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{"id":1411,"date":"2016-12-30T22:13:42","date_gmt":"2016-12-31T00:13:42","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1411"},"modified":"2016-12-30T22:13:42","modified_gmt":"2016-12-31T00:13:42","slug":"seguimento-de-cristo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1411","title":{"rendered":"Seguimento de Cristo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Participa\u00e7\u00e3o em \u00a0Cristo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Imita\u00e7\u00e3o de Cristo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 Vinda do Reino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 Fraternidade universal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3 Crescimento em humanidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.4 Abandono na providencia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.5 Lutas, conflitos, persegui\u00e7\u00f5es e mart\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.6 Necessidade de uma decis\u00e3o pessoal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Seguimento de Cristo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1. Participa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio da cruz<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2. Triunfo sobre o mal e sucesso da cria\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3. Vida na liberdade dos filhos e filhas de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cseguimento de Cristo\u201d \u00e9 um modo de participar em Cristo, participa\u00e7\u00e3o que \u00e9 poss\u00edvel para todos os seres humanos e toda a cria\u00e7\u00e3o. Deus quer e realiza a salva\u00e7\u00e3o da humanidade, por caminhos que a Igreja pode ignorar (GS 22). Os crist\u00e3os que seguem a Cristo, em particular, o fazem de uma forma semelhante a outros seres humanos que, sem saber, tamb\u00e9m s\u00e3o chamados pelo Filho para compartilhar seu Pai e viver como irm\u00e3os. Os crist\u00e3os se realizam em Cristo em virtude de sua chamada para imit\u00e1-lo e segui-lo como uma pessoa inteiramente consagrada \u00e0 vinda do reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Participa\u00e7\u00e3o em \u00a0Cristo<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele \u00e9 a imagem do Deus invis\u00edvel, o primog\u00eanito de toda a cria\u00e7\u00e3o, pois nele foram criadas todas as coisas nos c\u00e9us e na terra, vis\u00edveis e invis\u00edveis, sejam tronos ou principados, quer potestades: tudo foi criado por ele e para ele, ele \u00e9 antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste &#8220;(Cl 1,15-17).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A humanidade carrega a marca do amor de Deus com a qual foi criada e redimida. O amor livre e criador de Deus exige dela uma resposta nos mesmos termos. A humanidade atinge a plenitude para a qual Deus chama na medida em que se ama gratuitamente a si mesma e a toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os seres humanos s\u00e3o chamados por Deus para amar com o\u00a0 amor com que ele ama. O Conc\u00edlio Vaticano II ensina que a caridade \u00e9 o crit\u00e9rio decisivo para a salva\u00e7\u00e3o. Uma pessoa que n\u00e3o sabe nada de Cristo, ou que n\u00e3o acredita nele, se ele ama, \u00e9 salvo; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 in\u00fatil ter sido batizado, se n\u00e3o ama (LG 14). O Conc\u00edlio garante tamb\u00e9m que Deus quer a salva\u00e7\u00e3o de toda a humanidade e a busca por meios que a Igreja pode ignorar (GS 22). Os n\u00e3o-crist\u00e3os atingem o objetivo para o qual foram criados na medida em que ama os seus pr\u00f3ximos e cuidam do mundo do qual eles s\u00e3o uma parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maneira como Deus chama o homem e a mulher para si mesmo \u00e9 trinit\u00e1ria: Deus Pai enviou o seu Filho ao mundo para que a cria\u00e7\u00e3o responda agradecida ao Criador, embora reconhecendo a sua finitude e pecado. Desta forma, a humanidade atinge a perfei\u00e7\u00e3o do Filho ressuscitado que Deus teve em mente ao criar o mundo. A Encarna\u00e7\u00e3o pretende que a cria\u00e7\u00e3o atinja a sua express\u00e3o mais alta, o que exige a sua liberta\u00e7\u00e3o do mal. O discipulado do mais humano dos homens, Jesus, torna-nos mais humana; n\u00e3o responder a seu apelo, no entanto, desumaniza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No discipulado crist\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir uma imita\u00e7\u00e3o e um seguimento de Cristo. Jesus chamou os disc\u00edpulos para estar com ele e envi\u00e1-los a pregar o reino. Eles, imitando-o, colaboraram\u00a0 com ele. Jesus compartilhou com eles seu Pai, tornando-os filhos e filhas de Deus e irm\u00e3os uns dos outros. A imita\u00e7\u00e3o de Cristo hoje se alimenta das fontes do Evangelho que, gra\u00e7as \u00e0 exegese hist\u00f3rica cr\u00edtica, mas nunca sem a compress\u00e3o crente dos evangelistas, d\u00e1-nos uma imagem veross\u00edmil do Jesus da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seguimento de Cristo envolve a sua imita\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um trabalho essencial do Esp\u00edrito que guiou a Jesus em sua vida terrena e que agora aperfei\u00e7oa esta imita\u00e7\u00e3o sob o mist\u00e9rio pascal. Os disc\u00edpulos tem acesso a Cristo em virtude do seu Esp\u00edrito, e atrav\u00e9s dele discernem sua contribui\u00e7\u00e3o criativa na constru\u00e7\u00e3o do reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imita\u00e7\u00e3o e seguimento de Cristo se necessitam um ao outro e se entrela\u00e7am. Sem imita\u00e7\u00e3o de\u00a0 Cristo\u00a0 os crist\u00e3os poderiam seguir um Jesus que n\u00e3o \u00e9 dos Evangelhos. Sem seguimento os disc\u00edpulos poderiam imitar a Cristo, sem criatividade, um modo fundamentalista e pelagiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Imita\u00e7\u00e3o de Cristo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.1 Vinda do Reino<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE, depois que Jo\u00e3o foi entregue \u00e0 pris\u00e3o, veio Jesus para a Galileia, pregando o evangelho do reino de Deus, e dizendo: O tempo est\u00e1 cumprido, e o reino de Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho. Marcos 1:14,15\u201d (Mc 1, 14-15).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta descri\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do minist\u00e9rio de jesus, feita pelo evangelista Marcos, vale para os disc\u00edpulos de todos os tempos..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, ao contr\u00e1rio de Jo\u00e3o Batista que anunciava uma puni\u00e7\u00e3o com a possibilidade de salva\u00e7\u00e3o (Mt 3, 7-12), proclama a salva\u00e7\u00e3o com a possibilidade de uma condena (Mt 5, 1-12; Lc 6: 20-26). Para ambos h\u00e1 um ju\u00edzo final, mas a abordagem \u00e9 diametralmente oposta. O relacionamento com Deus e com o mundo dos disc\u00edpulos de um e de outro tinha um matiz contr\u00e1rio. Por uma raz\u00e3o semelhante, os crist\u00e3os n\u00e3o devem viver no medo de errar, mas na confian\u00e7a da miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, por outro lado, na prega\u00e7\u00e3o do Batista a hist\u00f3ria tem um fim, que ele anuncia em termos negativos, para outros a hist\u00f3ria pode simplesmente n\u00e3o fazer qualquer sentido. Neste caso, os seres humanos atribuem valor \u00e0s suas pr\u00f3prias realiza\u00e7\u00f5es ou idolatram seres que oferecem uma salva\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria ou falsa. O mercado tende a colonizar todas as \u00e1reas da vida com a sua l\u00f3gica de com\u00e9rcio e concorr\u00eancia, e d\u00e1 \u00e0s pessoas um reconhecimento social atrav\u00e9s do consumo. Esse mercado \u00e9, como substitutivo da salva\u00e7\u00e3o, o \u00eddolo do nosso tempo, como foi o dinheiro em tempos de Jesus. O reconhecimento que Jesus ofereceu na sua \u00e9poca, e\u00a0 oferece na nossa, aos \u00a0seus disc\u00edpulos, \u00e9 gratuito. O reino \u00e9 um presente que n\u00e3o tem pre\u00e7o. A salva\u00e7\u00e3o, que consiste em um \u00a0perd\u00e3o incondicional e uma aceita\u00e7\u00e3o radical de Deus, \u00e9 a melhor not\u00edcia. Os disc\u00edpulos sabem que a sua vida e a hist\u00f3ria t\u00eam um prop\u00f3sito transcendente: o eventual caos do mundo, a culpa, a pobreza e a morte ser\u00e3o definitivamente derrotadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos devem experimentar o amor inaudito e incompar\u00e1vel de Deus para vir a acreditar nele (cf. 1 Jo, 4, 16). Eles t\u00eam que saber que a f\u00e9 em Deus pode fazer o imposs\u00edvel e, portanto, devem converter-se ao seu amor. A convers\u00e3o \u00e9 um ato divino e humano ao mesmo tempo, que consiste em amar com a mesma gratuidade com que Deus ama aqueles que acreditam Nele. Entrar na a l\u00f3gica da convers\u00e3o ao amor de Deus \u00e9, por si mesmo, a\u00a0 causa de grande alegria ( Lc, 15, 11-31). A alegria \u00e9 uma virtude tipicamente crist\u00e3. A alegria do reino deve\u00a0 qualificar a miss\u00e3o crist\u00e3. Outros podem tamb\u00e9m reconhecer que Deus, j\u00e1 agora, vence o medo e a tristeza, e juntar-se aos disc\u00edpulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os discernem os sinais dos tempos, a fim de descobrir onde o reino acontecendo no presente e, com sua generosidade altru\u00edsta para o seu vizinho, esperam pela sua chegada. Eles faz\u00ea-lo com urg\u00eancia apocal\u00edptica, como protagonistas de uma hist\u00f3ria que tem um sentido transcendente e feliz, mas sem eles, sem um esfor\u00e7o pessoal e coletivo pode acabar mal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.2 Fraternidade universal<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFalava ainda Jesus \u00e0 multid\u00e3o quando sua m\u00e3e e seus irm\u00e3os chegaram do lado de fora, querendo falar com ele. Algu\u00e9m lhe disse: &#8220;Tua m\u00e3e e teus irm\u00e3os est\u00e3o l\u00e1 fora e querem falar contigo&#8221;. &#8220;Quem \u00e9 minha m\u00e3e, e quem s\u00e3o meus irm\u00e3os?&#8221;, perguntou ele. E, estendendo a m\u00e3o para os disc\u00edpulos, disse: &#8220;Aqui est\u00e3o minha m\u00e3e e meus irm\u00e3os! Pois quem faz a vontade de meu Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us, este \u00e9 meu irm\u00e3o, minha irm\u00e3 e minha m\u00e3e&#8221;.\u201d (Mt 12, 46-50).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os la\u00e7os familiares s\u00e3o geralmente os mais fortes. Apesar das enormes mudan\u00e7as da vida em sociedade, as pessoas continuam valorizando extraordinariamente sua fam\u00edlia ou a possibilidade de t\u00ea-la. Ela \u00e9 a principal causa de felicidade ou, pelo menos, um ref\u00fagio em tempos de individualismo e desamparo. Mas os disc\u00edpulos s\u00e3o convidados a transcender seu parentesco para viver uma familiaridade e fraternidade universal. Jesus n\u00e3o desprezou sua fam\u00edlia de origem. Ao p\u00e9 da cruz, ele pediu Jo\u00e3o para cuidar de sua m\u00e3e (Jo 19, 6). Mas para ela exigiu transcender seu v\u00ednculo de sangue com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fraternidade, para a qual Jesus chama, \u00e9 constitu\u00edda libertando e dignificando ao seu pr\u00f3ximo. Os disc\u00edpulos de Jesus t\u00eam de anunciar que Deus \u00e9 Pai de todos, denunciando as formas sociais \u00a0de marginaliza\u00e7\u00e3o e realizando a\u00e7\u00f5es integradoras dos exclu\u00eddos e descartados. Eles t\u00eam de libertar os oprimidos de todos os tipos de injusti\u00e7a e ajud\u00e1-los a se tornarem indiv\u00edduos aut\u00f4nomos capazes de tomar suas pr\u00f3prias decis\u00f5es e participar livremente na vida social (Mc 1, 40-45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fraternidade do Reino \u00e9 afirmada no relacionamento com o pr\u00f3ximo que \u00e9 considerado irm\u00e3o, filho de um pai que se preocupa maternalmente de todos os seres humanos. Ele tamb\u00e9m \u00e9 o Pai de nossos inimigos. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio perdo\u00e1-los, orar por eles e at\u00e9 mesmo am\u00e1-los (Lc 6, 27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Irmandade, no entanto, exige tamb\u00e9m aos disc\u00edpulos de Cristo\u00a0 atitudes e decis\u00f5es coletivas. Ela deve se articular no n\u00edvel social, econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural e religioso. Em todos estes n\u00edveis s\u00e3o instaladas pr\u00e1ticas e\u00a0 se configuram privil\u00e9gios ou estruturas de exclus\u00e3o e at\u00e9 mesmo fratricidas. Isso tamb\u00e9m requer dos crist\u00e3os cultivar o pluralismo, tolerar os outros e, acima de tudo, se abrir\u00a0 a todos os que s\u00e3o diferentes. Os disc\u00edpulos devem ser fatores de justi\u00e7a, reconcilia\u00e7\u00e3o e paz (Mt 5, 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.3 Crescimento em humanidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ent\u00e3o, eles cumpriram tudo segundo a lei do Senhor, (Maria, Jos\u00e9 e Jesus) voltaram \u00e0 Galileia para a sua cidade de Nazar\u00e9. O menino crescia e fortalecia-se, cheio de sabedoria; e a gra\u00e7a de Deus estava sobre ele &#8220;(Lc 2, 39-40). O reconhecimento de Jesus de Deus como seu &#8220;Pai&#8221; fez-lhe crescer humanamente para tornar-se &#8220;o homem&#8221; (Lc 2, 49) que acabou por dar sua vida pelos seus amigos (Jo 15,13). A obedi\u00eancia de Jesus \u00e0 vontade do Pai era o princ\u00edpio integrador da sua humanidade. Jesus foi verdadeiramente homem e o homem \u00edntegro por excel\u00eancia. Dar vida aos outros foi o segredo de sua humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De forma semelhante, a plena uni\u00e3o dos disc\u00edpulos com Cristo, a sua f\u00e9 nele e amor para os outros, os torna mais humanos. Ao contr\u00e1rio do que alguns possam pensar, a ora\u00e7\u00e3o, a religi\u00e3o e a generosa dedica\u00e7\u00e3o aos outros n\u00e3o prejudicam a humanidade das pessoas, mas a realizam. Pelo contr\u00e1rio, o que \u00e9 desumano e desumanizante \u00e9 o pecado, a independ\u00eancia de Deus e o ego\u00edsmo com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Imita\u00e7\u00e3o de Cristo dos disc\u00edpulos desperta neles a possibilidade de desdobrar todo o potencial da sua humanidade criada. A entrega para a vinda do reino \u00e9 o fator de maior integra\u00e7\u00e3o intelectual e afetiva poss\u00edvel (Mt 19, 27-29). Assim como o amor extremo tornou poss\u00edvel o celibato de Jesus, a concentra\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos na miss\u00e3o do reino os torna pessoas integradas e \u00edntegras. Assim como a uni\u00e3o de Jesus com o Pai cresceu ao longo do tempo, o que n\u00e3o lhe poupou o sofrimento, a ignor\u00e2ncia e o fato de ter que discernir a sua vontade, os disc\u00edpulos tamb\u00e9m devem crescer em seu cristianismo. Isso \u00e0s vezes envolve pris\u00f5es, perdas, retrocessos e novos come\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos de Cristo assumem eclesialmente a tarefa da evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura e a incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho, convencidos de que o Criador sigilosamente leva \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1xima plenitude poss\u00edvel. O an\u00fancio do Evangelho a todas as culturas deve ter lugar sem preju\u00edzo das suas originalidades, mas em fun\u00e7\u00e3o do seu desenvolvimento. A incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho, por outro lado, exige dos mesmos disc\u00edpulos um esfor\u00e7o para se converter a um Evangelho que n\u00e3o pode ser monopolizado por nenhuma cultura particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A miss\u00e3o dos disc\u00edpulos requer maturidade psicol\u00f3gica, e a mais ampla prepara\u00e7\u00e3o intelectual, educacional e cultural t\u00e3o ampla como poderia ser todo o saber humano. Mas isso s\u00f3 serve \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do reino quando os homens compartilham o mundo de acordo com a op\u00e7\u00e3o de Deus pelos pobres e por todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.4. Abandono na provid\u00eancia<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8221; Vejam como crescem os l\u00edrios do campo. Eles n\u00e3o trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salom\u00e3o, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanh\u00e3 \u00e9 lan\u00e7ada ao fogo, n\u00e3o vestir\u00e1 muito mais a voc\u00eas, homens de pequena f\u00e9? Portanto, n\u00e3o se preocupem, dizendo: \u2018Que vamos comer? \u2019 Ou \u2018que vamos beber? \u2019 Ou \u2018que vamos vestir? Pois os pag\u00e3os \u00e9 que correm atr\u00e1s dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que voc\u00eas precisam delas&#8221; (Mt 6,28-32).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus vive na confian\u00e7a de seu pai e encoraja seus disc\u00edpulos a fazer o mesmo. A cria\u00e7\u00e3o transparece a a\u00e7\u00e3o providencial de Deus. Na cria\u00e7\u00e3o, Jesus descobre que a a\u00e7\u00e3o humana deve situar-se na responsabilidade que o Pai tem sobre todas as criaturas. Ele faz a vontade de seu Pai, de maneira an\u00e1loga como outras criaturas lhe obedecem pelo simples fato de serem belas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos de ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a de hoje. Os crist\u00e3os nascem em um mundo polu\u00eddo e com deteriora\u00e7\u00e3o ambiental progressiva. A humanidade e a natureza est\u00e3o em grave perigo. A modernidade capitalista explorou sem piedade\u00a0 os pobres e outras criaturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde que a crise \u00e9 global, os disc\u00edpulos devem se converter para corrigir o curso dos acontecimentos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a volta atr\u00e1s. N\u00e3o se trata de renunciar \u00e0 modernidade. A ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o necess\u00e1rias para fazer as altera\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. Nem vai ser necess\u00e1rio, por outro lado, o retorno para a sintonia animista ou fatalista de algumas culturas nativas. Os disc\u00edpulos devem reestabelecer as rela\u00e7\u00f5es entre Deus e o mundo, adotando novos estilos de vida e gerando uma cultura do cuidado dos pobres e da natureza. Eles t\u00eam que reconstruir e criar formas de rela\u00e7\u00e3o cuidadosa com o planeta Terra cuja beleza espelha a harmonia das rela\u00e7\u00f5es intratrinit\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos enfrentam uma situa\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica. Se eles n\u00e3o interrompem com a\u00e7\u00f5es pessoais e pol\u00edticas a tend\u00eancia de deteriora\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, a cat\u00e1strofe \u00e9 certa. Mesmo assim, eles t\u00eam que considerar que estas a\u00e7\u00f5es ser\u00e3o eficazes se for verificado que o Pai \u00e9 o primeiro respons\u00e1vel pela sua cria\u00e7\u00e3o. Jesus lembra-lhes: &#8220;Buscai primeiro o seu reino e a sua justi\u00e7a, e todas estas coisas vos ser\u00e3o acrescentadas. N\u00e3o vos inquieteis, pois, pelo dia de amanh\u00e3, porque o dia de amanh\u00e3 cuidar\u00e1 de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. \u201d (Mt 6, 31-34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.5. Lutas, conflitos, persegui\u00e7\u00f5es e mart\u00edrio.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE aconteceu que, quando Jesus concluiu todos estes discursos, disse aos seus disc\u00edpulos: Bem sabeis que daqui a dois dias \u00e9 a p\u00e1scoa; e o Filho do homem ser\u00e1 entregue para ser crucificado. \u201d (Mt 26, 1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus foi morto exatamente pelo que ele tentou fazer. Seus assassinos foram capazes de dar raz\u00f5es diferentes, mas apenas uma as resume todas: ele foi morto por anunciar o Reino com palavras e a\u00e7\u00f5es perturbadoras para a paz inst\u00e1vel da Palestina daquela \u00e9poca. Seu confronto com as autoridades judaicas por causa da maneira que cumprir a lei e sua atitude para com o Templo, teve consequ\u00eancias pol\u00edticas. A crucifica\u00e7\u00e3o foi imposta pelos romanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos de Cristo tiveram, desde aquele momento, que entrar em conflito de v\u00e1rios tipos, na medida em que eles ouviram o chamado para compartilhar a miss\u00e3o de Jesus. Estes conflitos se aplicam dentro da pr\u00f3pria Igreja. Com s\u00e9culos de dist\u00e2ncia se repetem em certo sentido, as causas da luta e confronto entre Jesus e as autoridades religiosas, na maneira que os crist\u00e3os t\u00eam de compreender o cristianismo. Uma vez que o reino n\u00e3o \u00e9 identificado apenas com o cristianismo, os disc\u00edpulos de Cristo s\u00e3o frequentemente tensionados pela sua perten\u00e7a eclesial e pela liberdade dos filhos de Deus, que foi dado a eles com o batismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conflito fundamental ocorre no plano que eles compartilham com outros seres humanos. Os disc\u00edpulos de Cristo pertencem ao mundo em um aspecto e n\u00e3o pertencem a ele segundo \u00a0outras considera\u00e7\u00f5es. Por isso, \u00e9 normal e at\u00e9 necess\u00e1rio que eles se envolvam em confrontos econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos e culturais. Em todos estes n\u00edveis acontecem\u00a0 injusti\u00e7as e iniquidades.\u00a0 &#8220;N\u00e3o penseis que vim trazer paz \u00e0 terra. Eu n\u00e3o vim trazer paz, mas espada &#8220;(Mt 10, 34), lembra-lhes Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o mundo est\u00e1 mal concebido, mal estruturado e mal compartilhado, se essas defici\u00eancias s\u00e3o, al\u00e9m demais, coonestadas na Igreja, os disc\u00edpulos devem se sentir desconfort\u00e1veis com elas e procurar corrigi-las, mesmo que isso lhes custe tempos dif\u00edceis ou persegui\u00e7\u00e3o. Ouvir o chamado de Cristo para colaborar na sua miss\u00e3o significa para os crist\u00e3os suportar desconforto e mal-entendidos, romper diretamente com o estabelecido, tolerar situa\u00e7\u00f5es indignas ou sofrer com o mart\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>2.6. Necessidade de uma decis\u00e3o pessoal<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? N\u00e3o h\u00e1 bom sen\u00e3o um s\u00f3, que \u00e9 Deus. Se queres, por\u00e9m, entrar na vida, guarda os mandamentos. Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: N\u00e3o matar\u00e1s, n\u00e3o cometer\u00e1s adult\u00e9rio, n\u00e3o furtar\u00e1s, n\u00e3o dir\u00e1s falso testemunho; Honra teu pai e tua m\u00e3e, e amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e d\u00e1-o aos pobres, e ter\u00e1s um tesouro no c\u00e9u; e vem, e segue-me. E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possu\u00eda muitas propriedades\u201d (Mt 19,16-22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem rico que sai ao encontro de Jesus n\u00e3o est\u00e1 confort\u00e1vel com a religi\u00e3o que ele herdou de seus pais. Jesus pede-lhe para dar um passo estritamente pessoal. Assim, o jovem poder\u00e1 ter acesso a uma aut\u00eantica experi\u00eancia de Deus. Mas este passo \u00e9 oneroso. Exige, de alguma forma, come\u00e7ar tudo de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Ocidente crist\u00e3o experimentou na sua globalidade um epis\u00f3dio semelhante a esta situa\u00e7\u00e3o. A Igreja enfrenta uma crise na transmiss\u00e3o da f\u00e9. O cristianismo n\u00e3o passa de uma gera\u00e7\u00e3o a outra pela tradi\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o religiosa em geral \u00e9 complexa. Est\u00e1 configurada, pelo menos, por quatro fatores: um desprestigio do Cristianismo eclesi\u00e1stico acusado de alienante ou colonizador; enormes muta\u00e7\u00f5es da religiosidade devido \u00e0 conflu\u00eancia de diferentes cren\u00e7as e \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o de espiritualidades e credos; e uma seculariza\u00e7\u00e3o da cultura por causa da modernidade predominante. Nestas circunst\u00e2ncias s\u00f3 podem ser esperados disc\u00edpulos que tenham uma profunda experi\u00eancia pessoal de Cristo e que optem pelo reino intimamente convencidos de seu\u00a0 valor transcendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos devem esperar que o cristianismo n\u00e3o mais passe facilmente de uma gera\u00e7\u00e3o para outra. A f\u00e9 em Cristo no futuro vai depender do testemunho de uma experi\u00eancia de Deus que, no seu caso ter\u00e1 que ser radical. Na situa\u00e7\u00e3o atual, eles t\u00eam de transmitir uma f\u00e9 onerosa: um seguimento de Cristo que exige \u00e0s pessoas uma entrega completa e gratuita de si mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Seguimento de Cristo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguir a Cristo \u00e9 &#8220;imitar&#8221; o exemplo de Jesus e \u00e9, tamb\u00e9m, experi\u00eancia de Cristo; \u00e9 uma &#8220;imita\u00e7\u00e3o espiritual&#8221; de Cristo. O Esp\u00edrito de Cristo ressuscitado torna poss\u00edvel conhecer interiormente o Jesus da hist\u00f3ria, experimentar a salva\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o do crucificado e ressuscitado, e reinar com ele antecipadamente na Igreja. O seguimento de Cristo \u00e9 fundamentalmente experi\u00eancia do mist\u00e9rio pascal de Jesus de Nazar\u00e9 , morto por pregar o reino de Deus,\u00a0 e ressuscitado como Cristo, Senhor da Igreja e do universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal tem tr\u00eas dimens\u00f5es soteriol\u00f3gicas: a) \u00c9 uma express\u00e3o do sacrif\u00edcio de Cristo concebido como amor at\u00e9 ao fim, b) \u00e9 viver a vida como um triunfo sobre o pecado e a morte, e a experi\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o bem-sucedida, c) \u00e9 antecipa\u00e7\u00e3o do reino como a liberdade dos filhos e filhas de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.1 Participa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio da cruz<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJ\u00e1 estou crucificado com Cristo; e vivo, n\u00e3o mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela f\u00e9 do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. N\u00e3o aniquilo a gra\u00e7a de Deus; porque, se a justi\u00e7a prov\u00e9m da lei, segue-se que Cristo morreu debalde\u201d (Gl 2, 20-21).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crist\u00e3o encontra na cruz a express\u00e3o m\u00e1xima do amor de Deus e participa desse amor amando o pr\u00f3ximo como Cristo nos amou. Na morte na cruz, Deus assume o ser humano em sua finitude e culpa. O Filho encarnado sofre ambas at\u00e9 a morte, a consequ\u00eancia \u00faltima de uma e outra. Jesus Cristo na cruz as assume como\u00a0 condi\u00e7\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sacrif\u00edcio da cruz n\u00e3o \u00e9 um ato de puni\u00e7\u00e3o de Deus pelos pecados da humanidade exercido em seu Filho sob uma substitui\u00e7\u00e3o vic\u00e1ria. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um ato s\u00e1dico do Pai nem masoquista do Filho. Deus n\u00e3o precisa de dor e sangue para salvar. A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente gratuita (Rm 5, 1-21). \u00c9 Deus que se sacrifica para o homem e essa doa\u00e7\u00e3o incondicional enra\u00edza a possibilidade do sacrif\u00edcio do homem Jesus e seus seguidores como\u00a0 amor altru\u00edsta. Os disc\u00edpulos de Cristo sacrificam-se por seu pr\u00f3ximo com o mesmo amor gratuito com o que s\u00e3o amados. O que agrada o Pai \u00e9 a vida toda dos crist\u00e3os em favor dos outros e a gratid\u00e3o deles por sua condi\u00e7\u00e3o de criaturas e pela salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os participam na paix\u00e3o de Cristo consagrando-se apaixonadamente \u00e0 vinda do reino e sofrendo as consequ\u00eancias. Cada um pode dizer que vive em e de Cristo crucificado, j\u00e1 que Cristo vive nele. A dor desempenha um papel expiat\u00f3rio quando \u00e9 express\u00e3o de um amor que carrega o pecado do mundo. A dor inexplic\u00e1vel ou injusta de indiv\u00edduos e povos crucificados pela mis\u00e9ria e a injusti\u00e7a,\u00a0 tem um valor salv\u00edfico simplesmente por ser sacramento do Jesus inocente, o Servo Sofredor. A mera quest\u00e3o dos pobres pela bondade de Deus, de forma semelhante ao grito de Jesus abandonado na cruz, faz sentido e ningu\u00e9m pode silenci\u00e1-la (Mc 15, 33-34). Al\u00e9m disso, a dor e a sangue dos m\u00e1rtires que, como Jesus, o primeiro m\u00e1rtir, d\u00e3o a vida por causa da f\u00e9 e da justi\u00e7a do reino, caracterizam o seguimento radical de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seguidor de Jesus teve que descobrir que Cristo morreu &#8220;por ele.&#8221; Diante da cruz \u00e9 revelado ao crist\u00e3o o seu pecado e, ao mesmo tempo, o perd\u00e3o de Deus. Beijar o crucifixo na Semana Santa \u00e9 uma express\u00e3o do reconhecimento da miseric\u00f3rdia de Cristo por uma pessoa que se sabe amada e conhecida de uma forma \u00fanica e insuper\u00e1vel. Na experi\u00eancia deste amor, o crist\u00e3o conclui que\u00a0 quem justifica \u00e9 Deus e n\u00e3o suas obras. A pr\u00e1xis messi\u00e2nica (construtiva) e prof\u00e9tica (cr\u00edtica) dos crist\u00e3os \u00e9 purificada na entrega sacrificada do Filho encarnado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.2. Triunfo sobre o mal e sucesso da cria\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u201cE ele \u00e9 a cabe\u00e7a do corpo, da igreja; \u00e9 o princ\u00edpio e o primog\u00eanito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preemin\u00eancia. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que est\u00e3o na terra, como as que est\u00e3o nos c\u00e9us\u201d (Cl 1, 18-20).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, os crist\u00e3os s\u00e3o gratuitamente libertados do pecado e da morte. Os seguidores de Cristo se tornam novas criaturas, e n\u00e3o deve pecar novamente. Neles se antecipa a vit\u00f3ria escatol\u00f3gica sobre o mal, al\u00e9m do triunfo da vida eterna sobre a morte. Agora \u00e9 poss\u00edvel para eles viverem <em>sub specie aeternitatis<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seguidores de Jesus t\u00eam de optar pelos pobres para que neles seja antecipado de forma preferencial o efeito libertador do ju\u00edzo final e o banquete do reino (Mt 25, 31-46). Eles, os quest\u00e3o privados da vida, e as v\u00edtimas do pecado, devem ser os primeiros a experimentar o Cristo ressuscitado, porque eles s\u00e3o os primeiros a compartilhar sua cruz. Sob a ressurrei\u00e7\u00e3o, eles devem ser reabilitados em sua inoc\u00eancia e dignidade, e devem ser reconhecidos como protagonistas na luta di\u00e1ria pela vida e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais humana. Eles, que muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o considerados pessoas, devem ter um lugar ativo na articula\u00e7\u00e3o de novas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seguidores de Cristo vivem uma f\u00e9 em Deus que \u00e9 poss\u00edvel comprovar em obras concretas. Entre eles reina a caridade, a paz e compartilham o que eles t\u00eam. Continuam a pr\u00e1tica de Jesus de Nazar\u00e9 em favor do reino, lutam contra a injusti\u00e7a e misericordiosamente v\u00e3o para curar os doentes de corpo e alma (At 2, 42-47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo ressuscitado, al\u00e9m do seu triunfo sobre a morte e o pecado, leva a cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 a plenitude que Deus tinha em mente ao criar o mundo. Esta \u00e9 ainda uma plenitude maior do que a da cria\u00e7\u00e3o antes do pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo deriva a alegria que possibilita aos\u00a0 crist\u00e3os viverem, mesmo nas piores circunst\u00e2ncias, e a capacidade de reconhecer a beleza e viver dela, ainda que feiura prevale\u00e7a em todos os lugares. Os crist\u00e3os sintonizam e se sentem parte e respons\u00e1veis dos outros seres da cria\u00e7\u00e3o. E eles esperam a sua gl\u00f3ria para o dia do retorno do Senhor do universo (Jo 14, 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, os crist\u00e3os tiram a energia espiritual e a criatividade para fazer o m\u00e1ximo uso da raz\u00e3o com que o Criador os dotou, e gerar a ci\u00eancia e as culturas necess\u00e1rias para construir uma sociedade e um mundo compartilhado e fraterno. Al\u00e9m disso, eles devem distinguir-se como trabalhadores de reconcilia\u00e7\u00e3o e construtores de paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>3.3 Vida na liberdade dos filhos e filhas de Deus<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos cora\u00e7\u00f5es o Esp\u00edrito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9s mais servo, mas filho; e, se \u00e9s filho, \u00e9s tamb\u00e9m herdeiro de Deus por Cristo\u201d (Gl 4,6-7).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Igreja os crist\u00e3os vivem antecipadamente o reino escatol\u00f3gico. Nela, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer as rela\u00e7\u00f5es humanas livres e pessoais, respeitosas da dignidade de filhos e filhas de Deus e respons\u00e1veis com os pequenos ou mais fracos. Entre os crist\u00e3os as rela\u00e7\u00f5es de predom\u00ednio de uns sobre outros ou as rela\u00e7\u00f5es alienadas no \u00e2mbito dos \u00eddolos do mercado e do consumo,\u00a0 s\u00e3o superadas pelo amor e a solidariedade. Esta mesma experi\u00eancia de fraternidade torna-os mission\u00e1rios do Evangelho e do reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Igreja e gra\u00e7as a ela, os seguidores de Cristo fazem um caminho hist\u00f3rico de seguimento de Cristo. Devem examinar nos sinais dos tempos, a voz de Deus (Mt 16, 1-3), e para isso contam com a Escritura, a Tradi\u00e7\u00e3o e o Magist\u00e9rio, al\u00e9m de outros lugares teol\u00f3gicos, como crit\u00e9rios de discernimento. Deus fala na hist\u00f3ria presente de uma forma semelhante como ele falou no passado. A Palavra de Deus tem prioridade em suas vidas. De forma semelhante, os crist\u00e3os vivem suas vidas em discernimento espiritual constante, pois vozes diferentes \u00e0 voz do Esp\u00edrito os tentam por caminhos que n\u00e3o s\u00e3o os dele. Todo mundo tem que encontrar sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o e segui-la fielmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os encontram certamente o Senhor nos sacramentos da Igreja que tornam efetiva a gra\u00e7a do amor de Deus para os seus filhos. As normas da Igreja orientam as vidas dos seguidores de Deus. Elas s\u00e3o uma guia, muitas vezes pedag\u00f3gica, que ter\u00e1 de ser interpretada por pessoas adultas na f\u00e9. Nem as boas obras, nem o mero cumprimento das leis da Igreja justificam diante de Deus, mas a f\u00e9 na bondade e na a\u00e7\u00e3o de Deus (Rom 3, 27-28; Tg 2, 18). \u00c9 Deus que as transforma em a\u00e7\u00f5es verdadeiramente livres, fazendo que os seguidores de Cristo amem a todos de uma forma verdadeiramente criativa e \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cosmos inteiro e todos os seres humanos trazem a marca de Cristo. Toda a cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 cristificada, o que torna poss\u00edvel para qualquer pessoa participar no modo de ser de Cristo com Deus, com o\u00a0 mundo e com o pr\u00f3ximo, embora n\u00e3o tenha consci\u00eancia disso. Toda a cria\u00e7\u00e3o reflete o amor de Deus manifestado em Cristo e, no caso do ser humano, ele pode corresponder diretamente a esse amor simplesmente amando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os crist\u00e3os, ao contr\u00e1rio daqueles que n\u00e3o o s\u00e3o, participam \u00a0conscientemente de Cristo. Eles fazem isso por meio de seu seguimento, que \u00e9 poss\u00edvel, porque o Esp\u00edrito Santo d\u00e1 aos crist\u00e3os o dom da f\u00e9 com a qual a imita\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 transformada e melhorada radicalmente. A f\u00e9 faz crer que Jesus \u00e9 o Cristo. Aqueles que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os podem ter uma ideia de Jesus, cujo perfil humano pode ser conhecido atrav\u00e9s dos Evangelhos e do ensinamento da Igreja, e pode at\u00e9 mesmo admirar ou imitar algumas das suas caracter\u00edsticas. Jesus pode ser imitado sem crer que depois de sua crucifica\u00e7\u00e3o tenha ressuscitado. Os crist\u00e3os, no entanto, n\u00e3o s\u00f3 imitam Jesus, mas vivem de Cristo morto e ressuscitado. O seguimento de Cristo come\u00e7a com uma imita\u00e7\u00e3o de Jesus, mas \u00e9 superior a ela. A imita\u00e7\u00e3o \u00e9 insuficiente. Ningu\u00e9m conhece \u00a0mais a Cristo do que aquele que segue a Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jorge Costadoat, SJ<\/em>. Centro Teol\u00f3gico Manuel Larra\u00edn\/Facultad de Teolog\u00eda, P. Universidad Cat\u00f3lica de Chile. Texto original Espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, Leonardo, \u201cEl seguimiento de Cristo\u201d, en BOFF, Leonardo, <em>Jesucristo y la liberaci\u00f3n del hombre<\/em>, Madrid, 1987, 537-565.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOMBONATTO, Vera Ivanise, <em>Seguimento de Jesus. Uma abordagem segundo a cristologia de Jon Sobrino<\/em>, S\u00e3o Paulo, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BRAVO, Carlos, \u201cUna cristolog\u00eda abierta al Jes\u00fas hist\u00f3rico y su seguimiento\u201d, <em>Efem\u00e9rides mexicana<\/em>, 9 (1991), 155-170.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTILLO, Jos\u00e9 Mar\u00eda, <em>El seguimiento de Jes\u00fas<\/em>, Salamanca, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V\u00edctor, <em>Seguir a Jes\u00fas hoy<\/em>, Salamanca,1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COSTADOAT, Jorge, \u201cEl seguimiento de Cristo en Am\u00e9rica Latina\u201d, en AZCUY, V., SCHICKENDANTZ, C., SILVA E., <em>Teolog\u00eda de los signos de los tiempos latinoamericanos<\/em>, Santiago: Ediciones Universidad Alberto Hurtado: 2013, 209-239.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALILEA, Segundo, <em>El seguimiento de Cristo<\/em>, Bogot\u00e1, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LOIS, Julio \u201cPara una espiritualidad del seguimiento de Jes\u00fas\u201d, <em>Diakon\u00eda<\/em>, 10\/ 29 (1986) 260-276.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MESTERS, Carlos, <em>Jes\u00fas de los evangelios para seguirlo hoy<\/em>, Santiago: Ediciones Mundo, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEROS, Roberto, <em>Seguimiento de Cristo en las comunidades eclesiales de base<\/em>, Bogot\u00e1: CLAR, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDO, Juan Luis, <em>Nuestra idea de Dios<\/em>, Buenos Aires 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______, <em>La historia perdida y recuperada de Jes\u00fas de Nazaret<\/em>, Santander 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOBRINO, Jon, \u201cEl seguimiento de Jes\u00fas como discernimiento\u201d, C<em>oncilium<\/em>, 139 (1978) 517-529; <em>Diakon\u00eda<\/em>, 11 (1979) 16-28.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______, \u201cEl seguimiento de Jes\u00fas pobre y humilde. C\u00f3mo bajar de la cruz a los pueblos\u201d, <em>Revista Latinoamericana de Teolog\u00eda<\/em>, 8\/ 24 (1991) 299-318.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TRIGO, Pedro, \u201cEl seguimiento de Jes\u00fas, contemplado en los evangelios, \u00bfda el tono a nuestra iglesia?\u201d,\u00a0<em>ITER<\/em>, Vol. 23, no. 57-58 (2012) 135-166.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______, \u201cDisc\u00edpulos de Jesucristo en Am\u00e9rica Latina hoy\u201d, <em>ITER<\/em> 42-43 (2007) 341-392.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Participa\u00e7\u00e3o em \u00a0Cristo 2 Imita\u00e7\u00e3o de Cristo 2.1 Vinda do Reino 2.2 Fraternidade universal 2.3 Crescimento em humanidade 2.4 Abandono na providencia 2.5 Lutas, conflitos, persegui\u00e7\u00f5es e mart\u00edrio. 2.6 Necessidade de uma decis\u00e3o pessoal 3 Seguimento de Cristo 3.1. Participa\u00e7\u00e3o no sacrif\u00edcio da cruz 3.2. Triunfo sobre o mal e sucesso da cria\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1411","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1411"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1411\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1412,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1411\/revisions\/1412"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}