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{"id":1471,"date":"2017-12-22T14:18:31","date_gmt":"2017-12-22T16:18:31","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1471"},"modified":"2018-04-21T18:17:28","modified_gmt":"2018-04-21T21:17:28","slug":"deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1471","title":{"rendered":"Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 A tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 O Deus do AT<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 O Deus de Jesus no NT<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Incultura\u00e7\u00e3o: o grande desafio da evangeliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 O Deus Trino da f\u00e9 crist\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Perspectivas da teologia latino-americana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Rumo a uma nova imagem de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando come\u00e7amos uma reflex\u00e3o sobre \u201cDeus\u201d, encontramos uma realidade muito singular: falar de Deus n\u00e3o \u00e9 o mesmo que falar sobre qualquer outro objeto de reflex\u00e3o cient\u00edfica. Deus n\u00e3o \u00e9 realmente um \u201cobjeto\u201d ao lado dos outros, um <em>ente<\/em> a mais entre os outros seres deste mundo finito. \u00c9 um conceito que, no campo das religi\u00f5es, busca se referir precisamente a essa realidade que \u00e9 <em>diferente,<\/em> porque \u00e9 a realidade suprema. Com a palavra <em>Deus<\/em> se quer nomear o que constitui <em>o princ\u00edpio e o fundamento <\/em>de tudo; que fornece alguma inteligibilidade e sentido ao resto da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessa caracter\u00edstica singular, surgem duas primeiras dificuldades: por um lado, uma vez que n\u00e3o \u00e9 um objeto do nosso conhecimento, um ente pr\u00f3prio do nosso mundo sens\u00edvel, pertence ao conceito de <em>Deus<\/em> uma dimens\u00e3o de mist\u00e9rio, impenetrabilidade, transcend\u00eancia e infinito. Obviamente, isso variar\u00e1 muito de uma religi\u00e3o para outra, como cada uma entende e apresenta seu Deus, mas pode-se dizer que, em maior ou menor grau, a ideia de Deus sempre ser\u00e1 acompanhada por uma certa inefabilidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a segunda dificuldade surge do fato que, precisamente porque \u00e9 o fundamento da realidade e da exist\u00eancia, trata-se do ser diante do qual n\u00e3o pode existir uma atitude neutra, de objetividade total. Falar sobre <em>Deus <\/em>sempre envolve n\u00f3s mesmos, nossa cultura, nossa idiossincrasia, nosso modo de entender o significado e o destino da hist\u00f3ria e da nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas dificuldades, no entanto, n\u00e3o impedem que seja v\u00e1lido, poss\u00edvel e at\u00e9 mesmo inevit\u00e1vel fazer a pergunta sobre a possibilidade de um discurso racional sobre Deus. E, precisamente, esse \u00e9 o objetivo da <em>teo<\/em>&#8211;<em>logia<\/em>. Se a quest\u00e3o sobre Deus implica a quest\u00e3o do fundamento \u00faltimo do mundo e do homem, se trata, sem d\u00favida, da quest\u00e3o mais fundamental de tudo, a que o homem n\u00e3o pode deixar de formular se quiser viver sua exist\u00eancia com plenitude de sentido (Cf. KASPER, 1982, p.13 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 A tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o sobre Deus, precisamente porque \u00e9 universal e envolve cada homem, nunca pode ter uma resposta \u00fanica, absolutamente neutra, universal e objetiva. Quando se trata de falar sobre Deus, n\u00e3o podemos faz\u00ea-lo a partir de uma perspectiva que englobe todas as perspectivas culturais e religiosas. Aqui, s\u00f3 tentaremos oferecer uma primeira e breve abordagem da hist\u00f3ria da reflex\u00e3o crist\u00e3 sobre Deus e sua recep\u00e7\u00e3o particular na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer que a religi\u00e3o crist\u00e3 foi marcada, desde os seus prim\u00f3rdios, pelo encontro entre duas tradi\u00e7\u00f5es diversas: a cultura greco-latina e a cultura b\u00edblica hebraica. Do entrela\u00e7amento destas duas correntes nasceria, como nova s\u00edntese, a cultura do Ocidente. (Cf. ZARAZAGA, 2004, p.253) A prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3 seria um motor e agente fundamental desta nova configura\u00e7\u00e3o religiosa e cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1 O Deus do AT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Israel como povo \u00e9 insepar\u00e1vel da hist\u00f3ria de sua religi\u00e3o. Israel elabora sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria interpretando os eventos que a marcam a partir da chave teol\u00f3gica de sua rela\u00e7\u00e3o com Yahweh. Esta chave hermen\u00eautica nos permite entender que o AT n\u00e3o procura realmente fornecer uma historiografia detalhada ou um relato preciso dos principais eventos que determinaram o curso da hist\u00f3ria de Israel. O que realmente pretende \u00a0\u00e9 testemunhar a f\u00e9 de que toda a hist\u00f3ria e a pr\u00f3pria exist\u00eancia de Israel s\u00f3 se baseiam no mist\u00e9rio de sua elei\u00e7\u00e3o como povo da alian\u00e7a por parte de Yahweh. Yahweh, por livre des\u00edgnio de seu amor e vontade, teria decidido escolher Israel para lev\u00e1-lo a sua liberta\u00e7\u00e3o e sua plena realiza\u00e7\u00e3o em um reino de paz, justi\u00e7a e prosperidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje sabemos que essa convic\u00e7\u00e3o das origens ainda n\u00e3o implicava uma confiss\u00e3o monote\u00edsta expressa. O culto a Yahweh provavelmente foi levado para a Palestina por volta de 1100 aC, por algum grupo ou tribo vinda do Sul, que fugiu da domina\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia (<em>\u1e25abiru<\/em> \/ hebreus), procurando algum lugar para se estabelecer com certa seguran\u00e7a e autonomia. L\u00e1, eles teriam se misturado a outras tribos e grupos que estavam adotando o culto a Yahweh, provavelmente atra\u00eddos pelo perfil desse Deus libertador que n\u00e3o se colocou ao lado de imperadores e poderosos, mas dos pobres e oprimidos em busca de liberdade e salva\u00e7\u00e3o. Pode ser que a\u00ed se fundamente a gesta\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria m\u00edtica coletiva que combine as origens de Israel com um \u00eaxodo milagroso alcan\u00e7ado em virtude dos sinais do poderoso bra\u00e7o de Yahweh (cf. ALBERTZ, 1999, p.83-174; LIVERANI, 2005, p.49; R\u00d6MER, 2015, p.82 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As caracter\u00edsticas desse Deus, insuficientemente conhecido, foram gradualmente explicitadas ao longo da hist\u00f3ria e da reflex\u00e3o teol\u00f3gica de Israel. Muito provavelmente, no in\u00edcio, Yahweh foi entendido como o Deus de uma prec\u00e1ria comunidade de tribos, mas sem excluir a adora\u00e7\u00e3o de outros deuses e cultos ligados \u00e0 mem\u00f3ria dos antepassados \u200b\u200be \u00e0s pr\u00e1ticas cultuais pr\u00f3prias da vida agr\u00e1ria e pastoral. As pr\u00e1ticas de adivinha\u00e7\u00e3o, os cultos astrais, a venera\u00e7\u00e3o de alguma divindade feminina associada \u00e0 fertilidade etc. eram comuns no ambiente cultural do Oriente M\u00e9dio. Parecia \u00f3bvio, al\u00e9m disso, que cada povo tivesse seus pr\u00f3prios deuses e cultos, identificados com os interesses e a cultura de sua pr\u00f3pria etnia, cl\u00e3 ou na\u00e7\u00e3o (cf. ALBERTZ, 1999, p.174 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi atrav\u00e9s das vicissitudes da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria que Israel foi reelaborando a compreens\u00e3o de seu Deus (ver a s\u00edntese de R\u00d6MER, 2015, em p.246 et seq.). As religi\u00f5es dos povos vizinhos serviam como um quadro de refer\u00eancia para incorporar ou rejeitar, em Yahweh, os tra\u00e7os que elas atribu\u00edam a seus pr\u00f3prios deuses. Se, durante a era mon\u00e1rquica, a teologia oficial come\u00e7ou a pensar que Yahweh deveria ser adorado como <em>Rei dos deuses<\/em> e outros seres da corte celestial, como poderoso <em>Senhor dos Ex\u00e9rcitos<\/em> (<em>Yhwh \u015eeba&#8217;ot<\/em>) (cf. ALBERTZ, 1999, p.197 et seq., 219 et seq. e 243 et seq.; R\u00d6MER, 2015, p.136 et seq.), mais adiante dever\u00e1 rever esses aspectos diante do estrondoso fracasso desse projeto pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m durante o ex\u00edlio babil\u00f4nico, os te\u00f3logos de Israel tiveram que fazer um esfor\u00e7o enorme para reinterpretar a hist\u00f3ria e tentar entender os misteriosos des\u00edgnios de Yahweh para elucidar como ele agora levaria Israel ao pleno cumprimento de sua promessa. L\u00e1, enquanto a f\u00e9 em Yahweh e a fidelidade a sua alian\u00e7a foram se convertendo no principal s\u00edmbolo da identidade israelita,\u00a0 aumentou a compreens\u00e3o de seu campo de a\u00e7\u00e3o: se Yahweh pode cumprir suas promessas, se ele realmente pode libertar ao seu povo, ent\u00e3o pode liderar os destinos da hist\u00f3ria. A introdu\u00e7\u00e3o desta ideia de um \u201cc\u00f3digo da alian\u00e7a\u201d diretamente ditado por Yahweh a Mois\u00e9s come\u00e7ou a se tornar o argumento fundamental da teologia javista: a hist\u00f3ria de Israel, o fracasso dos Reinos do Norte, primeiro, e depois do Sul, a destrui\u00e7\u00e3o do templo e o ex\u00edlio, tudo poderia ser explicado em virtude da infidelidade, do povo ou de seus l\u00edderes, com Yahweh e sua alian\u00e7a (cf. ALBERTZ, 1999, p.471 et seq.; LIVERANI, 2005, p.271et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas essa mesma alian\u00e7a lembrava, por sua vez, as promessas e a miseric\u00f3rdia de Yahweh. Era preciso continuar confiando que Deus n\u00e3o esqueceria seu povo. Se Israel voltasse a abra\u00e7ar a <em>Tor\u00e1<\/em>, se voltasse a cumprir suas leis e preceitos, obedecendo e amando apenas a Yahweh, sem d\u00favida poderia confiar na restaura\u00e7\u00e3o das promessas de uma forma at\u00e9 mesmo superior \u00e0 anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi assim que, em tempos de ex\u00edlio e diante do fim iminente do imp\u00e9rio ass\u00edrio, come\u00e7ou a nascer a ideia que Yahweh \u00a0interviria mais uma vez na hist\u00f3ria, enviando um novo messias mediador, para libertar Israel atrav\u00e9s de um novo \u00eaxodo que lhe permitiria voltar \u00e0 p\u00e1tria e reconstruir o templo. Os cap\u00edtulos do Deuteroisa\u00edas s\u00e3o particularmente indicativos dessa perspectiva teol\u00f3gica (cf. Is 40-55) (ver ALBERTZ, 1999, p.528 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com crescente determina\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 de Israel reconfigurou a esperan\u00e7a em torno da convic\u00e7\u00e3o que, se Yahweh pode intervir ao longo da hist\u00f3ria, em qualquer momento e em qualquer lugar, \u00e9 porque Yahweh n\u00e3o \u00e9 apenas o Deus de Israel, mas Ele \u00e9 o \u00fanico Deus, o criador e o Senhor de todos os povos da terra (cf. R\u00d6MER, 2015, p.252 et seq.; ALBERTZ, 1999, p.655 et seq.). Assim, atrav\u00e9s de tradi\u00e7\u00f5es muito diferentes, mem\u00f3rias e narrativas mitol\u00f3gicas, reelaboradas, aumentadas e corrigidas repetidas vezes, Israel foi chegando a uma identifica\u00e7\u00e3o cada vez mais plena de Yahweh com a pr\u00f3pria ess\u00eancia da divindade: \u201cEu, eu mesmo, sou Yahweh. Nenhum deus h\u00e1 al\u00e9m de mim\u201d (Dt 4,35; 32,39; Is 43,10-11; 44,6-8; 45,6.18.21). A f\u00e9 em Yahweh foi capaz de explicar assim, ap\u00f3s s\u00e9culos, a sua natural tend\u00eancia monote\u00edsta (cf. R\u00d6MER, 2015, p,218 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta perspectiva teol\u00f3gica mais universalista, a miss\u00e3o e a voca\u00e7\u00e3o de Israel tamb\u00e9m tiveram que ser retrabalhadas para entender seu papel e o sentido de sua escolha. As antigas profecias sobre um rei messias, descendente de Davi, que viria\u00a0 inaugurar um reino de paz e prosperidade, agora assumiram um novo significado: era na realidade Israel, como servo sofredor, que, por sua pr\u00f3pria experi\u00eancia hist\u00f3rica de pecado, fracasso e humilha\u00e7\u00e3o, foi escolhido e purificado para constituir uma na\u00e7\u00e3o sagrada e sacerdotal, e com sua fidelidade e amor a Yahweh se tornaria a luz das na\u00e7\u00f5es, e assim exercitaria a media\u00e7\u00e3o universal que levaria todos os povos a submeterem-se ao reinado definitivo de Yahweh (cf. ALBERTZ, 1999, p.805 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No retorno dos deportados, entretanto, as coisas n\u00e3o foram como era esperado. Israel n\u00e3o conseguiu realizar o reino da paz e da justi\u00e7a que imaginava. Uma \u00faltima pergunta surgiria na f\u00e9 de Israel. Se Deus \u00e9 o Senhor misericordioso da hist\u00f3ria, por que Ele permite esse mundo de injusti\u00e7a e opress\u00e3o? Por que n\u00e3o recompensar o bem e punir os bandidos? Por que os pobres continuam a sofrer e os ricos parecem apreciar a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus? A teologia adquiriu ent\u00e3o uma nova direcionalidade misturando as expectativas apocal\u00edpticas e escatol\u00f3gicas (cf. Is 24-27; Dn 2-7) (cf. ALBERTZ, 1999, p.783 et seq.). A a\u00e7\u00e3o de Yahweh n\u00e3o precisa limitar-se \u00e0s estreitas margens do mundo e da hist\u00f3ria. Se Yahweh \u00e9 o criador do universo, se ele criou o homem \u201c\u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d, foi para trat\u00e1-lo como um filho, para proteg\u00ea-lo e fazer com que ele compartilhe sua vida e eternidade. A ideia de uma retribui\u00e7\u00e3o pessoal dos justos seria, assim, transformada na esperan\u00e7a expl\u00edcita de uma ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, pela qual Deus, o vencedor da morte, concederia a vida eterna aos pobres e justos de Yahweh (Is 25,8; 26,19; 2 Mac 7,9; 12,43-46, e Dn 12,2-3) (cf. ALBERTZ, 1999, p.800 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Daniel, a espera por essa interven\u00e7\u00e3o divina toma uma figura humana em um enviado, um messias celeste mediador, que vir\u00e1 sobre as nuvens do c\u00e9u para estabelecer o reinado definitivo de Yahweh (Dn 7, 13-15) (cf. ALBERTZ, \u00a01999, p.818 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>2.2 O Deus de Jesus no NT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro do quadro desta compreens\u00e3o de Deus e dessas expectativas hist\u00f3ricas, devemos situar a f\u00e9 crist\u00e3 (ver KESSLER, 1996, p.316-384). O cristianismo nasceu da convic\u00e7\u00e3o que Jesus de Nazar\u00e9 era o Messias esperado por alguns grupos em Israel, mais ainda, era aquele em quem \u00a0Deus cumpriu suas promessas de maneira bem al\u00e9m de todas as expectativas. Apesar da rejei\u00e7\u00e3o de Israel, que condenou e crucificou o Messias, Deus o ressuscitou e o sentou \u00e0 sua direita na gl\u00f3ria para reinar com ele. A vida e a morte de Jesus, sua pr\u00f3pria pessoa, foram definitivamente associadas ao plano de salva\u00e7\u00e3o de Deus e \u00e0 sua plena realiza\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica. O evento Jesus Cristo seria, portanto, entendido como a plena autorrevela\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica do pr\u00f3prio Deus (cf. KASPER, 1976, p.151-196; SCHILLEBEECKX<em>, <\/em>1983, p.99 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como isso \u00e9 poss\u00edvel? Como Jesus de Nazar\u00e9 poderia ser elevado a uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do divino que era exclusiva de Yahweh? Sua ressurrei\u00e7\u00e3o e glorifica\u00e7\u00e3o \u00e0 direita de Deus mostraram que o Messias n\u00e3o era apenas um homem escolhido, mas o Filho de Deus mesmo, enviado do seio do Pai como Palavra e Logos de Deus (Jo 1,1-3) (cf. PANNENBERG, 1986, v.I p.286 et seq.; v.II p.361 et seq., 371 et seq.). Os Evangelhos nascem, precisamente, como uma maneira de explicar <em>narrativamente<\/em>, e agora em <em>grego<\/em>, a vinda do Filho de Deus para a hist\u00f3ria dos homens e seu retorno ao reino dos c\u00e9us. Nele, a salva\u00e7\u00e3o anunciada \u00e9 cumprida e as promessas de Yahweh realizadas de forma definitiva, inesperada, supereminente e universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entregando sua vida ao Pai na cruz, o Filho deu ao mundo o seu Esp\u00edrito para convidar e liderar toda a humanidade como novo povo de Deus para o seu destino final e escatol\u00f3gico como Reino universal e eterno do amor do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo (cf. PANNENBERG, 1986, v.I p.289 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe, portanto, uma profunda transforma\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o de Deus. Se o AT confessou Yahweh como um Deus uno, \u00fanico e absolutamente transcendente, agora esse Deus se mostra uno como amor trino, como o amor do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo que chama os homens a inserirem-se naquela din\u00e2mica de amor. No Filho Encarnado, o Deus transcendente assume um rosto, torna-se parte da hist\u00f3ria, torna-se verdadeiramente homem para mostrar que assume em si mesmo a dor e o destino dos pobres e condenados deste mundo e se identifica com o seu destino para transform\u00e1-lo em vida e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Incultura\u00e7\u00e3o: o grande desafio da evangeliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 crist\u00e3 nasceu, portanto, profundamente marcada por um desafio dif\u00edcil: como pregar um Deus que \u00e9 uno, mas que se manifestou como Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade de tal prega\u00e7\u00e3o pode ser entendida levando em conta que os primeiros crist\u00e3os tiveram que pregar sua f\u00e9 no cen\u00e1rio de comunidades culturalmente forjadas no encontro entre o r\u00edgido monote\u00edsmo judeu e a cultura grega marcada pela tend\u00eancia decididamente unit\u00e1ria da racionalidade grega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura religiosa das comunidades de origem judaica entendia, como vimos, que Deus deveria ser compreendido como absolutamente uno e transcendente. N\u00e3o era poss\u00edvel\u00a0 ver seu rosto, nem mencionar seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento grego, por sua vez, tamb\u00e9m havia fundado sua compreens\u00e3o do universo na ideia de um \u00fanico princ\u00edpio, um \u00fanico <em>arkh\u00e9,<\/em> um \u00fanico fundamento <em>metaf\u00edsico<\/em> do real: al\u00e9m desse mundo sens\u00edvel, mut\u00e1vel e passageiro, deve haver um fundamento imut\u00e1vel e eterno que \u00e9 sua raz\u00e3o e sentido. Somente dessa maneira a constante perman\u00eancia do ser pode ser explicada em um mundo <em>f\u00edsico<\/em> em que tudo muda, passa e morre. O mundo das ideias de Plat\u00e3o, o mundo do eterno, do bem e do perfeito, se tornaria, para Arist\u00f3teles, a afirma\u00e7\u00e3o de uma <em>subst\u00e2ncia suprema<\/em>, racional e imaterial, um <em>primeiro motor im\u00f3vel<\/em>, perfeito, sem necessidade de movimento ou mudan\u00e7a . Esse \u00e9 o fundamento, a causa final perfeita, que nos permite compreender a ordem que governa o universo, apesar de sua enorme multiplicidade, caducidade e conting\u00eancia. Assim, na vis\u00e3o de mundo grega, a ideia do divino estava associada \u00e0 de uma <em>unidade primeira absoluta<\/em>, eterna e imut\u00e1vel, que n\u00e3o sofre nenhuma altera\u00e7\u00e3o ou devir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais diferente que seja do comportamento <em>ap\u00e1tico<\/em> do <em>primeiro motor im\u00f3vel<\/em> grego no que diz respeito ao <em>Deus pessoal<\/em>, fiel e misericordioso do AT, ambos concordaram em ser concebidos como uma <em>unidade absoluta<\/em>, o \u00fanico fundamento <em>absolutamente uno de todos<\/em> (ZARAZAGA, 2004<em>,<\/em> p.253 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pregar neste contexto, um Deus que \u00e9 proclamado Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, que se comove e envolve na hist\u00f3ria dos homens at\u00e9 encarnar-se, tornando-se um <em>verdadeiro <\/em>homem e morrer na cruz? Tal declara\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser entendida como disparate e loucura para gregos e judeus (1 Cor 1,23). Todo o Novo Testamento pode ser entendido \u00e0 luz desse contexto e deste desafio imposto pelo r\u00edgido monote\u00edsmo judeu e pela necessidade de um fundamento \u00fanico pr\u00f3prio da racionalidade grega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 O Deus Trino da f\u00e9 crist\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste cen\u00e1rio cultural que o cristianismo teve que tentar explicar, e <em>explicar-se a si mesmo<\/em>, a particular e nova compreens\u00e3o de Deus que surgia de sua f\u00e9. Se era proclamada a f\u00e9 em Cristo como o Filho de Deus, morto e ressuscitado, se se batizava em nome do Pai e do Filho e do Esp\u00edrito Santo (Mt 28,19), era uma tarefa teol\u00f3gica inevit\u00e1vel explicar como articular a afirma\u00e7\u00e3o do <em>Deus uno<\/em> com essa <em>confiss\u00e3o trinit\u00e1ria<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia dos primeiros s\u00e9culos seria marcada por esta busca. Os dois primeiros grandes conc\u00edlios (Niceia, em 325, e Constantinopla I, em 381) foram destinados a abordar claramente problemas trinit\u00e1rios decorrentes precisamente de tentativas fracassadas em harmonizar a unicidade de Deus com as diferen\u00e7as que envolvia proclam\u00e1-lo como Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. Esses erros procediam, basicamente, de salvaguardar a unicidade de Deus mostrando que o Filho e o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o eram <em>propriamente<\/em> <em>Deus<\/em> no mesmo sentido e n\u00edvel do Pai. Os Conc\u00edlios responderam a esses desvios afirmando que o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo s\u00e3o coeternos e da mesma natureza divina (ver o verbete \u201cTrindade\u201d). A discuss\u00e3o foi colocada nos termos conceituais pr\u00f3prios desse ambiente cultural j\u00e1 fortemente influenciado pela terminologia grega. No \u00e2mbito deste sistema conceitual, os conc\u00edlios procuraram, no entanto, salvaguardar a f\u00e9 dessa racionalidade grega r\u00edgida. Assim, foi definido que Deus deve ser concebido como \u201cuma \u00fanica subst\u00e2ncia ou ess\u00eancia\u201d (<em>ousia<\/em>), uma \u00fanica natureza (<em>physis<\/em>), mas na qual <em>subsistem<\/em> tr\u00eas <em>rela\u00e7\u00f5es<\/em> verdadeiramente distintas: Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. Para explicar <em>o que esses tr\u00eas s\u00e3o<\/em>, se diria que as <em>rela\u00e7\u00f5es divinas<\/em>, internas \u00e0 \u00fanica subst\u00e2ncia, d\u00e3o origem (eterna) a tr\u00eas subsist\u00eancias ou pessoas distintas (tr\u00eas <em>hyp\u00f3stasis <\/em>ou<em> pr\u00f3sopa<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da compreens\u00e3o de Deus no Ocidente seria marcada por esta teologia fruto do encontro entre o monote\u00edsmo hebraico e a racionalidade grega que, apesar de suas muitas diferen\u00e7as, tinham em comum, como dissemos, a primazia absoluta da unidade sobre a diferen\u00e7a. Ambos raciocinam a partir de um <em>princ\u00edpio irredutivelmente uno<\/em> que \u00e9 o fundamento e a raz\u00e3o \u00fanica do universo finito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano 380, com a convers\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano ao Cristianismo,\u00a0 terminava por consolidar-se um imagin\u00e1rio que compreende o mundo como fundado em uma origem divina \u00fanica e\u00a0 destinado, apesar de toda sua aparente pluralidade, a formar uma estrutura \u00fanica e unit\u00e1ria. A teologia crist\u00e3 desde os Santos Padres at\u00e9 a Baixa Idade M\u00e9dia, passando pelos Padres Capad\u00f3cios, Agostinho e Tom\u00e1s de Aquino, consistiu na explica\u00e7\u00e3o e aprofundamento destes pressupostos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No processo, pode-se dizer que, at\u00e9 o s\u00e9culo XV, a teologia ocidental assumiu essencialmente o imagin\u00e1rio piramidal de um mundo, uma sociedade e uma Igreja verticalmente concebidos, cuja unidade foi baseada na figura de um \u00fanico Deus, Criador e Pai do universo. O Papa era na terra o vig\u00e1rio de seu Filho e o Imperador era o bra\u00e7o pol\u00edtico e administrativo. A unidade do <em>Universo<\/em> (<em>versus ad unum<\/em>), da sociedade e da Igreja, tinha a sua funda\u00e7\u00e3o em \u00fanica <em>subst\u00e2ncia metaf\u00edsica divina<\/em>. Um determinado <em>patrocentrismo<\/em>, representado no \u00edcone de um \u00a0<em>Pantocrator<\/em> impressionante, sentado em seu trono e armado com bast\u00e3o de mando, resultava desse imagin\u00e1rio cultural. Neste cen\u00e1rio, as figuras do Filho e do Esp\u00edrito Santo tendiam a ocupar um lugar algo derivado e secund\u00e1rio com rela\u00e7\u00e3o ao Pai, mesmo que todas as defini\u00e7\u00f5es conciliares tentassem evit\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A modernidade trouxe uma virada significativa. As descobertas de Cop\u00e9rnico, Galileu e Kepler significaram uma mudan\u00e7a radical na compreens\u00e3o do universo. Apesar das apar\u00eancias, a terra n\u00e3o \u00e9 o centro do cosmos, mas \u00e9 ela que gira em torno do sol. A realidade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvia, transparente e objetiva quanto os sentidos reivindicam. Os relatos de Marco Polo, as descobertas de Colombo mostraram que o mundo, a cultura e a religi\u00e3o eram muito menos uniformes e homog\u00eaneos do que se supunha. A B\u00edblia mostrou que n\u00e3o poderia revelar todos os segredos do universo. As ci\u00eancias e o conhecimento avan\u00e7am revelando novos aspectos e dimens\u00f5es da realidade. Se o sol e a sua luz s\u00e3o o centro do nosso universo, o homem e a luz de sua raz\u00e3o s\u00e3o o centro e o motor do saber e do conhecimento (cf. ZARAZAGA, 2017<em>, <\/em>p.20 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito adquiriu, assim, uma nova centralidade baseada no poder de sua raz\u00e3o, autonomia e liberdade. A evolu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do Ocidente ser\u00e1 profundamente afetada por esta nova dire\u00e7\u00e3o copernicana em dire\u00e7\u00e3o a uma compreens\u00e3o cr\u00edtica e progressiva da realidade. Na teologia crist\u00e3, esse imagin\u00e1rio se manifestaria em uma compreens\u00e3o de Deus n\u00e3o mais como <em>ess\u00eancia ou subst\u00e2ncia primeira<\/em>, mas como <em>sujeito absoluto e suprema liberdade<\/em>. A Reforma Protestante liderada por Lutero no s\u00e9culo XVI pode ser entendida \u00e0 luz dessas novas tend\u00eancias que vinham questionar uma compreens\u00e3o excessivamente metaf\u00edsica e substancial de Deus e da natureza da Igreja. Por sua vez, sua compreens\u00e3o mais pessimista do homem e da sua liberdade despertaria na Contrarreforma a necessidade de uma tematiza\u00e7\u00e3o mais profunda de uma antropologia crist\u00e3 que repensasse a rela\u00e7\u00e3o Criador-criatura, o significado da hist\u00f3ria e a rela\u00e7\u00e3o entre raz\u00e3o, f\u00e9 e liberdade humana. A partir desta luz, podemos entender a evolu\u00e7\u00e3o do pensamento filos\u00f3fico ocidental de Descartes a Hegel e de Nietzsche a Heidegger. Como pode haver espa\u00e7o para a liberdade humana se for submetida a um Deus que \u00e9 sujeito absoluto, liberdade absoluta e soberania? O ate\u00edsmo dos s\u00e9culos XIX e XX expressa grande parte dessas quest\u00f5es e suspeitas. Embora a Igreja Cat\u00f3lica tenha resistido, em grande medida, \u00e0 influ\u00eancia desses pensadores, suas propostas e desafios foram moldando um novo cen\u00e1rio cultural que exigiu uma profunda reformula\u00e7\u00e3o da teologia crist\u00e3 e sua maneira de dar conta de sua compreens\u00e3o de Deus. A teologia, que \u00e9 sempre reflex\u00e3o sobre a f\u00e9 da Igreja, mas a partir das coordenadas pr\u00f3prias e mut\u00e1veis de cada \u00e9poca e cultura, sentiu o impacto dessa mudan\u00e7a na compreens\u00e3o do universo. Os fortes impulsos da renova\u00e7\u00e3o espiritual, lit\u00fargica e pastoral come\u00e7aram a se manifestar em \u00e1reas muito diferentes da vida eclesial. Importantes te\u00f3logos de grande renome e prest\u00edgio (especialmente nos \u00e2mbitos franc\u00eas e alem\u00e3o) assumiram o desafio de repensar a teologia a partir dessas novas coordenadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho teol\u00f3gico de pensadores como Teilhard de Chardin, Chen\u00fa, Congar, Lubac e K. Rahner, entre outros, logo fez sentir sua influ\u00eancia. A consci\u00eancia da necessidade de uma urgente rea\u00e7\u00e3o renovada foi se espalhando como um impulso incontrol\u00e1vel que resultou convoca\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II. Gra\u00e7as ao Conc\u00edlio, a teologia tomaria consci\u00eancia que at\u00e9 mesmo a compreens\u00e3o de Deus precisava ser reformulada e expressada a partir de um novo sistema de categorias. A discuss\u00e3o trinit\u00e1ria do s\u00e9culo XX testemunhou esse intenso processo de reformula\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Enquanto alguns autores continuaram a afirmar a necessidade de postular a verdadeira exist\u00eancia de uma <em>subst\u00e2ncia divina \u00fanica<\/em>, outros consideraram essencial superar as antigas categorias abstratas da metaf\u00edsica para entender Deus em nova chave subjetiva: Deus n\u00e3o \u00e9 uma <em>distante e difusa ess\u00eancia divina<\/em>, mas o <em>sujeito de sua pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o<\/em> (K. Barth), que se autocomunica de forma concreta e pessoal na economia da salva\u00e7\u00e3o (K. Rahner). Outros te\u00f3logos, entretanto, viram nisso a influ\u00eancia da filosofia moderna e o perigo de reduzir a Trindade das pessoas \u00e0 identidade de um \u00fanico sujeito absoluto. Assim, surgiu uma nova tend\u00eancia teol\u00f3gica que buscava pensar em Deus em uma chave <em>intersubjetiva<\/em>, como uma realidade relacional e propriamente interpessoal (H. U. von Balthasar, J. Moltmann, W. Pannenberg).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender essas novas tend\u00eancias e propostas, \u00e9 necess\u00e1rio ter em mente que surgiram no contexto de uma \u00e9poca de mudan\u00e7a radical na compreens\u00e3o do universo. Na verdade, o s\u00e9culo XX nasceu da m\u00e3o de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A <em>teoria da relatividade<\/em> de Einstein significou uma nova virada copernicana, uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da compreens\u00e3o newtoniana do mundo. O universo n\u00e3o \u00e9, como se pensava, um grande recipiente, um espa\u00e7o vazio tridimensional no qual os planetas est\u00e3o localizados como corpos aut\u00f4nomos que exercem cada um, em virtude da densidade de sua pr\u00f3pria massa, uma for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o chamada gravidade. Pelo contr\u00e1rio, o universo n\u00e3o pode ser entendido a n\u00e3o ser que incorpore a dimens\u00e3o temporal e relacional. O espa\u00e7o tamb\u00e9m \u00e9 mat\u00e9ria. Nele, tudo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o, troca e movimento. A velocidade e as dimens\u00f5es s\u00e3o sempre relativas \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o e ao movimento do observador. O universo, agora ,\u00e9 representado mais como um espa\u00e7o em redes, um tecido em que o peso dos corpos <em>curva<\/em> o espa\u00e7o, alterando a trajet\u00f3ria dos corpos vizinhos. A luz n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 onde \u00e9 vista. Ele realmente viaja por milh\u00f5es de anos, fazendo com que agora vejamos imagens de uma configura\u00e7\u00e3o estelar que mudou h\u00e1 muito tempo. A teoria da relatividade veio, assim, transformar de forma profunda e definitiva nosso modo de entender o mundo, a realidade, o homem e sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Perspectivas da teologia latino-americana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante desse panorama, o Conc\u00edlio Vaticano II prop\u00f4s o desafio de uma leitura mais atenta dos sinais dos tempos. Era essencial fortalecer o papel das igrejas particulares. Somente assim, poderia assumir-se o novo impulso mission\u00e1rio de renovar um di\u00e1logo inculturado com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, na Am\u00e9rica Latina, a recep\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio seria feita a partir de suas pr\u00f3prias coordenadas hist\u00f3ricas e culturais. O problema central n\u00e3o foi dado pelo desafio do ate\u00edsmo e da seculariza\u00e7\u00e3o, mas pelo questionamento de uma realidade marcada por uma escandalosa injusti\u00e7a social e o espet\u00e1culo de grandes maiorias sociais afundadas na mis\u00e9ria e na marginalidade. Esta situa\u00e7\u00e3o de forte exclus\u00e3o social, falta de educa\u00e7\u00e3o, meios e oportunidades, num continente que se proclamou eminentemente cat\u00f3lico, tornou-se um desafio inevit\u00e1vel para a Igreja e a teologia. A leitura dos <em>sinais dos tempos <\/em>n\u00e3o se concentrou no di\u00e1logo com a incredulidade, mas na <em>op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres<\/em> (cf. CODINA, 2015, p.17 et seq.). A obra de Gustavo Guti\u00e9rrez, <em>Teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/em>, apareceu em 1971, apenas seis anos ap\u00f3s o fim do Conc\u00edlio. No aspecto especificamente relacionado aos temas de Deus e da Trindade, a teologia da liberta\u00e7\u00e3o enfatizaria o compromisso de Deus com a hist\u00f3ria, sua identifica\u00e7\u00e3o com os pobres e sua prontid\u00e3o em assumir a dor e a morte no caminho da liberta\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o. A fa\u00e7anha da liberta\u00e7\u00e3o do Egito e a solidariedade do <em>Jesus hist\u00f3rico<\/em> com a sorte e o destino da marginaliza\u00e7\u00e3o e morte dos mais fracos foi o modelo inspirador para a compreens\u00e3o do cristianismo como um chamado para construir o reino de Deus como um reino de justi\u00e7a, solidariedade e reivindica\u00e7\u00e3o dos pobres. Para Guti\u00e9rrez, <em>a teologia \u00e9 a reflex\u00e3o sobre a f\u00e9 a partir da pr\u00e1xis da liberta\u00e7\u00e3o<\/em>, e \u00e9 essa perspectiva de liberta\u00e7\u00e3o que oferece o ponto de partida apropriado para uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica que permita compreender integral e profundamente a mensagem evang\u00e9lica da Am\u00e9rica Latina. O trabalho de Leonardo Boff, Jon Sobrino, Ignacio Ellacur\u00eda, Lucio Gera, Juan Carlos Scannone e muitos outros testemunha a continuidade desta nova perspectiva da teologia latino-americana que se compreendeu a partir do compromisso com o destino de um povo empobrecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Rumo a uma nova imagem de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer que esta abordagem tamb\u00e9m est\u00e1 passando, hoje, por um processo significativo de transforma\u00e7\u00e3o. Uma nova sensibilidade e abertura exigem ouvir a voz e as reivindica\u00e7\u00f5es de outros grupos e setores discriminados: os direitos dos povos ind\u00edgenas, das mulheres, das crian\u00e7as, dos imigrantes, dos deficientes, convidam a assumir a realidade de uma grande diversidade de perspectivas, identidades e interesses como um novo sinal dos tempos. A categoria \u201cpovo\u201d ou \u201cpobres\u201d parece ser insuficiente, atualmente, para capturar a riqueza desta paisagem plural e policrom\u00e1tica. Na realidade, \u00e9 uma caracter\u00edstica de \u00e9poca, que vai muito al\u00e9m da esfera latino-americana. A globaliza\u00e7\u00e3o, apesar de todos os seus perigos e ambiguidades, trouxe consigo uma nova sensibilidade, uma nova consci\u00eancia planet\u00e1ria que chama a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 para os pobres, mas tamb\u00e9m para os diferentes, exclu\u00eddos, para outros setores e grupos humanos que exigem integra\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>teoria da relatividade<\/em>, implicou, como dissemos, uma mudan\u00e7a copernicana na maneira de compreender o mundo e\u00a0 todo o real. A teoria do <em>Big Bang<\/em>, as descobertas feitas no campo da f\u00edsica at\u00f4mica, a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica dos campos e os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos que, a partir da\u00ed, foram desencadeados nas \u00e1reas da comunica\u00e7\u00e3o e da inform\u00e1tica implicavam uma mudan\u00e7a radical do imagin\u00e1rio coletivo. O fundamento \u00faltimo do real deixa de estar ligado a um <em>puro uno<\/em>, n\u00e3o relacional, solit\u00e1rio e aut\u00f4nomo. A realidade come\u00e7a a ser concebida como um <em>conjunto de estruturas profundamente complexas,<\/em> marcadas pela dualidade <em>ondo-corpuscular <\/em>(onda-part\u00edcula), a intr\u00ednseca liga\u00e7\u00e3o entre mat\u00e9ria-energia e espa\u00e7o-tempo como dimens\u00f5es insepar\u00e1veis, constitutivamente ligadas a todo o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, <em>todo o real \u00e9 sempre sistema, relacionamento e troca, tanto em sua pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o interna quanto em sua liga\u00e7\u00e3o ad extra.<\/em> Os novos modelos at\u00f4micos trouxeram consigo a ideia de um mundo onde todas as part\u00edculas, cargas e energias existem e atuam sempre no jogo de uma troca de for\u00e7as que as mant\u00e9m relacionadas, unidas e separadas ao mesmo tempo, sempre em movimento e interagindo no contexto de um campo din\u00e2mico aberto por elas mesmas. Campo e part\u00edculas est\u00e3o envolvidos na simultaneidade relativa. A realidade \u00e9 ent\u00e3o entendida como uma rede onde o singular e o sistema s\u00e3o simultaneamente envolvidos no todo vinculado e vinculante do real. <em>Todo o real \u00e9 relativo<\/em>, isto \u00e9, <em>constitutivamente relacional e comunicativo<\/em> (cf. ZARAZAGA, 2015, p.143 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obviamente, essa mudan\u00e7a cient\u00edfica e cultural, essa nova compreens\u00e3o do mundo e da realidade exigem tamb\u00e9m <em>uma reformula\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da nossa compreens\u00e3o de Deus<\/em>. Embora Deus e a f\u00e9 n\u00e3o mudem, mudam os conceitos e as imagens com as quais os entendemos, explicamos e transmitimos. Nesse sentido, o car\u00e1ter <em>constitutivamente trinit\u00e1rio<\/em> da compreens\u00e3o crist\u00e3 de Deus adquiriu hoje uma maior inteligibilidade e sentido. Deus n\u00e3o pode mais ser entendido como um ser isolado, como um <em>puro uno<\/em>, concebido como <em>n\u00e3o relacional<\/em>, um solit\u00e1rio amor de si. A partir daqui, entende-se por que os te\u00f3logos come\u00e7aram a abandonar a ideia de Deus concebida como uma subst\u00e2ncia \u00fanica e imut\u00e1vel. Nem a ideia de Deus como um sujeito absoluto, solit\u00e1rio e aut\u00f4nomo parece estar de acordo com esta cria\u00e7\u00e3o constitutivamente plural e relacional. Somente um Deus que \u00e9 uma constitutiva <em>relacionalidade pericor\u00e9tica interpessoal<\/em> pode fundar a unidade do mundo em sua pr\u00f3pria diversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus trino significa que ele \u00e9, em si mesmo, <em>rela\u00e7\u00e3o comunional de amor<\/em>, comunica\u00e7\u00e3o de amor como <em>unidade na diferen\u00e7a e diferen\u00e7a s\u00f3 poss\u00edvel na unidade indivis\u00edvel do amor infinito<\/em>. Que Deus seja trino significa que a origem e fundamento mesmo de todo o real \u00e9 um Deus que \u00e9 amor como comunica\u00e7\u00e3o e partilha, em que Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo realizam o amor como doa\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o infinita de si, a partir e para o outro diferente de si. Cada um faz essa doa\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o de si de uma forma \u00fanica, irrepet\u00edvel e insubstitu\u00edvel. O Pai como amor parental, o Filho como amor propriamente filial, o Esp\u00edrito como o ag\u00e1pico amor horizontal.<em> Unidade, alteridade e comunica\u00e7\u00e3o do amor est\u00e3o envolvidas e incluem-se mutuamente na origem fontal divina de todo o real<\/em>. \u00c9 essa comunh\u00e3o divina que cria e funda o mundo como \u00e2mbito, espa\u00e7o e\u00a0 rede para a troca de dons e vida, em que tudo adquire a sua pr\u00f3pria identidade \u00fanica e irrepet\u00edvel, sob sua pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o comunicativa. Porque <em>Deus \u00e9 amor e \u00e9 comunh\u00e3o<\/em> \u00e9 que ainda est\u00e1 vigente a intui\u00e7\u00e3o da teologia latino-americana: a f\u00e9 sempre envolve a busca da justi\u00e7a que \u00e9 sin\u00f4nimo de plena inclus\u00e3o social, participa\u00e7\u00e3o e troca de dons para uma vida propriamente humana e comunicativa, fundada em um Deus que \u00e9 uno, porque ele \u00e9 <em>communio<\/em>, ele \u00e9 a <em>infinita troca pericor\u00e9tica do amor interpessoal trinit\u00e1rio<\/em> (cf. ZARAZAGA, 2004, p.302 et seq.).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Gonzalo Zarazaga, SJ.\u00a0<\/em>Facultad de Teolog\u00eda del Colegio M\u00e1ximo de San Jos\u00e9. Argentina. Texto original em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0ALBERTZ, R. <em>Historia de la Religi\u00f3n de Israel en tiempos del Antiguo Testamento<\/em>. 2.v. Madrid: Trotta, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V. <em>El Esp\u00edritu del Se\u00f1or act\u00faa desde abajo<\/em>. Santander: Sal Terrae, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KASPER, W. <em>Jes\u00fas, el Cristo<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KASPER, W. <em>El Dios de Jesucristo<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KESSLER, H. Cristolog\u00eda. In: SCHNEIDER, T. (dir.) <em>Manual de Teolog\u00eda Dogm\u00e1tica<\/em>. Barcelona: Herder, 1996. p.295-506.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIVERANI, M. <em>M\u00e1s all\u00e1 de la Biblia. <\/em>Historia Antigua de Israel. Barcelona: Cr\u00edtica, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PANNENBERG, W. <em>Teolog\u00eda Sistem\u00e1tica<\/em>, 2.v. Madrid: UPCO, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K. Advertencias sobre el tratado dogm\u00e1tico \u201cde Trinitate\u201d<em>. Escritos de Telog\u00eda <\/em>IV, Madrid: Taurus, 1961, p.105-136.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R\u00d6MER, TH. <em>The invention of God<\/em>, Cambridge-London: Harvard University, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHILLEBEECKX<em>,<\/em> E.<em> Jes\u00fas<\/em>. La historia de un viviente. Madrid: Cristiandad, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZARAZAGA, G. <em>Dios es Comuni\u00f3n<\/em>. Salamanca: Secretariado Trinitario, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZARAZAGA, G. Hablar de Dios en el nuevo escenario cient\u00edfico y cultural. <em>Revista Teolog\u00eda<\/em>, Buenos Aires, v.52\/3, 2015. p.139-158.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FORTE, B. <em>Trinidad como Historia<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GONZ\u00c1LEZ, A. <em>Trinidad y Liberaci\u00f3n. <\/em>San Salvador: UCA, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GRESHAKE, G. <em>El Dios uno y trino<\/em>. Barcelona: Herder, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUTI\u00c9RREZ, G. <em>Teolog\u00eda de la liberaci\u00f3n. <\/em>Perspectivas. Salamanca: S\u00edgueme 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">POLKINGHORNE, J. <em>Faith, Science &amp; Understanding. <\/em>New Haven: Yale University Press, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RAHNER, K. El Dios uno y trino como principio y fundamento trascendente de la historia de la salvaci\u00f3n. In: FEINER, J.; L\u00d6HRER, M. (eds.) <em>Mysterium Salutis II\/1<\/em>. Madrid: Cristiandad, 1975. p.359-449.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SATTLER, D.; SCHNEIDER, T., <em>Doctrina de Dios<\/em>. In: SCHNEIDER, T. (dir.) <em>Manual de Teolog\u00eda Dogm\u00e1tica<\/em>. Barcelona: Herder, 1996. p.99-169.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZARAZAGA, G. Temi e prospettive della teologia trinitaria contemporanea. <em>Sophia<\/em>, Firenze, v.7, 2015. p.31-52.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZARAZAGA, G. El Redescubrimiento de la Trinidad y su sentido ecum\u00e9nico. In: <em>Trinidad, Comuni\u00f3n y Unida. <\/em>X Congreso Trinitario Internacional, Granada. Madrid: Paulinas, 2017, p.17-52.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Introdu\u00e7\u00e3o 2 A tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 2.1 O Deus do AT 2.2 O Deus de Jesus no NT 3 Incultura\u00e7\u00e3o: o grande desafio da evangeliza\u00e7\u00e3o 4 O Deus Trino da f\u00e9 crist\u00e3 5 Perspectivas da teologia latino-americana 6 Rumo a uma nova imagem de Deus 7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 Introdu\u00e7\u00e3o Quando come\u00e7amos uma reflex\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1471","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1471","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1471"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1471\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1623,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1471\/revisions\/1623"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1471"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1471"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1471"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}