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{"id":1464,"date":"2017-12-22T13:45:32","date_gmt":"2017-12-22T15:45:32","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1464"},"modified":"2018-04-21T17:31:36","modified_gmt":"2018-04-21T20:31:36","slug":"cristologia-i-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1464","title":{"rendered":"Cristologia (I)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Cristologia e seguimento<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 M\u00e9todo e ponto de partida<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Retorno aos Evangelhos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Batismo e messianismo assuntivo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A centralidade do Reino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Os destinat\u00e1rios: pobres e exclu\u00eddos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 O Deus de Jesus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Cristologia e seguimento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cristologia pr\u00e9-conciliar consistia em dois tratados: <em>De Iesu, legato divino <\/em>e<em> De Verbo incarnato<\/em> (MOINGT, 1995b, p.7-16). O primeiro tratava de demonstrar que Jesus era o enviado por Deus e que n\u00e3o era um mero ser humano. Apoiava-se nos milagres como a\u00e7\u00f5es sobrenaturais. O segundo tratado explicava como aquilo que Jesus fazia era pr\u00f3prio da Segunda Pessoa da Sant\u00edssima Trindade, o Verbo. No entanto, o assunto da a\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o n\u00e3o era Jesus de Nazar\u00e9, mas sim o eterno Filho de Deus. A cristologia p\u00f3s-conciliar, pelo contr\u00e1rio, entende que em Jesus existe uma unidade indissol\u00favel entre o humano e o divino, porque \u201caquele que \u00e9 a imagem do Deus invis\u00edvel (Col 1,15) \u00e9 tamb\u00e9m o homem perfeito\u201d fazendo com que \u201co mist\u00e9rio do homem [seja] apenas esclarecido no mist\u00e9rio do Verbo Encarnado\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A novidade conciliar levou a reflex\u00e3o cristol\u00f3gica latino-americana a ser enquadrada dentro da pr\u00e1xis discipular que chamamos de <em>seguimento<\/em>, pois conhecer Cristo \u00e9 seguir sua pr\u00e1xis hist\u00f3rica no meio dos pobres (SOBRINO, 1991, p.56). Isso significa que o conhecimento do relacionamento de Jesus com seu Pai e seu tempo \u00e9 obtido pelos seus disc\u00edpulos atrav\u00e9s do seguimento. Eles tiveram que lembrar de Jesus, suas palavras e gestos, tudo o que tinham testemunhado. Esta recorda\u00e7\u00e3o primeiro levou \u00e0 quest\u00e3o pelo sentido que come\u00e7ou a ser revelado no discernimento p\u00f3s-pascal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, mesmo se levarmos em conta o que se pode conhecer cientificamente sobre Jesus de Nazar\u00e9, a cristologia se baseia no que as testemunhas lembram e nos contam sobre ele, conforme o registraram no Novo Testamento e, especialmente, nos Evangelhos (DUNN, 2009, p.167). As pesquisas contempor\u00e2neas insistiram na import\u00e2ncia de resgatar a hist\u00f3ria de Jesus ou o que tem de hist\u00f3rico e significativo para o seu tempo. Este \u00e9 para n\u00f3s o Jesus da hist\u00f3ria ou Jesus pr\u00e9-pascal. No entanto, Jesus \u00e9 muito mais do que os dados hist\u00f3ricos que podemos conhecer sobre ele. \u00c9 uma pessoa vista pela f\u00e9, revelada pelo Esp\u00edrito (Jo 14,26) e atualizada no seguimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 M\u00e9todo e ponto de partida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo cristol\u00f3gico \u00e9 motivado pela pergunta que Jesus fez a Pedro: \u201cQuem os homens dizem que eu sou?\u201d (Mc 8,27-30). Ao longo da hist\u00f3ria, manifestaram-se diferentes respostas. Cada uma pressup\u00f5e um ponto de partida metodol\u00f3gico. Podemos mencionar algumas (ver LUCIANI, 2005, p.17-116):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) <em>Afirma\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas<\/em>: algumas investiga\u00e7\u00f5es come\u00e7am a partir dos dogmas definidos nos Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos. Este \u00e9 o caso de Calced\u00f4nia (451 dC) quando afirmou que em Cristo coexistem duas naturezas, uma humana e outra divina, unidas, sem divis\u00f5es. Importante considerar que os dogmas s\u00e3o sempre um ponto de chegada dos processos de reflex\u00e3o eclesial e n\u00e3o um ponto de partida (ver RAHNER, 1961, p.51-92).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) <em>Afirma\u00e7\u00f5es b\u00edblicas<\/em>: outras pesquisas assumem como ponto de partida a proclama\u00e7\u00e3o da f\u00e9 em Jesus a partir dos t\u00edtulos cristol\u00f3gicos (Filho de Deus, Filho do Homem, Messias) ou desde as teologiza\u00e7\u00f5es que foram feitas dos eventos mais importantes de sua vida (a Ressurrei\u00e7\u00e3o). Deve ser especificado que o Novo Testamento \u00e9 o Antigo Testamento acontecendo de forma completamente nova, definitiva e plena na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9. N\u00e3o podemos separar os dois testamentos, nem tratar as passagens b\u00edblicas sem a sua correla\u00e7\u00e3o adequada com o nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) <em>O kerygma<\/em>: de acordo com esta posi\u00e7\u00e3o, o verdadeiro Cristo \u00e9 o Cristo pregado pelos evangelistas, como sustentou Martin K\u00e4hler, em 1882, em sua palestra, <em>O chamado Jesus hist\u00f3rico e o Cristo existencialmente hist\u00f3rico e b\u00edblico<\/em>. Para esta corrente, n\u00e3o podemos saber sobre sua vida hist\u00f3rica como tal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) <em>O culto<\/em>: de acordo com outra corrente, o Cristo total s\u00f3 seria descoberto no culto eclesial. O perigo reside em cair em certos espiritualismos e subjetivismos que relativizam a experi\u00eancia social e comunit\u00e1ria da f\u00e9 em Jesus Cristo, al\u00e9m de entender a liturgia como fonte e n\u00e3o como uma celebra\u00e7\u00e3o, colocando-a acima da Escritura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) <em>Teologias p\u00f3s-conciliares<\/em>: o jesu\u00edta Karl Rahner prop\u00f5e uma virada antropol\u00f3gica em conson\u00e2ncia com o Vaticano II. Ele entende que a humanidade de Cristo \u00e9 sacramental e, portanto, sua carne, isto \u00e9, sua humanidade, \u00e9 o caminho concreto para acessar o mist\u00e9rio de Deus. Isso d\u00e1 lugar ao caminho antropol\u00f3gico como um lugar de conhecimento e encontro com Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">f) <em>Am\u00e9rica Latina<\/em>: a partir do Jesus hist\u00f3rico, convida-nos a ler os sinais dos tempos da nossa realidade atual para assumir o compromisso pela liberta\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es que negam a presen\u00e7a do Reino de Deus. O ponto de partida \u00e9 o seguimento de Jesus, que sempre estabelece uma correla\u00e7\u00e3o entre a forma como Jesus viveu e assumiu o seu tempo e a consci\u00eancia da realidade de injusti\u00e7a que vivemos na nossa. Por esta raz\u00e3o, a cristologia latino-americana n\u00e3o parte de uma quest\u00e3o isolada sobre os dados recuper\u00e1veis \u200b\u200bda vida hist\u00f3rica de Jesus. Aqui, o hist\u00f3rico \u00e9 entendido como \u201cas atividades de Jesus para operar na realidade social e transform\u00e1-lo na dire\u00e7\u00e3o precisa do Reino de Deus. Hist\u00f3rico \u00e9 o que desencadeia a hist\u00f3ria\u201d (SOBRINO,1991, p.77). Rompe-se assim com a teologia da primeira fase iluminista, na qual apenas \u00e9 libertado o pensamento, a raz\u00e3o, mas n\u00e3o a realidade sociocultural em todas as suas dimens\u00f5es. Este ponto de partida exige um retorno a Jesus de Nazar\u00e9, ao Jesus dos Evangelhos e ao impacto de suas palavras e gestos para o mundo de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Retorno aos Evangelhos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta necessidade de retornar aos evangelhos proposta pelas pesquisas contempor\u00e2neas n\u00e3o procura reconstruir uma biografia de Jesus, mas sua pr\u00e1xis hist\u00f3rica como atual e interpelante. No entanto, a dist\u00e2ncia cultural entre as primeiras comunidades e n\u00f3s significa que alguns termos n\u00e3o s\u00e3o claramente compreendidos hoje. Portanto, devemos ter em conta os g\u00eaneros liter\u00e1rios do juda\u00edsmo e do helenismo e as caracter\u00edsticas redacionais pr\u00f3prias de cada evangelista. Devemos distinguir entre fatos pr\u00e9-pascais e interpreta\u00e7\u00f5es p\u00f3s-pascais, mas a partir da unidade indissol\u00favel existente entre o Jesus hist\u00f3rico e o Cristo da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo entre a ci\u00eancia hist\u00f3rica e a teologia protestante alem\u00e3 permitiu resgatar a rela\u00e7\u00e3o entre a pessoa de Jesus, pregada pelos disc\u00edpulos depois da P\u00e1scoa, e sua mensagem do Reino, o foco indiscut\u00edvel do Jesus pr\u00e9-pascal. No entanto, a teologia dial\u00e9tica insistiu, ent\u00e3o, na dificuldade de conciliar o car\u00e1ter escatol\u00f3gico da mensagem de Jesus com os dados acess\u00edveis pela ci\u00eancia hist\u00f3rica. Desta forma, apenas poderia se chegar ao <em>kerygma<\/em> proclamado na Igreja. Esses primeiros debates levaram a posi\u00e7\u00f5es fide\u00edstas, como a dos p\u00f3s-bultmanianos, que sustentavam \u00a0poder acreditar em Jesus sem saber nada hist\u00f3rico sobre ele. Esses debates contribu\u00edram para a necessidade de pensar\u00a0 uma nova articula\u00e7\u00e3o do discurso sobre a relev\u00e2ncia da hist\u00f3ria na teologia. Esta \u00e9 a tarefa de hoje, isto \u00e9, estabelecer novamente a proclama\u00e7\u00e3o da f\u00e9, o <em>kerygma<\/em>, no relato evang\u00e9lico que nos \u00e9 dado como paradigma de discernimento e acompanhamento. O te\u00f3logo \u00e9 desafiado a aprender a ler o evangelho \u00e0 luz dupla da hist\u00f3ria e da f\u00e9, sabendo que essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente convergente, mas ela expressa a f\u00e9 da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cristologia latino-americana ajudou a advertir que os textos do Novo Testamento n\u00e3o podem ser usados \u200b\u200bisoladamente com a \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o de estratific\u00e1-los at\u00e9 que possam provar o que o pr\u00f3prio Jesus poderia ter dito ou feito e o que foi posteriormente constru\u00eddo pelas comunidades p\u00f3s-pascais. Tamb\u00e9m n\u00e3o devem ser estudados com a \u00fanica pretens\u00e3o de compreender Jesus no quadro hist\u00f3rico do juda\u00edsmo do primeiro s\u00e9culo. Um elemento-chave \u00e9 ver a transcend\u00eancia que surgiu do esp\u00edrito com que Jesus viveu, o que provocou uma novidade radical em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio juda\u00edsmo, a partir de sua op\u00e7\u00e3o pelo Reino de Deus. O desafio para a presente investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitir mais uma vez o impacto que a humanidade de Jesus produz no presente da nossa hist\u00f3ria, iluminando os grandes problemas que enfrentamos globalmente. Trata-se de correlacionar o modo como ele viveu \u2013 de acordo com as Escrituras e como ouvinte da palavra do Pai \u2013 com a maneira como, mais tarde, seus seguidores, impactados por esse estilo de vida, tiveram que transmiti-lo em um contexto hermen\u00eautico judaico; e, dessa estrutura, podemos, ent\u00e3o, correlacion\u00e1-lo com a maneira como somos chamados a atualizar sua mensagem em nossas realidades concretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal abordagem permitir\u00e1 descobrir o processo de Jesus, como ele estava discernindo e assumindo os tra\u00e7os da humanidade que correspondiam fielmente ao projeto do Reino <em>\u00e0 luz das Escrituras,<\/em> selecionando as tradi\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas e sapienciais que melhor expressavam a imagem que surgia de sua experi\u00eancia do Deus do Reino. Este processo come\u00e7a com o evento representado pelo batismo de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Batismo e messianismo assuntivo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consci\u00eancia hist\u00f3rica de Jesus \u00e9 inicialmente enquadrada na espiritualidade dos pobres de Yahweh, compartilhada por sua m\u00e3e, como no discernimento pessoal que faz da sua voca\u00e7\u00e3o humana como seguidor do projeto do Reino, segundo foi pregado e acreditado por Jo\u00e3o Batista. Jesus n\u00e3o s\u00f3 foi batizado (Mt 3,13-15; Mc 1,9; Lc 3,21), mas tamb\u00e9m come\u00e7ou a praticar e encorajar o rito do batismo entre seus disc\u00edpulos e seguidores (Jo 3,22-23.26; 4,1-3). O batismo \u00e9 a chave hermen\u00eautica para entender sua miss\u00e3o e seu processo de convers\u00e3o pessoal ao Deus do Reino. H\u00e1 uma continuidade inicial com o projeto de Jo\u00e3o, que encontra seu momento decisivo de ruptura ap\u00f3s o se encarceramento e morte (Mc 6,17-29, Mt 14,14-13). Ap\u00f3s este evento, Jesus entendeu que o tempo de prepara\u00e7\u00e3o terminara e um novo estava come\u00e7ando, o da irrup\u00e7\u00e3o do reinado de Deus (Mt 4,23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os relatos das tenta\u00e7\u00f5es que se seguem ao batismo tornam expl\u00edcito este processo de discernimento e convers\u00e3o que Jesus fez depois da morte de Jo\u00e3o. Quem foi o verdadeiro sujeito do Reino? Foi Deus Pai? O que implicava ser <em>Filho <\/em>de um Deus que era um Pai bom e misericordioso? (Lc 4,3; Mt 4,3) Como falar de um Reino que n\u00e3o tem rei ou ex\u00e9rcitos? Poderia o Reino ser proclamado por meio de imposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 espera de sua irrup\u00e7\u00e3o violenta, como Batista esperava? Jesus nunca se identificou com as expectativas messi\u00e2nicas dominantes em seu tempo. Ele optou por um estilo de vida messi\u00e2nico n\u00e3o pol\u00edtico. Praticava um <em>messianismo<\/em> <em>assuntivo<\/em> (cf. LUCIANI, 2014, p.117-136) cujas consequ\u00eancias sociopol\u00edticas e religiosas seriam inevit\u00e1veis, mas nunca provocadas ou for\u00e7adas por meio da viol\u00eancia e do exerc\u00edcio da for\u00e7a armada (Jo 18,36). Assume a causa dos pobres como algo desejado e favor\u00e1vel aos olhos\u00a0 de Deus, o Senhor, Yahweh, com o novo tempo que ele inaugurava: \u201cHoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura\u201d (Lc 4,21). A \u00e9poca do Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 A centralidade do Reino<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema do Reino \u00e9 estrutural e estruturante de todo o trabalho teol\u00f3gico e da vida crist\u00e3. Quando a teologia alem\u00e3 do s\u00e9culo XIX levantou quest\u00f5es s\u00e9rias sobre a impossibilidade de escrever sobre Jesus, em vez de apresentar um problema de interesse historiogr\u00e1fico ou biogr\u00e1fico, ela estava abrindo o caminho, talvez sem saber, para buscar a primazia do <em>como <\/em>e <em>por que<\/em> viveu o Jesus hist\u00f3rico sua vida de uma maneira determinada (para si) e determinante (para outros). Em outras palavras, o que o fez viver de uma maneira e n\u00e3o de outra. A investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica permitiu a abordagem de novas perspectivas na investiga\u00e7\u00e3o sobre a vida de Jesus de Nazar\u00e9, que aprofundavam n\u00e3o apenas a <em>forma<\/em> de sua revela\u00e7\u00e3o (problema cl\u00e1ssico), mas tamb\u00e9m o seu <em>conte\u00fado<\/em>, referindo-se aos motivos para viver assim e as implica\u00e7\u00f5es que isto trouxe. Neste sentido, o tema do Reino de Deus como uma quest\u00e3o de supremacia e \u00a0absolutismo\u00a0 frente ao relativo \u00e9 o eixo central de toda a obra de Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A l\u00f3gica do Reino de Deus implica uma invers\u00e3o de valores: \u201cmuitos primeiros ser\u00e3o \u00faltimos, e muitos \u00faltimos ser\u00e3o primeiros\u201d ou \u201cSe algu\u00e9m quiser ser o primeiro, seja o \u00faltimo e o servo de todos\u201d (cf. Mt 19,30; Mc 10,31; Mt 20,16; Lc 13,30; Mc 9,35). Esta invers\u00e3o \u00e9 qualitativa e relacional. Inverteu relacionamentos estabelecidos que desumanizam por outros que humanizam. Podemos mencionar tr\u00eas exemplos. O primeiro \u00e9 o relacionamento patr\u00e3o-empregado, narrado pela par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha \u00a0(Mt 20,1-6), que receberam todos o mesmo sal\u00e1rio no final do dia, por\u00e9m aqueles que trabalharam mais protestaram. O segundo esquema \u00e9 o Rei-s\u00fadito, o rei que convidou todos \u00e0 sua mesa porque os que havia convidado primeiro n\u00e3o apareceram (Mt 22,1-10). O Rei n\u00e3o se relaciona mais com eles como seus s\u00faditos, mas reconhece-os como pessoas em toda a sua dignidade. O terceiro esquema refere-se ao pai-filho, como \u00e9 dito na par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo (Lc 15, 11-32). Nela, a propor\u00e7\u00e3o ou a correspond\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o crit\u00e9rio do discernimento do pai em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s atitudes dos dois filhos, mas o da gratuidade. Os esquemas quantitativos de status ou posi\u00e7\u00e3o social s\u00e3o superados pelos qualitativos, em que o primordial \u00e9 o que humaniza e reconhece o outro como um irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o do Reino expressa, portanto, uma maneira de viver o amor a Deus atrav\u00e9s do servi\u00e7o ao irm\u00e3o. Em Mt 22,40, \u00e9 narrado: \u201cAmar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo <em>como <\/em>a ti mesmo\u201d. Em Lev 19,8 j\u00e1 aparece a refer\u00eancia ao outro, e em Dt 6,4 (<em>Shem\u00e1 Israel<\/em>) se fala do Outro, Deus. Jesus coloca ambos os crit\u00e9rios no mesmo n\u00edvel pr\u00e1tico, mas n\u00e3o ontologicamente. A consequ\u00eancia \u00e9 que somente atrav\u00e9s do outro que \u00e9 nosso irm\u00e3o (fraternidade) podemos encontrar Deus como filhos (filia\u00e7\u00e3o). Aqui est\u00e1 a grande invers\u00e3o. O horizonte da humaniza\u00e7\u00e3o se sobrep\u00f5e ao da lei e do culto. A experi\u00eancia do Reino leva \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da vida fraterna dos filhos\/as de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversos tem sido os modelos teol\u00f3gicos europeus que explicam a no\u00e7\u00e3o do Reino. Podemos destacar alguns: a) Rudolf Bultmann desloca a media\u00e7\u00e3o (o Reino de Deus) pelo mediador (Jesus Cristo) como o \u00faltimo. O importante \u00e9 o <em>kerygma<\/em>, o an\u00fancio do Jesus Cristo ressuscitado que \u00e9 boa not\u00edcia para todos os homens. O Reino de Deus \u00e9 reduzido ao quadro de uma f\u00e9 individual; b) Wolfhart Pannenberg apresenta sua escatologia como uma antecipa\u00e7\u00e3o do futuro \u00faltimo. A esperan\u00e7a relaciona a hist\u00f3ria com o futuro. Sua vis\u00e3o n\u00e3o leva em conta as condi\u00e7\u00f5es do antirreino na hist\u00f3ria, mas as do indiv\u00edduo esperan\u00e7oso (racionalmente) diante do futuro oferecido na Ressurrei\u00e7\u00e3o; c) J\u00fcrgen Moltmann considera que o <em>eschat\u00f3n<\/em> continua sendo o futuro que se manifesta na esperan\u00e7a do homem a Deus. Ele avisa que existem realidades hist\u00f3ricas que contradizem o Reino de Deus. Portanto, o futuro deve ser cr\u00edtico para a negatividade do presente; d) para Walter Kasper, o Reino de Deus \u201c\u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o e reconhecimento de Deus na hist\u00f3ria\u201d (escatol\u00f3gico), \u201co dia em que Yahweh ser\u00e1 tudo em todos\u201d (soteriol\u00f3gico), e implica \u201csuperar os poderes do mal, destruidores, inimigos da cria\u00e7\u00e3o e o in\u00edcio de uma nova era\u201d (soteriol\u00f3gico); e) Edward Schillebeeckx enfatiza o car\u00e1ter operacional do reinado de Deus. Para ele, a \u201csoberania de Deus implica fazer a vontade de Deus\u201d. N\u00e3o \u00e9 mais a esperan\u00e7a est\u00e9tica de esperar em Deus, mas a rela\u00e7\u00e3o que se estabelece entre homens e Deus para prolongar aqui, na hist\u00f3ria, o poder de Deus, sua vontade salv\u00edfica. Mas \u201ctamb\u00e9m \u00e9 um julgamento sobre a nossa hist\u00f3ria\u201d. N\u00e3o s\u00f3 comunica uma boa not\u00edcia, mas tamb\u00e9m critica os antivalores presentes na hist\u00f3ria sob rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, ambi\u00e7\u00e3o e poder. O reino de Deus \u00e9 um \u201cainda por vir\u201d (Mc 14,25; Lc 22,15-18) que come\u00e7a a estar presente atrav\u00e9s da pr\u00e1xis de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a abordagem teol\u00f3gica latino-americana levanta quatro grandes temas: a) <em>na presen\u00e7a de e contra o antirreino<\/em>: parte da realidade em toda a sua dureza e concretude, em que o pecado tornou-se estrutural e oprime um grande n\u00famero de pessoas, para quem a vida \u00e9 a sobreviv\u00eancia. Essa realidade opressiva e destrutiva da vida \u00e9 o antirreino, como Jon Sobrino o chama. A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecida como sua liberta\u00e7\u00e3o; b) <em>os pobres como destinat\u00e1rios<\/em>: neles Deus se revela e atrav\u00e9s deles Deus nos evangeliza, ajudando-nos a descobrir os valores de gratuidade e esperan\u00e7a, apesar do peso da vida. Jesus viveu oferecendo a Boa Nova do Reino aos pobres: curando-os, perdoando-os e comendo com eles; c) <em>o hist\u00f3rico<\/em>: o Reino anuncia o escatol\u00f3gico realizando-o a partir de agora, das rela\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas no presente em todos os seus \u00e2mbitos, do social ao econ\u00f4mico e o pol\u00edtico. Reino e hist\u00f3ria est\u00e3o profundamente relacionados na pessoa de Jesus. Ele vive em uma cidade pobre e faz presente, com suas atividades, o amor de Deus que favorece os marginalizados e os oprimidos. \u201cHoje se cumpriu essa passagem da Escritura\u201d (Lc 4,21), revela essa historicidade do reino e a ruptura de qualquer concep\u00e7\u00e3o dualista da hist\u00f3ria (sagrada-profana); d) <em>o popular:<\/em> h\u00e1 uma reciprocidade hist\u00f3rica, tanto soteriol\u00f3gica quanto escatol\u00f3gica, entre a presen\u00e7a do Reino de Deus e o povo de Deus. Ignacio Ellacur\u00eda prop\u00f4s uma clara implica\u00e7\u00e3o do reino com a perten\u00e7a a um povo hist\u00f3rico que, na Am\u00e9rica Latina, \u00e9 o povo pobre e crucificado. Toda a mensagem b\u00edblica \u00e9 dirigida a sujeitos que vivem em uma cidade situada, em uma hist\u00f3ria concreta, ante a qual Deus oferece gratuitamente sua liberta\u00e7\u00e3o contra todas as formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desses eixos de reflex\u00e3o, a cristologia latino-americana insiste na necessidade de tornar sincero nosso seguimento de Jesus. A constru\u00e7\u00e3o do reinado de Deus hoje passa pela constitui\u00e7\u00e3o de comunidades fraternas de filhos de Deus que assumem a causa dos pobres. Esta pr\u00e1xis \u00e9 essencial para o modelo da Igreja como <em>Povo de Deus<\/em>, porque a Igreja realiza sua sacramentalidade anunciando o reinado de Deus na hist\u00f3ria. Neste sentido, estabelece-se uma bela analogia entre a cristologia do seguimento de Jesus e a eclesiologia do povo de Deus. Como Ellacur\u00eda explica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus era o corpo hist\u00f3rico de Deus, a atualidade plena de Deus entre os homens, e a Igreja deve ser o corpo hist\u00f3rico de Cristo, como Jesus o foi de Deus Pai. A continua\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria da vida e da miss\u00e3o de Jesus, que corresponde \u00e0 Igreja, animada e unificada pelo Esp\u00edrito de Cristo, faz dela seu corpo, sua presen\u00e7a vis\u00edvel e ativa. (1990, p.131).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso \u00e9 feito no meio dos pobres, mas contra a pobreza. Tal cristologia passa pelo estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es concretas que nos ajudem a tornar-nos povo de Deus. Rela\u00e7\u00f5es que, na Am\u00e9rica Latina, dada a situa\u00e7\u00e3o da pobreza, exigem uma vida justa e equitativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Os destinat\u00e1rios: pobres e exclu\u00eddos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus orienta sua pr\u00e1xis para os marginalizados e exclu\u00eddos. Diante da pergunta: \u201c\u00c9s tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?\u201d Ele responde: \u201cVoltem e anunciem a Jo\u00e3o o que voc\u00eas est\u00e3o ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam, os leprosos s\u00e3o purificados, os surdos ouvem, os mortos s\u00e3o ressuscitados, e as boas novas s\u00e3o pregadas aos pobres\u201d (Mt 11,3-6). O Reino de Deus est\u00e1 sendo constru\u00eddo entre os \u201cinfelizes\u201d, que s\u00e3o os pobres, os marginalizados e os que outros consideram pecadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na l\u00f3gica de Jesus, temos que sair e procurar a ovelha perdida para inclu\u00ed-la, mesmo que tenhamos as outras noventa e nove conosco. Esta maneira de valorar n\u00e3o \u00e9 algo pac\u00edfico, cria rupturas, desfaz as antigas maneiras de conhecer e muitas vezes cria conflitos. Por esta raz\u00e3o, Ele \u00e9 criticado como \u201cum comil\u00e3o e amigo dos cobradores de impostos e pecadores\u201d (Mt 11,9), mentalmente perturbado (Mc 3,21), sedutor (Mt 27,63) e at\u00e9 mesmo contado entre os delinquentes (Lc 22,37).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um tra\u00e7o hist\u00f3rico muito caracter\u00edstico de Jesus \u00e9 comer com os marginalizados. A comida \u00e9 uma maneira, dentro do mundo oriental, de honrar uma pessoa. Exprime um relacionamento de proximidade e acolhida. \u00c9 um momento em que o perd\u00e3o e a paz s\u00e3o dados. \u00c9 o lugar do <em>Shalom<\/em>. O que \u00e9 distintivo em Jesus n\u00e3o s\u00e3o os milagres, mas a coexist\u00eancia fraterna com os deserdados, descartados e esquecidos. A comida simboliza uma escatologia j\u00e1 presente. Os pobres s\u00e3o incorporados \u00e0 mesa da salva\u00e7\u00e3o, ao banquete de comunh\u00e3o. Deste modo, o sectarismo \u00e9 quebrado e a oferta da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cuniversalizada\u201d atrav\u00e9s da restaura\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o fraterna (GONZ\u00c1LEZ FAUS, 1984, p.88-89).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Servindo os pobres, Jesus chama aqueles que marginalizam e vivem com privil\u00e9gios para que se convertam e se integrem no projeto do Reino. Este \u00e9 o caso dos seguintes grupos: a) os ricos: em Lc 6,24 a riqueza desumaniza quando o rico se apega ao material como algo absoluto. Jesus chama o homem rico a ser justo e a servir os pobres (Lc 16,19). \u201cVoc\u00eas n\u00e3o podem servir a Deus e ao dinheiro\u201d (Lc 16,13; Mt 6,24). Servir Deus \u00e9 servir os pobres. O homem rico n\u00e3o \u00e9 questionado por ser rico, mas por sua atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 riqueza e em rela\u00e7\u00e3o aos pobres; b) os escribas e fariseus: Jesus questiona o significado da lei. Chama de hip\u00f3critas (Mc 12,38) e opressores do povo (Mc 12,40) aqueles que a interpretam por acima do sujeito humano e suas condi\u00e7\u00f5es de vida digna; c) os sacerdotes: em sua cr\u00edtica ao Templo, enfrenta o sistema religioso de seu tempo, que dividia as pessoas em puras e impuras, dotando-as de privil\u00e9gios e status. Jesus prop\u00f5e um novo lugar de encontro com Deus, a comunidade fraterna, a mesa dos reunidos (Mt 18,19) em esp\u00edrito e verdade (Jo 4,21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 O Deus de Jesus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escolha de Jesus pelos pobres e exclu\u00eddos \u00e9 o fruto da sua f\u00e9 em um Deus Pai que ama com a miseric\u00f3rdia de uma m\u00e3e. Em Hb 12,2 Jesus \u00e9 apresentado como o iniciador e o cume da f\u00e9, como aquele que a viveu e, portanto, pode lev\u00e1-la a sua consuma\u00e7\u00e3o. A f\u00e9 \u00e9 o que o faz participar, em sua humanidade, da vida compassiva de Deus. Ela o faz assumir a vida como crente, discernindo tudo o que faz, reza e vive a partir do projeto do Reino. Jesus \u00e9 ontologicamente Deus, mas, como ser humano, Ele precisa descobrir processualmente o que j\u00e1 \u00e9, porque sua divindade est\u00e1 incorporada em uma hist\u00f3ria e um tempo espec\u00edficos. O car\u00e1ter antropol\u00f3gico \u00e9 o \u00fanico meio de conhecer o ontol\u00f3gico. A f\u00e9 de Jesus nos revela<em> quem \u00e9 Deus <\/em>para Ele. Nesse sentido, Jesus teve que lidar com Deus a partir de seu pr\u00f3prio processo humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus chama Deus de <em>Abba<\/em>. Ele o entende como um Pai que o ama como Filho. A experi\u00eancia do Pai \u00e9 a de quem se d\u00e1, enquanto a experi\u00eancia do Filho \u00e9 aquela de quem, gratuitamente, recebe tal amor e corresponde com sua entrega e obedi\u00eancia filial. Essa rela\u00e7\u00e3o de filia\u00e7\u00e3o n\u00e3o significava, em momento algum, uma esp\u00e9cie de experi\u00eancia intimista que o alienasse da exist\u00eancia dos outros. Por um lado, Jesus aprende a reconhecer no outro um irm\u00e3o, e nestas rela\u00e7\u00f5es de fraternidade ele pode viver como Filho, porque os irm\u00e3os s\u00e3o todos filhos do mesmo Pai bom. Por outro lado, essa experi\u00eancia de filia\u00e7\u00e3o revela a maneira espec\u00edfica e \u00fanica com que Deus trata Jesus, isto \u00e9, como seu Filho e, nesta rela\u00e7\u00e3o filial, \u00e9 poss\u00edvel entender a dimens\u00e3o salv\u00edfica da fraternidade de todos os seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Antigo Testamento, a palavra Pai \u00e9 usada 15 vezes para designar Deus, no entanto, a novidade radical n\u00e3o \u00e9 encontrada ao chamar Deus de Pai, j\u00e1 que outros povos do Oriente antigo o faziam, mesmo expressando um car\u00e1ter maternal em algumas express\u00f5es. \u201cA novidade \u00e9 que a elei\u00e7\u00e3o de Israel como primog\u00eanito se manifesta em um ato hist\u00f3rico: a sa\u00edda do Egito\u201d (JEREMIAS, 1989, p.20). A experi\u00eancia de Israel \u00e9 a experi\u00eancia de um Salvador sempre transcendente, n\u00e3o de um Pai amoroso, por isso a palavra usada para designar a paternidade de Deus ser\u00e1 <em>Ab\u00ed,<\/em> entendendo o relacionamento com Deus a partir de a\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, de eventos hist\u00f3ricos salv\u00edficos, antes que \u00a0rela\u00e7\u00f5es pessoais e filiais. A express\u00e3o <em>Ab\u00ed<\/em> poderia significar o meu Pai, mas dentro de um sentido autorit\u00e1rio, solene e comunit\u00e1rio, e informado pela l\u00f3gica da separa\u00e7\u00e3o entre o divino, como absolutamente Santo (outro-distinto) e o humano. A palavra <em>Ab\u00ed<\/em> emerge e se estende na era imperial, assumindo um car\u00e1ter de submiss\u00e3o \u00e0 autoridade paterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Antigo Testamento tamb\u00e9m encontramos o uso das palavras <em>Abb\u00e1<\/em>, que significa papai, e <em>imma,<\/em> que significa mam\u00e3e. Essas palavras eram usadas na vida familiar di\u00e1ria. <em>Abb\u00e1<\/em> surge da linguagem infantil balbuciante <em>(aba-abba<\/em>). Portanto, poderia ser considerada uma falta de respeito dirigir-se a Deus com um termo t\u00e3o pr\u00f3ximo e familiar, j\u00e1 que Deus era sempre o Outro, o diferente, o Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta experi\u00eancia de Deus-Pai (<em>Abb\u00e1<\/em>) vivida por Jesus em sua f\u00e9 e comunicada aos seus disc\u00edpulos ser\u00e1 assumida e transmitida pelas comunidades crist\u00e3s. Nos Evangelhos, o termo \u201cPai\u201d aparece mais de 170 vezes nos l\u00e1bios de Jesus. Em Marcos, 4 vezes, em Lucas, 15, em Mateus, 42 e em Jo\u00e3o, 109. Segundo Jeremias, \u201ca nomea\u00e7\u00e3o de Deus como Pai come\u00e7ou a espalhar-se amplamente em um est\u00e1gio anterior a Mateus dentro da tradi\u00e7\u00e3o das palavras de Jesus\u201d, mas \u201c\u00e9 nos escritos de Jo\u00e3o que o termo <em>ho pat\u00e9r<\/em> (o Pai), usado absolutamente, tornou-se sem d\u00favida o nome de Deus para os crist\u00e3os\u201d (1989, p.41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O uso desta palavra nos escritos do Novo Testamento encontra tr\u00eas raz\u00f5es b\u00e1sicas. Primeiro, \u00e9 uma palavra <em>aut\u00eantica<\/em> de Jesus \u2013 na verdade, permaneceu em aramaico, a linguagem de Jesus, sem ser traduzida. Em segundo lugar, tem um sentido <em>catequ\u00e9tico<\/em>, porque coloca a mensagem de Jesus ao alcance dos crentes. Em terceiro lugar, expressa uma <em>refer\u00eancia teol\u00f3gica<\/em>, revelando, com ela, um conte\u00fado e um rosto espec\u00edfico no atuar e proceder de Deus em rela\u00e7\u00e3o ao ser humano, como um Pai am\u00e1vel e misericordioso que nos recebe como seus filhos, n\u00e3o por nossos m\u00e9ritos (l\u00f3gica quantitativa), mas pelo fato gratuito de sermos seus filhos (l\u00f3gica qualitativa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Jesus confia aos seus disc\u00edpulos as palavras do <em>Pai Nosso<\/em>, n\u00e3o \u00e9 apenas para ensin\u00e1-los a orar, mas est\u00e1 dando a eles o poder de dizer como ele, falar como ele com o seu Pai Deus. Al\u00e9m disso, dada a dimens\u00e3o performativa da palavra no mundo hebraico, chamar Deus de Pai significa trat\u00e1-lo como Pai. N\u00e3o estamos diante de um uso nominal da linguagem, mas sim realizador ou performativo. Jesus n\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 poder para chamar Deus como Pai, mas para trat\u00e1-lo e, assim, relacion\u00e1-lo com Ele como tal. A invoca\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sentido se n\u00e3o for acompanhada pelo tratamento que est\u00e1 impl\u00edcito nela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os evangelhos apresentam tr\u00eas express\u00f5es para se referir a Deus como Pai. A primeira, <em>o Pai<\/em>, representa um problema <em>teol\u00f3gico<\/em>, isto \u00e9, <em>quem \u00e9 Deus<\/em>. A segunda, <em>Vosso Pai<\/em>, assim como a correspondente Pai Nosso, revela a condi\u00e7\u00e3o <em>fraternal <\/em>da experi\u00eancia teol\u00f3gica dos homens com Deus. N\u00e3o se diz apenas que Deus \u00e9 Pai, mas <em>de quem \u00e9 Pai<\/em>. Ele \u00e9 <em>nosso<\/em> Pai, de todos n\u00f3s ao mesmo tempo, dos muitos, e n\u00e3o de alguns. Enquanto <em>Pai<\/em> denota a realidade de Deus e o que produz, a filia\u00e7\u00e3o (verticalidade),\u00a0 <em>Nosso,<\/em> ressalta a realidade do Reino e o que a filia\u00e7\u00e3o produz, a fraternidade (horizontalidade). A terceira express\u00e3o, <em>Meu Pai<\/em>, representa um problema cristol\u00f3gico: o que Jesus revela de si mesmo quando chama Deus <em>Abb\u00e1<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Rafael Luciani. <\/em>Universidad Andres Bello. Caracas. Venezuela. Texto original em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>8 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AGUIRRE, Rafael. Estado actual de los estudios sobre el Jes\u00fas hist\u00f3rico despu\u00e9s de Bultmann. <em>Estudios B\u00edblicos<\/em> n.54, 1996. p.433-463.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, Leonardo.\u00a0<em>Jesucristo<\/em> <em>el liberador<\/em>. 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Santander: Sal Terrae, 1982.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Cristologia e seguimento 2 M\u00e9todo e ponto de partida 3 Retorno aos Evangelhos 4 Batismo e messianismo assuntivo 5 A centralidade do Reino 6 Os destinat\u00e1rios: pobres e exclu\u00eddos 7 O Deus de Jesus 8 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 Cristologia e seguimento A cristologia pr\u00e9-conciliar consistia em dois tratados: De Iesu, legato divino e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1464"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1464\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1615,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1464\/revisions\/1615"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}