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{"id":1308,"date":"2016-11-19T17:25:59","date_gmt":"2016-11-19T19:25:59","guid":{"rendered":"http:\/\/theologicalatinoamericana.com\/?p=1308"},"modified":"2018-04-21T18:09:59","modified_gmt":"2018-04-21T21:09:59","slug":"moral-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/?p=1308","title":{"rendered":"Moral Social"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 Evangelho: fonte da preocupa\u00e7\u00e3o social da Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 O ensinamento social da Igreja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 Princ\u00edpios permanentes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 \u00c2mbitos de aplica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 A solidariedade como proposta \u00e9tica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 Os direitos humanos como um desafio urgente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 Uma releitura da op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8\u00a0Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>1 Evangelho: fonte de preocupa\u00e7\u00e3o social da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>A Sagrada Escritura \u00e9 a alma da teologia (<em>Dei Verbum<\/em>, n.24), \u00e9 a fonte de inspira\u00e7\u00e3o do pensamento social. Dela fluem as interpela\u00e7\u00f5es para os grandes temas da atualidade social; justi\u00e7a, direitos humanos, a fraternidade e a solidariedade. Jesus e sua mensagem, o Reino de Deus, s\u00e3o o ponto de partida e de chegada (Mc 1, 15; Mt 5: 3-12). O amor (<em>\u00e1gape<\/em>) \u00e9 o conceito mais importante (cf. 1Cor 13) e a regra de ouro da moral social da Igreja: \u201cAssim, em tudo, fa\u00e7am aos outros o que voc\u00eas querem que eles lhes fa\u00e7am; pois esta \u00e9 a Lei e os Profetas\u201d (Mt 7,12; Lc 6,31). O Evangelho deve ser anunciado no mundo do trabalho, da economia, da pol\u00edtica, da cultura, da fam\u00edlia. Todas estas realidades s\u00e3o parte da vida humana e, portanto, s\u00e3o alcan\u00e7adas pela salva\u00e7\u00e3o trazida por Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia do amor crist\u00e3o torna-se compromisso por amor; a f\u00e9 busca a express\u00e3o \u00e9tica. Isto \u00e9 afirmado claramente na Carta de Tiago:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">De que adianta, meus irm\u00e3os, algu\u00e9m dizer que tem f\u00e9, se n\u00e3o tem obras? Acaso a f\u00e9 pode salv\u00e1-lo? Se um irm\u00e3o ou irm\u00e3 estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de voc\u00eas lhe disser: \u2018V\u00e1 em paz, aque\u00e7a-se e alimente-se at\u00e9 satisfazer-se\u2019, sem por\u00e9m lhe dar nada, de que adianta isso? Assim tamb\u00e9m a f\u00e9, por si s\u00f3, se n\u00e3o for acompanhada de obras, est\u00e1 morta (Tg 2,14-17; cf. 1 Jo 4,19-21).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia do amor se faz solicita\u00e7\u00e3o e busca de configura\u00e7\u00e3o de\u00a0 uma sociedade justa, onde todos est\u00e3o inclu\u00eddos para participar em sua organiza\u00e7\u00e3o e\u00a0 desfrutar de bem-estar. O social forma parte essencial do ser humano e, por isso, com toda a raz\u00e3o, os bispos latino-americanos declararam: \u201co nosso comportamento social \u00e9 uma parte integrante do nosso seguimento de Cristo\u201d (Puebla, n.476).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A este respeito, a par\u00e1bola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37; Mt 22,34-40; Mc 12,28-31) \u00e9 muito esclarecedora. O escriba ou o jurista pergunta a Jesus \u201cquem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo?\u201d, porque n\u00e3o se deve cometer erros neste ponto em que est\u00e1 em jogo a vida eterna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta de Jesus \u00e9 surpreendente porque n\u00e3o d\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do pr\u00f3ximo, n\u00e3o requer \u2013 ao estilo grego \u2013 um amor universal pela humanidade, mas mostra atrav\u00e9s da par\u00e1bola, o procedimento concreto de amor aut\u00eantico ao pr\u00f3ximo. Ou seja, a Jesus n\u00e3o importa perguntar quem ele \u00e9, ou qual sua nacionalidade ou confiss\u00e3o, mas sim mostrar que todo aquele que precisa da nossa ajuda \u00e9 nosso pr\u00f3ximo e n\u00f3s somos o pr\u00f3ximo dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da par\u00e1bola, podem ser tiradas as seguintes conclus\u00f5es \u00e9ticas sobre o amor crist\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a)<em> A ruptura no conceito vigente de pr\u00f3ximo<\/em>. A pergunta inicial do perito da lei presumia uma <em>delimita\u00e7\u00e3o excludente<\/em> na categoria de pr\u00f3ximo (at\u00e9 quem chega a minha obriga\u00e7\u00e3o de amar? ou quem est\u00e1 inclu\u00eddo no conceito de pr\u00f3ximo?). Jesus recusa-se a responder esta quest\u00e3o e sublinha que o pr\u00f3ximo \u00e9 aquele que vem ao nosso encontro no momento particular e concreto da vida di\u00e1ria. O conceito crist\u00e3o de pr\u00f3ximo \u00e9 o resultado da hist\u00f3ria e n\u00e3o o seu ponto de partida. Em outras palavras, Jesus n\u00e3o define o conceito de pr\u00f3ximo, mas descreve a a\u00e7\u00e3o pela qual se faz do outro um pr\u00f3ximo. Em nossa linguagem cotidiana, a palavra \u201cpr\u00f3ximo\u201d tem o sentido geral de \u201cvizinho\u201d ou \u201cfulano\u201d, um significado abstrato, passivo e neutro. Na par\u00e1bola, o conceito de pr\u00f3ximo est\u00e1 relacionado a uma a\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, comprometedora e hist\u00f3rica. O pr\u00f3ximo n\u00e3o \u00e9 apenas outro, mas aquele que eu torno um outro relevante e significativo; fazer do outro, atrav\u00e9s de uma a\u00e7\u00e3o concreta, o meu pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) <em>O crit\u00e9rio de compaix\u00e3o<\/em>. A descri\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o de proximidade n\u00e3o \u00e9 definida pela presen\u00e7a (o sacerdote e o levita estavam presentes), mas pela capacidade de se compadecer frente a necessidade do outro. S\u00f3 quem teve compaix\u00e3o (padecer com) \u00e9 identificado por Jesus como algu\u00e9m que se comportou como pr\u00f3ximo. O doutor da lei perguntou: quem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo? E Jesus responde com outra pergunta: a quem voc\u00ea tratou como pr\u00f3ximo? Ou seja, o crit\u00e9rio fundamental de proximidade se define a partir das necessidades do outro. Portanto, o pr\u00f3ximo n\u00e3o \u00e9 definido pela mera presen\u00e7a, mas atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o de acudir o outro que \u00e9 um necessitado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) <em>A pr\u00e1tica do amor<\/em>. A capacidade de se compadecer frente as necessidades do outro faz com que o amor n\u00e3o se manifeste apenas atrav\u00e9s de sentimentos e palavras, mas tamb\u00e9m \u2013 e especialmente \u2013 em fatos concretos. O samaritano se preocupou pelo ferido: ele se aproximou, tratou suas feridas, derramando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre o seu pr\u00f3prio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. E a resposta de Jesus foi: \u201cfa\u00e7a o mesmo\u201d e \u201cfa\u00e7a isso e viver\u00e1\u201d. Jesus n\u00e3o estava interessado no desenvolvimento te\u00f3rico-legalista da delimita\u00e7\u00e3o do conceito de pr\u00f3ximo, pois urgia a pr\u00e1tica concreta do amor diante da necessidade do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) <em>Amor sem limites<\/em>. A verdadeira compaix\u00e3o leva \u00e0 radicalidade na pr\u00e1tica do amor. Esta radicalidade \u00e9 mostrada na ajuda desinteressada do samaritano diante do desvalido, porque, para al\u00e9m das divis\u00f5es nacionais e de culto, o outro est\u00e1 ferido. A vida de Jesus \u00e9 o exemplo desse amor sem limites, \u00e9 mediante sua pr\u00f3pria vida que a prop\u00f5e como um modelo de servi\u00e7o aos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e) <em>O necessitado como referente prim\u00e1rio<\/em>. O doutor da lei pergunta pelo objeto do amor (o conhecimento te\u00f3rico: a quem eu devo amar?) enquanto Jesus responde em termos de sujeito do amor (a realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de como se deve amar). A resposta de Jesus coloca o sujeito na mesma posi\u00e7\u00e3o daquele que padece a necessidade e, a partir dessa situa\u00e7\u00e3o de abandono, levanta a quest\u00e3o: o que posso fazer? \u00c9 precisamente a capacidade de compaix\u00e3o que o torna sens\u00edvel \u00e0s necessidades do outro e leva a uma pr\u00e1tica do amor. O necessitado torna-se a medida espec\u00edfica de um amor sem limites,\u00a0 express\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o do amor a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus faz do amor ao outro uma pergunta altru\u00edsta (levantar a quest\u00e3o a partir da necessidade do outro) e n\u00e3o uma observa\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica (como eu posso ajudar o outro a partir de minha situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel de n\u00e3o necessitado). Portanto, a justi\u00e7a tem a sua origem em Deus. O amor, a verdade e a justi\u00e7a s\u00e3o uma unidade em Deus. \u201cO amor \u2013 <em>caritas<\/em> \u2013 \u00e9 uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria, que impele as pessoas a se envolverem com coragem e generosidade, no campo da justi\u00e7a e da paz\u201d (<em>Caritas in veritate<\/em> n.1). O amor ganha forma operativa na justi\u00e7a. Se, por um lado, a justi\u00e7a n\u00e3o pode ser separada da caridade (<em>Populorum progressio<\/em> n.22), por outro lado, \u00e9 o primeiro caminho da caridade: reconhecer e respeitar os direitos dos indiv\u00edduos e dos povos! (<em>Caritas in veritate<\/em> n.6). A justi\u00e7a que brota do amor de Deus \u00e9 o fundamento da justi\u00e7a social e da op\u00e7\u00e3o pelos marginalizados, indefesos e exclu\u00eddos da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2 \u00a0O ensinamento social da Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Ensinamento Social da Igreja<\/em> (Doutrina Social da Igreja) \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o, de forma sistem\u00e1tica, da preocupa\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio \u00a0com os problemas sociais,\u00a0 explicitando as obriga\u00e7\u00f5es sociais. Ou seja, o dever crist\u00e3o de cooperar com a constru\u00e7\u00e3o de um mundo humano e justo (<em>Gaudium et Spes<\/em>, n.34, 43, 72; <em>Octogesima Adveniens<\/em>, n.24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O documento inaugural \u00e9 a enc\u00edclica <em>Rerum Novarum<\/em> do papa Le\u00e3o XIII, publicada em 15 de maio de 1891. \u00c9 a primeira vez que um documento do Magist\u00e9rio \u00e9 totalmente dedicado \u00e0 denominada \u201cquest\u00e3o social\u201d. A Igreja se volta para os problemas que afligem aos pobres. Seu contexto \u00e9 o de uma sociedade profundamente transformada pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial: revolu\u00e7\u00e3o <em>socioecon\u00f4mica<\/em>, com o surgimento e consolida\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria; <em>pol\u00edtica,<\/em> por meio do fortalecimento dos Estados-na\u00e7\u00e3o; <em>cient\u00edfica<\/em>, atrav\u00e9s do aprofundamento do conhecimento aliado \u00e0 t\u00e9cnica; <em>filos\u00f3fica<\/em>, fundada no pensamento da raz\u00e3o ilustrada e na emerg\u00eancia da subjetividade. No final do s\u00e9culo XIX, a Igreja se encontra frente ao capitalismo e ao socialismo marxista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lista dos principais documentos da Doutrina Social da Igreja (DSI) em ordem cronol\u00f3gica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rerum Novarum<\/em> (RN): Le\u00e3o XIII de 1891.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quadragesimo anno<\/em> (QA): Pio XI, 1931.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Radiomensagem<em> A solennit\u00e0<\/em>: Pio XII de 1941.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mater et Magistra<\/em> (MM): Jo\u00e3o XXIII, 1961.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pacem in Terris<\/em> (PT): Jo\u00e3o XXIII, 1963.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Constitui\u00e7\u00e3o Pastoral <em>Gaudium et Spes<\/em>: Conc\u00edlio Vaticano II, 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Declara\u00e7\u00e3o <em>Dignitatis Humanae<\/em>: Conc\u00edlio VaticanoII, 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Populorum Progressio<\/em> (PP): Paulo VI de 1967<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Octogesima adveniens<\/em> (OA): Paulo VI 1971.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justi\u00e7a no mundo: S\u00ednodo dos Bispos, 1971.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em> (SRS): Jo\u00e3o Paulo II, de 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Laborem Exercens<\/em> (LE): Jo\u00e3o Paulo II de 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Centesimus Annus <\/em>(CA): Jo\u00e3o Paulo II, de 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Caritas in veritate<\/em> (CV): Bento XVI: 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (CSDC): Conselho Pontif\u00edcio de Justi\u00e7a e Paz, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, os documentos das Assembleias da Confer\u00eancia do Episcopado Latino-americano (CELAM) em Medell\u00edn (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) oferecem elementos para o pensamento social. S\u00e3o textos caracterizados pelo profetismo, pela op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, pela defesa e a promo\u00e7\u00e3o da dignidade humana. A condi\u00e7\u00e3o fundamental da verdadeira liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o de todas as formas de escravid\u00e3o. O Evangelho deve iluminar o compromisso pela liberta\u00e7\u00e3o de cada homem e de todos os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Documento de Aparecida desenvolveu orienta\u00e7\u00f5es para uma agenda social (n.347-546.): globaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade e da justi\u00e7a, o compromisso com os novos rostos de Cristo (moradores de rua, imigrantes, doentes, dependentes qu\u00edmicos, prisioneiros); compromisso com a defesa da fam\u00edlia e da vida humana (inf\u00e2ncia, juventude, idosos, mulheres); a necessidade de uma pastoral da comunica\u00e7\u00e3o social; a presen\u00e7a mais eficaz e prof\u00e9tica na pol\u00edtica; compromisso de solidariedade com os povos ind\u00edgenas e afrodescendentes. A teologia da liberta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m oferece uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel para a reflex\u00e3o e a pr\u00e1xis social dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 Princ\u00edpios permanentes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>Ao longo das v\u00e1rias \u201cenc\u00edclicas sociais\u201d surgidas desde a <em>Rerum Novarum<\/em> at\u00e9 os dias atuais \u2013 e apesar das mudan\u00e7as que ocorreram durante esse mesmo per\u00edodo \u2013 se repetem um conjunto de princ\u00edpios \u00e9ticos que formam a ess\u00eancia do <em>pensamento social<\/em> da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, encontramos a afirma\u00e7\u00e3o solene da sagrada <em>dignidade do ser humano<\/em>, de cada homem e mulher. O n\u00facleo da antropologia b\u00edblica \u00e9 a semelhan\u00e7a do ser humano o seu criador (Gn 1,26-28; cf. Sab 2,23; Eclo 17,3). E, como <em>imagem e semelhan\u00e7a<\/em> de Deus, se revela de maneira perfeita e completa na pessoa de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (2 Cor\u00edntios 4,4; Col 1,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta dignidade \u00e9 a raiz dos direitos humanos e deve ser proclamada e defendida contra todos os tipos de agress\u00e3o. Portanto, somente o reconhecimento da dignidade humana \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de uma sociedade justa. Neste sentido, o verdadeiro progresso \u00e9 entendido como um desenvolvimento integral da transi\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es \u201cmenos humanas para condi\u00e7\u00f5es \u201cmais humanas\u201d; ou seja, o desenvolvimento aut\u00eantico n\u00e3o \u00e9 medido apenas, nem de maneira privilegiada, pela quantidade, mas especialmente pela qualidade; e isso significa o dever de solidariedade, de justi\u00e7a social e caridade universal e internacional (<em>Mater et Magistra<\/em> n.97-103; <em>Pacem in Terris<\/em> n.123; <em>Populorum Progressio<\/em> n.65; <em>Laborem Exercens<\/em> n.15; <em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em> n.44). \u201cA f\u00e9 crist\u00e3 se ocupa do desenvolvimento contando apenas com Cristo, a quem deve fazer refer\u00eancia toda a aut\u00eantica voca\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento humano integral\u201d (<em>Caritas in veritate<\/em> n.18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exig\u00eancia do bem comum \u00e9 uma das principais chaves da \u00e9tica social, porque as suas exig\u00eancias s\u00e3o o crit\u00e9rio da justi\u00e7a social; o bem comum \u00e9 entendido como o conjunto das condi\u00e7\u00f5es de vida social com que os homens e as mulheres, as fam\u00edlias, as associa\u00e7\u00f5es e os povos podem alcan\u00e7ar, com maior plenitude e facilmente, a sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o. No princ\u00edpio da equidade \u2013 o cuidado especial para os mais vulner\u00e1veis na sociedade \u2013 est\u00e1 inclu\u00eddo no princ\u00edpio do bem comum, de modo que o bem de todos tem um correspondente privilegiado (<em>Rerum Novarum<\/em> n.24, 25; <em>Quadragesimo Anno<\/em> n.110; <em>Mater et Magistra<\/em> n.65; <em>Pacem in Terris<\/em> n.53-66; <em>Gaudium et spes<\/em> n.74; <em>Sollicitudo rei socialis<\/em> n.42, 43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio da <em>subsidiariedade <\/em>enfatiza a dignidade e a responsabilidade do indiv\u00edduo e dos organismos intermedi\u00e1rios, evitando o individualismo liberal e o estatismo totalit\u00e1rio, porque favorece a interven\u00e7\u00e3o do Estado para o bem comum, facilitando a iniciativa do indiv\u00edduo e do grupo como um contributo para a comunidade humana (<em>Rerum novarum<\/em> n.26; <em>Quadragesimo anno<\/em> n.76-80; <em>Mater et Magistra<\/em> n.51-58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio da <em>destina\u00e7\u00e3o universal dos bens<\/em> prevalece sobre o direito de propriedade, porque \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o do <em>bem comum<\/em> no campo socioecon\u00f4mico (<em>Rerum Novarum<\/em> n.16; <em>Quadragesimo Anno<\/em> n.45-50; <em>Populorum Progressio<\/em>\u00a0 n.23-24) \u201cDeus destinou a terra e tudo o que ela cont\u00e9m para uso de todos os homens e todos os povos (Gn 1,28-29), de modo que os bens criados devem ser distribu\u00eddos equitativamente a todos, de acordo com a regra da justi\u00e7a, insepar\u00e1vel da caridade\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.69). O direito de acesso universal de todos ao uso dos bens deve ser equitativamente garantido para cada indiv\u00edduo (<em>Centesimus Annus<\/em> n.6). \u00c9 um dever social grave e urgente conduzi-los \u00e0 sua finalidade (<em>Populorum Progressio<\/em> n.22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhece-se o direito \u00e0 <em>propriedade privada<\/em>, incluindo os meios de produ\u00e7\u00e3o, mas dentro do contexto do princ\u00edpio prim\u00e1rio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, uma vez que todos os outros direitos lhe est\u00e3o subordinados\u00a0 (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.71). Toda propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o tem uma fun\u00e7\u00e3o social e deve contribuir para o bem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho ocupa a chave essencial e o centro da quest\u00e3o social (<em>Laborem Exercens<\/em> n.3). O ser humano \u00e9 o sujeito do trabalho, de modo que se afirma a prioridade do trabalho sobre o capital.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo trabalho humano procede imediatamente da pessoa, a qual como que marca com o seu zelo as coisas da natureza, e as sujeita ao seu dom\u00ednio. \u00c9 com o seu trabalho que o homem sustenta de ordin\u00e1rio a pr\u00f3pria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irm\u00e3os, pode exercitar uma caridade aut\u00eantica e colaborar no acabamento da cria\u00e7\u00e3o divina (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.67).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A quest\u00e3o salarial, a flexibiliza\u00e7\u00e3o, a precariza\u00e7\u00e3o e o desemprego est\u00e3o entre as principais preocupa\u00e7\u00f5es da moral social. Rejeita-se a redu\u00e7\u00e3o do trabalho a uma simples mercadoria ou a uma for\u00e7a an\u00f4nima, e se sublinha a responsabilidade do empres\u00e1rio direta e indiretamente sobre o trabalho. Tamb\u00e9m apela para a solidariedade de e com os homens e as mulheres no trabalho (<em>Quadragesimo anno<\/em> n.53 ; <em>Laborem Exercens<\/em> n.3, 6, 7, 8, 12, 16, 17). O cumprimento do princ\u00edpio da remunera\u00e7\u00e3o justa \u00e9 a medida concreta para cumprir com a <em>justi\u00e7a social<\/em> na rela\u00e7\u00e3o entre o trabalhador e o empres\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bento XVI apela \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o do trabalho decente:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">um trabalho escolhido livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discrimina\u00e7\u00e3o; um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das fam\u00edlias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe espa\u00e7o suficiente para reencontrar as pr\u00f3prias ra\u00edzes em n\u00edvel pessoal, familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condi\u00e7\u00e3o decorosa (<em>Caritas in veritate<\/em> n.63).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A Igreja apoia os sindicatos e as diversas lutas da classe trabalhadora por seus direitos (Comp\u00eandio n.305). Os sucessivos documentos t\u00eam procurado acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o dos desafios sindicais que surgiram com o capitalismo (<em>Rerum Novarum<\/em> n.34, 39-40; <em>Gaudium et Spes<\/em> n.68). As organiza\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o \u201cprotagonistas da luta pela justi\u00e7a social\u201d (<em>Laborem Exercens<\/em> n.20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 \u00c2mbitos de aplica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.1 Economia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Francisco tem uma vis\u00e3o cr\u00edtico-prof\u00e9tica da economia contempor\u00e2nea. \u201cVivemos em uma economia de exclus\u00e3o e desigualdade. Essa economia mata!\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em>, n.53). Retomando um tema importante da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, a Igreja condena a idolatria do dinheiro. \u201cCriamos novos \u00eddolos. A adora\u00e7\u00e3o do bezerro de ouro (cf. Ex 32,1-35) encontrou uma vers\u00e3o nova e cruel do fetichismo do dinheiro e da ditadura da economia sem rosto e sem objetivo verdadeiramente humano\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em> n.53). \u201cNa vida econ\u00f4mica e social deve ser respeitada e promovida a dignidade da pessoa humana, a sua voca\u00e7\u00e3o e o bem de toda a sociedade. Porque o homem \u00e9 o autor, o centro e o fim de toda a vida econ\u00f4mico-social\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A economia em todas as suas extens\u00f5es, \u00e9 um setor de atividade humana. A rela\u00e7\u00e3o entre economia e \u00e9tica \u00e9 necess\u00e1ria, mesmo que elas sejam reguladas, cada uma em seu campo, por princ\u00edpios pr\u00f3prios. Na verdade, para Bento XVI, \u201ca economia tem necessidade da \u00e9tica para funcionar corretamente; n\u00e3o qualquer \u00e9tica, mas uma \u00e9tica que seja amiga da pessoa\u201d (<em>Caritas in veritate<\/em> n.45). O objetivo da economia \u00e9 produzir riqueza e seu incremento \u00e9 voltado para o desenvolvimento global e solid\u00e1rio do homem e da sociedade. Mas, \u201co principal objetivo da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o apenas o aumento da quantidade de produtos, nem o lucro ou o poder, mas o servi\u00e7o do homem; do homem integral, isto \u00e9, tendo em conta a ordem de suas necessidades materiais e das exig\u00eancias da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.64).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desenvolvimento econ\u00f4mico \u201cn\u00e3o deve ser entregue s\u00f3 ao arb\u00edtrio de alguns poucos indiv\u00edduos ou grupos economicamente mais fortes ou s\u00f3 da comunidade pol\u00edtica ou de algumas na\u00e7\u00f5es mais poderosas\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.65). As necessidades dos pobres n\u00e3o permitem prorroga\u00e7\u00e3o. Portanto, eles devem ter prioridade sobre os desejos dos ricos. H\u00e1 necessidades econ\u00f4micas que s\u00e3o direitos humanos fundamentais (<em>Pacem in Terris<\/em> n.11). \u201cN\u00e3o \u00e9 um mero aumento de produtividade ou lucro, ou poder, mas o servi\u00e7o do homem integral\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.64).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Bento XVI, h\u00e1 iniciativas no \u00e2mbito da economia que indicam que \u201c\u00e9\u00a0 poss\u00edvel viver rela\u00e7\u00f5es autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de solidariedade e reciprocidade, mesmo no \u00e2mbito da atividade econ\u00f4mica\u201d (<em>Caritas in veritate<\/em> n.36). Existem alguns exemplos: fundos de investimento \u00e9tico, microcr\u00e9ditos (<em>Caritas in veritate<\/em> n.45 e 65), cooperativas de consumo (n.66) e\u00a0 a economia civil e de comunh\u00e3o (n.46). Na verdade, cada empresa deveria ser caracterizada pela capacidade de servir o bem comum da sociedade atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o e fornecimento de bens e servi\u00e7os \u00fateis e necess\u00e1rios para as pessoas. Deve criar riqueza para toda a sociedade, n\u00e3o s\u00f3 para o empres\u00e1rio (Comp\u00eandio<em>,<\/em> n.344).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.2 Pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pessoa humana \u00e9 o fundamento e objetivo da conviv\u00eancia pol\u00edtica (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.25). A comunidade pol\u00edtica vem da natureza das pessoas e existe para obter o bem comum, que seria de outra forma inating\u00edvel (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.74). No entanto, para auxiliar na transforma\u00e7\u00e3o de uma sociedade injusta, os crist\u00e3os devem participar da pol\u00edtica. \u201cEmbora a justa ordem da sociedade e do Estado sejam o dever central da pol\u00edtica, a Igreja n\u00e3o pode nem deve ser deixada de fora da luta pela justi\u00e7a\u201d (<em>Evangelii Gaudium <\/em>n.183; <em>Deus caritas est<\/em> n.28) . A mensagem b\u00edblica inspira o compromisso crist\u00e3o: \u201ca pol\u00edtica \u00e9 uma forma de oferecer adora\u00e7\u00e3o a Deus\u201d (<em>Puebla<\/em> n.521).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sociedade <em>pol\u00edtica <\/em>destacam-se como requisitos \u00e9ticos os valores da <em>igualdade<\/em> e da <em>participa\u00e7\u00e3o<\/em> em uma estrutura <em>democr\u00e1tica<\/em> (<em>democracia<\/em>), porque correspondem melhor \u00e0 dignidade e ao sentido de responsabilidade do cidad\u00e3o (<em>Mater et Magistra<\/em> n.83; <em>Octogesima adveniens<\/em> n.24, 26, 30-35; <em>Pacem in terris<\/em> n.159; <em>Sollicitudo rei socialis<\/em> n.20-21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A autoridade pol\u00edtica \u00e9 necess\u00e1ria em fun\u00e7\u00e3o das tarefas que lhe s\u00e3o confiadas e deve ser um componente positivo e insubstitu\u00edvel da conviv\u00eancia civil (<em>Pacem in Terris<\/em> n.279). Essa autoridade deve garantir a harmonia social, sem tomar o lugar da livre atividade dos indiv\u00edduos e dos grupos, mas orientando-a, no respeito e na prote\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia dos sujeitos individuais e sociais para a\u00a0 realiza\u00e7\u00e3o do bem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito da autoridade pol\u00edtica \u00e9 o povo considerado, na sua totalidade, como o\u00a0 titular da soberania. Portanto, a Igreja observa com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os e garante a possibilidade de escolher os seus governantes ou de substitu\u00ed-los (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.75). \u201c\u00c9 uma exig\u00eancia da dignidade humana que todos possam, com pleno direito,\u00a0 se envolver na vida p\u00fablica\u201d (<em>Pacem in Terris<\/em> n.73). Uma aut\u00eantica democracia s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel num Estado de direito e com base em uma concep\u00e7\u00e3o correta da pessoa humana (<em>Centesimus Annus<\/em> n.46). A este respeito, os<em> partidos pol\u00edticos<\/em> t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de promover a participa\u00e7\u00e3o e o acesso de todos \u00e0s responsabilidades p\u00fablicas e orientar a sociedade para o bem comum (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.75). Outro instrumento de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 o <em>referendum<\/em>, no qual se realiza uma forma direta de elei\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja e a comunidade pol\u00edtica, embora ambas se expressem com estruturas organizacionais vis\u00edveis, s\u00e3o de natureza diversa, seja por sua configura\u00e7\u00e3o ou pela finalidade perseguida: \u201cno campo que lhes \u00e9 pr\u00f3prio, a comunidade pol\u00edtica e a Igreja s\u00e3o independentes e aut\u00f4nomas\u201d (<em>Gaudium et Spes<\/em> n.76). Por esta raz\u00e3o, a Igreja mant\u00e9m a sua <em>autonomia frente \u00e0s ideologias<\/em>. Qualquer sistema, segundo o qual as rela\u00e7\u00f5es sociais estejam determinadas inteiramente por fatores econ\u00f4micos, \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 natureza humana (Catecismo n.2423-2425). Rejeita-se a <em>ideologia liberal (Liberalismo, Capitalismo<\/em>) por seu materialismo pr\u00e1tico (hierarquia errada de valores), bem como a <em>ideologia marxista <\/em>(<em>Marxismo<\/em>) por seu materialismo dial\u00e9tico (uma vis\u00e3o err\u00f4nea de reduzir o ser humano a um resultado das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4.3 Quest\u00e3o ambiental<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o moral contempla a natureza como \u201cexpress\u00e3o de um des\u00edgnio de amor e de verdade\u201d (<em>Caritas in veritate<\/em> n.48). O meio ambiente foi dado por Deus a todos, constituindo seu uso\u00a0 uma responsabilidade que temos com os pobres, as gera\u00e7\u00f5es futuras e toda a humanidade (&#8230;). Quando falta essa perspectiva, o homem acaba considerando a natureza um tabu intoc\u00e1vel ou, pelo contr\u00e1rio,\u00a0 abusa dela. Nem uma nem outra atitude corresponde \u00e0 vis\u00e3o crist\u00e3 da natureza, fruto da cria\u00e7\u00e3o de Deus (<em>Caritas in veritate<\/em> n.48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a extin\u00e7\u00e3o da biodiversidade e a polui\u00e7\u00e3o, as quest\u00f5es relacionadas com a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente devem levar em considera\u00e7\u00e3o as <em>quest\u00f5es \u00a0energ\u00e9ticas<\/em>. O desenvolvimento deve basear-se \u201cno reconhecimento mais urgente dos limites dos recursos naturais, alguns dos quais s\u00e3o n\u00e3o renov\u00e1veis. Us\u00e1-los como se fossem inesgot\u00e1veis, com controle absoluto, compromete gravemente a sua disponibilidade n\u00e3o s\u00f3 para a gera\u00e7\u00e3o presente, mas, sobretudo, para as gera\u00e7\u00f5es futuras\u201d (<em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em> n.34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunidade internacional tem o dever de encontrar formas institucionais para regular a explora\u00e7\u00e3o dos recursos n\u00e3o renov\u00e1veis, tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses pobres, para que eles possam planejar conjuntamente o futuro. Esta responsabilidade \u00e9 global, porque n\u00e3o est\u00e1 relacionada apenas \u00e0 energia, mas a toda a cria\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o devemos deixar despojadas de recursos as novas gera\u00e7\u00f5es (<em>Caritas in veritate<\/em> n.50). Em suma, \u00e9 necess\u00e1ria uma verdadeira mudan\u00e7a de mentalidade que nos induza a adotar novos estilos de vida (<em>Centesimus Annus<\/em> n.36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Requer-se uma esp\u00e9cie de ecologia humana, entendida no seu justo sentido\u00a0 (<em>Caritas in veritate<\/em> n.51). O documento de Aparecida apresenta propostas neste sentido: aprofundar a presen\u00e7a pastoral nas popula\u00e7\u00f5es mais fr\u00e1geis e amea\u00e7adas pelo desenvolvimento predat\u00f3rio, e apoi\u00e1-las em seus esfor\u00e7os para alcan\u00e7ar uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa da terra, da \u00e1gua e dos espa\u00e7os urbanos; buscar um modelo de desenvolvimento alternativo integral e solid\u00e1rio baseado em uma \u00e9tica que inclua a responsabilidade por uma aut\u00eantica ecologia natural e humana, que se fundamente no evangelho da justi\u00e7a, da solidariedade e do destino universal dos bens (Aparecida n.474).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 A solidariedade como proposta \u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A moral social apresenta a solidariedade humana como um requisito inalien\u00e1vel <em>(Gaudium et Spes<\/em> n.12-32 ; <em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em> n.38-40). A solidariedade \u00e9 a express\u00e3o humana da responsabilidade social do indiv\u00edduo e da sociedade com o outro e entre todos. Portanto, a solidariedade \u00e9 considerada uma exig\u00eancia humana, porque cada indiv\u00edduo \u00e9 um ser social, forma parte de uma sociedade e\u00a0 a realiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo necessariamente envolve a realiza\u00e7\u00e3o de cada um. Viver \u00e9 conviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade torna-se uma condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia para todos. N\u00e3o se estende a m\u00e3o (de cima) para quem est\u00e1 embaixo, mas se caminha junto com o outro; n\u00e3o \u00e9 uma vis\u00e3o verticalista da sociedade, mas horizontal, em que n\u00e3o se estende uma m\u00e3o paternalista de um grupo social para o outro , sen\u00e3o que se aperta a m\u00e3o do outro em reconhecimento da igual dignidade. Por isso, a <em>solidariedade<\/em> n\u00e3o significa dar o que se tem de sobra, mas \u00e9 uma express\u00e3o de amor pelo semelhante. O outro se torna um pr\u00f3ximo quando algu\u00e9m dele se aproxima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito de <em>solidariedade<\/em> ocupa um lugar privilegiado na vis\u00e3o crist\u00e3. A Sagrada Escritura \u00e9 o relato da hist\u00f3ria solid\u00e1ria de Deus com a humanidade e a condi\u00e7\u00e3o humana de criatura, significando uma supera\u00e7\u00e3o da mera depend\u00eancia pela responsabilidade em um contexto dialogal entre Deus e a humanidade. Ou seja, a comunidade divina (o mist\u00e9rio da <em>Trindade<\/em>) se revela como comunh\u00e3o com a humanidade na pessoa de <em>Jesus<\/em>, o\u00a0 <em>Cristo<\/em>, e convida o ser humano a compartilhar uma\u00a0 vida em comum uni\u00e3o com o divino e entre si. A experi\u00eancia de solidariedade divina torna-se responsabilidade \u00e9tica de solidariedade nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e sua estrutura\u00e7\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es\u00a0 (Jo 13, 34-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade, explica Jo\u00e3o Paulo II, n\u00e3o \u00e9 um sentimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, pr\u00f3ximas ou afastadas. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo <em>bem comum<\/em>; isto \u00e9, para o bem de todos e de cada um, para que todos n\u00f3s sejamos verdadeiramente respons\u00e1veis \u200b\u200bpor todos (<em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em> n.38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta compreens\u00e3o da <em>solidariedade<\/em> tem ra\u00edzes b\u00edblicas profundas. \u201cDisse o Senhor a Caim: Onde est\u00e1 Abel, teu irm\u00e3o? Ele respondeu: N\u00e3o sei. Sou eu o guarda do meu irm\u00e3o?\u201d (G\u00eanesis 4,9). A resposta de Cain contrasta fortemente com a afirma\u00e7\u00e3o de Jesus: \u201cEm verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irm\u00e3os, a mim o fizestes\u201d (Mt 25,40). Assim, enquanto Caim desconhece seu pr\u00f3prio irm\u00e3o, Jesus identifica-se com os membros mais fracos da sociedade, fazendo-se seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma sociedade globalizada, escreve Bento XVI, o sentido crist\u00e3o da solidariedade deve ser global.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solidariedade universal \u00e9 para n\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 um fato e um benef\u00edcio, mas tamb\u00e9m um dever. Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretens\u00e3o que n\u00e3o devem nada a ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser a si mesmas. Considerando-se titulares s\u00f3 de direitos, frequentemente deparam-se com fortes obst\u00e1culos para maturar uma responsabilidade no \u00e2mbito do desenvolvimento integral pr\u00f3prio e alheio (<em>Caritas in veritate<\/em> n.43).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<strong>6 Os direitos humanos como desafio urgente<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong>A crescente consci\u00eancia dos direitos fundamentais da pessoa humana como uma express\u00e3o jur\u00eddica e pol\u00edtica da dignidade do ser humano tem uma formula\u00e7\u00e3o privilegiada na <em>Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos<\/em>, adotada pela <em>Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em> em Paris em 1948. Esta Declara\u00e7\u00e3o \u00e9 um verdadeiro marco cultural na hist\u00f3ria da humanidade, ao afirmar que \u201ctodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos\u201d (artigo 1\u00ba) e que estes direitos pertencem a \u201ctoda pessoa, sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, cor, sexo, l\u00edngua, religi\u00e3o, opini\u00e3o pol\u00edtica ou de outra natureza, origem nacional ou social, posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, nascimento ou qualquer outra condi\u00e7\u00e3o\u201d (artigo 2\u00ba).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta proclama\u00e7\u00e3o destaca os direitos que correspondem \u00e0 pessoa humana como tal e, portanto, s\u00e3o logicamente e historicamente anteriores ao <em>Estado<\/em>. Assim, o <em>Estado<\/em> n\u00e3o concede esses direitos, mas simples e necessariamente tem que reconhec\u00ea-los. Estes direitos s\u00e3o inalien\u00e1veis porque correspondem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que permitem a realiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo na sociedade ou uma sociedade formada por indiv\u00edduos e, portanto, pertencem \u00e0 mesma natureza humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No pensamento pontif\u00edcio, o aut\u00eantico desenvolvimento da sociedade se baseia no respeito e na promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. \u201cN\u00e3o seria verdadeiramente digno do homem um tipo de desenvolvimento que n\u00e3o respeitasse e promovesse os direitos humanos, pessoais e sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos, incluindo os direitos das na\u00e7\u00f5es populares (&#8230;). Tanto os <em>povos<\/em> como as pessoas devem gozar de uma igualdade fundamental\u201d (<em>Sollicitudo Rei Socialis<\/em> n.33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, a Igreja entende que a defesa dos direitos humanos como express\u00e3o da dignidade inalien\u00e1vel de cada ser humano \u00e9 parte essencial de sua miss\u00e3o evangelizadora. De fato, os bispos latino-americanos proclamaram solenemente:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">sentimo-nos urgidos a cumprir, por todos os meios, o que pode ser o imperativo original desta hora de Deus, em nosso Continente: uma audaciosa profiss\u00e3o de cristianismo e uma promo\u00e7\u00e3o eficiente da dignidade humana e de seus fundamentos divinos, precisamente entre os que mais necessitam, ou porque a desprezam ou sobretudo porque, sofrendo este desprezo, buscam \u2013 talvez \u00e0s cegas \u2013 a liberdade dos filhos de Deus e o advento do homem novo em Jesus Cristo (Puebla n.320).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A responsabilidade de uma reflex\u00e3o sobre os direitos humanos dos esquecidos da hist\u00f3ria \u00e9 crucial para que este discurso tenha a legitimidade de uma <em>\u00e9tica universal<\/em>, uma vez que de outra forma o horizonte dos direitos humanos s\u00f3 \u00e9 aplic\u00e1vel para alguns na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>7 Uma releitura da op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o com os pobres e explorados sociais \u00e9 uma das ra\u00edzes mais profundas da moral social. A causa dos marginalizados confirma a miss\u00e3o e servi\u00e7o da Igreja como prova de sua fidelidade a Cristo, para ser verdadeiramente a Igreja dos pobres (<em>Laborem Exercens<\/em> n.8). O papa Francisco proclama uma \u201cIgreja pobre para os pobres\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em> n.198), porque \u201cpara a Igreja, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres \u00e9 mais uma categoria teol\u00f3gica que cultural, sociol\u00f3gica, pol\u00edtica ou filos\u00f3fica [&#8230;] entendida como uma forma especial de primado na pr\u00e1tica da caridade crist\u00e3, testemunhada por toda a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em> n.199).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o crist\u00e3 particular, que sustenta e ilumina os direitos e deveres humanos, encontra na <em>op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/em> sua verifica\u00e7\u00e3o de radical autenticidade (<em>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>). A finalidade da op\u00e7\u00e3o pelos pobres \u00e9 a sua personaliza\u00e7\u00e3o na sociedade porque consiste principalmente em um relacionamento, uma alian\u00e7a, um jogar-se a sorte com eles. Esta alian\u00e7a com os perdedores da hist\u00f3ria (e tamb\u00e9m as suas v\u00edtimas) \u00e9, de certa forma, perder a pr\u00f3pria vida. Ao pobre o salva de sua car\u00eancia e aquele que opta \u00e9 libertado da sua aliena\u00e7\u00e3o. O que salva \u00e9 a transcend\u00eancia implicada na rela\u00e7\u00e3o: sair para fora de si mesmo e respeitosamente chegar ao outro, e, nesta dupla transcend\u00eancia, a transcend\u00eancia maior de deixar agir o Esp\u00edrito, de reconhecer Jesus no pobre, e de fazer o plano do Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta op\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente daquela pela humanidade, mas consiste precisamente no caminho concreto para torn\u00e1-la eficaz. Deus, em Jesus, estabelece uma alian\u00e7a com toda a humanidade e, em primeiro lugar, com os pobres, porque neles n\u00e3o \u00e9 reconhecida essa humanidade, por falta do que a cultura atual considera valioso e digno de ser humano. Assim, optando por aqueles que de acordo com esse paradigma dominante humano n\u00e3o t\u00eam valor, Deus deixa claro que a sua escolha \u00e9 pela\u00a0 humanidade e que esta condi\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente a cada ser humano. \u201cOs pobres s\u00e3o os destinat\u00e1rios privilegiados do Evangelho\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em> n.48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus, ao reconhec\u00ea-los (Mt 25, 31-46), mostra que ele n\u00e3o \u00e9 o Deus dos s\u00e1bios ou dos ricos ou poderosos, e sim o Deus dos seres humanos. Mas tamb\u00e9m proclama que o indiv\u00edduo n\u00e3o chega \u00e0 categoria de pessoa humana pela posse desses atributos. Em outras palavras, como os pobres tendem a sentir-se n\u00e3o humanos ao introjetar a avalia\u00e7\u00e3o negativa da cultura dominante, Deus, quando opta por eles, certifica a condi\u00e7\u00e3o humana e possibilita que a assumam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pobre que aceita essa rela\u00e7\u00e3o com Deus n\u00e3o se sente exclu\u00eddo, mas reconhecido. Essa aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 a fonte da vida, porque lhe permite encarar a realidade e se relacionar com outros nela. J\u00e1 n\u00e3o cabe a\u00a0 resigna\u00e7\u00e3o, porque a descoberta do respeito por si pr\u00f3prio se abre em dire\u00e7\u00e3o ao outro e ao compromisso com a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele de outro grupo social que opta pelos pobres ingressa em uma rela\u00e7\u00e3o que significa dar-se. O dar-se pressup\u00f5e criar as condi\u00e7\u00f5es de igualdade. \u00c9 a l\u00f3gica da encarna\u00e7\u00e3o: Jesus n\u00e3o se agarra \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o divina, mas se despoja de todos os privil\u00e9gios \u00a0tornando-se semelhante aos seres humanos (Fil 2,6-7). Ent\u00e3o, dar a si mesmo\u00a0 tamb\u00e9m\u00a0 inclui dar o que se tem. Por isso, Jesus fala \u00e0quele que quer segui-lo para vender tudo e se dar aos pobres (Mt 19,21). Esta op\u00e7\u00e3o \u201cest\u00e1 impl\u00edcita na f\u00e9 cristol\u00f3gica naquele Deus que se fez pobre por n\u00f3s, para nos enriquecer com a sua pobreza\u201d (<em>Documento de Aparecida<\/em>: discurso inaugural, n.3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A supera\u00e7\u00e3o da pobreza, como uma express\u00e3o de respeito eficaz para toda e qualquer pessoa humana, exige um sujeito universal. O n\u00facleo deste sujeito universal s\u00e3o os pr\u00f3prios pobres, mas os demais tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rios para apoiar e facilitar esse processo. A integra\u00e7\u00e3o do pobre na sociedade como um sujeito social \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente, para superar a pobreza, porque tamb\u00e9m se precisa de uma alian\u00e7a com os n\u00e3o pobres, para que optem por eles. Para que \u201centre voc\u00eas n\u00e3o haja pobre\u201d (Dt 15,4)!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta op\u00e7\u00e3o implica um redimensionamento da exist\u00eancia, pessoal e social, daqueles de outros grupos sociais que a assumem. Por isso, a din\u00e2mica da op\u00e7\u00e3o pelos pobres tende \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma cultura alternativa. Assim, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres,\u00a0 que come\u00e7a como uma maneira de sair de si mesmo para afirmar o outro que \u00e9 negado,\u00a0 que come\u00e7a vivendo-se como perda e sacrif\u00edcio realizado como correspond\u00eancia \u00e0 f\u00e9 em Deus que funda a pr\u00f3pria vida, \u00a0torna-se progressivamente uma oportunidade n\u00e3o s\u00f3 de humaniza\u00e7\u00e3o radical, mas tamb\u00e9m de progresso enquanto ser cultural e at\u00e9 mesmo de valoriza\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para superar a pobreza, e afirmar a dignidade do pobre, \u00e9 preciso redimensionar o que existe para dar um lugar aos pobres na sociedade. Dar lugar aos pobres significa um ajuste estrutural t\u00e3o profundo que equivale a configurar uma nova figura hist\u00f3rica; significa renunciar a \u00a0muitos elementos do atual sistema de bem-estar; renunciar, em primeiro lugar, a esse consumismo fren\u00e9tico e refrear a sede ilimitada de riqueza e poder. Na verdade,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">enquanto n\u00e3o se elimine a exclus\u00e3o e a desigualdade\u00a0 dentro da sociedade e entre os diferentes povos, ser\u00e1 imposs\u00edvel\u00a0 erradicar a viol\u00eancia (&#8230;). Quando a sociedade \u2013 local, nacional ou mundial \u2013 abandona na periferia uma parte de si mesma, n\u00e3o h\u00e1 programas pol\u00edticos, nem for\u00e7as de ordem ou servi\u00e7os de intelig\u00eancia que possam garantir a tranquilidade indefinidamente. Isso n\u00e3o acontece apenas porque a desigualdade social provoca a rea\u00e7\u00e3o violenta dos que s\u00e3o exclu\u00eddos do sistema, mas porque o sistema social e econ\u00f4mico \u00e9 injusto em sua raiz. (&#8230;) Se cada a\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias, uma mal imerso nas estruturas de uma sociedade sempre cont\u00e9m um potencial de dissolu\u00e7\u00e3o e morte. \u00c9 o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual n\u00e3o podemos esperar por um futuro melhor. (<em>Evangelii Gaudium<\/em> n.59).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fundamenta\u00e7\u00e3o deste sentido vital \u00e9 o reconhecimento real do outro no ato de reconhecer-se\u00a0 a si mesmo (filho de Deus e irm\u00e3o de todos). Mas o reconhecimento positivo dos pobres \u2013 o que \u00e9 feito tanto nas rela\u00e7\u00f5es estruturais como nas rela\u00e7\u00f5es pessoais \u2013 provoca uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda\u00a0 na pr\u00f3pria vida, e \u00e9 uma novidade t\u00e3o radical na figura hist\u00f3rica vigente, que n\u00e3o pode ser realizada se n\u00e3o se abrem horizontes muito motivadores: sem um cora\u00e7\u00e3o de carne (cf. Os\u00e9ias 6,6), nunca haver\u00e1 <em>justi\u00e7a<\/em>, nem, por conseguinte, ser\u00e1 poss\u00edvel a vida humana na terra. Isto \u00e9 o que est\u00e1 em jogo na op\u00e7\u00e3o pelos pobres. Portanto, de acordo com o papa Francisco, \u201cningu\u00e9m deve dizer que est\u00e1 longe dos pobres porque suas escolhas de vida implicam prestar mais aten\u00e7\u00e3o a outras incumb\u00eancias. Esta \u00e9 uma desculpa frequente nos meios acad\u00eamicos, empresariais ou profissionais, e at\u00e9 mesmo eclesiais (&#8230;) ningu\u00e9m pode sentir-se dispensado da preocupa\u00e7\u00e3o pelos pobres e pela justi\u00e7a social\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em> n.201). S\u00f3 haver\u00e1 paz no mundo quando se fizer justi\u00e7a para os pobres (<em>Populorum progressio<\/em> n.76). Justi\u00e7a e paz se abra\u00e7ar\u00e3o! (Sl 85).<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Tony Mifsud Buttigieg SJ.\u00a0<\/em>Universidad Alberto Hurtado, Chile. Texto original em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a08\u00a0<\/strong><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi poss\u00edvel optar apenas por uma refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica destes textos pontif\u00edcios da DSI. Assim, a lista j\u00e1 est\u00e1 no in\u00edcio do texto. S\u00e3o documentos de dom\u00ednio universal. Todos est\u00e3o dispon\u00edveis na Internet, bem como nas v\u00e1rias vers\u00f5es das editoras espalhadas por todo o continente latino-americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALBUQUERQUE, Enrique. <em>Moral Social Cristiana: <\/em>pensar y creer. Camino de liberaci\u00f3n y de justicia. Madrid: San Pablo, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">AGUIRRE, Rafael. <em>Reino de Deus e compromisso \u00e9tico<\/em>: conceitos fundamentais de \u00e9tica teol\u00f3gica. Petr\u00f3polis: Vozes, 1999. p.61-78.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CALLEJA, Jos\u00e9 Ignacio. <em>Moral Social Samaritana I<\/em> &#8211; Fundamentos e no\u00e7\u00f5es de \u00e9tica econ\u00f4mica crist\u00e3. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">_______. <em>Moral Social Samaritana II<\/em> \u2013 Fundamentos e no\u00e7\u00f5es de \u00e9tica pol\u00edtica crist\u00e3. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BRACKLEY, Dean. \u00c9tica social y \u00e9tica de la vida seg\u00fan el pensamiento del papa Benedicto XVI. <em>Revista Agustiniana, <\/em>v.54, n.164\/165. p.369-395.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAMACHO LARANA, Ildefonso. <em>Doutrina social da Igreja<\/em>: abordagem hist\u00f3rica. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTILLO GUERRA, Jorge. Teolog\u00eda de la migraci\u00f3n: movilidad humana y transformaciones teol\u00f3gicas. <em>Theologica Xaveriana<\/em>, v.63, n.176, jul\/dez 2013. p.367-401.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CONSELHO PONTIF\u00cdCIO DE JUSTI\u00c7A E PAZ. <em>Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FLECHA-ANDR\u00c9S, Jos\u00e9-Rom\u00e1n. <em>Moral Social.<\/em> Salamanca: S\u00edgueme, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GASDA, \u00c9lio. Caritas in veritate: \u00e9tica do Reino frente \u00e0 hegemonia do capital. <em>REB<\/em> (Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira), v.70, n.280, out\/2010. p.797-818.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GASDA, \u00c9lio. <em>Trabalho e capitalismo global<\/em>: atualidade da Doutrina Social da Igreja. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALINDO GARC\u00cdA, \u00c1ngel. <em>Moral socioecon\u00f3mica<\/em>. Madrid: BAC, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GONZ\u00c1LEZ, Antonio. <em>Reinado de Dios e imperio<\/em>: ensayo de teolog\u00eda social. Santander: Sal Terrae, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GONZ\u00c1LEZ-CARVAJAL, Luis. <em>En defensa de los humillados y ofendidos<\/em>: los derechos humanos ante la fe cristiana. Santander: Sal Terrae, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GONZ\u00c1LEZ FABRE, Raul. La reforma del sistema financiero y monetario internacional: comentario al Documento Justicia y Paz. <em>ICADE<\/em>, n.90, set\/dez 2013. p.129-149.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">IBANEZ, Franklin. Repensar la justicia desde la ecologia.<em> Miscel\u00e1nea Comillas,<\/em> v.70 n.137, 2012. p.357-372.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KAMMER, Fred. <em>F\u00e9-Justi\u00e7a em a\u00e7\u00e3o:<\/em> uma introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento social cat\u00f3lico. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MANZONE, Gianni. A dignidade da pessoa humana na doutrina social da Igreja. <em>Teocomunica\u00e7\u00e3o,<\/em> v.40, n.3, set\/dez 2010. p.289-306.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MIFSUD, Antony. <em>Moral de Discernimiento<\/em>. Tomo IV. Santiago: San Pablo, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NEUTZLING, In\u00e1cio. (org.) <em>Bem comum e solidariedade<\/em>. Por uma \u00e9tica na sociedade e na pol\u00edtica do Brasil. S\u00e3o Leopoldo: Unisinos, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOLS LUCIA, Jos\u00e9. (ed.) <em>Pensamiento social cristiano abierto al siglo XXI<\/em>. A partir de la enc\u00edclica Caritas in veritate. Santander: Sal Terrae, 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ZAMAGNI, Stefano. <em>Por una econom\u00eda del bien com\u00fan<\/em>. Madrid: Ciudad Nueva, 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sum\u00e1rio 1 Evangelho: fonte da preocupa\u00e7\u00e3o social da Igreja 2 O ensinamento social da Igreja 3 Princ\u00edpios permanentes 4 \u00c2mbitos de aplica\u00e7\u00e3o 5 A solidariedade como proposta \u00e9tica 6 Os direitos humanos como um desafio urgente 7 Uma releitura da op\u00e7\u00e3o pelos pobres 8\u00a0Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas \u00a01 Evangelho: fonte de preocupa\u00e7\u00e3o social da Igreja \u00a0A Sagrada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-teologia-moraletica-teologica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1308"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1622,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1308\/revisions\/1622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/teologicalatinoamericana.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}