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{"id":1395,"date":"2016-12-30T15:39:58","date_gmt":"2016-12-30T17:39:58","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1395"},"modified":"2016-12-30T15:45:12","modified_gmt":"2016-12-30T17:45:12","slug":"reformas-e-movimentos-reformistas-na-igreja-na-idade-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1395","title":{"rendered":"Reformas e movimentos reformistas na Igreja na Idade M\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O Renascimento Carol\u00edngeo: antecedentes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 Coroa\u00e7\u00e3o de Carlos Magno e a <em>Renovatio Imperii<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 A Reforma Carol\u00edngea<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Antecedentes \u00e0 Reforma Gregoriana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 A Reforma Gregoriana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Contestadores, hereges e ortodoxos nos s\u00e9culo XI-XIII: Contexto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 Ortodoxos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 Hereges<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2.1 Valdenses<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2.2 C\u00e1taros<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Mendicantes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.1 Franciscanos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.2 Dominicanos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5.3 Originalidade de Francisco e Domingos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde sua origem, a Igreja foi marcada por momentos de crise que demandaram esfor\u00e7os de reforma. O conhecido ep\u00edteto <em>Ecclesia semper refomanda est<\/em> sintetiza esta afirma\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo VIII, com a ascens\u00e3o dos francos, e em virtude da estreita uni\u00e3o entre os poderes, o governante toma a iniciativa da reforma. Carlos Magno \u00e9 o protagonista daquele que ficou conhecido como o <em>renascimento carol\u00edngeo<\/em>. A decad\u00eancia do imp\u00e9rio, a partir de meados do s\u00e9culo IX, atinge tamb\u00e9m a Igreja. A partir do s\u00e9culo X, um anseio por renova\u00e7\u00e3o, vindo de v\u00e1rios setores, principalmente da vida mon\u00e1stica, vai desembocar naquela que ser\u00e1 conhecida como a <em>reforma gregoriana<\/em>. Entre os s\u00e9culos XI e XIII, leigos, cl\u00e9rigos, ortodoxos e hereges, movidos pelas complexas transforma\u00e7\u00f5es que marcaram a sociedade medieval, far\u00e3o ressoar seus clamores por reformas na Igreja e na sociedade. Os mendicantes ser\u00e3o uma resposta eficaz a esse clamor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 O Renascimento Carol\u00edngio: antecedentes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas transforma\u00e7\u00f5es causadas pelas invas\u00f5es no Ocidente a partir do s\u00e9culo VI, muitos bispos passaram a ser chefes polivalentes, aliando \u00e0 fun\u00e7\u00e3o religiosa fun\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais, al\u00e9m de fazer alian\u00e7as com os novos \u201cdonos do poder\u201d. Eram os primeiros ensaios daquela que viria a ser a \u201ccristandade medieval\u201d (LE GOFF, 1983, p.60). O batismo de Cl\u00f3vis (496), marca o in\u00edcio da ascens\u00e3o dos francos no Ocidente. A Igreja vislumbrou, nessa alian\u00e7a, a possibilidade da cria\u00e7\u00e3o do Reino de Deus na terra, inspirada na <em>Civitas Dei<\/em> de Agostinho. A atua\u00e7\u00e3o de Carlos Magno (747-814), rei dos francos a partir de 768, foi marcada por uma s\u00e9rie de reformas pol\u00edticas, culturais e religiosas, denominadas <em>renascimento carol\u00edngeo<\/em>. Tais reformas t\u00eam que ser entendidas \u00e0 luz desta estreita rela\u00e7\u00e3o entre a Igreja de Roma e os governantes francos que, sob o cetro de Carlos, atinge seu \u00e1pice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rei franco Carlomanno e o bispo Bonif\u00e1cio, em sintonia com o bispo de Roma, Zacarias (741-752), haviam empreendido uma reforma na Igreja no reino, combatendo abusos e zelando pela reta observ\u00e2ncia dos preceitos crist\u00e3os. Numa sociedade ainda muito ligada a ritos pag\u00e3os, esperava-se do rei que, tal qual um sacerdote, zelasse pela salva\u00e7\u00e3o do povo a ele confiado. Desde Pepino, o Breve, bispos e abades, com os nobres leigos, ocupavam lugar de destaque na administra\u00e7\u00e3o real. Um \u201cConc\u00edlio Germ\u00e2nico\u201d foi realizado em 742 ou 743, \u201cvisando a salva\u00e7\u00e3o do povo de Deus\u201d. A efic\u00e1cia dessa salva\u00e7\u00e3o dependia da sintonia dos governantes com a S\u00e9 de Pedro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.1 Coroa\u00e7\u00e3o de Carlos Magno e a Renovatio Imperii<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O advento de Carlos Magno consolidava o longo processo de \u201csubstitui\u00e7\u00e3o\u201d da dinastia merov\u00edngia pela carol\u00edngia, mas seu horizonte de atua\u00e7\u00e3o era a <em>restaura\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio<\/em> no Ocidente. Para isso, era fundamental a alian\u00e7a do trono com o altar. Sua coroa\u00e7\u00e3o em Roma como \u201crei dos romanos\u201d, pelo papa Le\u00e3o III, na noite de natal de 800, simbolizava o renascimento do antigo Imp\u00e9rio. A coroa\u00e7\u00e3o tinha a forma de uma consagra\u00e7\u00e3o episcopal. Ungido com o mesmo \u201c\u00f3leo sagrado\u201d que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, ungira Cl\u00f3vis, Carlos considerava-se um novo Constantino e o seu seria o novo Imp\u00e9rio Romano. Diante dos protestos dos orientais, cujo trono no ano 800 era ocupado por uma mulher, os sucessores de Carlos v\u00e3o reivindicar para o imp\u00e9rio carol\u00edngio \u201ca plena legitimidade de proclamar-se imp\u00e9rio romano, baseando-se no conceito da <em>translatio<\/em> do poder imperial dos Romanos aos Francos\u201d (GASPARRI, SALVO &amp; SIMONI, 1992, p.378). Na concep\u00e7\u00e3o carol\u00edngia de poder, Igreja e Estado n\u00e3o eram realidades separadas. Agindo como chefe do reino e da Igreja, Carlos sentia-se, de fato, rei e sacerdote, Vig\u00e1rio de Cristo tal como o Papa. Nas assembleias do reino, autoridades civis e religiosas discutiam assuntos pol\u00edticos e eclesi\u00e1sticos. As resolu\u00e7\u00f5es sobre a liturgia, a moral, educa\u00e7\u00e3o e disciplina do clero, nomea\u00e7\u00e3o de bispos e abades eram transformadas em leis do imp\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>2.2 A Reforma Carol\u00edngea<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carlos continuou o projeto de Pepino, mas foi al\u00e9m, ao conceber um plano que iria remodelar a cultura, a religi\u00e3o e os saberes. Para isso, contou com os maiores expoentes da cultura do Ocidente. O pal\u00e1cio em Aquisgrana tornou-se a sede do saber carol\u00edngio e dos \u201cs\u00e1bios palatinos\u201d, poetas, escritores, cientistas, historiadores, homens c\u00e9lebres pelo seu conhecimento e intelig\u00eancia, nas mais variadas \u00e1reas: Paulo Di\u00e1cono, o leigo Eginardo, Teodolfo de \u00d3rleans, Pedro de Pisa, eram alguns destes homens. O ingl\u00eas Alcu\u00edno, monge de York, um dos homens mais cultos de seu tempo, colocado \u00e0 frente da escola palatina, tornou-se o principal mentor da reforma (GARCIA-VILLOSLADA, 1986, p.262-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 789, com a <em>Admonitio Generalis<\/em>, conjunto de normas elaboradas por Alcu\u00edno em vista da reforma, Carlos ordena a abertura de escolas em todo o reino, nos mosteiros, bispados e nas zonas rurais. O objetivo das reformas era, a princ\u00edpio, preparar os pastores para que pudessem bem instruir o povo, mas tamb\u00e9m para benef\u00edcio da nobreza carol\u00edngia, formada nessas escolas. Os cl\u00e9rigos deveriam aprender o latim, para celebrar corretamente a liturgia; deveriam saber de mem\u00f3ria ao menos o Credo e o Pai-Nosso, deveriam entender as ora\u00e7\u00f5es da missa e os salmos, saber \u201cler\u201d as homilias e algumas partes das Escrituras. Aqueles que n\u00e3o se mostrassem suficientemente instru\u00eddos seriam depostos. O clero deveria ser instru\u00eddo, mas tamb\u00e9m virtuoso: que fossem celibat\u00e1rios, n\u00e3o participassem de ca\u00e7adas ou guerras (GATTO, 1995, p.153-6.) Numa carta dirigida ao abade de Fulda, Carlos afirmava que recebia dos monges cartas cheias de devo\u00e7\u00e3o, mas \u201cnum estilo grosseiro e cheias de erros, por causa da sua neglig\u00eancia para instruir-se\u201d. Afirmava tamb\u00e9m que precisava de homens que tivessem ao mesmo tempo \u201cvontade e poder de se instruir e a vontade de instruir os outros. N\u00f3s desejamos que v\u00f3s sejais, como conv\u00e9m aos soldados da Igreja, primeiro devotos e depois s\u00e1bios\u201d (Pedrero-S\u00e1nchez, 1999, p.170-1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alcu\u00edno elaborou um curr\u00edculo para as escolas dos mosteiros e catedrais, propondo o estudo das artes liberais como proped\u00eautico ao estudo da B\u00edblia. A ileg\u00edvel escrita merov\u00edngia foi substitu\u00edda pela min\u00fascula carol\u00edngia. Os mosteiros transformaram-se em importantes centros de cultura. Al\u00e9m do ensino, nos <em>scriptoria<\/em> eram copiados c\u00f3dices antigos, com miniaturas e iluminuras. Carlos tamb\u00e9m incentivou a ado\u00e7\u00e3o da Regra de S\u00e3o Bento para os monges, e a vida can\u00f4nica para os sacerdotes seculares. A liturgia romana tornou-se a refer\u00eancia para as celebra\u00e7\u00f5es no reino. Carlos conseguiu do papa Adriano (772-795) um sacrament\u00e1rio gregoriano como modelo para a liturgia. Seus melhores cantores foram enviados \u00e0 capela papal, em Roma, para aprenderem o canto gregoriano, e difundi-lo no reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o aos fi\u00e9is, exigia-se o pagamento do d\u00edzimo, a frequ\u00eancia \u00e0 missa dominical, o repouso dominical, a frequ\u00eancia aos sacramentos, principalmente a Eucaristia em algumas \u00e9pocas do ano. Isso exigiu uma melhor organiza\u00e7\u00e3o das par\u00f3quias e dioceses. Peregrina\u00e7\u00f5es, culto \u00e0s rel\u00edquias e aos santos aos poucos foram sendo incrementadas. O esp\u00edrito de reforma vai influenciar tamb\u00e9m a pintura, a arquitetura, as artes decorativas. A catedral de Aquisgrana \u00e9 um testemunho do alto esp\u00edrito art\u00edstico que marcou esse per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O renascimento carol\u00edngio marca o \u00e1pice na aproxima\u00e7\u00e3o entre a Igreja de Roma e os soberanos francos. Carlos Magno vai sintetizar o modelo do rei-sacerdote. As reformas ser\u00e3o continuadas por seu sucessor, Lu\u00eds, o Piedoso, estendendo por todo o Ocidente um renovamento cultural baseado na mentalidade crist\u00e3. O surgimento das Universidades, a melhora no n\u00edvel intelectual e moral do clero e religiosos, a preserva\u00e7\u00e3o do rico patrim\u00f4nio liter\u00e1rio do mundo greco-romano, ser\u00e3o alguns dos frutos deste renascimento. A partir do s\u00e9culo XI uma nova consci\u00eancia acerca da natureza e identidade da Igreja, diferente dos poderes temporais, come\u00e7a a surgir e a ganhar terreno, principalmente nos mosteiros, dando origem \u00e0quela que ser\u00e1 conhecida como a reforma gregoriana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Antecedentes \u00e0 Reforma Gregoriana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201creforma gregoriana\u201d, que deve seu nome ao papa Greg\u00f3rio VII (1073-1085), tornou-se, a partir de meados do s\u00e9culo XX, objeto de uma verdadeira \u201crevis\u00e3o historiogr\u00e1fica\u201d, tal a riqueza de nuances que este per\u00edodo hist\u00f3rico oferece ao estudioso (Rust, Silva &amp; FRAZ\u00c3O, 2009, p.135-52; RUST, 2014). Turbul\u00eancias pol\u00edticas, invas\u00f5es e novas demandas sociais marcaram o Ocidente a partir de meados do s\u00e9culo IX. Em 962, a coroa\u00e7\u00e3o do imperador Ot\u00e3o I pelo papa traz um novo impulso \u00e0s institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e eclesi\u00e1sticas, \u00e0s atividades intelectuais e culturais, a ponto de esse per\u00edodo ser denominado de \u201cnovo renascimento\u201d (Verger, 1997, p.13-26; LE GOFF, 1983, p.53).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o advento de Ot\u00e3o, a alian\u00e7a entre o poder pol\u00edtico e o clero se fortalece. O soberano tinha o direito de investir os cl\u00e9rigos e conceder-lhe benef\u00edcios. N\u00e3o se tratava de uma ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, mas o imperador, atrav\u00e9s da \u201cinvestidura\u201d, conferia ao eleito o cargo civil e religioso, simbolizados pela entrega do anel e do b\u00e1culo. No fim do s\u00e9culo X, os bispos-condes e abades gozavam de imenso poder, verdadeiros senhores feudais, cujo cargo n\u00e3o era conferido pelos dotes morais, mas somente pela fidelidade ao soberano. Isto dava origem a abusos. Os problemas mais graves eram o <em>nicola\u00edsmo<\/em> (clero casado ou em concubinato, com filhos), e a <em>simonia<\/em>, quando bispados, mosteiros e abadias (os <em>benef\u00edcios eclesi\u00e1sticos<\/em>), eram concedidos mediante pagamento. Em Roma, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era muito diferente, com nobres romanos disputando com viol\u00eancia a S\u00e9 de Pedro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XI, sinais de contesta\u00e7\u00e3o a esse modelo pol\u00edtico eclesi\u00e1stico come\u00e7am a surgir. Os mosteiros, por sofrerem menos as investidas do poder temporal, s\u00e3o o meio privilegiado onde se reflete sobre a necessidade de reforma. Cluny (910), Brogne (929), Gorze (933), s\u00e3o apenas alguns destes mosteiros, que primavam pela severa disciplina e a seriedade no seguimento da Regra de S\u00e3o Bento e que, com excelentes abades, tiveram efeitos ben\u00e9ficos sobre toda a Igreja. Greg\u00f3rio VII (1073-1085), principal nome da <em>reforma gregoriana<\/em>, era pr\u00f3ximo dos cluniacenses. Urbano II (1088-1099), um dos maiores papas medievais, saiu das fileiras de Cluny. Pedro, o Vener\u00e1vel, e o monge e cardeal Humberto, conselheiros dos papas, eram monges cluniacenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos foi crescendo a percep\u00e7\u00e3o de que simonia, nicola\u00edsmo e investiduras leigas eram quest\u00f5es intr\u00ednsecamente conexas, condicionando e limitando a atua\u00e7\u00e3o da Igreja, desfigurando assim sua verdadeira fisionomia. Antes da irrup\u00e7\u00e3o de Greg\u00f3rio VII, v\u00e1rios bispos e papas atuaram no combate a esses males.\u00a0 Cercando-se de colaboradores entusiastas da reforma, convocavam s\u00ednodos, visitavam as dioceses, onde defendiam a autonomia e a liberdade da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.1 O Cisma de 1054<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O per\u00edodo da Reforma Gregoriana \u00e9 marcado tamb\u00e9m pela cis\u00e3o entre a Igreja do Oriente e do Ocidente, conhecida como o Cisma de 1054. Com o advento de Miguel Celur\u00e1rio como Patriarca de Constantinopla (1043-1054), e com as reformas no Ocidente, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao celibato, as diferen\u00e7as entre latinos e gregos, latentes desde o s\u00e9culo VIII, se acentuaram. Ap\u00f3s medidas repressoras contra os crist\u00e3os latinos por parte de Miguel, incluindo o fechamento de igrejas, o cardeal Humberto da Silva C\u00e2ndida elaborou o op\u00fasculo <em>Adversus graecorum calumnias<\/em>, assinado pelo papa Le\u00e3o IX (1049-1054). Em tom pol\u00eamico, o escrito defendia o Primado papal, argumentando com a <em>Donatio Constantini<\/em>, desconhecida dos gregos. A pedido do Imperador Bizantino, uma delega\u00e7\u00e3o romana foi a Constantinopla para entabular um di\u00e1logo. O cardeal Humberto, no entanto, chefe da delega\u00e7\u00e3o, agiu mais como juiz do que como portador da paz. Seu tom duro e amea\u00e7ador fez com que Miguel Celur\u00e1rio se recusasse a participar das discuss\u00f5es. Depois de alguns meses, Humberto e os demais, tendo recebido a not\u00edcia da morte de Le\u00e3o IX, antes de partir, no dia 16 de julho de 1054, depositaram no altar da igreja de Santa Sofia uma bula de excomunh\u00e3o contra o Patriarca e seus seguidores. Esse, por sua vez, convocou um S\u00ednodo para a mesma igreja, e no dia 24 de julho tamb\u00e9m excomungou o cardeal Humberto e os demais delegados, queimando a bula. Embora as diferen\u00e7as dogm\u00e1ticas e disciplinares fossem s\u00e9rias, o tr\u00e1gico desfecho foi tamb\u00e9m resultado \u00a0de um longo processo de distanciamento cultural, al\u00e9m do esp\u00edrito intransigente dos dois principais protagonistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>3.2 A Reforma Gregoriana<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1049, um s\u00ednodo na cidade de Reims, promovido pelo papa Le\u00e3o IX (1049-1054) condenava duramente a investidura leiga. Em 1059, Humberto da Silva C\u00e2ndida na obra <em>Adversus Simoniacos<\/em>, tamb\u00e9m negava aos reis o direito de investidura. Aos poucos se impunha um novo conceito na rela\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o imp\u00e9rio, que indicava para uma nova defini\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conceito de Igreja, de separa\u00e7\u00e3o entre a sacralidade do clero e a secularidade dos leigos. Esses \u00faltimos deveriam ser exclu\u00eddos de qualquer interven\u00e7\u00e3o direta na esfera eclesi\u00e1stica. Na verdade, esta concep\u00e7\u00e3o fundava-se na ideia de que o Sumo Pont\u00edfice deveria estar no topo da sociedade, e n\u00e3o o imperador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo que assumiu, Greg\u00f3rio VII reafirmou as medidas de reforma. Seu <em>Dictatus Papae<\/em>, verdadeiro libelo reformador, deixava clara sua concep\u00e7\u00e3o sobre a natureza da Igreja: o papa, enquanto m\u00e1xima autoridade, podia depor o imperador, atrav\u00e9s da excomunh\u00e3o. Podia tamb\u00e9m desligar os s\u00faditos de seu juramento de fidelidade a um soberano injusto (Pedrero-S\u00e1nchez, 1999, p.128-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1075, Henrique IV (1050-1106), antes de ser coroado imperador, nomeara o bispo para a sede de Mil\u00e3o, embora esta n\u00e3o estivesse vacante. Amea\u00e7ado de excomunh\u00e3o, Henrique reagiu, nomeando outros tr\u00eas bispos, e declarou que Greg\u00f3rio, \u201cfalso monge\u201d, estava deposto. Greg\u00f3rio o excomungou. Sucederam-se duros libelos de ambas as partes. Os vassalos de Henrique, aproveitando da situa\u00e7\u00e3o, abandonaram-no. Isolado, o rei dirigiu-se a Canossa, onde encontrava-se o papa, em viagem \u00e0 Alemanha. Ali, em 1077, depois de penitenciar-se, pediu e recebeu o perd\u00e3o papal. De volta \u00e0 Alemanha, acalmados os \u00e2nimos, Henrique convocou um conc\u00edlio em 1080, onde reafirmou as prerrogativas imperiais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s investiduras leigas, e nomeou o antipapa, Guilberto, arcebispo de Ravena (Clemente III &#8211; 1080-1100). Em seguida, invadiu Roma. Greg\u00f3rio VII refugiou-se em Salerno, onde morreu em 1085.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00eamica ocupou os canonistas, que buscavam solu\u00e7\u00f5es ao impasse. Os sucessores de Greg\u00f3rio continuaram no caminho da reforma, mas foram mais realistas e abertos ao di\u00e1logo. O papa Pascal II buscou um acordo com Henrique V, por ocasi\u00e3o de sua coroa\u00e7\u00e3o, em 1111, mas o futuro imperador encarcerou o papa e alguns cardeais, e conseguiu arrancar deles o direito de investidura com anel e b\u00e1culo, al\u00e9m da coroa\u00e7\u00e3o. Henrique V foi excomungado, mas o caminho para a solu\u00e7\u00e3o estava aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Concordata de Worms (1122) vai propor a solu\u00e7\u00e3o \u00e0 controv\u00e9rsia. Com a entrega do anel e do b\u00e1culo, a Igreja investia o eleito nos cargos eclesi\u00e1sticos. A nomea\u00e7\u00e3o, no entato, deveria ser feita na presen\u00e7a do imperador ou de seu representante. Esse, por sua vez, atribu\u00eda ao escolhido o poder temporal, com a entrega do cetro (Pedrero-S\u00e1nchez, 1999, p.132). No 1\u00ba Conc\u00edlio do Latr\u00e3o, em 1123, a Concordata de Worms foi reconfirmada. A Concordata n\u00e3o p\u00f4s fim aos conflitos entre a Igreja e imp\u00e9rio, mas foram colocadas as bases jur\u00eddicas para a delimita\u00e7\u00e3o dos poderes temporal e espiritual. Por outro lado, passou-se a identificar cada vez mais a Igreja com o clero e o papa, enquanto os poderes laicos assumiram, paulatinamente, a consci\u00eancia da pr\u00f3pria autonomia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Contestadores, hereges e ortodoxos nos s\u00e9culos XI-XIII: Contexto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de fins do s\u00e9culo XI at\u00e9 meados do s\u00e9culo XIII apareceram, por todo o Ocidente, monges, leigos, cl\u00e9rigos, que, com um zelo e vigor renovados, propunham o retorno ao Evangelho e \u00e0 Igreja primitiva. O esfor\u00e7o de \u201cnus seguir o Cristo nu\u201d era expresso atrav\u00e9s da vida comunit\u00e1ria, da prega\u00e7\u00e3o e pobreza volunt\u00e1ria. \u201cA ren\u00fancia ao mundo, seguida pelo isolamento numa vida de ora\u00e7\u00e3o, deixou de ser o \u00fanico caminho para a salva\u00e7\u00e3o\u201d (Bolton, 1986, p.14). Alguns destes grupos, a princ\u00edpio suspeitos de heresia, conseguiram inserir-se na Igreja, renovando-a a partir de dentro. Outros, mais radicais, colocavam em xeque a doutrina, e acabaram sendo perseguidos e eliminados. A prega\u00e7\u00e3o, proibida aos leigos, era o ponto principal de conflito. Um terceiro grupo defendia teses essencialmente her\u00e9ticas, e desde o princ\u00edpio foram combatidos pela Igreja. A bula <em>Ad Abolendam<\/em>, de 1184, prescrevia a excomunh\u00e3o a \u201ccondes, bar\u00f5es, reitores e c\u00f4nsules, das cidades e outros lugares\u201d, que n\u00e3o se empenhassem na repress\u00e3o \u00e0 heresia. Suas terras seriam colocadas sob interdi\u00e7\u00e3o (Merlo, 1989, p.86)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surgimento desses movimentos deve-se a uma s\u00e9rie de fatores, entre eles o el\u00e3 reformador da <em>reforma gregoriana<\/em>, a urbaniza\u00e7\u00e3o incipiente, o surgimento da burguesia e do com\u00e9rcio, com maior circula\u00e7\u00e3o de riqueza, e o acentuar-se dos problemas sociais, que colocava em xeque o antigo sistema feudal. No campo cultural tamb\u00e9m h\u00e1 novo florescimento, com o surgimento das universidades e a circula\u00e7\u00e3o de novas ideias, al\u00e9m da amplia\u00e7\u00e3o dos horizontes, com as peregrina\u00e7\u00f5es e cruzadas. Jacques Verger afirma que \u201c\u00e9 incontest\u00e1vel que o s\u00e9culo XII foi, com maior ou menor precocidade e intensidade, (&#8230;) praticamente em todo o Ocidente, um tempo de muta\u00e7\u00e3o e de impulso no plano cultural\u201d (VERGER, 2001, p. 17). Estes s\u00e3o \u00a0apenas alguns elementos de contexto que constitu\u00edram o terreno fecundo para o surgimento destes grupos contestat\u00f3rios. Some-se a isso o fato de que, em contraposi\u00e7\u00e3o a um grupo de pessoas que ansiava por uma vida evang\u00e9lica e crist\u00e3 exemplar, havia uma Igreja poderosa, rica e mundana, incapaz de corresponder aos anseios destes setores (Falbel, 1976, p.14-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.1 Ortodoxos<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os protagonistas da reforma encontram-se v\u00e1rios membros do clero. Vital de Savigny (+1123), Bernardo de Tiron (1046-1117), Estev\u00e3o de Muret (1045\u00b1-1124), Roberto de Arbrissel (1047-1117), Norberto de Xanten (1080\u00b1-1134), entre outros, tinham em comum o fato de, renunciando a uma vida c\u00f4moda e bem sucedida, deixarem tudo e passarem a viver uma vida austera de pobreza, ora\u00e7\u00e3o e penit\u00eancia. Al\u00e9m disso, eram grandes pregadores, e atra\u00edam seguidores. Apesar de conflitos com as autoridades eclesi\u00e1sticas, continuaram na Igreja e promoveram a reforma, fundando mosteiros que se tornaram grandes centros irradiadores de espiritualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns movimentos de reforma de origem laical tamb\u00e9m conseguiram se inserir na Igreja. Dentre eles destacam-se os <em>humilhados da Lombardia<\/em>, do norte da It\u00e1lia, divididos em tr\u00eas grupos: comunidade de homens, outra de mulheres, e pessoas vivendo com suas fam\u00edlias. Viviam do trabalho das pr\u00f3prias m\u00e3os e se propunham a observar \u00e0 risca os preceitos evang\u00e9licos e a pobreza volunt\u00e1ria. Os que viviam em comunidade deveriam observar tamb\u00e9m a castidade. Cuidavam dos doentes e pobres, e tamb\u00e9m exerciam a prega\u00e7\u00e3o. Condenados em 1184, recorreram a Inoc\u00eancio III e, ap\u00f3s redigirem uma breve regra, este os aprovou em 1201.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2 Hereges<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Idade M\u00e9dia, a linha que separa a contesta\u00e7\u00e3o dentro dos limites da ortodoxia e a heresia \u00e9 muito t\u00eanue. Alguns pregadores, no anseio da reforma, avan\u00e7avam doutrinas novas e radicais, n\u00e3o necessariamente her\u00e9ticas, mas acabavam entrando em confronto com as autoridades. Nos in\u00edcios do s\u00e9culo XII, destaca-se o eremita Henrique de Lousanne. Convidado a pregar pelo bispo de Mans, em 1116, incitou de tal modo os ouvintes que atacaram o clero. Expulso pelo bispo, continuou a prega\u00e7\u00e3o itinerante. Preso em 1135, enviado a Cluny, fugiu, mas acabou preso e morreu na pris\u00e3o, depois de 1145.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro de Bruys foi outro pregador itinerante, que, com radicalismo e viol\u00eancia, negava toda a materialidade da religi\u00e3o, em favor de uma Igreja espiritual. Incitava seus ouvintes a atacar os sacerdotes, profanar igrejas, tirar crucifixos e queim\u00e1-los. Em 1132, uma rea\u00e7\u00e3o popular o queimou numa fogueira que ele mesmo havia aceso. Outros cl\u00e9rigos que lideraram movimentos de contesta\u00e7\u00e3o poderiam ser citados, como Tanquelmo, assassinado em 1115 por um outro sacerdote, Eon de Stela, morto na pris\u00e3o em 1150; ou o c\u00f4nego Arnaldo de Brescia, que pregava uma Igreja pobre e peregrina, e acabou enforcado e queimado em\u00a0 Roma em 1155.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2.1 Valdenses<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta de 1175, ap\u00f3s uma crise religiosa, o pr\u00f3spero comerciante de Li\u00e3o, Pedro Valdo (\u00b11140-1217), conhecido tamb\u00e9m como Valdo de Li\u00e3o, conseguiu uma tradu\u00e7\u00e3o dos Evangelhos e outros escritos\u00a0 do Novo Testamento, abandonou a fam\u00edlia, doou os bens aos pobres e tornou-se um pregador itinerante. Seus seguidores, conhecidos como valdenses ou os Pobres de Li\u00e3o, viviam a pobreza, a vida em comum e a castidade. Pedro pregava o retorno ao Evangelho, mas tamb\u00e9m criticava o clero indigno e algumas pr\u00e1ticas da Igreja. Afirmava ainda que sua voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o vinha da Igreja, mas do pr\u00f3prio Deus. Um contempor\u00e2neo os descreve: \u201cN\u00e3o possuem casa pr\u00f3pria, caminhando em pares, com os p\u00e9s descal\u00e7os, sem provis\u00f5es; possuem tudo em comum, a exemplo dos ap\u00f3stolos, e seguem desnudos o Cristo desnudo\u201d (Falbel, 1977, p.106). Impedidos de pregar pelo bispo de Lion, recorreram a Roma, em 1179, onde se realizava o 3\u00ba Conc\u00edlio do Latr\u00e3o. O movimento foi aprovado, com a condi\u00e7\u00e3o de que pedissem a autoriza\u00e7\u00e3o dos bispos para pregar. Como os bispos negassem, e mesmo assim eles continuassem pregando, acabaram excomungados em 1184. A partir da\u00ed, o movimento assumiu contornos cada vez mais heterodoxos, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina, com ataques mais duros contra as autoridades religiosas, e a cria\u00e7\u00e3o de uma hierarquia pr\u00f3pria, com bispos, sacerdotes e di\u00e1conos. Uma cis\u00e3o no movimento ocorreu em 1210, acentuada ap\u00f3s a morte de Pedro, em 1217. Dois grupos reconciliaram-se com a Igreja: os <em>Pobres Cat\u00f3licos<\/em>, guiados por Durand de Huesca e o grupo liderado por Bernardo Prim (Bolton, 1986, p.66-70). Dos movimentos her\u00e9ticos medievais, os valdenses foram o \u00fanico que sobreviveu at\u00e9 os tempos modernos, aderindo, posteriormente, \u00e0 Reforma Protestante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>4.2.2 C\u00e1taros<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os c\u00e1taros (do grego <em>katar\u00f3i<\/em>, perfeitos) foram, desde o seu surgimento no s\u00e9culo XI, identificados com a heresia (Falbel, 1976, p. 36-7). Eram conhecidos tamb\u00e9m como albigenses, por sua forte presen\u00e7a na cidade de Albi, na Fran\u00e7a, e no Languedoc (THOUZELLIER, 1969). Al\u00e9m dos elementos comuns aos demais movimentos her\u00e9ticos, distinguiam-se por um acentuado dualismo, que os opunha radicalmente \u00e0 doutrina cat\u00f3lica: aceitavam s\u00f3 o Novo Testamento, negavam a humanidade de Cristo, negavam a Eucaristia. Eles mesmos aben\u00e7oavam o p\u00e3o na ceia. Rejeitavam a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Igreja, considerando a Igreja primitiva a verdadeira Igreja. Os c\u00e1taros tinham adeptos entre as elites senhorais e aos poucos foram ocupando importante espa\u00e7o na sociedade. Foram combatidos, a princ\u00edpio, atrav\u00e9s de debates p\u00fablicos. S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Domingos foram os principais nomes da parte da Igreja, obtendo escasso sucesso. Foram condenados em 1184, pela bula <em>Ad Abolendam<\/em>, e em 1199, com a <em>Vergentis in Senium<\/em>. Em 1209, uma cruzada foi proclamada contra eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Os mendicantes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No contexto destes movimentos de reforma, surgiram alguns grupos que, por viverem de esmolas, foram denominados \u201cmendicantes\u201d. Dois destes se destacam como catalizadores de todo o anseio de renova\u00e7\u00e3o expressos at\u00e9 ent\u00e3o, tornando-se os mais importantes aliados do papado na conten\u00e7\u00e3o da heresia e na difus\u00e3o dos ideais reformadores: \u201cNaquele tempo (&#8230;) no mundo que j\u00e1 envelhecia, nasceram na Igreja, cuja juventude se renova como a da \u00e1guia, duas religi\u00f5es (&#8230;) a dos Frades Menores e a dos Pregadores\u201d (TEIXEIRA, 2004, p. 1431).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.1 <\/strong><strong>Franciscanos<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filho de um rico mercador de Assis, Francisco (1181\/2-1226) buscou o sucesso nas armas, mas, convertido, passou a viver a pobreza evang\u00e9lica como penitente e pregador itinerante, e logo conseguiu adeptos. Francisco amava, sobretudo, a pobreza evang\u00e9lica, mas a fraternidade tornou-se tamb\u00e9m um diferencial de seu movimento: \u201cE depois que o Senhor me deu irm\u00e3os, (&#8230;) o alt\u00edssimo mesmo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho\u201d (Teixeira, 2004, p.189). Seu modelo n\u00e3o era a Igreja dos ap\u00f3stolos, mas o pr\u00f3prio Cristo. Por outro lado, n\u00e3o atacava o clero e demonstrava um reverente respeito \u00e0 Igreja e \u00e0 hierarquia (BARROS, 2012, p.177). A coer\u00eancia entre prega\u00e7\u00e3o e vida atraiu seguidores. Nos in\u00edcios de 1209, Francisco submeteu ao papa Inoc\u00eancio III um programa de vida, que foi aprovado oralmente, permitindo-lhes exercer a prega\u00e7\u00e3o exortativa: estava fundada a Ordem dos Frades Menores. Em 1212, a jovem Clara, de Assis, foi admitida ao grupo. As clarissas, vivendo em clausura, tornaram-se o ramo feminino do franciscanismo. Homens e mulheres, c\u00e9libes e casados tamb\u00e9m aderiram \u00e0 \u201cfraternidade\u201d, seguindo uma regra pr\u00f3pria. A regra definitiva dos franciscanos foi aprovada em 1223. Francisco enviou seus disc\u00edpulos em miss\u00e3o por todo o Ocidente, e surgiram os inevit\u00e1veis problemas institucionais e disciplinares. Quando morreu, em 1226, a Ordem estava em franca expans\u00e3o, mas os frades encontravam-se numa encruzilhada, entre manter-se fi\u00e9is aos ideais do fundador e seus primeiros companheiros, ou assumir as miss\u00f5es que a Igreja aos poucos lhes confiava. Assumindo os \u201cmenores\u201d posi\u00e7\u00f5es de poder e comando, a \u201csant\u00edssima pobreza\u201d inevitavelmente seria colocada em xeque. Por todo o s\u00e9culo XIII e XIV, a Ordem vai passar por uma grande evolu\u00e7\u00e3o, tornando-se um dos principais sustent\u00e1culos da miss\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.2 Dominicanos<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Domingos de Gusm\u00e3o (1175-1221), nobre cl\u00e9rigo espanhol, depois de uma viagem \u00e0 Alemanha com seu bispo, Diego de Azeb\u00e8s, ficou impressionado com o avan\u00e7o da heresia. No regresso \u00e0 Espanha, em 1206, admirados com a ostenta\u00e7\u00e3o e o luxo exagerado dos legados papais, contrastando com a pobreza e frugalidade de vida dos hereges que tentavam, em v\u00e3o, converter, comentaram com os legados: \u201cN\u00e3o \u00e9 este, irm\u00e3os, a meu ver, n\u00e3o \u00e9 este o caminho&#8230; com um espet\u00e1culo contr\u00e1rio edificareis pouco, destruireis muito e n\u00e3o obtereis nada\u201d (GELABERT &amp; MILAGRO, 1947, p.172-3) Os dois decidiram pregar em pobreza e itiner\u00e2ncia, na regi\u00e3o do Languedoc, sul da Fran\u00e7a, famosa por ser um reduto de hereges. Em 1207, um grupo se converteu em Montreal. No mesmo ano, fundam uma comunidade em Prouille, para acolher mulheres c\u00e1taras convertidas. Diego, por sua vez, conseguia uma importante vit\u00f3ria em Palmiers, com a convers\u00e3o dos <em>Pobres Cat\u00f3licos<\/em>, valdenses guiados por Durand de Huesca. Ap\u00f3s a morte de Diego, Domingos criou uma pequena comunidade de pregadores que foi aprovada no IV Conc\u00edlio do Latr\u00e3o com o nome de Ordem dos Pregadores, seguindo a Regra de Santo Agostinho. Domingos concluiu as Constitui\u00e7\u00f5es em 1221, acentuando a pobreza individual e em comum. Os Pregadores se dedicavam ao estudo em grandes centros universit\u00e1rios, em vista da prega\u00e7\u00e3o. A austeridade de vida e o ardor apost\u00f3lico atra\u00edram novos membros. Algumas comunidades femininas se juntaram \u00e0 Ordem. Quando Domingos morreu, em 1221, a Ordem estava em franco processo de expans\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>5.3 Originalidade de Francisco e Domingos<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Domingos e Francisco conseguiram dar uma resposta \u201ccat\u00f3lica\u201d aos anseios de reforma que de toda a parte surgiam. Ao contr\u00e1rio das ordens religiosas tradicionais, ambos mostraram uma abertura ao mundo que queriam evangelizar (LAWERENCE, 1998, p.9;\u00a0 LITTLE, 1978, 168-9). A mobilidade era uma de suas principais caracter\u00edsticas. Embora Francisco elabore uma regra original e Domingos seja obrigado a assumir a regra agostiniana, ambas as funda\u00e7\u00f5es t\u00eam como alicerce o desejo de dedicar-se de corpo e alma \u00e0 salva\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os, atrav\u00e9s da prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, pobre, itinerante. Por isso, embora vivendo em comunidades, o \u201cmundo era o seu claustro\u201d. Diferentemente de Francisco, que demonstra reserva quanto aos estudos acad\u00eamicos, Domingos exige de seus frades uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica ideal, em vista da prega\u00e7\u00e3o. Ainda durante a vida de Francisco, por\u00e9m, seus frades v\u00e3o come\u00e7ar a inserir-se no mundo acad\u00eamico, e aos poucos os membros das duas Ordens v\u00e3o estar lado a lado nas universidades, ora defendendo os mesmos ideais, ora em campos opostos, mas sempre buscando atender \u00e0s urgentes necessidades da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Frei Sandro Roberto da Costa, OFM. <\/em>Instituto Teol\u00f3gico de Petr\u00f3polis, RJ. Texto original Portugu\u00eas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>BARROS, J. D. <em>Papas, imperadores e hereges na idade m\u00e9dia<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bolton, B. <em>A reforma na Idade M\u00e9dia<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FALBEL, N. <em>Heresias Medievais<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Perspectiva, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GARCIA-VILLOSLADA, R. Historia de la Iglesia Cat\u00f3lica II: Edad Media (800-1303). La cristiandad em el mundo europeo y feudal. In: LLORCA, B.; GARCIA-VILLOSLADA, R.; LABOA, J. M. <em>Historia de la Iglesia Cat\u00f3lica em sus cinco edades: <\/em>Antigua, Media, Nueva, Moderna y contempor\u00e2nea. \u00a05.ed. Madrid: Biblioteca Autores Cristianos (BAC) 104, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GASPARRI, S.; DI SALVO, A.; SIMONI, F. <em>Fonti per la storia medievale<\/em>. Dal V all\u2019XI secolo. Firenze: Sansoni Editore, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GATTO, L. <em>Il medioevo nelle sue fonti<\/em>. Bologna: Monduzzi Editore, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JORD\u00c1N DE SAJONIA. Or\u00edgenes de la Ordem de Predicadores. In: GELABERT, M.; MILAGRO (ORG.)<em> Santo Domingo de Guzm\u00e1n visto por sus contempor\u00e2neos. <\/em>Madrid: Biblioteca Autores Cristianos (BAC) 22, 1947, p.163-216.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LAWERENCE, C.H. <em>I mendicanti: <\/em>I nuovi ordini religiosi nella societ\u00e0 medievale. Torino: San Paolo, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LITTLE, L. K. <em>Religious poverty and the profit economy in medieval Europe<\/em>. London: Paul Elek London, 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le Goff, J. <em>A civiliza\u00e7\u00e3o do Ocidente medieval<\/em>. 2v. Lisboa: Estampa, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Merlo, G. G. <em>Eretici ed eresie medievali<\/em>. Bologna: Il Mulino\/Universale Paperbacks, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MONDONI, D. <em>O Cristianismo na Idade M\u00e9dia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PEDRERO-S\u00c1NCHEZ, M. G. <em>Hist\u00f3ria da Idade M\u00e9dia<\/em>: textos e testemunhas. S\u00e3o Paulo: Unesp, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rust, L. D.; Silva, A. C. L. Fraz\u00e3o da. A Reforma Gregoriana: trajet\u00f3rias historiogr\u00e1ficas de um conceito. <em>Hist\u00f3ria da historiografia<\/em>, Ouro Preto, n.3, p.135-52, setembro 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUST, L. D. <em>A reforma papal<\/em> <em>(1050-1150).<\/em> Cuiab\u00e1: Edufmt, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Verger, J. <em>Il Rinascimento del XII secolo<\/em>. Mil\u00e3o: ISTM\/Jaca Book, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. <em>Cultura, ensino e sociedade no Ocidente nos s\u00e9culos XII e XIII<\/em>. Bauru: Edusc, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TEIXEIRA, C. M. (org.) <em>Fontes Franciscanas e Clarianas<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes\/FFB, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">THOUZELLIER, C. <em>Catharisme et vald\u00e9isme en Languedoc \u00e0 la fin du XII<sup>e<\/sup> et au d\u00e9but du XIII<sup>e<\/sup> si\u00e8cle<\/em>. 10.ed. Louvain\/Paris: Nawelaerts, 1969.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Introdu\u00e7\u00e3o 2 O Renascimento Carol\u00edngeo: antecedentes 2.1 Coroa\u00e7\u00e3o de Carlos Magno e a Renovatio Imperii 2.2 A Reforma Carol\u00edngea 3 Antecedentes \u00e0 Reforma Gregoriana 3.1 A Reforma Gregoriana 4 Contestadores, hereges e ortodoxos nos s\u00e9culo XI-XIII: Contexto 4.1 Ortodoxos 4.2 Hereges 4.2.1 Valdenses 4.2.2 C\u00e1taros 5 Mendicantes 5.1 Franciscanos 5.2 Dominicanos 5.3 Originalidade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-1395","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-teologia-e-do-cristianismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1395"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1395\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1401,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1395\/revisions\/1401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}