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{"id":1559,"date":"2017-12-29T15:25:57","date_gmt":"2017-12-29T17:25:57","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1559"},"modified":"2017-12-29T15:25:57","modified_gmt":"2017-12-29T17:25:57","slug":"teologias-amerindias-uma-introducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1559","title":{"rendered":"Teologias amer\u00edndias: uma introdu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Contexto da teologia amer\u00edndia: a experi\u00eancia eclesial e teol\u00f3gica na Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 A primeira cristianiza\u00e7\u00e3o americana: &#8220;Aprendemos a teologia que Santo Agostinho ignorou completamente&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 A segunda cristianiza\u00e7\u00e3o americana: &#8220;acompanhando sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica, respeitando suas formula\u00e7\u00f5es culturais&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3 O surgimento da teologia \u00edndia: experi\u00eancias de igrejas locais aut\u00f3ctones<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.4 A elabora\u00e7\u00e3o da teologia \u00edndia: encontros e simp\u00f3sios continentais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Atualidade da teologia amer\u00edndia: algumas caracter\u00edsticas comuns<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 Vida cotidiana como mem\u00f3ria ancestral e fonte teologal: &#8220;nos encontrar com nossas ra\u00edzes religiosas para nos encontrar\u00a0 com Cristo&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 A comunidade eclesial (ayllu) como sujeito teol\u00f3gico: &#8220;ninho vital de humanidade, natureza e esp\u00edritos&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3 O nomadismo cr\u00edstico-trinit\u00e1rio como um estilo de trabalho teol\u00f3gico: viver &#8220;como estrangeiros e forasteiros&#8221; (1Pd 2.11)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.4 A M\u00e3e Terra-Cria\u00e7\u00e3o: &#8220;ser vital c\u00f3smico que anuncia o mist\u00e9rio da vida&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.5 A comunica\u00e7\u00e3o m\u00edtico-narrativa: &#8220;imagens e s\u00edmbolos s\u00e3o verdadeiras teologias&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Perspectivas da teologia amer\u00edndia: tarefas e desafios urgentes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 Da pr\u00e1tica intracultural \u00e0 conviv\u00eancia transcultural: &#8220;a mensagem revelada tem um conte\u00fado transcultural&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 Da fam\u00edlia local \u00e0 comunidade global desde os sujeitos emergentes: \u00e9 urgente\u00a0 &#8220;uma teologia profunda da mulher&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.3 Do nomadismo cr\u00edstico-trinit\u00e1rio ao nomadismo cosmoteoc\u00eantrico digital: &#8220;Ele saiu sem saber aonde ele estava indo&#8221; (Hb 11,8)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.4 Da cria\u00e7\u00e3o divina ao cosmos em expans\u00e3o: a interven\u00e7\u00e3o de Deus ainda \u00e9 necess\u00e1ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.5 Da comunica\u00e7\u00e3o narrativa \u00e0 pluralidade de linguagens transdisciplinares: &#8220;tudo est\u00e1 conectado&#8221; (LS 16, passim)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As <em>teologias \u00edndias ou amer\u00edndias <\/em>procuram oferecer \u00e0s igrejas crist\u00e3s e \u00e0 sociedade, em geral, a experi\u00eancia\u00a0 e a sabedoria milenar dos povos nativos americanos, durante s\u00e9culos considerados &#8220;menores de idade&#8221;, mas que, desde o final do s\u00e9culo XX, come\u00e7am a adquirir maior relev\u00e2ncia sociocultural , pol\u00edtica, eclesial e teol\u00f3gica (TOMICH\u00c1, 2013, 127). Na verdade, assim como h\u00e1 muitos povos ind\u00edgenas que s\u00e3o sujeitos teol\u00f3gicos e eclesiais,\u00a0 existem v\u00e1rias teologias amer\u00edndias. Estritamente falando, s\u00e3o <em>teologias \u00edndias-crist\u00e3s<\/em>, ou seja, reflex\u00f5es teol\u00f3gicas elaboradas por crentes ou fi\u00e9is pertencentes a certas comunidades crist\u00e3s, que <em>releem sua pr\u00f3pria experi\u00eancia<\/em> de f\u00e9 crist\u00e3 a partir de fontes e categorias ind\u00edgenas ancestrais. No entanto, \u00e9 poss\u00edvel falar no singular, se considerarmos os aspectos comuns que caracterizam as propostas teol\u00f3gicas amer\u00edndias. Nas palavras do &#8220;parteiro&#8221;, porta-voz e principal promotor desta proposta teol\u00f3gica, o zapoteco Eleazar L\u00f3pez, embora existam &#8220;m\u00faltiplas teologias \u00edndias, cada uma caminhando por seus pr\u00f3prios caminhos&#8221; nas suas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e inspira\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito, \u00e9 poss\u00edvel considerar &#8220;caracter\u00edsticas comuns a todas as teologias \u00edndias e tirar conclus\u00f5es de conte\u00fado e m\u00e9todo que podem ser aplic\u00e1veis a todos, sem preju\u00edzo do processo particular de desenvolvimento de cada uma &#8220;(L\u00d3PEZ, 2000, 31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, as teologias crist\u00e3s americanas procuram &#8220;conciliar os dois amores&#8221; que fazem parte da mem\u00f3ria ind\u00edgena: o amor para os povos aut\u00f3ctones e \u00e0 Igreja. Com efeito, &#8220;as abordagens fundamentais&#8221; de Cristo e sua Igreja coincidem <em>fundamentalmente<\/em> com as vis\u00f5es, as mentalidades e as espiritualidades teol\u00f3gicas dos povos ind\u00edgenas: &#8220;os desejos mais profundos do nosso povo s\u00e3o tamb\u00e9m os desejos mais profundos de Cristo&#8221; (L\u00d3PEZ, 1991, 13.14). Essa &#8220;reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221; sup\u00f5e uma vis\u00e3o cr\u00edtica e decolonial da hist\u00f3ria ind\u00edgena desde uma releitura evang\u00e9lica e sapiencial, para dar lugar ao processo de cura criativo pessoal-comunit\u00e1ria da pr\u00f3pria mem\u00f3ria. Desta forma, ser\u00e1 poss\u00edvel uma <em>proposta teol\u00f3gica desde os s\u00edmbolos ancestrais<\/em> capazes de se conectar com outras teologias. Nesse sentido, a teologia amer\u00edndia recupera as caracter\u00edsticas do sujeito coletivo ind\u00edgena (sentido comunit\u00e1rio-c\u00f3smico, estilo narrativo-experiencial, express\u00e3o m\u00edtico-simb\u00f3lica &#8230;), certo modo de estar na realidade (pr\u00e1tico-concreto, contemplativo-espiritual) e uma epistemologia integradora (reciprocidade, inter-rela\u00e7\u00e3o, conex\u00e3o) que lhe permite se apresentar ao p\u00fablico como <em>uma<\/em> das v\u00e1rias teologias reconhecidas pela comunidade eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este reconhecimento dos povos ind\u00edgenas na esfera s\u00f3cio-eclesial e teol\u00f3gica \u00e9 o produto de um longo processo de trabalho, organiza\u00e7\u00e3o, lutas, insist\u00eancia, por parte dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas e com a ajuda de organiza\u00e7\u00f5es civis e religiosas.\u00a0 entre eles a Igreja Cat\u00f3lica. De fato, bem como na esfera s\u00f3cio-cultural e pol\u00edtica, grande parte da Am\u00e9rica Latina viveu no final do s\u00e9culo XX a chamada insurg\u00eancia ou &#8220;emerg\u00eancia ind\u00edgena&#8221; (BENGOA, 2016, 27-31), assim como alguns membros das igrejas crist\u00e3s come\u00e7aram a responder com uma &#8220;emerg\u00eancia teol\u00f3gica&#8221;, pronta a levar a s\u00e9rio as diferen\u00e7as e a pluralidade entre os povos. Desta forma, voltou-se ao frescor do Evangelho e \u00e0s suas ra\u00edzes crist\u00e3s profundas de igualdade dignidade batismal entre os seus membros (LG 32): &#8220;n\u00e3o existe mais judeu ou grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher &#8220;(Gl 3,28); as igrejas\u00a0 re\u00fanem no seu seio a povos\u00a0 &#8220;de toda ra\u00e7a, l\u00edngua, povo e na\u00e7\u00e3o&#8221; (Ap 5, 9; 13, 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oferecemos uma breve introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s <em>teologias \u00edndias-crist\u00e3s<\/em>, levando em conta os aspectos comuns, deixando de lado suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas e regionais (maia, aimar\u00e1, qu\u00e9chua, guarani, entre outras). \u00c9 uma &#8220;vis\u00e3o teol\u00f3gica de fronteira&#8221;, isto \u00e9, a partir de uma perspectiva dial\u00f3gica, que tenta abordar a teologia ind\u00edgena das preocupa\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas e do contributo que a sabedoria desses povos pode oferecer mundo Por raz\u00f5es metodol\u00f3gicas, n\u00e3o ser\u00e3o levadas em considera\u00e7\u00e3o as <em>teologias \u00edndias-\u00edndias<\/em>, que refletem a experi\u00eancia religiosa ind\u00edgena independentemente de fontes crist\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>1 Antecedentes da teologia amer\u00edndia: a experi\u00eancia eclesial e teol\u00f3gica na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1.1 A primeira cristianiza\u00e7\u00e3o americana: &#8220;Aprendemos a teologia que Santo Agostinho ignorou completamente&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A percep\u00e7\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o da riqueza <em>teol\u00f3gica <\/em>amer\u00edndia estava de alguma forma presente nos primeiros evangelizadores americanos, que &#8211; apesar do contexto colonial dominante &#8211; teriam percebido uma &#8220;teologia&#8221; presente entre os ind\u00edgenas. Por sinal, o franciscano Ger\u00f3nimo de Mendieta expressou no final do s\u00e9culo XVI:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">[\u2026] Quando chegaram os doze ap\u00f3stolos homens, que eram mil e quinhentos e vinte e quatro, visto que os templos dos \u00eddolos ainda estavam em p\u00e9, e os \u00edndios usavam suas idolatrias e sacrif\u00edcios, perguntaram a este padre Fr. Juan de Tecto e a seus colegas, o que eles fizeram e o que eles entenderam. Ao qual o Pe. Juan de Tecto respondeu: &#8216;Aprendemos a teologia que Santo Agostinho ignorou completamente&#8217;, chamando\u00a0 teologia \u00e0 l\u00edngua dos \u00edndios e dando-lhes a compreender o grande benef\u00edcio de conhecer a l\u00edngua dos nativos. \u00a0(MENDIETA, 2002, 308)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 sabido, os primeiros mission\u00e1rios no M\u00e9xico chamados &#8220;doze ap\u00f3stolos&#8221; tentaram, entre m\u00faltiplas contradi\u00e7\u00f5es, acolher e resgatar n\u00e3o apenas a l\u00edngua dos nativos, mas a riqueza social, cultural e simb\u00f3lica desses povos com culturas milen\u00e1rias. Em outras palavras, tratava-se de promover uma &#8220;evangeliza\u00e7\u00e3o integral&#8221; que respondesse \u00e0s demandas de v\u00e1rios grupos reformados da \u00e9poca, cujo prop\u00f3sito era retornar ao cristianismo das origens. No caso dos franciscanos, esses movimentos tiveram o apoio do mesmo general Francisco de los \u00c1ngeles Qui\u00f1ones, eleito em 1523, segundo o qual os primeiros frades enviados ao M\u00e9xico tiveram que viver e observar a Regra &#8220;pura e simplesmente, sem brilho ou dispensa [&#8230;] assim como S\u00e3o Francisco [&#8230;] observou isso com seus companheiros &#8220;(TOMICH\u00c1, 2016, 106). Nesse sentido, de acordo com Francisco de Assis, a teologia deve estar ligada ao &#8220;esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o&#8221;, a reflex\u00e3o \u00e0 santidade da vida, a prega\u00e7\u00e3o aos gestos de penit\u00eancia, miseric\u00f3rdia e fraternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos pela hist\u00f3ria como os m\u00faltiplos condicionamentos sociais, culturais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos e eclesi\u00e1sticos impediram a gesta\u00e7\u00e3o de uma verdadeira Igreja &#8220;\u00edndia&#8221;, como os franciscanos sonharam. No entanto, pelo menos dois ensinamentos permanecem para a posteridade: a) toda a vida crist\u00e3 (e toda a teologia que dela segue), incluindo a pr\u00f3pria santidade, para ser evang\u00e9lica, est\u00e1 necessariamente <em>situada<\/em>, \u00e9 <em>contextual<\/em>, isto \u00e9, <em>encarnada<\/em> e consequentemente <em>limitada <\/em>e insuficiente; b) toda vida e reflex\u00e3o parte de certos <em>pressupostos ou condicionamentos<\/em> da mesma encarna\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, que, no caso latino-americano, adquire ra\u00edzes profundas da colonialidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, ap\u00f3s os primeiros 50 anos de cristianiza\u00e7\u00e3o, com a conclus\u00e3o do est\u00e1gio mission\u00e1rio no M\u00e9xico e a posterior organiza\u00e7\u00e3o da Igreja, as popula\u00e7\u00f5es nativas foram reduzidas \u00e0 sua express\u00e3o m\u00ednima, especialmente devido a epidemias, guerras e encomendas. Neste contexto do cristianismo, os \u00edndios &#8211; geralmente pela for\u00e7a &#8211; tiveram de &#8220;integrar&#8221; o modelo crist\u00e3o europeu-ib\u00e9rico bastante uniforme e, assim, assumir e internalizar padr\u00f5es de comportamento, mentalidades e <em>vis\u00f5es teol\u00f3gicas forasteiras<\/em>. Exceto por exce\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas, essa proposta de <em>aprendizagem teol\u00f3gica integral<\/em> descrita por Mendieta permanecer\u00e1 em um \u00fanico projeto. No m\u00e1ximo, os mission\u00e1rios aprender\u00e3o as l\u00ednguas ind\u00edgenas, mas nem sempre o seu significado cultural, religioso e simb\u00f3lico. Quanto menos eles v\u00e3o questionar suas pr\u00f3prias teologias. No melhor dos casos, promover\u00e3o a defesa da justi\u00e7a dos povos nativos e afrodescendentes diante dos abusos de espanh\u00f3is ou portugueses, crioulos e mesti\u00e7os, que ser\u00e3o acentuados em alguns pa\u00edses ap\u00f3s a independ\u00eancia americana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, essa vis\u00e3o mono-teol\u00f3gica ocidental continuar\u00e1 durante v\u00e1rios s\u00e9culos de cristianiza\u00e7\u00e3o at\u00e9 o Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965), que abrir\u00e1 um segundo momento de experi\u00eancia eclesial com o nascimento da teologia latino-americana da liberta\u00e7\u00e3o. Com efeito, fazer a teologia <em>desde<\/em> as realidades ind\u00edgenas significar\u00e1 revisitar criticamente a Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, conhecer e explicar tais pressupostos contextuais e coloniais. Nesse sentido, as teologias amer\u00edndias &#8211; em sintonia com a tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica p\u00f3s-conciliar latino-americana &#8211; al\u00e9m de conhecer em profundidade suas pr\u00f3prias fontes, procuram ouvir, aprender, discernir, dialogar com outras disciplinas acad\u00eamicas que incorporem metodologias dial\u00f3gicas, integradoras, complexas e transdisciplinares &#8230; Desta forma, elas tentar\u00e3o superar de forma autocritica uma certa colonialidade epist\u00eamica e uniformidade hermen\u00eautica, internalizadas na mesma tarefa teol\u00f3gica (TOMICH\u00c1, 2016, 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.2 A segunda cristianiza\u00e7\u00e3o americana: &#8220;acompanhando sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica, respeitando suas formula\u00e7\u00f5es culturais&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Conc\u00edlio Vaticano II significava para a Igreja na Am\u00e9rica Latina e no Caribe o in\u00edcio de um processo de compromisso evang\u00e9lico a favor da justi\u00e7a e dos <em>pobres<\/em>, o que levaria \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o, promo\u00e7\u00e3o e reconhecimento gradual da diversidade sociocultural, religiosa e teol\u00f3gica dos povos. A este respeito, o Departamento de Miss\u00f5es do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), criado em 1966, desempenhou um papel muito importante, especialmente com a organiza\u00e7\u00e3o de reuni\u00f5es pastorais ind\u00edgenas. Assim, por exemplo, no primeiro (Ambato, Equador, 24 a 28 de abril de 1967), \u00e9 apreciada a diversidade de l\u00ednguas, culturas, religi\u00f5es e costumes entre os povos ind\u00edgenas; enquanto no segundo (Melgar, Col\u00f4mbia 20-27 de abril de 1968), s\u00e3o reconhecidas &#8220;uma grande pluralidade de culturas e uma mesti\u00e7agem cultural de \u00edndios, negros, mesti\u00e7os e outros&#8221;, culturas que &#8220;n\u00e3o s\u00e3o suficientemente conhecidas ou reconhecidas em suas l\u00ednguas, costumes, institui\u00e7\u00f5es, valores e aspira\u00e7\u00f5es &#8220;(Melgar 3) (DEMIS, 1989, 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro de Melgar introduz a categoria teol\u00f3gica <em>semina Ver<\/em>bi citada no decreto <em>Ad gentes<\/em> do Conc\u00edlio Vaticano II (GORSKI-TOMICH\u00c1, 2006, 43-45), levando assim a necessidade de assumir a hist\u00f3ria dos povos como parte da hist\u00f3ria universal de salva\u00e7\u00e3o De fato, embora n\u00e3o seja dito explicitamente, ele introduz o princ\u00edpio patr\u00edstico da encarna\u00e7\u00e3o, t\u00e3o bem formulado por Greg\u00f3rio Nazianzeno, segundo o qual &#8220;o que n\u00e3o foi assumido n\u00e3o foi salvo; o que est\u00e1 unido a Deus \u00e9 redimido &#8220;(Ep.101: PG 37,181) ou, nas palavras do referido decreto,&#8221; o que n\u00e3o foi assumido por Cristo n\u00e3o foi curado &#8220;(AG 3). Esta vis\u00e3o teol\u00f3gica, no entanto, n\u00e3o ser\u00e1 levada em considera\u00e7\u00e3o pela Segunda Confer\u00eancia do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medell\u00edn, Col\u00f4mbia, 4 meses depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, Medell\u00edn (1968), embora reconhe\u00e7a a presen\u00e7a hist\u00f3rica da Igreja entre os ind\u00edgenas, considerados marginalizados e analfabetos, cuja ignor\u00e2ncia \u00e9 realmente &#8220;uma servid\u00e3o desumana&#8221;, enfatiza o negativo de suas culturas (DM, Educa\u00e7\u00e3o, 1), n\u00e3o sendo reconhecidos nem valorizados como tais (TOMICH\u00c1, 2011, 1369-1374). Anos mais tarde, a III Confer\u00eancia de Puebla (1979) come\u00e7ar\u00e1 a reconhecer a originalidade &#8220;das culturas ind\u00edgenas e suas comunidades&#8221;, particularmente o amor \u00e0 terra, como &#8220;valores indubit\u00e1veis&#8221; (DP 19.234.1164). Da mesma forma, antes da subjuga\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o cient\u00edfica-t\u00e9cnica ocidental, ele prop\u00f5e um &#8220;discernimento fino e laborioso&#8221;, para evitar aceitar &#8220;essa instrumenta\u00e7\u00e3o de universalidade que \u00e9 equivalente \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o da humanidade atrav\u00e9s de uma injusta e dolorosa supremacia e domina\u00e7\u00e3o de alguns povos ou setores sociais sobre outros povos e setores &#8220;(DP 427).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua parte, a Quarta Confer\u00eancia de Santo Domingo (1992) constata um &#8220;multi\u00e9tnico e multicultural&#8221; continente (DSD 244), onde a Igreja descobre e valoriza as &#8220;sementes do Verbo&#8221; latente na &#8220;abertura \u00e0 a\u00e7\u00e3o de Deus pelos frutos da terra, o car\u00e1ter sagrado da vida humana, a valoriza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, o sentido de solidariedade e corresponsabilidade no trabalho comum, a import\u00e2ncia do culto, a cren\u00e7a em uma vida ultra terrena &#8220;(DSD 17). \u00c9 a antiga sabedoria ind\u00edgena cultivada na &#8220;preserva\u00e7\u00e3o da natureza como ambiente de vida para todos&#8221; (DSD 169) e o reconhecimento da presen\u00e7a do Criador em todas as suas criaturas: o sol, a lua, a m\u00e3e terra ( veja DSD 245). Diante dessa realidade, a Igreja prop\u00f5e uma &#8220;evangeliza\u00e7\u00e3o inculturada&#8221; (DSD 243247248), que deveria ser expressa em uma liturgia que acolha os s\u00edmbolos, rituais e express\u00f5es religiosas ind\u00edgenas atrav\u00e9s do testemunho humilde, compreensivo, prof\u00e9tico, respeitoso, franco, fraterno e dial\u00f3gico. No especificamente teol\u00f3gico, ele afirma: &#8220;acompanhar sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica, respeitando suas formula\u00e7\u00f5es culturais que lhes ajudem a dar raz\u00e3o para sua f\u00e9 e esperan\u00e7a&#8221; (DSD 248).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, a V Confer\u00eancia de Aparecida (2007) valoriza nos povos ind\u00edgenas &#8220;seu respeito pela natureza e o amor \u00e0 m\u00e3e terra como fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhamento humano&#8221; (DA 472). Ao mesmo tempo, encoraja-os a superar a &#8220;mentalidade colonial&#8221; (DA 96, quarta reda\u00e7\u00e3o) ainda existente nas esferas eclesi\u00e1sticas. Da\u00ed a urg\u00eancia sociocultural e teol\u00f3gico-pastoral das &#8220;mentes descolonizadoras, o conhecimento, recuperar a mem\u00f3ria hist\u00f3rica, fortalecer espa\u00e7os e rela\u00e7\u00f5es interculturais&#8221; (DA 96). No n\u00edvel teol\u00f3gico, reafirma as &#8220;sementes do Verbo&#8221; presentes nas tradi\u00e7\u00f5es e povos ind\u00edgenas (DA 529; cf. DP 401, DSD 245): &#8220;Cristo era o Salvador que eles ansiavam silenciosamente&#8221; (DA 4) j\u00e1 vivido na &#8221; profunda valoriza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da vida, presente em toda a cria\u00e7\u00e3o, na exist\u00eancia di\u00e1ria e na milenar experi\u00eancia religiosa &#8220;(DA 529).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia ind\u00edgena, a segunda reda\u00e7\u00e3o do documento distribu\u00eddo aos participantes disse textualmente:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 improrrog\u00e1vel impulsionar com mais dinamismo a incultura\u00e7\u00e3o da Igreja, dos minist\u00e9rios, da liturgia e da reflex\u00e3o teol\u00f3gica ind\u00edgena. Devemos continuar os esfor\u00e7os do CELAM, com o apoio da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, para o discernimento da Teologia \u00cdndia (DA, segunda reda\u00e7\u00e3o, n\u00ba 116).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto foi retirado da terceira reda\u00e7\u00e3o e n\u00e3o conseguiu alcan\u00e7ar os dois ter\u00e7os dos votos necess\u00e1rios para ser novamente inclu\u00eddo na quarta e \u00faltima reda\u00e7\u00e3o, aprovada em 31 de maio de 2007. Por esse motivo, as express\u00f5es &#8220;teologia ind\u00edgena&#8221; e \/ ou &#8220;teologia \u00edndia&#8221; n\u00e3o aparece no documento conclusivo de Aparecida. No entanto, o fato de que essa<em> teologia<\/em> foi considerada um dos eventos eclesiais mais importantes do continente mostra, pelo menos, um certo &#8220;posicionamento&#8221; alcan\u00e7ado nas esferas oficiais da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3 O surgimento da teologia \u00edndia: experi\u00eancias de igrejas locais aut\u00f3ctones<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia amer\u00edndia-crist\u00e3 emerge, se recria e adquire fundamento na experi\u00eancia de f\u00e9 vivida pelos povos ind\u00edgenas a partir da &#8220;primeira cristianiza\u00e7\u00e3o&#8221; e que come\u00e7a a consolidar-se na gesta\u00e7\u00e3o de &#8220;igrejas aut\u00f3ctones&#8221; (AG 6) durante a &#8220;segunda Cristianiza\u00e7\u00e3o &#8220;iniciada com o Conc\u00edlio Vaticano II que originou a teologia latino-americana. A este respeito, as experi\u00eancias pastorais em duas dioceses revelam-se significativas: Leonidas Proa\u00f1o (1910-1988), em Riobamba (Equador) e Samuel Ru\u00edz (1924-2011), em San Crist\u00f3bal de Las Casas (Chiapas, M\u00e9xico). Ambos os pastores mostram a imagem de um Deus \u00edntimo, comprometido com a vida e a liberta\u00e7\u00e3o dos mais pequenos, marginalizados e exclu\u00eddos, oferecendo ferramentas concretas para uma efetiva organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-eclesial, ministerial e teol\u00f3gica, onde os povos ind\u00edgenas podem ser verdadeiros sujeitos e protagonistas de sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leonidas Proa\u00f1o, considerado pelos ind\u00edgenas &#8220;bispo dos \u00edndios&#8221; sendo pastor na diocese de Riobamba (1954-1985), prosseguiu um objetivo claro: promover uma pastoral ind\u00edgena com participa\u00e7\u00e3o efetiva dos pr\u00f3prios ind\u00edgenas: agentes pastorais, catequistas, animadores, mission\u00e1rios, l\u00edderes, religiosos e bispos. Em suas palavras, os ind\u00edgenas tiveram que caminhar com seus dois p\u00e9s insepar\u00e1veis, a Igreja e a organiza\u00e7\u00e3o: &#8220;[o] trabalho de <em>conscientiza\u00e7\u00e3o e evangeliza\u00e7\u00e3o<\/em> est\u00e1 sempre unido e, como resultado, as pessoas t\u00eam e sentem a necessidade de\u00a0 se organizar &#8220;(SICNIE, 1988: 14). Em 1986, inspirado no discurso aos ind\u00edgenas pronunciado por Jo\u00e3o Paulo II no Equador, apresentou \u00e0 Confer\u00eancia Episcopal Equatoriana\u00a0 seu &#8220;Plano Nacional de Pastoral Ind\u00edgena&#8221; com dois objetivos: &#8220;a transforma\u00e7\u00e3o dos\u00a0 ind\u00edgenas em Povo que contribua para a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade equatoriana e a constru\u00e7\u00e3o da Igreja ind\u00edgena que contribua com seus pr\u00f3prios valores para o enriquecimento das Igrejas locais e da Igreja Universal &#8220;sempre a servi\u00e7o do Reino de Deus (PROA\u00d1O, 1989, 15). O Plano procurou recuperar as identidades ind\u00edgenas: nome pr\u00f3prio, origem, hist\u00f3ria, formas peculiares de conceber a vida, pessoas, fam\u00edlia, organiza\u00e7\u00e3o,\u00a0 trabalho, bem como a terra, a natureza e as rela\u00e7\u00f5es com Deus, com os outros e com a outra vida. Em suma, ele aspirava a ajudar &#8220;\u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um Povo Ind\u00edgena, com sua pr\u00f3pria identidade, mantendo a abertura necess\u00e1ria para alcan\u00e7ar uma aut\u00eantica e justa integra\u00e7\u00e3o com o povo equatoriano&#8221; (PROA\u00d1O, 1989, 17). Com esse objetivo, e em um n\u00edvel concreto, fundou em 1988 a organiza\u00e7\u00e3o &#8220;Servidores da Igreja Cat\u00f3lica das Nacionalidades Ind\u00edgenas do Equador&#8221; (SICNIE) encarregada de continuar o processo de gesta\u00e7\u00e3o da Igreja ind\u00edgena no Equador (cf. ROMERO, 2010) .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua parte, Samuel Ruiz, tamb\u00e9m conhecido como &#8220;bispo dos \u00edndios e os pobres&#8221; ou simplesmente &#8220;<em>Tatic<\/em>&#8221; ou &#8220;<em>J&#8217;tatik<\/em>&#8220;, que significa &#8220;pai&#8221; na l\u00edngua tzotzil, exerce seu trabalho pastoral na diocese de San Crist\u00f3bal de las Casas por 40 anos (1960-2000). L\u00e1, em Chiapas, recruta e treina catequistas ind\u00edgenas, reconhecendo o contributo cultural para a sua pr\u00f3pria evangeliza\u00e7\u00e3o em l\u00ednguas, tradi\u00e7\u00f5es, culturas e vis\u00f5es de mundo simb\u00f3licas aut\u00f3ctones. Em 1974, promoveu o Primeiro Congresso Ind\u00edgena em Chiapas para recuperar a mem\u00f3ria do Bispo Bartolom\u00e9 de Las Casas, cujos quatro temas tratados (terra, com\u00e9rcio, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade) foram levados em considera\u00e7\u00e3o no Plano Pastoral Diocesano, como\u00a0 expressou o pr\u00f3prio\u00a0 Samuel: &#8220;Formar um plano pastoral baseado nas necessidades dos povos ind\u00edgenas e n\u00e3o tanto nos conte\u00fados evang\u00e9licos que tiveram de ser anunciados&#8221; (SANTIAGO, 1999, p. 5). Desta forma, os ind\u00edgenas tornaram-se o sujeito de seu pr\u00f3prio destino. \u00c9 assim que as escolas diocesanas de catequistas s\u00e3o criadas, de onde surgir\u00e3o di\u00e1conos ind\u00edgenas permanentes, verdadeiros &#8220;pioneiros&#8221; no processo vis\u00edvel de participa\u00e7\u00e3o ativa e s\u00f3cio-eclesial dos pr\u00f3prios nativos (SANTIAGO, 2016, 51-52). Desta forma, Ruiz est\u00e1 comprometido com um novo modelo de ser\u00a0 Igreja, uma Igreja aut\u00f3ctone, que busca viver o Evangelho de Jesus Cristo a partir das dimens\u00f5es social, cultural, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e religiosa dos povos ind\u00edgenas. Para esse fim, em 1988 fundou o Centro de Direitos Humanos &#8220;Fray Bartolom\u00e9 de Las Casas&#8221;, que acolhe den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos por diversos setores sociais. Nesta estreita rela\u00e7\u00e3o entre a evangeliza\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da paz, Don Samuel ainda medeia nos di\u00e1logos entre o governo federal do M\u00e9xico e o Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, que irrompeu na selva de Chiapas em janeiro de 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.4 A elabora\u00e7\u00e3o da teologia \u00edndia: encontros e simp\u00f3sios continentais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As teologias amer\u00edndias, como observado, nascem, se alimentam e re-significam na vida cotidiana das comunidades crist\u00e3s ind\u00edgenas, cujas peri\u00f3dicas reuni\u00f5es, encontros, semin\u00e1rios ou simp\u00f3sios s\u00e3o momentos importantes no aprofundamento, consenso e autocr\u00edtica da pr\u00f3pria caminhada <em>teol\u00f3gico-eclesial Dados os limites deste trabalho, consideraremos apenas os encontros<\/em> continentais da teologia amer\u00edndia durante o per\u00edodo p\u00f3s-conciliar. A este respeito, se mencionam por um lado, os simp\u00f3sios organizados pelo CELAM a partir de 1997 e os encontros-oficinas convocados pela Articula\u00e7\u00e3o Ecum\u00eanica de Pastoral Ind\u00edgena (AELAPI) desde 1990. Os primeiros, mais cat\u00f3licos intraeclesiais, de car\u00e1ter fechado, formal e oficial, com uma participa\u00e7\u00e3o maiorit\u00e1ria do clero (bispos e sacerdotes), alguns religiosos e poucos leigos, que elaboram uma teologia mais cl\u00e1ssica e acad\u00eamica. Os segundos, mais ecum\u00eanicos, populares, informais e abertos, com presen\u00e7a majorit\u00e1ria de leigos que, junto com o clero, fazem uma teologia mais narrativa e simb\u00f3lica, num ambiente fraterno, festivo e criativo. Indubitavelmente, tanto espa\u00e7os, experi\u00eancias e metodologias s\u00e3o muito v\u00e1lidos na elabora\u00e7\u00e3o e compartilhamento de teologias amer\u00edndias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro caso, o CELAM organizou 5 encontros ou simp\u00f3sios continentais: 1) <em>Para uma teologia indiana inculturada<\/em> (Bogot\u00e1, 21-25 de abril de 1997); 2) <em>Simp\u00f3sio &#8211; Di\u00e1logo entre bispos e especialistas em teologia \u00edndia<\/em> (Riobamba, 21-25 de outubro de 2002), evento precedido de uma reuni\u00e3o de bispos: <em>Teologia \u00edndia. Emerg\u00eancia ind\u00edgena: desafio para a pastoral da Igreja<\/em> (Oaxaca, 21 a 26 de abril de 2002); 3) <em>III Simp\u00f3sio Latino-Americano de Teologia \u00edndia. Cristo nos povos ind\u00edgenas<\/em> (Guatemala, 23 a 28 de outubro de 2006); 4<em>) IV Simp\u00f3sio Latino-Americano de Teologia \u00edndia. A teologia da cria\u00e7\u00e3o na f\u00e9 cat\u00f3lica e nos mitos, ritos e s\u00edmbolos dos povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica Latina. O sonho de Deus na cria\u00e7\u00e3o humana e no cosmos<\/em> (Lima, 28 de mar\u00e7o a 2 de abril de 2011); 5) <em>V Simp\u00f3sio de teologia \u00edndia. Revela\u00e7\u00e3o de Deus e Povos Nativos<\/em> (San Crist\u00f3bal de Las Casas, 13-18 de outubro de 2014). Estes simp\u00f3sios, exceto o primeiro, foram publicados pelo pr\u00f3prio CELAM.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo caso, a AELAPI, anos antes do CELAM, come\u00e7a a organizar v\u00e1rios encontros-oficinas sobre teologia \u00edndia, com a participa\u00e7\u00e3o de cerca de cem pessoas, incluindo pastores, te\u00f3logos e leigos. Assim, de 1990 a 2016 foram realizadas 8 encontros-oficinas, cujas mem\u00f3rias, na sua maioria, est\u00e3o publicadas por v\u00e1rios editores:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a01) <em>Teolog\u00eda India. Primeiro Encontro-oficina latino-americano<\/em> (M\u00e9xico, 16-23 setembro 1990); 2) <em>Teolog\u00eda India. Segundo Encontro-oficina latino-americano<\/em> (Panam\u00e1, 29 novembro-3 dezembro 1993); 3) <em>Teologia \u00cdndia. III Encontro-oficina latino-americano.<\/em> <em>Sabedoria ind\u00edgena, fonte de esperan\u00e7a <\/em>(Cochabamba, 24-30 agosto 1997); 4) <em>IV Encontro-oficina Ecum\u00e9nico Latino-americano de Teologia \u00cdndia. Em busca da terra sem mal. Mitos de origem e sonhos de futuro dos povos \u00edndios <\/em>(Ikua Sati-Asunci\u00f3n, 6- 10 maio 2002); 5) <em>V Encontro de Teologia \u00cdndia. A for\u00e7a dos pequeninos, vida para o mundo <\/em>(Manaus, 21-26 abril 2006); 6) <em>VI Encontro Latino-americano de Teologia Ind\u00edgena. Mobilidade humana, desafio e esperan\u00e7a para os povos ind\u00edgenas <\/em>(Berl\u00edn-Usulut\u00e1n, El Salvador, 30 novembro-4 dezembro 2009); 7) <em>VII Encontro continental de Teologia \u00cdndia. \u201cSumak Kawsay\u201d e Vida Plena<\/em> (Pujil\u00ed-Cotopaxi, 14-18 outubro 2013); 8) <em>VIII Encontro continental de Teologia \u00cdndia. A Palavra de Deus na Palavra dos Povos diante da conjuntura do Novo Amanhecer da Vida <\/em>(Casa Bah\u00eda Azul-Panajachel Solol\u00e1, Guatemala, 26-30 setembro 2016).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Atualidade da teologia amer\u00edndia: algumas caracter\u00edsticas comuns<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de teologia amer\u00edndia-crist\u00e3 significa aproximar-se do mist\u00e9rio crist\u00e3o numa perspectiva ind\u00edgena, isto \u00e9, reenviar os temas teol\u00f3gicos (Deus, Um e Trino, Cristo, Esp\u00edrito Santo, Igreja, cria\u00e7\u00e3o, salva\u00e7\u00e3o, sacramentos &#8230;) desde a experi\u00eancia crist\u00e3 ind\u00edgena. Por outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio abordar suas fontes, metodologia, estilo, preocupa\u00e7\u00f5es, projeto final. De certa forma, essas quest\u00f5es foram apontadas por Eleazar L\u00f3pez em 1991:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia \u00edndia n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o saber &#8220;dar raz\u00e3o para a nossa esperan\u00e7a&#8221; milenar. \u00c9 a compreens\u00e3o que temos de toda a nossa vida guiada sempre pela m\u00e3o de Deus. \u00c9 o discurso reflexivo que acompanha, explica e orienta a jornada de nossos povos indianos ao longo de sua hist\u00f3ria. \u00c9 por isso que existe uma vez que n\u00f3s existimos como povos (L\u00d3PEZ, 1991, 7).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta abordagem conceitual, muito em sintonia com os processos vitais cotidianos em que os povos ind\u00edgenas vivem, s\u00e3o mencionados alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos das teologias amer\u00edndias, pressupostos n\u00e3o apenas te\u00f3ricos, mas que tamb\u00e9m permeiam todos os momentos da vida cotidiana ind\u00edgena e, portanto, , representam verdadeiras contribui\u00e7\u00f5es para a vida s\u00f3cio-eclesial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.1 Vida cotidiana como mem\u00f3ria ancestral e fonte teologal: &#8220;nos encontrar com nossas ra\u00edzes religiosas para nos encontrar com Cristo&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia amer\u00edndia \u00e9 muito concreta: ela surge do gosto pela vida, uma vida cheia de sabedoria milenar, contemplada em sua profundidade atrav\u00e9s do sil\u00eancio interior, comunit\u00e1rio e c\u00f3smico. Na verdade, como um companheiro da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, procura estar em sintonia com a pr\u00f3pria vida em todas as suas facetas e espa\u00e7os: pessoal-interior, familiar-comunit\u00e1rio, relacional-ancestral, sociocultural, pol\u00edtico-econ\u00f4mico, religioso- espiritual &#8230; A viv\u00eancia humano-c\u00f3smica dos povos, expressada em mitos, ritos, celebra\u00e7\u00f5es, tradi\u00e7\u00f5es, lendas, atitudes, contradi\u00e7\u00f5es, sonhos &#8230; constitui uma fonte de esperan\u00e7a e sabedoria, de &#8220;bom viver&#8221; (em Quechua: <em>sumaj kawsay<\/em>; em aimar\u00e1: <em>soma qama\u00f1a<\/em>). A partir desta experi\u00eancia interativa e inter-relacionada surge a reflex\u00e3o teol\u00f3gica, expressa em uma variedade de s\u00edmbolos e l\u00ednguas ind\u00edgenas, que revelam n\u00e3o s\u00f3 as &#8220;Sementes do Verbo&#8221;, mas o mesmo Esp\u00edrito Santo e Mist\u00e9rio Trinit\u00e1rio (TOMICH\u00c1, 2013). Nesse sentido, a teologia amer\u00edndia lembra outras teologias crist\u00e3s, seu \u00edntimo e direto relacionamento\u00a0 com a vida cotidiana e concreta de cada um dos povos, uma vida cheia de mem\u00f3rias e sabedorias ancestrais, verdadeiras riquezas que s\u00e3o <em>fontes prim\u00e1rias<\/em> do trabalho teol\u00f3gico. Precisamente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mem\u00f3rias e \u00e0 sabedoria, a teologia amer\u00edndia colocou em primeiro plano, desde os seus in\u00edcios, a urg\u00eancia de afirmar a <em>identidade<\/em> dos povos ind\u00edgenas, a etno-estima ind\u00edgena, como condi\u00e7\u00e3o e garantia <em>sine qua non<\/em> para o encontro com Cristo e o consequente reconhecimento teol\u00f3gico ind\u00edgena na Igreja:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para nos encontrar com Cristo, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel nos encontrar de antem\u00e3o, com n\u00f3s mesmos, com nossas ra\u00edzes, com nossa hist\u00f3ria e nossa cultura e, por que n\u00e3o, com nossa religi\u00e3o de origem. Aqueles que n\u00e3o t\u00eam uma identidade dificilmente podem ter um encontro aprofundado com Cristo [&#8230;] Isto implica, antes de tudo, reconstruir o sujeito disso que s\u00e3o os povos ind\u00edgenas [&#8230;] para retornar aos nossos povos a confian\u00e7a em si mesmos, o orgulho de sua Identidade \u00edndia, a coragem de ser e de se mostrar diferentes (L\u00d3PEZ, 1991, 15).<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.2 A comunidade eclesial (ayllu) como sujeito teol\u00f3gico: &#8220;ninho vital de humanidade, natureza e esp\u00edritos&#8221;<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo ind\u00edgena, a vida comunit\u00e1ria \u00e9 o eixo, centro ou espa\u00e7o em torno do qual giram todas as outras atividades: vida interior, relacionamentos em todos os n\u00edveis (que tamb\u00e9m incluem aos falecidos), trabalho, atividades econ\u00f4micas, festas, celebra\u00e7\u00f5es rituais, culto a av\u00f3s ou antepassados. Esta vida adquire seu ponto de refer\u00eancia b\u00e1sico na fam\u00edlia, que, para os ind\u00edgenas, &#8220;n\u00e3o \u00e9 apenas o lar (a fam\u00edlia nuclear), mas tamb\u00e9m a comunidade que ele considera sua grande fam\u00edlia&#8221; (CEE, 1991: 43). Na verdade, a pequena comunidade familiar, que j\u00e1 \u00e9 uma fam\u00edlia extensa coesa pelo parentesco, \u00e9 agrupada para formar uma comunidade maior ou &#8220;grande fam\u00edlia&#8221;, onde se mora, comemora e celebra a comunh\u00e3o direta com tudo o relacionado \u00e0 vida e sua fonte prim\u00e1ria, a terra: semeadura, colheita; constru\u00e7\u00e3o de casas, estradas do bairro, escolas e outros trabalhos essenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, por exemplo, no mundo andino, desde tempos imemoriais, o <em>ayllu<\/em> constituiu o pilar fundador dessa sociedade, como uma organiza\u00e7\u00e3o familiar que tinha fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e religiosas; baseou-se em um sistema de reciprocidade (<em>ayni<\/em>) e ajuda m\u00fatua (<em>minga)<\/em>, que garantiu a divis\u00e3o da terra, costumes conjugais, celebra\u00e7\u00f5es religiosas, entre outros. De acordo com este sistema, a terra era de posse comum e era distribu\u00edda de acordo com as demandas espec\u00edficas de seus membros. Nas palavras de Aimar\u00e1-Christian Calixto Quispe, o <em>ayllu<\/em> \u00e9 &#8220;o ninho vital de diferentes culturas [&#8230;], e nas comunidades existem casas que tamb\u00e9m s\u00e3o ninhos [&#8230;]. A comunidade estabelece a casa como um ninho vital para acolher a humanidade, a natureza e seus esp\u00edritos [&#8230;] A casa sabe como se irritar quando o ser humano acha que ele \u00e9 todo poderoso [&#8230;] &#8220;(QUISPE, 2012, 32.33). Portanto, o <em>ayllu<\/em> ou comunidade crente acolhe, compartilha e celebra a passagem do Mist\u00e9rio por seu povo: escuta e comunica, recebe e doa, viva e reflete &#8230; Neste espa\u00e7o criativo de encontro e conviv\u00eancia, a teologia amer\u00edndia \u00e9 fortalecida e recriada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamente, a partir do acento ind\u00edgena comunit\u00e1rio, teologia amer\u00edndia \u00e9 chamada a oferecer &#8220;um servi\u00e7o muito desinteressado \u00e0 comunidade dos crentes&#8221; (DVe 11), \u00e0 &#8220;Fam\u00edlia de Deus&#8221; (GS 40.43, DM 15,9,10), mais especificamente \u00e0 Igreja local ou &#8211; como os ind\u00edgenas apontam no Equador (TOMICH\u00c1, 2013: 139) &#8211; servi\u00e7o ao Grande <em>Ayllu<\/em>, buscando sempre expressar e articular essa teologia na escuta cr\u00edtica e no recebimento de outras express\u00f5es teol\u00f3gicas. Portanto, \u00e9 uma teologia que \u00e9 elaborada e constru\u00edda coletivamente, com a participa\u00e7\u00e3o ativa e criativa de todos os membros da comunidade eclesial em seus m\u00faltiplos minist\u00e9rios, onde a pessoa que faz a teologia \u00e9 simplesmente o porta-voz da comunidade local, \u00e0 qual representa. \u00c9 uma teologia que recupera e assume em seus conte\u00fados as ricas tradi\u00e7\u00f5es ancestrais para se constituir verdadeiramente uma Igreja-Fam\u00edlia de Deus, onde os sujeitos do trabalho teol\u00f3gico s\u00e3o &#8220;as igrejas aut\u00f3ctones locais [&#8230;] suficientemente organizadas e dotadas de suas pr\u00f3prias energias e maturidade &#8220;(AG 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Nicanor Sarmiento, seguindo outros te\u00f3logos, h\u00e1 um di\u00e1logo tripolar interativo entre a cultura local, a tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica e a Igreja universal em torno de 3 polos de fidelidade: a) <em>\u00e0s pr\u00f3prias experi\u00eancias<\/em> (culturais, religiosas &#8230;) dos povos desse &#8220;Deus vivo e verdadeiro &#8220;expressado em mitos, cosmo-vidas, rela\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas e fundamentais com o cosmos e com outros seres humanos; b) <em>\u00e0 tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica escrita e n\u00e3o escrita<\/em>, comunicada e desenvolvida na hist\u00f3ria como ritos, s\u00edmbolos e v\u00e1rios modelos (de comportamento, comunidade, minist\u00e9rios &#8230;), que &#8220;coincidiria&#8221; com a maneira popular-ind\u00edgena de fazer teologia; c) <em>\u00e0 comunh\u00e3o eclesial universal<\/em>, que inclui os ensinamentos do magist\u00e9rio vivo e dos te\u00f3logos, a vida dos santos; formas de ora\u00e7\u00e3o, piedade e espiritualidades aut\u00eanticas &#8230; (SARMIENTO, 2016). Esta experi\u00eancia teol\u00f3gica foi iniciada, implementada e pouco a pouco aprofundada, especialmente nas 2 dioceses latino-americanas acima mencionadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.3 O nomadismo cr\u00edstico-trinit\u00e1rio como um estilo de trabalho teol\u00f3gico: viver &#8220;como estrangeiros e forasteiros&#8221; (1 Ped 2.11)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO nomadismo \u00e9 o ponto de partida e a refer\u00eancia obrigat\u00f3ria de todos os povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica &#8220;(L\u00d3PEZ, 2000, 32), pois representa uma dimens\u00e3o fundamental armazenada na mem\u00f3ria ind\u00edgena. Esta estrutura n\u00f4made e itinerante, presente na experi\u00eancia profunda dos povos nativos, que sempre buscou &#8211; como os guaranis &#8211; aquela &#8220;terra sem mal&#8221;, adquire o fundamento \u00faltimo na concep\u00e7\u00e3o religiosa da vida, onde o sagrado representa o eixo da articula\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia cotidiana. Na verdade, &#8220;no esquema religioso e teol\u00f3gico do nomadismo, Deus \u00e9 tudo e tudo tem a ver com Deus&#8221; (L\u00d3PEZ, 2000, 33), mas \u00e9 um Ser din\u00e2mico, &#8220;em movimento&#8221;, um Deus &#8220;integral&#8221;. , inclusivo e plural, que escuta, caminha, toma iniciativa; um Deus que se aproxima das realidades internas, sociais, culturais, pol\u00edticas, religiosas e espirituais de toda pessoa humana. Nesta abordagem, ele oferece sua Vida, Ternura, Amor e Miseric\u00f3rdia, que tamb\u00e9m envolve demandas dif\u00edceis, lutas internas, convers\u00e3o religiosa &#8230;, todos ao servi\u00e7o do Reino de Deus ou &#8220;Boa Vida \/ Viver bem&#8221;. \u00c9 ent\u00e3o um nomadismo profundamente espiritual, celebrador e contemplativo que sabe ler os passos desta caminhada di\u00e1ria em uma chave m\u00edstica e religiosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, entende-se que, por natureza e voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, a caracter\u00edstica n\u00f3mada da teologia amer\u00edndia \u00e9 sempre din\u00e2mica no contexto geogr\u00e1fico-social, interior-mental e simb\u00f3lico-c\u00f3smico. Este nomadismo \u00e9 expresso visivelmente no desejo permanente de convers\u00e3o integral (pessoal, comunit\u00e1rio, c\u00f3smico), tomando a autocr\u00edtica a s\u00e9rio, para continuar na busca constante de fidelidade ao projeto do Criador ou Fazedor, presente na vida dos povos. Esta posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 na pr\u00f3pria raiz da voca\u00e7\u00e3o ao discipulado mission\u00e1rio e, portanto, na voca\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica amer\u00edndia, seguindo o exemplo do pr\u00f3prio Jesus, que n\u00e3o tinha &#8220;lugar para descansar a cabe\u00e7a&#8221; (Lc 9,58), que enviou para seus disc\u00edpulos sem levar &#8220;nem alforje, nem p\u00e3o&#8221; (Mc 6,8), &#8220;nem duas t\u00fanicas, nem sand\u00e1lias, nem tampouco bast\u00e3o&#8221; (Mt 10,10; Lc 10,4), mas eles simplesmente tiveram que viver &#8220;como estrangeiros e forasteiros&#8221;(1Pd 2,11) no meio dos povoados. Em \u00faltima an\u00e1lise, a partir da teologia amer\u00edndia, \u00e9 um nomadismo cr\u00edstico que adquire fundamentos s\u00f3lidos no Mist\u00e9rio Trinit\u00e1rio, presente em todo o cosmos criado e sustentado pelo Deus Uno-Trino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.4 A M\u00e3e Terra-Cria\u00e7\u00e3o: &#8220;ser vital c\u00f3smico que anuncia o mist\u00e9rio da vida&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A humanidade, outros seres vivos, o mundo inteiro, o cosmos, a cria\u00e7\u00e3o, a terra, est\u00e3o ansiosamente procurando uma vida plena, apoiada pelo respeito e equil\u00edbrio m\u00fatuo . A terra n\u00e3o \u00e9 apenas o solo onde se cultiva ou o ch\u00e3o onde a casa \u00e9 constru\u00edda: \u00e9 todo o territ\u00f3rio com seus animais, selvas, montanhas, chuva, em constante intera\u00e7\u00e3o vital. Nas palavras de um \u00edndio: &#8220;Da\u00ed eu nasci. Ela [a terra] me d\u00e1 comida, bebida, vestido. No seu peito eu descanso quando estou cansado. Eu retornarei ao seu peito quando morrer. A Terra \u00e9 a nossa vida. Estamos dispostos a morrer pela terra &#8220;(PROA\u00d1O, 1989, 4). Esta concep\u00e7\u00e3o da terra, como vida e territ\u00f3rio interligado com tudo, \u00e9 recolhida em alguns documentos eclesiais: &#8220;Para os ind\u00edgenas, a terra \u00e9 o centro e o fundamento da sua economia, porque a entende n\u00e3o apenas como o solo que cultiva, mas em conjunto com os animais, o campo, o vento, a chuva e o sol, que o tornam f\u00e9rtil &#8220;(CEE, 1991, 41); &#8220;A Terra: \u00e9 sagrada porque sempre garantiu a vida, que \u00e9 sagrada. \u00c9 por isso que eles mostram carinho, respeito e venera\u00e7\u00e3o &#8220;(CEB, [1992], n.136, 50).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ent\u00e3o uma vida de relacionamentos n\u00e3o baseados em ter, poder ou conhecimento, mas na gratuidade e harmonia da &#8220;boa vida&#8221;. Assim, por exemplo, no mundo andino, a palavra qu\u00e9chua-aimar\u00e1 <em>Pacha<\/em> representa o sentido profundo, o horizonte de compreens\u00e3o, a filosofia da vida e o \u00faltimo motivo da cosmovis\u00e3o religiosa ind\u00edgena (ESTERMANN, 2011, 285-298). Ou nas palavras de Calixto Quispe: &#8220;\u00e9 o eterno mist\u00e9rio, o ninho onde acreditamos existir dentro do universo vital c\u00f3smico [&#8230;] a casa grande, o ninho da vida onde o esp\u00edrito nos faz viver em harmonia [&#8230;] o ninho do esp\u00edritos protetores [&#8230;] o ilimitado [&#8230;] infinito al\u00e9m do espa\u00e7o e do tempo [&#8230;] o ser vital c\u00f3smico que anuncia o mist\u00e9rio da vida &#8220;(QUISPE, 2007, 2-11.19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>Pacha <\/em>\u00e9 a vida integral e relacional, cheia de profundo mist\u00e9rio e espiritualidade; \u00c9 a raz\u00e3o final de toda exist\u00eancia. Da\u00ed a centralidade da <em>Pachamama<\/em> na experi\u00eancia ind\u00edgena. Assim, os povos ind\u00edgenas intu\u00edram, acreditavam e viviam em todas as suas dimens\u00f5es a Presen\u00e7a do Mist\u00e9rio como sentido da vida plena, um Mist\u00e9rio de Deus Criador e Fazedor de tudo o que existe:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEUS que segue seu trabalho muito perto, continua a criar a vida e nos encarrega criar a vida. Ele encarrega criar (cuidar) aos esp\u00edritos guardi\u00f5es (das colinas, da batata, da casa, das lagoas &#8230;), \u00e9 claro, a Pachamama, a grande m\u00e3e-irm\u00e3 ou provid\u00eancia de Deus. O Aimar\u00e1 insiste: somos co-criadores; N\u00f3s somos respons\u00e1veis por continuar a aumentar com grande carinho o que Deus nos d\u00e1 (JORD\u00c1, 2013, 93).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com a teologia crist\u00e3 cl\u00e1ssica, &#8220;a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a obra da Palavra do Senhor e a presen\u00e7a do Esp\u00edrito, que desde o in\u00edcio pairava acima de tudo que foi criado (ver Gn 1-2) [&#8230;] foi a primeira alian\u00e7a de Deus conosco &#8220;(DSD 169); &#8220;\u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o do amor providente de Deus&#8221;, que &#8220;criou o universo como um espa\u00e7o para a vida e a conviv\u00eancia de todos os seus filhos e filhas e os deixou como um sinal de sua bondade e beleza [&#8230;] para que possamos cuidar dele e transform\u00e1-lo em uma fonte de vida digna &#8220;(DA 125). No entanto, hoje vemos que &#8220;toda a cria\u00e7\u00e3o geme at\u00e9 o presente e sofre dores de parto&#8221; (Rom 8:22), esperando &#8220;libertar-se da escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus&#8221; (Rm 8,21). Vemos as consequ\u00eancias desastrosas de uma vis\u00e3o e mentalidade centrada na fria raz\u00e3o, na ci\u00eancia e na tecnologia, que est\u00e3o causando desequil\u00edbrio e destrui\u00e7\u00e3o do planeta Terra, cujas consequ\u00eancias s\u00e3o imprevis\u00edveis. \u00c9 o que o pr\u00f3prio Papa Francisco denunciou (cf. LS).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto, a teologia amer\u00edndia luta pela harmonia da vida em todas as suas express\u00f5es, coloca no centro a rela\u00e7\u00e3o da pessoa humana com seu ambiente comunit\u00e1rio-c\u00f3smico, a fim de alcan\u00e7ar o equil\u00edbrio desejado. Essa concep\u00e7\u00e3o humano-c\u00f3smica da vida \u00e9 um importante contributo para a sociedade de hoje, para a Igreja e para a teologia crist\u00e3, uma vez que quer levar a s\u00e9rio e com todas as suas consequ\u00eancias o princ\u00edpio da reciprocidade da realidade, que \u00e9 interativa e inter-relacional, indo al\u00e9m de uma concep\u00e7\u00e3o linear da hist\u00f3ria, centrada apenas no ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.5 A comunica\u00e7\u00e3o m\u00edtico-narrativa: &#8220;imagens e s\u00edmbolos s\u00e3o verdadeiras teologias&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia \u00edndia se expressa de maneira mais experiencial, narrativa e simb\u00f3lica, porque &#8220;os s\u00edmbolos e os mitos expressam de forma mais completa e radical o significado profundo que damos \u00e0 vida&#8221; (L\u00d3PEZ, 1991, 9). Assim, a teologia \u00e9 alimentada pelas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas, entre outros, mitos, cerim\u00f4nias, celebra\u00e7\u00f5es, encontros comunit\u00e1rios, festas, lutas, mart\u00edrios, di\u00e1logos espont\u00e2neos, sonhos, express\u00f5es art\u00edsticas &#8230;, que devem ser abordados a partir de diversas ci\u00eancias e com seus pr\u00f3prios m\u00e9todos. Por sinal, \u00e9 importante lembrar que &#8220;os mitos s\u00e3o express\u00f5es hist\u00f3ricas primordiais de cada povo, que reproduzem culturalmente sua experi\u00eancia de Deus &#8220;, de modo que &#8220;imagens e l\u00ednguas simb\u00f3licas podem ser consideradas como verdadeiras teologias&#8221; (SUESS, 2008, 116). Em rela\u00e7\u00e3o aos sonhos, &#8220;eles s\u00e3o o espa\u00e7o da consci\u00eancia n\u00e3o apenas expl\u00edcito, mas impl\u00edcito do que acontece em torno de n\u00f3s &#8230; Os sonhos compartilhados e analisados coletivamente s\u00e3o um excelente fator de an\u00e1lise da realidade e de cr\u00edtica teol\u00f3gica [&#8230;] motor que desencadeia compromissos comunit\u00e1rios de a\u00e7\u00e3o &#8220;(L\u00d3PEZ, 2000, 103).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, a teologia amer\u00edndia recolhe e incorpora no seu trabalho as v\u00e1rias express\u00f5es narrativas e simb\u00f3licas (orais, rituais, art\u00edsticas) da revela\u00e7\u00e3o do Mist\u00e9rio de Deus presente na vida de cada um dos povos ind\u00edgenas. Tais express\u00f5es coincidem em grande medida com as narrativas b\u00edblicas, com um alto conte\u00fado simb\u00f3lico, po\u00e9tico e at\u00e9 mesmo sonhador. Portanto, \u00e9 uma teologia que procura recuperar para ler com \/ a partir de crit\u00e9rios ind\u00edgenas a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica em cada um de seus s\u00edmbolos e l\u00ednguas, muitas vezes esquecidos ou parcialmente compreendidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 \u00a0Perspectivas da teologia amer\u00edndia: tarefas e desafios urgentes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia amer\u00edndia, como reflex\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 a partir da experi\u00eancia milenar e das categorias simb\u00f3licas dos povos ind\u00edgenas, iniciou seu processo de articula\u00e7\u00e3o em torno dos 500 anos da conquista da Am\u00e9rica. Portanto, ainda permanecem as sensibilidades, preocupa\u00e7\u00f5es, projetos, lutas e sonhos s\u00f3cio-eclesiais dos povos ind\u00edgenas dessa \u00e9poca, cuja situa\u00e7\u00e3o persiste na maioria dos casos. Da\u00ed o compromisso da Igreja, atrav\u00e9s de seus pastores, de &#8220;denunciar as situa\u00e7\u00f5es de pecado, as estruturas da morte, a viol\u00eancia e as injusti\u00e7as internas e externas&#8221; (DA 95) sofridas pelos ind\u00edgenas. Ao mesmo tempo, novos cen\u00e1rios ou situa\u00e7\u00f5es globais emergentes na atual &#8220;mudan\u00e7a de era&#8221; (DA 44) s\u00e3o adicionados ao precedente, sem necessariamente neg\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta situa\u00e7\u00e3o mundial tamb\u00e9m afeta os povos ind\u00edgenas e desafia a tarefa teol\u00f3gica em sua busca para articular a f\u00e9 crist\u00e3 em categorias e l\u00ednguas compreens\u00edveis que respondam \u00e0 vida e \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es de homens e mulheres. De fato, &#8220;a teologia contribui, ent\u00e3o, para o fato de que a f\u00e9 seja comunic\u00e1vel e que a intelig\u00eancia daqueles que ainda n\u00e3o conhecem Cristo a possa procurar e encontrar&#8221; (DV 7). Dada a mudan\u00e7a de paradigmas ou padr\u00f5es na forma de viver, compreender e pensar sobre a realidade em cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o, a teologia amer\u00edndia \u00e9 chamada a dar-se a conhecer para comunicar ao mundo com suas <em>pr\u00f3prias categorias e linguagens<\/em>, o \u00faltimo Mist\u00e9rio que transcende as fronteiras, espa\u00e7os e territ\u00f3rios determinados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.1 Da pr\u00e1tica intracultural \u00e0 conviv\u00eancia transcultural: &#8220;a mensagem revelada tem um conte\u00fado transcultural&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os povos ind\u00edgenas durante muitos anos viveram mais ligados \u00e0 sua pr\u00f3pria terra com uma forte coes\u00e3o social, viv\u00eancia familiar, celebra\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e transmiss\u00e3o de seus valores e tradi\u00e7\u00f5es dentro de suas pr\u00f3prias culturas. Atualmente, o fen\u00f4meno migrat\u00f3rio que caracteriza a sociedade global est\u00e1 tendo um forte impacto sobre a vida, a mentalidade, os costumes e o senso religioso dos povos aut\u00f3ctones, chamados a se confrontar em todos os lugares com outros povos, especialmente nas cidades. Assim, a experi\u00eancia intracultural torna-se cada vez mais conviv\u00eancia intercultural ou transcultural, ou seja, uma posi\u00e7\u00e3o que &#8220;leva em conta os processos hist\u00f3ricos de mudan\u00e7a e transforma\u00e7\u00e3o cultural&#8221;, &#8220;m\u00faltiplas sobreposi\u00e7\u00f5es, interfer\u00eancias, modifica\u00e7\u00f5es, negocia\u00e7\u00f5es, sele\u00e7\u00f5es e reestrutura\u00e7\u00f5es de diversos elementos culturais &#8220;(ESTERMANN, 2010, 40); Isto requer uma constante releitura ou reafirma\u00e7\u00e3o criativa da pr\u00f3pria identidade cultural (mem\u00f3ria, linguagem, mentalidade e os costumes, a vis\u00e3o religiosa) em di\u00e1logo criativo com outros &#8220;padr\u00f5es culturais ind\u00edgenas&#8221; constante, fortalecendo assim as chamadas &#8220;m\u00faltiplas identidades&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00e2mbito eclesial, uma comunidade dos fi\u00e9is deve viver um processo constante e cont\u00ednuo de ressignifica\u00e7\u00e3o, movimento e abertura para se deslocar da monoculturalidade e intraculturalidade para a interculturalidade e transculturalidade, e, assim, responder com mais efic\u00e1cia e proximidade \u00e0queles que vivem no meio de fortes condicionamentos do atual mundo digital e globalizado. O Papa Francisco diz com esse prop\u00f3sito:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o faria justi\u00e7a \u00e0 l\u00f3gica da encarna\u00e7\u00e3o pensar num cristianismo monocultural e monoc\u00f3rdico. \u00c9 verdade que algumas culturas estiveram intimamente ligadas \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento crist\u00e3o, mas a mensagem revelada n\u00e3o se identifica com nenhuma delas e possui um conte\u00fado transcultural (EG 117).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, esse processo de constante ressignifica\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias identidades culturais e religiosas, do discernimento intracomunit\u00e1rio, para acolher com criatividade os &#8220;sinais dos tempos&#8221; (GS 4) que o pr\u00f3prio Esp\u00edrito Santo espalha no mundo atual, pode\u00a0 servir como um laborat\u00f3rio, e talvez como modelo, para outras comunidades crist\u00e3s e para diferentes teologias. As experi\u00eancias feitas, e ainda em curso, em algumas igrejas locais do continente mostram que outra igreja \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a teologia amer\u00edndia procura viver nesses espa\u00e7os interculturais, aprender com a sabedoria de outros povos (ind\u00edgenas ou n\u00e3o), recuperar e aprofundar a mem\u00f3ria hist\u00f3rica, elaborar novas linguagens teol\u00f3gicas, linguagens transculturais, com o contributo do melhor das tradi\u00e7\u00f5es aut\u00f3ctones e das riquezas de outras tradi\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, devemos entender o compromisso dos pastores da Igreja em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas de &#8220;promover o di\u00e1logo intercultural, inter-religioso e ecum\u00eanico&#8221; (DA 95). Em suma, \u00e9 o desafio da universalidade concreta, emp\u00edrica e convivial da teologia amer\u00edndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.2 Da fam\u00edlia local \u00e0 comunidade global desde os sujeitos emergentes: \u00e9 urgente\u00a0 &#8220;uma teologia profunda da mulher&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contato com outras experi\u00eancias culturais em espa\u00e7os e territ\u00f3rios nem sempre ligados \u00e0 milenar tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, bem como o impacto do grande cen\u00e1rio cibern\u00e9tico digital com suas redes de comunica\u00e7\u00e3o globais m\u00faltiplas e efetivas, afetam a mesma percep\u00e7\u00e3o do que uma comunidade ind\u00edgena significa. Se os habitantes do mundo, em geral, se percebem cada vez mais como membros de uma grande &#8220;aldeia global&#8221;, os povos ind\u00edgenas tamb\u00e9m sentem que suas comunidades s\u00e3o cada vez pequenas &#8220;aldeias globais&#8221; que refletem as transforma\u00e7\u00f5es mundiais. Nessa intera\u00e7\u00e3o com outros povos e com a sociedade mundial, os ind\u00edgenas se redefinem como membros de um determinado grupo \u00e9tnico-social, incorporando em suas organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias novas modalidades de participa\u00e7\u00e3o efetiva. Tal \u00e9 o caso, por exemplo, do protagonismo ativo das mulheres em \u00e1reas n\u00e3o s\u00f3 familiares ou locais, mas tamb\u00e9m de lideran\u00e7a social e pol\u00edtica, de gest\u00e3o p\u00fablica e de condu\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios movimentos, aspecto que nem sempre \u00e9 devidamente avaliado na maioria das comunidades ind\u00edgenas tradicionais, onde os homens ainda t\u00eam a \u00faltima palavra. \u00c9 necess\u00e1rio recuperar a presen\u00e7a ativa da mulher ind\u00edgena em sua comunidade como portadora da espiritualidade ind\u00edgena que supera os esquemas patriarcais (ROMERO, 2010, 76).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a teologia amer\u00edndia incorpora e assume o desafio de dar maior participa\u00e7\u00e3o e espa\u00e7o aos chamados &#8220;sujeitos emergentes&#8221; (jovens, migrantes, mulheres &#8230;) como protagonistas teol\u00f3gicos e criadores de uma forma de fazer teologia que responde \u00e0s exig\u00eancias da pr\u00f3pria comunidade, em sintonia com a &#8220;grande comunidade&#8221; eclesial, presente nas outras igrejas locais. \u00c9 urgente encontrar e dialogar com outras teologias emergentes, particularmente com propostas teol\u00f3gicas na perspectiva feminina, cujas \u00eanfases tem\u00e1ticas e metodologias utilizadas enriquecer\u00e3o grandemente as intui\u00e7\u00f5es fundadoras da teologia amer\u00edndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A este respeito, \u00e9 urgente acolher o apelo do Papa Francisco para &#8220;expandir os espa\u00e7os para uma presen\u00e7a feminina mais incisiva na Igreja&#8221; (EG 103), de tal forma que o &#8220;g\u00eanio feminino&#8221; se expresse mesmo &#8220;onde s\u00e3o tomadas decis\u00f5es importantes &#8220;(EG 104), como j\u00e1 ocorre no n\u00edvel social. De fato, &#8220;a grandeza das mulheres implica todos os direitos que emanam da sua inalien\u00e1vel dignidade humana, mas tamb\u00e9m do seu g\u00eanio feminino, indispens\u00e1vel para a sociedade&#8221; (AL 173). Portanto, nas suas palavras, \u00e9 urgente elaborar &#8220;uma teologia profunda da mulher&#8221;: &#8220;Temo a solu\u00e7\u00e3o do&#8221; machismo com saias &#8220;, porque as mulheres t\u00eam uma estrutura diferente do homem [&#8230;]. As mulheres est\u00e3o fazendo perguntas profundas que devemos enfrentar &#8220;(SPADARO, 2013, 17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, a teologia amer\u00edndia deve continuar seu processo de dar maior protagonismo teol\u00f3gico \u00e0s mulheres ind\u00edgenas e aos jovens em seus espa\u00e7os reflexivos, fiel \u00e0 sua tradi\u00e7\u00e3o cultural de reciprocidade entre homens e mulheres (<em>chacha-warmi<\/em>, em Aimar\u00e1), n\u00e3o s\u00f3 concebido como uma reivindica\u00e7\u00e3o social, mas como uma recupera\u00e7\u00e3o do profundo sentido m\u00edtico-religioso de harmonia e integra\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00f5es socioculturais e simb\u00f3licas. Em suma, \u00e9 o desafio do encontro, intercomunica\u00e7\u00e3o e um di\u00e1logo mais profundo entre as v\u00e1rias teologias emergentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.3 Do nomadismo cr\u00edstico-trinit\u00e1rio ao nomadismo cosmoteoc\u00eantrico digital: &#8220;Ele saiu sem saber aonde ele estava indo&#8221; (Hb 11,8)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os homens e mulheres de hoje vivem momentos de profundas transforma\u00e7\u00f5es culturais que est\u00e3o mudando at\u00e9 mesmo uma certa maneira de perceber, conceber, interpretar e viver n\u00e3o apenas as rela\u00e7\u00f5es mais &#8220;externas&#8221;, como o trabalho ou a comunica\u00e7\u00e3o com os outros, dentro e fora da fam\u00edlia ou da comunidade, mas tamb\u00e9m as experi\u00eancias e percep\u00e7\u00f5es &#8220;interiores&#8221; ou subjetivas que tocam o cora\u00e7\u00e3o da pessoa. A prop\u00f3sito, essas mudan\u00e7as s\u00e3o em grande parte devidas \u00e0 &#8220;revolu\u00e7\u00e3o&#8221; cibern\u00e9tica e digital que afeta e continua a afetar o mundo nas \u00faltimas d\u00e9cadas e que \u00e9 adicionada a outras &#8220;revolu\u00e7\u00f5es&#8221;, como a microeletr\u00f4nica, o feminista, a ecol\u00f3gica, a pol\u00edtica e paradigm\u00e1tica, anunciadas anos antes (MIRES, 1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo em mente a caracter\u00edstica aberta, acolhedora, ou seja, nom\u00e1dica, j\u00e1 mencionada, dos povos ind\u00edgenas, pode-se dizer que o mundo, de alguma forma, assume uma certa itiner\u00e2ncia da vida, expressada por uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas externas ou superficiais, mas internas e estruturais. Precisamente este \u00faltimo aspecto nos convida a nos perguntar sobre o sentido b\u00edblico-teol\u00f3gico do tempo em que vivemos e a presen\u00e7a dos crentes. Em outras palavras, em que medida a reflex\u00e3o b\u00edblico-teol\u00f3gica em geral &#8211; e a teologia amer\u00edndia em particular &#8211; aborda as quest\u00f5es relacionadas ao momento presente com uma base para acompanhar as profundas quest\u00f5es de homens e mulheres de hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pressuposto importante para abordar este problema \u00e9 assumir o nomadismo com todas as suas consequ\u00eancias, isto \u00e9, como filosofia ou perspectiva da vida, em sua val\u00eancia profunda e horizonte de significado. No campo teol\u00f3gico amer\u00edndio, \u00e9 uma quest\u00e3o de refletir sobre o movimento, a tenda, o aparentemente inst\u00e1vel, o transit\u00f3rio, como j\u00e1 est\u00e1 sendo tentado no campo da missiologia (ver Equipe ILAMIS, 2010 e 2011) . Esta metodologia, que \u00e9 ao mesmo tempo uma atitude de vida, implica a recupera\u00e7\u00e3o do sentido b\u00edblico-teol\u00f3gico de confian\u00e7a e abandono em YHWH, em Deus Pai-M\u00e3e, no Mist\u00e9rio, como o \u00fanico capaz de &#8220;garantir&#8221; a perman\u00eancia, estabilidade, o definitivo. Isso sup\u00f5e confian\u00e7a e abandono no Mist\u00e9rio, deixando-se levar pela Divino Ruah, pela paresia do Esp\u00edrito Santo; para viver no Amor Uno-Trino, que integra os fragmentos humano-c\u00f3smico e as redes digitais de seres vivos. Em que medida &#8220;articular&#8221; uma linguagem teol\u00f3gica trinit\u00e1ria-digital em uma chave ind\u00edgena? \u00c9 a tarefa da teologia amer\u00edndia em di\u00e1logo com outras express\u00f5es teol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica judaico-crist\u00e3, um paradigma simb\u00f3lico-nom\u00e1dico pode servir de guia em tempos de grandes transforma\u00e7\u00f5es axiais ou epocais. Esta \u00e9 a figura de Abra\u00e3o, que sabia obedecer a YHWH, &#8220;saiu sem saber para onde estava indo&#8221;, viveu &#8220;como estrangeiro, morando em tendas&#8221; (Hb 11,8,9), mas sempre crendo no Deus da Vida e de Deus. a promessa. \u00c9 a certeza da teologia amer\u00edndia, baseada na sabedoria milenar dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.4 Da cria\u00e7\u00e3o divina ao cosmos em expans\u00e3o: a interven\u00e7\u00e3o de Deus ainda \u00e9 necess\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os povos ind\u00edgenas sempre conceberam e viveram de acordo com a no\u00e7\u00e3o de um Fazedor, nem sempre Criador, no qual tudo o que existe, sejam seres vivos ou n\u00e3o, adquire sentido e fundamento. A partir desta experi\u00eancia pr\u00e1tica, comemorativa e simb\u00f3lica, os mission\u00e1rios da primeira hora e os posteriores associaram e interpretaram a experi\u00eancia ind\u00edgena de acordo com as categorias teol\u00f3gicas do momento, geralmente identificando o Deus Fazedor com o Deus Criador. Atualmente, no entanto, os avan\u00e7os cient\u00edficos e os estudos cosmol\u00f3gicos parecem desafiar a teologia &#8211; n\u00e3o s\u00f3 ind\u00edgena &#8211; a pensar em criar a possibilidade de um Deus nem Fazedor e muito menos Criador. Nesse sentido, a teologia, chamada a investigar intelig\u00eancia ou &#8220;raz\u00e3o de f\u00e9&#8221; para oferecer respostas s\u00f3lidas a quem a procura, est\u00e1 aberta &#8220;\u00e0 raz\u00e3o e aos resultados da pesquisa cient\u00edfica&#8221;, atrav\u00e9s de um di\u00e1logo maduro, profundo e criativo no contexto atual. Em efeito:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo entre ci\u00eancia e f\u00e9 \u00e9 um campo vital na Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Por um lado, esse di\u00e1logo exige a abertura da raz\u00e3o\u00a0 ao mist\u00e9rio que o transcende e a consci\u00eancia dos limites fundamentais do conhecimento cient\u00edfico. Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria uma f\u00e9 aberta \u00e0 raz\u00e3o e aos resultados da pesquisa cient\u00edfica ( S\u00ednodo Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, 2012, proposta 54).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo come\u00e7a com o encontro e a escuta, neste caso, das proposi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Nesse sentido, alguns especialistas j\u00e1 come\u00e7aram h\u00e1 algum tempo a abordar a quest\u00e3o do princ\u00edpio e das origens do universo, porque, se o universo est\u00e1 se expandindo, pode haver raz\u00f5es f\u00edsicas para considerar um princ\u00edpio. Neste contexto, pode-se perguntar: existe espa\u00e7o para Deus o criador em um universo em expans\u00e3o? Se sim, quais &#8220;atributos&#8221; teria? A este respeito, o f\u00edsico te\u00f3rico Stephen Hawking apontou alguns anos atr\u00e1s:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">ainda pode-se imaginar que Deus criou o universo no momento do big bang, mas n\u00e3o faz sentido supor que o universo tenha sido criado antes do big bang. Um universo em expans\u00e3o n\u00e3o exclui a exist\u00eancia de um criador, mas estabelece limites sobre quando poderia ter realizado sua miss\u00e3o! (HAWKING, 1988, 49)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos mais tarde, o mesmo autor ir\u00e1 apontar: &#8220;se o universo \u00e9 realmente completamente autocontido, se n\u00e3o possui fronteira ou borda, n\u00e3o ser\u00e1 criado ou destru\u00eddo. Simplesmente seria. Qual lugar haveria, ent\u00e3o, para um Criador? &#8220;(HAWKING, 2007, 108). Mais tarde, o mesmo autor, desde o filos\u00f3fico-teol\u00f3gico, pergunta n\u00e3o apenas o como, mas tamb\u00e9m o motivo de tal comportamento do universo. Ele responde postulando um modelo do universo que se cria a si pr\u00f3prio, ou seja, a chamada Teoria M, segundo a qual &#8220;nosso universo n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico, mas muitos outros universos foram criados a partir do nada. Sua cria\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o exige a interven\u00e7\u00e3o de nenhum Deus ou Sobrenatural, mas a multiplica\u00e7\u00e3o de universos surge naturalmente da lei f\u00edsica &#8220;(HAWKING-MLODINOW, 2010, 15-16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a posi\u00e7\u00e3o de Hawking se baseie em um modelo cosmol\u00f3gico te\u00f3rico, sem apoio emp\u00edrico suficiente, n\u00e3o deixa de questionar quest\u00f5es fundamentais para a filosofia e a teologia (SOLER, 2008). De fato, pode-se pensar que \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o para outras teologias, n\u00e3o exatamente ind\u00edgenas; no entanto, uma vez que a teologia amer\u00edndia \u00e9 chamada a abordar interpela\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, de alguma forma deve enfrentar e responder de acordo com suas fontes e linguagens espec\u00edficas. Em qualquer caso, a teologia \u00edndia-crist\u00e3 n\u00e3o deixa de ser cosmoc\u00eantrica trinit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.5 Da comunica\u00e7\u00e3o narrativa \u00e0 pluralidade de linguagens transdisciplinares: &#8220;tudo est\u00e1 conectado&#8221; (LS 16, passim)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os\/as ind\u00edgenas s\u00e3o capazes de aprender e incorporar outras l\u00f3gicas mentais, outros paradigmas de cora\u00e7\u00e3o e vida, devido ao contato com outros povos, sejam ind\u00edgenas ou n\u00e3o, sem com isso necessariamente perder a identidade. Pelo contr\u00e1rio, os interc\u00e2mbios bem vividos envolvem aprendizagem e riquezas, a capacidade de viver com outros povos, tendo em mente suas pr\u00f3prias linguagens. Nesta situa\u00e7\u00e3o, a eminentemente narrativa, a teologia amer\u00edndia \u00e9 capaz de abrir-se a outras linguagens teol\u00f3gicas, a fim de continuar a aprender com seus princ\u00edpios, estilos, linguagens e epistemologias. De fato, a teologia amer\u00edndia, na escuta e troca com outras disciplinas humanas, sociais ou dif\u00edceis, est\u00e1 emergindo como uma teologia transdisciplinar, que dialoga com outras abordagens e enfoques teol\u00f3gicos. Em suma, presume-se em todas as \u00e1reas da vida indiana o princ\u00edpio da reciprocidade, relacionalidade e conectividade, recuperado pela ci\u00eancia e pelo Magist\u00e9rio do Papa Francisco, segundo a qual &#8220;tudo est\u00e1 conectado&#8221; (LS 16.91.117.138 .240), &#8220;tudo est\u00e1 relacionado&#8221; (LS 70.120.142) ou mesmo &#8220;intimamente relacionado&#8221; (LS 137.213).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a teologia, o fundamento do pluralismo teol\u00f3gico em perspectivas transdisciplinares \u00e9 o s\u00edmbolo ou Mist\u00e9rio Trinit\u00e1rio-Cr\u00edstico, que adquire \u00eanfase e nuances pr\u00f3prias de categorias ind\u00edgenas: um cristocentrismo trinit\u00e1rio e, ao mesmo tempo, um teocentrismo cr\u00edstico numa l\u00f3gica de permanente intera\u00e7\u00e3o e inter-rela\u00e7\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas do equil\u00edbrio c\u00f3smico-comunit\u00e1rio-fam\u00edlia-pessoal da boa vida. Da mesma forma, quest\u00f5es teol\u00f3gicas relacionadas ao cosmos ou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, a revela\u00e7\u00e3o, o problema do mal, a no\u00e7\u00e3o de tempo, os sacramentos como a Eucaristia, s\u00e3o enriquecidos desde sensibilidades ind\u00edgenas integradoras e simb\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Roberto Tomich\u00e1 Charup\u00e1<\/em>. Instituto de Misionolog\u00eda, Cochabamba (Bol\u00edvia). Original em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BENGOA, J. <em>La emergencia ind\u00edgena en Am\u00e9rica Latina.<\/em> Santiago de Chile: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOTASSO, J. (comp.). <em>Evangelio y culturas. Documentos de la Iglesia latinoamericana<\/em>. Quito: Abya Yala, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONFERENCIA EPISCOPAL DE BOLIVIA (CEB). <em>Aportes de la Conferencia Episcopal de Bolivia a la IV Conferencia del Episcopado Latinoamericano, S. Domingo 1992.<\/em> La Paz: pro manuscripto, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONFERENCIA EPISCOPAL ECUATORIANA (CEE). <em>Documentos. Aportes a la IV Conferencia General.<\/em> [Quito]: s\/e, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEPARTAMENTO DE MISIONES (DEMIS). <em>Documentos de Pastoral Ind\u00edgena.<\/em> Bogot\u00e1: Centro de Publicaciones CELAM,1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EQUIPO ILAMIS. La transitoriedad desde la hondura-anchura como m\u00e9todo misionol\u00f3gico. Em <em>Spiritus<\/em> , 67-77 y 90-101, 2010 y 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ESTERMANN, J. <em>Interculturalidad. Vivir la diversidad.<\/em> La Paz: ISEAT, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Compendio de la filosof\u00eda occidenal en perspectiva intercultural. Introducci\u00f3n al pensamiento filos\u00f3fico<\/em> (Vol. I). La Paz: ILAMIS-CMMAL, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GORSKI-TOMICH\u00c1. <em>Semillas del Verbo. Consideraciones teol\u00f3gicas.<\/em> Cochabamba: Verbo Divino-ILAMIS, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HAWKING S.-MLODINOW L. <em>El Gran Dise\u00f1o.<\/em> Cr\u00edtica: Barcelona, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>Historia del tiempo. Del big bang a los agujeros negros.<\/em> Barcelona: Cr\u00edtica,1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>La teor\u00eda del todo. El origen y el destino del universo.<\/em> Barcelona: Cr\u00edtica, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORD\u00c1, E. Aporte regi\u00f3n andina: Quechua-Aymara. En CELAM, <em>Teolog\u00eda India. IV Simposio Latinoamericano de Teolog\u00eda india. La teolog\u00eda de la creaci\u00f3n en la fe cat\u00f3lica y en los mitos, ritos y s\u00edmbolos de los pueblos originarios de Am\u00e9rica Latina. El sue\u00f1o de Dios en la creaci\u00f3n humana y en el cosmos.<\/em> Bogot\u00e1: CELAM, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00d3PEZ, E. Teolog\u00eda india hoy. En AELAPI, <em>Teolog\u00eda India. Primer encuentro taller latinoamericano.<\/em> M\u00e9xico: CENAMI-Abya Yala, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. \u00a0<em>Teolog\u00eda india. Antolog\u00eda.<\/em> Cochabamba: Verbo Divino, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MAMANI BERNAB\u00c9, V. et al.. <em>Pacha n. 12. Suma Qama\u00f1a \u2013 Vivir Bien.<\/em> Cochabamba: ILAMIS-Verbo Divino, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MENDIETA, G. d. <em>Historia Eclesi\u00e1stica Indiana<\/em> (Vol. II). M\u00e9xico: Cien de M\u00e9xico, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MIRES, F. <em>La revoluci\u00f3n que nadie so\u00f1\u00f3 o la otra posmodernidad.<\/em> Caracas: Nueva Sociedad, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PROA\u00d1O, L. <em>Plan Nacional de Pastoral Ind\u00edgena.<\/em> Quito: Fundaci\u00f3n Pueblo Indio, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">QUISPE C.-MAMANI V. <em>Pacha n. 1.<\/em> Cochabamba: Verbo Divino, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ROMERO, L. M. <em>Proceso hist\u00f3rico y an\u00e1lisis teol\u00f3gico de los Servidores de la Iglesia Cat\u00f3lica de las Nacionalidades Ind\u00edgenas del Ecuador (SICNIE), 1988-2008.<\/em> Quito: in\u00e9dita en la red, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTIAGO, J. <em>La b\u00fasqueda de la libertad. Entrevista a Mons. Samuel Ruiz Garc\u00eda realizada en septiembre de 1996.<\/em> San Crist\u00f3bal de Las Casas: s\/e, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. <em>La Pasion de servir al Pueblo. (Testamento Espiritual de Don Samuel. Entrevista a JTatik).<\/em> San Crist\u00f3bal de Las Casas, Chiapas: Fray Bartolom\u00e9 de Las Casas, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SARMIENTO TUPAYUPANQUI, N. <em>Un arco iris de voces teol\u00f3gicas. La trilog\u00eda andina desde la experiencia quechua y aymara.<\/em> Cochabamba: Itinerarios, 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SICNIE. <em>I Encuentro Nacional de Servidores Indios de la Iglesia Ind\u00edgena. Memorias.<\/em> Saquisil\u00ed-Cotopaxi: texto in\u00e9dito, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOLER, F. J. <em>Lo divino y lo humano en el Universo de Stephen Hawking.<\/em> Madrid: Cristiandad, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SPADARO, A. Papa Francisco: \u201cBusquemos ser una Iglesia que encuentra caminos nuevos\u201d. Entrevista publicada el 19.09.2013. <em>Raz\u00f3n y Fe<\/em> , 1-27, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SUESS, P. &#8220;Mediaciones metodol\u00f3gicas de la teolog\u00eda cristiana como presupuestos para la pr\u00e1ctica misionera&#8221;. En AELAPI, <em>Teolog\u00eda India. Primer encuentro taller latinoamericano.<\/em> M\u00e9xico: CENAMI-Abya Yala, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. Teolog\u00eda India como Teolog\u00eda Cristiana. En AELAPI, <em>La fuerza de los peque\u00f1os, luz para el mundo. V Encuentro de Teolog\u00eda India (Manaus, 21-26 abril, 2006).<\/em> Cochabamba: Verbo Divino, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TOMICH\u00c1, R. Integraci\u00f3n de los ind\u00edgenas. En Bueno de la Fuente E.-Calvo R., <em>\u00a1Abba! Enciclopedia del cristianismo contempor\u00e1neo en Espa\u00f1a y Latinoam\u00e9rica. Testigos. Biblia, Historia de la Iglesia. Protagonistas. Corrientes. Pueblos de la Tierra<\/em> (p. 1369-1374). Burgos: Monte Carmelo, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. Teolog\u00edas amerindias: balance y tareas pendientes. <em>Yachay<\/em> (57-58), 127-152, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. Revelaci\u00f3n y Pueblos Originarios. Algunas consideraciones. En CELAM, <em>Teolog\u00eda India. V Simposio de Teolog\u00eda India. Revelaci\u00f3n de Dios y Pueblos Originarios (San Crist\u00f3bal de las Casas, Chiapas, 13-18 octubre 2014)<\/em> (p\u00e1gs. 131-153). Bogot\u00e1: CELAM, , 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_____. Trinidad y Buen con-vivir. Presupuestos para una lectura teol\u00f3gica amerindia. <em>Spiritus. Edici\u00f3n hispanoamericana<\/em> (57\/223), 102-120, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Introdu\u00e7\u00e3o 2 Contexto da teologia amer\u00edndia: a experi\u00eancia eclesial e teol\u00f3gica na Am\u00e9rica Latina 2.1 A primeira cristianiza\u00e7\u00e3o americana: &#8220;Aprendemos a teologia que Santo Agostinho ignorou completamente&#8221; 2.2 A segunda cristianiza\u00e7\u00e3o americana: &#8220;acompanhando sua reflex\u00e3o teol\u00f3gica, respeitando suas formula\u00e7\u00f5es culturais&#8221; 2.3 O surgimento da teologia \u00edndia: experi\u00eancias de igrejas locais aut\u00f3ctones 2.4 A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-1559","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-fundamental"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1559","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1559"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1559\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1560,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1559\/revisions\/1560"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}