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{"id":1641,"date":"2018-12-24T09:26:54","date_gmt":"2018-12-24T11:26:54","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1641"},"modified":"2018-12-24T12:43:13","modified_gmt":"2018-12-24T14:43:13","slug":"a-cristologia-nos-seculos-ii-e-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1641","title":{"rendered":"A cristologia nos s\u00e9culos II e III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Panorama geral da cristologia nos s\u00e9culos II e III<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Os principais eixos da reflex\u00e3o cristol\u00f3gica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 A cristologia de Ireneu<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 A cristologia de Or\u00edgenes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 em Jesus Cristo, transmitida pela prega\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos e, mais amplamente, pelos diversos escritos do NT, suscitou nos s\u00e9culos seguintes intensa reflex\u00e3o no seio das comunidades crist\u00e3s. Se essa reflex\u00e3o foi particularmente aprofundada na segunda metade da \u00e9poca patr\u00edstica (gra\u00e7as \u00e0s controv\u00e9rsias que ensejaram os conc\u00edlios de \u00c9feso, em 431, e Calced\u00f4nia, em 451), ela provocou, contudo, not\u00e1veis desenvolvimentos j\u00e1 nos s\u00e9culos II e III. Isso se explica pelo fato que os crist\u00e3os dessa \u00e9poca eram conduzidos, como por uma esp\u00e9cie de necessidade interna, a entrar em uma compreens\u00e3o mais profunda de sua f\u00e9 em Cristo; mas isso tem a ver tamb\u00e9m com as discuss\u00f5es ou controv\u00e9rsias que os opuseram aos judeus, aos pag\u00e3os e aos que, apesar de se valerem do Evangelho, lhe deformaram gravemente o significado (a saber, os adeptos da corrente chamada de \u201cgnosticismo\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ofereceremos aqui, primeiramente, um panorama geral da cristologia nos s\u00e9culos II e III e uma apresenta\u00e7\u00e3o de suas principais orienta\u00e7\u00f5es, para, em seguida, nos determos, de modo particular, nos Santos Padres que, por esse tempo, contribu\u00edram de modo bem especial \u00e0 reflex\u00e3o sobre o Cristo: Ireneu e Or\u00edgenes<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Panorama geral da cristologia nos s\u00e9culos II e III<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa recordar a import\u00e2ncia que os textos lit\u00fargicos atribuem ao Cristo, quer por meio de breves f\u00f3rmulas, como se v\u00ea no \u201cS\u00edmbolo dos Ap\u00f3stolos\u201d (cujos principais enunciados s\u00e3o bem antigos), quer pela formula\u00e7\u00e3o que era utilizada na liturgia batismal. Durante essa liturgia, o celebrante dirigia ao catec\u00fameno a seguinte pergunta:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00eas em Jesus Cristo, Filho de Deus, que nasceu pelo Esp\u00edrito Santo da Virgem Maria, foi crucificado sob P\u00f4ncio Pilatos, foi morto, ressuscitou no terceiro dia vivo dentre os mortos, subiu aos c\u00e9us e est\u00e1 sentado \u00e0 direita do Pai; que vir\u00e1 julgar os vivos e os mortos? \u201d (HIPOLLYTE DE ROME, <em>La Tradition apostolique<\/em> &#8211; 21, p. 85-87)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m destes textos lit\u00fargicos, entre os quais tamb\u00e9m a <em>Didaqu\u00e9<\/em> ou <em>Doutrina dos Doze Ap\u00f3stolos <\/em>(<em>La Doctrine des douze ap\u00f4tres<\/em> &#8211; coll. Sources Chr\u00e9tiennes, n.248), os in\u00edcios da literatura patr\u00edstica revelam uma grande diversidade de escritos, que, cada qual a seu modo, d\u00e3o testemunho de Jesus Cristo afirmando sua humanidade e sua divindade, bem como o alcance \u00fanico de sua oferenda em favor da humanidade. Um dos mais antigos, Clemente Romano, em sua carta aos fi\u00e9is de Corinto (de 96-98 dC), apresenta o Cristo como mediador da salva\u00e7\u00e3o no seio da humanidade. Pouco depois, In\u00e1cio de Antioquia, enquanto se prepara para vencer o mart\u00edrio (pela segunda metade do s\u00e9culo II), escreve diversas cartas a comunidades crist\u00e3s e ataca exatamente os \u201cdocetas\u201d, isto \u00e9, aqueles que dizem que o Filho de Deus teria assumido apenas uma apar\u00eancia humana; ele lhes op\u00f5e a plena realidade da encarna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sejais ent\u00e3o surdos quando vos falam de outra coisa que de Jesus Cristo, da ra\u00e7a de Davi, [filho] de Maria, que verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu, que foi verdadeiramente perseguido sob P\u00f4ncio Pilatos, que foi verdadeiramente crucificado e morreu, aos olhos do c\u00e9u, da terra e dos infernos, que verdadeiramente ressuscitou dentre os mortos (IGNACE D\u2019ANTIOCHE, <em>Aux Tralliens <\/em>&#8211; IX, 1-2, p.119).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Outros g\u00eaneros de escritos poderiam ser mencionados, inclusive em forma po\u00e9tica (como as passagens crist\u00e3s da cole\u00e7\u00e3o conhecida sob o nome de <em>Or\u00e1culos<\/em> <em>Sibilinos<\/em>, ou ainda, as <em>Odes de Salam\u00e3o<\/em>), bem como os relatos de mart\u00edrio que s\u00e3o caracter\u00edsticos dessa \u00e9poca em que os crist\u00e3os \u00e0s vezes eram submetidos a violentas persegui\u00e7\u00f5es e, precisamente nesta situa\u00e7\u00e3o, alguns dentre eles testemunhavam at\u00e9 o fim sua fidelidade a Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescenta-se a isso a literatura chamada \u201cap\u00f3crifa\u201d, que s\u00e3o textos cuja origem se desconhecia ou textos que circulavam sob nome falso (por exemplo, a <em>Carta de Barnab\u00e9<\/em>), ou ainda textos considerados como n\u00e3o aptos a figurar no \u201cc\u00e2non\u201d das Escrituras (c\u00e2non este que se constituiu progressivamente, pelo menos quanto ao essencial, ao longo de s\u00e9culo II). Certo n\u00famero desses textos veiculava afirma\u00e7\u00f5es heterodoxas, particularmente, afirma\u00e7\u00f5es \u201cdocetas\u201d, o que contribui a explicar, por for\u00e7a do contraste, o vigor dos desenvolvimentos de In\u00e1cio de Antioquia e outros Padres a respeito da verdadeira humanidade de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de todos esses escritos, que, como se pode ver, s\u00e3o de natureza diversificada, a literatura patr\u00edstica dos s\u00e9culos II e III nos legou obras que aportaram uma contribui\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica de primeiro plano: al\u00e9m de In\u00e1cio de Antioquia, j\u00e1 mencionado, cabe mencionar o apologeta Justino na metade do s\u00e9culo II; Ireneu de Li\u00e3o e Clemente de Alexandria l\u00e1 pelo fim do mesmo s\u00e9culo; e, depois, o grande exegeta Or\u00edgenes, que viveu sucessivamente em Alexandria e em Cesareia da Palestina; ou ainda Tertuliano, na \u00c1frica do Norte. Voltaremos mais precisamente a dois desses autores: Ireneu e Or\u00edgenes. Mas antes disso conv\u00e9m precisar os eixos maiores em torno dos quais se desdobra, em meio \u00e0 diversidade de seus escritos, a literatura cristol\u00f3gica do per\u00edodo aqui considerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Os principais eixos da reflex\u00e3o cristol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cristologia dessa \u00e9poca desenvolve-se numa situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em que os crist\u00e3os, bem minorit\u00e1rios e \u00e0s vezes amea\u00e7ados, devem defender sua f\u00e9 frente \u00e0s obje\u00e7\u00f5es formuladas contra eles. Isso se manifesta, sobretudo, nos escritos dos \u201cPadres apologetas\u201d no s\u00e9culo II. A obra de Justino, \u201cfil\u00f3sofo e m\u00e1rtir\u201d, \u00e9 significativa a este respeito (ver: JUSTIN, 1994). Por uma parte, cont\u00e9m um escrito de controv\u00e9rsia com um judeu \u2013 o <em>Di\u00e1logo com Trif\u00e3o<\/em>: neste escrito, Justino refuta as afirma\u00e7\u00f5es de seu interlocutor, que nega que Jesus crucificado possa ser o Messias. Por meio de uma exegese dita \u201ctipol\u00f3gica\u201d (alguns personagens ou epis\u00f3dios da B\u00edblia s\u00e3o entendidos como \u201cfiguras\u201d do Cristo) e uma exegese \u201cprof\u00e9tica\u201d (alguns or\u00e1culos ou salmos s\u00e3o lidos como an\u00fancios velados daquilo que aconteceria com Jesus), Justino mostra que as Escrituras antigas haviam, de fato, predito a Paix\u00e3o. Ele sublinha tamb\u00e9m que o Messias crucificado e ressuscitado h\u00e1 de voltar na gl\u00f3ria e que, assim, haver\u00e1 uma segunda \u201cparusia\u201d do Cristo no fim dos tempos. Por outra parte, a obra de Justino cont\u00e9m tamb\u00e9m uma <em>Apologia<\/em>, que pretende refutar as obje\u00e7\u00f5es que v\u00eam do mundo pag\u00e3o. O apologeta escreve, entre outras coisas, que a f\u00e9 no <em>Logos<\/em> de Deus n\u00e3o deveria ser desprezada como uma cren\u00e7a inveross\u00edmil, visto que as tradi\u00e7\u00f5es da Antiguidade grega elas mesmas exibem cren\u00e7as inauditas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando dizemos que o Logos, o primog\u00eanito de Deus, Jesus Cristo nosso Mestre, foi gerado sem uni\u00e3o carnal, que ap\u00f3s ter sido crucificado, morto e ressuscitado, ele subiu ao c\u00e9u, n\u00f3s nada mais anunciamos que o inaudito com rela\u00e7\u00e3o aos que v\u00f3s chamais filhos de Zeus (JUSTIN, <em>Apologie pour les chr\u00e9tiens<\/em> &#8211; 21, 1,\u00a0p.187).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Justino sublinha, sobretudo, a superioridade e mesmo a unicidade do Filho de Deus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s figuras mitol\u00f3gicas \u2013 sendo que a cren\u00e7a em tais figuras deve ser explicada como obra dos \u201cdem\u00f4nios\u201d que tentaram afastar os homens da verdade. Ali\u00e1s, ele n\u00e3o se satisfaz com tal refuta\u00e7\u00e3o das acusa\u00e7\u00f5es pag\u00e3s. Mais exatamente, como essas acusa\u00e7\u00f5es atra\u00edam a aten\u00e7\u00e3o sobre a data tardia da Encarna\u00e7\u00e3o invocada pelos crist\u00e3os e nisso encontravam motivos de obje\u00e7\u00e3o contra a doutrina crist\u00e3, ele explica que o <em>Logos<\/em> de Deus, embora s\u00f3 recentemente manifestado na hist\u00f3ria, se comunicava j\u00e1 de alguma maneira nos s\u00e9culos anteriores \u00e0 sua vinda; e assim chega a escrever:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que viveram segundo o <em>Logos<\/em> s\u00e3o crist\u00e3os, mesmo se s\u00e3o tidos por ateus, como por exemplo, entre os gregos, S\u00f3crates, Her\u00e1clito e outros parecidos a eles e, entre os b\u00e1rbaros, Abra\u00e3o, Ananias, Misael, Elias e quantidade de outros, dos quais renunciamos por enquanto a enumerar as obras e os nomes sabendo que seria muito longo fazer isso (JUSTIN, <em>Apologie pour les chr\u00e9tiens<\/em> &#8211; 46, 3, p.251).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa perspectiva, decerto, n\u00e3o impediu Justino de sublinhar a superioridade de Jesus em rela\u00e7\u00e3o a S\u00f3crates; fica claro que, em favor de sua controv\u00e9rsia com os pag\u00e3os, ele chama a aten\u00e7\u00e3o para a universalidade do dom de Deus, do qual os pr\u00f3prios pag\u00e3os se beneficiaram nos s\u00e9culos antigos. Retomando e transferindo a express\u00e3o estoica do <em>Logos spermatikos<\/em>, explica que o <em>Logos<\/em> de Deus \u00e9 \u201cdisseminado\u201d no mundo das \u201cna\u00e7\u00f5es\u201d: assim ele introduz o conhecido tema das \u201csementes do Verbo\u201d, que ser\u00e1 reencontrado pela teologia do s\u00e9culo XX, de modo que o Conc\u00edlio Vaticano II lhe far\u00e1 refer\u00eancia expressa. Atrav\u00e9s de tal tema, que, depois de Justino, \u00e9 amplamente desenvolvido por Clemente de Alexandria, no fim do s\u00e9culo II, percebe-se que os Padres apologetas n\u00e3o ficaram apenas na defensiva, mas, no quadro de suas respostas \u00e0s obje\u00e7\u00f5es pag\u00e3s, contribu\u00edram para o aprofundamento da reflex\u00e3o cristol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, o aporte da literatura patr\u00edstica a esta reflex\u00e3o \u00e9, desde os s\u00e9culos II e III, um aporte doutrinal. Diversos temas merecem destaque especial. Assim, em primeiro lugar, a insist\u00eancia dos padres sobre o alcance salv\u00edfico da encarna\u00e7\u00e3o e do mist\u00e9rio pascal. Enquanto, \u00e0s vezes, se percebe a tenta\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria ulterior da teologia de desenvolver sobretudo uma reflex\u00e3o ontol\u00f3gica sobre a identidade humano-divina do Cristo (correndo o risco de deixar no segundo plano a considera\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o oferecida por Cristo), os Padres dos primeiros s\u00e9culos acentuam que o Verbo de Deus veio para curar a humanidade ferida e para oferecer-lhe a comunh\u00e3o com sua pr\u00f3pria vida. Mas esta orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o os impede de refletir tamb\u00e9m, a seu modo, sobre a identidade do <em>Logos<\/em>. Eles sublinham, como vimos, a plena realidade da encarna\u00e7\u00e3o, da paix\u00e3o e da ressurrei\u00e7\u00e3o (que \u00e9 o fundamento da esperan\u00e7a crist\u00e3 na \u201cressurrei\u00e7\u00e3o da carne\u201d, como sublinha Tertuliano, entre outros). Ao mesmo tempo, afirmam a divindade do Verbo feito carne, mantendo que o <em>Logos<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma simples criatura, mas \u00e9 desde sempre gerado pelo Pai. Decerto, essa reflex\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7a sem tateamentos, como se v\u00ea, por exemplo, em Te\u00f3filo de Antioquia, que, pelo fim do s\u00e9culo II, distingue dois \u201cestados\u201d do <em>Logos<\/em>, o <em>Logos<\/em> \u201cinterior\u201d (imanente em Deus) e o <em>Logos<\/em> \u201cproferido\u201d (no momento em que Deus quis criar o mundo) \u2013 distin\u00e7\u00e3o contest\u00e1vel, pois arrisca fazer pensar num desenvolvimento progressivo na gera\u00e7\u00e3o do <em>Logos<\/em>. O pr\u00f3prio Te\u00f3filo, por\u00e9m, n\u00e3o deixa de afirmar a presen\u00e7a do <em>Logos<\/em> junto de Deus. Seja como for, mesmo que alguma f\u00f3rmula esteja sujeita a discuss\u00e3o, cabe sublinhar o esfor\u00e7o dos primeiros Santos Padres por tentar expressar a identidade misteriosa do Verbo divino que, enquanto \u00e9 manifestado no meio dos homens, \u00e9 verdadeiramente o Filho de Deus \u2013 o que ser\u00e1 desenvolvido de modo not\u00e1vel por Ireneu de Li\u00e3o. Este aprofundamento cristol\u00f3gico vem acompanhado de uma reflex\u00e3o de grande import\u00e2ncia para a teologia trinit\u00e1ria: os primeiros Padres esfor\u00e7am-se para manter, ao mesmo tempo, a heran\u00e7a monote\u00edsta (h\u00e1 \u201cum \u00fanico Deus\u201d) e a distin\u00e7\u00e3o real do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito (isso, contra as formas de \u201cmodalismo\u201d que veem nas tr\u00eas Pessoas simples modalidades de Deus; ou contra o \u201cpatripassionismo\u201d, segundo o qual o Pai teria sofrido a Paix\u00e3o no lugar do Filho). Tertuliano \u00e9, certamente, com Ireneu, o autor que mais contribuiu para essa reflex\u00e3o no per\u00edodo dos s\u00e9culos II e III, sendo, ali\u00e1s, aquele que introduziu na l\u00edngua latina o termo \u201cTrindade\u201d e o uso teol\u00f3gico do conceito de \u201cPessoa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma \u00faltima orienta\u00e7\u00e3o deve ser mencionada: os Padres dos s\u00e9culos II e III sublinham que a ades\u00e3o a Cristo deve tomar corpo atrav\u00e9s de toda a vida humana, num modo de ser e de agir que possa testemunhar sua autenticidade. O escrito <em>A Diogneto\u00a0 <\/em>(que remonta sem d\u00favida ao fim do s\u00e9c. II ou ao in\u00edcio do s\u00e9c. III) descreve de modo magn\u00edfico a condi\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os, os quais \u201cresidem cada um na sua pr\u00f3pria p\u00e1tria, mas como estrangeiros residentes\u201d e \u201cpassam sua vida sobre a terra, por\u00e9m sendo cidad\u00e3os do c\u00e9u\u201d (<em>\u00c0 DIOGN\u00c8TE<\/em>, V, p.63-65): tal deve ser a condi\u00e7\u00e3o dos que acolheram a revela\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus, que \u201crenasce sempre novo no cora\u00e7\u00e3o dos santos\u201d (<em>\u00c0 DIOGN\u00c8TE<\/em>, XI, p.81).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mesma \u00e9poca, Clemente de Alexandria, depois de ter escrito seu <em>Protr\u00e9ptico <\/em>para exortar os pag\u00e3os \u00e0 convers\u00e3o, comp\u00f5e uma obra intitulada <em>O Pedagogo<\/em>, na qual incita os rec\u00e9m-batizados a deixar-se educar e guiar pelo Cristo. Assim diz: \u201c\u00c9 preciso que sejam novos os que receberam sua parte do <em>Logos<\/em> novo\u201d (CL\u00c9MENT D\u2019ALEXANDRIE, <em>Le P\u00e9dagogue<\/em> &#8211; I, 5, 20, 3, p.147). Clemente precisa que se trata de se deixar conduzir pelo Cristo at\u00e9 nas dimens\u00f5es mais concretas da exist\u00eancia \u2013 a maneira de comer, de se vestir, de se dar \u00e0s diversas ocupa\u00e7\u00f5es da vida cotidiana. Poder-se-ia dizer, para usar uma linguagem contempor\u00e2nea, que para os Padres dos primeiros s\u00e9culos n\u00e3o h\u00e1 \u201ccristologia\u201d sem \u201ccristopraxia\u201d: o comportamento efetivo dos crist\u00e3os \u00e9 que deve atestar a realidade de sua f\u00e9. Evidentemente, os Padres n\u00e3o ignoram que essa exig\u00eancia \u00e9 ami\u00fade negada nos fatos, mas diante disso eles insistem na necessidade do arrependimento, pois o comportamento dos pecadores atinge a identidade daqueles que, batizados em Cristo, sempre deveriam viver com ele e nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fidelidade ao Verbo encarnado tenciona, portanto, a refletir-se na qualidade da exist\u00eancia como um todo. Esta convic\u00e7\u00e3o exprime-se, entre outras coisas, mediante a instru\u00e7\u00e3o catecumenal (como se v\u00ea na <em>Tradi\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica<\/em>); ela marca, mais amplamente, toda a catequese sacramental, pois, mesmo se a celebra\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios, e nomeadamente da eucaristia do \u201cdia do Senhor\u201d, \u00e9 um momento capital da vida crist\u00e3, os frutos dessa celebra\u00e7\u00e3o devem, justamente, se manifestar no conjunto dessa vida, desde as situa\u00e7\u00f5es mais comuns at\u00e9 as mais excepcionais, como, por exemplo, a da persegui\u00e7\u00e3o. Mencionemos, ainda, que tamb\u00e9m o movimento mon\u00e1stico, que nasce no decorrer do s\u00e9culo III, ilustra, em seu modo, esta mesma convic\u00e7\u00e3o: tornar-se \u201camigo do Cristo\u201d, para os que se retiram na solid\u00e3o dos desertos do Egito ou da Palestina, \u00e9 engajar-se num modo de exist\u00eancia capaz de exprimir, pela sua radicalidade, a profundidade da ades\u00e3o ao Senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas s\u00e3o as principais orienta\u00e7\u00f5es da cristologia nos s\u00e9culos II e III. Com esse pano de fundo, cabe agora concentrar-se sobre dois autores especialmente importantes desta \u00e9poca: Ireneu e Or\u00edgenes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 A cristologia de Ireneu<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro desses autores, origin\u00e1rio da \u00c1sia Menor e bispo de Li\u00e3o, logo depois da persegui\u00e7\u00e3o que atingiu os crist\u00e3os no ano de 177, escreveu uma obra que chegou at\u00e9 n\u00f3s intitulada <em>Contra as Heresias<\/em>. Esta obra visa, por um lado, \u00e0 doutrina de Marci\u00e3o, que opunha o Deus de Jesus Cristo (reconhecido como Deus justo e bom) ao Deus revelado no Antigo Testamento (apresentado como juiz vingador e guerreiro). Al\u00e9m disso, Marci\u00e3o era \u201cdoceta\u201d e considerava que o Salvador adotou somente uma apar\u00eancia carnal. A obra de Ireneu se dirige tamb\u00e9m, de modo mais abrangente, contra todas as correntes \u201cgn\u00f3sticas\u201d, para as quais o mundo material, obra de um deus inferior (o \u201cdemiurgo\u201d) devia ser visto como intrinsecamente mau. Estas correntes estabeleciam uma oposi\u00e7\u00e3o radical entre a mat\u00e9ria e o esp\u00edrito e afirmavam que somente alguns eleitos podiam ser salvos por meio de seu conhecimento da verdade \u2013 a verdade que era ensinada por gente como Valentino, Bas\u00edlides e outros \u201cgn\u00f3sticos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ireneu tinha consci\u00eancia que tais \u201cheresias\u201d falsificavam radicalmente a prega\u00e7\u00e3o do evangelho como tinha sido transmitido pelos Ap\u00f3stolos e depois pelos bispos que os sucederam. Por isso, empenha-se a refut\u00e1-las e a lhes contrapor uma reta compreens\u00e3o das Escritura e uma doutrina fiel da \u201cregra da f\u00e9\u201d acolhida entre as Igrejas. Ele insiste, por isso, na unidade de Deus e na unidade da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o; \u00e9 um s\u00f3 e o mesmo Deus que se revelou no Antigo e no Novo testamentos, ainda que essa revela\u00e7\u00e3o tenha passado por certo n\u00famero de fases, atingindo seu ponto central na vinda do Filho de Deus no meio dos homens. Assim, no quadro de sua oposi\u00e7\u00e3o a Marci\u00e3o e \u00e0s correntes gn\u00f3sticas, Ireneu \u00e9 levado a desenvolver importante reflex\u00e3o sobre o Cristo. Ele sublinha, primeiro, que Cristo tinha sido prefigurado ou profetizado nos s\u00e9culos que precederam a sua vinda: desde esses s\u00e9culos, escreve Ireneu, Deus agia por suas \u201cm\u00e3os\u201d (que s\u00e3o o Verbo e o Esp\u00edrito), e \u201cdesde o princ\u00edpio (&#8230;) o Verbo de Deus se tinha acostumado a subir e a descer para a salva\u00e7\u00e3o dos que eram molestados\u201d (LYON &#8211; V, 5, 1 e IV, 12, 4, 1982, p. 580 e 440-441). Mas Ireneu evidencia tamb\u00e9m, sobre este pano de fundo, a novidade da Encarna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leiam com aten\u00e7\u00e3o o Evangelho que nos foi dado pelos ap\u00f3stolos, leiam tamb\u00e9m com aten\u00e7\u00e3o os profetas, e voc\u00eas constatar\u00e3o que toda a obra, toda a doutrina e toda a Paix\u00e3o de nosso Senhor a\u00ed est\u00e3o preditas. \u2013 Mas ent\u00e3o, pensareis talvez, o que \u00e9 que o Senhor aportou de novo por sua vinda? E bem, saibam que ele aportou toda novidade, portanto sua pr\u00f3pria pessoa anunciada antecipadamente: pois o que foi anunciado por antecipa\u00e7\u00e3o era precisamente \u00e9 que a Novidade viria renovar e revificar o homem (LYON &#8211; IV, 34, 1, 1982, p. 526).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ireneu explica o que constitui o car\u00e1ter incompar\u00e1vel e \u00fanico do Verbo feito carne: ele \u00e9 inseparavelmente homem e Deus. Por um lado, contra as correntes docetistas, defende que o salvador, nascido de Maria, foi um homem verdadeiro; por outro lado, contra aqueles para quem Jesus teria sido apenas \u201cadotado\u201d como Filho de Deus, sublinha que o salvador \u00e9 verdadeiramente Deus. Exatamente por ser homem e Deus ele ofereceu \u00e0 humanidade, desviada pelo pecado, a possibilidade de reencontrar o caminho da comunh\u00e3o na vida divina:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ent\u00e3o misturou e uniu, como j\u00e1 dissemos, o homem a Deus (&#8230;) Era necess\u00e1rio que o \u201cMediador de Deus e dos homens\u201d, por seu parentesco com cada uma das duas partes, os reconduzisse uma e outra \u00e0 amizade e \u00e0 conc\u00f3rdia, de modo que ao mesmo tempo Deus acolhesse o homem e que o homem se oferecesse a Deus. Como ter\u00edamos podido, com efeito, ter parte na filia\u00e7\u00e3o adotiva para com Deus, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos recebido, pelo Filho, a comunh\u00e3o com Deus? E como ter\u00edamos recebido esta comunh\u00e3o com Deus, se o seu Verbo n\u00e3o estivesse entrado em comunh\u00e3o conosco fazendo-se carne? Por sinal \u00e9 por isso que ele passou por todas as idades da vida, concedendo atrav\u00e9s disso a todos os homens a comunh\u00e3o com Deus (LYON &#8211; III, 18, 7, 1982, p. 365-366).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, Ireneu exp\u00f5e, contra o dualismo de Marci\u00e3o e dos gn\u00f3sticos, a identidade do Verbo feito carne que, em sua unidade, \u00e9 verdadeiro homem e verdadeiro Deus. E ele sublinha que a encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente ordenada para a vida do homem e sua comunh\u00e3o com a divindade:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gl\u00f3ria de Deus \u00e9 o homem vivo, e a vida do homem \u00e9 a vis\u00e3o de Deus: se a revela\u00e7\u00e3o de Deus pela cria\u00e7\u00e3o j\u00e1 concede a vida a todos os seres que vivem sobre a terra, quanto mais a manifesta\u00e7\u00e3o do Pai pelo Verbo concede a vida aos que veem Deus!\u00a0(LYON &#8211; IV, 20, 7, 1982, p. 474).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ireneu escreve, no mesmo sentido, que Jesus Cristo \u201cpor causa de seu amor superabundante se fez aquilo que n\u00f3s somos a fim de fazer de n\u00f3s aquilo que ele \u00e9\u201d (LYON, Pr\u00e9face du livre V, 1982, p. 568). E para expressar este lugar central do Verbo feito carne na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, ele retoma uma palavra do NT para lhe dar uma amplid\u00e3o totalmente nova: o verbo \u201crecapitular\u201d. Este termo, j\u00e1 presente em Rm 13,9 e Ef 1,10, \u00e9 empregado de diversas maneiras em <em>Contra as Heresias<\/em>: o Cristo \u00e9 o Novo Ad\u00e3o, que \u201crecapitulou\u201d o primeiro Ad\u00e3o; ele \u201crecapitulou\u201d a desobedi\u00eancia deste por sua pr\u00f3pria \u201cobedi\u00eancia\u201d; e ele o \u201crecapitulou\u201d pelo lenho da cruz (enquanto Ad\u00e3o e Eva comeram do fruto da \u00e1rvore e, nesse sentido, desobedeceram pelo lenho)\u201d (LYON &#8211; III, 22, 3\u00a0; IV, 40, 3\u00a0; V, 19, 1, 1982, p. 385; 559; 626). A novidade de Cristo mostra-se no pr\u00f3prio fato de ele ter \u201crecapitulado todas as coisas\u201d \u2013 isto \u00e9: ele resumiu em sua pessoa, ao mesmo tempo, o primeiro Ad\u00e3o e toda a humanidade, ele assume o g\u00eanero humano em sua totalidade, ele \u201crecria\u201d a humanidade\u00a0 livrando-a do pecado e renovando-a, e a conduziu \u00e0 sua plena realiza\u00e7\u00e3o, a saber, \u00e0 perfeita comunh\u00e3o dos humanos com a pr\u00f3pria vida de Deus (SESBO\u00dc\u00c9, 2000, p. 160-163).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia de Ireneu desenvolve outros temas, inclusive a respeito do Cristo e de sua obra em favor da humanidade, e o que acabamos de dizer indica pelo menos algumas orienta\u00e7\u00f5es essenciais disso. Como se v\u00ea, \u00e9 a confronta\u00e7\u00e3o com as doutrinas de Marci\u00e3o e dos gn\u00f3sticos que o conduziu a desenvolver uma reflex\u00e3o profunda e original acerca do Verbo feito carne, por meio da media\u00e7\u00e3o das Escrituras e do respeito da tradi\u00e7\u00e3o que vem dos Ap\u00f3stolos e de seus sucessores \u2013 esta tradi\u00e7\u00e3o de que vivem as Igrejas espalhadas por diversos lugares e que, precisamente atrav\u00e9s dessa diversidade, testemunha uma s\u00f3 e mesma f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 A cristologia de Or\u00edgenes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Or\u00edgenes nasceu por volta de 185 em Alexandria, onde passou a primeira parte de sua vida. Ele adquiriu s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e, sobretudo, dedicou-se a um estudo muito aprofundado da B\u00edblia. Obrigado a deixar Alexandria por causa do desentendimento com o bispo dessa cidade, foi para Cesareia da Palestina, onde continuou seu imenso trabalho sobre as Escrituras. Sua obra \u00e9 consider\u00e1vel (ainda que tenhamos perdido a maior parte dela, em consequ\u00eancia das acusa\u00e7\u00f5es de heterodoxia, geralmente injustas, que foram levantadas contra o alexandrino depois de sua morte). Sua obra compreende o <em>Tratado dos Princ\u00edpios<\/em>, que \u00e9 a primeira tentativa de s\u00edntese doutrinal na hist\u00f3ria da teologia; al\u00e9m disso, uma grande apologia, o <em>Contra Celso<\/em>, na qual Or\u00edgenes responde \u00e0s obje\u00e7\u00f5es de um fil\u00f3sofo grego contra o cristianismo; e sobretudo os coment\u00e1rios de livros b\u00edblicos e grande n\u00famero de homilias sobre passagens escritur\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o de Or\u00edgenes sobre o Verbo de Deus deve antes de tudo ser vista no contexto de sua incessante medita\u00e7\u00e3o sobre a Sagrada Escritura. O alexandrino explica que o leitor das Escrituras n\u00e3o deve simplesmente explicar o sentido literal de tal ou tal texto, mas elevar-se \u00e0 descoberta de seu sentido espiritual, que \u00e9, antes de tudo, o sentido que o texto recebe \u00e0 luz de Cristo, que \u201clevou \u00e0 plenitude\u201d as Escrituras. Ali\u00e1s, incumbe ao leitor buscar o sentido do texto para sua pr\u00f3pria vida, ou seja, reconhecer como os mist\u00e9rios assim revelados devem tomar corpo no conjunto de seu existir. Ora, esta compreens\u00e3o dos sentidos da Escritura (dos quais Or\u00edgenes \u00e9 o primeiro a oferecer uma exposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica) se liga imediatamente \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que o <em>Logos<\/em> de Deus, mesmo que se manifeste de maneira vis\u00edvel nos dias da Encarna\u00e7\u00e3o, j\u00e1 estava presente no decurso da hist\u00f3ria anterior e, de modo semelhante, continua presente depois de sua vinda em nossa humanidade. E essa presen\u00e7a se comunicava, desde os s\u00e9culos que precederam o nascimento de Jesus, pela pr\u00f3pria Escritura, que n\u00e3o se reduz, portanto, \u00e0 mera letra, mas que, sob o seu v\u00e9u, deu acesso ao <em>Logos<\/em> divino. Or\u00edgenes via o s\u00edmbolo disso na imagem do \u201cpo\u00e7o\u201d, muitas vezes utilizada na B\u00edblia, desde o G\u00eanesis at\u00e9 o epis\u00f3dio da samaritana no Evangelho de Jo\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lemos que os patriarcas tamb\u00e9m tiveram po\u00e7os: Abra\u00e3o teve um, Isaac tamb\u00e9m, Jac\u00f3, penso, tamb\u00e9m. Parta desse po\u00e7o, percorra toda a Escritura nela buscando os po\u00e7os e chega aos Evangelhos (&#8230;) \u00e9 preciso tomar o Verbo de Deus como um po\u00e7o, se ele esconde um profundo mist\u00e9rio, ou como uma fonte, se ela transborda e se derrama em favor dos povos (ORIG\u00c8NE, <em>Hom\u00e9lie sur les Nombres<\/em> &#8211; XII, 1, p. 75-77).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Or\u00edgenes dedica-se, pois, a escrutar os textos do AT para descobrir como o <em>Logos<\/em> de Deus se revela j\u00e1 neles. Esta revela\u00e7\u00e3o volta-se para o futuro na medida em que numerosos textos podem ser lidos como prefigura\u00e7\u00f5es ou como profecias do Cristo que vem \u00e0 carne (assim, Isaac oferecido em sacrif\u00edcio \u00e9 entendido como figura de Jesus oferecendo-se a si mesmo at\u00e9 a morte, e as palavras de Servo padecente no livro de Isa\u00edas s\u00e3o entendidas como anunciando de antem\u00e3o a Paix\u00e3o do Cristo). O NT atesta certamente uma novidade essencial, visto que a partir dele o <em>Logos<\/em> se fez vis\u00edvel no meio dos homens; mas Or\u00edgenes sublinha que n\u00e3o era suficiente ver Jesus para reconhec\u00ea-lo como o Filho de Deus e que, mesmo para os que o reconhecem assim, \u00e9 preciso continuar a escrutar a letra dos evangelhos para chegar \u00e0 compreens\u00e3o espiritual do salvador e para se tornar, pessoalmente, \u201coutro Cristo\u201d. Ele formula esta \u00faltima exig\u00eancia numa linguagem que posteriormente ser\u00e1 retomada pelos autores espirituais:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que serve Jesus ter vindo somente na carne que ele tomou de Maria se eu n\u00e3o mostrar igualmente que ele \u00e9 vindo na nossa pr\u00f3pria carne? (ORIG\u00c8NE, <em>Hom\u00e9lies sur la Gen\u00e8se<\/em> &#8211; III, 7, p. 141).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que o Cristo veio outrora na carne, se ele n\u00e3o \u00e9 vem tamb\u00e9m em vossa alma? Oremos para que cada dia seu advento se cumpra em n\u00f3s e que possamos dizer: \u201cEu vivo, mas n\u00e3o sou mais que que vivo, mas o Cristo que vive em mim (ORIG\u00c8NE, <em>Hom\u00e9lies sur Luc<\/em> &#8211; XXII, 3, p. 303; cf. Gal 2, 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o se contenta, por\u00e9m, em sublinhar como Cristo se revela atrav\u00e9s dos santos livros; mais exatamente, pela pr\u00f3pria via dessa revela\u00e7\u00e3o, ele chega a uma reflex\u00e3o profunda sobre a identidade do Verbo de Deus. Se ele reconhece, por um lado, a humanidade do <em>Logos<\/em> feito carne, ele explica tamb\u00e9m que a alma do salvador \u00e9 radicalmente unida a Deus. Sobretudo, ele professa a eterna gera\u00e7\u00e3o do <em>Logos<\/em> divino. Este \u00faltimo ponto foi frequentemente contestado, e isto desde a \u00e9poca patr\u00edstica, sob o pretexto de que Or\u00edgenes apresenta muitas vezes o Filho como estando abaixo do Pai e subordinado a ele. Assim, ele foi acusado de ter aberto o caminho \u00e0 doutrina err\u00f4nea de \u00c1rio, no in\u00edcio do s\u00e9culo IV, e que ele recusaria a gera\u00e7\u00e3o eterna do Filho e considerava-o como uma criatura. Apesar disso, \u00e9 f\u00e1cil convencer-se, com base em alguns de seus textos, que Or\u00edgenes realmente manteve a gera\u00e7\u00e3o eterna do <em>Logos<\/em>, que ele identifica com a \u201cSabedoria\u201d de Deus, sempre presente junto do Pai: \u201cDeus Pai sempre foi, ele sempre tem tido um Filho \u00fanico que, ao mesmo tempo, \u00e9 chamado de Sabedoria\u201d (ORIG\u00c8NE, <em>Trait\u00e9 des pr\u00edncipes<\/em> &#8211; I, 4, 4, p. 171).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com certeza, as quest\u00f5es a respeito da identidade do Filho de Deus ser\u00e3o consideravelmente aprofundadas nos s\u00e9culos ulteriores, particularmente no quadro das controv\u00e9rsias suscitadas pelo arianismo no s\u00e9culo IV e, depois, por Nest\u00f3rio e \u00cautiques no s\u00e9culo V. Os desenvolvimentos precedentes, por\u00e9m, bastam para mostrar que a \u00e9poca patr\u00edstica viu emergir, desde os primeiros s\u00e9culos, contribui\u00e7\u00f5es maiores para a reflex\u00e3o cristol\u00f3gica. N\u00e3o deve causar admira\u00e7\u00e3o que essas contribui\u00e7\u00f5es foram tamb\u00e9m marcadas, em certos casos, por tateamentos ou hesita\u00e7\u00f5es: precisou-se de tempo para chegar a uma compreens\u00e3o mais profunda daquilo que dizem o NT e a \u201cregra da f\u00e9\u201d a respeito de Jesus Cristo. Mas os s\u00e9culos II e III representam justamente um momento capital nesta g\u00eanese da reflex\u00e3o cristol\u00f3gica, e n\u00e3o se poderia sublinhar demais o quanto esta se alimentou, antes de tudo, nos primeiros Santos Padres, por uma intensa medita\u00e7\u00e3o das Escrituras, esses \u201cpo\u00e7os\u201d aos quais sempre se deve retornar porque permitem n\u00e3o apenas conhecer melhor o Salvador, mas alimentar-se e viver dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Michel F\u00e9dou, SJ<\/em>. Centre S\u00e8vres, Paris. Texto original em franc\u00eas. Tradu\u00e7\u00e3o J. Konings.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c0 DIOGN\u00c8TE. <\/em>In Coll. Sources Chr\u00e9tiennes, n.33 bis. Paris: Cerf, 1951 (Tradu\u00e7\u00e3o portuguesa:<em>\u00a0A carta\u00a0<span style=\"color: #000000;\">a Diogneto. <\/span><\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1976).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>CL\u00c9MENT D\u2019ALEXANDRIE. <em>Le P\u00e9dagogue<\/em>. In. Coll. Sources Chr\u00e9tiennes n.70, Paris: Cerf, 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HIPPOLYTE DE ROME. <em>La Tradition apostolique<\/em>. In Coll. Sources Chr\u00e9tiennes n.11 bis, Paris: Cerf, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IGNACE D\u2019ANTIOCHE. <em>Aux Tralliens. <\/em>In\u00a0Sources Chr\u00e9tiennes n.10 bis. Paris: Cerf, 1969 (Tradu\u00e7\u00e3o portuguesa.\u00a0<em>Cartas de Santo\u00a0<span style=\"color: #000000;\">In\u00e1cio de Antioquia<\/span>:<\/em> comunidades eclesiais em formacao. Petr\u00f3polis: Vozes, 1970).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IR\u00c9N\u00c9E DE LYON, <em>Contre les h\u00e9r\u00e9sies<\/em>. Livres V et IV. Paris: Cerf, 1965, 1969 (Tradu\u00e7\u00e3o portuguesa:\u00a0<span style=\"color: #000000;\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"http:\/\/faculdadejesuita.com.br:81\/cgi-bin\/infoisisnet.exe\/pesq?AUTOR=Irineu,%20Santo,%20Bispo%20de%20Lyon&amp;BASEISIS=1&amp;FROM=1&amp;COUNT=50&amp;FORMAT=referencia&amp;PAGINAORIGEM=&amp;SITE=\">Irineu, Santo, Bispo de Lyon.<\/a><em>\u00a0[Contra as heresias]<\/em>:<\/span> livros I, II, III, IV, V. Sao Paulo: Paulus, 1995 624 p. (Patristica, 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0JUSTIN martyr.\u00a0 <em>\u0152uvres completes<\/em>. Paris: Migne, 1994 (Tradu\u00e7\u00e3o portuguesa: Ju<span style=\"color: #000000;\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"http:\/\/faculdadejesuita.com.br:81\/cgi-bin\/infoisisnet.exe\/pesq?AUTOR=Justino%20de%20Roma,%20Santo&amp;BASEISIS=1&amp;FROM=1&amp;COUNT=50&amp;FORMAT=referencia&amp;PAGINAORIGEM=&amp;SITE=\">stino\u00a0de Roma, Santo.<\/a>\u00a0<em>I e II Apologias ; Di\u00e1logos com Trif\u00e3o<\/em>. Sao Paulo: Paulus, 1995 (Patristica, 3).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0JUSTIN martyr. <em>Apologie pour les chr\u00e9tiens.\u00a0<\/em>In coll.\u00a0Sources Chr\u00e9tiennes n.507, Paris: Cerf, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LA DOCTRINE DES DOUZE AP\u00d4TRES (Didach\u00e9). In coll. Sources Chr\u00e9tiennes n.248. Paris: Cerf, 1978 (Tradu\u00e7\u00e3o portuguesa:\u00a0<em><span style=\"color: #000000;\">Didaqu\u00e9\u00a0ou doutrina dos Ap\u00f3stolos.<\/span><\/em>\u00a0Petr\u00f3polis: Vozes, 1970).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0ORIG\u00c8NE. <em>Hom\u00e9lie sur les Nombres<\/em>, XI-XIX. In Coll. Sources Chr\u00e9tiennes n. 442, Paris: Cerf, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0______. <em>Hom\u00e9lies sur la Gen\u00e8se<\/em>, III. In Coll. Sources Chr\u00e9tiennes n.7 bis, Paris: Cerf, 1944.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>______. Hom\u00e9lies sur Luc<\/em>, XXII, In Coll. Sources Chr\u00e9tiennes n.87, Paris: Cerf,\u00a0 1962.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>______. Trait\u00e9 des principes<\/em>, I-III, In Coll. Sources Chr\u00e9tiennes, Paris: Cerf, 1978 (Tradu\u00e7\u00e3o portuguesa:\u00a0 Or\u00edgenes.\u00a0<em>Tratado sobre os princ\u00edpios<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SESBO\u00dc\u00c9, B. <em>Tout r\u00e9capituler dans le Christ. Christologie et sot\u00e9riologie d\u2019Ir\u00e9n\u00e9e de Lyon<\/em>. Paris: Descl\u00e9e, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> As refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas desse verbete estar\u00e3o em franc\u00eas, l\u00edngua original em que foi escrito. Por\u00e9m, caso hajam tradu\u00e7\u00f5es ao portugu\u00eas, as mesmas estar\u00e3o nas refer\u00eancias finais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio Introdu\u00e7\u00e3o 1 Panorama geral da cristologia nos s\u00e9culos II e III 2 Os principais eixos da reflex\u00e3o cristol\u00f3gica 3 A cristologia de Ireneu 4 A cristologia de Or\u00edgenes Conclus\u00e3o 5 Refer\u00eancias Introdu\u00e7\u00e3o A f\u00e9 em Jesus Cristo, transmitida pela prega\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos e, mais amplamente, pelos diversos escritos do NT, suscitou nos s\u00e9culos seguintes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1641"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1641\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1649,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1641\/revisions\/1649"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}