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{"id":1349,"date":"2016-12-30T08:39:35","date_gmt":"2016-12-30T10:39:35","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1349"},"modified":"2016-12-30T08:39:35","modified_gmt":"2016-12-30T10:39:35","slug":"ascese-paga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1349","title":{"rendered":"Ascese pag\u00e3"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O conceito de ascese<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Ascese pag\u00e3<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 Pit\u00e1goras e \u00f3rficos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 S\u00f3crates<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3 Plat\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.4 C\u00ednicos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.5 Estoicos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Conclus\u00f5es<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>1 O conceito de ascese<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>O\u00a0termo ascese prov\u00e9m do grego <em>\u00e1skesis<\/em> e seu sentido b\u00e1sico \u00e9 de exerc\u00edcio. Oriundo do \u00e2mbito do atletismo, o termo tem rela\u00e7\u00f5es estreitas com todos os termos relativos a esfor\u00e7o, disciplina e trabalho com vistas a se adquirir uma determinada habilidade, como os termos <em>mel\u00e9te, gymnastik\u00e9<\/em> etc. A transposi\u00e7\u00e3o de um \u00e2mbito do treinamento corp\u00f3reo para o treinamento moral\/espiritual se d\u00e1 explicitamente pelos c\u00ednicos, como veremos a seguir. Neste \u00e2mbito moral e espiritual, o conceito de ascese gira em torno da rela\u00e7\u00e3o humana com seus pr\u00f3prios desejos e impulsos, podendo ser 1) uma rela\u00e7\u00e3o de nega\u00e7\u00e3o total do desejo e dos instintos da vida animal, com a supress\u00e3o ao m\u00ednimo poss\u00edvel das necessidades do corpo ou 2) um redirecionamento do desejo e dos impulsos para seu aproveitamento em busca de uma evolu\u00e7\u00e3o moral ou espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, ter\u00edamos dois polos nas defini\u00e7\u00f5es de ascese, ambos baseados em uma ideia de treinamento humano em rela\u00e7\u00e3o aos seus desejos com vistas a um aprimoramento moral e espiritual. No primeiro, uma ren\u00fancia, repress\u00e3o e mortifica\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias e impulsos corp\u00f3reos; no segundo, um refinamento e um redirecionamento do desejo inicialmente vinculado ao mundo humano e mortal, para que ele se volte em dire\u00e7\u00e3o ao espiritual e eterno, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>vita contemplativa<\/em>, seja contemplando as ideias (pag\u00e3-neoplat\u00f4nica) seja na <em>unio m\u00edstica<\/em> (crist\u00e3), com a experi\u00eancia da presen\u00e7a de Deus. De acordo com o <em>Dictionnaire de Spiritualit\u00e9<\/em>, grande parte dos estudiosos crist\u00e3os tendem a definir a ascese no primeiro sentido, mas estudos mais modernos como aqueles apresentados em Wimbush e Valantasis (1995) ressaltam o segundo sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, o conceito de treinamento tem rela\u00e7\u00f5es tanto com o \u00e2mbito atl\u00e9tico quanto com o \u00e2mbito militar, pois a ascese est\u00e1 vinculada a um treino para uma luta contra princ\u00edpios mal\u00e9ficos aos homens, como as famosas lutas contra dem\u00f4nios dos primeiros monges do deserto (Santo Ant\u00e3o, Pac\u00f4mico etc, secs. IV e V; ver ATANASIO, 2002). Ascese \u00e9 tudo aquilo que, na vida espiritual, \u00e9 exerc\u00edcio, esfor\u00e7o e luta contra si e contra as tenta\u00e7\u00f5es exteriores, visando o aperfei\u00e7oamento de habilidades espirituais. A ascese normalmente \u00e9 vista como a etapa de purga\u00e7\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias viciosas, a etapa de prepara\u00e7\u00e3o para a vida espiritual mais intensa da experi\u00eancia m\u00edstica. Poderia se relacionar a ascese com a <em>pr\u00e1xis<\/em> do homem espiritual, sua vida de trabalho di\u00e1rio e cuidado com o pr\u00f3ximo. J\u00e1 o aspecto da <em>theoria<\/em> desta vida, seu aspecto contemplativo, seria composto pelas experi\u00eancias espirituais, de proximidade com o divino, a <em>unio mystica<\/em>. Assim, a ascese \u00e9 um caminho para a m\u00edstica, como a cruz pode ser pensada como o caminho para a ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo na primeira forma de se definir a ascese, em seu aspecto de nega\u00e7\u00e3o radical dos desejos, h\u00e1 o alerta para o perigo de um excesso na tend\u00eancia de autonega\u00e7\u00e3o. O <em>Dictionnaire de Spiritualit\u00e9 <\/em>relata a heresia asc\u00e9tica, em que a vis\u00e3o mais negativa da ascese chega a extremos repudiados por diversas inst\u00e2ncias do pr\u00f3prio cristianismo nascente (VILLER, 1935, p.936)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Ascese Pag\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a obra de Pierre Hadot (edi\u00e7\u00e3o francesa em 1987, no Brasil em 2014), toda a hist\u00f3ria da filosofia grega tem sido reinterpretada \u00e0 luz do fato de ela ser uma <em>forma de vida<\/em>. Trata-se de pensar a filosofia antiga como composta de escolas de forma\u00e7\u00e3o de seres humanos completos, moralmente educados, em que determinados exerc\u00edcios espirituais seriam centrais para a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter. O pr\u00f3prio Hadot nos diz que retirou o termo <em>exerc\u00edcios espirituais<\/em> de Ign\u00e1cio de Loyola, e trasp\u00f4s este conceito para se pensar o processo de aprendizado das escolas filos\u00f3ficas gregas. Assim, podemos interpretar toda a filosofia grega como constru\u00edda por m\u00e9todos asc\u00e9ticos (m\u00e9todos de exerc\u00edcio e disciplina) de aprimoramento espiritual e o cristianismo, quando nasce, absorve claramente essas pr\u00e1ticas em suas pr\u00f3prias pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas (ver, por exemplo, o termo <em>apathe\u00eda,<\/em> de Ev\u00e1grio, retirado explicitamente dos estoicos). Um conhecimento pr\u00e9vio dos pontos principais da ascese grega \u00e9 fundamental para uma correta compreens\u00e3o da ascese crist\u00e3. A filosofia grega constr\u00f3i diversos tipos de exerc\u00edcios espirituais, todos fundados na ideia de algum tipo de controle dos desejos para que ocorra o aprimoramento moral humano. Pode-se dizer que a ascese grega, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ascese crist\u00e3, \u00e9 mais intelectual, voltando-se para um treinamento das capacidades cognitivas humanas, com alguma repercuss\u00e3o no relacionamento com os desejos corp\u00f3reos. J\u00e1 ascese crist\u00e3, especialmente aquela praticada pelos padres do deserto (Santo Ant\u00e3o, Pac\u00f4mio etc), \u00e9 mais claramente direcionada ao controle dos desejos corp\u00f3reos (sexo, comida, bebida), apesar de o exerc\u00edcio da leitura e da escrita, por exemplo, tamb\u00e9m ser praticado pelos monges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1 Pit\u00e1goras e \u00f3rficos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta do final do s\u00e9culo VI e in\u00edcio do s\u00e9culo V aC, formaram-se grupos no sul da It\u00e1lia, alguns chamados pitag\u00f3ricos e outros \u00f3rficos (vinculados a Orfeu, poeta mitol\u00f3gico), com pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas. Junto com os cultos de mist\u00e9rios, os pitag\u00f3ricos e os \u00f3rficos acreditavam no ciclo de reencarna\u00e7\u00e3o e que a verdadeira natureza humana seria uma parcela divina, a alma, presa neste corpo como em uma tumba (rela\u00e7\u00e3o entre os termos <em>s\u00f4ma<\/em>, corpo, e <em>s\u00eama<\/em>, tumba, ver <em>Cratilo<\/em> de Plat\u00e3o, 400b-c). A alma humana se encontra nesta situa\u00e7\u00e3o por um erro primordial que deveria ser expiado atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas purificat\u00f3rias. Assim, a filosofia era uma pr\u00e1tica de purifica\u00e7\u00e3o da alma nesta vida com vistas a uma melhor migra\u00e7\u00e3o para outra vida. Tanto o termo <em>philosoph\u00eda<\/em> quanto o termo <em>k\u00e1tharsis<\/em> s\u00e3o oriundos dos grupos pitag\u00f3ricos, e est\u00e3o em estreita rela\u00e7\u00e3o um com o outro. O fil\u00f3sofo, portanto, \u00e9 iniciado em diversos processos de purifica\u00e7\u00e3o, como abstin\u00eancia de sexo e carne, jejuns e vig\u00edlias, para preparar sua alma para compreens\u00f5es m\u00edsticas que purificariam sua alma de impurezas de suas vidas anteriores. <em>\u00a0<\/em>(Para as fontes mais antigas do pitagorismo, ver GOUTRIE, 1987. Ver tamb\u00e9m KAHN, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.2 S\u00f3crates<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para boa parte da ascese helen\u00edstica, S\u00f3crates \u00e9 o paradigma principal. A <em>karter\u00eda <\/em>(for\u00e7a de vontade) socr\u00e1tica \u00e9 not\u00f3ria desde a antiguidade, at\u00e9 mesmo naqueles textos que procuram detrat\u00e1-lo (Arist\u00f3fanes, <em>Nuvens <\/em>362). No discurso de Alceb\u00edades, no <em>Banquete<\/em> (215a-222d) de Plat\u00e3o, temos talvez o quadro geral mais fiel para descrever sua autocontin\u00eancia. Trata-se de sua famosa participa\u00e7\u00e3o na batalha de Potideia (219e-221b), em que demonstrou uma aptid\u00e3o excepcional para suportar a fadiga e a fome, quando as circunst\u00e2ncias o obrigavam, e especialmente o frio, durante o inverno. Sua marcha pela neve com p\u00e9s descal\u00e7os chegou mesmo a irritar seus colegas do ex\u00e9rcito, supondo ser uma v\u00e3 demonstra\u00e7\u00e3o de sua superioridade.\u00a0 Sua resist\u00eancia ao vinho tamb\u00e9m era not\u00f3ria, nunca tendo sido visto embriagado, apesar de beber tanto ou mais do que os outros. A passagem central, important\u00edssima para a tradi\u00e7\u00e3o, descreve S\u00f3crates em p\u00e9 por vinte e quatro horas, investigando sozinho um determinado problema, e parecia n\u00e3o desistir enquanto n\u00e3o encontrasse o que procurava. Come\u00e7a pela manh\u00e3 e vai at\u00e9 a aurora seguinte, quando faz uma ora\u00e7\u00e3o ao deus sol e vai realizar suas atividades. Temos aqui uma passagem sobre a ascese socr\u00e1tica que congrega perfeitamente tanto um aspecto filos\u00f3fico e racional (pois ele busca resolver um problema) quanto um devocional e religioso (j\u00e1 que termina sua empresa com uma ora\u00e7\u00e3o). Assim, pode-se ver em S\u00f3crates aspectos tanto filos\u00f3ficos quanto religiosos em sua ascese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 sexualidade, seu encontro com Alceb\u00edades, tamb\u00e9m descrito no <em>Banquete<\/em> (216c-219d), \u00e9 um dos momentos mais exemplares. S\u00f3crates prop\u00f5e ao bel\u00edssimo jovem Alceb\u00edades que n\u00e3o se entreguem um ao outro enquanto n\u00e3o tiverem certeza de que isto \u00e9 para o melhor bem de ambos. Tamb\u00e9m em <em>C\u00e1rmides<\/em>, S\u00f3crates \u00e9 apresentado como desejando ardentemente o jovem ao seu lado, mas se cont\u00e9m e conversa sobre filosofia com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes tra\u00e7os de resist\u00eancia f\u00edsica t\u00eam seu \u00f3bvio correlato moral e \u00e9tico. \u00a0Teoricamente, S\u00f3crates baseia sua <em>enkrate\u00eda<\/em> (autocontin\u00eancia) em um estrito intelectualismo: a virtude \u00e9 alcan\u00e7ada pelo conhecimento. A equa\u00e7\u00e3o \u201cvirtude \u00e9 conhecimento\u201d funda a \u00e9tica socr\u00e1tica. Tal identifica\u00e7\u00e3o o obriga a negar a possibilidade da <em>akras\u00eda<\/em>, isto \u00e9, da alma n\u00e3o ter for\u00e7a para se fazer o bem. O argumento principal baseia-se em uma constata\u00e7\u00e3o mais ou menos evidente de que o homem sempre busca o melhor, sendo a causa de seu erro a <em>ignor\u00e2ncia<\/em> do que seja o melhor. Mesmo os homens que praticassem o mal, o fariam porque acreditam que tal ato \u00e9 bom em alguma medida: mesmo que seja para o seu pr\u00f3prio bem em detrimento do bem alheio, o homem sempre est\u00e1 em busca do bem. Assim, a solu\u00e7\u00e3o para os equ\u00edvocos nas atividades humanas \u00e9 fruto do correto esclarecimento do que seja o bem, pois naturalmente o homem seguiria o bem correto caso o conhecesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, n\u00e3o se pode falar de uma divis\u00e3o interna na alma humana na vis\u00e3o socr\u00e1tica. N\u00e3o h\u00e1 dois impulsos em conflito em sua psique, sendo que o homem n\u00e3o precisa, desse modo, lutar contra si memo. N\u00e3o havendo divis\u00e3o na concep\u00e7\u00e3o de alma socr\u00e1tica, n\u00e3o poderia haver uma luta entre um princ\u00edpio ps\u00edquico baixo e malvado e outro superior e espiritualizado. O processo de aprimoramento moral passa por uma investiga\u00e7\u00e3o racional do que seja o bem. Esse, quando adquirido, orientaria perfeitamente o homem rumo \u00e0quilo que verdadeiramente deseja. Assim, o princ\u00edpio paulino da falta de for\u00e7a da alma em se fazer o bem (Rm 7,19) \u00e9 negado nesta vis\u00e3o fundamentalmente intelectualista da \u00e9tica socr\u00e1tica. Novamente, n\u00e3o h\u00e1 <em>akras\u00eda<\/em>, falta de for\u00e7a, na alma humana, ela sempre busca realizar aquilo que mais obviamente lhe parece o bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3 Plat\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das importantes diferen\u00e7as de Plat\u00e3o, em compara\u00e7\u00e3o com S\u00f3crates, sobre a no\u00e7\u00e3o de alma, \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o de uma triparti\u00e7\u00e3o ps\u00edquica (especialmente em <em>Rep\u00fablica III e IV<\/em>, <em>Fedro <\/em>246a-246d e 253d-254e, <em>Timeu<\/em> 69b-71e): 1) a parte apetitiva (desejo sexual, por comida e bebida); 2) a parte orgulhosa ou emotiva (que se protege e se emociona); e 3) a parte racional e reflexiva (que raciocina em busca do melhor). Isso \u00a0possibilita resolver um dos maiores problemas na no\u00e7\u00e3o ps\u00edquica socr\u00e1tica, a saber, a falta de for\u00e7a da alma (<em>akras\u00eda<\/em>) em fazer o que para ela se mostra como o melhor. Na concep\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica da alma, a sua falta de harmonia e virtude est\u00e1 no fato de haver um conflito entre as tr\u00eas partes fundamentais da alma. Assim, \u00e9 necess\u00e1rio que as partes apetitiva e emotiva se subordinem \u00e0 parte racional, j\u00e1 que essa \u00faltima ter\u00e1 o conhecimento do bem que fornece as diretrizes \u00e0s outras duas. H\u00e1, portanto, na base da ascese plat\u00f4nica, apresentada de modo geral, uma exig\u00eancia de subordinamento dos impulsos emotivos e desiderativos frente aos princ\u00edpios racionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Banquete <\/em>ou <em>Simposio <\/em>de Plat\u00e3o \u00e9 um importante texto para a hist\u00f3ria da ascese, j\u00e1 que relata um processo de sublima\u00e7\u00e3o do desejo er\u00f3tico. No discurso de S\u00f3crates sobre <em>Eros<\/em>, \u00e9 apresentada a sabedoria de uma sacerdotisa, a Diotima (198a-212c). Ela nos apresenta os mist\u00e9rios elevados do <em>Eros<\/em> (210a-212c), em que h\u00e1 um aprendizado da verdadeira natureza do objeto er\u00f3tico desejado. H\u00e1, portanto, uma pedagogia er\u00f3tica que retira o interesse pelo mundo corp\u00f3reo conduzindo-o ao mundo espiritual\/intelectual. O jovem aprendiz de <em>Eros<\/em> deve come\u00e7ar sentindo-se atra\u00eddo por belos corpos, mas deve ser educado a perceber uma beleza mais intensa ainda nas almas. Depois de aprender a desejar almas belas, o aprendiz deve aprender a apreciar a beleza das leis e das atitudes que fazem com que estas almas sejam belas. Ainda subindo em sua busca pelo objeto er\u00f3tico por excel\u00eancia, o jovem aprende a amar as ci\u00eancias belas e encontra a\u00ed uma intensidade de <em>Eros <\/em>muito maior do que sentia pelo corpo. Por fim, o aprendiz compreende a fonte de todo seu <em>Eros <\/em>e a causa \u00faltima de todas as realidades anteriores se apresentarem como belas: a pr\u00f3pria ess\u00eancia do belo, a Ideia de Belo. Este texto foi profundamente influente na hist\u00f3ria de todo ocidente, em particular do cristianismo (como se pode ver em Or\u00edgenes, em seu <em>Coment\u00e1rio ao C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em>, que cita diversas vezes o texto de Plat\u00e3o), como sendo a base da compreens\u00e3o da busca amorosa por Deus e de uma cr\u00edtica \u00e0 possibilidade de nossos verdadeiros anseios serem satisfeitos apenas no \u00e2mbito do mundo sens\u00edvel e corp\u00f3reo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No di\u00e1logo <em>Fedon<\/em> encontramos alguns pontos fundamentais sobre a no\u00e7\u00e3o de purifica\u00e7\u00e3o (<em>k\u00e1tharsis<\/em>) do corpo e da alma. Trata-se do suposto \u00faltimo di\u00e1logo que S\u00f3crates trava com seus amigos, antes de tomar cicuta e morrer. Nesse di\u00e1logo, S\u00f3crates investiga o que seja a morte (a separa\u00e7\u00e3o da alma e do corpo) e busca defender (em quatro argumentos centrais de acordo com a maioria dos comentadores) que a alma seja eterna. De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o socr\u00e1tica que define o homem mais como alma do que como corpo, Plat\u00e3o nos apresenta, neste di\u00e1logo, a necessidade do cuidado e da purifica\u00e7\u00e3o da alma. A pr\u00f3pria filosofia \u00e9 definida como purifica\u00e7\u00e3o (influ\u00eancia pitag\u00f3rica), isto \u00e9, como o exerc\u00edcio de uma separa\u00e7\u00e3o da alma e do corpo. Este processo de purifica\u00e7\u00e3o \u00e9 descrito como a tentativa de manter o corpo, com suas necessidades e apetites, o mais quieto poss\u00edvel para que a alma possa trabalhar por conta pr\u00f3pria em busca da verdade. Assim, o fil\u00f3sofo n\u00e3o deve ter como preocupa\u00e7\u00e3o principal saciar os impulsos corp\u00f3reos, sendo que sua aten\u00e7\u00e3o primordial deve estar voltada para o conhecimento da verdade utilizando apenas o intelecto nele mesmo, elemento puramente ps\u00edquico. Por fim, vale apenas indicar que a pr\u00f3pria alegoria da caverna pode ser vista como um processo de ascese. Nela, o mundo das sombras, dos homens acorrentados dentro da caverna, \u00e9 descrito como o mundo dos sentidos atrelado ao corpo. A sa\u00edda da caverna \u00e9 um processo doloroso e de trabalho (ascese) de descoberta de um mundo para al\u00e9m do mundo sens\u00edvel que fundamenta tanto ontol\u00f3gica quanto epistemologicamente o mundo sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.4 C\u00ednicos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento c\u00ednico (ver DUDLEY, 1937, e em portugu\u00eas GOULET-CAZ\u00c9 e BRANHAM, 2010) tem enorme import\u00e2ncia para a consolida\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas tanto no mundo grego pag\u00e3o quanto no latino crist\u00e3o (DOWNING, 1992 e KRUEGER, 1993). Os c\u00ednicos ser\u00e3o, em alguns pontos, at\u00e9 mesmo confundidos com os primeiros crist\u00e3os, sendo que provavelmente estes retiram suas vestes simples daqueles: um surr\u00e3o, um cajado e uma pequena bolsa de couro eram a vestimenta t\u00edpica que identificava um c\u00ednico, fil\u00f3sofo andarilho e pobre. Sua filosofia defende uma necessidade premente de retornar ao natural e combater os artif\u00edcios da sociedade, como o poder, a fama e a riqueza material. De acordo com os c\u00ednicos, esses seriam inven\u00e7\u00f5es artificiais que afastam os homens da natureza e n\u00e3o produzem uma verdadeira realiza\u00e7\u00e3o humana. \u00a0O pr\u00f3prio termo c\u00ednico (<em>kynik\u00f3s<\/em>, canino, referente a cachorro, <em>k\u00fdon<\/em>) remete \u00e0 tentativa de se voltar para a vida simples dos animais, acreditando na for\u00e7a da natureza para a realiza\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Di\u00f3genes (413-327 aC), tamb\u00e9m chamado de o C\u00e3o Celeste, \u00e9 o primeiro a utilizar o termo <em>\u00e1skesis <\/em>para descrever a atividade pr\u00f3pria do fil\u00f3sofo que busca refinar moralmente sua alma. Com Di\u00f3genes o termo al\u00e7a o seu patamar propriamente \u00e9tico e filos\u00f3fico (LA\u00c9RCIO, 1977, VI 70-72; ver especialmente o livro de GOULET-CAZ\u00c9, 1986). Trata-se, realmente, de buscar o paradigma do esfor\u00e7o moral de autoaperfei\u00e7oamento nas atividades do atletismo e das t\u00e9cnicas art\u00edsticas. Assim como o corpo pode se tornar melhor ao se exercitar na corrida ou na flauta, tamb\u00e9m a alma pode se tornar melhor ao se realizar exerc\u00edcios, <em>\u00e1skesis<\/em>. A filosofia de Di\u00f3genes nos \u00e9 relatada pelas suas anedotas que descrevem um estilo de vida simples em que o esfor\u00e7o e o trabalho (<em>p\u00f3nos<\/em>) s\u00e3o os componentes principais para nos acostumarmos a viver naturalmente. Di\u00f3genes era conhecido por abra\u00e7ar est\u00e1tuas de bronze geladas no inverno e rolar na areia quente no ver\u00e3o para que seu corpo se acostumasse \u00e0s intemp\u00e9ries da natureza. Certa vez viu um rato comendo das migalhas de seu p\u00e3o e se sentiu envergonhado por um rato ser mais simples que ele.\u00a0 A hist\u00f3ria mais famosa de Di\u00f3genes nos relata o seu encontro com Alexandre, o Grande. Este o teria encontrado banhando-se ao sol e, ao se por \u00e0 sua frente, lhe pergunta: pe\u00e7a-me o que quiseres. Ao que Di\u00f3genes responde, \u201csaia da frente do meu sol\u201d. Temos aqui o embate exemplar do homem que conseguiu tudo o que o poder b\u00e9lico e pol\u00edtico pode lhe dar em contraste com o homem que se satisfaz com o que a natureza lhe pode dar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos esses relatos nos descrevem modelos de uma vida composta de exerc\u00edcios que faziam parte de um projeto \u00e9tico e moral que visava o fortalecimento do car\u00e1ter e a aceita\u00e7\u00e3o dos limites naturais. Assim, a vida simples e o treinamento para se realizar com a simplicidade da natureza \u00e9 o processo de aprendizado moral do cinismo, moldando pela primeira vez em termos filos\u00f3ficos uma vida asc\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.5 Estoicos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estoicos s\u00e3o descendentes espirituais dos c\u00ednicos, j\u00e1 que se diz que o primeiro estoico, Zen\u00e3o de C\u00edcio, foi aluno de Crates, um c\u00ednico. No entanto, as pr\u00e1ticas e exerc\u00edcios morais, que antes estavam vinculados ao corpo, no cinismo, ganham um aspecto mais te\u00f3rico no estoicismo. Pode-se dizer que no estoicismo a ascese \u00e9 eminentemente te\u00f3rica no sentido que o combate e o treinamento (ascese) incidem sobre as <em>opini\u00f5es falsas<\/em> que levam o homem a julgar equivocadamente o que seja o seu pr\u00f3prio bem. Assim, a transforma\u00e7\u00e3o moral no estoicismo est\u00e1 na modifica\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es equivocadas que se tem sobre o mundo e sobre os valores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma distin\u00e7\u00e3o fundamental no estoicismo \u00e9 aquela entre as realidades que est\u00e3o sob o meu encargo e aquelas que n\u00e3o est\u00e3o, sendo que apenas aquilo que \u00e9 de minha responsabilidade pode ter valor moral. Na medida em que apenas as minhas 1) opini\u00f5es, os meus 2) impulsos a agir e os meus 3) desejos est\u00e3o na ordem daquilo que est\u00e1 sob minha responsabilidade, s\u00f3 esses poderiam ser considerados bons ou maus. Todo o resto, isto \u00e9, o poder pol\u00edtico, a minha reputa\u00e7\u00e3o, meus bens materiais, s\u00e3o, por princ\u00edpio, realidades indiferentes no seu aspecto moral, j\u00e1 que n\u00e3o est\u00e3o sob minha responsabilidade, isto \u00e9, independem de uma a\u00e7\u00e3o que prov\u00e9m de minha escolha. Todo valor moral est\u00e1 vinculado a ser virtuoso, isto \u00e9, \u00e0quilo que \u00e9 minha responsabilidade, que est\u00e1 sob o meu encargo (opini\u00f5es, impulso a agir, e desejos), por isso as realidades que independem de mim n\u00e3o possuem valor moral, n\u00e3o s\u00e3o nem algo bom nem algo ruim. Assim, ser pobre ou rico, ter boa ou m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o, estar saud\u00e1vel ou doente s\u00e3o realidades indiferentes frente \u00e0 felicidade humana que consiste estritamente em ser virtuoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser virtuoso \u00e9 viver de acordo com a natureza, como os c\u00ednicos, e por isso nossas opini\u00f5es devem tamb\u00e9m estar de acordo com a natureza. A morte, por exemplo, \u00e9 um fato natural e deve ser encarada como tal: n\u00e3o \u00e9 nem um bem nem um mal, pois est\u00e1 fora da al\u00e7ada da minha responsabilidade. Neste sentido, a moral estoica professa uma indiferen\u00e7a frente \u00e0s realidades que s\u00e3o exteriores \u00e0quelas que est\u00e3o sob meu encargo, frente \u00e0s realidades exteriores. Todo esfor\u00e7o, todo o trabalho (ascese) em se tornar um fil\u00f3sofo estoico est\u00e1 baseada na transforma\u00e7\u00e3o das opini\u00f5es para que elas se adequem ao mundo como ele \u00e9. Assim, o exame de consci\u00eancia \u00e9 um dos trabalhos asc\u00e9ticos mais desenvolvidos no estoicismo, podendo mesmo definir todo o texto as <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em> de Marco Aur\u00e9lio, imperador estoico do s\u00e9culo II dC. A partir disto, podemos compreender a indiferen\u00e7a radical da postura estoica frente aos supostos benef\u00edcios dos bens materiais e dos prazeres. A busca por uma vida boa n\u00e3o consiste em acumular bens materiais, ou angariar uma boa reputa\u00e7\u00e3o ou conquistar poder pol\u00edtico, mas na escolha certa por adequar-se ao que ocorre naturalmente, pela aceita\u00e7\u00e3o da vida natural. Passar por momentos em que se est\u00e1 vedado aos prazeres, por momentos em que se est\u00e1 doente, em que se perde um ente querido, tudo isto faz parte da natureza, e o homem virtuoso \u00e9 aquele que escolhe aceitar a vida do modo como ela se apresenta. Como dissemos, as realidades externas s\u00e3o indiferentes moralmente, e a \u00fanica realidade que nos trar\u00e1 felicidade \u00e9 uma escolha correta de acordo com a natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filosofia antiga, de modo geral, pensada como uma forma de vida, tem como inten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica educar o homem a partir de exerc\u00edcios espirituais para que ele seja feliz (<em>eudaimon\u00eda<\/em>). Apesar de cada uma das correntes ter sua pr\u00f3pria vis\u00e3o sobre o que seja a felicidade e o m\u00e9todo de alcan\u00e7\u00e1-la, todas elas professam algum tipo de contin\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos desejos.\u00a0 O homem deve aprender a lidar com seus desejos caso queira realizar plenamente suas pot\u00eancias e esse aprendizado passa por determinados exerc\u00edcios, f\u00edsicos e intelectuais, para se adaptar \u00e0 vida propriamente humana. De modo geral, pode-se dizer que a ascese greco-pag\u00e3 \u00e9 mais intelectual, voltada para pr\u00e1ticas como o exame de consci\u00eancia, a dial\u00e9tica, a investiga\u00e7\u00e3o racional de determinado assunto \u00e9tico ou cient\u00edfico \u2013 apesar de tais exerc\u00edcios intelectuais sempre acarretarem algum tipo de rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica com os desejos e o corpo em geral. Por fim, vale indicar que as pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas crist\u00e3s ser\u00e3o mais voltadas para o corpo e o controle dos desejos corp\u00f3reos, apesar de diversos aspectos da ascese mais intelectual dos gregos estarem explicitamente presentes na ascese crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcus Reis Pinheiro, <\/em>Departamento de Filosofia da UFF<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ATANASIO. <em>Vida de Santo Ant\u00e3o e outros<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARIST\u00d3FANES. As Nuvens<em>. <\/em>In:<em> S\u00f3crates.<\/em> Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHADWICK, O. <em>Western Asceticism<\/em>. Louiseville: Westminster John Knox Press, 1958.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DOWNING, F. G. <em>Cynics and Christian Origins. <\/em>Edinburg: T&amp;T Clark, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DUDLEY, D. R. <em>A history of cynicism<\/em>. London: Methuen, 1937<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GOUTRIE, K.S. (ed.) <em>The pythagorean sourcebook and library\u00a0<\/em>: an anthology of ancient writings which relate to Pythagoras and Pythagoran Philosophy. Grand Rapids: Phanes Press, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GOULET-CAZ\u00c9, M.O. <em>L\u2019Asc\u00e8se Cynique<\/em>. Un commentaire de Diog\u00e8ne Laerce VI 70-71. Paris: Vrin, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GOULET-CAZ\u00c9; BRANHAM. <em>Os C\u00ednicos. <\/em>O movimento c\u00ednico e seu legado. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HADOT, P. <em>Exerc\u00edcios Espirituais e Filosofia Antiga<\/em>. S\u00e3o Paulo: E. Realiza\u00e7\u00f5es, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LAERCIO, D. <em>Vidas e doutrinas dos fil\u00f3sofos ilustres<\/em>. Bras\u00edlia: Editora da Universidade Federal de Bras\u00edlia, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KAHN, C. <em>Pit\u00e1goras e os pitag\u00f3ricos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KRUEGER, D. Diogenes the Cynic among the Fourth Century Fathers. <em>Vigiliae Christianae<\/em>, v.47, n.1, p.29-49, Mar. 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PLAT\u00c3O. <em>Di\u00e1logos<\/em>. Bel\u00e9m: Universidade Federal do Par\u00e1, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VILLER, S. J. (ed) <em>Dictionnaire de Spiritualit\u00e9<\/em>. Paris: Beauchesne, 1935-1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WIMBUSH, V.; VALANTASIS, R. (eds.) <em>Asceticism<\/em>. Oxoford: Oxford University Press, 1995.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O conceito de ascese 2 Ascese pag\u00e3 2.1 Pit\u00e1goras e \u00f3rficos 2.2 S\u00f3crates 2.3 Plat\u00e3o 2.4 C\u00ednicos 2.5 Estoicos 3 Conclus\u00f5es 4 Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas \u00a01 O conceito de ascese \u00a0O\u00a0termo ascese prov\u00e9m do grego \u00e1skesis e seu sentido b\u00e1sico \u00e9 de exerc\u00edcio. 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