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{"id":1562,"date":"2017-12-30T16:21:32","date_gmt":"2017-12-30T18:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1562"},"modified":"2017-12-31T13:50:27","modified_gmt":"2017-12-31T15:50:27","slug":"mistica-e-erotismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1562","title":{"rendered":"M\u00edstica e erotismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 M\u00edstica: defini\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Erotismo: defini\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 M\u00edstica e erotismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 As intercess\u00f5es entre m\u00edstica e erotismo na arte<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 M\u00edstica: defini\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A etimologia da palavra m\u00edstica atesta o car\u00e1ter de revela\u00e7\u00e3o carac\u00adter\u00edstico dessa experi\u00eancia. O termo grego <em>mystik\u00f3s <\/em>tem em sua raiz o verbo <em>myo, <\/em>que significa \u201cfechar\u201d e, em particular, \u201cfechar os olhos\u201d. Em certo sentido, a m\u00edstica pressup\u00f5e o mist\u00e9rio e a possibilidade de seu desvelamento: por tr\u00e1s do mundo das apar\u00eancias resta um conhecimento e uma verdade n\u00e3o pass\u00edvel de apreens\u00e3o cognosc\u00edvel\/sens\u00edvel, realidades poss\u00edveis de se enxergar quando se \u201cfecha os olhos\u201d da raz\u00e3o e se salta para essa alteridade absoluta do completamente Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00edstica, em suas diferentes manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, tem sido com\u00adpreendida como uma experi\u00eancia radical atrav\u00e9s da qual se tenta recuperar a realidade como um todo org\u00e2nico e coeso, sem fissuras conceituais, ou, em outras palavras, como uma tentativa de sair do mundo do \u201cisto e aquilo\u201d e alcan\u00e7ar a unidade\/inteireza da realidade. Essa Unidade pode ser representada positivamente como Deus ou o divino, ou simplesmente como o Uno, conforme defini\u00e7\u00e3o de Leonardo Boff: \u201cToda m\u00edstica, crist\u00e3 ou pag\u00e3, vive de uma experi\u00eancia radical: aquela da unidade do mundo com o supremo princ\u00edpio ou do homem com Deus. Trata-se de uma experi\u00eancia imediata de Deus ou do Uno\u201d (BOFF, 1983, 16). Ou, como afirma Morando,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerada segundo as \u00e9pocas e as culturas como experi\u00eancia de santidade nas religi\u00f5es, de loucura com o advento da psiquiatria, ou de emerg\u00eancia da totalidade de ser na sociedade secularizada e rom\u00e2ntica da Nova Era; sempre e qualquer que seja o modo caracteriza\u00e7\u00e3o que possamos utilizar, a experi\u00eancia m\u00edstica cumpre uma fun\u00e7\u00e3o indicadora fundamental: a de mostrar-nos o limite de nossa experi\u00eancia, o limite de nosso conhecimento, ao apontar rumo a uma realidade que transcende (no sentido profano ou religioso) os limites de nosso eu. O m\u00edstico aparece assim como o indicador de Outro, enquanto express\u00e3o do que nos excede. \u00c9 o testemunho daquilo que nos ultrapassa, a recorda\u00e7\u00e3o de que vivemos envolto na densidade do mist\u00e9rio e de que o real segue estando al\u00e9m do que se nos d\u00e1 a conhecer (MORANO, 2004, 217)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se v\u00ea, tanto a experi\u00eancia m\u00edstica quanto seu testemunho s\u00e3o did\u00e1ticos: nos mostram os limites do nosso conhecer e os limites da nossa linguagem. E desta forma nos possibilita vivenciar o mist\u00e9rio intr\u00ednseco \u00e0quilo que nos excede como seres de e da cultura. Nesse sentido a m\u00edstica tem implica\u00e7\u00f5es espirituais, \u00e9ticas e cognitivas que s\u00e3o importantes para a compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno. Espirituais porque quando tocado pelo sagrado o m\u00edstico torna-se \u201cuma nova criatura\u201d (2Cor, 5,17) cujos prop\u00f3sitos, comportamento, desejos e ambi\u00e7\u00f5es s\u00e3o totalmente dirigidos por uma vontade que ultrapassa seu entendimento; \u00e9ticas porque o itiner\u00e1rio m\u00edstico exige daquele que o empreende comprometimentos com valores que est\u00e3o na contram\u00e3o daqueles adotados pela sociedade capitalista contempor\u00e2nea; e, por fim, cognitivos, pois mais que conhecimento positivo sobre o mundo e sobre Deus a m\u00edstica p\u00f5e sob suspeita o que pensamos saber sobre os mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua proposta de caracteriza\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos m\u00edsticos o estudioso das religi\u00f5es Juan Martin Velasco afirma que as experi\u00eancias m\u00edsticas<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">poderiam ser descritas como epis\u00f3dios mais ou menos breves nos quais um sujeito entre em rela\u00e7\u00e3o com uma realidade que o supera absolutamente, ou, melhor dizendo, com dimens\u00f5es e aspectos do real que superam absolutamente as dimens\u00f5es e aspectos com os quais entra em contato em sua vida ordin\u00e1ria (VELASCO, 2004, 24).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A afirma\u00e7\u00e3o de que na m\u00edstica h\u00e1 uma esp\u00e9cie de epifania do real, com uma conseq\u00fcente desautomatiza\u00e7\u00e3o dos modos de ver e perceber o mundo, enfatiza o aspecto n\u00e3o ordin\u00e1rio do evento, sua aura de acontecimento revelador e transformador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma abordagem psicol\u00f3gica do fen\u00f4meno religioso (ver M\u00edstica e psican\u00e1lise), William James legou uma defini\u00e7\u00e3o hoje j\u00e1 cl\u00e1ssica da experi\u00eancia m\u00edstica, na qual s\u00e3o ressaltadas quatro marcas da mesma, quais sejam: a) a <strong>inefabilidade<\/strong>: para W. James essa experi\u00eancia traz em si a marca da negatividade, \u201ccuja qualidade precisa ser experimentada diretamente: n\u00e3o pode ser comunicada nem transferida a outros\u201d; b) <strong>qualidade no\u00e9tica<\/strong>: ainda que semelhantes aos sentimentos (isto \u00e9, inef\u00e1veis),<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cos estados m\u00edsticos parecem ser tamb\u00e9m para os que os experimentam, estados de conhecimento, estados de vis\u00e3o interior dirigida a profundezas de verdade n\u00e3o sondadas pelo intelecto discursivo. S\u00e3o ilumina\u00e7\u00f5es, revela\u00e7\u00f5es cheias de significado e import\u00e2ncia, por mais inarticuladas que continuem sendo (..)\u201d (JAMES, 1995, 237);<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) <strong>transitoriedade<\/strong>: n\u00e3o podem perdurar por muito tempo, ainda que possam se repetir em momentos posteriores; d) <strong>passividade<\/strong>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cse bem que a aproxima\u00e7\u00e3o de estados m\u00edsticos seja facilitada por opera\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias preliminares, como a fixa\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, a execu\u00e7\u00e3o de certos gestos corporais, ou outras maneiras prescritas pelos manuais de misticismo, todavia, depois que a esp\u00e9cie caracter\u00edstica de consci\u00eancia se imp\u00f4s, o m\u00edstico tem a impress\u00e3o de que a sua pr\u00f3pria vontade est\u00e1 adormecida e, \u00e0s vezes, de que ele est\u00e1 sendo agarrado e seguro por uma for\u00e7a superior. Esta \u00faltima particularidade liga os estados m\u00edsticos a certos fen\u00f4menos definidos de personalidade secund\u00e1rios ou alternativos, como o discurso prof\u00e9tico, a escrita autom\u00e1tica ou o transe medi\u00fanico\u201d (JAMES, 1995, 238).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras caracter\u00edsticas da experi\u00eancia m\u00edstica s\u00e3o apontadas por estudiosos diversos, quais sejam: a) a descontinuidade completa entre a experi\u00eancia vivida e todas as outras cotidianas; b) lucidez e certeza na narrativa, isto \u00e9, apesar de dificuldade de se encontrar palavras para narrar a experi\u00eancia n\u00e3o se demonstra hesita\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 viv\u00eancia da experi\u00eancia; c) presen\u00e7a amorosa e transformadora daquele que irrompe na experi\u00eancia m\u00edstica &#8211; aqui parece que tal caracter\u00edstica seja mais pertinente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00edsticas crist\u00e3s -; d) suspens\u00e3o do escoamento do tempo; e) simultaneidade de percep\u00e7\u00f5es sens\u00edveis que normalmente seriam dissociadas, por exemplo, arrebatamento e gozo que \u00e9 tamb\u00e9m dor e ang\u00fastia; f) inefabilidade da experi\u00eancia (BOFF, 2004, 1162-1169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique de Lima Vaz, priorizando a m\u00edstica crist\u00e3, ir\u00e1 repetir a defini\u00e7\u00e3o de J. Maritain, para quem essa \u00e9 uma experi\u00eancia fruitiva do Absoluto. Tendo, pois, como singularidade um objeto de frui\u00e7\u00e3o absoluto, Lima Vaz situa a experi\u00eancia m\u00edstica em um tri\u00e2ngulo \u201cm\u00edstico-m\u00edstica-mist\u00e9rio\u201d:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia m\u00edstica, em seu teor original, situa-se justamente no interior desse tri\u00e2ngulo: na intencionalidade experiencial que une o m\u00edstico como iniciado ao Absoluto como mist\u00e9rio; e na linguagem com que, num segundo momento, rememorativo e reflexivo, a experi\u00eancia \u00e9 dita como m\u00edstica e se oferece como objeto a explica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de natureza diferente (VAZ, 2000, 17).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para melhor compreens\u00e3o do fen\u00f4meno, Lima Vaz distingue didaticamente tr\u00eas grandes formas pelas quais a experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 vivida pelos m\u00edsticos e pensada pelos te\u00f3ricos no Ocidente: a m\u00edstica especulativa, a m\u00edstica mist\u00e9rica e a m\u00edstica prof\u00e9tica. Na m\u00edstica especulativa o ser \u00e9 uma esp\u00e9cie de prolongamento da experi\u00eancia metaf\u00edsica, cuja origem remonta a Plat\u00e3o, e tem seus prolongamentos na m\u00edstica neoplat\u00f4nica (Plotino, Porf\u00edrio, Proclo) e na m\u00edstica crist\u00e3 (Greg\u00f3rio de Nissa, Pseudo-Dion\u00edsio, S\u00e3o Boaventura, Tom\u00e1s de Aquino, Mestre Eckhart, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz e outros). Se na metaf\u00edsica a intelig\u00eancia procede pela via discursiva em seu intento de intuir o divino ou Absoluto,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na m\u00edstica especulativa a intelig\u00eancia \u00e9 elevada como que acima de si pelo \u00edmpeto profundo de atingir em si mesmo o Absoluto na sua plenitude absoluta de <em>ser<\/em>. Mas como atingi-lo desta sorte sem identificar-se, de alguma maneira, com ele e sem descobrir em si mesma uma identidade original com o Absoluto? Tal \u00e9, fundamentalmente, o roteiro desenhado pela m\u00edstica especulativa para seu itiner\u00e1rio, e que ser\u00e1 a fonte de todos os problemas que sua pr\u00e1tica e sua express\u00e3o te\u00f3rica encontrar\u00e3o ao serem recebidos pela tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (VAZ, 2000, 33).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na an\u00e1lise de Lima Vaz o decl\u00ednio da m\u00edstica especulativa na modernidade relaciona-se ao decl\u00ednio da <em>intelig\u00eancia espiritual<\/em>, \u201c\u00f3rg\u00e3o pr\u00f3prio da contempla\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica e da contempla\u00e7\u00e3o m\u00edstica\u201d. A partir de Descartes a m\u00edstica \u00e9 secularizada e transforma-se em filosofia especulativa, seculariza\u00e7\u00e3o que avan\u00e7a de Espinoza at\u00e9 Hegel, e deste at\u00e9 Heidegger, que desenvolve uma esp\u00e9cie de pensamento m\u00edstico-po\u00e9tico do Ser (VAZ, 2000, 43-44).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por m\u00edstica mist\u00e9rica Lima Vaz define aquela \u201cforma de m\u00edstica que se distingue da m\u00edstica especulativa, na medida em que o espa\u00e7o intencional onde se desenrola a experi\u00eancia de Deus n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o interior do sujeito ordenado segundo a estrutura vertical do esp\u00edrito, mas o espa\u00e7o sagrado de um rito de inicia\u00e7\u00e3o (&#8230;) ou de um culto\u201d (VAZ, 2000, 47)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a experi\u00eancia da m\u00edstica especulativa \u00e9 uma experi\u00eancia reflexiva, na m\u00edstica mist\u00e9rica ela \u00e9 lit\u00fargica, voltada para a viv\u00eancia objetiva do <em>myst\u00e9rion<\/em>. Os primeiros cultos de mist\u00e9rio s\u00e3o encontrados nos cultos de mist\u00e9rio da tradi\u00e7\u00e3o religiosa grega, os mais importantes sendo os mist\u00e9rios de El\u00eausis, de Dion\u00edsio e os do orfismo; j\u00e1 a m\u00edstica mist\u00e9rica crist\u00e3 se organiza em torno das categorias do Batismo, Ressurrei\u00e7\u00e3o e Vida Nova, e tem entre seus principais representantes Or\u00edgenes, Greg\u00f3rio de Nissa, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo e Santo Agostinho. Finalmente, h\u00e1 a m\u00edstica prof\u00e9tica, a qual Lima Vaz define como aquela que se constitui em torno da Palavra da revela\u00e7\u00e3o, e \u00e9 a forma original da m\u00edstica crist\u00e3, encontrando seu arqu\u00e9tipo na doutrina e na pr\u00e1tica dos primeiros disc\u00edpulos crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Erotismo: defini\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade postular analogias entre o sentimento de unidade pr\u00f3prio da m\u00edstica e a experi\u00eancia er\u00f3tico-amorosa, e um dos mais significativos estudos sobre essas aproxima\u00e7\u00f5es \u00e9 o que foi feito por Georges Bataille em obras como <em>O erotismo <\/em>e<em> A experi\u00eancia interior<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Georges Bataille busca compreender experi\u00eancias humanas limites em que o pr\u00f3prio ser se p\u00f5e em quest\u00e3o, denominando-as de erotismo, que distingue em erotismo dos corpos, erotismo dos cora\u00e7\u00f5es, erotismo sagrado (que seria a m\u00edstica). Ele identifica nesses movimentos \u201cer\u00f3ticos\u201d a nostalgia de um sentimento de inteireza e plenitude (que ele chama \u201ccontinuidade\u201d), onde o que estaria em jogo seria \u201csubstituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade perdida\u201d (BATAILLE, 1987, 22). Por descontinuidade Bataille entende o espa\u00e7o circunscrito e limitado da subjetividade, o limite entre eu-tu, o abismo que nos separa uns dos outros, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de identidade:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seres que se reproduzem s\u00e3o distintos entre si como s\u00e3o distintos daqueles que os geraram. Cada ser \u00e9 distinto de todos os outros. Seu nascimento, sua morte e os acontecimentos de sua vida podem ter para os outros certo interesse, mas ele \u00e9 o \u00fanico diretamente interessado. S\u00f3 ele nasce. S\u00f3 ele morre. Entre um ser e outro h\u00e1 um abismo, uma descontinuidade (BATAILLE, 1987, 12).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que seja imposs\u00edvel ultrapassar o abismo que nos separa enquanto seres descont\u00ednuos, o erotismo oferece a oportunidade de, juntos, sentirmos a vertigem fascinante que \u00e9 fixar os olhos no precip\u00edcio da pr\u00f3pria finitude humana e, paradoxalmente, experienciar uma fa\u00edsca de eternidade, ainda que de forma pontual (BATAIILE, 1987, 13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed a import\u00e2ncia que ele dar\u00e1 ao erotismo (dos corpos, dos cora\u00e7\u00f5es e sagrado) como \u201cabertura \u00e0 continuidade inintelig\u00edvel, desconhec\u00edvel, que \u00e9 o segredo do erotismo, e cujo segredo s\u00f3 o erotismo desvenda\u201d (BATAILLE, 1987, 22). Em rela\u00e7\u00e3o ao erotismo m\u00edstico Bataille enfatiza uma esp\u00e9cie de transbordamento e esquecimento de si tamb\u00e9m presente no erotismo sensual e no amor-paix\u00e3o; nestes o desejo de fus\u00e3o vem em resposta a um desequil\u00edbrio entre os interditos de conserva\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida e o desejo transgressivo de se \u201cperder\u201d no outro, na m\u00edstica esse outro seria a alteridade absoluta do sagrado ou, em palavras de Rudolf Otto, o <em>completamente outro<\/em> cuja presen\u00e7a causa fasc\u00ednio e temor, mas tamb\u00e9m um apaixonado desejo de entrega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em artigo que aborda as semelhan\u00e7as entre a m\u00edstica e a sensualidade, Bataille afirma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses transes, arrebatamentos e estados teop\u00e1ticos que foram descritos a porfia por m\u00edsticos de todos os credos (hindus, budistas, mu\u00e7ulmanos ou crist\u00e3os \u2014 sem falar dos que, mais raros, n\u00e3o pertencem a uma religi\u00e3o) t\u00eam o mesmo sentido: trata-se sempre de um desapego em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da vida, da indiferen\u00e7a a tudo o que tende a assegur\u00e1-la, da ang\u00fastia sentida nessas condi\u00e7\u00f5es at\u00e9 o instante em que as for\u00e7as do ser naufragam, da abertura enfim para esse movimento imediato da vida que \u00e9 habitualmente comprimido e que se libera de repente no transbordamento de uma alegria infinita de ser (BATAILLE, 1987, 229-230) .<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No erotismo a fus\u00e3o entre fragmento e todo se d\u00e1 de forma objetiva e pontual, ef\u00eamera e transit\u00f3ria; j\u00e1 na m\u00edstica a busca pela reconcilia\u00e7\u00e3o com o divino\/sagrado permanecer\u00e1 como ideal a ser incansavelmente perseguido e que n\u00e3o se restringe ao sentimento ext\u00e1tico de uni\u00e3o homem-deus, mas abrange um processo muito mais complexo de ascese e desprendimento que pode ou n\u00e3o conduzir o m\u00edstico ao \u00eaxtase \u2013 experi\u00eancia fulminante da presen\u00e7a divina. O itiner\u00e1rio do m\u00edstico \u00e9 uma experi\u00eancia radical de abandono e esquecimento de si e das molduras sociais, culturais e cognitivas que nos inscrevem em determinada temporalidade, e nisto se assemelha \u00e0 paix\u00e3o er\u00f3tica. Mas, por outro lado, a m\u00edstica n\u00e3o \u00e9 \u201cimprodutiva\u201d, no sentido em que d\u00e1 Bataille ao erotismo, ou seja, n\u00e3o \u00e9 radical recusa ao que ele chama de \u201cmundo do trabalho\u201d (o mundo dos homens). H\u00e1 que se lembrar dos in\u00fameros exemplos de m\u00edsticos solid\u00e1rios com a constru\u00e7\u00e3o de um <em>ethos<\/em> permeado pela justi\u00e7a social e a viv\u00eancia ativa dos princ\u00edpios \u00e9ticos crist\u00e3os, tais como Santa Teresa de \u00c1vila, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Mestre Echkart, Simone Weill, Edith Stein, Albert Schweitzer, Cristian de Cherg\u00e9, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas interse\u00e7\u00f5es entre poesia, erotismo e m\u00edstica tamb\u00e9m foram pressentidas por Oct\u00e1vio Paz, poeta e ensa\u00edsta que dir\u00e1: \u201cO homem \u00e9 um ser que se assombra: ao se assombrar, poetiza, ama, diviniza [&#8230;]. Nenhuma dessas experi\u00eancias \u00e9 pura; em todas elas aparecem os mesmos elementos, sem que se possa dizer que um \u00e9 anterior ao outro\u201d (PAZ, 1982, 172). Um ser que se assombra diante do sagrado, que diviniza a quem ama, que ama o que o fascina: o homem \u00e9 esse a quem os afetos se interp\u00f5em e comp\u00f5em a base de suas cren\u00e7as e comportamentos e, por este motivo, os fen\u00f4menos da m\u00edstica e da paix\u00e3o er\u00f3tica se ligam de forma t\u00e3o inquietante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentando compreender as afinidades entre estes fen\u00f4menos, Oct\u00e1vio Paz cunha o neologismo <em>outridade<\/em> para tentar explicar, dentro da perspectiva heideggeriana, as experi\u00eancias-limites do sagrado, do erotismo e da poesia. Assim, segundo ele, \u201cA experi\u00eancia do sobrenatural \u00e9 a experi\u00eancia do Outro\u201d (1982, p.155), entretanto esse Outro est\u00e1 no plano da iman\u00eancia, no hist\u00f3rico, isto \u00e9, \u00e9 o homem defrontado com sua pr\u00f3pria conting\u00eancia e temporalidade, com aquilo que Heidegger chama de \u201crude sentimento de estar (ou se encontrar) a\u00ed\u201d e Rudolf Otto de \u201csentimento de estado de criatura\u201d. Logo, a experi\u00eancia de outridade \u00e9 aquela em que a \u2018essencial heterogeneidade do ser\u2019 vem \u00e0 tona e o homem d\u00e1-se conta da fissura intoler\u00e1vel entre ele e o Absoluto, percebendo-se como destitu\u00eddo de inteireza, como um pro-jetar-se no vazio, um inscrever-se na historicidade. Assim, ser-para-a-morte, o homem \u00e9 presen\u00e7a (ser) e aus\u00eancia (n\u00e3o-ser), vazio e anseio pela totalidade, vida e morte. A reden\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o original de car\u00eancia \u2014 o paradoxo proposto por Oct\u00e1vio Paz de ser menos do que se \u00e9<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> \u2014 est\u00e1 em \u2018viver\u2019 a morte como parte intr\u00ednseca do movimento da vida, indo ao encontro desse outro que afinal sou eu mesmo, meu projeto de homem. Lim\u00edtrofe \u00e0 religi\u00e3o, poesia e erotismo, a outridade \u00e9 um experimentar a separa\u00e7\u00e3o e uni\u00e3o \u201cpresentes em todas as manifesta\u00e7\u00f5es do ser, desde as f\u00edsicas at\u00e9 as biol\u00f3gicas\u201d (PAZ, 2003, 109), experi\u00eancia que n\u00e3o pode ser provocada ou dirigida pelo sujeito, pois n\u00e3o se encontra no \u00e2mbito no cognosc\u00edvel, muito embora acess\u00edvel a todos os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma outra semelhan\u00e7a entre Octavio Paz e Bataille \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre erotismo (dos corpos e das palavras) e morte. Compare-se a afirma\u00e7\u00e3o de Bataille \u2014 \u201cAcredito que o erotismo \u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o na vida at\u00e9 na morte\u201d (BATAILLE, 1989, 12) \u2014 com o que nos diz Paz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aparece novamente, agora despojada de sua aur\u00e9ola religiosa, a dupla face do erotismo: fascina\u00e7\u00e3o diante da vida e diante da morte. O significado da met\u00e1fora er\u00f3tica \u00e9 amb\u00edguo. Melhor dizendo, \u00e9 plural. Diz muitas coisas, todas diferentes, mas em todas elas aparecem duas palavras: prazer e morte (PAZ, 2001, 19).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Santa Teresa, a quem foi conferido o t\u00edtulo de Doutora em Teologia:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivo sem viver em mim, \/e t\u00e3o alta vida espero, \/que morro porque n\u00e3o morro, \/A esta divina uni\u00e3o \/Do amor com que eu vivo, \/faz Deus ser meu cativo \/e livre meu cora\u00e7\u00e3o: \/mas causa em mim tal paix\u00e3o \/ver a Deus meu prisioneiro, que morro porque n\u00e3o morro<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santa Teresa expressa nesse poema o paradoxo dos m\u00edsticos e apaixonados: vive-se sem viver porque se tem cativo, prisioneiro, o Amado dentro do peito. E esta presen\u00e7a plat\u00f4nica, que \u00e9 sentida no corpo e na alma, n\u00e3o \u00e9 suficiente para matar o desejo de Presen\u00e7a. Assim, os amantes s\u00e3o prisioneiros da coita amorosa<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, de tal modo que a morte \u00e9 desejada porque seria a uni\u00e3o total com o Amado. A morte torna-se vida, quando significa a uni\u00e3o definitiva entre a Alma e seu Amado, e a vida \u00e9 morte, pois adia esse momento de frui\u00e7\u00e3o total da presen\u00e7a amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 M\u00edstica e erotismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rela\u00e7\u00e3o entre m\u00edstica e erotismo, apesar da estranheza que possa causar, n\u00e3o \u00e9 recente e nem mesmo epis\u00f3dica. J\u00e1 no s\u00e9culo II dC, Or\u00edgenes, um dos pais da Igreja, inaugura uma interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica do <em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em> que influenciar\u00e1 toda a tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica subsequente. Em seu coment\u00e1rio ao livro b\u00edblico Or\u00edgenes toma a no\u00e7\u00e3o de Deus como Eros, for\u00e7a motivadora que move a alma em sua ascens\u00e3o m\u00edstica, que nada mais \u00e9 que o eros tornado impr\u00f3prio em n\u00f3s de volta ao lugar de origem transcendental. Mais tarde, S\u00e3o Bernardo de Claraval interpretar\u00e1 a linguagem er\u00f3rico-amorosa do C\u00e2ntico como a alegoria da uni\u00e3o da alma com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O livro emociona e encanta ao narrar o encontro amoroso entre Amante e Amado (ou Deus e a Alma sedenta de sua presen\u00e7a, conforme interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica dos padres da Igreja), e por isto mesmo tornou-se forte influ\u00eancia na literatura m\u00edstica, como em S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Santa Teresa de \u00c1vila e nas m\u00edsticas beguinas Hadewijch de Antu\u00e9rpia e Mechtild de Magdeburgo. Por outro lado, esse poema er\u00f3tico-amoroso \u00e9 tamb\u00e9m relido por autores brasileiros t\u00e3o diversos quanto Castro Alves, Oswald de Andrade, Hilda Hilst e Manuel Bandeira, que retomam essa tradi\u00e7\u00e3o m\u00edstica para cantar a sacralidade do amor entre um homem e uma mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XIII as m\u00edsticas beguinas, fortemente influenciadas pela teologia do amor de Bernardo de Claraval e pela ret\u00f3rica do amor cort\u00eas, retomam essa interpreta\u00e7\u00e3o m\u00edstica do <em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em> e elaboram uma ousada forma de interpola\u00e7\u00e3o do divino: a m\u00edstica nupcial (ou <em>mystique courtoise<\/em>), que funde as conven\u00e7\u00f5es do amor cort\u00eas com as aspira\u00e7\u00f5es espirituais da m\u00edstica. Hadewijch de Antu\u00e9rpia, por exemplo, \u00e9 uma beguina do s\u00e9c. XII cujos escritos (cartas e poemas) d\u00e3o testemunho do encontro entre as conven\u00e7\u00f5es do amor cort\u00eas com as aspira\u00e7\u00f5es espirituais da m\u00edstica. Nos versos abaixo vemos a express\u00e3o, em linguagem apaixonada, do desejo maior do m\u00edstico, que \u00e9 a viv\u00eancia incondicional e incondicionada do amor por Deus:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Can\u00e7\u00e3o V<\/em>, Hadewijch de Antu\u00e9rpia<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A conduta do Amor \u00e9 inaudita, \/Como bem sabe quem sua atra\u00e7\u00e3o conhece, \/Pois quando d\u00e1 consolo, logo o suspende. \/Aquele a quem toca o Amor \/N\u00e3o encontra repouso; \/Em compensa\u00e7\u00e3o, saboreia \/Numerosas horas inumer\u00e1veis \/Radiante \u00e0s vezes; \u00e0s vezes frio; \/\u00c0s vezes, cauteloso; esfor\u00e7ado \u00e0s vezes; \/Sua inconst\u00e2ncia toma m\u00faltiplas figuras. \/O Amor exige a totalidade \/De uma grande d\u00edvida \/A quem a compartilha convida sua saborosa soberania. \/\u00c0s vezes, cheio de do\u00e7ura; \u00e0s vezes, cruel; \/\u00c0s vezes distante; pr\u00f3ximo \u00e0s vezes; \/A que do Amor compreende \/A rara fidelidade, isso \u00e9 o j\u00fabilo: \/Como derruba \/E abra\u00e7a \/Com um s\u00f3 gesto [\u2026] \/\u00c0S vezes, suave; \u00e0s vezes, severo; \/Em libre consolo, em amea\u00e7ante medo,\/Quando recebe ou reparte seus dons, \/\u00c9 lei que as almas, \/Que no Amor se equivocam, \/Vivam sempre na sombra deste vale.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0De forma semelhante, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, m\u00edstico espanhol do s\u00e9culo XVI, toma como paradigma os encontros e desencontros entre a Alma desejosa da presen\u00e7a divina e Aquele a quem se deve amar sobre todas as coisas, com nosso cora\u00e7\u00e3o, alma, for\u00e7a e entendimento (Mc 12,30). De acordo com a interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica tradicional, a Esposa \u00e9 a Alma, a que ama (Amante) e o Esposo o pr\u00f3prio Deus, e a trajet\u00f3ria que a Alma empreende \u00e9 cheia de percal\u00e7os e ang\u00fastias, em um processo de ascese e ilumina\u00e7\u00e3o que culmina na uni\u00e3o m\u00edstica. No <em>C\u00e2ntico Espiritual<\/em> de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, ao encontrarem-se Amante e Amado para a consuma\u00e7\u00e3o dessas n\u00fapcias m\u00edsticas, a Alma enamorada confessa (estrofes XVII e XVIII):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali me abriu seu peito \/E ci\u00eancia me ensinou muito deleitosa; \/ E a ele, em dom perfeito, \/Me dei, sem deixar coisa, \/E ent\u00e3o lhe prometi ser sua esposa. \/Minha alma se h\u00e1 votado, \/Com meu cabedal todo, a seu servi\u00e7o; \/j\u00e1 n\u00e3o guardo mais gado, \/Nem mais tenho outro of\u00edcio, \/Que s\u00f3 amar \u00e9 j\u00e1 meu exerc\u00edcio.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o joanina \u201cj\u00e1 n\u00e3o tenho outro of\u00edcio e amar \u00e9 meu exerc\u00edcio\u201d aponta para uma rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tico-amorosa em que a assimetria entre Amante e Amado imp\u00f5e ao primeiro a entrega \u00c0quele que toma posse de seu corpo, vontade, intelig\u00eancia e devir. Conforme destaca Maria Clara Bingemer (2004), parece ser uma especificidade da m\u00edstica crist\u00e3 certa passividade que encontra nas met\u00e1foras amorosas seu referencial simb\u00f3lico:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, h\u00e1 uma m\u00edstica crist\u00e3 que se situa, firmemente, na esfera da passividade (do <em>pathos)<\/em>. Isso \u00e9 um tra\u00e7o distintivo de real\u00e7ada import\u00e2ncia, j\u00e1 que nem toda m\u00edstica tem essa marca passiva. Nas religi\u00f5es afro-brasileiras, por exemplo, o m\u00edstico sabe como provocar o \u00eaxtase; igualmente, no Oriente (pensemos, sobretudo na \u00cdndia) ele \u00e9 igualmente ativo no processo, detendo o conhecimento de certas t\u00e9cnicas capazes de levar \u00e0 experi\u00eancia daquilo que est\u00e1 por detr\u00e1s do mundo como se manifesta. Ou seja: h\u00e1 uma ci\u00eancia m\u00edstica, h\u00e1 uma t\u00e9cnica m\u00edstica. O \u00eaxtase pode ser provocado, por tratar-se de um movi\u00admento que vai de baixo para o alto. Na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o percurso \u00e9 inverso: pois principia do alto para baixo. O m\u00edstico \u00e9 acometido por um agente, Deus ou o dem\u00f4nio. Esse, pois, \u00e9 um conceito b\u00e1sico: <em>a experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 uma ex\u00adperi\u00eancia de posse <\/em>(grifo nosso) (BINGEMER, 2004, 462).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito l\u00edrico (a alma) assume uma discursividade feminina na qual se destaca a disponibilidade para o acolhimento do outro, do Amado (Deus). Ainda assim \u00e9 importante ressalvar que tal passividade n\u00e3o implica in\u00e9rcia: \u00e9 a Alma sedenta da presen\u00e7a divina que \u201csai\u201d destemida em busca do amado, atravessando fronteiras e perigos at\u00e9 que Amante e Amado por fim se encontram em um <em>l\u00f3cus amenus<\/em> anteriormente preparado para eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro dos amantes ap\u00f3s um longo percurso cheio de desventuras onde eles se buscam com afinco e f\u00e9 \u00e9 um topos muito explorado na literatura de todas as nacionalidades, e tamb\u00e9m fora da m\u00edstica crist\u00e3 o simbolismo er\u00f3tico \u00e9 presente, aparecendo em tradi\u00e7\u00f5es religiosas t\u00e3o diversas quanto o hindu\u00edsmo, o budismo e o sufismo. No m\u00edstico sufista R\u00fcmi (s\u00e9culo XIII, Oriente M\u00e9dio), por exemplo, encontramos a mesma met\u00e1fora de Deus como o Amado a quem a alma (a Amante) busca reconciliar-se, em uma fus\u00e3o onde o Eu se perde no Uno:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO amoroso busca ardentemente o bem amado: quando o bem amado vem, o amoroso se vai (M III, 4620). A presen\u00e7a do amado \u00e9 como a chama do amor que, quando se eleva, consome tudo o que n\u00e3o \u00e9 o Bem Amado (M V, 588). Nada resta sen\u00e3o Deus. O destino do amante \u00e9 morrer para si mesmo: dele s\u00f3 permanece o nome (MV, 2023)\u201d. (apud TEIXEIRA, 2003, p. 20-41).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses poucos exemplos comprovam que a intercess\u00e3o entre m\u00edstica e erotismo n\u00e3o \u00e9 epis\u00f3dica, gratuita ou excentricidade de alguma personalidade religiosa; o que nos leva a concordar com a afirma\u00e7\u00e3o da fil\u00f3sofa e tamb\u00e9m m\u00edstica Simone Weil: \u201crepreender os m\u00edsticos por amar Deus por meio das faculdades de amor sexual \u00e9 como se algu\u00e9m tivesse que repreender um pintor por fazer quadros usando cores compostas de substancias materiais\u201d (apud MCGINN, 2012, 182).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Intercess\u00f5es entre m\u00edstica e erotismo na arte <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m na literatura e na arte erotismo e m\u00edstica se entrela\u00e7am, quer seja pelos temas e motivos comuns, quer seja pelo dialogo que poetas e artistas em geral estabelecem entre elas, e nesse caso a escultura de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) <em>O \u00eaxtase de Santa Teresa<\/em> \u00e9 uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria. Bernini, um dos maiores escultores do s\u00e9culo XVII, representa a experi\u00eancia m\u00edstica da transverbera\u00e7\u00e3o de Santa Teresa de \u00c1vila, retratada por ela em sua autobiografia. Aliando os sentimentos m\u00edsticos de \u00eaxtase e a figura\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia de intenso prazer que pode ser associada ao sexual, Bernini parece intuir a intima associa\u00e7\u00e3o entre o m\u00edstico e o er\u00f3tico que outra artista contempor\u00e2nea, agora brasileira, ir\u00e1 declarar: \u201cEr\u00f3tico \u00e9 a alma\u201d, verso de Ad\u00e9lia Prado onde subjaz uma concep\u00e7\u00e3o de corpo e alma, iman\u00eancia e transcend\u00eancia como elementos de um \u00fanico todo indiviso, de tal modo que se chega \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o, apenas aparentemente her\u00e9tica, de que \u201csem o corpo a alma de um homem n\u00e3o goza\u201d. Outra poeta brasileira que faz essa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 Hilda Hilst, principalmente quando resgata a tradi\u00e7\u00e3o portuguesa das cantigas de amor para nomear uma experi\u00eancia paradoxal de presen\u00e7a e aus\u00eancia divina, retomando tamb\u00e9m alguns procedimentos ret\u00f3ricos da m\u00edstica apof\u00e1tica. Em um livro de clara inspira\u00e7\u00e3o m\u00edstica \u2013 <em>Poemas malditos, gozosos e devotos<\/em> (2005) &#8211; a poeta Hilda Hilst canta o sofrimento pela aus\u00eancia e indiferen\u00e7a do amado, sendo esse exatamente o Deus crist\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Poema VIII <\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste mundo que te quero sentir \/\u00c9 o \u00fanico que sei. O que me resta. \/Dizer que vou te conhecer a fundo \/Sem as b\u00ean\u00e7\u00e3os da carne, no depois, \/Me parece a mim magra promessa. \/Sentires da alma? Sim. Podem ser prodigiosos. \/Mas tu sabes a del\u00edcia da carne \/Dos encaixes que inventaste. De toques. \/Do formoso das hastes. Das corolas. \/V\u00eas como fico pequena e t\u00e3o pouco inventiva? \/Haste. Corola. S\u00e3o palavras r\u00f3seas. Mas sangram. \/Se feitas de carne. \/Dir\u00e1s que o humano desejo \/N\u00e3o te percebe as fomes. Sim, meu Senhor, \/Te percebo. \/Mas deixa-me amar a ti, neste texto \/Com os enlevos \/De uma mulher que s\u00f3 sabe o homem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em contraparte ao aproveitamento art\u00edstico do tema m\u00edstico temos a opera\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria: a retomada de procedimentos est\u00e9ticos para a melhor express\u00e3o da experi\u00eancia m\u00edstica, e a\u00ed s\u00e3o numerosos os exemplos: as beguinas Hadewijch de Antu\u00e9rpia, Mechthild de Magdeburgo e Marguerite Porete, os m\u00edsticos ib\u00e9ricos Teresa de \u00c1vila e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, os contempor\u00e2neos Ernesto Cardenal e\u00a0 Simone Weill, e outros. Todos esses m\u00edsticos fizeram-se poetas para cantar um amor extremo, buscando inspira\u00e7\u00e3o na tradi\u00e7\u00e3o da poesia amorosa para compor versos de grande expressividade m\u00edstico-er\u00f3tica e beleza po\u00e9tica. Por exemplo, Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense, ao narrar sua experi\u00eancia de convers\u00e3o utiliza com grande liberdade a linguagem dos jogos er\u00f3ticos para expressar o extraordin\u00e1rio desse evento:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando aquele meio dia do 2 de junho, um s\u00e1bado \/Somoza Garc\u00eda passou como raio pela Avenida Roosevelt \/soando todas as buzinas para espantar o tr\u00e1fego, \/nesse mesmo instante, igual que sua triunfal caravana \/assim triunfal tu tamb\u00e9m entraste logo dentre de mim \/e minha alminha indefesa querendo tapar suas vergonhas. \/Foi quase viola\u00e7\u00e3o, \/mas consentida, \/n\u00e3o podia ser de outro modo, \/naquela invas\u00e3o do prazer \/at\u00e9 quase morrer, \/e dizer: j\u00e1 n\u00e3o mais \/que me matas. \/Tanto prazer que produz tanta dor \/Como uma esp\u00e9cie de penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta nicaraguense trata o tema da experi\u00eancia de encontro com Deus como um intercurso amoroso onde a violenta disparidade entre um amante humano e um Amado divino \u00e9 descrita em termos de uma \u201cviola\u00e7\u00e3o consentida\u201d que gera na mesma intensidade dor e prazer. O drama da convers\u00e3o \u00e9 expresso por meio de met\u00e1foras e analogias que nos remetem ao ato sexual e a constru\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que delineiam os pap\u00e9is sociais a serem desempenhados pelos g\u00eaneros: \u00e0 passividade feminina imp\u00f5e-se a impetuosidade masculina que n\u00e3o chega a ser viola\u00e7\u00e3o por ser consentida. S\u00e3o as mesmas figuras e analogias que aparecem nos m\u00edsticos e poetas citados anteriormente, ainda que seja evidente uma distin\u00e7\u00e3o entre ambos (m\u00edsticos e poetas): nos primeiros a presen\u00e7a divina \u00e9 experi\u00eancia vivida no corpo e na alma e, se essa experi\u00eancia \u00e9 fugaz, as marcas que ela deixa n\u00e3o o s\u00e3o, pois subsiste a promessa do encontro entre esses que se amam apaixonadamente: a Alma e seu Deus. H\u00e1 uma Refer\u00eancia absoluta que n\u00e3o apenas legitima essa fala como tamb\u00e9m a torna poss\u00edvel, e \u00e9 a essa presen\u00e7a que o m\u00edstico dirige sua ora\u00e7\u00e3o, celebra\u00e7\u00e3o ou louvor, sendo essa experi\u00eancia singular de ora\u00e7\u00e3o\/louvor que guia seu discurso para longe de toda nega\u00e7\u00e3o vazia e puramente mec\u00e2nica. J\u00e1 nos escritos po\u00e9ticos que dialogam com a ret\u00f3rica m\u00edstica a Presen\u00e7a divina \u00e9 sentida, de forma negativa, como aus\u00eancia que fere a alma, e todo desejo se traduz em um lamento \u2013 o sofrimento amoroso pela indiferen\u00e7a do Amado, como no trecho do poema <em>El ausente<\/em>, do poeta mexicano Oct\u00e1vio Paz, que transcrevemos abaixo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus insaci\u00e1vel que minha ins\u00f4nia alimenta; \/Deus sedento que refrescas tua eterna sede em minhas l\u00e1grimas, \/Deu vazio que golpeias meu peito com um punho de pedra, com um punho de fumo,\u00a0\/Deu que me desabitas,\/\u00a0Deus deserto, pena que minha s\u00faplica banha, \/\u00a0Deus que ao sil\u00eancio do homem que pergunta contestas com um sil\u00eancio maior, \/Deus oco, Deus do nada, meu Deus: \/sangue, teu sangue, o sangue, me guia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra aproxima\u00e7\u00e3o entre m\u00edstica e erotismo \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem: tensionada entre o desejo de expressar o indiz\u00edvel e a limita\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca ao discurso. Os j\u00e1 mencionados poeta Oct\u00e1vio Paz e o fil\u00f3sofo Bataille percebem que a experi\u00eancia de plenitude \u00e9 vivenciada de forma semelhante por meio da m\u00edstica, do erotismo e da poesia, defendendo que a poesia est\u00e1 para a linguagem assim como o erotismo est\u00e1 para a sexualidade, isto \u00e9, se m\u00edstica e erotismo s\u00e3o tentativas de transcender os limites do ser, experi\u00eancias de <em>outridade<\/em>, a linguagem po\u00e9tica \u00e9 o meio encontrado para expressar essas experi\u00eancias lim\u00edtrofes porque a poesia tamb\u00e9m \u00e9 linguagem \u00e0s bordas do indiz\u00edvel, tamb\u00e9m \u00e9 tentativa de escapar dos limites do discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poetas e m\u00edsticos assumem a dura tarefa de dizer uma experi\u00eancia que se encontra fora dos limites da palavra. E talvez por isto multipliquem-se os paradoxos, as met\u00e1foras inquietantes, as imagens inusitadas e er\u00f3ticas. \u201cBeije-me ele com os beijos de sua boca porque melhor \u00e9 o seu amor do que o vinho\u201d, diz-nos o poeta, autor dos <em>C\u00e2nticos<\/em> b\u00edblicos. \u201cO corpo n\u00e3o tem desv\u00e3os,\/s\u00f3 inoc\u00eancia e beleza,\/tanta que Deus nos imita\/ e quer casar com sua Igreja\u201d, ousa Ad\u00e9lia Prado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dito antes, tanto a linguagem da paix\u00e3o quanto o discurso da m\u00edstica \u00e9 uma fala que se confessa impotente, fracassada em seu m\u00e9rito de linguagem produtiva, in\u00fatil at\u00e9. Entretanto, se o fim da experi\u00eancia m\u00edstica \u00e9 o sil\u00eancio \u2013 lembremo-nos o j\u00e1 t\u00e3o citado epigrama de Wittgeinstein: \u201cDaquilo que n\u00e3o se pode falar deve-se calar\u201d \u2013 poucos g\u00eaneros discursivos foram t\u00e3o produtivos quanto esse, pois o que os m\u00edsticos mais fazem \u00e9 falar: na m\u00edstica fala-se (e muito) para confessar-se mudo, emudecido, <em>en fanti.<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00edsticos simplesmente n\u00e3o t\u00eam sido silenciosos. Muitos t\u00eam falado sem restri\u00e7\u00e3o, e outros t\u00eam escrito volumosamente. O g\u00eanero de literatura m\u00edstica \u00e9 n\u00e3o somente quantitativamente vasto, mas linguisticamente luxuriante. No discurso m\u00edstico, a linguagem se desenfreia: ela pula, ela salta, ela canta. Ela fala em prosa e poesia; ela d\u00e1 descri\u00e7\u00f5es objetivas da experi\u00eancia e voa nas asas do \u00eaxtase; ela guia iniciantes com um gentil cuidado e corta a ilus\u00e3o com argumentos de l\u00e2mina afiada. [&#8230;]. Al\u00e9m disso, certos m\u00edsticos t\u00eam tido suas experi\u00eancias m\u00edsticas na e atrav\u00e9s da linguagem. Com isso eu quero dizer n\u00e3o somente que a linguagem evoca e molda essas experi\u00eancias, mas que as formas lingu\u00edsticas participam na revela\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio transcendente. Nesse sentido, pode existir uma m\u00edstica da linguagem (COUSINS, 1992, apud SHOJI, 2003, 60).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todas as inflex\u00f5es poss\u00edveis para a linguagem positiva, a linguagem er\u00f3tica \u00e9 aquela mais apropriada para levar as palavras a ultrapassarem a si mesmas, o que \u00e9 percept\u00edvel nos muitos testemunhos pessoais de m\u00edsticos onde os s\u00edmbolos e as met\u00e1foras usados para caracterizar a uni\u00e3o m\u00edstica ente Criador e criatura assumem uma conota\u00e7\u00e3o claramente sexual, como vimos nos exemplos citados no decorrer do texto. E um dos temas frequentes nestes textos e testemunhos \u00e9 a busca pela fus\u00e3o, em que o Eu seja suprimido pela uni\u00e3o com o sagrado, mote repetido por in\u00fameros m\u00edsticos, e n\u00e3o apenas dentro da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, sendo o s\u00edmbolo da uni\u00e3o er\u00f3tica considerado o mais apropriado para a express\u00e3o do \u00eaxtase m\u00edstico, conforme salienta Rosado:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A uni\u00e3o er\u00f3tico-amorosa tem sido o \u00fanico s\u00edmbolo da uni\u00e3o m\u00edstica utilizado por praticamente todas as tradi\u00e7\u00f5es m\u00edsticas, inclu\u00edda a crist\u00e3, e a diferen\u00e7a de qualquer outro s\u00edmbolo sagrado, a sexualidade imanente no amor e no erotismo \u00e9 universal e a-hist\u00f3rica: o ser humano nunca p\u00f4de prescindir dela, e quando o faz com exerc\u00edcios de ascetismo, recorre a met\u00e1foras ou alegorias para encontrar uma via que permita expressar a inefabilidade da continuidade do ser, da participa\u00e7\u00e3o de Deus por meio de sua semelhan\u00e7a com o ato amoroso (ROSADO, 2001, 10).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reside aqui uma importante interse\u00e7\u00e3o entre m\u00edstica e erotismo: em ambas as experi\u00eancias h\u00e1 um mergulho radical na alteridade, a inten\u00e7\u00e3o de perder-se nesse Outro com o qual apenas \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia; tomemos como exemplo Mois\u00e9s, l\u00edder espiritual que intermediou o estabelecimento da alian\u00e7a entre Deus e o povo hebreu, e ainda assim n\u00e3o pode ver o rosto de Deus, \u201cporque ningu\u00e9m pode v\u00ea-lo e continuar com vida\u201d (Ex. 33,20). Ainda assim o desejo de fus\u00e3o alimenta a imagina\u00e7\u00e3o dos amantes e dos m\u00edsticos, com uma diferen\u00e7a: se no erotismo a fus\u00e3o entre fragmento e todo se d\u00e1 sensual e sensorialmente, ainda que de forma pontual e ef\u00eamera, na m\u00edstica a busca pela reconcilia\u00e7\u00e3o com o divino\/sagrado permanecer\u00e1 como ideal a ser incansavelmente perseguido. O poeta e m\u00edstico Ernesto Cardenal expressa com admir\u00e1vel riqueza e beleza os paradoxos pr\u00f3prios desse encontro m\u00edstico-amoroso:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente a alma sente sua presen\u00e7a numa forma em que n\u00e3o pode equivocar-se, e com tremor e espanto exclama: \u201ctu deves ser aquele que fez o c\u00e9u e a terra!\u201d. E quer esconder-se e desaparecer dessa presen\u00e7a e n\u00e3o pode, porque est\u00e1 como entre a espada e a parede, est\u00e1 entre ele e ele, e n\u00e3o tem aonde escapar, porque essa presen\u00e7a invade c\u00e9us e terra e invade tamb\u00e9m a ela totalmente, e ela est\u00e1 em seus bra\u00e7os. E a alma que perseguiu a felicidade toda a sua vida sem saciar-se nunca e procurando todos os instantes a beleza, o prazer e a felicidade e o gozo, querendo sempre gozar mais e mais, agora em agonia, afogada em um oceano de deleite insuport\u00e1vel, sem margens e sem fundos, exclama: \u201cbasta!basta! N\u00e3o me fa\u00e7as gozar mais, se me amas, porque eu morro!\u201d. Penetrada de uma do\u00e7ura t\u00e3o intensa que se transforma em dor, uma dor indescrit\u00edvel, como algo agridoce que fosse infinitamente amargo e infinitamente doce. Tudo \u00e9 talvez em um segundo, e talvez n\u00e3o voltar\u00e1 a repetir-se em toda a sua vida, mas quando esse segundo passou a alma entende que toda a beleza e as alegrias e gozos da terra ficaram desvanecidos, \u201cs\u00e3o como esterco\u201d, como disseram os santos (skybala, \u201cmerda\u201dcomo diz S\u00e3o Paulo) e j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e1 gozar jamais em nada que n\u00e3o seja isso e v\u00ea que sua vida ser\u00e1 a partir de ent\u00e3o uma vida de tortura e mart\u00edrio porque enlouqueceu, est\u00e1 louco de amor e de nostalgia do que provou, e vai sofrer todos os sofrimentos e torturas contanto que venha provar uma segunda vez, um segundo mais, uma gota mais, essa presen\u00e7a. (1979, p.63-64).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho desse poeta-m\u00edstico nos leva a uma \u00faltima aproxima\u00e7\u00e3o entre a m\u00edstica e o erotismo: o sentimento de plenitude e inteireza quando se \u00e9 tocado pela presen\u00e7a amada. A alma, que \u201cn\u00e3o se saciava nunca\u201d diante da Presen\u00e7a divina, n\u00e3o apenas expande-se por c\u00e9us e terra, mas tamb\u00e9m \u00e9 invadida por esse amor totalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Cleide Maria de Oliveira. <\/em>CEFET, Curvelo (MG), Brasil. Texto original em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BATAILLE, George. <em>M\u00edstica e sensualidade<\/em>. O erotismo. Porto Alegre: L&amp;PM Editores, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">____. <em>A literatura e o mal<\/em><strong>.<\/strong> Trad. De Suely Santos. Porto Alegre: LP &amp; M Editores, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, Leonardo. <em>Mestre Eckhardt<\/em>: a m\u00edstica de Ser e de ter. Petr\u00f3polis: Vozes, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LONGCHAMP, M. H. M\u00edstica. En LACOSTE, J.-Y. <em>Dicion\u00e1rio cr\u00edtico de teologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas; Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2004. 1162-1169.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HILST, Hilda.\u00a0 <em>Poemas malditos, gozozos e devotos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Globo, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JAMES, William. <em>As variedades da experi\u00eancia religiosa<\/em>: um estudo sobre a natureza humana. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1995, 237-8.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIMA VAZ, Henrique C. <em>Experi\u00eancia m\u00edstica e filosofia na tradi\u00e7\u00e3o ocidental<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAGDEBURGO, Macthilde de. <em>La luz divina ilumina los corazones<\/em>. Testimonio de una m\u00edstica del siglo XIII, intr. trad. y notas de P. Daniel Guti\u00e9rrez, Burgos, Monte Carmelo, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MCGINN, Bernard. As funda\u00e7\u00f5es da m\u00edstica. Das origens ao s\u00e9culo V. Tomo I. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MORANO, Carlos Dominguez. La experi\u00eancia m\u00edstica desde la Psicologia e la Psiquiatria. Em IDEM<strong>, <\/strong><em>La experiencia mistica<\/em>: estudio interdisciplinar. Madri: Editorial Trotta, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ROSADO, Juan Antonio. <em>Erotismo, misticismo e arte<\/em>. 2001. Acess\u00edvel por www. Unomassuno.com.mx\/versuple.asp?id=50346, em mar\u00e7o\/2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PAZ, Oct\u00e1vio. <em>O arco e a lira<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRADO, Ad\u00e9lia. <em>Poesia Reunida. <\/em>S\u00e3o Paulo: Siciliano, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SHOJ\u00cf, Rafael. Condi\u00e7\u00f5es de significado na linguagem m\u00edstica. Em <em>Revista de Estudos da Religi\u00e3o<\/em>. N\u00ba 4, 2003, 54-73.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEIXEIRA, Faustino. RUMI: a paix\u00e3o pela Unidade. Em <em>Revista de Estudos da Religi\u00e3o<\/em>, n 4, 2003, 20-41.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VELASCO, Juan Mart\u00edn. El fen\u00f3meno m\u00edstico en la historia y en la actualidad. Em IDEM. <em>La experiencia mistica<\/em>: estudio interdisciplinar. Madri: Editorial Trotta, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u201cA necessidade de expiar, como a n\u00e3o menos imperiosa da reden\u00e7\u00e3o brotam de uma falta; n\u00e3o no sentido moral da palavra, mas em sua acep\u00e7\u00e3o literal: somos pouco ou nada diante do ser que \u00e9 tudo. Nossa falta n\u00e3o \u00e9 moral: \u00e9 insufici\u00eancia original. O pecado \u00e9 ser pouco\u201d \u00a0(PAZ, 1982, 177).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Termo do galego-portugu\u00eas que traduz, nas cantigas de amor medievais, o sofrimento amoroso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 M\u00edstica: defini\u00e7\u00e3o 2 Erotismo: defini\u00e7\u00e3o 3 M\u00edstica e erotismo 4 As intercess\u00f5es entre m\u00edstica e erotismo na arte 5 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 M\u00edstica: defini\u00e7\u00e3o A etimologia da palavra m\u00edstica atesta o car\u00e1ter de revela\u00e7\u00e3o carac\u00adter\u00edstico dessa experi\u00eancia. O termo grego mystik\u00f3s tem em sua raiz o verbo myo, que significa \u201cfechar\u201d e, em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1562","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade-e-formacao-de-cristaos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1562"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1566,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1562\/revisions\/1566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}