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{"id":1314,"date":"2016-11-19T17:58:15","date_gmt":"2016-11-19T19:58:15","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1314"},"modified":"2018-04-21T17:38:34","modified_gmt":"2018-04-21T20:38:34","slug":"os-sacramentais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1314","title":{"rendered":"Os Sacramentais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 O que s\u00e3o os sacramentais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 Uma aproxima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Popularidade dos sacramentais<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 Ilumina\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.1 Reino de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.2 A ora\u00e7\u00e3o da Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.3 Cosmologia teol\u00f3gica e sacramental<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4.4 A teologia da ben\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 Teologia da miseric\u00f3rdia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Conclus\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1 O que s\u00e3o os sacramentais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Vaticano II define os sacramentais como \u201csinais sagrados criados no modelo dos sacramentos, pelos quais se expressam efeitos, especialmente de car\u00e1ter espiritual, obtidos pela intercess\u00e3o da Igreja\u201d (<em>SC<\/em> n.60). O conc\u00edlio os situa em torno do mist\u00e9rio pascal de Cristo (<em>SC<\/em> n.61) e afirma que devem ser reformados (<em>SC<\/em> n.62; 79) e sugere que alguns podem ser administrados por leigos (<em>SC<\/em> n.79).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atual <em>C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico<\/em> (1983) fala dos sacramentais (c. 166-1172) e n\u00e3o os define como \u201ccoisas ou a\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 como no C\u00f3digo anterior de 1917 (c. 1169) &#8211; mas como \u201csinais sagrados\u201d (c 1169.) de acordo com o Vaticano II (<em>SC<\/em> n.60); inclui, entre os sacramentais, consagra\u00e7\u00f5es e dedica\u00e7\u00f5es, b\u00ean\u00e7\u00e3os e exorcismos, mas restringe o uso dos exorcismos (c. 1172) e estende alguns sacramentais aos leigos (c. 1168).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, muitos estudantes de teologia terminam seus estudos sem nunca ter ouvido falar dos sacramentais. Nos manuais de teologia anteriores ao Vaticano II poderia ser encontrado algum ap\u00eandice sobre eles, enquanto nos manuais modernos apenas se fala dos sacramentais, mencionando que representam um problema dif\u00edcil de conciliar com o mundo moderno secularizado de hoje (<em>Mysterium salutis<\/em> IV\/2, Madrid: Cristiandad, dedica a este tema tr\u00eas p\u00e1ginas, 155-157).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplos de sacramentais s\u00e3o a \u00e1gua-benta e todos os tipos de b\u00ean\u00e7\u00e3os com \u00e1gua-benta (de imagens, de casas, de crian\u00e7as, de doentes, de idosos, de fam\u00edlias, do campo, de alimentos, de ve\u00edculos e at\u00e9 mesmo de animais etc.), a imposi\u00e7\u00e3o das cinzas no in\u00edcio da Quaresma, as palmas do domingo de Ramos, as velas iluminadas, as ex\u00e9quias e os ritos f\u00fanebres, a venera\u00e7\u00e3o da cruz,\u00a0 de Maria e dos santos e, por extens\u00e3o, muitas devo\u00e7\u00f5es da religiosidade popular, como peregrina\u00e7\u00f5es a santu\u00e1rios do Senhor ou de Maria, via sacra, prociss\u00f5es etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 Uma aproxima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A teologia dos sacramentos e, em particular, o n\u00famero septen\u00e1rio dos sacramentos, n\u00e3o foi desenvolvida at\u00e9 o s\u00e9culo XII. Nem na Escritura nem na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 primitiva podemos encontrar uma doutrina clara dos sete sacramentos. Para as primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, <em>sacramento<\/em> (que era a tradu\u00e7\u00e3o do grego <em>misteryon<\/em>) tinha um sentido muito mais amplo e mais rico que o nosso conceito moderno de sacramento. Os primeiros que falaram de sacramento foram os canonistas e te\u00f3logos escol\u00e1sticos\u00a0 do s\u00e9culo XII, como Pedro Lombardo, mas, durante os s\u00e9culos XII e XIII, o conceito de sacramento ainda era muito extensivo e n\u00e3o se distinguiam os sacramentos dos sacramentais. Para S. Bernardo, um contempor\u00e2neo de Pedro Lombardo, os sacramentos s\u00e3o tantos que, em uma hora, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel listar todos. Para ele, os tr\u00eas sacramentos principais s\u00e3o o batismo, a eucaristia e o lava-p\u00e9s. Para Hugo de S. Victor, tamb\u00e9m um contempor\u00e2neo de Pedro Lombardo, os sacramentos s\u00e3o a \u00e1gua benta, a imposi\u00e7\u00e3o das cinzas, a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos ramos e de velas e o toque dos sinos para chamar os fi\u00e9is. Apenas com as grandes sumas teol\u00f3gicas de Alexandre de Hales, Boaventura e Tom\u00e1s de Aquino, se chegar\u00e1 a estabelecer e difundir o n\u00famero septen\u00e1rio dos sacramentos, doutrina que, em seguida, passou aos Conc\u00edlios II de Lyon (1274), Floren\u00e7a (1439) e, de forma definitiva, \u00a0em Trento (1547). Ainda assim, o n\u00famero sete tem um significado profundo, mais simb\u00f3lico que aritm\u00e9tico. Ele \u00e9 a soma de tr\u00eas e quatro, o que significa plenitude (cf. matriz sacramentos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s Trento, os sacramentais s\u00e3o estudados em um tratado pr\u00f3prio, independente\u00a0 dos sacramentos (Su\u00e1rez) e o movimento lit\u00fargico que precedeu o Conc\u00edlio Vaticano II (Guardini, Parsch etc.), situa os sacramentais dentro da teologia da liturgia,\u00a0 intui\u00e7\u00e3o que o Vaticano II acolher\u00e1, como foi visto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se quis\u00e9ssemos resumir brevemente esse processo hist\u00f3rico, poder\u00edamos dizer que, ao longo do primeiro mil\u00eanio da Igreja, o conceito de sacramento foi extremamente amplo e rico, \u00a0incluindo tanto os sacramentos (como os conhecemos hoje) quanto os sacramentais. No segundo mil\u00eanio, quando tantas coisas mudaram na Igreja, se estabelece uma hierarquia entre os sacramentos e sacramentais, que conduzir\u00e1 \u00e0 distin\u00e7\u00e3o do septen\u00e1rio sacramental dos sacramentais (Trento).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Popularidade dos sacramentais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o povo, os sacramentais sempre foram importantes. Na Idade M\u00e9dia europeia, em que o povo enfrentava situa\u00e7\u00f5es de pobreza, pestes, guerras e medo do diabo, o sacramental materializava a b\u00ean\u00e7\u00e3o divina que emanava de algum objeto aben\u00e7oado. Os frutos que podiam ser obtidos a partir dos sacramentais n\u00e3o eram apenas espirituais, mas tamb\u00e9m, e principalmente, temporais: sa\u00fade, boa colheita, paz etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m hoje os sacramentais tem grande import\u00e2ncia em setores populares, principalmente na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. No Natal, muitas vezes o centro da celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Menino Jesus que, depois, ser\u00e1 venerado na fam\u00edlia durante as festas natalinas. Na Quaresma, as cinzas desfrutam de grande popularidade. O Domingo de Ramos, provavelmente a festa mais\u00a0 popular de todo o ano, para o povo \u00e9 a festa das palmas, que levam para suas casas e guardam durante todo o ano com devo\u00e7\u00e3o. Na Quinta-feira Santa, em muitos lugares, o centro de aten\u00e7\u00e3o popular \u00e9 o lava-p\u00e9s, cerim\u00f4nia que, para a Igreja antiga, tinha valor de sacramento em alguns lugares. A Sexta-feira Santa se centra, para o povo, na Via Sacra, adora\u00e7\u00e3o da cruz e em prociss\u00f5es do Santo Sepulcro, mais do que na solene liturgia da paix\u00e3o. Na Vig\u00edlia Pascal, o que mais atrai o povo \u00e9 a fogueira inicial e as velas que levam com tanta devo\u00e7\u00e3o \u00e0s suas casas, tal qual a \u00e1gua aben\u00e7oada da liturgia batismal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Paulo VI, na <em>Evangelii Nuntiandi<\/em> (1975) afirmou que \u201ca piedade popular expressa uma sede de Deus que s\u00f3 os pobres e os simples podem conhecer\u201d (n.48). Bento XVI, em discurso em Aparecida, disse que esta piedade popular \u00e9 \u201cum tesouro precioso da Igreja Cat\u00f3lica\u201d e \u201cnela aparece a alma dos povos latino-americanos\u201d (discurso inaugural da V Confer\u00eancia General do Episcopado Latino-americano, em 13 de maio de 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Documento de Aparecida<\/em> (2007) recolhe alguns destes gestos simb\u00f3licos de f\u00e9 do povo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um crucifixo, um ros\u00e1rio, uma vela que se acende para acompanhar um filho em sua enfermidade, um Pai Nosso recitado entre l\u00e1grimas, um olhar entranh\u00e1vel a uma imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao C\u00e9u em meio a uma alegria singela (n.261).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0E o papa Francisco, na <em>Evangelii Gaudium<\/em>, falando da f\u00e9 do povo que se manifesta na piedade popular, manifesta:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso na f\u00e9 firme das m\u00e3es ao p\u00e9 da cama do filho doente, que se agarram a um ter\u00e7o ainda que n\u00e3o saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperan\u00e7a contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado. (n.125)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Esse apre\u00e7o do povo pelos sacramentais gera, muitas vezes, um problema pastoral, porque o povo parece mais interessado nos sacramentais do que nos sacramentos. Poder\u00edamos acrescentar que os mesmos sacramentos que o povo pede,\u00a0 muitas vezes, est\u00e3o vistos mais sob o prisma dos sacramentais que dos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que, para o povo simples e pobre, os sacramentais s\u00e3o mais valiosos que os sacramentos, porque s\u00e3o mais compreens\u00edveis que os sacramentos:\u00a0 s\u00e3o variados, ricos em simbolismo, pr\u00f3ximos, dom\u00e9sticos, acompanham o ritmo da vida cotidiana, s\u00e3o sens\u00edveis, mais familiares e vitais. Os sacramentais s\u00e3o os sacramentos dos pobres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, este fato contrasta com a valoriza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que o dogma e a teologia nos apresentam: o centro da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica crist\u00e3 s\u00e3o os sete sacramentos, e sua fonte e \u00e1pice \u00e9 a eucaristia (<em>SC<\/em> n.10); os sacramentais s\u00e3o secund\u00e1rios e perif\u00e9ricos. No entanto, continua a ser um paradoxo que a maioria das pessoas que est\u00e3o na Igreja, justamente tenha acesso a Deus mais pelos sacramentais do que pelos sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 Ilumina\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como iluminar os sacramentais e sua import\u00e2ncia pastoral a partir da f\u00e9 e da tradi\u00e7\u00e3o eclesial?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.1 Reino de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A categoria central para nos aproximar de uma releitura teol\u00f3gica dos sacramentais pode ser a do Reino de Deus, que \u00e9 o horizonte \u00faltimo da prega\u00e7\u00e3o e da atividade do Jesus hist\u00f3rico (Mc 1,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Reino de Deus \u00e9 o grande projeto de Deus ao criar o mundo, para fazer da humanidade uma fam\u00edlia reconciliada e fraterna de filhos e filhas do Pai, em Cristo, pelo Esp\u00edrito. \u00c9 a Trindade para fora, que deseja comunicar o mist\u00e9rio da sua vida e comunh\u00e3o trinit\u00e1ria para o mundo. \u00c9 o mist\u00e9rio mais abrangente da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamente por ser o Reino de Deus um mist\u00e9rio, s\u00f3 pode ser abordado simbolicamente: as par\u00e1bolas, os milagres e sinais de Jesus s\u00e3o as \u00fanicas maneiras que temos para acessar alguma compreens\u00e3o do Reino de Deus. Tanto os sacramentos quanto os sacramentais s\u00e3o colocados sob a \u00f3rbita de sinais sens\u00edveis e simb\u00f3licos da presen\u00e7a eficaz do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto mais simples, populares, comunit\u00e1rios e c\u00f3smicos s\u00e3o esses ritos simb\u00f3licos, mais eles cumprem uma fun\u00e7\u00e3o sacramental, se aproximam do Reino de Deus. A hemorro\u00edssa que toca a orla do manto de Jesus (Mt 9,20), a un\u00e7\u00e3o de Maria em Bet\u00e2nia (Jo 12), o lava-p\u00e9s (Jo 13) s\u00e3o atos sacramentais de grande densidade teol\u00f3gica. Santo Tom\u00e1s diz enfaticamente que os rudes (ou seja, os simples, ignorantes e pobres) vivem a f\u00e9 da Igreja atrav\u00e9s das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas e das festas da Igreja, que t\u00eam uma dimens\u00e3o sacramental em um sentido muito amplo (cf. \u201cDe quibus ecclesia festa facit\u201d<em>, De Veritate<\/em> q 14 a 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desta\u00a0 sacramentalidade original e fundante do Reino de Deus adquirem sentido pleno todos os sacramentais do povo crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.2 A ora\u00e7\u00e3o da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo gesto lit\u00fargico sacramental da Igreja \u00e9 uma ora\u00e7\u00e3o eclesial, \u00e9 s\u00faplica ao Pai por meio de Cristo, \u00e9\u00a0 invoca\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo (ou epiclese), em fun\u00e7\u00e3o do Reino de Deus. Neste sentido, os sacramentais n\u00e3o s\u00e3o formas degradadas de sacramentalidade, mas se pode entender os sacramentos como a culmina\u00e7\u00e3o dos sacramentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos de passar das cinzas para o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o, das palmas do Domingo de Ramos para o mist\u00e9rio do Tr\u00edduo Pascal, do lava-p\u00e9s \u00e0 eucaristia, da \u00e1gua benta ao batismo. Dever\u00edamos manter e continuar a pedagogia divina da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o (<em>DV<\/em> n.15), pedagogia paciente e misericordiosa que parte de baixo, dos pobres e dos pequenos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto o estudo dogm\u00e1tico dos sacramentos quanto a pastoral deveriam come\u00e7ar pelos sacramentais, sacramentos dos pobres e, lentamente, alcan\u00e7ar os sete sacramentos cl\u00e1ssicos, que os ordenam e de quem\u00a0 recebem a for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especificamente, o clamor dos pobres a Deus, inspirado pelo Esp\u00edrito, \u00e9 a grande ora\u00e7\u00e3o sacramental que se eleva ao Pai atrav\u00e9s da Igreja e move suas entranhas de miseric\u00f3rdia. Isso nos leva a ver o sacramental como ora\u00e7\u00e3o eclesial do povo crist\u00e3o, e n\u00e3o uma forma degradada dos sete sacramentos. Quando este clamor atinge sua densidade m\u00e1xima e torna-se ora\u00e7\u00e3o solene da Igreja, ent\u00e3o temos um sacramento no sentido pleno e rigoroso do termo. Mas os sacramentais j\u00e1 s\u00e3o ora\u00e7\u00e3o eclesial, grito do povo inspirado pelo Esp\u00edrito ao Pai, um clamor para o Reino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.3 Cosmologia teol\u00f3gica e sacramental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este cap\u00edtulo um pouco esquecido na nossa teologia latina poderia iluminar o mundo sacramental e, mais especificamente, os sacramentais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Oriente crist\u00e3o manteve uma vis\u00e3o integral da salva\u00e7\u00e3o, em que o c\u00f3smico desempenha um papel muito importante. Precisamos desenvolver um cap\u00edtulo da cosmologia teol\u00f3gica no qual se integre a cria\u00e7\u00e3o do cosmos, a sua queda, a encarna\u00e7\u00e3o de Cristo, a ressurrei\u00e7\u00e3o, a consuma\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica do oitavo dia, todo isso transformado pela for\u00e7a vivificante do Esp\u00edrito, que tudo o transfigura. O cosmos \u00e9 um \u00edcone sagrado, n\u00e3o \u00e9 um mero objeto de explora\u00e7\u00e3o. Os sacramentos s\u00e3o momentos\u00a0 especialmente densos de uma cosmologia teol\u00f3gica e escatol\u00f3gica, lugares onde se antecipa a transfigura\u00e7\u00e3o do cosmos, os novos c\u00e9us e nova terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso tamb\u00e9m se aplica aos sacramentais. Cristo, descendo \u00e0s \u00e1guas do Jord\u00e3o em seu batismo, come\u00e7a a purificar a natureza c\u00f3smica, antecipando o que se realizar\u00e1 no mist\u00e9rio pascal. Os c\u00e9us e a terra, as \u00e1guas, o arco-\u00edris, os frutos do campo e do trabalho humano tornam-se s\u00edmbolos sacramentais da nova terra renovada pela ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro da cosmologia crist\u00e3 \u00e9 necess\u00e1rio integrar a no\u00e7\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o de forma plena. A divis\u00e3o can\u00f4nica e jur\u00eddica entre os efeitos espirituais e efeitos temporais sobre os sacramentais \u00e9 empobrecedora\u00a0 e pressup\u00f5e uma vis\u00e3o dualista da salva\u00e7\u00e3o que est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 sa\u00fade (da qual\u00a0 leva o nome <em>salus, soteria<\/em>) e que inclui a liberta\u00e7\u00e3o do pecado, do mal e da morte. A salva\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a sua plenitude no Reino de Deus que \u00e9\u00a0 consuma\u00e7\u00e3o total da vida e, portanto, inclui o material e o espiritual, que s\u00e3o dimens\u00f5es insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este t\u00f3pico, sumariamente enunciado, nos leva \u00e0 teologia de b\u00ean\u00e7\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.4 A teologia da ben\u00e7\u00e3o\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sacramentais est\u00e3o geralmente ligados \u00e0s b\u00ean\u00e7\u00e3os. A b\u00ean\u00e7\u00e3o, no Antigo Testamento, \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a e poder de Deus atrav\u00e9s de sua Palavra e a de seus ministros. A b\u00ean\u00e7\u00e3o (<em>berakah<\/em>) produz abund\u00e2ncia, fertilidade, bem-estar, sa\u00fade e paz (<em>shalom<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer que a b\u00ean\u00e7\u00e3o comunica a vida divina aos humanos, \u00e9 um dom do Deus vivo da vida, que chega a todos os viventes de alguma forma. O oposto de b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o, um sinal de morte, por vezes pronunciada pelos profetas (Jer 25,5-6). O povo israelita na B\u00edblia se encontra entre a vida e a morte (Dt 39,19),\u00a0 deve escolher um destes caminhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Novo Testamento, Jesus, Palavra de Deus, aben\u00e7oa crian\u00e7as e doentes, com a sua autoridade expulsa dem\u00f4nios (Mc 1,21-28; Mt 12,28 e outros), chama bem-aventurados aos pobres e lamenta a situa\u00e7\u00e3o dos ricos ( Lc 6,20-26), antecipando, assim, o julgamento escatol\u00f3gico (Mt 25,31-45). A efic\u00e1cia da sua palavra passar para os disc\u00edpulos, que participam do seu poder libertador que denuncia o mal, comunica a salva\u00e7\u00e3o e antecipa, de algum modo, o julgamento de Deus (Rm 15,19; 2Cor 12,12; Atos 8,18-28). Poder\u00edamos dizer que a b\u00ean\u00e7\u00e3o antecipa o Reino de Deus, comunica vida e Esp\u00edrito, liberta da morte e do maligno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A b\u00ean\u00e7\u00e3o das coisas simboliza e condensa esta efic\u00e1cia da Palavra, fazendo com que \u00a0a cria\u00e7\u00e3o fique impregnada e cheia da for\u00e7a e da energia vivificadora do Senhor para o bem das pessoas. A b\u00ean\u00e7\u00e3o tem uma dimens\u00e3o sacramental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos sacramentais o clamor do pobre, atrav\u00e9s da Igreja, se torna peti\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito (epiclese). As coisas aben\u00e7oadas s\u00e3o um sinal sacramental da for\u00e7a vivificante da Palavra de Deus atrav\u00e9s da Igreja. O fruto dos sacramentais \u00e9 a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, a vida, a participa\u00e7\u00e3o do Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 Teologia da miseric\u00f3rdia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos ao \u00faltimo ponto da nossa reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Todo este rico e variado mundo dos sacramentais n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel se n\u00e3o o acessamos com uma atitude de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para aqueles que n\u00e3o vivem a angustiosa situa\u00e7\u00e3o dos pobres, os sacramentais podem parecer sup\u00e9rfluos, supersticiosos, profanos, carregados de um amb\u00edguo sincretismo. No entanto,\u00a0 com miseric\u00f3rdia pode-se contemplar que, por tr\u00e1s da peti\u00e7\u00e3o dos sacramentais que o povos deseja, se esconde um mundo de dor,\u00a0 pobreza e injusti\u00e7a n\u00e3o apenas metaf\u00edsica, mas hist\u00f3rica e real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, acima de tudo, os sacramentais nos aproximam da miseric\u00f3rdia de Deus, suas entranhas de miseric\u00f3rdia, com as quais acolheu Israel (Lc 1,54), com as mesmas que Jesus se compadeceu das multid\u00f5es cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,35, no final da se\u00e7\u00e3o narrativa dos milagres que come\u00e7a em Mt 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Francisco diz a este respeito na <em>Evangelii Gaudium<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para compreender esta necessidade, \u00e9 preciso abord\u00e1-la com o olhar do Bom Pastor, que n\u00e3o procura julgar, mas amar. S\u00f3 a partir da conaturalidade afetiva que d\u00e1 o amor \u00e9 que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos crist\u00e3os, especialmente nos pobres (n.125).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, os sacramentais devem ser evangelizados, iluminados pela Palavra, entroncados nos sacramentos, orientados ao reconhecimento dos benef\u00edcios de Deus e \u00e0 tomada da\u00a0 consci\u00eancia do compromisso que o crist\u00e3o tem com o mundo (Puebla n.962; DAp n.380-430). Mas n\u00e3o se pode esquecer que s\u00e3o sacramentos dos pobres e s\u00e3o parte de uma teologia e pastoral da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tamb\u00e9m dever\u00e1 levar \u00e0 reforma os sacramentais, ampliando aos leigos muitas b\u00ean\u00e7\u00e3os que, at\u00e9 agora, est\u00e3o ligadas exclusivamente ao minist\u00e9rio ordenado. A igreja local tem aqui um amplo espa\u00e7o para realizar\u00a0 a sua miss\u00e3o pastoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>6 Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sacramental \u00e9 o clamor do povo feito ora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, que sobe ao Pai atrav\u00e9s da Igreja e desce sobre o povo como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o. Esta b\u00ean\u00e7\u00e3o atualiza de modo eclesial as bem-aventuran\u00e7as dos pobres e antecipa c\u00f3smica e historicamente o Reino de Deus, o triunfo da vida sobre a morte. E tudo isso, pela miseric\u00f3rdia do nosso Deus, que nos visita para iluminar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte (Lc 1,68-79).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os destinat\u00e1rios privilegiados dos sacramentais s\u00e3o os pobres, ou seja, a maior parte da Igreja e da humanidade hoje. E, como escreve o papa Francisco na <em>Evangelii Gaudium<\/em>, \u201cas express\u00f5es da piedade popular t\u00eam muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, s\u00e3o um lugar teol\u00f3gico a que devemos prestar aten\u00e7\u00e3o particularmente na hora de pensar a nova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d (<em>EG<\/em> n.126).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sacramentais dos pobres podem evangelizar a teologia e a pastoral dos sete sacramentos. Os pobres sempre nos evangelizam.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>V\u00edctor Codina, SJ. <\/em>Universidad Cat\u00f3lica de Cochabanba, Bol\u00edvia. Texto original em Espanhol<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V. Os sacramentais: sacramentos dos pobres<em>.<\/em> <em>Perspectiva Teol\u00f3gica <\/em>v.22, n.56, 1990. p.55-68<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V. \u00a0<em>Sacramentos<\/em>. In: ELLACUR\u00cdA, I.; SOBRINO, J. (eds.)<em> Mysterium Liberationis. <\/em>v.II. Madrid: Trotta, 1990. p.267-294.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARTIMORT, A. G. <em>La Iglesia en oraci\u00f3n<\/em>. Barcelona: Herder, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TABORDA, F.\u00a0 <em>Sacramentos, praxis e festa<\/em>. 4.ed. Petr\u00f3polis: Vozes,,1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOFF, L. <em>Los sacramentos de la vida y la vida de los sacramentos<\/em>. Bogot\u00e1: Indo-American Press Service, 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOROBIO, D. <em>La celebraci\u00f3n en la Iglesia, II Sacramentos<\/em>. Salamanca: S\u00edgueme, \u00a0\u00a01988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTILLO, J. M. <em>El Reino de Dios<\/em>. 3.ed. Bilbao: Descl\u00e9e de Brouwer,. 2001<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHARALAMBIDIS, S. Cosmolog\u00eda Cristiana. In:\u00a0 LAURENT, B.; REFOUL\u00c9, F.\u00a0 <em>Iniciaci\u00f3n a la pr\u00e1ctica de la teolog\u00eda. <\/em>v.III. Madrid: Cristiandad, 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CODINA, V. <em>No exting\u00e1is el Esp\u00edritu<\/em>. Santander: Sal Terrae, \u00a02008<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KASPER,W. <em>La miseric\u00f3rdia<\/em>. 3.ed. Santander: Sal Terrae, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IRRARR\u00c1ZAVAL, D. <em>Itinerarios de la fe andina<\/em>. Cochabamba: Verbo Divino, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 O que s\u00e3o os sacramentais? 2 Uma aproxima\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica 3 Popularidade dos sacramentais 4 Ilumina\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica 4.1 Reino de Deus 4.2 A ora\u00e7\u00e3o da Igreja 4.3 Cosmologia teol\u00f3gica e sacramental 4.4 A teologia da ben\u00e7\u00e3o 5 Teologia da miseric\u00f3rdia 6 Conclus\u00e3o 7 Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas 1 O que s\u00e3o os sacramentais? O Vaticano II [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-1314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sacramento-e-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1314"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1617,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1314\/revisions\/1617"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}