\u201d em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cantiga teologia pol\u00edtica\u201d estoica e constantiniana (cf. METZ, 1997, p. 34-43; 2006, 252-257; 2013, p. 33-37; MOLTMANN, 2004, p.105). Certamente, n\u00e3o pretende nem chega a fazer um estudo exaustivo sobre a chamada \u201cantiga teologia pol\u00edtica\u201d. Seu interesse \u00e9 explicitar seu projeto teol\u00f3gico. Nesse sentido, a contraposi\u00e7\u00e3o \u201cantiga\u201d X \u201cnova\u201d tem um car\u00e1ter did\u00e1tico: a express\u00e3o \u201cantiga TP\u201d desempenha uma fun\u00e7\u00e3o negativa (dizer o que n\u00e3o \u00e9) em seu esfor\u00e7o de explicitar positivamente a \u201cnova TP\u201d (dizer o que \u00e9 ou em que consiste). E acabou se tornando um recurso did\u00e1tico muito utilizado na apresenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-sistem\u00e1tica de seu projeto teol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1.1 \u201cAntiga teologia pol\u00edtica\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cantiga teologia pol\u00edtica\u201d \u00e9 tomada num sentido cr\u00edtico-pejorativo e remete tanto \u00e0 TP estoica quanto \u00e0s diferentes formas de constantinismo ou instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do cristianismo ao longo da hist\u00f3ria. Abrange um longo per\u00edodo que vai \u201cdo estoicismo at\u00e9 Carl Schmitt e seus desdobramentos no s\u00e9culo XX\u201d (METZ, 2013, p. 33). Essa compreens\u00e3o abrangente, gen\u00e9rica e negativa da \u201cantiga TP\u201d tem o m\u00e9rito de destacar seu car\u00e1ter conservador e ideol\u00f3gico e de demarcar fronteiras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cnova TP\u201d. Mas tem uma dupla limita\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Por um lado, ignora e ofusca as diferentes perspectivas com que a rela\u00e7\u00e3o religi\u00e3o-pol\u00edtica \u00e9 tratada ao nomear com a mesma express\u00e3o abordagens de ordem filos\u00f3fica, jur\u00eddica, sociopol\u00edtica e teol\u00f3gica. Por outro lado, simplifica a problem\u00e1tica como se toda abordagem (tamb\u00e9m teol\u00f3gica) da rela\u00e7\u00e3o religi\u00e3o-pol\u00edtica anterior tivesse sido de cunho conservador-ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a quest\u00e3o \u00e9 muito mais complexa do que parece. Do ponto de vista estritamente teol\u00f3gico, \u00e9 preciso reconhecer que a abordagem da rela\u00e7\u00e3o religi\u00e3o-pol\u00edtica nem sempre se deu a modo de instrumentaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do cristianismo em fun\u00e7\u00e3o do Estado e\/ou da conserva\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em>. Para al\u00e9m do uso da express\u00e3o TP, a abordagem teol\u00f3gica da pol\u00edtica se deu tanto a modo de legitima\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o, quanto a modo de cr\u00edtica ou pelo menos de n\u00e3o subordina\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Peterson, em confronto com Schmitt, ao tentar provar \u201ca impossibilidade teol\u00f3gica de uma \u2018teologia pol\u00edtica\u2019\u201d (PETERSON, 1999, p. 123), contrap\u00f5e Agostinho a Eus\u00e9bio de Cesareia (cf. PETERSON, 1999, p. 93-95) e, assim, acaba indicando, ainda que de modo apolog\u00e9tico e um tanto simplista, duas perspectivas distintas de abordagem teol\u00f3gica da pol\u00edtica ou, se quiser, de TP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Eus\u00e9bio \u00e9 contado entre os \u201cte\u00f3logos da corte bizantina\u201d (PETERSON, 1999, p. 93) e apresentado como uma esp\u00e9cie de \u201cpublicista pol\u00edtico\u201d (PETERSON, 1999, p. 82) que refor\u00e7a a ideia j\u00e1 difundida de que \u201ca miss\u00e3o apost\u00f3lica foi facilitada pelo imp\u00e9rio romano\u201d e que v\u00ea no imp\u00e9rio romano a vit\u00f3ria sobre a \u201cidolatria polite\u00edsta e demon\u00edaca\u201d e o cumprimento de todas as profecias sobre a \u201cpaz dos povos\u201d (PETERSON, 1999, p. 79-84), Agostinho \u00e9 contado entre os te\u00f3logos ortodoxos que desfizeram \u201co la\u00e7o que unia o Evangelho ao imp\u00e9rio\u201d. Segundo Peterson, \u201co que os padres gregos levaram a termo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de Deus\u201d, ao contrapor o dogma da Trindade \u00e0 concep\u00e7\u00e3o pag\u00e3 e judaica de \u201cmonarquia divina\u201d, esvaziando-a de seu \u201ccar\u00e1ter pol\u00edtico-teol\u00f3gico\u201d, Agostinho realizou no Ocidente \u201ccom o conceito de paz\u201d. Para ele, \u201ca paz augusta, sobre a qual se havia constru\u00eddo na Igreja uma duvidosa teologia pol\u00edtica, se apresentava [&#8230;] como uma paz question\u00e1vel\u201d (1999, p. 93). E, assim, conclui, \u201cn\u00e3o s\u00f3 se acabou teologicamente com o monote\u00edsmo como problema pol\u00edtico e se liberou a f\u00e9 crist\u00e3 do acorrentamento ao imp\u00e9rio romano, mas se levou a cabo a ruptura radical com uma \u2018teologia pol\u00edtica\u2019 que degenerava o Evangelho em instrumento de justifica\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d (PETERSON, 1999, p. 95).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peterson tem raz\u00e3o no que diz respeito \u00e0 impossibilidade de uma teologia pol\u00edtica que transforme o Evangelho \u201cem instrumento de justifica\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. Mas n\u00e3o pode concluir da\u00ed, como o faz, \u201ca impossibilidade teol\u00f3gica de uma \u2018teologia pol\u00edtica\u2019\u201d sem mais. E nesse ponto Schmitt tem raz\u00e3o (s\/d, p. 173). Tampouco poderia apelar para Agostinho como justifica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da impossibilidade de uma TP. Por mais que n\u00e3o se deva nem se possa atribuir a ele a paternidade do chamado \u201cagostinismo pol\u00edtico\u201d medieval e sua teoria de uma \u201cteocracia imperial\u201d, prel\u00fadio da \u201cteocracia pontif\u00edcia\u201d (cf. RAMOS, 2015, p. 202-204), tampouco se pode negar sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica sobre a pol\u00edtica ou, se se quer, uma TP em Agostinho (cf. RAMOS, 2015, p. 185-208).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.1.2 \u201cNova Teologia Pol\u00edtica\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cnova TP\u201d surge no contexto mais amplo da pergunta pela possibilidade de uma \u201cteologia do mundo\u201d que leve a s\u00e9rio os processos da <em>Aufkl\u00e4rung<\/em>, da seculariza\u00e7\u00e3o e da emancipa\u00e7\u00e3o em curso no mundo moderno (cf. METZ, 1997, p. 15, 75). Nasce como uma teologia \u201ccom o rosto voltado para o mundo\u201d (cf. METZ, 1997, p. 7; 2006, p. 253, 257). Neste sentido, e em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cantiga TP\u201d de cunho antimoderno e restauracionista, a \u201cnova TP\u201d surge como uma teologia moderna. Pensa a rela\u00e7\u00e3o entre Igreja e sociedade\/pol\u00edtica n\u00e3o de modo \u201cpr\u00e9-cr\u00edtico\u201d, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 modernidade na linha de uma identifica\u00e7\u00e3o entre ambas, mas de modo \u201cp\u00f3s-cr\u00edtico\u201d, no sentido de uma \u201csegunda reflex\u00e3o\u201d que repensa criticamente\/modernamente as rela\u00e7\u00f5es Igreja\/f\u00e9 \u2013 sociedade\/pol\u00edtica (cf. METZ, 1997, p. 12, 27, 39).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso sup\u00f4s e\/ou implicou tanto uma nova compreens\u00e3o do mundo, do \u201cpol\u00edtico\u201d e da rela\u00e7\u00e3o da Igreja com eles, quanto uma reviravolta no movimento teol\u00f3gico em curso que tentava um di\u00e1logo com o mundo moderno, e quanto, ainda, uma ruptura com e\/ou supera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica dos pressupostos filos\u00f3ficos implicados nesse movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cnova TP\u201d entende o <em>mundo<\/em> n\u00e3o como \u201ccosmos\u201d em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 exist\u00eancia e \u00e0 pessoa nem como \u201crealidade meramente existencial ou pessoal\u201d, mas como \u201crealidade social em um processo hist\u00f3rico\u201d (METZ, 1997, p. 15). E fala do <em>pol\u00edtico<\/em> no sentido que essa express\u00e3o adquiriu no mundo moderno, seja no que diz respeito \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre Estado e sociedade e \u00e0 consequente supera\u00e7\u00e3o do reducionismo do pol\u00edtico a t\u00e9cnicas de administra\u00e7\u00e3o do poder, seja no que diz respeito ao car\u00e1ter cr\u00edtico que deve caracterizar um discurso. Isso possibilitou uma nova compreens\u00e3o da <em>rela\u00e7\u00e3o entre teologia e pol\u00edtica<\/em>, onde a Igreja se entende n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do Estado, mas como \u201cinstitui\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-social\u201d com \u201ctarefa cr\u00edtico-libertadora\u201d na sociedade ou como \u201clugar e institui\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-cr\u00edticos da liberdade\u201d e a TP \u00e9 entendida como \u201cconsci\u00eancia cr\u00edtica das implica\u00e7\u00f5es sociais e das tarefas do Cristianismo\u201d (cf. METZ, 1997, p. 15ss, 32, 35ss).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa nova compreens\u00e3o do mundo, da pol\u00edtica e da rela\u00e7\u00e3o entre teologia e pol\u00edtica implicou numa ruptura dial\u00e9tica com as correntes teol\u00f3gicas de car\u00e1ter e\/ou orienta\u00e7\u00e3o existencial, personalista e transcendental que tinham tentado, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, um di\u00e1logo cr\u00edtico-produtivo com a modernidade, bem como com seus pressupostos te\u00f3rico-filos\u00f3ficos. N\u00e3o obstante sua enorme import\u00e2ncia no processo de renova\u00e7\u00e3o da teologia europeia, essas teologias foram em boa medida v\u00edtimas e c\u00famplices da moderna privatiza\u00e7\u00e3o da f\u00e9, da religi\u00e3o e da teologia. N\u00e3o por acaso as categorias que elas utilizam para explicar a mensagem crist\u00e3 s\u00e3o predominantemente \u201ccategorias do \u00edntimo, do privado, do apol\u00edtico\u201d (cf. METEZ, 1997, p. 10ss). Da\u00ed a necessidade de ruptura com e\/ou supera\u00e7\u00e3o dial\u00e9ticas dessas teologias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Metz fala de sua TP como passagem de uma teologia transcendental para uma teologia pol\u00edtica (1997, p. 95; 2013, p. 34). Moltmann chega a uma \u201chermen\u00eautica pol\u00edtica\u201d ou a uma TP como concretiza\u00e7\u00e3o de sua teologia da esperan\u00e7a e como consequ\u00eancia pol\u00edtica de sua teologia da cruz (2011, p. 289ss; 2004, p. 102ss). E S\u00f6lle desenvolve sua TP em discuss\u00e3o cr\u00edtica com a teologia de Bultmann (1982, p. 12). Em todos esses casos, foi decisivo o di\u00e1logo cr\u00edtico-criativo com Marx, Bloch, a Escola de Frankfurt (Horkheimer, Adorno, Marcuse, Benjamin) e o pensamento judaico, entre outros (cf. METZ, 1997, p. 95; MOLTMANN, 2004, p. 103).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cnova TP\u201d surge, portanto, em di\u00e1logo cr\u00edtico-criativo com o mundo moderno, simultaneamente, como uma <em>teologia moderna<\/em> (cr\u00edtica) e como uma <em>teologia em ruptura<\/em> (dial\u00e9tica) com a privatiza\u00e7\u00e3o moderna da f\u00e9, da religi\u00e3o e da teologia, bem como com as teologias de alguma maneira v\u00edtimas e\/ou c\u00famplices dessa privatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 Caracter\u00edsticas fundamentais<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo situado a \u201cnova TP\u201d no contexto mais amplo da teologia e em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cantiga TP\u201d, conv\u00e9m esbo\u00e7ar sistematicamente suas principais caracter\u00edsticas e, com elas, sua estrutura te\u00f3rica fundamental (cf. GIBELLINI, 1998, p. 301-321; TAMAYO, 2005, p. 870-879).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2.1 Fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-criativa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1967, em uma confer\u00eancia num Congresso Internacional de Teologia em Toronto, Canad\u00e1, intitulada O problema de uma \u201cTeologia Pol\u00edtica\u201d (cf. METZ, 1997, p. 9-22) e considerada uma esp\u00e9cie de \u201cmanifesto program\u00e1tico\u201d de sua TP, Metz indica uma dupla caracter\u00edstica e\/ou tarefa dessa teologia: \u201ccr\u00edtico-corretiva\u201d frente \u00e0 tend\u00eancia privatizadora da teologia atual e \u201cpositiva\u201d, enquanto intento de formula\u00e7\u00e3o da mensagem escatol\u00f3gica nas atuais condi\u00e7\u00f5es de nossa sociedade (1997, p. 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cnova TP\u201d tem uma <em>fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-corretiva<\/em> frente \u00e0 tend\u00eancia moderna de privatiza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o presente nas v\u00e1rias teologias que tentaram um di\u00e1logo positivo com a modernidade. Uma das caracter\u00edsticas da modernidade foi a separa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e sociedade e o confinamento da religi\u00e3o \u00e0 esfera privada com progressiva perda de relev\u00e2ncia social. Isso se agrava com a cr\u00edtica marxista da religi\u00e3o como superestrutura ideol\u00f3gica da sociedade. E as teologias que tentaram um di\u00e1logo positivo com a modernidade (transcendental, existencial, personalista) acabaram se tornando v\u00edtimas e c\u00famplices dessa tend\u00eancia de privatiza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o, na medida em que se refugiaram na esfera do privado. \u00c9 um tipo de teologia que \u201cprocura resolver o problema surgido com a <em>Aufkl\u00e4rung<\/em>, eliminando-o. Procura superar a <em>Aufkl\u00e4rung<\/em> sem ter realmente passado por ela\u201d. Da\u00ed porque \u201cpara a consci\u00eancia religiosa determinada por essa teologia a realidade s\u00f3cio-pol\u00edtica tenha apenas uma exist\u00eancia ef\u00eamera. As categorias que esta teologia utiliza para explicar a mensagem s\u00e3o predominantemente categorias do \u00edntimo, do privado, do apol\u00edtico\u201d (METZ, 1997, p. 10). \u00c9 neste contexto que surge a \u201cnova TP\u201d. Ela surge em di\u00e1logo cr\u00edtico-criativo com a modernidade e com as teologias modernas em curso e assume, modernamente\/criticamente, a tarefa de desprivatiza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o crist\u00e3. Se Bultmann, por exemplo, se empenhou num projeto de \u201cdemitiza\u00e7\u00e3o\u201d da teologia (<em>Entmytologisierung<\/em>) e produziu uma teologia de orienta\u00e7\u00e3o existencial, Metz se empenha em um processo de desprivatiza\u00e7\u00e3o da teologia (<em>Entprivatisierung<\/em>) e desenvolve uma teologia de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas al\u00e9m dessa fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-corretiva frente \u00e0s teologias modernas em curso, a \u201cnova TP\u201d tem uma <em>fun\u00e7\u00e3o positiva<\/em> que consiste em explicitar e desenvolver as implica\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas da mensagem crist\u00e3 no contexto de uma sociedade moderna. Trata-se de repensar modernamente as rela\u00e7\u00f5es entre religi\u00e3o e sociedade, entre f\u00e9 e pr\u00e1xis social. Afinal, \u201ca salva\u00e7\u00e3o a que se refere na esperan\u00e7a a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma salva\u00e7\u00e3o privada\u201d e seu an\u00fancio tem dimens\u00f5es e consequ\u00eancias p\u00fablicas e sociais indiscut\u00edveis como se pode verificar na cruz de Jesus (cf. METZ, 1997, p. 13). E, aqui, vai ser fundamental a retomada da dimens\u00e3o escatol\u00f3gica da mensagem crist\u00e3 e o desenvolvimento de sua dimens\u00e3o hist\u00f3rico-p\u00fablico-social. A esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 desprovida de dimens\u00e3o, implica\u00e7\u00f5es e relev\u00e2ncia sociais, mas desempenha uma fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e desabsolutizadora na sociedade e na pr\u00f3pria Igreja. A categoria \u201creserva escatol\u00f3gica\u201d (<em>eschatologischer Vorbehalt<\/em>) permitir\u00e1 compreender modernamente a miss\u00e3o da Igreja como \u201ctarefa cr\u00edtico-libertadora\u201d na sociedade e na Igreja e compreender a pr\u00f3pria Igreja como \u201cinstitui\u00e7\u00e3o cr\u00edtico-social\u201d (cf. METZ, 1997, p. 15ss). E a categoria \u201cmem\u00f3ria\u201d (<em>Erinnerug<\/em>), com sua estrutura te\u00f3rica de \u201cnarra\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Erz\u00e4lung<\/em>), ser\u00e1 fundamental para o desenvolvimento da tese da f\u00e9 como <em>memoria passionis, mortis et resurrectionis Jesu Christi<\/em> (cf. METZ, 1997, p. 47-57) que, gra\u00e7as ao seu car\u00e1ter e poder pr\u00e1tico-mobilizador, constitui-se como \u201cmem\u00f3ria perigosa\u201d (<em>gef\u00e4hrliche Erinnerung<\/em>) que \u201cacossa o presente e o questiona, porque nos lembra um futuro que ainda n\u00e3o chegou\u201d (METZ, 1997, p. 49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2.2 Teologia Fundamental pr\u00e1tica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 est\u00e1 claro que a \u201cnova TP\u201d nada tem a ver com politiza\u00e7\u00e3o da teologia ou instrumentaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da religi\u00e3o a modo da \u201cantiga TP\u201d. Mas ela tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser compreendida como uma \u201cteologia do pol\u00edtico\u201d ou mais uma das muitas \u201cteologias regionais\u201d em curso: teologia do trabalho, teologia da sexualidade, teologia da m\u00fasica etc. (cf. METZ, 1997, p. 43). Tampouco pode ser tomada simplesmente como uma nova disciplina teol\u00f3gica nem ser identificada com uma teologia social e menos ainda com o que se chama na teologia \u201c\u00e9tica pol\u00edtica\u201d (cf. METZ, 1997, p. 27-28, 71). Sequer pode ser tomada como uma esp\u00e9cie de aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de princ\u00edpios e normas na a\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica dos crist\u00e3os (cf. METZ, 1997, p. 71).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto desenvolvimento da rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e sociedade ou da dimens\u00e3o sociopol\u00edtica da mensagem escatol\u00f3gica crist\u00e3 ou enquanto <em>memoria passionais<\/em> nas condi\u00e7\u00f5es de nosso tempo, a \u201cnova TP\u201d emerge como reelabora\u00e7\u00e3o da mensagem crist\u00e3 em sua totalidade \u00e0 luz de sua relev\u00e2ncia social no contexto de uma sociedade moderna. E, assim, emerge como desenvolvimento de um \u201ctra\u00e7o fundamental da consci\u00eancia cr\u00edtico-teol\u00f3gica como um todo\u201d que bem pode ser formulado em termos de uma \u201cnova rela\u00e7\u00e3o teoria-pr\u00e1xis\u201d, no sentido que toda teologia deve ter uma orienta\u00e7\u00e3o pr\u00e1xica fundamental (METZ, 1997, p. 28). Nesse sentido, pode-se falar, aqui, de uma \u201cteologia fundamental pr\u00e1xica\u201d ou de uma \u201cteologia fundamental com inten\u00e7\u00e3o pr\u00e1xica\u201d (cf. METZ, 1977) ou mesmo de uma \u201cpr\u00e1xis apolog\u00e9tica\u201d (METZ, 1977, p. 9; 2006, 255ss). Trata-se de uma teologia articulada em torno de tr\u00eas categorias b\u00e1sicas: mem\u00f3ria, narra\u00e7\u00e3o, solidariedade (cf. METZ, 1977, p. 159-211) e uma teologia que busca dar raz\u00e3o ou explicitar os fundamentos pr\u00e1xico-sociais da mensagem escatol\u00f3gica crist\u00e3 no contexto de uma sociedade esclarecida e secularizada que privatiza a religi\u00e3o e compromete sua dimens\u00e3o sociopol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2.2.3 Autoridade das v\u00edtimas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma teologia que se compreende como memoria passionis ou como confronto cr\u00edtico-pr\u00e1xico da mensagem escatol\u00f3gica crist\u00e3 com a sociedade atual se constitui como \u201cmem\u00f3ria perigosa\u201d e s\u00f3 pode se desenvolver em \u201csolidariedade\u201d com as v\u00edtimas da hist\u00f3ria: do presente (\u201cpara frente\u201d) e do passado (\u201cpara tr\u00e1s\u201d) (cf. METZ, 1977, p. 204). Isso permite recuperar a centralidade da teodiceia na teologia crist\u00e3 (cf. METZ, 2006, p. 3-34). N\u00e3o como uma quest\u00e3o meramente te\u00f3rico-especulativa, mas, antes, como uma quest\u00e3o pr\u00e1xica que se enfrenta e se traduz em termos de compaix\u00e3o, amor e solidariedade com as v\u00edtimas e que tem uma dimens\u00e3o sociopol\u00edtica fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma religi\u00e3o com o \u201crosto voltado para o mundo\u201d (cf. METZ, 1997, p. 7; 2006, p. 253, 257) n\u00e3o pode ignorar a \u201chist\u00f3ria do sofrimento\u201d e isso significa, para Metz, que n\u00e3o pode ser feita de costas para Auschwitz (2006, p. 35-68), isto \u00e9, \u201cnem de costas para o holocausto e nem de costas para o sofrimento mudo dos pobres e oprimidos no mundo\u201d (METZ, 1984, p. 38). Deve ser uma teologia com o \u201crosto voltado\u201d para Auschwitz e para todas as v\u00edtimas da hist\u00f3ria. Trata-se, aqui, de uma solidariedade pr\u00e1xico-te\u00f3rica com as v\u00edtimas que se concretiza tanto na a\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os quanto na reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Isso obrigou Metz a reconhecer a \u201cautoridade dos que sofrem\u201d no pr\u00f3prio teologizar (1997, p. 12-13). Eles s\u00e3o \u201cinvestidos por Jesus de uma autoridade frente \u00e0 qual n\u00e3o existe possibilidade de negar obedi\u00eancia. \u00c9 unicamente nesta autoridade dos que sofrem que se manifesta a autoridade de Deus como juiz do mundo e de todos os seres humanos: Mt 25, 31-46\u201d (METZ, 1997, p.13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Relev\u00e2ncia e limites<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cnova TP\u201d teve uma import\u00e2ncia muito grande no aprofundamento do di\u00e1logo cr\u00edtico-criativo da Igreja com o mundo moderno e no processo de renova\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria teologia europeia na segunda metade do s\u00e9culo XX. Ela retomou e reelaborou em novos termos a problem\u00e1tica da rela\u00e7\u00e3o Igreja-sociedade, superando modernamente a tend\u00eancia moderna de privatiza\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e da religi\u00e3o e desenvolvendo a dimens\u00e3o sociopol\u00edtica da mensagem crist\u00e3. Recuperou a relev\u00e2ncia sociopol\u00edtica da f\u00e9 e da Igreja e fez isso, n\u00e3o numa perspectiva restauracionista antimoderna (pr\u00e9-cr\u00edtica), mas no contexto de uma sociedade moderna (cr\u00edtica) e numa perspectiva dial\u00e9tica de di\u00e1logo cr\u00edtico com a modernidade (p\u00f3s-cr\u00edtica). Com isso, alargou os horizontes da teologia e de seu di\u00e1logo com o mundo moderno e possibilitou e provocou a supera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica das teologias existencial, personalista e transcendental, na dire\u00e7\u00e3o de uma teologia sociopol\u00edtica fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a \u201cnova TP\u201d, em sintonia com o processo conciliar de renova\u00e7\u00e3o da Igreja, agu\u00e7a a sensibilidade eclesial para os problemas do mundo e, sobretudo, para as situa\u00e7\u00f5es de sofrimento e para as v\u00edtimas da hist\u00f3ria e, assim, confere nova centralidade \u00e0 problem\u00e1tica da teodiceia no cristianismo. Faz isso numa perspectiva pr\u00e1xico-te\u00f3rica na linha de solidariedade com as v\u00edtimas, de reconhecimento de sua autoridade e de inser\u00e7\u00e3o de sua voz no logos da teologia. Isso permite aprofundar a cr\u00edtica ao cristianismo burgu\u00eas que se desenvolveu no Ocidente (cf. METZ, 1984), estreita os la\u00e7os com as teologias da liberta\u00e7\u00e3o e abre perspectivas para cr\u00edtica e autocr\u00edtica da \u201cnova TP\u201d no sentido de certa cumplicidade com a hist\u00f3ria ocidental dos vencedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, n\u00e3o obstante a import\u00e2ncia dessa teologia no di\u00e1logo cr\u00edtico com a modernidade e com as teologias modernas em curso, na retomada e reelabora\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter fundamentalmente pr\u00e1xico da f\u00e9 e da teologia e na solidariedade com as v\u00edtimas da hist\u00f3ria e com a \u201chist\u00f3ria do sofrimento\u201d, ela tem limites que precisam ser reconhecidos e superados, o que implica, de certa maneira, sua pr\u00f3pria supera\u00e7\u00e3o enquanto perspectiva e projeto teol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de tudo, os te\u00f3logos latino-americanos, desde o in\u00edcio dos anos 1970, criticaram \u201ccerta insufici\u00eancia em suas an\u00e1lises da situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea\u201d (GUTI\u00c9RREZ, 2000, p. 284; cf. RUBIO, 1977, p. 98ss). O car\u00e1ter excessivamente abstrato de suas abordagens do mundo, a car\u00eancia ou insufici\u00eancia de media\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas para analisar e transformar a realidade e a concentra\u00e7\u00e3o na problem\u00e1tica da privatiza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o dificultaram ou mesmo impediram a \u201cnova TP\u201d descer \u00e0s ra\u00edzes mais profundas do mundo moderno e se enfrentar com seus problemas mais fundamentais. Al\u00e9m do mais, o impacto e a centralidade de Auschwitz e a pergunta fundamental: \u201ccomo fazer teologia depois de Auschwitz?\u201d, compreens\u00edvel sob muitos aspectos, acabaram desviando o olhar das v\u00edtimas atuais do mundo e seus verdugos e comprometendo o car\u00e1ter de \u201cmem\u00f3ria perigosa\u201d que compete \u00e0 teologia em cada tempo. Da\u00ed a den\u00fancia po\u00e9tico-prof\u00e9tica certeira do bispo Pedro Casald\u00e1liga: \u201cComo hablar de Dios despues de Auschwitz?, os preguntais vosostros, ah\u00ed, al otro lado del mar, en la abundancia. Como hablar de Dios en Auschwitz?, se preguntan aqu\u00ed los compa\u00f1eros, cargados de raz\u00f3n, de llanto y sangre, metidos en la muerte diaria de millones (&#8230;)\u201d (1990, p. 45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o s\u00f3 isso. A pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o em termos de TP parece muito problem\u00e1tica. Seja pela ambiguidade da express\u00e3o, indicada e criticada desde o in\u00edcio, seja porque o \u201cpol\u00edtico\u201d, mesmo se entendido no sentido moderno que essa express\u00e3o adquiriu e que foi utilizado por Metz (sociedade em sentido amplo e discurso cr\u00edtico), parece limitado e incapaz de dar conta do todo da f\u00e9 que a teologia procura compreender e teorizar. J\u00e1 no in\u00edcio dos anos 1970, Kasper manifestava sua insatisfa\u00e7\u00e3o com o marco assinalado pela \u201cnova TP\u201d: \u201cSob muitos pontos de vista \u00e9 excessivamente estreito e conduz necessariamente a uma redu\u00e7\u00e3o inadequada da mensagem crist\u00e3; e isto mesmo que os representantes da teologia pol\u00edtica n\u00e3o o pretendam\u201d (1982, p. 139-138). E, no final dos anos 1990, Moltmann reconhece que \u201ctalvez no final dos anos 1960 o pol\u00edtico tenha sido superestimado\u201d. Mas, a partir de 1989, no contexto da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o da economia\u201d, em que a pr\u00f3pria pol\u00edtica encontra-se no \u201cperigo de ser controlada\u201d pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pelos mercados financeiros, a pol\u00edtica passa a ter um alcance muito reduzido e \u201cisso limita o alcance da \u2018Nova Teologia Pol\u00edtica\u2019\u201d (MOLTMANN, 2004, p. 105). De modo que, seja pelo alcance limitado da pol\u00edtica no mundo atual (Moltmann), seja pela n\u00e3o redu\u00e7\u00e3o da f\u00e9 \u00e0 sua dimens\u00e3o social (Kasper), a TP, n\u00e3o obstante sua import\u00e2ncia e seus ganhos irrenunci\u00e1veis, parece limitada e reclama um marco te\u00f3rico-conceitual mais amplo capaz de articular e elaborar a f\u00e9 em sua totalidade e complexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francisco de Aquino J\u00fanior.<\/em> Faculdade Cat\u00f3lica de Fortaleza (FCF) e Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco (UNICAP). Texto original portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AGOSTINHO. <em>A Cidade de Deus<\/em>. Parte I. Petr\u00f3polis: Vozes, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASALD\u00c1LIGA, P. <em>Todavia estas palabras<\/em>. Estella: Verbo Divino, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GIBELLINI, R. <em>A teologia do s\u00e9culo XX<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUTI\u00c9RREZ, G. <em>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>: prospectivas. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KASPER, W. <em>Introducci\u00f3n a la f\u00e9<\/em>. Salamanca: Sigeme, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">METZ, J. B. <em>Glaube in Geschichte und Gesellschaft<\/em>. Mainz: Gr\u00fcnewald, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Para al\u00e9m de uma religi\u00e3o burguesa<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. Perante os judeus. Teologia crist\u00e3 p\u00f3s-Auschwitz. <em>Concilium<\/em> n.195, p. 35-46, 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Zum Begriff der neuen Politischen Theologie<\/em>: 1967 \u2013 1997. Mainz: Gr\u00fcnewald, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. Deus e os males deste mundo: a esquecida mas inesquec\u00edvel Teodic\u00e9ia. <em>Concilium<\/em> n.273, p. 8-14, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Memoria Passionis<\/em>: Ein provozirendes Ged\u00e4chtnis in pluralistischer Gesellschaft. Freiburg \u2013 Basel \u2013 Wien: Herder, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>M\u00edstica de olhos abertos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MOLTMANN. J. <em>O Deus crucificado<\/em>: a cruz de Cristo como base e cr\u00edtica da teologia crist\u00e3. Santo Andr\u00e9: Academia Crist\u00e3, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Experi\u00eancias de reflex\u00e3o teol\u00f3gica<\/em>: caminhos e formas de teologia crist\u00e3. S\u00e3o Leopoldo: Unisinos, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PETERSON, E. <em>El monote\u00edsmo como problema pol\u00edtico<\/em>. Madrid: Minima Trotta, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAMOS, Manfredo Thomaz. <em>A ideia do Estado na doutrina \u00e9tico-pol\u00edtica de Santo Agostinho<\/em>: um estudo do Epistol\u00e1rio comparado com o \u201cDe Civitate Dei\u201d. Porto Alegre: Letra &amp;Vida, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUBIO, Alfonso Garcia. <em>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>: pol\u00edtica ou profetismo? S\u00e3o Paulo: Loyola, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCATTOLA, M. <em>Teologia Pol\u00edtica<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHMITT, C. <em>Teolog\u00eda Pol\u00edtica<\/em>: cuatro ensayos sobre la soberania. Buenos Aires: Editorial Struhalt &amp; C\u00eda, s\/d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00d6LLE, D. <em>Politische Theologie<\/em>. Stuttgart: Kreutz-Verlag, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TAMAYO, J. J. Teologia Pol\u00edtica. In: TAMAYO, J. J. (dir.). <em>Nuevo Diccionario de Teolog\u00eda<\/em>. Madrid: Trotta, 2005. p. 870-879.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Express\u00e3o 1.1 Origem 1.2 Ambiguidade 1.3 Delimita\u00e7\u00e3o de enfoque 2 Abordagem teol\u00f3gica 2.1 Panorama hist\u00f3rico 2.1.1 Antiga teologia pol\u00edtica 2.1.1 Nova teologia pol\u00edtica 2.2 Caracter\u00edsticas fundamentais 2.2.1 Fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e criativa 2.2.2 Teologia Fundamental Pr\u00e1tica 2.2.3 Autoridade das v\u00edtimas 3 Relev\u00e2ncia e limites Refer\u00eancias 1 Express\u00e3o Conv\u00e9m come\u00e7ar fazendo algumas considera\u00e7\u00f5es acerca da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-1658","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1658","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1658"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1658\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1659,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1658\/revisions\/1659"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}