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{"id":1316,"date":"2016-11-19T18:05:03","date_gmt":"2016-11-19T20:05:03","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1316"},"modified":"2018-04-21T17:50:01","modified_gmt":"2018-04-21T20:50:01","slug":"o-espirito-age-a-partir-de-baixo-pneumatologia-desde-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1316","title":{"rendered":"O Esp\u00edrito age a partir de baixo. Pneumatologia desde Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Introdu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Abordagem b\u00edblica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.1 Esp\u00edrito de justi\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.2 Esp\u00edrito sopro de vida no caos e na morte<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2.3 Pai dos pobres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Pneumatologia na tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1 Pneumatologia patr\u00edstica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2 Tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3 A tradi\u00e7\u00e3o oriental<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Teologia latino-americana p\u00f3s-conciliar<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 Surgimento de uma teologia latino-americana<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 Linhas de for\u00e7a da teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.3 Evolu\u00e7\u00e3o socioeclesial. Movimentos pentecostais e carism\u00e1ticos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.4 Evolu\u00e7\u00e3o na teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 Introdu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o sobre o Esp\u00edrito Santo (chamada pneumatologia,\u00a0 de <em>pneuma<\/em>, que significa esp\u00edrito em grego) se desenvolveu fortemente na Igreja latina, especialmente desde o Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965) e do pedido de Paulo VI para que\u00a0 a cristologia e a eclesiologia do Vaticano II fossem complementadas com um estudo e um culto mais aprofundado sobre o Esp\u00edrito Santo (Paulo VI, em audi\u00eancia geral de 6 jun \u00a01973; cf. Jo\u00e3o Paulo II, <em>Dominum et vivificantem<\/em>, n.2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a pneumatologia desenvolvida no Primeiro Mundo durante o per\u00edodo p\u00f3s-conciliar incide mais sobre as dimens\u00f5es pessoais e eclesiais do Esp\u00edrito do do que sobre aspectos hist\u00f3ricos, sociais e pol\u00edticos, talvez inspirando-se mais em LG 4 (o Esp\u00edrito na Igreja) do que em GS 11 e 44 (os sinais dos tempos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, se afirma, nestas pneumatologias, que o Esp\u00edrito do Senhor enche o universo (Sab 1,7), que sopra onde quer e que, como o vento, n\u00e3o sabemos de onde vem nem para onde vai (Jo 3,8). Entretanto, n\u00e3o se reflete o suficiente onde o Esp\u00edrito age.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, nas d\u00e9cadas de 1970-1980, na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, se experimentou uma grande irrup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica do Esp\u00edrito, a partir dos pobres, que nos oferece uma chave de leitura para discernir como o Esp\u00edrito age. De fato, nestas duas d\u00e9cadas, na Am\u00e9rica Latina, houve uma irrup\u00e7\u00e3o dos pobres na sociedade e na Igreja, que sacudiu fortemente a consci\u00eancia social e eclesial. Mais especificamente, os bispos reunidos em Medell\u00edn (1968) e Puebla (1979) ouviram o imenso clamor do pobre, e discerniram nisso a voz do Esp\u00edrito, se comprometeram na luta contra as estruturas injustas e fizeram uma op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, nos quais viram o rosto do Senhor crucificado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a Igreja latino-americana realizou, a partir de Medell\u00edn (1968) e Puebla (1979), uma recep\u00e7\u00e3o criativa e inovadora do Vaticano II, porque tornou-se consciente\u00a0 de sua responsabilidade como igreja local para discernir os sinais dos tempos que foram manifestados atrav\u00e9s do clamor do povo pobre e crente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como resultado desse discernimento e destas op\u00e7\u00f5es, tem surgido um estilo novo e prof\u00e9tico de Igreja na Am\u00e9rica Latina, de uma riqueza compar\u00e1vel a outros momentos estelares da hist\u00f3ria da Igreja, como o tempo dos Padres da Igreja, os movimentos medievais e modernos de reforma, o per\u00edodo do s\u00e9culo XX anterior ao Vaticano II com o surgimento de novas teologias etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, aparece uma s\u00e9rie de bispos prof\u00e9ticos e pr\u00f3ximos do povo,\u00a0 verdadeiros Santos Padres da Igreja dos pobres que defenderam os direitos dos pobres e ind\u00edgenas, at\u00e9 o mart\u00edrio (Romero, Angelleli, Gerardi). Neste contexto, nascem as Comunidades Eclesiais de Base, que s\u00e3o outra maneira de ser Igreja. A vida religiosa, inspirada pela CLAR, \u00e9 inserida nos setores populares e pobres. Grupos numerosos de leigos se comprometem com a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade e com a evangeliza\u00e7\u00e3o, e as mulheres assumem um papel de protagonismo nesses processos de mudan\u00e7a socioeclesial. Neste contexto, acontece o mart\u00edrio de bispos, sacerdotes, religiosos, catequistas, trabalhadores, jovens,\u00a0 ind\u00edgenas, povo inocente massacrado pelos governos ditadores e militares que se proclamam defensores da civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental. Finalmente, nasce tamb\u00e9m nestes tempos a teologia da liberta\u00e7\u00e3o, a primeira reflex\u00e3o teol\u00f3gica original da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto hist\u00f3rico pode-se discernir como o Esp\u00edrito agiu e age claramente a partir de baixo, dos pobres da sociedade e da Igreja, e que, embora chame todos a contribuir para o trabalho do Reino, sempre o faz da perspectiva dos pobres e em favor deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta chave hermen\u00eautica da realidade e do Esp\u00edrito ajuda-nos a reler a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e teol\u00f3gica da Igreja e lan\u00e7ar as bases de uma pneumatologia latino-americana a partir de baixo, que seja uma contribui\u00e7\u00e3o para toda a Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Aproxima\u00e7\u00e3o b\u00edblica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que contribui\u00e7\u00f5es encontramos na B\u00edblia para uma pneumatologia a partir de baixo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1 Esp\u00edrito de justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o Antigo Testamento, os termos direito e justi\u00e7a n\u00e3o significam somente julgar, mas exercer o direito e a justi\u00e7a para os pobres, como fez Yahweh no \u00caxodo, como fizeram os ju\u00edzes de Israel, como anunciaram os profetas o que se realizaria nos tempos messi\u00e2nicos. Todas estas atua\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto do Esp\u00edrito de justi\u00e7a (Is 28; Miq 3,8-10; Is 11,1-9; Ez 36,27-28; Jl 3,1s).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o Esp\u00edrito que desce sobre Jesus no batismo (Lucas 3,21-22 e paralelos) e unge-o para sua miss\u00e3o (Lc 4,16-30 citando Is 61). Este \u00e9 o Esp\u00edrito que, em Pentecostes, desce sobre a Igreja nascente e produz frutos de solidariedade e exclus\u00e3o da pobreza (Atos 2,44-45; 4,32-37). \u00c9 o Esp\u00edrito que Jesus promete aos seus disc\u00edpulos, para que possam continuar sua miss\u00e3o (Jo 16,7-11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o Esp\u00edrito contr\u00e1rio \u00e0s obras injustas da carne (Gl 5,13-25), o Esp\u00edrito que nos impele a amar os irm\u00e3os (Rm 5,1-5), o Esp\u00edrito que antecipa a justi\u00e7a escatol\u00f3gica de Deus para pobres (Mt 25,31-45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.2 Esp\u00edrito sopro de vida no caos e na morte<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Esp\u00edrito Criador \u00e9 aquele que no caos, na confus\u00e3o e na escurid\u00e3o da origem da cria\u00e7\u00e3o paira sobre as \u00e1guas alentando a vida (Gn 1,2), aquele que, pelo sopro divino, d\u00e1 vida ao primeiro homem (Gn 2,7) e desde esse momento vivifica a humanidade para a escatologia, como uma m\u00e3e gera seus filhos para a vida<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Mas o Esp\u00edrito n\u00e3o s\u00f3 gera vida, mas permite a passagem da morte para a vida, como os profetas anunciaram (Ez 37,1-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Novo Testamento, o Esp\u00edrito de vida gera Jesus no ventre da Virgem Maria (Lc 1, 35), como j\u00e1 antes havia dado fertilidade a mulheres est\u00e9reis, m\u00e3es de grandes figuras de Israel. Para Jo\u00e3o, o Esp\u00edrito \u00e9 vida e d\u00e1 vida (Jo 10,10), n\u00e3o a vida meramente natural (<em>bios<\/em>), mas a vida eterna, a participa\u00e7\u00e3o na vida divina (<em>zoe<\/em>). E este Esp\u00edrito flui do cora\u00e7\u00e3o morto e trespassado de Jesus na cruz (Jo 19,30.34), a partir de baixo. Este Esp\u00edrito d\u00e1 vida ao batizado, nos ressuscitar\u00e1 a n\u00f3s, como ressuscitou a Jesus (Rm 8,11) e tamb\u00e9m libertar\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e das dores de parto (Rm 8,22-23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3 Pai dos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta express\u00e3o do hino <em>Vem Esp\u00edrito Criador<\/em> inclui o amor paterno-materno do Esp\u00edrito para os pobres e pequenos, a quem foram revelados os mist\u00e9rios do Reino, como Jesus, t\u00e3o cheio de Esp\u00edrito, reconhece e agradece ao Pai (Lc 10,21-22; Mt 11,25-27). O Esp\u00edrito que clama pelo grito dos pobres \u00e9 o mesmo que acolhe a sua ora\u00e7\u00e3o e torna-se seu pai e protetor, como aconteceu no Egito (Ex 4,3). \u00c9 o Esp\u00edrito que move os pastores a adorar o Menino de Bel\u00e9m (Lc 2,8-29) e que leva ao templo Sime\u00e3o e Ana para revelar o Messias (Lc 22-28). \u00c9 o Esp\u00edrito que nos faz clamar a Deus Pai (Rm 8,15; Gl 4,6). Ele \u00e9 o pai e a m\u00e3e, protetor, <em>goel <\/em>(redentor), padrinho dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder\u00edamos resumir o que foi dito, afirmando que em toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o o Esp\u00edrito age a partir dos marginalizados, a partir de baixo, a partir da periferia, utilizando meios pobres e desproporcionados, para que o povo caminhe corajoso para o Reino. \u00c9 uma l\u00f3gica contr\u00e1ria ao racionalismo moderno, mas \u00e9 a l\u00f3gica do <em>Magnificat<\/em> em que Maria canta a miseric\u00f3rdia do Senhor que \u00e9 exercida nos pequenos, humildes e famintos (Lc 2,46-55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Pneumatologia na tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.1 Pneumatologia patr\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o seria correto projetar nos Padres da Igreja Oriental dos s\u00e9culos IV e V (Bas\u00edlio, Greg\u00f3rio de Nazianzo, Greg\u00f3rio de Nissa, Atan\u00e1sio, Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo e outros) essa problem\u00e1tica atual, mais ainda quando muitos deles estavam preocupados com as quest\u00f5es trinit\u00e1rios e, especificamente, com defender a divindade do Esp\u00edrito atacado pelos hereges, que afirmavam que o Esp\u00edrito era uma criatura suprema, mas n\u00e3o Deus nem objeto de adora\u00e7\u00e3o. O Conc\u00edlio de Constantinopla (381) afirma que o Esp\u00edrito \u00e9 Santo, Senhor que d\u00e1 a vida, que procede do Pai e junto com o Pai e o Filho \u00e9 adorado e glorificado. Na sua a\u00e7\u00e3o externa, o Esp\u00edrito falou atrav\u00e9s dos profetas, est\u00e1 presente na Igreja, no batismo para a remiss\u00e3o dos pecados, na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos e na vida do mundo vindouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os Padres da Igreja n\u00e3o\u00a0 relacionem diretamente o Esp\u00edrito com a justi\u00e7a, eles reconhecem a presen\u00e7a do Esp\u00edrito na vida dos fi\u00e9is. Se o Esp\u00edrito n\u00e3o fosse Deus, os crist\u00e3os n\u00e3o poderiam ser divinizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Ocidente, Agostinho (s\u00e9c. IV-V) concebe o Esp\u00edrito como o v\u00ednculo amoroso de comunh\u00e3o que une o Pai com o Filho, comunh\u00e3o da qual participam os crist\u00e3os. Mesmo antes, Irineu de Lyon (s\u00e9c. III) havia comparado o Filho e o Esp\u00edrito \u00e0s duas m\u00e3os com as quais o Pai cria e dirige a hist\u00f3ria da humanidade para a realiza\u00e7\u00e3o do seu plano divino. As m\u00e3os s\u00e3o diferentes, mas se complementam entre si: o Esp\u00edrito prepara a vinda do Filho ao mundo, o Filho encarnado derrama seu Esp\u00edrito depois da P\u00e1scoa aos seus disc\u00edpulos, o Esp\u00edrito completa a miss\u00e3o de Jesus na Igreja e na humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paralelamente a estas reflex\u00f5es trinit\u00e1rias, os Padres da Igreja experimentam um desenvolvimento vigoroso das dimens\u00f5es \u00e9ticas e sociais da f\u00e9 sobre a dignidade da pessoa humana, o destino universal dos bens, a necessidade da esmola e de atender aos pobres etc. Eles mesmos, conscientes da unidade profunda entre o sacramento do altar e o sacramento do irm\u00e3o atendem a muitos \u00f3rf\u00e3os, vi\u00favas, forasteiros, doentes, prisioneiros&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, n\u00e3o se expressa claramente nos Padres uma conex\u00e3o expl\u00edcita e direta entre o Esp\u00edrito e os pobres, entre Esp\u00edrito e justi\u00e7a, como t\u00ednhamos visto na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, ainda que n\u00e3o fosse dif\u00edcil articular ambos os temas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.2 Tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica ocidental tem sido marcada por Agostinho, assimilado e aprofundado por Tom\u00e1s de Aquino, e concentrou-se especialmente na dimens\u00e3o intratrinit\u00e1ria do Esp\u00edrito e nos seus efeitos pessoais (os sete dons do Esp\u00edrito de acordo com Isa\u00edas 11, 2-3) como aparece nos hinos medievais e em <em>Vem Esp\u00edrito Santo <\/em>e<em> Vem\u00a0 Esp\u00edrito criador<\/em>. Tem havido muito pouca incid\u00eancia da pneumatologia na eclesiologia que mant\u00e9m o esquema Deus-Cristo-Igreja, e assim, na eclesiologia, prevalece a dimens\u00e3o hier\u00e1rquica e\u00a0 sacramental com pouca aten\u00e7\u00e3o aos aspectos laicais e carism\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, ante esta situa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e eclesial, refor\u00e7ada na Idade M\u00e9dia, especialmente a partir do s\u00e9culo XI, surge o polo prof\u00e9tico dos movimentos leigos populares (s\u00e9c. XII e XIII) que reivindicam a dimens\u00e3o do Esp\u00edrito e desejam voltar \u00e0 pobreza evang\u00e9lica. Alguns s\u00e3o exclu\u00eddos da Igreja oficial, enquanto os mendicantes (franciscanos, dominicanos e outros) foram reconhecidos por Roma. Um monge da Cal\u00e1bria, Joaquim de Fiore (1132-1202) defende a era do Esp\u00edrito como o Terceiro Reino, que sucede o Reino do Pai (Antigo Testamento) e o Reino do Filho (Novo Testamento). Embora esta teoria tenha sido condenada, obteve grande influ\u00eancia no mundo filos\u00f3fico e pol\u00edtico, porque foi vista como possibilidade de a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito n\u00e3o s\u00f3 na Igreja, mas tamb\u00e9m na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Reforma (s\u00e9c. XVI), tanto protestante como cat\u00f3lica, \u00e9 certamente um movimento espiritual surgido \u201cde baixo\u201d para reformar a igreja e voltar \u00e0 Palavra, a Cristo e \u00e0 cruz, mas, em seguida, ambas as reformas se separaram por diferentes posi\u00e7\u00f5es eclesiais. Tamb\u00e9m na evangeliza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina (s\u00e9c. XVI-XVII), houve figuras prof\u00e9ticas inspiradas pelo Esp\u00edrito que defenderam os ind\u00edgenas e os escravos africanos contra os conquistadores luso-hispanos: Montesinos, Las Casas, Anchieta, Claver etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (s\u00e9c. XVIII), com seus excessos, provocou em toda a Igreja um movimento restauracionista e contrarrevolucion\u00e1rio sem perceber \u2013 como mais tarde afirmou Paulo VI \u2013 que\u00a0 os ideais de liberdade, fraternidade e igualdade eram profundamente evang\u00e9licos. Tamb\u00e9m n\u00e3o foram compreendidos, por Roma, os movimentos de independ\u00eancia da Am\u00e9rica Latina que, come\u00e7ando pelo Haiti, se espalharam por todo o continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta tend\u00eancia conservadora vai se manifestar no Vaticano I (1870) e, mais tarde, nas posi\u00e7\u00f5es de Pio X contra o Modernismo (1907) e de Pio XII contra a nova teologia europeia (1950), que n\u00e3o compreenderam nem a minoria do Vaticano I nem os elementos questionadores e positivos dessas teologias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o surpreende que os crist\u00e3os orientais acusem a Igreja Latina de \u201ccristomonismo\u201d, ou seja, de concentrar a f\u00e9 somente em Cristo, esquecendo-se do Esp\u00edrito. Esta aus\u00eancia do Esp\u00edrito \u00e9 compensada na pr\u00e1tica, com alguns substitutos como a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Maria, ao papa e \u00e0 eucaristia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, durante estes longos s\u00e9culos, a Igreja latina, apesar de professar sua f\u00e9 trinit\u00e1ria, n\u00e3o desenvolveu uma verdadeira pneumatologia, reduzindo o Esp\u00edrito \u00e0 hierarquia e a alguns m\u00edsticos, substituindo-o por outras dimens\u00f5es eclesiais. Durante este longo per\u00edodo, n\u00e3o faltou a a\u00e7\u00e3o caridosa de muitos grupos crist\u00e3os, embora sem rela\u00e7\u00e3o especial com o Esp\u00edrito, e \u2013 acima de tudo \u2013 houve movimentos prof\u00e9ticos suscitados pelo Esp\u00edrito a partir da base eclesial e social, que postulavam uma Igreja mais evang\u00e9lica e uma sociedade mais livre, justa e fraterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi necess\u00e1rio\u00a0 esperar os movimentos teol\u00f3gicos e sociais da metade do s\u00e9culo XX e o prof\u00e9tico Jo\u00e3o XXIII, vindo da base e que queria uma Igreja dos pobres, para recuperar a pneumatologia na Igreja Ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3.3 A \u00a0tradi\u00e7\u00e3o oriental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tradi\u00e7\u00e3o oriental sempre enfatizou fortemente a import\u00e2ncia do Esp\u00edrito, tanto na teologia trinit\u00e1ria como na Igreja e no mundo. Isto d\u00e1 origem a uma teologia e uma pr\u00e1xis eclesial que enfatizam as dimens\u00f5es experienciais, trinit\u00e1rias, comunit\u00e1rias, lit\u00fargicas, c\u00f3smicas e escatol\u00f3gicas da f\u00e9 crist\u00e3. Alguns te\u00f3logos orientais que desenvolveram a pneumatologia foram: Serge Bulgakov, Vladimir Lossky, Paul Evdokimov, Olivier Clement, John D Zizioulas Jean Meyendorff, Boris Bobrinskoy.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Esp\u00edrito que precede e orienta a vida de Jesus \u00e9 que possibilita a Igreja viver a comunh\u00e3o trinit\u00e1ria, que a miss\u00e3o seja um Pentecostes, que a liturgia seja invoca\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito (ep\u00edclese) e a a\u00e7\u00e3o crist\u00e3 seja uma transfigura\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e do cosmos. O Esp\u00edrito nos comunica a vida divina, nos diviniza. A Trindade n\u00e3o \u00e9 apenas um objeto de contempla\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos \u00edcones, mas constitui um verdadeiro programa social: um mundo de comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o, em liberdade e respeito \u00e0s diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revolu\u00e7\u00e3o comunista foi um teste dif\u00edcil para a Igreja Oriental: uma cr\u00edtica ao pietismo individualista de muitos crist\u00e3os pouco comprometidos com a hist\u00f3ria e uma chamada apocal\u00edptica a uma maior integra\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e justi\u00e7a, entre pneumatologia e os pobres. Mesmo com estas defici\u00eancias, a rica teologia do Oriente oferece muitos elementos para uma pneumatologia a partir de baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Teologia latino-americana p\u00f3s-conciliar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.1 Surgimento de uma teologia latino-americana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vimos, o Vaticano II foi um evento pentecostal para a Igreja, preparado providencialmente por uma s\u00e9rie de movimentos teol\u00f3gicos centro-europeus (movimentos b\u00edblico, patr\u00edstico, lit\u00fargico, ecum\u00eanico, social etc.) e, sobretudo, pela figura carism\u00e1tica e popular de Jo\u00e3o XXIII, que convocou o conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Vaticano II tem uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es e intui\u00e7\u00f5es pneumatol\u00f3gicas (<em>LG<\/em> n.4; <em>GS<\/em> n.11), mas n\u00e3o consegue desenvolver uma pneumatologia. Al\u00e9m disso, o Vaticano II tamb\u00e9m n\u00e3o assumiu o desejo de Jo\u00e3o XXIII de uma Igreja dos pobres: h\u00e1 apenas uma breve alus\u00e3o a este assunto (<em>LG<\/em> n.8; <em>GS<\/em> n.1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, n\u00e3o \u00e9 surpreendente para n\u00f3s que a pneumatologia p\u00f3s-conciliar desenvolvida no Primeiro Mundo n\u00e3o aborde a quest\u00e3o dos pobres nem uma pneumatologia a partir de\u00a0 baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esta situa\u00e7\u00e3o, a irrup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica do Esp\u00edrito na Am\u00e9rica Latina dos anos 1970-80 nos oferece novas possibilidades de articular uma pneumatologia a partir de baixo. Neste contexto socioeclesial surge a teologia da liberta\u00e7\u00e3o, primeira teologia da Am\u00e9rica Latina que n\u00e3o \u00e9 apenas um reflexo da teologia europeia. Esta nova teologia \u00e9 uma recep\u00e7\u00e3o criativa do Vaticano II, ligada \u00e0s Confer\u00eancias de Medell\u00edn (1968) e Puebla (1979). Os nomes dos principais protagonistas s\u00e3o: G. Guti\u00e9rrez, H. Assmann, J. L. Segundo, E. Dussel, L. Boff, I. Ellacur\u00eda, J. Sobrino, P. Richard, J. B. Libanio, F. Betto, J. Comblin, C. Mesters, J. C. Scannone, R. Mu\u00f1oz, D. Irarr\u00e1zaval, A. Quiroz etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.2 Linhas de for\u00e7a da teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia da liberta\u00e7\u00e3o parte da realidade socioeclesial do povo, ouve o grito dos pobres e descobre neles o rosto do Crucificado. Esta \u00e9 uma verdadeira experi\u00eancia espiritual. Esta realidade, iluminada pela Palavra, ajuda a ver que a pobreza \u00e9 pecado, contr\u00e1ria ao projeto do Reino de Deus. Projeto nos foi revelado atrav\u00e9s do Jesus hist\u00f3rico de Nazar\u00e9, por meio de sua prega\u00e7\u00e3o, suas op\u00e7\u00f5es pelos pobres, sua defesa da vida, sua den\u00fancia das estruturas sociorreligiosas opressivas, que levam \u00e0 morte. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o do Pai que o caminho de Jesus era o verdadeiro caminho. A vinda do Esp\u00edrito sobre os disc\u00edpulos faz nascer uma Igreja que tem a miss\u00e3o de continuar o trabalho de Jesus na hist\u00f3ria. Da\u00ed o compromisso com o Reino, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres, a defesa da vida, denunciando situa\u00e7\u00f5es de morte, e tudo isso no seguimento de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta teologia n\u00e3o tem nenhuma inspira\u00e7\u00e3o marxista, mas evang\u00e9lica; n\u00e3o \u00e9 simples sociologia pol\u00edtica, mas aut\u00eantica teologia que aborda todas as quest\u00f5es teol\u00f3gicas, desde a Trindade \u00e0 escatologia; n\u00e3o substitui Cristo pelo pobre, mas contempla Cristo presente nos pobres; n\u00e3o \u00e9 anti-hier\u00e1rquica, mas procura que toda a Igreja seja um povo de Deus messi\u00e2nico; n\u00e3o \u00e9 mera ideologia, mas leva \u00e0 pr\u00e1xis e at\u00e9 mesmo ao mart\u00edrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.3 Evolu\u00e7\u00e3o socioeclesial. Movimentos pentecostais e carism\u00e1ticos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mudan\u00e7as pol\u00edticas do final dos anos 1980, com o colapso do socialismo no Leste, a evolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, o inverno eclesial dos pontificados de Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI, o\u00a0 ambiente cultural p\u00f3s-moderno, o surgimento de novos atores sociais e eclesiais (ind\u00edgenas, afros, mulheres, jovens etc.), o desafio da ecologia e a prolifera\u00e7\u00e3o de movimentos carism\u00e1ticos e pentecostais afetam a teologia da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especificamente, o chamado movimento pentecostal evang\u00e9lico \u00e9, de acordo\u00a0 com J. Comblin, o maior impacto religioso ocorrido desde a Reforma no s\u00e9culo XVI. \u00c9 o que mais cresce nas igrejas, o mais popular, o que se difunde nas v\u00e1rias igrejas hist\u00f3ricas. Na Am\u00e9rica Latina, os mais pobres entre os pobres, por sua vez, n\u00e3o v\u00e3o para as comunidades de base, nem mesmo para a Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica, mas aos movimentos pentecostais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes movimentos acolhem aos mais desesperados da sociedade moderna \u2013 exclu\u00eddos pelo sistema neoliberal \u2013 e lhes proporcionam um supermercado da f\u00e9, com acentos m\u00e1gicos, sincr\u00e9ticos e utilit\u00e1rios. Mas, muitos de seus seguidores passam por uma profunda convers\u00e3o que os leva a abandonar as drogas, alcoolismo, abusos sexuais e viol\u00eancia familiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A principal caracter\u00edstica do pentecostalismo, especialmente do cl\u00e1ssico, \u00e9 o processo que leva \u00e0 convers\u00e3o pelo Esp\u00edrito, ao batismo do Esp\u00edrito, que \u00e9 uma experi\u00eancia emocional profunda em que se aceita a Cristo como salvador, se \u00e9 possu\u00eddo pelo Esp\u00edrito e se recebem dons extraordin\u00e1rios como glossolalia, profecia e discernimento. Suas diretrizes teol\u00f3gicas s\u00e3o baseadas em um puritanismo de serem os escolhidos, um dualismo radical entre o esp\u00edrito e o mundo material, uma vis\u00e3o puramente individualista do pecado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neles, h\u00e1 um amb\u00edguo entusiasmo emocional coletivo, um supermercado religioso no neopentecostalismo e, acima de tudo, um afastamento da responsabilidade p\u00fablica e social. Seu sucesso deve-se, sobretudo, ao fato de, em meio \u00e0 desordem social e exclus\u00e3o com que s\u00e3o tratados por grande parte da sociedade e tamb\u00e9m pelas igrejas hist\u00f3ricas, se sentirem acolhidos, valorizados e ajudados pelas igrejas pentecostais, com capacidade de comunica\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o, em cultos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o que os enchem de alegria e melhoram suas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Renova\u00e7\u00e3o Carism\u00e1tica Cat\u00f3lica nasceu nos Estados Unidos, em 1966, espalhou-se rapidamente por toda a Europa, Am\u00e9rica Latina e pelo resto do mundo. Tanto Ratzinger como Y. M. Congar veem nesse movimento um fruto positivo do Vaticano II (cf. MESSORI e RATZINGER, 1985; CONGAR, 1983, p.349-415R).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os envolvidos neste movimento asseguram ter experimentado, pela primeira vez, a liberdade do Esp\u00edrito, o dom da salva\u00e7\u00e3o, um novo nascimento no Esp\u00edrito, a perten\u00e7a \u00e0 comunidade do Senhor e sentiram-se renovados, convertidos, transformados, regenerados, cheios de felicidade e alegria. Sua semelhan\u00e7a com os movimentos pentecostais \u00e9 grande, mas a renova\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica geralmente se concentra na celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica que tem sido feita \u00e0 renova\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica \u00e9 semelhante \u00e0 que foi feita aos movimentos pentecostais: risco de emocionalismo psicol\u00f3gico, individualismo, falta de discernimento, apego aos dons extraordin\u00e1rios como glossolalia, evas\u00e3o de tarefas e compromissos sociais (\u201cparalisia social\u201d). Al\u00e9m disso, do ponto de vista cat\u00f3lico, observa-se o risco de se tornarem comunidades da Palavra, pouco esclarecimento entre o batismo do Esp\u00edrito e a confirma\u00e7\u00e3o, pouca participa\u00e7\u00e3o na pastoral de conjunto e o perigo \u00a0de constituir uma esp\u00e9cie de seita cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os l\u00edderes do movimento carism\u00e1tico reagem a essas cr\u00edticas, dando crit\u00e9rios de discernimento baseados em 1Cor 12. Com efeito, desde as suas origens at\u00e9 os dias atuais, o movimento tem apresentado um processo de amadurecimento e purifica\u00e7\u00e3o muito positivo, uma maior forma\u00e7\u00e3o b\u00edblica e teol\u00f3gica, maior inser\u00e7\u00e3o eclesial na pastoral, maior discernimento, mais engajamento apost\u00f3lico e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Am\u00e9rica Latina, muitos pobres v\u00e3o para esses grupos, provavelmente pelas mesmas raz\u00f5es de desordem social pelas quais outros v\u00e3o para os pentecostais. Entre os dois grupos cresce um sentimento de aproxima\u00e7\u00e3o ecum\u00eanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes movimentos pentecostais e carism\u00e1ticos interpelam as Igrejas hist\u00f3ricas. Diante de um tipo de estrutura religiosa demasiado r\u00edgida e racionalista, expressa em dogmas, escrituras e normas, h\u00e1 a busca de uma espiritualidade mais experiencial, carism\u00e1tica, m\u00edstica e entusiasta, mais sens\u00edvel \u00e0 corporeidade e \u00e0 dimens\u00e3o afetiva, mais aberta \u00e0 comunidade, mais popular, mais sens\u00edvel \u00e0 espiritualidade que \u00e0s estruturas religiosas. H\u00e1 uma interpela\u00e7\u00e3o pneumatol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.4 Evolu\u00e7\u00e3o na teologia da liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a pobreza n\u00e3o s\u00f3 continua, mas aumenta na Am\u00e9rica Latina, de modo que o povo passou de explorado a descartado e abandonado, o novo imagin\u00e1rio socioeclesial afeta a teologia da liberta\u00e7\u00e3o. Esta se abre, agora, \u00e0 teologia ind\u00edgena e afro, a um\u00a0 maior protagonismo das mulheres na teologia, \u00e0 \u00a0reflex\u00e3o ecol\u00f3gica, a uma valoriza\u00e7\u00e3o positiva da religiosidade popular. Surgem, tamb\u00e9m, perguntas sobre essa teologia em seu come\u00e7o: muito voluntarista, paternalista e androc\u00eantrica? Um pouco ing\u00eanua em sua an\u00e1lise social e pol\u00edtica? Com risco de milenarismo? Talvez a maior cr\u00edtica seja \u00e0 sua deficiente pneumatologia. A teologia da liberta\u00e7\u00e3o, que se constr\u00f3i a partir de baixo, \u00e9 um evento espiritual e suscita uma verdadeira espiritualidade, mas, no entanto, foi pouco pneumatol\u00f3gica em sua reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, v\u00e1rios te\u00f3logos e te\u00f3logas, como J. Comblin, L. Boff, M. Clara Luccheti Bingemer, M. J. Caram, D. Irarr\u00e1zaval, entre outros, lan\u00e7aram as bases para uma pneumatologia latino-americana. Esta reflex\u00e3o encontra a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito n\u00e3o s\u00f3 nas pessoas e na Igreja, mas no mundo, na cria\u00e7\u00e3o e sua evolu\u00e7\u00e3o, na hist\u00f3ria e, muito concretamente, nos pobres. Atrav\u00e9s do grito dos pobres, atrav\u00e9s de sua busca por liberdade, por dignidade e por express\u00e3o, de sua luta pela vida, o Esp\u00edrito age. O Esp\u00edrito age a partir de baixo e sempre em favor dos oprimidos, faz passar da morte para a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o pode se identificar o Esp\u00edrito apenas com os fen\u00f4menos extraordin\u00e1rios (dom de l\u00ednguas etc.), mas \u00a0tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado ao servi\u00e7o, ao amor, \u00e0 alegria nas tribula\u00e7\u00f5es, \u00e0 luta por uma vida digna, \u00e0 solidariedade, ao senso de gratuidade e de celebra\u00e7\u00e3o, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e \u00e0 esperan\u00e7a, ao seguimento de Jesus a cada dia. O Esp\u00edrito tamb\u00e9m \u00e9 visto em estreita rela\u00e7\u00e3o com o grito da terra para a sua liberta\u00e7\u00e3o, em conex\u00e3o com o respeito pelas mulheres (ecofeminismo). A dimens\u00e3o religiosa e cultural das tradi\u00e7\u00f5es originais \u00e9 o fruto do Esp\u00edrito, assim como a sua rica religiosidade e espiritualidade popular. Surge um macroecumenismo que leva ao di\u00e1logo n\u00e3o apenas com as v\u00e1rias Igrejas crist\u00e3s, mas tamb\u00e9m com as religi\u00f5es origin\u00e1rias e com outras confiss\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naturalmente, esta pneumatologia que come\u00e7a a surgir de baixo n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanua, e v\u00ea a necessidade de um discernimento s\u00e9rio dos sinais dos tempos, sempre \u00e0 luz da vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta pneumatologia a partir de baixo deve aprofundar-se no mist\u00e9rio trinit\u00e1rio, compreendendo um Pai que \u2013 ao entregar a Jesus por amor \u2013 se empobrece; o Filho, que se aniquila na encarna\u00e7\u00e3o nazarena; e o Esp\u00edrito que se esconde na voz dos pobres e pequenos. A op\u00e7\u00e3o pelos pobres est\u00e1 impl\u00edcita n\u00e3o apenas em nossa f\u00e9 cristol\u00f3gica (Bento XVI), mas tamb\u00e9m em nossa f\u00e9 pneumatol\u00f3gica no Esp\u00edrito Santo, Senhor e que d\u00e1 a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A irrup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica do Esp\u00edrito na Am\u00e9rica Latina \u2013 em torno dos anos 1960-70 \u2013 nos ajuda a compreender que o Esp\u00edrito age a partir de baixo. Esta intui\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada pela Escritura, que nos revela o Esp\u00edrito presente, especialmente em tempos de crise e caos, fazendo passar do n\u00e3o ser ao ser e da morte para a vida, levantando movimentos prof\u00e9ticos em defesa do direito da justi\u00e7a, ao servi\u00e7o dos pobres e pequenos, ungindo Jesus para evangelizar os pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a pneumatologia tradicional tem estado mais preocupada com quest\u00f5es intratrinit\u00e1rias e por temas meramente intraeclesiais do que com a presen\u00e7a\u00a0 viva do Esp\u00edrito na base da sociedade e da Igreja. A teologia da liberta\u00e7\u00e3o, muito sens\u00edvel ao clamor dos pobres, mas at\u00e9 recentemente apenas com uma pneumatologia incipiente, come\u00e7a agora a integrar liberta\u00e7\u00e3o e Esp\u00edrito, superando o risco do excessivo voluntarismo \u00e9tico e completando a cristologia e a eclesiologia com uma pneumatologia a partir de baixo, reunindo a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e o melhor das correntes prof\u00e9ticas da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta pneumatologia se abre aos pobres, \u00e0s culturas, \u00e0s religi\u00f5es, aos ind\u00edgenas e afros, \u00e0s mulheres e jovens e, de modo especial, \u00e0s quest\u00f5es ecol\u00f3gicas da terra e de toda a cria\u00e7\u00e3o. Este Esp\u00edrito \u00e9 o fundamento da op\u00e7\u00e3o de Jesus e da Igreja pelos pobres. Nos revela uma Trindade que, por amor, se esvazia no mundo e quer \u2013 a partir dos pobres \u2013 realizar seu projeto do Reino de filia\u00e7\u00e3o e fraternidade universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo bispo de Roma, Francisco, vindo do fim do mundo e que viveu as op\u00e7\u00f5es da Igreja latino-americana, \u00e9 quem nos chama hoje para sair \u00e0s ruas, ir \u00e0s fronteiras e reformar a Igreja para que se torne uma igreja pobre e dos pobres. Isso atualiza e confirma a import\u00e2ncia de uma pneumatologia que venha de baixo, porque o Esp\u00edrito \u00e9 tradicionalmente o \u201cpai dos pobres\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>V\u00edctor Codina, SJ.\u00a0<\/em>Universidad Cat\u00f3lica de Bol\u00edvia, Cochabamba. Texto original em\u00a0 espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, L. <em>O Esp\u00edrito Santo<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V. <em>El Esp\u00edritu del Se\u00f1or act\u00faa desde abajo<\/em>. Santander: Sal Terrae (no prelo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COMBLIN, J. <em>El Esp\u00edritu Santo y la liberaci\u00f3n<\/em>. Madrid: San Pablo, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">COMBLIN, J. <em>O Esp\u00edrito Santo e a tradi\u00e7\u00e3o de Jesus<\/em>. S\u00e3o Bernardo do Campo: Nhanduti, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BINGEMER, M. C. El amor escondido. <em>Concilium,<\/em> n.342, septiembre 2011. p.63-76.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARAM, M. J. <em>El Esp\u00edritu en el mundo andino, una pneumatolog\u00eda desde los Andes.<\/em> Cochabamba: Verbo Divino, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA,V. <em>Creo en el Esp\u00edritu Santo<\/em>. Santander: Sal Terrae,1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA,V. <em>No exting\u00e1is el Esp\u00edritu.<\/em> Santander: Sal Terrae, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONGAR, Y.-M. <em>El Esp\u00edritu Santo<\/em>. Barcelona: Herder, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DURRWELL, F. X. <em>El Esp\u00edritu del Padre y del Hijo.<\/em> Madrid: Paulinas, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">EDWARDS, D. <em>Aliento de vida. <\/em>Una teolog\u00eda del Esp\u00edritu creador. Estella; Verbo Divino, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GUIT\u00c9RREZ, G. <em>Beber en su propio pozo<\/em>. Lima : CEP,1983.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRARR\u00c1ZAVAL, D. Conversi\u00f3n vivencial del Esp\u00edritu en Sudam\u00e9rica, <em>Concilium,<\/em> n.342, septiembre 2011. p.137-147.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MESSORI, V.; RATZINGER, J. <em>Rapporto sulla Fede<\/em>. Milano: San Paolo, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00dcHLEN, H. <em>Esp\u00edritu.<\/em>. Salamanca: Secretariado Trinitario, 1974.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Esp\u00edrito em hebraico \u00e9 <em>ruah,<\/em> de g\u00eanero feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> N\u00e3o queremos entrar aqui em quest\u00f5es mais t\u00e9cnicas sobre o conflito trinit\u00e1rio entre Oriente e Ocidente sobre a quest\u00e3o do <em>Filioque<\/em>, ou nas modernas propostas orientais sobre o <em>Spirituque.<\/em> Ver V. Codina, <em>No exting\u00e1is el Esp\u00edritu,<\/em> Santander, 2008, p.229-241; e V. Codina, <em>Los caminos del Oriente cristiano<\/em>, Santander, 1997, p.91-98.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Introdu\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica 2 Abordagem b\u00edblica 2.1 Esp\u00edrito de justi\u00e7a 2.2 Esp\u00edrito sopro de vida no caos e na morte 2.3 Pai dos pobres 3 Pneumatologia na tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da Igreja 3.1 Pneumatologia patr\u00edstica 3.2 Tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ocidental 3.3 A tradi\u00e7\u00e3o oriental 4 Teologia latino-americana p\u00f3s-conciliar 4.1 Surgimento de uma teologia latino-americana 4.2 Linhas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-1316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-sistematicadogmatica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1316"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1619,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1316\/revisions\/1619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}