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{"id":1435,"date":"2017-09-28T08:54:04","date_gmt":"2017-09-28T11:54:04","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1435"},"modified":"2017-09-28T08:54:04","modified_gmt":"2017-09-28T11:54:04","slug":"livros-historicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1435","title":{"rendered":"Livros Hist\u00f3ricos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>2 Josu\u00e9<\/p>\n<p>3 Ju\u00edzes<\/p>\n<p>4 Rute<\/p>\n<p>5 1-2 Samuel<\/p>\n<p>6 1-2 Reis<\/p>\n<p>7 1-2 Cr\u00f4nicas<\/p>\n<p>8 Esdras<\/p>\n<p>9 Neemias<\/p>\n<p>10 Tobias<\/p>\n<p>11 Judite<\/p>\n<p>12 Ester<\/p>\n<p>13 1-2 Macabeus<\/p>\n<p>14 Considera\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n<p>15 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este verbete apresenta os livros classificados, segundo o c\u00e2non da Vulgata, como \u201cHist\u00f3ricos\u201d. Tal denomina\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 anterior e deriva da Septuaginta (LXX), isto \u00e9, da vers\u00e3o grega da B\u00edblia Hebraica. Nessa, al\u00e9m de ter um c\u00e2non diferente, os livros de Josu\u00e9, Ju\u00edzes, Samuel e Reis, s\u00e3o denominados de \u201cProfetas Anteriores\u201d (<em>n<sup>e<\/sup>b\u00ee\u2019\u00eem ri\u2019\u0161\u00f4n\u00eem<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de Rute, Ester, Esdras, Neemias e 1-2 Cr\u00f4nicas, na B\u00edblia Hebraica, pertencem ao bloco dos \u201cEscritos\u201d (<em>K<sup>e<\/sup>tub\u00eem<\/em>). Rute e Ester recebem ainda uma considera\u00e7\u00e3o ulterior dentro desse bloco, pois integram, ao lado de C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, Lamenta\u00e7\u00f5es e Eclesiastes, um conjunto de cinco rolos denominado de <em>m<sup>e<\/sup>gill\u00f4t<\/em>. Estes livros s\u00e3o lidos nas festas lit\u00fargicas. C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, na festa da P\u00e1scoa; Rute, na festa de Pentecostes; Lamenta\u00e7\u00f5es, na recorda\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m; Eclesiastes, na festa das Tendas; e Ester, na festa dos Purim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de Tobias, Judite e Macabeus, deuterocan\u00f4nicos para cat\u00f3licos e ap\u00f3crifos para protestantes, n\u00e3o foram inclu\u00eddos no c\u00e2non hebraico das Escrituras por quatro motivos principais: a) n\u00e3o foram escritos ou conservados em l\u00edngua sagrada: o hebraico; b) n\u00e3o foram escritos na Terra Prometida: Palestina; c) n\u00e3o foram escritos antes da reforma sociorreligiosa empreendida por Neemias e Esdras; d) n\u00e3o foram considerados em pleno acordo com a Tor\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que concerne \u00e0 ordem dos c\u00e2nones, um caso particular diz respeito ao livro de Rute e aos livros de Esdras, Neemias e 1-2 Cr\u00f4nicas. No primeiro caso, o livro de Rute, aparece colocado entre Ju\u00edzes e Samuel no c\u00e2non grego, posi\u00e7\u00e3o que \u00e9 seguida nos demais c\u00e2nones, exceto, como visto acima, no c\u00e2non hebraico, e serviu para evidenciar a fome, como um dos principais problemas da \u00e9poca dos ju\u00edzes; bem como para reconhecer a possibilidade de uma fam\u00edlia deixar a terra prometida, h\u00e1 pouco conquistada segundo a narrativa, e imigrar para al\u00e9m do Jord\u00e3o, neste caso, para Moab, a fim de sobreviver. Pode-se pensar numa forma de um \u201cnovo \u00eaxodo\u201d ou numa \u201cdi\u00e1spora pr\u00e9-mon\u00e1rquica\u201d. Acima de tudo isso, o livro de Rute serviu de transi\u00e7\u00e3o e antecipa\u00e7\u00e3o na narrativa (prolepse) para se falar de uma ancestral n\u00e3o israelita para o futuro rei Davi, que entrar\u00e1 em cena no livro de Samuel (cf. Rt 4,17.21). A cidade de Bel\u00e9m, da qual prov\u00e9m o futuro rei Davi, igualmente, recebeu evid\u00eancia no livro de Rute.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No segundo caso, o c\u00e2non hebraico \u00e9 conclu\u00eddo com 2 Cr\u00f4nicas. O \u00faltimo evento narrado nesse livro \u00e9 um olhar de esperan\u00e7a para o futuro do antigo Israel, baseado na profecia de Jeremias (cf. Jr 25,11-12; 29,10; 2Cr 36,21), segundo a qual Ciro, rei dos persas, ordenou a reconstru\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m e o repatriamento dos judeus que haviam sido exilados por ocasi\u00e3o da conquista babil\u00f4nica. Com o an\u00fancio da reconstru\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m, o cronista acentua o papel do culto como sendo a principal institui\u00e7\u00e3o dav\u00eddica capaz de reerguer, solidificar e devolver a identidade do povo eleito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos estudos b\u00edblicos, a partir do s\u00e9culo XIX, os livros de Josu\u00e9, Ju\u00edzes, Samuel e Reis passaram a ser classificados como pertencentes \u00e0 Obra Deuteronomista de Hist\u00f3ria. Essa classifica\u00e7\u00e3o remonta a Martin Noth que observou, nesses livros, muitos pontos de contato com o livro do Deuteron\u00f4mio (vocabul\u00e1rio, linguagem, estilo, motivos, teologia etc.). Noth acreditava que os livros Deuteron\u00f4mio, Josu\u00e9, Ju\u00edzes, Samuel e Reis seriam obras de um \u00fanico autor, que trabalhou durante o ex\u00edlio na Babil\u00f4nia, a fim de elucidar a hist\u00f3ria do povo desde as v\u00e9speras da conquista, com o testamento de Mois\u00e9s, at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e o consequente ex\u00edlio. Com isso, tal autor procurou evidenciar, teologicamente, que a perda da terra prometida deveu-se n\u00e3o \u00e0 fraqueza de Deus, mas \u00e0 infidelidade das lideran\u00e7as e do povo \u00e0 Tor\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta hip\u00f3tese ganhou muitos adeptos, mas, nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, vem perdendo a sua for\u00e7a. Nas pesquisas atuais, a concep\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais aceita nos moldes de M. Noth. \u00c9 poss\u00edvel continuar usando a denomina\u00e7\u00e3o Obra Deuteronomista para o bloco Js\u2013Rs, mas levando em considera\u00e7\u00e3o que o processo de forma\u00e7\u00e3o desses livros \u00e9 complexo e abarca um arco temporal condizente com os tempos do rei Josias, o per\u00edodo do ex\u00edlio, o p\u00f3s-ex\u00edlio e, nesse, um papel fundamental \u00e9 atribu\u00eddo ao per\u00edodo persa (R\u00d6MER, 2008, p.21-50).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro bloco que, aparentemente, aparece bem coeso compreende os livros de 1-2 Cr\u00f4nicas, Esdras e Neemias, denominado, comumente, de Obra do Cronista. Este conjunto teria tido origem nos c\u00edrculos sacerdotais que come\u00e7aram a elaborar uma proposta teol\u00f3gica em forma de literatura a partir do s\u00e9culo IV aC, e procurou dar uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente da Obra Deuteronomista quanto \u00e0 perda da terra e o consequente ex\u00edlio na Babil\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria do povo eleito \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o dos des\u00edgnios e do plano de Deus. Tudo est\u00e1 em suas m\u00e3os. Em 1-2 Cr\u00f4nicas, essa hist\u00f3ria \u00e9 narrada segundo um arco temporal muito amplo, que vai da cria\u00e7\u00e3o do mundo, passa pela elei\u00e7\u00e3o de Israel, prossegue no per\u00edodo da monarquia, com grande \u00eanfase sobre o rei Davi, at\u00e9 a conquista da Babil\u00f4nia por Ciro, rei dos persas, que deu anistia aos exilados e decretou a reconstru\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m. De certa forma, os livros de Esdras e Neemias continuam a hist\u00f3ria do ponto aberto deixado no final de 2 Cr\u00f4nicas, conduzindo-a ao momento da refunda\u00e7\u00e3o do povo de Deus e da cidade de Jerusal\u00e9m atrav\u00e9s de uma profunda reforma sociorreligiosa: o juda\u00edsmo baseado na Tor\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de Tobias, Judite e Ester n\u00e3o formam um bloco espec\u00edfico, como os anteriores, mas pertencem ao g\u00eanero liter\u00e1rio denominado hist\u00f3ria edificante. Os acontecimentos narrados est\u00e3o situados no per\u00edodo persa (s\u00e9culos VI\u2013IV aC) e permitem perceber as dores e dificuldades que enfrentaram os judeus piedosos que continuaram na di\u00e1spora (Tobias e Ester). O ideal sociorreligioso desejado com a funda\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo foi exemplificado n\u00e3o por judeus piedosos que viviam em Jud\u00e1-Jerusal\u00e9m, mas na di\u00e1spora. Essa afirma\u00e7\u00e3o encontra fundamenta\u00e7\u00e3o no fato de os grandes reformadores, Esdras e Neemias, serem judeus piedosos que vieram da di\u00e1spora para restaurar os costumes em Jud\u00e1-Jerusal\u00e9m. Al\u00e9m disso, existe outro fator de grande relev\u00e2ncia: a Tor\u00e1. Segundo a perspectiva b\u00edblica, a Tor\u00e1 aparece como obra realizada durante o per\u00edodo em que os filhos de Israel estiveram no deserto. A alian\u00e7a renovada em Moab por Mois\u00e9s, antes da sua morte, permite dizer que, se ela fosse violada, poderia ser renovada, independentemente de o povo eleito estar ou n\u00e3o na terra prometida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso particular do livro de Judite, a data\u00e7\u00e3o pode ser aproximada \u00e0 \u00e9poca da elabora\u00e7\u00e3o de 1-2 Macabeus, isto \u00e9, ao s\u00e9culo II aC. Tobias, Judite e Ester narram como os judeus piedosos enfrentaram os inimigos da f\u00e9 no Deus \u00fanico, usando da ast\u00facia, da viol\u00eancia e at\u00e9 do enfrentamento b\u00e9lico para libertar o povo e salvaguardar os costumes segundo as leis, os decretos e os mandamentos contidos na Tor\u00e1. Desde este ponto de vista, pode-se admitir que os livros de Tobias, Judite e Ester encontram-se em estreita rela\u00e7\u00e3o com a Tor\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Josu\u00e9<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este livro recebe o nome do seu protagonista principal: Josu\u00e9, filho de Nun, da tribo de Efraim, apresentado como ajudante e sucessor do grande l\u00edder Mois\u00e9s (cf. Ex 24,13; 33,11; Nm 11,28) na condu\u00e7\u00e3o do povo rumo \u00e0 terra prometida (cf. Nm 27,18-23; Dt 1,38; 3,28; 31,3.7.23; 34,9). O nome Josu\u00e9 significa \u201co Senhor salva\u201d ou \u201co Senhor \u00e9 salva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi Josu\u00e9, segundo a narrativa b\u00edblica, quem fez o povo passar o rio Jord\u00e3o, conduziu as batalhas da conquista, distribuiu o territ\u00f3rio entre as tribos e, antes de morrer, renovou a alian\u00e7a, lembrando ao povo as consequ\u00eancias nefastas que se seguiriam caso as futuras gera\u00e7\u00f5es fossem infi\u00e9is. Com isso, surge, facilmente, a estrutura do livro: a) um discurso que introduz Josu\u00e9 como novo l\u00edder do povo. Deus assegura-lhe a sua assist\u00eancia da mesma forma com que esteve com Mois\u00e9s (Js 1); b) narrativa da ocupa\u00e7\u00e3o da terra de forma b\u00e9lica, antecedida por dois pre\u00e2mbulos: uma nova circuncis\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o de Jeric\u00f3 por espi\u00f5es (Js 2,1-12,24); c) narrativa da divis\u00e3o do territ\u00f3rio (Js 13,1\u201322,34); d) um discurso final no qual acontece a renova\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a (Js 23,1\u201324,33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conquista da terra e a sua divis\u00e3o s\u00e3o os dois pilares do livro de Josu\u00e9, pois a sa\u00edda do Egito alcan\u00e7ou o seu objetivo: entrar e tomar posse da terra prometida. Os fatos narrados demonstram, acima de tudo, que Deus permaneceu fiel \u00e0s promessas que havia feito aos patriarcas e a Mois\u00e9s. Com a entrada, a tomada de posse e a divis\u00e3o da terra entre as tribos, um novo per\u00edodo na hist\u00f3ria dos libertos do Egito teve in\u00edcio, pois, ao lado da lei j\u00e1 recebida no Sinai, no livro do \u00caxodo, e renovada nas estepes de Moab, no livro do Deuteron\u00f4mio, foram lan\u00e7adas as bases do futuro do povo como na\u00e7\u00e3o. Aconteceu a passagem do regime semin\u00f4made, vivido durante o tempo do deserto, ao regime de vida sedent\u00e1ria, isto \u00e9, de uma cultura eminentemente pastoril a uma cultura agr\u00e1ria e urbana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perspectiva teol\u00f3gica mais marcante do livro recai sobre a figura de Josu\u00e9 como um servo bem sucedido nas suas empresas porque foi obediente \u00e0 Tor\u00e1. Josu\u00e9 representa o tempo da forma\u00e7\u00e3o do piedoso judeu que aprende na dureza da exist\u00eancia, nesse caso o tempo do deserto, a ser fiel a Deus pelo servi\u00e7o. A gera\u00e7\u00e3o comandada por Josu\u00e9 pode ser declarada exemplar (cf. Jz 2,10), salvo o incidente que se deu com a viola\u00e7\u00e3o do an\u00e1tema (cf. Js 7,1-26) e as dificuldades para a conquista de Hai (cf. Js 8,1-29). A liga\u00e7\u00e3o de Josu\u00e9 com Mois\u00e9s tem uma fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, pois o disc\u00edpulo da lei conseguiu seguir os passos e as orienta\u00e7\u00f5es do mestre da lei. Do ponto de vista religioso, o principal elemento teol\u00f3gico do livro diz respeito \u00e0 fidelidade a Deus atrav\u00e9s da obedi\u00eancia \u00e0 Tor\u00e1. Josu\u00e9 figura como exemplo disso e suas fa\u00e7anhas vitoriosas s\u00e3o narradas como prova de que Deus recompensa o justo por ser fiel \u00e0 sua vontade. Esta perspectiva aparece, de forma clara, no final do livro, pois o foco central recai sobre o empenho das tribos que se comprometem a se manter fi\u00e9is \u00e0 alian\u00e7a, sabedores de que toda transgress\u00e3o ser\u00e1 devidamente punida por Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Ju\u00edzes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em hebraico, este livro \u00e9 denominado <em>\u0161\u014dp<sup>e<\/sup>\u1e6d\u00eem<\/em>, um partic\u00edpio plural masculino absoluto (\u201cos que julgam\u201d), derivado do verbo <em>\u0161\u0101pa\u1e6d<\/em>, que significa \u201cjulgar\u201d, no sentido de estabelecer o direito e a justi\u00e7a, isto \u00e9: manter o povo na fidelidade ao Deus da alian\u00e7a. Em grego, \u00e9 denominado <em>Kr\u00edta\u00ed<\/em> (\u201cJu\u00edzes\u201d). O t\u00edtulo Ju\u00edzes representa o reconhecimento dado aos chefes do povo ap\u00f3s a morte de Josu\u00e9 (cf. Jz 2,16). Al\u00e9m disso, no pr\u00f3prio livro os ju\u00edzes s\u00e3o chamados de \u201csalvadores\u201d (cf. Jz 2,16.18; 3,9.15.31; 7,7; 10,1), porque, como l\u00edderes, atuaram em diversas situa\u00e7\u00f5es de lit\u00edgio, principalmente frente aos inimigos circunvizinhos. Foram suscitados por Deus para livrar o povo de alguma amea\u00e7a externa, trazendo a paz (cf. Jz 3,9; 4,6; 6,34). Pode-se dizer que sobre esses l\u00edderes recaem tr\u00eas caracter\u00edsticas principais: a) foram escolhidos por Deus; b) receberam um carisma especial; c) tinham uma for\u00e7a particular de Deus em fun\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o salv\u00edfica (combate aos inimigos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrutura do livro \u00e9 facilmente percebida: a) introdu\u00e7\u00e3o: Jz 1,1\u20133,6, contendo uma recapitula\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o de Cana\u00e3 (Jz 1,1\u20132,5) e apresenta\u00e7\u00e3o esquem\u00e1tica da perspectiva teol\u00f3gica do livro (Jz 2,6\u20133,6); b) corpo: Jz 3,7\u201316,31, contendo as narrativas das fa\u00e7anhas dos ju\u00edzes; c) dois ap\u00eandices: Jz 17,1\u201318,31, que apresenta a idolatria de D\u00e3, e Jz 19,1\u201321,15, que apresenta o crime dos benjaminitas e a guerra das tribos contra Benjamim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro dos Ju\u00edzes, por um lado, parece continuar a sequ\u00eancia do livro de Josu\u00e9. Por outro lado, por\u00e9m, o foco do livro continua sendo a conquista da terra e o assentamento das tribos. Esse assentamento prepara uma nova e grande etapa da hist\u00f3ria do antigo Israel na terra: a institui\u00e7\u00e3o da monarquia (cf. Jz 17,6; 18,1; 19,1; 21,25), que acontecer\u00e1 no livro de Samuel, com a un\u00e7\u00e3o de Saul. Os ju\u00edzes representam, ent\u00e3o, uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica intermedi\u00e1ria entre o regime tribal e o regime mon\u00e1rquico, preparando o terreno para o surgimento do carisma prof\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro possui uma profunda teologia da hist\u00f3ria religiosa do povo eleito: se foi v\u00edtima de seus inimigos, a causa deve ser buscada na sua infidelidade; se Deus o libertou pela miss\u00e3o de um juiz, se deu por pura miseric\u00f3rdia, pois desde os tempos do Egito continuou ouvindo os seus gritos e gemidos de afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O principal objetivo do livro \u00e9 mostrar o castigo divino como consequ\u00eancia do pecado e a convers\u00e3o como caminho que conduz \u00e0 salva\u00e7\u00e3o (cf. Jz 2,11-8). Jz 2,6\u20133,6 permite visualizar o objetivo principal do livro: pecado de apostasia (cf. Jz 2,11; 3,7-12); entrega aos inimigos (cf. Jz 2,14; 3,8.12); clamor a Deus (cf. Jz 2,15; 3,9.15); envio do juiz (cf. Jz 2,16; 3,9.15); liberta\u00e7\u00e3o dos inimigos e tempo de paz, por 20, 40, 80 anos (cf. Jz 3,11.30). Esse objetivo aparece exemplificado nas narrativas dos ju\u00edzes: seis s\u00e3o mais detalhadas, denominados Ju\u00edzes Maiores e seis mais breves, denominados Ju\u00edzes Menores. Assim se alcan\u00e7ou o n\u00famero doze, simbolizando as doze tribos de Israel.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"307\">Ju\u00edzes Maiores<\/td>\n<td colspan=\"2\" width=\"307\">Ju\u00edzes Menores<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"153\">Otoniel<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 3,7-11<\/td>\n<td width=\"154\">Samgar<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 3,31 (5,6)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"153\">Aod<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 3,12-30<\/td>\n<td width=\"154\">Tola<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 10,1-2<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"153\">Barac\/D\u00e9bora<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 4,1-24; 5,1-31<\/td>\n<td width=\"154\">Jair<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 10, 3-5<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"153\">Gede\u00e3o<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 6,1\u20138,35<\/td>\n<td width=\"154\">Abes\u00e3<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 12,8-10<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"153\">Jeft\u00e9<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 10,6\u201312,7<\/td>\n<td width=\"154\">Elon<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 12,11-12<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"153\">Sans\u00e3o<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 13,1\u201316,31<\/td>\n<td width=\"154\">Abdon<\/td>\n<td width=\"154\">Jz 12,13-15<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esquema pecado, castigo e liberta\u00e7\u00e3o se repete na hist\u00f3ria dos Ju\u00edzes Maiores. A tradi\u00e7\u00e3o talm\u00fadica atribuiu a autoria do livro dos Ju\u00edzes a Samuel. A cr\u00edtica moderna, por\u00e9m, aponta para o fato de que existe um longo processo de cole\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es, reda\u00e7\u00f5es e composi\u00e7\u00f5es deuteron\u00f4mico-deuteronomistas feitas antes e durante o ex\u00edlio na Babil\u00f4nia, e acr\u00e9scimos posteriores ao ex\u00edlio. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer se as tradi\u00e7\u00f5es orais estariam calcadas em aut\u00eanticas mem\u00f3rias sobre os her\u00f3is locais e os conflitos que existiram durante o per\u00edodo dos assentamentos. Essas mem\u00f3rias foram conservadas e transmitidas de forma po\u00e9tica (cf. Jz 5), f\u00e1bula (cf. Jz 9,8-15) ou em narrativas populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos vinte anos, fortes ataques foram feitos \u00e0 autenticidade dos fatos narrados, devido \u00e0s recentes descobertas arqueol\u00f3gicas feitas por Israel Finkelstein, em diversos s\u00edtios: Meguido, Hazor e Gu\u00e9zer. O quadro hist\u00f3rico descrito no livro pouco ou nada tem a ver com os resultados obtidos pela arqueologia na regi\u00e3o montanhosa durante o per\u00edodo do Ferro I (1150\u2013900 aC). Acredita-se que na base do surgimento do Israel pr\u00e9-mon\u00e1rquico estiveram transforma\u00e7\u00f5es sociais muito complexas entre os povos que habitavam o territ\u00f3rio (pastores, n\u00f4mades, agricultores) e n\u00e3o os conceitos teol\u00f3gicos tardios de pecado e reden\u00e7\u00e3o. No livro, ent\u00e3o, esse contato do grupo que atravessou o Jord\u00e3o sob o comando de Josu\u00e9 com os povos cananeus sobressai no per\u00edodo dos ju\u00edzes (1200 \u2013 1040 a.C.) pelo predom\u00ednio dos aspectos teol\u00f3gico-religiosos em roupagem hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Rute<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro recebe o nome de uma das personagens principais: Rute, uma estrangeira moabita, que figura ao lado de Noemi, uma juda\u00edta de Bel\u00e9m. Embora breve, com apenas quatro cap\u00edtulos, o livro possui uma riqueza muito grande de ensinamentos e se presta a v\u00e1rios tipos de interpreta\u00e7\u00e3o pela diversidade de temas nele contidos: a carestia; a morte dos var\u00f5es; a sa\u00edda de Cana\u00e3 em busca da sobreviv\u00eancia; as rela\u00e7\u00f5es entre nora e sogra; a pr\u00e1tica dos mandamentos; o levirato; o direito do resgate da terra; a preocupa\u00e7\u00e3o com a vi\u00fava e o estrangeiro; a bondade do homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher; a complementaridade entre o homem e a mulher; a virtude da mulher estrangeira etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro est\u00e1 estruturado, basicamente, em tr\u00eas partes: a) uma introdu\u00e7\u00e3o (Rt 1,1-5); b) um corpo (Rt 1,6\u20134,12); c) uma conclus\u00e3o (Rt 4,13-22). O corpo do livro transcorre em torno de decis\u00f5es, de di\u00e1logos, de a\u00e7\u00f5es e de rea\u00e7\u00f5es que movimentam a trama narrativa que vai evoluindo, de forma moderada e lenta, nas unidades ou epis\u00f3dios em cada cap\u00edtulo, at\u00e9 atingir um final desejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 A trajet\u00f3ria geogr\u00e1fica interage com a trajet\u00f3ria demogr\u00e1fica: de Bel\u00e9m para os campos de Moab, a morte e as chances de sobreviv\u00eancia predominaram sobre Noemi e sua fam\u00edlia; dos campos de Moab para Bel\u00e9m, a vida e as chances de sobreviv\u00eancia predominaram para Noemi e sua fam\u00edlia, alcan\u00e7aram os belemitas e, por Davi, todo o Israel. Rute, com a sua decis\u00e3o e a sua profiss\u00e3o de f\u00e9 no Deus de Noemi, foi o suporte dessa mudan\u00e7a ao lado de Booz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 Assim, Rt 1,1-5 corresponde a Rt 4,13-22: a situa\u00e7\u00e3o de morte foi revertida em vida; Rt 1,6-19 corresponde a Rt 4,1-12: a impossibilidade de um novo matrim\u00f4nio \u00e9 revertida para Rute e favorece Noemi; e Rt 1,20-22 corresponde a 3,1-18: a amargura de Noemi foi transformada em esperan\u00e7a. A hist\u00f3ria de Noemi alcan\u00e7ou um desfecho favor\u00e1vel gra\u00e7as \u00e0 decis\u00e3o de Rute em continuar com ela e gra\u00e7as a Booz, que veio ao encontro das necessidades de Noemi com generosidade e aten\u00e7\u00e3o pessoal por Rute. (FERNANDES, 2012, p. 23-5)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Rute mostra Deus encontrando-se com o homem no tempo e no espa\u00e7o, no movimento e no mist\u00e9rio que envolve a morte e a vida, fazendo-o participar do seu amor previdente e providente. Assim como Deus n\u00e3o estava ausente da vida de Noemi, pois atrav\u00e9s de Rute e do seu amor revelaram-se a sua presen\u00e7a e a sua a\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 ausente de cada ser humano, pois o seu amor salv\u00edfico continua agindo na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 A situa\u00e7\u00e3o inicial de pen\u00faria, agravada pela morte dos var\u00f5es e pela desesperan\u00e7a de Noemi, aparece confrontada com a situa\u00e7\u00e3o final. O desfecho foi se desenrolando, paulatinamente, na medida em que Rute foi assumindo o protagonismo ao lado de Noemi e de Booz, at\u00e9 alcan\u00e7ar o cl\u00edmax desejado no matrim\u00f4nio e no filho gerado que transformaram, completamente, a trag\u00e9dia em felicidade, isto \u00e9, a morte em vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 A solu\u00e7\u00e3o do problema veio acompanhada de uma revela\u00e7\u00e3o que, evidenciando Davi, ofereceu um elemento para que o livro de Rute ficasse em aberto e a narrativa pudesse prosseguir nos livros de Samuel e Reis (c\u00e2non da LXX\/Vulgata), mostrando que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, Deus \u00e9 quem interveio e transformou a pen\u00faria em abund\u00e2ncia. (FERNANDES, 2012, p. 106-7)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 1-2 Samuel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na B\u00edblia Hebraica, estes dois livros eram um s\u00f3 rolo. A divis\u00e3o em dois livros apareceu na LXX, a Vulgata seguiu e somente entre os s\u00e9culos XV-XVI dC tal divis\u00e3o passou para a B\u00edblia Hebraica. O arco temporal abarcado por 1-2 Samuel \u00e9 muito amplo: vai desde o nascimento de Samuel at\u00e9, praticamente, a morte do rei Davi (1070 \u2013 970 a.C.).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas pontos s\u00e3o centrais: o fim do per\u00edodo dos ju\u00edzes, as institui\u00e7\u00f5es do profetismo e da monarquia, com a unifica\u00e7\u00e3o das tribos sob o reinado de Davi. Samuel foi o primeiro profeta por institui\u00e7\u00e3o (cf. 1Sm 3,19-21) e foi a figura da grande transi\u00e7\u00e3o entre o fim do per\u00edodo dos ju\u00edzes e o in\u00edcio da monarquia. Na din\u00e2mica desses tr\u00eas pontos se contempla, facilmente, a estrutura de 1-2 Samuel: a) nascimento de Samuel (1Sm 1\u20133); b) a arca da alian\u00e7a e a sua perda para os filisteus (1Sm 4\u20137); c) Samuel unge Saul como rei, que, por sua vez, \u00e9 rejeitado por Deus (1Sm 8\u201315); d) Saul e Davi, persegui\u00e7\u00e3o deste e morte daquele (1Sm 16\u201331); e) efeitos da morte de Saul (2Sm 1); f) Davi \u00e9 eleito rei, reina sobre Hebron e conquista Jerusal\u00e9m (2Sm 2\u20138); g) disputas sobre a sucess\u00e3o ao trono (2Sm 9\u201320); h) suplementos (2Sm 21\u201324).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra forma de divis\u00e3o mais simples de 1-2 Samuel baseia-se nas personagens centrais: Samuel (1Sm 1\u20137); Samuel e Saul (1Sm 8\u201315); Saul e Davi (1Sm 16\u20132Sm 1); Davi (2Sm 2\u201320); \u00a0e suplementos (2Sm 21\u201324).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na base de 1-2 Samuel se encontram materiais antigos provindos das tradi\u00e7\u00f5es sobre Samuel, Saul, Davi e a arca da alian\u00e7a. Esses, inicialmente, tiveram origens locais, mas foram reunidos e elaborados sob a \u00f3tica teol\u00f3gica deuteron\u00f4mico-deuteronomista, a fim de dar respostas para diversas quest\u00f5es sobre os in\u00edcios da monarquia e os rumos que o antigo Israel tomou pela mudan\u00e7a na forma de governo. Nota-se que as tradi\u00e7\u00f5es com as quais 1-2 Samuel foi formado querem demonstrar as implica\u00e7\u00f5es e a intera\u00e7\u00e3o entre o profetismo e a monarquia, como duas for\u00e7as que ajudaram a compreender a sobreviv\u00eancia de Israel como na\u00e7\u00e3o e a sua autocompreens\u00e3o como povo de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1-2 Samuel se notam duplicatas e incompatibilidades: duas tradi\u00e7\u00f5es atestam a entrada de Davi na corte de Saul. Na primeira, Davi foi chamado como m\u00fasico de Saul e s\u00f3 depois foi posto como escudeiro do rei (cf. 1Sm 16,14-23), passando a acompanhar Saul no combate aos filisteus, pelo qual se distinguiu na luta contra Golias (cf. 1Sm 17,1-11). Na segunda, Davi \u00e9 um simples pastor, desconhecido de Saul e que, a pedido do pai Jess\u00e9, vai ao campo de batalha para saber not\u00edcias de seus irm\u00e3os. Nesse momento, luta, vence Golias e passa ao servi\u00e7o de Saul (cf. 1Sm 17,12-30; 17,55\u201318,2). Por duas vezes, Saul tenta matar Davi (cf. 1Sm 18,10-11; 19,8-10). Dois textos narram a popularidade de Davi (cf. 1Sm 18,12-16; 18,25-30); a sua fuga (cf. 1Sm 19,10-17 e 20,1\u201321,1) e a morte de Saul (cf. 1Sm 31,1-6 e 2Sm 1,1-16). Algumas \u201cfontes\u201d s\u00e3o citadas e usadas na forma\u00e7\u00e3o de 1-2 Samuel (cf. 2Sm 1,18; cf. 1Cr 29,29-30; 27,24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem tr\u00eas posturas sobre a monarquia: a) antimon\u00e1rquica, pela qual Deus rejeita a monarquia (cf. 1Sm 8,1-22; 10,17-25); b) pr\u00f3-mon\u00e1rquica, pela qual Deus revela as suas inten\u00e7\u00f5es a Samuel (cf. 1Sm 9,1\u201310,16); c) neutra, pela qual a monarquia \u00e9 dada a Saul pelos seus m\u00e9ritos de bravura (cf. 1Sm 11,1-15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de o g\u00eanero narrativo prevalecer em 1-2 Samuel, existem algumas composi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas: o c\u00e2ntico de Ana (cf. 1Sm 2,1-10); a elegia de Davi a Saul e J\u00f4natas (cf. 2Sm 1,17-27); o hino de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as de Davi (cf. 2Sm 22,2-51 paralelo ao Sl 18) e as \u00faltimas palavras de Davi (cf. 2Sm 23,1-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1-2 Samuel, o tema da alian\u00e7a \u00e9 importante. Deus fez uma alian\u00e7a com Davi, pautada na Lei e na promessa de estabilidade da casa e do reino dav\u00eddico, pelo qual surge o tema do messianismo r\u00e9gio (cf. 2Sm 7,1-17). Os filisteus figuram como principal inimigo e, assim, fica estabelecido o v\u00ednculo com o livro dos Ju\u00edzes, em particular os cap\u00edtulos que dizem respeito \u00e0s narrativas sobre Sans\u00e3o (Jz 13\u201316). O ciclo narrativo sobre Davi tem seu pren\u00fancio no livro de Rute. As figuras de Saul e Davi s\u00e3o antagonizadas em torno da figura de Samuel. Coube ao povo eleito e, nesse, aos eleitos para o bem do povo n\u00e3o ab-rogar para si poder, t\u00edtulos ou direito \u00e0 realeza. Do ponto de vista teol\u00f3gico, 1-2 Samuel aponta para as condi\u00e7\u00f5es do reinado de Deus com o seu povo. A iniciativa, que parecia ter origem no desejo do povo, pela l\u00f3gica interna partiu do pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 1-2 Reis<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1-2 Reis, tamb\u00e9m como no caso de 1-2 Samuel, formava um \u00fanico rolo na B\u00edblia Hebraica, denominado de <em>M<sup>e<\/sup>l\u0101k\u00eem<\/em>. A divis\u00e3o apareceu na LXX (\u03b2\u03b1\u03c3\u03b9\u03bb\u1f73\u03c9\u03bd \u03c4\u03c1\u1f77\u03c4\u03b7-\u03c4\u03b5\u03c4\u1f71\u03c1\u03c4\u03b7: 3\u00ba e 4\u00ba Reinos) e foi seguida pela Vulgata (<em>Liber regum tertius, quartus<\/em>). Somente entre os s\u00e9culos XV\u2013XVI dC, a divis\u00e3o em dois livros foi adotada na B\u00edblia Hebraica. Assim, 1-2 Samuel era 1-2 livros dos Reinos e 1-2 Reis, 3-4 livros dos Reinos. O arco temporal coberto por 1-2 Reis \u00e9 muito maior que 1-2 Samuel: vai desde a morte de Davi, com a consequente entroniza\u00e7\u00e3o de Salom\u00e3o, at\u00e9 a anistia dada por Evil Merodak ao rei Yeho\u0101k\u00een (970\u2013562 aC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1-2 Reis pode ser dividido em tr\u00eas partes: a hist\u00f3ria de Salom\u00e3o e seu reinado, que tem in\u00edcio no contexto da morte de Davi (1Rs 1\u201311); a hist\u00f3ria da monarquia dividida: Reino do Norte (Israel), at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o de Samaria, sua capital, ocorrida em 722\/21 aC (1Rs 12\u20132Rs 17), e Reino do Sul (Jud\u00e1), at\u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, sua capital, ocorrida em 587\/6 (2Rs 18\u201325). De 1Rs 12 a 2Rs 17, a hist\u00f3ria corre paralela entre os dois reinos. 2Rs 18\u201325 ocupa-se somente do Reino do Sul. Os reis de Jud\u00e1 s\u00e3o apresentados em tr\u00eas categorias: maus, porque id\u00f3latras: Abdias (cf. 1Rs 15,3.6), Acaz (cf. 2Rs 16,2-4), Manass\u00e9s (cf. 2Rs 21,2-9), Joacaz (2Rs 23,32); bons, porque, n\u00e3o sendo id\u00f3latras, permitiram o culto nos lugares altos: Asa (cf. 1Rs 15,11-13), Josaf\u00e1 (cf. 1Rs 22,43-49), Jo\u00e1z (cf. 2Rs 12,2b-3), Amasias (cf. 2Rs 14,4), Azarias (2Rs 15,3s), Joatam (2Rs 15,34); e \u00f3timos, porque, al\u00e9m de n\u00e3o terem sido id\u00f3latras, combateram a idolatria e seus focos: Ezequias (cf. 2Rs 18,3-5) e seu bisneto Josias (cf. 2Rs 22,2;23,25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A metodologia usada para apresentar cada um dos monarcas segue um esquema: entroniza\u00e7\u00e3o, dura\u00e7\u00e3o do reinado, idade do rei, um ju\u00edzo sobre a conduta, descri\u00e7\u00e3o da morte, sepultura e seu sucessor. Cada rei que sobe ao trono, seja do norte ou do sul, \u00e9 descrito em sincronia com o que j\u00e1 est\u00e1 no trono, seja do norte, seja do sul. Os reis de Jud\u00e1 receberam um tratamento diferenciado em rela\u00e7\u00e3o aos reis de Israel. A reda\u00e7\u00e3o foi feita em Jud\u00e1, por autores da corrente deuteron\u00f4mica-deuteronomista, dado que explica a raz\u00e3o desse tratamento diferenciado. O elemento central \u00e9 o ju\u00edzo que recai sobre o comportamento religioso de cada rei no tocante \u00e0s suas rela\u00e7\u00f5es com Deus, as outras divindades, o culto e a alian\u00e7a. No caso dos reis de Israel, o par\u00e2metro tomado foi o id\u00f3latra Jerobo\u00e3o. No caso dos reis de Jud\u00e1, o par\u00e2metro tomado foi o amado e fiel Davi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns reis receberam tratamento mais diferenciado, enquanto que de outros foram dadas apenas algumas not\u00edcias. O autor desejou mostrar se o rei foi fiel ou infiel a Deus e quais as consequ\u00eancias diretas das suas atitudes. Nesse sentido, 1-2 Reis atesta uma \u201chist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o\u201d em andamento, na qual os planos salv\u00edficos de Deus estavam se concretizando: como b\u00ean\u00e7\u00e3os para os fi\u00e9is e como maldi\u00e7\u00e3o para os infi\u00e9is, base da teologia da retribui\u00e7\u00e3o. O par\u00e2metro \u00e9 a alian\u00e7a e, com rela\u00e7\u00e3o a essa, o reino de Jud\u00e1, isto \u00e9, dos descendentes de Davi, se tornou deposit\u00e1rio das promessas messi\u00e2nicas (cf. 2Sm 7,1-17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digno de nota, al\u00e9m da aten\u00e7\u00e3o dada aos reis, \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o concedida aos profetas: Elias (1Rs 17\u201319.21; 2Rs 1); Eliseu (2Rs 2\u201313); Isa\u00edas (2Rs 19,5\u201320,19). Al\u00e9m desses, muitos outros s\u00e3o citados (cf. 1Rs 13,18; 20,13; 22,8). O termo \u201cprofeta\u201d, no singular ou plural, ocorre 83 vezes em 1-2 Reis. Pode-se afirmar que estes dois livros servem de contexto sociorreligioso para apresentar a atua\u00e7\u00e3o dos profetas pr\u00e9-ex\u00edlicos: Oseias, Am\u00f3s, Isa\u00edas, Miqueias, Sofonias, Jeremias. Reside, nesta din\u00e2mica prof\u00e9tica, a certeza que Deus atuou na hist\u00f3ria de modo particular por palavras e a\u00e7\u00f5es conexas entre si, realizadas pelos profetas que enviou. Por meio deles, exortando e amea\u00e7ando, se revelou a fidelidade e a infidelidade das lideran\u00e7as e do povo em geral \u00e0 alian\u00e7a. Em confronto com a monarquia, a presen\u00e7a e atua\u00e7\u00e3o de profetas em 1-2 Reis atestavam que a Palavra de Deus era mais potente que qualquer manobra pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas \u201cfontes\u201d foram indicadas em 1-2 Reis. Por exemplo: \u201co livro dos atos de Salom\u00e3o\u201d (cf. 1Rs 11,41); \u201co livro dos anais dos reis de Israel\u201d (cf. 1Rs 14,19); \u201co livro dos anais dos reis de Jud\u00e1\u201d (cf. 1Rs 14,29). Dentre todos esses livros, existe um em particular, \u201co livro da Lei\u201d, que fora encontrado no templo de Jerusal\u00e9m, durante os trabalhos de restaura\u00e7\u00e3o promovidos pelo piedoso rei Josias (cf. 2Rs 22,8). Por essas indica\u00e7\u00f5es, pode-se dizer que 1-2 Reis teve a sua origem no per\u00edodo pr\u00e9-ex\u00edlico, continuou sendo ampliado durante o ex\u00edlio (cf. 2Rs 25,25-30) e alcan\u00e7ou a sua forma final durante o per\u00edodo persa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 1-2 Cr\u00f4nicas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia Hebraica denomina 1-2 Cr\u00f4nicas de <em>sep\u0113r dibr\u0113 hayyam\u00eem<\/em>: \u201clivro das coisas di\u00e1rias\u201d ou \u201clivro dos fatos cotidianos\u201d. A LXX os denomina de \u03c0\u03b1\u03c1\u03b1\u03bb\u03b5\u03b9\u03c0\u03bf\u03bc\u1f73\u03bd\u03bf\u03bd \u03c0\u03c1\u1ff6\u03c4\u03bf\u03bd \u03b4\u03b5\u1f7b\u03c4\u03b5\u03c1\u03bf\u03bd (<em>Paraleipom\u00e9n\u00f4m primeiro e segundo<\/em>), isto \u00e9, Primeiro e Segundo livro das coisas omitidas ou n\u00e3o transmitidas. J\u00e1 o t\u00edtulo de Cr\u00f4nicas deriva de S\u00e3o Jer\u00f4nimo que os designou <em>Chronicon totius divinae historiae<\/em>, \u201cCr\u00f4nica de toda a hist\u00f3ria divina\u201d. Como 1-2 Samuel e 1-2 Reis, tamb\u00e9m 1-2 Cr\u00f4nicas era, originalmente, um \u00fanico rolo. A divis\u00e3o foi feita na LXX, seguida pela Vulgata e nos s\u00e9culos XV\u2013XVI dC tal divis\u00e3o passou para a B\u00edblia Hebraica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de 1-2 Cr\u00f4nicas podem ser divididos em quatro partes: a) de Ad\u00e3o a Davi (1Cr 1\u201310): listas geneal\u00f3gicas, mostrando que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 universal. Todos os descendentes de Ad\u00e3o esperam a realiza\u00e7\u00e3o das promessas feitas a Abra\u00e3o. Saul foi um precursor de Davi, mas n\u00e3o foi um rei que agradou a Deus como Davi (cf. 1Cr 10,13); b) Davi, al\u00e9m de rei, \u00e9 legislador e o fundador do culto celebrado no templo de Jerusal\u00e9m (1Cr 11\u201329): o Reino de Davi (1Cr 11\u201314), a arca na cidade de Davi (1Cr 15\u201320), a prepara\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do templo (1Cr 21\u201329); c) Salom\u00e3o foi o sucessor de Davi, a quem tocou a constru\u00e7\u00e3o do templo (2Cr 1\u20139); d) os reis de Jud\u00e1 s\u00e3o os leg\u00edtimos sucessores de Davi (2Cr 10\u201336).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande preocupa\u00e7\u00e3o ou objetivo que se encontra em 1-2 Cr\u00f4nicas \u00e9 manter viva no povo a consci\u00eancia de ser eleito. A experi\u00eancia do ex\u00edlio na Babil\u00f4nia n\u00e3o retirou nem alterou o sentido e o valor da elei\u00e7\u00e3o. Deus \u00e9 fiel, continua amando o seu povo e requer fidelidade e obedi\u00eancia \u00e0 sua Lei. A figura de Davi \u00e9 central, pois a ele foi feita, pela boca do profeta Natan, a promessa de que sua dinastia subsistiria (cf. 1 Cr 17,1-15). Os reis de Israel s\u00e3o ileg\u00edtimos e ficaram fora do plano de Deus, raz\u00e3o pela qual a sua hist\u00f3ria n\u00e3o foi narrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Visto que durante e depois do ex\u00edlio na Babil\u00f4nia a monarquia n\u00e3o continuou, foram acentuadas as realiza\u00e7\u00f5es religiosas e cultuais de Davi, rei ideal e segundo a vontade de Deus (a arca em Jerusal\u00e9m, o desejo do templo, a elabora\u00e7\u00e3o dos Salmos). O culto tornou-se o forte elemento de uni\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o do povo eleito (cf. 2Cr 2\u20137). Guardar o culto, institu\u00eddo por Davi, tornou-se o ato preservador da identidade do povo. Assim, a comunidade p\u00f3s-ex\u00edlica, cultuando Deus como no tempo de Davi, poderia esperar um novo Davi: o Messias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos reis julgados bons em 1-2 Reis, tudo que possa depor contra eles n\u00e3o \u00e9 referido (adult\u00e9rio de Davi, idolatria de Salom\u00e3o na velhice, crueldade de Manass\u00e9s etc). A hist\u00f3ria da monarquia contada em 1-2 Cr\u00f4nicas \u00e9 um relato ideal da dinastia dav\u00eddica, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se ocupou com os reis de Israel. Com isso, n\u00e3o foi dado espa\u00e7o para os ciclos de Elias (cf. 2Rs 17,1\u20132Rs 1) e Eliseu (cf. 2Rs 2\u201313). 2 Cr\u00f4nicas concluiu-se com o edito de Ciro, pelo qual n\u00e3o apenas permitiu que os judeus voltassem para o seu pa\u00eds, mas declarou-se encarregado pelo Deus dos judeus para lhe reconstruir o templo em Jerusal\u00e9m (cf. 2Cr 36,22-23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1-2 Cr\u00f4nicas transparece a teologia do Reino de Deus centrada no ideal teocr\u00e1tico. A base desse \u00e9 a alian\u00e7a de Deus com Davi (cf. 1Cr 17,13-14). Na alian\u00e7a com Davi, o povo se une a Deus e o Reino de Deus est\u00e1 lan\u00e7ado na terra, destinado a ser universal. Por isso, sob Davi povos estrangeiros e at\u00e9 eg\u00edpcios est\u00e3o congregados. O rei, o culto e o santu\u00e1rio s\u00e3o como uma \u00fanica realidade sagrada. Por isso, o rei \u00e9 quem determina o funcionamento do templo que ser\u00e1 constru\u00eddo pelo seu sucessor. No templo est\u00e1 o trono sobre o qual Deus reina sobre Israel e os povos do mundo inteiro, derramando as suas b\u00ean\u00e7\u00e3os. Tudo gira em torno do templo e o seu culto \u00e9 celebrado com salmos, acompanhados por diferentes instrumentos musicais (cf. 2Cr 5,11-14; 6,6; 9,25-30; 30,21). Israel \u00e9 o povo da alian\u00e7a, uma comunidade cultual e consagrada, um \u201creino de sacerdotes\u201d (cf. Ex 19,6). Deus \u00e9 santo, raz\u00e3o pela qual pode manifestar o seu amor e o seu ci\u00fame pelo seu povo. Quando o povo \u00e9 fiel ao reino dav\u00eddico, Deus o defende e protege, mas o castiga paternalmente quando despreza o seu amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se compara 1-2 Cr\u00f4nicas com 1-2 Sm e 1-2 Rs, percebe-se que a hist\u00f3ria foi vista sob um forte ponto de vista teol\u00f3gico: universalismo e continuidade da hist\u00f3ria (1Cr 1\u20139); Davi \u00e9 tido desde o in\u00edcio como rei das doze tribos (1Cr 11), enquanto que em 2 Sm 5,1-5 por primeiro reinou sobre Jud\u00e1 e Benjamim, e s\u00f3 depois de sete anos passou a reinar sobre as tribos do norte; 1-2 Cr\u00f4nicas procurou evitar falar das guerras e das etapas pol\u00edticas do reinado de Davi, para enfatizar a sua figura como legislador, em particular o seu empenho para organizar o culto e a constru\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m; 2Sm 24 afirma que foi a ira de Deus que incitou Davi a recensear o povo. J\u00e1 em 1Cr 21, foi Sat\u00e3 quem incitou Davi; 2Sm 24,24-25 afirma que Davi pagou cinquenta ciclos de prata pela eira e pelos bois para construir um altar para Deus. J\u00e1 em 1Cr 21,25-27, Davi pagou seiscentos ciclos de ouro e apareceu um fogo do c\u00e9u e um anjo; 1Cr 22 refere-se com \u00eanfase aos preparativos para a constru\u00e7\u00e3o do templo; 2Cr 29\u201331; 34\u201335 enfatizam a reforma religiosa empreendida por Ezequias e Josias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>8 Esdras<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro recebe o nome do personagem protagonista, apesar de sua entrada em cena n\u00e3o ocorrer antes do cap\u00edtulo s\u00e9timo. Esdras foi filho de Sera\u00edas, que pertencia \u00e0 fam\u00edlia do sumo sacerdote Aar\u00e3o, e foi descrito como sacerdote zeloso e profundo conhecedor da lei de Mois\u00e9s (cf. Esd 7,1-6.12.21). O livro de Esdras, originalmente, formava uma \u00fanica obra com o livro de Neemias. A subdivis\u00e3o em dois livros foi feita pelos tradutores da LXX e somente na Idade M\u00e9dia foi assumida na B\u00edblia hebraica. Ambos os livros podem ser lidos como continua\u00e7\u00e3o de 2 Cr\u00f4nicas. Al\u00e9m do livro can\u00f4nico, existem outros cinco livros com o t\u00edtulo de Esdras, mas s\u00e3o ap\u00f3crifos. Algumas passagens est\u00e3o escritas em aramaico (Esd 4,8\u20136,18; 7,12-26), l\u00edngua oficial do imp\u00e9rio persa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Esdras foi provavelmente composto em Jerusal\u00e9m no s\u00e9culo IV aC, e narra o regresso de um primeiro grupo de judeus exilados para Jerusal\u00e9m (Esd 1\u20132), a fim de reconstruir o templo que fora destru\u00eddo pelos babil\u00f4nios em 587 aC (Esd 3\u20136). Esta primeira fase pode ser situada entre os anos 520-515 aC e aconteceu sob o comando de Zorobabel, que pertencia \u00e0 estirpe de Davi, e Josu\u00e9, filho de Josedec, que era de linhagem sacerdotal. O livro de Ageu e a primeira parte do livro de Zacarias, cap\u00edtulos 1\u20138, ajudam a compreender e completar esse momento hist\u00f3rico. O comando de Esdras, por\u00e9m, aconteceu quase um s\u00e9culo depois do regresso do primeiro grupo. Com Esdras, um segundo grupo de exilados regressa para Jerusal\u00e9m (Esd 7\u20138), a fim de reorganizar a vida social e cultual. Para realizar a sua miss\u00e3o, Esdras enfrentou as quest\u00f5es relativas ao culto e aos matrim\u00f4nios mistos, exigindo a estrita observ\u00e2ncia da lei de Mois\u00e9s (Esd 9\u201310).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a renova\u00e7\u00e3o religiosa da comunidade judaica, em particular de Jerusal\u00e9m e do seu templo, foi o principal objetivo da miss\u00e3o de Esdras. Essa renova\u00e7\u00e3o teve sua base nas promessas de Deus, segundo as quais uma nova e decisiva etapa teria in\u00edcio: a passagem do castigo \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, pois a miseric\u00f3rdia de Deus triunfou como seu principal ato de ju\u00edzo sobre a infidelidade \u00e0 alian\u00e7a mosaica. Com Esdras, como se fosse um novo Mois\u00e9s, ocorreu a renova\u00e7\u00e3o sociorreligiosa que passou a ser chamada de juda\u00edsmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>9 Neemias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dito anteriormente, o livro de Neemias formava uma \u00fanica obra com Esdras e, tamb\u00e9m, passou a ser denominado pelo seu principal personagem. Neemias, nome que significa \u201co Senhor consola\u201d, foi filho de Hacalias e, como se depreende do livro, foi um judeu muito piedoso e zeloso pelas tradi\u00e7\u00f5es. Viveu na cidade de Susa e foi um homem da corte, pois servia o rei Artaxerxes I Longimano (465-423 aC) como seu copeiro-mor, um alto e importante cargo para a \u00e9poca. \u00c9 no contexto do seu servi\u00e7o ao rei que tem in\u00edcio a trama do livro. A motiva\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o se desenvolveu como uma embaixada do rei em Jerusal\u00e9m, a fim de que fossem reconstru\u00eddos os t\u00famulos dos antepassados e as muralhas da cidade. No fundo, essa a\u00e7\u00e3o foi um passo decisivo para se devolver dignidade \u00e0 cidade e aos seus habitantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neemias teve ins\u00edgnias de governador e o livro narra a sua miss\u00e3o em Jerusal\u00e9m em duas etapas. Na primeira, restaurou as muralhas de Jerusal\u00e9m para salvaguardar a seguran\u00e7a da cidade e, veemente, se op\u00f4s \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos mais pobres pelos mais abastados. Na segunda, tomou s\u00e9rias medidas para combater as desordens sociais, os matrim\u00f4nios mistos, e os desvios cultuais, com o estabelecimento do d\u00edzimo a ser dado aos levitas e a estrita observ\u00e2ncia do s\u00e1bado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro trata da restaura\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e, em particular, da reconstru\u00e7\u00e3o das muralhas (Ne 1\u20137). Ao lado de Esdras, foi feita a leitura da lei de Mois\u00e9s, base para a penit\u00eancia e para a renova\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a do povo com Deus (Ne 8\u201310). Enfim, trata da restaura\u00e7\u00e3o da ordem social da comunidade judaica e da ulterior a\u00e7\u00e3o de Neemias (Ne 11\u201313).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota-se que o livro foi escrito tendo por base o que se poderia chamar \u201cmem\u00f3rias de Neemias\u201d, pois muita coisa aparece escrita em primeira pessoa (cf. Ne 1\u20137; 10; 12,27-43; 13). Ao lado disso, existem listas dos habitantes de Jud\u00e1-Jerusal\u00e9m (Ne 11) e \u201cmem\u00f3rias de Esdras\u201d (Ne 8\u20139). A forma final do livro deu-se no s\u00e9culo IV aC em Jerusal\u00e9m. Neemias juntamente com Esdras s\u00e3o considerados os fundadores do juda\u00edsmo, no qual se encontra a nova modalidade sociorreligiosa que passou a caracterizar o povo repatriado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10 Tobias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Tobias, ao que tudo indica, foi originalmente escrito em hebraico ou aramaico. Esta afirma\u00e7\u00e3o se fundamenta nos manuscritos encontrados em Qumran, dentre os quais estava um intitulado <em>s\u0113per dibr\u00ea t\u014dbit<\/em>, isto \u00e9, \u201clivro das palavras\/acontecimentos de Tobit\u201d. Contudo, esse livro foi preservado apenas atrav\u00e9s das vers\u00f5es gregas: na LXX, numa recens\u00e3o breve, preservada no C\u00f3dice Vaticano e no C\u00f3digo Alexandrino, e numa recens\u00e3o mais longa, preservada no C\u00f3digo Sina\u00edtico. A nova Vulgata segue uma forma interm\u00e9dia, do C\u00f3dice Vercellensis (latino). Tobias \u00e9 um livro deuterocan\u00f4nico e n\u00e3o pertence ao c\u00e2non hebraico nem ao c\u00e2non protestante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, Tobias era filho de Tobit, um judeu piedoso que fora deportado para N\u00ednive e viveu na di\u00e1spora. Tobit foi um judeu irrepreens\u00edvel perante a lei, mesmo diante das v\u00e1rias adversidades e persegui\u00e7\u00f5es. O livro, al\u00e9m das vicissitudes e percal\u00e7os de Tobit, que ficou cego, narra, igualmente, os sofrimentos de Sara, uma parente que vivia em Ecb\u00e1tana. Ent\u00e3o, na narrativa, Tobias passou a ter um importante papel, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao pai, cumprindo fielmente o quarto mandamento, como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Sara, que se tornou sua esposa. A din\u00e2mica interna do livro lembra, fortemente, os relatos patriarcais contidos no livro do G\u00eanesis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro s\u00e3o narrados: os atos de benefic\u00eancia, a cegueira de Tobit, o sofrimento de Sara, que n\u00e3o consegue finalizar um matrim\u00f4nio, e as ora\u00e7\u00f5es que ambos elevam a Deus, suplicando aux\u00edlio (Tb 1\u20133). Narra a viagem de Tobias de N\u00ednive a Ecb\u00e1tana, a fim de resgatar uma d\u00edvida. Ao longo dessa viagem, Tobias passou a ser acompanhado por um \u201cparente\u201d que, na verdade, era o anjo Rafael, nome que significa \u201ccura de Deus\u201d, pelo qual Tobias conseguiu livrar Sara do seu mal e seu pai da cegueira (Tb 4\u201312). Na \u00faltima parte, Tobit elevou a Deus uma a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, e Tobias, ap\u00f3s a morte de seus pais, mudou-se com Sara para Ecb\u00e1tana, a fim de cuidar dos sogros at\u00e9 a morte deles. A \u00faltima informa\u00e7\u00e3o do livro descreve que Tobias viu o que foi feito aos ninivitas e elevou a Deus uma a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela sua justi\u00e7a (Tb 13\u201314).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Tobias pode ser classificado como um relato, um conto ou uma novela edificante que foi escrito em forma hist\u00f3rica. Possui um cunho doutrinal e moral muito forte, rico em senten\u00e7as de \u00edndole sapiencial e que se interessa em demonstrar que Deus n\u00e3o abandona o justo em suas dores e sofrimentos. O ensinamento sobre os anjos e os dem\u00f4nios, presente no livro, evidencia, igualmente, o desenvolvimento do pensamento religioso do juda\u00edsmo p\u00f3s-ex\u00edlico, muito pr\u00f3ximo da literatura apocal\u00edptica. A fidelidade \u00e0 lei, a const\u00e2ncia na ora\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica das obras de miseric\u00f3rdia (sepultar os mortos, dar de comer ao faminto, dar de beber ao sedento, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar esmola aos necessitados) evidenciam a justi\u00e7a como amor ao pr\u00f3ximo e servem para fortalecer a f\u00e9 diante e durante as duras prova\u00e7\u00f5es da vida. As dificuldades narradas no livro, enquadrando-o num largo contexto de persegui\u00e7\u00f5es, permitem situar a sua forma final entre os s\u00e9culos III-II aC, no quadro das novas persegui\u00e7\u00f5es ocorridas no per\u00edodo hel\u00eanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11 Judite<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este livro, em si, n\u00e3o \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o exata de um per\u00edodo ou de fatos hist\u00f3ricos, mas possui um forte enfoque did\u00e1tico, como no caso do livro de Tobias. O mesmo se aplica no que diz respeito ao texto, pois deve ter existido um prov\u00e1vel original hebraico que n\u00e3o foi preservado. Existe o texto grego da LXX em tr\u00eas recess\u00f5es e uma reelabora\u00e7\u00e3o hebraica bem posterior ao escrito. Os c\u00f3dices B, S e A s\u00e3o considerados os melhores, enquanto que o c\u00f3dice Vaticano grego Regiense depende da Vetus Latina. O texto da Vulgata \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o que Jer\u00f4nimo fez, provavelmente, de um texto aramaico hoje perdido. O t\u00edtulo do livro adv\u00e9m da sua protagonista, Judite, que significa judia, uma jovem vi\u00fava que viveu em Bet\u00falia, e que, por sua coragem e total confian\u00e7a em Deus, conseguiu salvar o seu povo do exterm\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro narra a vit\u00f3ria dos ass\u00edrios sobre os povos circunvizinhos que n\u00e3o atenderam ao chamado da coaliz\u00e3o (Jd 1\u20133). Holofernes \u00e9 o imponente general encarregado de conduzir uma campanha militar para punir os vassalos infi\u00e9is, dentre os quais est\u00e3o os judeus. No caminho de Israel, por\u00e9m, estavam os judeus que viviam em Bet\u00falia, que foi assediada. Dali os ex\u00e9rcitos seguiriam para Jerusal\u00e9m (Jd 4\u20137). Ante a amea\u00e7a, Judite surgiu destemida e exortou o povo a manter a sua confian\u00e7a em Deus (Jd 8\u20139). Para salvar o seu povo, Judite usou de ast\u00facia e estrat\u00e9gia feminina, conseguindo se infiltrar no acampamento inimigo e degolar Holofernes, salvando, dessa forma, o povo judeu de um grande exterm\u00ednio (Jd 10\u201315). Uma a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as foi feita pela vit\u00f3ria e um c\u00e2ntico foi elevado em reconhecimento do valor e das virtudes de Judite, que, antes de morrer com uma idade avan\u00e7ada, distribuiu os seus bens entre os parentes de seu falecido marido e entre os seus familiares (Jd 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, por um lado, existem for\u00e7as contr\u00e1rias e hostis ao povo de Deus, por outro lado, a ajuda salv\u00edfica surge atrav\u00e9s dos que a Ele se dirigem e vem como resposta \u00e0 ora\u00e7\u00e3o confiante. Nesse sentido, a ajuda divina n\u00e3o dispensa a participa\u00e7\u00e3o humana e se evidencia a soberania universal de Deus tanto em rela\u00e7\u00e3o ao \u00a0seu povo como em rela\u00e7\u00e3o aos outros povos. O conte\u00fado do livro de Judite aproxima-se muito do livro dos Ju\u00edzes. De fato, os feitos dessa piedosa e imponente judia s\u00e3o narrados como os feitos dos ju\u00edzes maiores que agiram em prol da liberta\u00e7\u00e3o e conseguiram devolver a paz para os filhos de Israel (cf. Jd 16,25).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A aus\u00eancia de fundamenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para os fatos narrados no livro de Judite n\u00e3o diminui o seu valor tanto narrativo como liter\u00e1rio. Sobressai a vontade de mostrar como a prote\u00e7\u00e3o divina pode acontecer n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de homens fortes e robustos, mas por meio de uma mulher que sabe usar a sua beleza com a devida ast\u00facia. \u00c9 uma exalta\u00e7\u00e3o, inclusive, do papel que uma vi\u00fava pode desempenhar a favor de todo o povo. Nesse sentido, Judite, a vi\u00fava, e Ester, a \u00f3rf\u00e3, demonstram que Deus interv\u00e9m utilizando-se dos meios humanos menos aptos. A ast\u00facia de Judite n\u00e3o contradiz a moral, alegando que os fins justificam os meios, pois os efeitos positivos conseguidos est\u00e3o de acordo com o direito \u00e0 leg\u00edtima defesa. Na din\u00e2mica b\u00edblica, Judite encarna a figura da mulher que esmaga a cabe\u00e7a da serpente (cf. Gn 3,15), vencendo Holofernes, que encarna o antigo inimigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12 Ester<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado do livro de Rute e de Judite, o livro de Ester encerra uma perspectiva teol\u00f3gica que marca, profundamente, o proeminente papel de mulheres na constru\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o do povo eleito. A denomina\u00e7\u00e3o do livro tamb\u00e9m deriva da sua protagonista, descrita com tra\u00e7os de beleza e ornada de grandes virtudes, em particular a sabedoria. Digno de ressalva \u00e9 o fato de Ester ser uma \u00f3rf\u00e3 que, ap\u00f3s a morte de seus pais, fora criada por um primo, um judeu piedoso chamado Mardoqueu. Tanto o nome Ester (<em>Ishtar<\/em>) como Mardoqueu (<em>Marduk<\/em>) s\u00e3o de origem babil\u00f4nica. O nome Ester poderia ser de origem persa <em>stareh <\/em>que significa \u201cestrela\u201d. Hadassa \u00e9 o nome hebraico de Ester e significa \u201cmurta\u201d. Mardoqueu possui, ao lado de Ester, um papel importante no livro, pois representa o forte v\u00ednculo de Ester n\u00e3o apenas com o seu povo, mas com a f\u00e9 no Deus de seus pais, conforme a ora\u00e7\u00e3o que ela fez (cf. Est 4,17k-z).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dito na introdu\u00e7\u00e3o, o livro de Ester integra o bloco dos Escritos e est\u00e1 entre os cinco <em>m<sup>e<\/sup>gill\u00f4t<\/em>. O texto hebraico \u00e9 mais breve que o texto da Septuaginta (seguida pela Vulgata). O texto em grego cont\u00e9m cerca de 107 vers\u00edculos a mais que o texto hebraico e esses vers\u00edculos foram inseridos de um modo muito l\u00f3gico no texto. O livro em hebraico foi escrito por um judeu da di\u00e1spora oriental, provavelmente entre os s\u00e9culos IV\u2013III aC, mas bem informado sobre o que acontecia na corte persa. J\u00e1 os acr\u00e9scimos em grego podem ser colocados entre os anos 150-100 aC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro de Ester pode ser subdividido em cinco partes: a) na primeira parte (Est 1\u20132), encontra-se uma ambienta\u00e7\u00e3o, em que a rainha Vasti caiu em desgra\u00e7a pelo descaso feito \u00e0 ordem do rei e, no seu lugar, ap\u00f3s uma sele\u00e7\u00e3o, Ester se tornou rainha. Enquanto isso, Mardoqueu descobriu a exist\u00eancia de um compl\u00f4 contra o rei, que na narrativa \u00e9 denominado de Assuero e muito provavelmente seria Xerxes I (486-465 aC); b) na segunda parte (Est 3), Am\u00e3 se torna um alto dignit\u00e1rio do rei e, por inveja de Mardoqueu, projeta uma estrat\u00e9gia para exterminar os judeus que vivem em qualquer parte do imp\u00e9rio, com a acusa\u00e7\u00e3o de que, como Mardoqueu, rejeitam seguir a religi\u00e3o oficial do imp\u00e9rio persa; c) na terceira parte (Est 4\u20137), Mardoqueu pediu a Ester que interviesse junto ao rei para livrar o povo judeu do exterm\u00ednio. Ester, ap\u00f3s certa relut\u00e2ncia, decidiu colocar a pr\u00f3pria vida em risco e, com grande ast\u00facia, conseguiu deflagrar diante de Assuero os planos de Am\u00e3 contra o seu povo. Na forca que Am\u00e3 havia preparado para Mardoqueu, ele mesmo foi enforcado; d) na quarta parte (Est 8\u20139), devido \u00e0 impossibilidade de se reverter o decreto do rei emanado por Am\u00e3, os judeus receberam o direito de se defender contra os que seguissem tal decreto. \u00c9 neste contexto que aconteceu a institui\u00e7\u00e3o da festa de Purim, que quer dizer \u201csortes\u201d; e) na quinta parte (Est 10), Mardoqueu recebe grandes elogios e Assuero lhe concede uma alta dignidade, passando a ser o cortes\u00e3o mais importante, estando-lhe acima somente o pr\u00f3prio rei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo particular, o objetivo central do livro de Ester parece ser o de querer explicar a origem e o significado da festa de Purim. Contudo, sobressaem muitos pontos teol\u00f3gicos de grande relev\u00e2ncia: a piedade, a ora\u00e7\u00e3o, o amor pelas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, a confian\u00e7a em Deus e, sem d\u00favida alguma, um forte nacionalismo. Apesar disso, esse nacionalismo acentuado no livro servia como uma forma de garantir a sobreviv\u00eancia da identidade judaica dos que viviam fora da terra santa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>13 1-2 Macabeus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1-2 Macabeus s\u00e3o dois livros considerados independentes, nota-se que o estilo liter\u00e1rio uado em cada um \u00e9 bem diferente. Contudo, a resist\u00eancia ao helenismo, chefiada pela fam\u00edlia macabaica, \u00e9 o dado forte e comum entre os dois livros. Ant\u00edoco IV Epifanes quis impor o helenismo \u00e0 for\u00e7a, desencadeando persegui\u00e7\u00f5es contra o juda\u00edsmo; por outro lado, imp\u00f4s-se a for\u00e7a religiosa anti-helen\u00edstica encabe\u00e7ada pela fam\u00edlia macabaica. Em 1 Macabeus, a resist\u00eancia \u00e9 acentuadamente b\u00e9lica, j\u00e1 em 2 Macabeus, al\u00e9m de b\u00e9lica, a resist\u00eancia tamb\u00e9m acontece atrav\u00e9s da aceita\u00e7\u00e3o do mart\u00edrio, elemento fundamental para se introduzir a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Macabeus cobre um arco temporal de aproximadamente quarenta anos: desde a ascens\u00e3o de Ant\u00edoco IV Epifanes (175 aC) at\u00e9 a morte do sumo sacerdote Sim\u00e3o (134 aC). Foi escrito, originalmente, em hebraico entre os anos 100\u201364 aC, mas foi preservado apenas no grego da LXX que o denomina \u039c\u03b1\u03ba\u03ba\u03b1\u03b2\u03b1\u03af\u03c9\u03bd \u03c0\u03c1\u1ff6\u03c4\u03bf\u03bd, seguido pela Vulgata <em>Primus Machab\u00e6orum<\/em>. Foi escrito, provavelmente, em Jerusal\u00e9m, com forte acentua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e apolog\u00e9tica. A combina\u00e7\u00e3o desses dois elementos n\u00e3o foi muito feliz. Se, por um lado, o valor hist\u00f3rico \u00e9 digno de cr\u00e9dito pelos dados cronol\u00f3gicos e topogr\u00e1ficos que possui, por outro lado, o seu car\u00e1ter apolog\u00e9tico est\u00e1 marcado por um nacionalismo exagerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem defender algum ponto doutrinal concreto ou li\u00e7\u00f5es morais diretas, o autor se concentrou nos elogios aos piedosos (hassideus, que deram in\u00edcio, provavelmente, ao grupo dos ess\u00eanios), por terem perseguido e combatido os interesses pol\u00edticos dos sel\u00eaucidas, encabe\u00e7ados por Ant\u00edoco IV Epifanes (175-163 aC). A f\u00e9 ardorosa da fam\u00edlia macabaica, por\u00e9m, elucida a confian\u00e7a em Deus, sem que seja citado, e na sua provid\u00eancia (cf. 1Mc 2,61; 3,18-20; 4,10-12; 9,46), sem a qual n\u00e3o teria acontecido a liberta\u00e7\u00e3o. A observ\u00e2ncia da Lei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Macabeus pode ser dividido em quatro partes: a) descri\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o religiosa e pol\u00edtica durante o governo de Ant\u00edoco IV Epifanes, que levou \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o dos judeus chefiados por Matatias (1Mc 1\u20132); b) lutas e vit\u00f3rias de Judas Macabeu contra os inimigos e relato da sua morte gloriosa (1Mc 3,1\u20139,22); c) lutas sob o comando de J\u00f4natas e a sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o (1Mc 9,23\u201312,54); d) Sim\u00e3o assume o governo, a Judeia se torna aut\u00f4noma, trazendo paz e bem-estar para o povo (1Mc 13\u201316). Os fatos e feitos dos tr\u00eas filhos de Matatias s\u00e3o apresentados segundo uma ordem cronol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Macabeus cobre apenas quinze anos da hist\u00f3ria macabaica (175\u2013160 aC). Foi escrito, provavelmente, no Egito, em grego, entre os anos 130\u2013100 aC. A LXX o denominou \u039c\u03b1\u03ba\u03ba\u03b1\u03b2\u03b1\u03af\u03c9\u03bd \u03b4\u03b5\u1f7b\u03c4\u03b5\u03c1\u03bf\u03bd, seguido pela Vulgata <em>Secundus Machab\u00e6orum<\/em>. N\u00e3o \u00e9 uma obra in\u00e9dita, mas um resumo de uma obra em cinco volumes de Jas\u00e3o de Cirene (cf. 2Mc 2,19-32), um judeu piedoso da di\u00e1spora cirenaica. Uma obra que n\u00e3o foi conservada. Os pontos centrais dessa obra teriam sido: a santidade e inviolabilidade do templo de Jerusal\u00e9m (cf. 2Mc 3,1-40); intrigas dos \u00edmpios, ira de Deus que pesa sobre Israel e os m\u00e1rtires que expiam o pecado do povo (cf. 2Mc 4\u20137); a ira deu lugar \u00e0 miseric\u00f3rdia pela vit\u00f3ria sobre os \u00edmpios, com a consequente dedica\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m (cf. 2Mc 8,1\u201310,9); o templo ficou livre de profana\u00e7\u00e3o interna e externa (cf. 2Mc 14,1\u201315,37). O estilo adotado \u00e9 exuberante: as lutas, os atos heroicos de Judas Macabeu e o testemunho de f\u00e9 de alguns m\u00e1rtires foram contados com riqueza de detalhes (cf. 2Mc 6,18-31; 7,1-42); mas, tamb\u00e9m, orat\u00f3rio, pois procura agradar, mover e persuadir o leitor. As personagens s\u00e3o descritas de forma antit\u00e9tica, \u00edmpios (antip\u00e1ticos) e justos (simp\u00e1ticos) est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o. A crueldade dos \u00edmpios sobre os m\u00e1rtires \u00e9 descrita com grande realismo (cf. 2Mc 6,18\u20137,42).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Macabeus pode ser dividido em quatro partes: a) cartas dos judeus de Jerusal\u00e9m aos irm\u00e3os da di\u00e1spora alexandrina no Egito e pr\u00f3logo (2Mc 1\u20132); b) fatos ocorridos durante o governo de Seleuco IV Filopatro (2Mc 3,1\u20134,6); c) press\u00e3o do helenismo e persegui\u00e7\u00e3o durante o governo de Ant\u00edoco IV Epifanes (2Mc 4,7\u201310,9); d) lutas de Judas Macabeu contra Ant\u00edoco V Eup\u00e1tor e contra Dem\u00e9trio I Soter, com vit\u00f3ria sobre Nicanor (2Mc 10,10\u201315,39). Narra-se, com isso, a persegui\u00e7\u00e3o dos judeus sob Ant\u00edoco IV Epifanes e a luta de liberta\u00e7\u00e3o comandada por Judas Macabeu at\u00e9 a sua vit\u00f3ria sobre Nicanor (175\u2013161 aC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus interveio na hist\u00f3ria do seu povo n\u00e3o apenas pela a\u00e7\u00e3o dos macabeus, mas com prod\u00edgios: um cavalo e seu cavaleiro misteriosos castigam Heliodoro (cf. 2Mc 3,23-29); cavalos e cavaleiros reluzentes aparecem por quarenta dias (cf. 2Mc 5,1-4); cavalos e cavaleiros celestes ajudam Judas a vencer Tim\u00f3teo (cf. 2Mc 10,29-30); um cavaleiro em vestes brancas surge bramindo sua espada dourada e os judeus vencem os inimigos (cf. 2Mc 11,8-12). Al\u00e9m dessas interven\u00e7\u00f5es divinas, 2 Macabeus possui afirma\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas que mostram certa evolu\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos (cf. 2Mc 6,26; 7,11.14.23; 14,46), \u00e0 f\u00e9 na vida eterna (cf. 2Mc 7,9-14), \u00e0 intercess\u00e3o dos vivos em favor dos mortos (cf. 2Mc 12,38-46) e \u00e0 efic\u00e1cia das ora\u00e7\u00f5es pelos mortos (cf. 2Mc 12,38-46). Afirma-se a cria\u00e7\u00e3o do mundo <em>ex nihilo <\/em>(cf. 2Mc 7,28). Disto resulta que 2 Macabeus acentua muito mais o aspecto religioso da resist\u00eancia ao helenismo, multiplicando as ora\u00e7\u00f5es antes das lutas, a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado, a acentua\u00e7\u00e3o do mart\u00edrio pela f\u00e9 e a cren\u00e7a na ressurrei\u00e7\u00e3o com a justa retribui\u00e7\u00e3o para justos e injustos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de Josu\u00e9, Ju\u00edzes, 1-2 Samuel e 1-2 Reis est\u00e3o repletos de crueldades e grandes massacres. O ouvinte-leitor hodierno tem toda a raz\u00e3o de ficar perplexo, mas, ao se aproximar desses livros, \u00e9 convidado a perceber a clara diferen\u00e7a que existe no agir dos protagonistas envolvidos nas narrativas: Deus e o antigo Israel em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria e as vicissitudes deste povo est\u00e3o narradas na B\u00edblia \u00e0 maneira do que se fazia em todo o Antigo Oriente Pr\u00f3ximo (AOP), atrav\u00e9s de relatos de guerras, de conquistas, de duelos, de ocupa\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00f5es territ\u00f3rios, de deporta\u00e7\u00f5es etc. O antigo Israel est\u00e1 inserido no seu tempo e na sua cultura, usa a mesma linguagem e as mesmas imagens que os povos circunvizinhos. Existe na sequ\u00eancia narrativa da conquista da terra prometida (Josu\u00e9), das batalhas contra os filisteus (Ju\u00edzes), do fim do tempo dos ju\u00edzes e do evento da monarquia (1-2 Samuel), das guerras de Jud\u00e1 e de Israel contra os povos vizinhos (1-2 Reis) uma marcante depend\u00eancia cultural do vocabul\u00e1rio militar, que caracterizava a hist\u00f3ria dos povos antigos: eg\u00edpcios, ass\u00edrios, babil\u00f4nios, persas, gregos, romanos e, sem d\u00favida alguma, de muitos povos atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ato de ler e de estudar esses livros exige capacidade de discernimento, pelo qual se aprende a separar o que \u00e9 contingente e pertencente \u00e0s vicissitudes da hist\u00f3ria do antigo Israel (conquista da terra, guerras com os povos vizinhos, campanhas militares dos seus reis), do que tem valor perene, porque pertence \u00e0 hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o: a luta de Deus contra o mal e o pecado, afirmando a sua soberana realeza sobre tudo o que acontece no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um estudo hist\u00f3rico-cr\u00edtico de Josu\u00e9 a Reis demonstra que a conquista da terra foi lenta, dif\u00edcil e que a sua perda deveu-se \u00e0 neglig\u00eancia pol\u00edtica de seus reis. A vers\u00e3o da conquista e da perda da terra, nesses livros, \u00e9 muito mais teol\u00f3gica e prof\u00e9tica do que hist\u00f3rica. Josu\u00e9 foi o sucessor de Mois\u00e9s que, pela obedi\u00eancia \u00e0 Lei de Deus, efetuou a conquista da terra, porque Deus, verdadeiro protagonista, cumpriu a sua palavra e as promessas feitas aos patriarcas. Em contrapartida, com o livro dos Ju\u00edzes se demonstra que a fidelidade da gera\u00e7\u00e3o liderada por Josu\u00e9 n\u00e3o se manteve (Jz 2,10 tem a ver com Ex 1,8 e explica a mudan\u00e7a na conduta: a nova gera\u00e7\u00e3o desconhece os feitos). Com isso, se introduz a necessidade da forma\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica que ser\u00e1 empreendida pelo conhecimento da Tor\u00e1. A dial\u00e9tica da alian\u00e7a \u00e9 fundamental para se compreender esses livros: quando o povo se volta para Deus e \u00e9 obediente, \u00e9 aben\u00e7oado; quando abandona Deus e \u00e9 desobediente, \u00e9 castigado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de 1-2 Cr\u00f4nicas, Esdras e Neemias, vistos no seu conjunto liter\u00e1rio e no contexto hist\u00f3rico a eles vinculado, sup\u00f5em e comentam: a dolorosa experi\u00eancia do ex\u00edlio, a reconstru\u00e7\u00e3o da sociedade hebraica, a partir do retorno dos exilados, e uma longa viv\u00eancia do juda\u00edsmo, isto \u00e9, a nova fase da religi\u00e3o de Mois\u00e9s que tem in\u00edcio ap\u00f3s o retorno dos exilados. Alguns elementos atestam a \u00e9poca tardia desses tr\u00eas livros: a forte influ\u00eancia da teologia sacerdotal; a presen\u00e7a do ideal teocr\u00e1tico com Davi e Salom\u00e3o. Jerusal\u00e9m e o templo est\u00e3o no centro desta teocracia; a Lei de Mois\u00e9s (Tor\u00e1) \u00e9 \u201cdivinizada\u201d; os fatos e feitos narrados foram adaptados em fun\u00e7\u00e3o da sua ideologia positiva da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as institui\u00e7\u00f5es que se ligam ao culto foram enfatizadas nos livros de 1-2 Cr\u00f4nicas, Esdras e Neemias: a translada\u00e7\u00e3o da arca (cf. 1Cr 15\u201316); a dedica\u00e7\u00e3o do Templo (cf. 2Cr 5\u20137); a reforma do culto e a celebra\u00e7\u00e3o da p\u00e1scoa sob o reinado de Ezequias (cf. 2Cr 29\u201331); a solenidade da p\u00e1scoa sob Josias (cf. 2Cr 35); a restaura\u00e7\u00e3o da liturgia, ap\u00f3s o ex\u00edlio, sob Josu\u00e9 e Zorobabel (cf. Esd 3); a dedica\u00e7\u00e3o do novo Templo e a celebra\u00e7\u00e3o da p\u00e1scoa (cf. Esd 6,16-22); a celebra\u00e7\u00e3o da festa dos Tabern\u00e1culos (cf. Ne 8,13-18); a dedica\u00e7\u00e3o dos muros de Jerusal\u00e9m (cf. Ne 12,27-43). Sacerdotes e levitas, m\u00fasicos, cantores, porteiros, personagens envolvidos no culto e que n\u00e3o tiveram destaque nos livros de Josu\u00e9 a Reis, receberam um tratamento diferenciado (cf. 1Cr 9,17-29; 15,16-21; 16,4-42; 2Cr 5,12-14; Esd 3,10-11; 7,7; Ne 7,1-45; 11,17-19). Na hist\u00f3ria narrada nesses livros, manifesta-se o plano de Deus: tem in\u00edcio com a cria\u00e7\u00e3o, segue-se com a elei\u00e7\u00e3o de Israel, o ideal mon\u00e1rquico com a dinastia de Davi at\u00e9 o ex\u00edlio babil\u00f4nico, etapas que acabaram por reconduzir \u00e0 reforma do antigo Israel e das suas institui\u00e7\u00f5es empreendidas pelos reformadores Esdras e Neemias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros de Rute, Tobias, Judite e Ester contextualizam a Lei de Deus sob diferentes \u00e2ngulos. S\u00e3o, fundamentalmente, literatura edificante, pela qual a vida e suas vicissitudes s\u00e3o o campo f\u00e9rtil para acontecer a interpreta\u00e7\u00e3o e a atualiza\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Nesse tipo de literatura, o ouvinte-leitor n\u00e3o apenas se depara com as situa\u00e7\u00f5es dos personagens, mas \u00e9 convidado a se deixar provocar por elas, a fim de tirar li\u00e7\u00f5es para a sua pr\u00f3pria vida. A provid\u00eancia divina \u00e9 vivamente evidenciada ao lado das iniciativas humanas. As dificuldades, as dores, as provas e os sofrimentos da vida podem ser superados na f\u00e9, acentuando a consola\u00e7\u00e3o de Deus, mas n\u00e3o dispensam a participa\u00e7\u00e3o humana. Os justos podem ser submetidos a muitas e grandes provas, mas n\u00e3o se deixam abater por sua f\u00e9 e fidelidade a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rute, Judite e Ester s\u00e3o hero\u00ednas, mulheres extraordin\u00e1rias e protagonistas da salva\u00e7\u00e3o do povo. Estas mulheres exemplificam Gn 3,15 e Pr 31,10-31. J\u00e1 o sonho de todo pai piedoso \u00e9 ter um filho igualmente piedoso e virtuoso. Disso trata o livro de Tobias, evidenciando, em particular, o sentido e cumprimento do quarto mandamento \u201chonrar pai e m\u00e3e\u201d (cf. Ex 20,12; Dt 5,16). O car\u00e1ter did\u00e1tico, paren\u00e9tico e sapiencial desse livro n\u00e3o invalida o sentido ou o valor hist\u00f3rico que a ele se quis atribuir, elaborados e enriquecidos testemunhos de vida exemplar, fazendo sobressair a caridade, a pureza legal e os tr\u00eas pilares da piedade judaica: a ora\u00e7\u00e3o, a esmola e o jejum (cf. Mt 6,1-18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Os livros dos Macabeus descrevem uma fase ulterior da luta do povo pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Dessa vez, o perigo n\u00e3o vem tanto das invas\u00f5es de ex\u00e9rcitos estrangeiros ou dos matrim\u00f4nios mistos, mas da pol\u00edtica adotada pelos reinos helen\u00edsticos que usavam a cultura como meio para unir diversos componentes dos seus imp\u00e9rios. Estes imp\u00e9rios conheciam, por certo, o valor da cultura e da educa\u00e7\u00e3o. Basta lembrar da import\u00e2ncia, no mundo antigo, da Biblioteca de Alexandria dos reis Ptolomeus, cerca de 305 aC. Mais importante ainda foi a introdu\u00e7\u00e3o do sistema grego de educa\u00e7\u00e3o sob a forma de \u201cgin\u00e1sios\u201d em diversas partes do imp\u00e9rio (cf. 1Mc 1,14). O impacto da cultura grega era forte e o povo judaico se sentiu imediatamente amea\u00e7ado. No mundo antigo, religi\u00e3o, cultura e pol\u00edtica eram frequentemente insepar\u00e1veis. (SKA, 2015, p.150-1)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de heleniza\u00e7\u00e3o da Palestina teve in\u00edcio muito antes das fa\u00e7anhas atribu\u00eddas aos irm\u00e3os macabeus. Esse se deu a partir do momento que Alexandre Magno conquistou militarmente o vasto imp\u00e9rio persa. Com a conquista de Tiro, em 331 aC, toda a Palestina passou para as m\u00e3os do novo conquistador. Com Alexandre Magno e seu ex\u00e9rcito chegaram o interc\u00e2mbio comercial, a literatura, as artes, os esportes, isto \u00e9, uma nova cultura com um novo estilo de vida. O peso e a impon\u00eancia da cultura grega constitu\u00edram uma amea\u00e7a para o juda\u00edsmo que, por sua vez, pareceu insensatez \u00e0s lideran\u00e7as gregas. No fundo, o helenismo foi pensado como uma metodologia de domina\u00e7\u00e3o, ao qual o juda\u00edsmo macabaico n\u00e3o quis se submeter. O pr\u00f3prio juda\u00edsmo, na \u00e9poca que viu reinar a rivalidade entre sel\u00eaucidas (Babil\u00f4nia e S\u00edria) e ptolomeus (Palestina e Egito), j\u00e1 estava dividido em fac\u00e7\u00f5es ou partidos, e conflitos internos j\u00e1 vinham enfraquecendo as tradi\u00e7\u00f5es e as pr\u00e1ticas religiosas. 1-2 Macabeus representaram, inicialmente, a classe dos resistentes ao helenismo, mas com a ascens\u00e3o ao poder e implanta\u00e7\u00e3o de nova pol\u00edtica teve in\u00edcio o governo asmoneu. Este nome foi tomado, de acordo com Fl\u00e1vio Josefo (<em>Ant <\/em>XII, 6,1; XX, 8,11; 20,10), de Sim\u00e3o Asmoneu, da dinastia macabaica que reinou de 134 a 36 aC, ano que levou, por imposi\u00e7\u00e3o romana, Herodes Magno n\u00e3o apenas ao trono, mas ao exterm\u00ednio dos descendentes dos macabeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Leonardo Agostini,<\/em> PUC Rio. Texto original portugu\u00eas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Bibliografia B\u00edblica Latino-Americana<\/em> dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/pt.slideshare.net\/smilitaos\/artigos-bblicosemrebebriblaat2012\">http:\/\/pt.slideshare.net\/smilitaos\/artigos-bblicosemrebebriblaat2012<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALTER, R.; KERMODE, F. (org.). <em>Guia liter\u00e1rio da B\u00edblia<\/em>. S\u00e3o Paulo: UNESP, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ANDI\u00d1ACH, P. R. <em>Introducci\u00f3n hermen\u00eautica al Antiguo Testamento<\/em>. Navarra: Verbo Divino, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BORGONOVO, G. et allii. <em>Torah e Storiografie dell\u2019Antico Testamento<\/em>. Torino: Elledici, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FARIA, J. F. (org.). <em>Hist\u00f3ria de Israel e as pesquisas mais recentes.<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FERNANDES, L. A. <em>A B\u00edblia e a sua Mensagem<\/em>. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura e ao estudo da B\u00edblia. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Editora PUC-Rio\/Reflex\u00e3o, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Rute<\/em> (Coment\u00e1rio B\u00edblico Paulinas). S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. 2Sm 7,1-17: o projeto de Davi confronta-se com o projeto de Deus. In: <em>Mobilidade Religiosa<\/em>. Linguagens \u2013 Juventude \u2013 Pol\u00edtica: 25\u00ba Congresso Internacional Soter 2012, Belo Horizonte. Anais do 25\u00ba Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ci\u00eancias da Relig\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00e3o digital &#8211; ebook Soter &#8211; Paulinas, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______; GRENZER, M. <em>\u00caxodo 15,22\u201318,27<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALVAGNO, G.; GIUNTOLI, F. <em>Dai frammenti alla storia<\/em>. Introduzione al Pentateuco. Torino: Elledici, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00c1RCIA L\u00d3PEZ, F. <em>O Pentateuco<\/em>. v.3a. S\u00e3o Paulo: Ave Maria, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GILBERT, P. <em>Como a B\u00edblia foi escrita<\/em>: introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo e ao Novo Testamento. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GONZ\u00c1LEZ LAMADRID, A. <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do Antigo Testamento<\/em>. As Tradi\u00e7\u00f5es Hist\u00f3ricas de Israel. Petr\u00f3polis: Vozes, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KONINGS, J. <em>A B\u00edblia, sua origem e sua leitura<\/em>. Introdu\u00e7\u00e3o ao estudo da B\u00edblia. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PURY, A. (org.). <em>O Pentateuco em quest\u00e3o<\/em>. As origens e a composi\u00e7\u00e3o dos cinco primeiros livros da B\u00edblia \u00e0 luz das pesquisas recentes. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R\u00d6MER, T.; MACCHI, J.-D.; NIHAN, C. <em>Antigo Testamento<\/em>. Hist\u00f3ria, escritura e teologia. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">R\u00d6MER, T. <em>A chamada hist\u00f3ria deuteronomista<\/em>. Introdu\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, hist\u00f3rica e liter\u00e1ria. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SCHMIDT, W. H. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento<\/em>. Porto Alegre: Sinodal, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SKA, J.-L. <em>O Antigo Testamento explicado aos que conhecem pouco ou nada a respeito dele<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SELLIN, E.; FOHRER, G. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Academia Crist\u00e3\/Paulus, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VILCHEZ, J. <em>Rut y Ester<\/em>. Navarra: Verbo Divino, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZENGER, E. (ed.). <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Introdu\u00e7\u00e3o 2 Josu\u00e9 3 Ju\u00edzes 4 Rute 5 1-2 Samuel 6 1-2 Reis 7 1-2 Cr\u00f4nicas 8 Esdras 9 Neemias 10 Tobias 11 Judite 12 Ester 13 1-2 Macabeus 14 Considera\u00e7\u00f5es finais 15 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 Introdu\u00e7\u00e3o Este verbete apresenta os livros classificados, segundo o c\u00e2non da Vulgata, como \u201cHist\u00f3ricos\u201d. Tal denomina\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-1435","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-biblica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1435"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1435\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1436,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1435\/revisions\/1436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}