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{"id":1449,"date":"2017-11-30T22:25:58","date_gmt":"2017-12-01T00:25:58","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1449"},"modified":"2017-11-30T22:25:58","modified_gmt":"2017-12-01T00:25:58","slug":"cismas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1449","title":{"rendered":"Cismas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Ato cism\u00e1tico na Hist\u00f3ria da Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 O cisma como luta pelo poder na Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 Primeiro exemplo: o cisma de Novato em Roma (251)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 Segundo exemplo: o cisma das igrejas norte-africanas no s\u00e9culo IV<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Cisma, heresia e viol\u00eancia: os limites da ortodoxia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um ponto de vista etimol\u00f3gico, o termo cisma, oriundo do grego, significa o ato de separa\u00e7\u00e3o, divis\u00e3o ou ruptura que acomete uma coletividade, particularmente no interior do cristianismo, pelo qual um grupo de membros de uma dada comunidade decide vivenciar aspectos da f\u00e9 ou do culto de um modo diferente de sua comunidade inicial. Para tanto, este grupo afasta-se da pr\u00e1tica comum a fim de procurar uma experi\u00eancia mais espec\u00edfica ou particular da f\u00e9, ora afirmando aspectos doutrinais diferentes (como no caso do arianismo ou do pelagianismo), ora defendendo uma postura disciplinar ou moral diversa (como no caso do novacianismo ou do donatismo) (STARK, 2007, p. 54).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, de um ponto de vista hist\u00f3rico, \u00e9 muito dif\u00edcil sustentar uma compreens\u00e3o fixista e universal de cisma, pois percebe-se que as comunidades religiosas elaboram, a seu modo, o conceito de cisma guiando-se por suas tradi\u00e7\u00f5es e interesses particulares, o que pode ampliar, endurecer ou flexibilizar o significado real de ruptura ou separa\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para o estudioso contempor\u00e2neo identificar o ato cism\u00e1tico no seu sentido emp\u00edrico, no passado, pois a compreens\u00e3o de cisma, muitas vezes, guiava-se por jogos de poder no interior das comunidades e tornava-se instrumento de deslegitima\u00e7\u00e3o de sujeitos eclesiais espec\u00edficos que se pretendia retirar do cen\u00e1rio oficial. Esta constata\u00e7\u00e3o nos for\u00e7ar\u00e1, neste texto, a indagar pela constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do conceito de cisma, do ponto de vista da Hist\u00f3ria da Igreja, tomando-o como parte do desenvolvimento institucional das comunidades crist\u00e3s. Por isso, faremos uma discuss\u00e3o hist\u00f3rica ampla e geral do conceito, levando em conta as manifesta\u00e7\u00f5es concretas de atos cism\u00e1ticos sem, contudo, particulariz\u00e1-los ou isol\u00e1-los como acontecimentos at\u00edpicos ou circunstanciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Ato cism\u00e1tico na Hist\u00f3ria da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo um ato de ruptura derivado de uma situa\u00e7\u00e3o de rebeldia, o cisma \u00e9 particularmente sentido quando a comunidade religiosa afirma a unidade como natureza fundamental, vis\u00edvel num corpo doutrin\u00e1rio, disciplinar, sacramental e lit\u00fargico compartilhado pelos membros da comunidade; neste caso, o cisma \u00e9 interpretado como secess\u00e3o de uma parte desta comunidade que, a partir de um dado momento, toma um caminho particular, distanciando-se da tradi\u00e7\u00e3o comum. Esta ruptura \u00e9, ent\u00e3o, experimentada como um trauma, um acontecimento de enorme magnitude que, n\u00e3o raras vezes, vem acompanhado de conflitos violentos, \u00e0s vezes mortais, praticados pela comunidade majorit\u00e1ria que, no intuito de salvaguardar a unidade, investe todas as suas for\u00e7as persuasivas para manter o grupo considerado dissidente dentro da unidade original (GADDIS, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso crist\u00e3o, a experi\u00eancia comunit\u00e1ria do cisma apresenta-se especialmente traum\u00e1tica em decorr\u00eancia de uma particular considera\u00e7\u00e3o da unidade que, no caso do Evangelho de Jo\u00e3o, \u00e9 proclamada por Jesus durante o discurso de despedida, sobretudo na ora\u00e7\u00e3o sacerdotal: \u201cPai santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de fazer conhecer, a fim de que sejam um como n\u00f3s\u201d (Jo 17,11); na Primeira Carta aos Cor\u00edntios (12,12-14), Paulo identifica a Igreja ao corpo m\u00edstico de Cristo que, por analogia, deve ser una, como ele, apesar da diversidade de seus membros. Assim considerado, o ato cism\u00e1tico torna-se um atentado n\u00e3o apenas contra a comunidade, mas sobretudo contra o mist\u00e9rio do Corpo de Cristo que a Igreja-una representa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se pode notar, as primitivas comunidades crist\u00e3s n\u00e3o viam os cismas como acontecimentos prov\u00e1veis e compreens\u00edveis segundo as l\u00f3gicas sociais que regem os grupos humanos, cujo desenvolvimento favorece ami\u00fade as separa\u00e7\u00f5es e desmembramentos em vista de permitir a sobreviv\u00eancia de heteronomias que, ao longo do tempo, foram assumidas como parte da identidade de comunidades precisas dentro de uma grande federa\u00e7\u00e3o de comunidades. Ao contr\u00e1rio, as comunidades, apesar da diversidade de cidades, l\u00ednguas e proveni\u00eancias \u00e9tnicas a partir das quais se enquadravam, professavam uma unidade, confundida com uma pretensa homogeneidade, que, na pr\u00e1tica, ocultava suas naturais diverg\u00eancias de pr\u00e1ticas e de cren\u00e7as (BROWN, 1999, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num per\u00edodo em que n\u00e3o era ainda preciso um elaborado s\u00edmbolo da f\u00e9 e n\u00e3o havia ainda um c\u00e2non exclusivo dos textos b\u00edblicos v\u00e1lido para todas as comunidades, \u00e9 quase imposs\u00edvel delimitar at\u00e9 onde ia a diversidade tolerada (que todavia expressa a unidade) e onde come\u00e7ava a diversidade intoler\u00e1vel (esta sim definida como cisma). Um exemplo desta complicada compreens\u00e3o encontra-se em Atos dos Ap\u00f3stolos, cap\u00edtulo 15, quando seu autor, ao retratar a diverg\u00eancia entre a comunidade-m\u00e3e de Jerusal\u00e9m, dirigida por Tiago, e a comunidade-filha de Antioquia, dirigida por Paulo e Barnab\u00e9, preferiu silenciar as profundas discord\u00e2ncias entre duas igrejas (e entre Tiago e Paulo), dando ao epis\u00f3dio uma resolu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil que afirmava uma unidade muito fr\u00e1gil e amea\u00e7ada, como revelou o pr\u00f3prio ap\u00f3stolo Paulo, em sua Carta aos G\u00e1latas, cap\u00edtulo 2. Pode-se argumentar que Lucas, na qualidade de historiador do cristianismo nascente, guiava-se mais pela teologia e pela vis\u00e3o providencialista da Hist\u00f3ria do que pelos c\u00e2nones da historiografia hel\u00eanica, que devia conhecer (MARGUERAT, 2003, p. 31); no entanto, sua posi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica dos fatos, centrada na condu\u00e7\u00e3o pneum\u00e1tica, levou \u00e0 predomin\u00e2ncia de uma vis\u00e3o conciliadora das diversidades eclesiais. Uma vez que os Atos dos Ap\u00f3stolos tornaram-se uma esp\u00e9cie de prot\u00f3tipo daquilo que veio a se chamar de Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica, express\u00e3o cunhada pelo bispo Eus\u00e9bio de Cesareia (263-339), pode-se dizer que esta vis\u00e3o conciliadora lucana afirmou-se como paradigma origin\u00e1rio para os autores crist\u00e3os antigos e continuou forte mesmo depois, quando da sistematiza\u00e7\u00e3o geral da f\u00e9 com o Conc\u00edlio de Niceia (325).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bispo Ireneu de Lyon (130-202), em seu tratado <em>Contra as Heresias<\/em> (Liv. I, 10,2), refor\u00e7ava a unidade da Igreja que, segundo ele, j\u00e1 estava espalhada pelo Oriente e Ocidente, atribuindo-lhe a uniformidade da f\u00e9, da tradi\u00e7\u00e3o e do ensino a despeito da varia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica que caracterizava as regi\u00f5es do mundo romano onde as igrejas se implantaram. Embora sua pr\u00f3pria obra denunciasse a exist\u00eancia e a for\u00e7a persuasiva de comunidades crist\u00e3s que seguiam outra teologia, por ele chamadas de her\u00e9ticas ou gn\u00f3sticas, Ireneu acreditava que a unidade do crer era o selo de autenticidade da Igreja da qual fazia parte. No mesmo sentido, o te\u00f3logo Or\u00edgenes (185-254), nas <em>Homilias sobre Ezequiel<\/em> (9,1), considerava que a unidade e a comunh\u00e3o derivavam da virtude, enquanto a diversidade ou multiplicidade originavam-se nos pecados, donde os cismas, as heresias e as dissens\u00f5es serem necessariamente lidos como express\u00e3o daquela rebeldia original que causou a desgra\u00e7a da ordem da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 luz de ambos os testemunhos antigos, v\u00ea-se que a hist\u00f3rica diversidade e disputas entre as igrejas, evidentes desde o chamado Acordo de Jerusal\u00e9m (At 15; Gl 2), foram encobertas por uma leitura espiritualizante, isto \u00e9, que minimizou o dado hist\u00f3rico e social, com vistas \u00e0 defesa de uma ortodoxia que, sabemos, n\u00e3o se formou sem lutas e dissens\u00f5es. Para a corrente eclesial representada por Irineu e Or\u00edgenes, os cismas n\u00e3o eram dados entendidos apenas como algo muito mais grave do que a separa\u00e7\u00e3o ou a individualiza\u00e7\u00e3o de comunidades, mas, principalmente, como uma tremenda continua\u00e7\u00e3o do pecado no mundo. Ao associar a diversidade ao pecado e a uniformidade \u00e0 gra\u00e7a, os discursos eclesi\u00e1sticos contorceram as manifesta\u00e7\u00f5es de heteronomias e identidades locais tornando-as um obst\u00e1culo para a uniformiza\u00e7\u00e3o que deveria autenticar a comunidade; assim, a diversidade passou a ser vista como algo arriscado e, provavelmente, um atentado contra a suposta uniformidade original. O caso do <em>Contra as Heresias<\/em>, de Irineu, nos permite ver como a salvaguarda de uma cristologia encarnada e hist\u00f3rica lan\u00e7ou m\u00e3o de uma certa plastifica\u00e7\u00e3o da uniformidade que, no futuro, tornou motivo para a acusa\u00e7\u00e3o de cisma aquilo que n\u00e3o passava de resposta local \u00e0 f\u00e9 apost\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta compreens\u00e3o iriniana da unidade da Igreja, de certa forma, condicionou a chamada Hist\u00f3ria dos Dogmas. Costuma-se interpretar as etapas da forma\u00e7\u00e3o da doutrina crist\u00e3 com base em fases generativas espec\u00edficas, geralmente grafadas com o nome de controv\u00e9rsias: controv\u00e9rsia trinit\u00e1ria, controv\u00e9rsia cristol\u00f3gica, controv\u00e9rsia pneumatol\u00f3gica, controv\u00e9rsia iconoclasta, entre outras. Historiadores e te\u00f3logos habitualmente acreditam que estas controv\u00e9rsias constituem etapas cronol\u00f3gicas, portanto, hist\u00f3ricas e reais (diria-se at\u00e9 naturais) de uma bimilenar marcha do cristianismo pela Hist\u00f3ria. O curioso \u00e9 que esta marca\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, uma abstra\u00e7\u00e3o explicativa criada <em>a posteriori<\/em>, sem o devido fundamento de realidade, desde que se olhe para as fontes hist\u00f3ricas sem as lentes de uma evolutiva interpreta\u00e7\u00e3o controversista da Hist\u00f3ria da Igreja. Esta observa\u00e7\u00e3o nos ensina que, ao fazer a hist\u00f3ria da teologia, \u00e9 preciso evitar a sedu\u00e7\u00e3o da Teologia da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, se o cisma nasce de uma controv\u00e9rsia, devemos, ent\u00e3o, redefinir o papel do cisma na Hist\u00f3ria da Igreja, pois a controv\u00e9rsia (em suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es) constitui o pr\u00f3prio <em>ethos<\/em> desta hist\u00f3ria: supor um \u201ccristianismo normativo\u201d desde as origens \u00e9 mais um ato de f\u00e9 do que de investiga\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica que, ao contr\u00e1rio, evidencia as extremas heteronomias das comunidades, sejam jur\u00eddicas, doutrin\u00e1rias ou lit\u00fargicas (JOHNSON, 2001, p.58). No entanto, \u00e9 preciso aten\u00e7\u00e3o: nem todo entendimento diferente sobre mat\u00e9ria teol\u00f3gica resulta num conflito eclesial, o que nos leva a propor a pergunta: por que certas diferen\u00e7as de entendimentos geram conflitos e rupturas e outras n\u00e3o geram? Por que alguns conflitos redundam em acordos (assimila\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a) e outros em cismas (elimina\u00e7\u00e3o dos desviantes)? Uma leitura n\u00e3o generativa da Hist\u00f3ria da Igreja (que n\u00e3o sup\u00f5e fases incontorn\u00e1veis e naturalizadas de crescimento)\u00a0 \u00a0nos leva a perceber que, numa disputa teol\u00f3gica, ao menos na Antiguidade e na Idade M\u00e9dia, geralmente o que estava em jogo era a defesa do poder de quem estabelecia a doutrina e n\u00e3o propriamente a doutrina em si mesma, ou a desvi\u00e2ncia da doutrina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outros termos, as controv\u00e9rsias dogm\u00e1ticas eram parte das express\u00f5es dos choques entre comunidades ou l\u00edderes destas comunidades para afirmar a superioridade de uma dada cultura eclesial sobre a cultura de outra igreja, como se percebe, tantas vezes, nos confrontos das igrejas de Antioquia, Alexandria e Roma entre os s\u00e9culos III e V. Na vis\u00e3o, por exemplo, de Eus\u00e9bio de Cesareia, a garantia da unidade da Igreja n\u00e3o residia na fixa\u00e7\u00e3o de ideias, mas na sucess\u00e3o apost\u00f3lica, isto \u00e9, na continuidade de pessoas: esta escolha parece-nos indicativa de que as comunidades negociavam a lideran\u00e7a e o poder lan\u00e7ando m\u00e3o das controv\u00e9rsias como motivo para oposi\u00e7\u00e3o dos \u201cverdadeiros\u201d aos \u201cfalsos\u201d ministros (CAMERON, 2005, p. 133).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 O cisma como luta pelo poder na Igreja: dois exemplos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.1. O cisma de Novato em Roma (251)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eus\u00e9bio de Cesareia, no Livro VI de sua <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em>, narra os acontecimentos derivados da chamada persegui\u00e7\u00e3o do imperador D\u00e9cio, em 249; o decreto imperial obrigava todos os crist\u00e3os a oferecerem sacrif\u00edcios aos deuses imperiais, sob risco de condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte. O sacrif\u00edcio tinha de acontecer perante uma autoridade romana na qualidade de testemunha do ato. Ap\u00f3s o sacrif\u00edcio, que poderia consistir simplesmente na queima de uma pedrinha de incenso, sem nenhuma necessidade de se acreditar nos deuses, o crist\u00e3o recebia um certificado legal, chamado, em latim, de <em>libellus<\/em>, motivo pelo qual aqueles que ofereceram o sacrif\u00edcio foram apelidados (pejorativamente) de <em>libellatici <\/em>(FREND, 1982, p. 98)<em>. <\/em>Para evitar a morte e, ao mesmo tempo, o oferecimento de sacrif\u00edcio, muitos crist\u00e3os ricos subornaram as autoridades para que seus nomes fossem inscritos no <em>libellus<\/em> sem que eles fizessem o sacrif\u00edcio. Para muitos crist\u00e3os, esse procedimento era um esc\u00e2ndalo, pois significava que tais pessoas eram muito covardes e, pior ainda, haviam apostatado e, por isso, n\u00e3o podiam mais participar da vida da Igreja. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, suspeitava-se que os <em>libellatici<\/em> colaboravam com o imp\u00e9rio, oferecendo informa\u00e7\u00f5es sobre membros da comunidade que n\u00e3o estavam dispostos ao compromisso imperial. Neste caso, o ato cism\u00e1tico estaria expl\u00edcito tanto no oferecimento do sacrif\u00edcio quanto na covardia frente ao mart\u00edrio e sua condena\u00e7\u00e3o justificava-se frente \u00e0 trai\u00e7\u00e3o de alguns membros da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste entretempo, correntes rigoristas come\u00e7aram a pregar que todo crist\u00e3o que se tornasse <em>libellaticus<\/em> perdia a gra\u00e7a do batismo e, caso quisesse voltar \u00e0 comunidade, ap\u00f3s a persegui\u00e7\u00e3o, precisava ser rebatizado. Outros sequer aceitariam a reinser\u00e7\u00e3o, ainda que por novo batismo. Este drama comunit\u00e1rio, que atingiu as igrejas de Roma, Alexandria e at\u00e9 Cartago, no norte da \u00c1frica, testemunha a exist\u00eancia de um quadro de exclus\u00e3o interna \u00e0 igreja que podia ser t\u00e3o ou mais violento do que a persegui\u00e7\u00e3o imperial; a exclus\u00e3o dos <em>libellatici<\/em> ou <em>lapsi<\/em> (isto \u00e9, aqueles que ca\u00edram por medo do mart\u00edrio) tornou-se a contra-face de uma verdadeira persegui\u00e7\u00e3o intra-eclesial em que rigoristas procuravam expurgar das igrejas os membros indesejados. A atitude dos setores rigoristas, nessas igrejas, poderia ser descrita como uma esp\u00e9cie de \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d, o que evidentemente causava grande turbul\u00eancia entre os fi\u00e9is e o clero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi o que aconteceu, em Roma, quando do mart\u00edrio do bispo\/papa Fabiano (\u2020250), primeira v\u00edtima do decreto de D\u00e9cio. A contenda pela sucess\u00e3o de Fabiano atesta o quanto a comunidade eclesial de Roma estava dividida entre duas tend\u00eancias: os rigoristas, que consideravam os <em>lapsi<\/em> cism\u00e1ticos, apontaram Novato (\u2020258) como seu candidato; os demais, que podemos denominar \u201cmoderados\u201d, isto \u00e9, que estavam dispostos a admitir os <em>lapsi<\/em>, indicaram Corn\u00e9lio (\u2020253) que acabou vencendo a elei\u00e7\u00e3o. Em resposta \u00e0 confian\u00e7a de seus apoiadores, Corn\u00e9lio envidou esfor\u00e7os para reconciliar os <em>lapsi <\/em>sem exigir novo batismo, por\u00e9m, obrigando-os a uma p\u00fablica penit\u00eancia. Os rigoristas aliados a Novato n\u00e3o engoliram a derrota e, desde ent\u00e3o, come\u00e7ou a rivalidade entre o novo bispo e seu presb\u00edtero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novato comandou uma revolta interna na igreja romana, o que o levou, inclusive, a ser ordenado bispo fora dos procedimentos can\u00f4nicos e a exigir a deposi\u00e7\u00e3o de Corn\u00e9lio \u2013 \u00a0n\u00e3o \u00e0 toa, muitos historiadores consideram Novato o primeiro antipapa. Ao narrar este acontecimento, Eus\u00e9bio de Cesareia n\u00e3o esconde sua indigna\u00e7\u00e3o por Novato. Percebe-se, no entanto, que esta indigna\u00e7\u00e3o decorria, em primeiro lugar, do fato que, para ele, era verdadeiramente inconceb\u00edvel que um presb\u00edtero pensasse diferente de seu bispo e, pior ainda, que se insubordinasse a ele. Revoltar-se contra seu bispo foi o crime imperdo\u00e1vel de Novato, seu verdadeiro cisma, n\u00e3o sua posi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria rigorista. Corn\u00e9lio, por sua vez, ao defender uma vis\u00e3o mais inclusiva ou misericordiosa em rela\u00e7\u00e3o aos <em>lapsi,<\/em> procurava assegurar a autoridade superlativa do bispo de Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os adeptos de Novato, conhecidos como novacianos, n\u00e3o foram reintegrados \u00e0 igreja romana, ap\u00f3s o conflito, mas formaram uma igreja aut\u00f4noma, desvinculada de uma cidade precisa, e seus membros espalharam-se por diversas regi\u00f5es do mundo romano; quando do Conc\u00edlio de Niceia (325), os novacianos subscreveram o credo niceno e, por isso, passaram a ser vistos como ortodoxos, na f\u00e9, mas dissidentes quanto \u00e0 disciplina. Em suma, a controv\u00e9rsia em torno dos <em>libellatici<\/em> e o cisma de Novato n\u00e3o apontam imediatamente para um problema doutrinal, mas para uma disputa de poder entre grupos rivais, dentro de uma mesma comunidade, e para um confronto entre autoridades hier\u00e1rquicas, como o bispo e seu presb\u00edtero, frente a uma derrota eleitoral n\u00e3o assimilada. A rixa de Novato contra Corn\u00e9lio deu ensejo para que este \u00faltimo mostrasse qual o lugar de um presb\u00edtero e qual o tamanho da for\u00e7a do episcopado romano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eus\u00e9bio de Cesareia, ardoroso defensor da autoridade episcopal frente a tend\u00eancias, digamos, mais presbiterais ou colegiais, nos leva a detestar Novato e a consider\u00e1-lo um p\u00e9rfido cism\u00e1tico. O expurgo da mem\u00f3ria de Novato, ap\u00f3s sua atitude de proclamar-se bispo sem elei\u00e7\u00e3o can\u00f4nica, nos obriga a ficarmos sem resposta para muitas quest\u00f5es sobre a posi\u00e7\u00e3o de Corn\u00e9lio na defesa dos <em>lapsi<\/em>. Apesar do p\u00e9ssimo retrato tra\u00e7ado por Eus\u00e9bio, Novato e seu movimento n\u00e3o podem, impunemente, ser vistos como v\u00edtimas minorit\u00e1rias e indefesas de uma comunidade majorit\u00e1ria e mais forte, pois tanto uma quanto a outra manifestam comportamentos excludentes e procuram, com os recursos que possuem, elevar a sua teologia \u00e0 categoria de Teologia, amea\u00e7ando e perseguindo os diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.2. O cisma das igrejas norte-africanas no s\u00e9culo IV<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O norte da \u00c1frica experimentou todas as consequ\u00eancias da persegui\u00e7\u00e3o de D\u00e9cio, incluindo o problema dos <em>lapsi<\/em> e as dificuldades para a sua reinser\u00e7\u00e3o eclesial. Apesar de sabermos que grande parte das igrejas africanas eram compostas por <em>lapsi <\/em>(FREND, 1982, p.100), difundiu-se, durante e ap\u00f3s a repress\u00e3o, uma arraigada devo\u00e7\u00e3o pelos m\u00e1rtires que haviam dado testemunho de const\u00e2ncia e fortaleza. A imensa quantidade de relatos martiriais ligados a crist\u00e3os africanos nos d\u00e1 uma boa propor\u00e7\u00e3o do quanto as igrejas daquela regi\u00e3o eram apegadas a seus her\u00f3is e do quanto o mart\u00edrio era importante na constitui\u00e7\u00e3o de uma identidade crist\u00e3 na \u00c1frica. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que esta identidade martirial logo se voltaria contra a aceita\u00e7\u00e3o de leigos e cl\u00e9rigos que, por diversas raz\u00f5es, preferiram resistir \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o se agravou quando, em 303, a autoridade imperial lan\u00e7ou uma nova ofensiva contra os crist\u00e3os. Desta vez, pretendia-se destruir todas as c\u00f3pias das Sagradas Escrituras, os objetos lit\u00fargicos e queimar todas as igrejas a fim de que os fi\u00e9is n\u00e3o tivessem onde celebrar seus mist\u00e9rios (FREND, 1982, p. 116). Estas ondas persecut\u00f3rias movidas pelo Estado romano podem ser explicadas como rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social frente \u00e0 incapacidade do Imp\u00e9rio de contornar seus problemas fiscais e militares, o que ocasionava cont\u00ednuas lutas entre o ex\u00e9rcito romano e os ex\u00e9rcitos n\u00e3o-romanos, chamados de b\u00e1rbaros, que se insurgiam contra a autoridade imperial. Para as elites romanas, esta crise decorria do abandono do culto ancestral aos deuses e da ades\u00e3o popular ao cristianismo, donde se entende que as persegui\u00e7\u00f5es da \u00e9poca de Diocleciano (244-311) contaram com a participa\u00e7\u00e3o das elites municipais e provinciais, desta vez, coniventes com a puni\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta nova repress\u00e3o imperial, na \u00c1frica, maximizou a divis\u00e3o entre os crist\u00e3os adeptos de uma identidade martirial e aqueles, mais moderados, que aceitavam negociar frente ao perigo. Estes \u00faltimos foram taxados de <em>traditores <\/em>(traidores), porque supostamente entregaram \u00e0s autoridades os exemplares das escrituras e denunciaram seus irm\u00e3os de f\u00e9. Com a ascens\u00e3o imperial de Constantino, em 311, as persegui\u00e7\u00f5es cessaram, mas, na \u00e1rea africana, o resultado continuou negativo, pois iniciou-se uma luta interna \u00e0s igrejas com o fito de impedir que os <em>traditores<\/em> continuassem a participar da vida de f\u00e9, principalmente se fossem cl\u00e9rigos, j\u00e1 que, neste caso, considerava-se que os sacramentos celebrados por eles eram inv\u00e1lidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cidade de Cartago, este grupo, que podemos chamar de radical, foi capitaneado pelo presb\u00edtero, depois bispo, Donato de Casae Nigrae (\u2020c.355). Sua postura de total exclus\u00e3o dos <em>traditores<\/em>, considerados colaboradores do Estado romano, originou uma concep\u00e7\u00e3o que a verdadeira Igreja de Cristo, por ser santa e imaculada, devia ser formada t\u00e3o-somente pelos que resistiram ao Imp\u00e9rio e n\u00e3o temeram a morte: uma Igreja de puros e de santos que n\u00e3o compactuaram com o inimigo. Por isso, as assembleias lit\u00fargicas n\u00e3o podiam admitir a comunh\u00e3o dos traidores de Cristo e nem o minist\u00e9rio de cl\u00e9rigos que apostataram. A todos estes, caso desejassem voltar \u00e0 comunidade, cabia novo batismo e, para os cl\u00e9rigos, nova ordena\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom notar que, ao negar a validade das ordena\u00e7\u00f5es, os donatistas encontraram um modo de desmontar a organiza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica das igrejas norte-africanas, substituindo-a por sua pr\u00f3pria hierarquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado, estava o grupo mais moderado, dirigido pelo arcediago (o primeiro entre os di\u00e1conos), depois bispo, Ceciliano (\u2020c.345), que negava o rebatismo e as reordena\u00e7\u00f5es e considerava que a Igreja, enquanto peregrina neste mundo, comportava tanto os santos quanto os pecadores e que seria imposs\u00edvel excluir os \u00faltimos para s\u00f3 restarem os primeiros. Esta ala da igreja cartaginesa defendia que a validade dos sacramentos n\u00e3o dependia da santidade pessoal do ministro, mas do minist\u00e9rio recebido da Igreja, ela sim, santa por causa de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso do donatismo, no norte da \u00c1frica, nos coloca frente ao problema: qual era a comunidade cism\u00e1tica, a donatista, constitu\u00edda pela maior parte do episcopado africano, ou a cat\u00f3lica, representada pelos poucos bispos alinhados \u00e0 proposta moderada de Ceciliano e, depois, de Agostinho de Hipona? Quem se separou de quem? Do ponto de vista donatista, a comunidade cat\u00f3lica \u00e9 que perdera a fidelidade \u00e0 proposta de Cristo e, neste sentido, deixara de ser uma verdadeira igreja. O ato cism\u00e1tico, portanto, teria partido dos cat\u00f3licos. Para os donatistas, o clero cat\u00f3lico, corrompido, n\u00e3o era capaz de ministrar sacramentos v\u00e1lidos, pois a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo n\u00e3o beneficiava o gesto dos pecadores, ainda que celebrado em nome de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o fim das persegui\u00e7\u00f5es imperiais, em 311, resultado da chamada paz constantiniana, os \u00e2nimos dos bispos norte-africanos n\u00e3o abrandaram, pois Constantino, a fim de tentar pacificar a regi\u00e3o, tomou o partido de Ceciliano e seus seguidores, dando a eles n\u00e3o s\u00f3 o apoio do Imp\u00e9rio, mas tamb\u00e9m incentivo econ\u00f4mico e destacado posto pol\u00edtico. Os donatistas viram nisso a confirma\u00e7\u00e3o de que a comunidade cat\u00f3lica, pr\u00f3-romana, era mancomunada com o Imp\u00e9rio e n\u00e3o podia, de forma alguma, ser uma aut\u00eantica igreja. Conv\u00e9m observar que, na acusa\u00e7\u00e3o donatista \u00e0 comunidade cat\u00f3lica, esconde-se um certo desprezo donatista pelas refer\u00eancias culturais romanas que marcavam uma parte dos norte-africanos residentes nas cidades altamente romanizadas do litoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A postura cat\u00f3lica professada pelo grupo de Ceciliano alinhava-se, de fato, \u00e0 abertura cultural do mundo romano mediterr\u00e2nico que postulava o universalismo o que, neste caso, casava bem com a ideia de catolicidade da Igreja. \u00c9 por isso que Constantino apoiou os cat\u00f3licos, pois seu projeto de governo pretendia, justamente, afirmar a universalidade do Imp\u00e9rio contra os regionalismos fragmentadores. Os donatistas, por outro lado, formados por indiv\u00edduos e comunidades que defendiam uma cultura norte-africana local, menos romanizada e mais exclusivista, n\u00e3o toleravam a liga\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Imp\u00e9rio, ainda que fosse apenas em termos culturais. O que se pode apreender deste cisma norte-africano \u00e9 que os argumentos de cunho eclesiol\u00f3gico e sacramental escondiam, mais embaixo, um problema sociopol\u00edtico que afligia a sociedade como um todo e que, inclusive, inclu\u00eda uma aguda discrep\u00e2ncia e rivalidade entre comunidades campesinas, geralmente alinhadas aos donatistas, e comunidades urbanas, mais alinhadas aos cat\u00f3licos. Se n\u00e3o se leva em conta esta complicada teia de rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se consegue compreender a hist\u00f3ria do cisma africano e, por consequ\u00eancia, nem mesmo a Hist\u00f3ria da Igreja (BROWN, 2005, p. 251; FIGUINHA, 2009, p. 16; FREND, 1982, p. 126).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Cisma, heresia e viol\u00eancia: os limites da ortodoxia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que tange \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre as igrejas, o s\u00e9culo V n\u00e3o foi menos turbulento; talvez tenha sido ainda pior, como se l\u00ea, por exemplo, na <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em>, de S\u00f3crates de Constantinopla (380-440), principal testemunho do chamado cisma nestoriano de 431. Nest\u00f3rio (386-451) fora um monge antioqueno eleito bispo de Constantinopla em 428. Famoso por sua piedade e eloqu\u00eancia, Nest\u00f3rio iniciou seu mandato exortando o imperador Teod\u00f3sio II (401-450) a que expurgasse a terra de todos os her\u00e9ticos, caso quisesse que Deus lhe desse a vit\u00f3ria sobre o Imp\u00e9rio persa inimigo. O texto de S\u00f3crates (7.29.5 ou 7.29.10) deixa ver como, j\u00e1 na gera\u00e7\u00e3o de 430, havia na Igreja uma ala de cl\u00e9rigos convencidos que o Estado romano era um bom instrumento de Deus para arrancar, com a for\u00e7a das armas, a erva daninha da heresia e do cisma. Ao Estado cabe usar a for\u00e7a, na Igreja, para livr\u00e1-la do erro de alguns e, \u00e0 Igreja, cabe ajudar o Estado em suas necessidades pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta opini\u00e3o, de resto, n\u00e3o era, em si, uma novidade, pois Eus\u00e9bio de Cesareia (<em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em> VII, 27.29) sustentava a mesma opini\u00e3o, quando relatou o destino do bispo Paulo de Sam\u00f3sata (200-275), na S\u00e9 de Antioquia, que, por volta de 260, resolveu expressar-se, enquanto bispo, de um modo que incomodava os demais bispos da S\u00edria. Estes, ent\u00e3o, recorreram \u00e0 autoridade imperial a fim de retirar Paulo \u00e0 for\u00e7a do bispado \u2013 n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que, em 260, o Imp\u00e9rio ainda perseguia a Igreja; portanto, este recurso ao Imp\u00e9rio pag\u00e3o demonstra que, quando se tratava de defender seus interesses, os bispos n\u00e3o viam nenhum problema em aproximar-se do perseguidor. Os antigos historiadores eclesi\u00e1sticos, como Eus\u00e9bio e S\u00f3crates, mencionam atos de viol\u00eancia praticados tanto por bispos considerados maus e perdidos, como Nest\u00f3rio, quanto tamb\u00e9m por bispos venerados, hoje, como santos, como Cirilo de Alexandria. Na <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em> (7.13), S\u00f3crates narra a viol\u00eancia com que o bispo S\u00e3o Cirilo extirpou todos os judeus da cidade e mandou incendiar suas sinagogas, bem como o epis\u00f3dio do assassinato da fil\u00f3sofa alexandrina Hip\u00e1cia (7.15.7). Apesar de S\u00f3crates n\u00e3o nutrir simpatias por Cirilo, seu relato n\u00e3o era fantasioso, pois tomou cuidado de n\u00e3o misturar a f\u00faria do bispo e de seus correligion\u00e1rios com o zelo justo e admiss\u00edvel demonstrado por aqueles que o historiador chama de \u201chomens santos\u201d da Igreja (GADDIS, 2005, p. 222). A despeito disso, a destrui\u00e7\u00e3o do templo de Ser\u00e1pis e a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 Hip\u00e1cia sustentam-se na legisla\u00e7\u00e3o anti-pag\u00e3 promulgada pelo imperador Teod\u00f3sio I, entre 391-392 (CAMERON, 1998, p. 60).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nestas narrativas antigas, \u00e9 dif\u00edcil separar o conceito de heresia daquele de cisma; ambos s\u00e3o comportamentos flagrantemente contr\u00e1rios \u00e0 unidade da Igreja e \u00e0 autoridade de seus pastores. Por isso, vemos que os bispos recorrem quase sempre \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Estado para que este erradique da Igreja toda forma de express\u00e3o eclesial diferente: de um ponto de vista estritamente hist\u00f3rico, a manuten\u00e7\u00e3o da unidade e a erradica\u00e7\u00e3o do erro decorrem do uso da viol\u00eancia, tanto a do Estado quanto a da pr\u00f3pria Igreja. \u00c9 importante levar em conta que a radicaliza\u00e7\u00e3o de certos setores clericais (que n\u00e3o eram poucos) aconteceu durante, mas, principalmente, ap\u00f3s o fim das persegui\u00e7\u00f5es contra a f\u00e9: o que explicaria isso? As igrejas n\u00e3o haviam sofrido o suficiente ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos? N\u00e3o pregavam elas a paz? N\u00e3o eram elas esposas de Cristo, o pr\u00edncipe da paz? \u00c9 curioso observar que esta radicaliza\u00e7\u00e3o, a princ\u00edpio referida a judeus, pag\u00e3os e hereges, direcionou-se tamb\u00e9m contra os pr\u00f3prios bispos e cl\u00e9rigos (a princ\u00edpio, n\u00e3o her\u00e9ticos) e, por meio de uma disputa duradoura pelo poder dentro da ecumene crist\u00e3, a viol\u00eancia contra judeus, pag\u00e3os e hereges diminuiu um pouco para concentrar for\u00e7as contra os bispos entre si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Acreditava-se que uso da viol\u00eancia era justo porque muito pior era o efeito do erro presente nos cismas, heresias e idolatrias. O monge eg\u00edpcio Shenoute (ou Shenouda) de Atripe (385-466), abade do Mosteiro Branco de Sohag, certa vez, invadiu a casa de um aristocrata n\u00e3o crist\u00e3o e destruiu todos os \u00eddolos que encontrou. Acusado de ter cometido viol\u00eancia e crime de invas\u00e3o e banditismo, ele respondeu: \u201cn\u00e3o existe crime para aqueles que possuem a Cristo\u201d (GADDIS, 2007, p. 1). A solu\u00e7\u00e3o de Shenoute, al\u00e9m de ilegal, revela que tamb\u00e9m os crist\u00e3os podiam forjar a sua pr\u00f3pria compreens\u00e3o do que era o crime, a viol\u00eancia, o erro, o cisma e a heresia. Estas \u00faltimas n\u00e3o eram coisas objetivas, mas o resultado de uma interpreta\u00e7\u00e3o particular que podia variar ao ritmo das posi\u00e7\u00f5es mais radicais ou mais moderadas. Assim, ao inv\u00e9s de nos espantarmos ao ver que as comunidades eclesiais antigas podiam ser extremamente violentas (GADDIS, 2007; JENKINS, 2013), precisamos repensar o significado sociol\u00f3gico do conflito e entend\u00ea-lo \u00e0 luz do horizonte hist\u00f3rico dos personagens envolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito ou a gest\u00e3o do conflito, nos s\u00e9culos IV-V, era um mecanismo importante na defini\u00e7\u00e3o da autoridade episcopal (recordemos o caso da querela entre Novato e Corn\u00e9lio em Roma, ou de Donato e Ciciliano em Cartago): lutar contra Novato, considerado pelos cat\u00f3licos um cism\u00e1tico e her\u00e9tico, fez de Corn\u00e9lio um bispo ainda mais forte, porque defensor da f\u00e9, e ajudou-o a definir muito mais nitidamente o seu papel de chefe da igreja romana e, mais, colocou-o \u00e0 frente das igrejas italianas, pois o epis\u00f3dio justificou a deposi\u00e7\u00e3o dos bispos que ordenaram Novato ilicitamente. Em Cartago, a posi\u00e7\u00e3o de Donato articulava-se com a opini\u00e3o majorit\u00e1ria dos bispos da Num\u00eddia que, descontentes com a situa\u00e7\u00e3o de seus colegas tidos por colaboracionistas, invalidavam a ordena\u00e7\u00e3o deles, o que mostra que combater os considerados traidores fazia parte do of\u00edcio de bispo da verdadeira Igreja, a dos puros e imaculados donatistas. Em outras palavras, os conflitos episcopais, quando eficazmente geridos, conferiam a seus gestores enorme consolida\u00e7\u00e3o de sua autoridade, de um lado, e de seu carisma pessoal, de outro. A declara\u00e7\u00e3o condenat\u00f3ria de heresia ou de cisma fazia parte do repert\u00f3rio ret\u00f3rico e pol\u00edtico mobilizado pelos bispos no af\u00e3 de sustentar o seu poder atrav\u00e9s da contesta\u00e7\u00e3o do poder de seus concorrentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do quadro exposto, conclui-se que, historicamente falando, o cisma at\u00e9 pode ser um ato sect\u00e1rio, mas \u00e9 mais propriamente um modo de gerir as diferen\u00e7as \u2013 sociais, culturais, doutrinais e lit\u00fargicas \u2013 no interior de uma dada comunidade eclesial ou entre duas ou mais igrejas locais. Al\u00e9m disso, o cisma alude \u00e0s m\u00faltiplas diferen\u00e7as regionais, pol\u00edticas e sociais que marcavam o Imp\u00e9rio romano e que, por extens\u00e3o, marcaram tamb\u00e9m as comunidades crist\u00e3s que se desenvolveram em seu solo. \u00c9 enganoso supor que as igrejas, de ontem e de hoje, respondem apenas \u00e0s suas demandas pr\u00f3prias e que suas hist\u00f3rias correm paralelas \u00e0 hist\u00f3ria social de seu meio. Neste caso, o cisma precisa ser reinterpretado numa chave que entende que a diversidade, n\u00e3o a uniformidade, \u00e9 consubstancial \u00e0 pr\u00f3pria identidade do cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o significa, como dito anteriormente, que a experi\u00eancia de ruptura no interior das igrejas n\u00e3o fosse vivida como algo doloroso e escandaloso, por\u00e9m, n\u00e3o podemos nos esquecer que as pr\u00f3prias comunidades eclesiais, ao definirem e condenarem os cismas, procuravam afirmar suas idiossincrasias e, neste sentido, defendiam a sua perspectiva de vencedores, como encontramos, por exemplo, na <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica <\/em>de Eus\u00e9bio de Cesareia. Este bispo, quando escreveu sua obra, sabia que era membro de um imp\u00e9rio dirigido por um imperador crist\u00e3o e que os bispos, sucessores dos ap\u00f3stolos, eram tamb\u00e9m verdadeiros magistrados romanos que ocupavam as sedes das cidades de um imp\u00e9rio universal e, portanto, eram homens de poder. Sua <em>Hist\u00f3ria<\/em> reflete esta situa\u00e7\u00e3o altamente privilegiada do episcopado mon\u00e1rquico, um tipo de governo eclesial que lentamente se imp\u00f4s sobre outros modos de governo mais colegiais. Ao escrever a <em>Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica<\/em>, Eus\u00e9bio tecia louvores \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o episcopal e a elevava \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de paradigma da pr\u00f3pria apostolicidade da Igreja que ele enxergava como a verdadeira Igreja, o que restou de bom de todas as seitas e cismas do per\u00edodo anterior. N\u00e3o que ele engenhosamente estivesse a manipular a hist\u00f3ria a favor do seu partido, mas n\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o notar que, como bispo e aliado do Imp\u00e9rio, sua vis\u00e3o dos fatos condizia com a sua posi\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da constata\u00e7\u00e3o que as fontes hist\u00f3ricas de que dispomos s\u00e3o produtos de correntes crist\u00e3s que sa\u00edram vitoriosas de seus embates e, por isso, s\u00e3o discursos depreciativos das diferen\u00e7as, \u00e9 muito dif\u00edcil compreender o real significado dos cismas, principalmente para os grupos que optaram por eles como condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria f\u00e9. Assim, a historiografia e a teologia s\u00e3o convidadas a superarem a vis\u00e3o teleol\u00f3gica que marcou a Hist\u00f3ria da Igreja, de ontem e de hoje, para encontrarem, por debaixo dos escombros da <em>damnatio memoriae <\/em>(a condena\u00e7\u00e3o de aspectos do passado) os elementos mais convenientes para elaborar a sua pr\u00f3pria leitura da Hist\u00f3ria da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>Andr\u00e9 Miatello,\u00a0<\/em>UFMG\/FAJE &#8211; Brasil, Original portugu\u00eas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BROWN, Peter. <em>A Ascens\u00e3o do Cristianismo no Ocidente<\/em>. Trad. Eduardo Nogueira; Rev. Saul Barata. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">__________. <em>Santo Agostinho uma biografia<\/em>. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAMERON, Averil. <em>El mundo mediterr\u00e1neo en la antig\u00fcedad tard\u00eda, 395-600<\/em>. Trad. Te\u00f3filo de Lozoya. Barcelona: Cr\u00edtica, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAMERON, Euan. <em>Interpreting Christian History.<\/em> The Challenge of the Churches\u2019 Past. Malden: Blackwell Publishing, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FIGUINHA, Matheus Coutinho. <em>Servos de Deus.<\/em> Monasticismo, poder e ortodoxia em Santo Agostinho. S\u00e3o Paulo: Annablume, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FREND, W. H. C. <em>The Early Church.<\/em> Minneapolis: Fortress Press, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GADDIS, Michael. <em>There is no crime for those who have Christ<\/em>. Religious Violence in the Christian Roman Empire. Berkeley\/Los Angeles\/Londres: University of California Press, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRVIN, Dale; SUNQUIST, Scott W. <em>Hist\u00f3ria do movimento crist\u00e3o mundial<\/em>. Volume I: Do cristianismo primitivo a 1453. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JENKINS, Philip. <em>Guerras Santas.<\/em> Como 4 Patriarcas, 3 Rainhas e 2 Imperadores decidiram em que os crist\u00e3os acreditariam pelos pr\u00f3ximos 1500 anos. Trad. Carlos Szlak. Rio de Janeiro: LeYa, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JOHNSON, Paul. <em>Hist\u00f3ria do Cristianismo.<\/em> Trad. Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Imago, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARGUERAT, Daniel. <em>A Primeira Hist\u00f3ria do Cristianismo.<\/em> Os Atos dos Ap\u00f3stolos. Trad. Fredericus Antonius Stein. S\u00e3o Paulo: Paulus; Loyola, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">STARK, Rodney. <em>Ascesa e affermazione del Cristianesimo.<\/em> Come un movimento oscuro e marginale \u00e8 diventato in pochi secoli la religione dominante dell\u2019Occidente. Turim: Lindau s.r.l., 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Defini\u00e7\u00e3o conceitual 2 Ato cism\u00e1tico na Hist\u00f3ria da Igreja 3 O cisma como luta pelo poder na Igreja 3.1 Primeiro exemplo: o cisma de Novato em Roma (251) 3.2 Segundo exemplo: o cisma das igrejas norte-africanas no s\u00e9culo IV 4 Cisma, heresia e viol\u00eancia: os limites da ortodoxia 5 Conclus\u00e3o 6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-1449","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1449","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1449"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1449\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1450,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1449\/revisions\/1450"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}